Os Rolling Stones lançam música inédita com vídeo muito sensual

Os Rolling Stones lançaram uma música inédita nesta quinta-feira (09).

Criss Cross é inédita, mas, de nova, não tem nada. Tem quase 50 anos.

A música foi gravada para o álbum Goats Head Soup, de 1973.

Criss Cross aparece agora porque está incluída numa luxuosa edição do disco que será posta no mercado no início de setembro.

Goats Head Soup veio depois de Exile on Main Street, que muita gente considera o melhor álbum da banda.

Sob o impacto do Exile, de um modo geral os fãs se decepcionaram com o Goats Head Soup.

Mas o tempo, certamente, o fez melhor.

Criss Cross é, tipicamente, Rolling Stones.

O vídeo tem como protagonista Marina Ontanaya.

Os Rolling Stones são demais, mas música nova não empolga

Os Rolling Stones lançaram uma música inédita nesta quinta-feira (23).

“Eu sou um fantasma, vivendo numa cidade fantasma” – canta Mick Jagger logo no primeiro verso.

Eles vinham trabalhando na canção de Jagger e Richards há algum tempo, mas fizeram adaptações para que Living in a Ghost Town ficasse como um breve retrato desses tempos de pandemia do novo coronavírus.

Faz tempo (15 anos!) que os Stones não lançam um disco autoral de canções inéditas.

E – convenhamos! – faz mais tempo ainda que não lançam um disco autoral de canções inéditas realmente arrebatador.

Mas isso não os torna menores. É normal para quem tem quase seis décadas de carreira.

Os Rolling Stones são demais, são o máximo, e confirmam isso permanentemente em suas magníficas performances ao vivo.

Sobre Living in a Ghost Town?

Ruim não é porque a banda não sabe fazer ruim.

Mas é comum, é banal.

Não empolga!

Rolling Stones foram melhores da noite em live que não foi live

“Rei, rei, rei, Jesus é nosso Rei!”

“Inha, inha, inha, Maria é nossa Rainha!”

“Ente, ente, ente, Bolsonaro é nosso presidente!”

Neste sábado (18), gastei 19 minutos vendo a live de Bolsonaro no pé da rampa do Planalto, interagindo com apoiadores que diziam essas frases ao presidente.

Foi (é) expressivo retrato do estágio em que se encontra nosso processo civilizatório.

Foi (é) expressivo retrato de que como está o Brasil no momento da pandemia do novo coronavírus.

Mais tarde, vi as duas horas do One World: Together at Home na TV fechada.

O programa falou (fala) de outros estágios do processo civilizatório de pessoas e de seus lugares.

Não foi uma live. Foi um especial de televisão pré-gravado e bem editado. Ao estilo da TV americana.

Com a substancial adesão de grandes patrocinadores, cumpriu sua missão. Arrecadou perto de 128 milhões de dólares.

E prestou o justíssimo tributo aos profissionais da área de saúde que arriscam a vida no atendimento dos milhares de infectados.

Ciência, cidadania, solidariedade humana, convocação ao envolvimento dos líderes políticos – temas que compuseram o programa através das suas imagens e dos depoimentos nele reunidos.

A música foi o maior atrativo do One World.

Grandes artistas em escala planetária fazendo performances ao vivo em suas casas – era o prometido ou, ao menos, o esperado.

No lugar, performances pré-gravadas.

Elton John (I’m Still Standing) e Paul McCartney (Lady Madonna) têm problemas com a condição vocal e não conseguiram disfarçar.

Paul fez sensível homenagem à mãe, Mary, que foi enfermeira e parteira.

Stevie Wonder cantou lindamente Love’s in Need of Love Today.

Lady Gaga, que atuou como curadora, sempre confirma a qualidade do seu canto. Agora, fazendo Smile, que Charles Chaplin compôs para Tempos Modernos.

River Cross, com Eddie Vedder, foi um momento forte da noite.

A garota Billie Eilish brilhou ao resgatar Sunny, clássico pop dos anos 1960.

A melhor performance da noite?

A dos Rolling Stones!

Edição em multiple screen, como nos documentários de rock dos anos 1970.

Jagger, Richards, Wood e Watts, na tela divida por quatro, fazendo You Can’t Always Get What You Want.

A canção, um clássico do repertório dos Stones, número obrigatório nos shows da banda, vem de longe, do remoto ano de 1968.

Chega intacta ao ano de 2020, que não sabemos como vai terminar.

Beatles são superiores a Rolling Stones, mas a gente ama os dois

Os Beatles são melhores dos que os Rolling Stones?

