Chuck Berry fields forever!

O disco de inéditas que Chuck Berry gravou nos meses que antecederam sua morte será lançado em junho.

Desde 1979 que ele não lançava material novo.

Nem precisava!

Chuck Berry é um fundador. O que ele produziu e deixou como extraordinário legado está concentrado nos anos iniciais de sua longa carreira. O resto foi manutenção.

Em Berry, temos uns 20 hits absolutamente imbatíveis e antológicos. Neles, há as letras com os  “comentários sociais” para os quais John Lennon chamava atenção. Na guitarra, foi um inventor e, com ela, compôs uma introdução que se repete em vários números e se confunde com o próprio rock. Ele criou um modo de tocar o instrumento, influenciando grandes músicos que surgiriam nos anos seguintes, sobretudo na década de 1960. E ainda há que se destacar a liberdade e a vitalidade de sua performance no palco.

O resumo de tudo isso é que Chuck Berry foi parte fundamental da invenção do rock.

Beatles?

Rolling Stones?

Não seriam o que foram sem ele!

A cultura pop o reverenciou em dois momentos marcantes do cinema. Nos anos 1980, sua Johnny B. Goode reapareceu numa sequência inesquecível de De Volta Para o Futuro.

Mais tarde, Quentin Tarantino resgatou You Never Can Tell em Pulp Fiction, na cena em que Uma Thurman e John Travolta participam de um concurso de dança.

Antes, na década de 1970, ao difundir sua adesão ao rock, Gilberto Gil foi buscar na Strawberry Fields Forever dos Beatles o título do seu tributo a Berry e ao rock’n’ roll.

E bradou:

Chuck Berry fields forever! 

Disco de blues dos Rolling Stones só veio na velhice

Os Rolling Stones sempre tocaram blues.

O nome da banda vem de um clássico do blues.

Eles não seriam o que são sem o blues.

Mas esperaram pela velhice para gravar um disco inteiramente dedicado ao gênero.

Imaginemos um artista brasileiro da geração dos Stones. Chico Buarque? Ele não é do rock, mas ilustra bem o que quero dizer.

Então, que tal Chico Buarque gravando um disco somente com velhos sambas de Ismael Silva, Geraldo Pereira, Wilson Batista?

Foi mais ou menos o que os Rolling Stones fizeram em Blue and Lonesome.

Numa trajetória de mais de meio século, o grupo já gravou muitos blues. Autorais e não autorais. Mas eles aparecem soltos na extensa discografia.

Blue and Lonesome é um tributo que o grupo devia aos seus fãs. E uma homenagem que os Stones precisavam fazer ao gênero. Eric Clapton, que participa do disco, fez o mesmo antes dos 50, em From the Cradle.

O disco de Clapton tem o perfeccionismo como marca. E há o virtuosismo do guitarrista.

O dos Stones é mais despojado. Meio sujo, gravado em poucas sessões. Ao vivo em estúdio. Mesmo assim, é muito correto.

Está lá o respeito às matrizes. A mesma reverência às fontes que temos em Clapton e em outros músicos brancos do Reino Unido um dia atraídos pela força dessa música criada pelos negros da América.

Quando tocam esses velhos blues, os Rolling Stones soam como os Rolling Stones. A intimidade com o repertório é tão grande que eles se apropriam das músicas como se fossem seus autores. Talvez por essa razão Blue and Lonesome tenha tanta unidade.

Os Rolling Stones demoraram muitos anos para fazer um disco assim. Foi bom. Fizeram com sabedoria, com experiência. Com salutar distanciamento.

Já olham tudo de longe! Nós também!

O CD morreu! Quem compra CD é gente do século passado!

Uma década atrás, conheci uma cantora contratada como backing vocal de uma importante banda brasileira. Conversamos nos bastidores de um show