Ou os Rolling Stones são melhores do que os Beatles?

Há discussão mais anacrônica e cafona do que esta?

É provável que não, mas ela está de volta.

Agora, por causa de uma entrevista de Paul McCartney.

Se não entendi mal, Paul quis dizer que os Stones trabalharam muito em cima de um formato – os blues dos negros americanos – enquanto os Beatles buscaram outros caminhos musicais.

Claro que, na entrevista, McCartney reconhece a imensa qualidade dos Stones – o extraordinário talento de Mick como front man, as guitarras de Keith e Ronnie, a grande performance ao vivo.

Eu acho que Paul está certíssimo.

Do ponto de vista da invenção musical, os Beatles são, sim, melhores do que os Rolling Stones, contribuíram mais, influenciaram mais, foram mais criativos e ousados, marcaram mais o nosso tempo, inclusive em temas (comportamento, moda, religião, política, arte de vanguarda) que ultrapassam as fronteiras do próprio negócio deles, a música.

Os Rolling Stones são outra coisa. Música simples, por vezes suja, embora muito bem executada. Rock and roll que eles produziram de modo visceral em estúdio, quando eram jovens. E que, mais tarde, e até hoje!, transportaram para os palcos com uma força que ninguém mais tem.

Os Beatles são melhores do que os Rolling Stones?

Ou os Rolling Stones são melhores dos que os Beatles?

Sempre considerei tolo o debate, mas ele existe desde quando houve a invasão britânica à América, em 1964.

Ter dado preferência aos Beatles, acreditando na superioridade musical deles, nunca me impediu de gostar imensamente e enxergar todos os méritos dos Rolling Stones.

Amemos os dois.

Não há contraindicação.

Rolling Stones são como Roberto Carlos. Fazem o mesmo show

Em 1997/1998, os Rolling Stones correram o mundo com a turnê Bridges to Babylon.

Ao todo, foram 97 concertos.

Quando vieram para a América do Sul, as datas da banda coincidiram com as de Bob Dylan, e Dylan “abriu” para os Stones, além de fazer uma participação especialíssima no show deles.

Eu vi, na passagem por São Paulo, e era inacreditável.

Primeiro, o show de Dylan.

Depois, o show dos Stones.

Mais tarde, a banda e o bardo juntos, fazendo Like a Rolling Stone.

Agora, mais de 20 anos depois, duas versões oficiais da turnê estão no mercado (CD, DVD, Blu-ray).

Após o concerto em Bremen (Bridges to Bremen), a mais recente se chama Bridges to Buenos Aires.

As apresentações são semelhantes, mas fã que é fã precisa das duas.

A de Bremen é vigorosíssima.

A de Buenos Aires tem aquele público louco da Argentina.

Naturalmente louco e, mais ainda, louco pelos Stones.

E tem o encontro com Dylan.

Sem voz, cantando mal, errando a letra – mas Dylan!

E tem – claro! – o show dos Stones.

A gente já viu dezenas de vezes em não sei quantos registros lançados oficialmente.

É como Roberto Carlos.

São muito parecidos.

O conceito é o mesmo, há décadas.

O set list pouco muda.

Mas são irresistíveis.

Como essas pontes que agora nos levam a Buenos Aires.

Rolling Stones fizeram show pela primeira vez no Brasil há 25 anos

Meninos e meninas, eu estava lá!

No dia 27 de janeiro de 1995 (portanto, há 25 anos), os Rolling Stones se apresentaram pela primeira vez no Brasil.

Era uma sexta-feira.

No Estádio do Pacaembu, em São Paulo, começava mais uma edição do Hollywood Rock.

Quatro atrações: Barão Vermelho, Rita Lee, a banda americana Spin Doctors e os Rolling Stones.

No final da tarde, o Barão Vermelho estava no palco quando uma tempestade tropical típica dos verões paulistanos caiu sobre a cidade.

O grupo liderado por Frejat não terminou o show, Rita Lee não pôde se apresentar, e o Spin Doctors tocou bem mais tarde, ainda sob forte chuva.

Mesmo que impaciente e debaixo d’água, o público de 50 mil pessoas esperou pelo melhor da noite.

Lá pelas 11 horas, chovia fino quando a enorme cobra colocada sobre o palco cuspiu fogo (literalmente!), e Mick Jagger entrou cantando Not Fade Away. A este número, seguiu-se Tumbling Dice.

Voodoo Lounge era um longo show de 150 minutos.

Naquele tempo, eles ainda tocavam ao vivo muitas músicas do disco mais recente (o homônimo Voodoo Lounge, lançado em 1994).

A estas, juntavam um ou outro B side e os clássicos obrigatórios em qualquer apresentação da banda (Satisfaction, Jumping Jack Flash, Honk Tonk Women, Sympathy for the Devil, Brown Sugar, Miss You, Start Me Up).

Na turnê 1994/1995, os Stones passaram a ser um quarteto (Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts, Ronnie Wood). O contrabaixista Bill Wyman, da formação original, saíra depois da excursão anterior, de 1989/1990.

Mas havia os músicos convidados. Entre estes, o “maestro” Chuck Leavell (ex-Allmann Brothers) nos teclados, o contrabaixista Darryl Jones (ex-Miles Davis), o lendário saxofonista Bobby Keys (quase um Stone) e a cantora Lisa Fischer, que fazia os vocais de apoio e, em um número (Gimme Shelter, geralmente, mas podia ser Monkey Man), dividia o protagonismo com Jagger.

Ver os Rolling Stones ao vivo é uma experiência avassaladora.

Não fazem mais grandes discos autorais de estúdio, mas, no palco, tocando rock & roll, são imbatíveis.

Faz tempo, aliás, que desvendaram e dominaram todos os segredos do palco.

Se pensarmos na figura do front man, no mundo da música popular, encontraremos poucos tão admiráveis quanto Mick Jagger. Nada se compara também à dupla que forma com Keith Richards. Na vida, nos discos, nos palcos, um parece sempre o oposto do outro.

A música simples, mas poderosa, que produzem sai do estúdio para ser amplificada nos concertos assistidos por multidões, ganhando o adorno dos melhores recursos técnicos (som, luz, telões de última geração).

Foi o que se viu deles em sua estreia brasileira, em cinco datas da turnê Voodoo Lounge, três em São Paulo (Pacaembu, 27, 28 e 30 de janeiro), duas no Rio (Maracanã, 03 e 04 de fevereiro).

Os Rolling Stones demoraram muito a tocar no Brasil.

Depois do Voodoo Lounge, vieram mais três vezes. Em 1998, em 2006 e em 2016.

Será que ainda voltarão?

Duas canções botaram Angela Davis no radar de muita gente

Angela Davis veio a São Paulo pela primeira vez.

É uma admirável ativista pop em escala planetária.

A luta contra o racismo, a defesa do feminismo,  problemas da população carcerária, a causa LGBT – tudo isso está na sua agenda.

Angela Davis agora tem 75 anos.

Tinha 30 quando comecei a prestar atenção nela.

Em Angela, observei a força do ativismo e a sua beleza.

Em 1972, duas canções botaram Angela Davis no radar de muita gente.

Em seu disco Some Time in New York City, o casal John Lennon e Yoko Ono gravou uma balada que tinha o nome da ativista.

No álbum Exile on Main Street, os Rolling Stones chamaram Angela de Sweet Black Angel.

O doce anjo negro.

Rock e política caminhando juntos.

Na balada de John & Yoko.

Na canção country dos Rolling Stones.

Não é por acaso que acho estranho gente que admira Beatles e Rolling Stones votando em candidatos da extrema direita.

São coisas incompatíveis.

Um bolsonarista raiz aceitaria homens vestidos de mulher?

No grupo Stoneanos, segue a briga entre stoneanos bolsonaristas e stoneanos não bolsonaristas.

Acho saudável.

Quanto menos stoneano bolsonarista no grupo, melhor.

É Brasil acima de tudo, Deus acima de todos ou Sympathy for the Devil?

É bandido bom é bandido morto ou sexo, drogas e rock’n’ roll?

É Bolsonaro fazendo arminha no rolls royce presidencial ou Keith Richards batendo com os punhos fechados na cabeça, no coração e no sexo?

Sabem aquela foto, ainda do tempo de Brian Jones, dos Rolling Stones vestidos de mulher?

É uma das imagens clássicas do grupo na década de 1960.

Pois é.

O que um bolsonarista raiz, não stoneano, diria a um bolsonarista stoneano, talvez mais nutella do que raiz?

Homens que se vestem de mulher?

Isso pode?

Pode para mim e para você.

Jamais para um filho que, ao visitar o pai no hospital, exibe ostensivamente a pistola que carrega na cintura.

O que Jagger diria a um stoneano bolsonarista? “A crock of shit”?

O último disco autoral de inéditas dos Rolling Stones já tem 14 anos.

É A Bigger Bang. A turnê passou pelo Brasil em 2006 com aquele show monumental em Copacabana.

A Bigger Bang não é um grande título da discografia deles. É somente mediano.

É lá que está a faixa Sweet Neo Con.

A letra começa assim:

Você se diz cristão
Eu te acho um hipócrita
Você se diz patriota
Eu acho que você está cheio de merda

Imaginemos a cena.

Um stoneano bolsonarista (pois é, descobri surpreso que eles existem!) no front stage do show dos Rolling Stones.

Uma maravilha ver os Stones ao vivo!

Ele se empolga, lembra do “mito” (seu novo guru), e começa a fazer arminha.

Arminha pra lá, arminha pra cá.

Como um autêntico bolsonarista.

Uma coisa louca, é claro: meio Bolsonaro, meio rock’n’ roll.

Aí Mick Jagger, depois de correr de um lado para o outro do palco, começa a cantar Sweet Neo Con.

A letra é um petardo!

Você se diz cristão
Eu te acho um hipócrita
Você se diz patriota
Eu acho que você está cheio de merda

Sejamos verdadeiros: COMBINA? 

Caros stoneanos: é óbvio que não combina!

Querem ser bolsonaristas? Que sejam!

Mas não misturem a truculência da extrema direita com o velho e bom rock’n’ roll dos Rolling Stones!

Stoneanos que são bolsonaristas deviam era ter vergonha na cara

Pleased to meet you
Hope you guess my name

Descobri num grupo que fãs brasileiros dos Rolling Stones estão brigando por causa de Bolsonaro.

Aqui na coluna, escrevi o que penso sobre o assunto: fãs dos Rolling Stones e bolsonaristas são incompatíveis.

Não estou censurando o gosto de ninguém, mas é que são mesmo.

É uma incoerência absoluta.

A menos que você só conheça muito superficialmente a banda e, a partir dessa superficialidade, diga que gosta.

Quem conhece de verdade, quem ama os caras e a música deles, quem tem todos os discos, quem viaja para vê-los ao vivo, quem acompanha há décadas – esses não podem ser bolsonaristas.

Não há como combinar uma coisa com a outra. Elas não se misturam.

Os Rolling Stones não coincidem em nada com a burrice da extrema direita brasileira.

Mick Jagger está para Obama, jamais para Trump.

Nesta quarta-feira (11), muitos comentaram meu texto, e a briga entre os stoneanos continuou.

Vou confessar: de tão estúpida, ficou engraçada.

Sabem o que fiz? Fui rever o documentário Havana Moon, lançado no final de 2016.

Minhas impressões?

Estão aí:

Não sem alguma ironia, a voz em off de Keith Richards diz no início do filme que a ida de Barack Obama a Cuba foi como uma abertura para o show dos Rolling Stones.

A estreia da banda em Havana tem significado simbólico forte. Marca o reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba e ilustra os estertores do ciclo de poder dos irmãos Castro.

Se quisermos, o filme é sobre esse tema. Mas com abordagem sutil e olhar simpático e respeitoso.

Houve a Revolução e suas conquistas. E houve o declínio com o fim do subsídio soviético. Os ganhos na saúde e na educação sempre se contrapuseram às restrições das liberdades individuais.

Havana Moon toca nessas questões sem precisar entrar nelas. Indiretamente, aparecem nas falas de Mick Jagger e Keith Richards que abrem o documentário. E no que eles dizem no palco, durante o concerto.

Jagger se estende mais, ao mencionar a censura ao rock.

Richards resume: Havana, Cuba e os Rolling Stones. Isto é incrível!

As imagens falam mais alto. Da memória da Revolução estampada no muro à pobreza do povo.

Jagger conta para a multidão em êxtase que viu a rumba de perto na Casa da Música. O diálogo se dá através da arte. É mais fluente do que nas relações políticas.

Buena Vista Social Club tem um anticomunismo que soa mal. Havana Moon não tem.

É como se os Stones repetissem o que Obama disse ao discursar diante de Raul Castro: que o destino de Cuba está nas mãos dos cubanos.

Aquela alegria toda, no palco e na plateia, é, então, para dizer isso: celebremos com música, mas o destino de vocês está nas suas mãos.

A música que os cubanos ouvem ao vivo pela primeira vez tem seu ponto alto numa “blues suite”.

É Midnight Rambler, que se estende por muitos minutos e resume o que os Stones são.

Naquela noite de 25 de março de 2016, eles se projetaram como a luz do luar sobre a noite de Havana.

Velhos, mas ainda muito intensos.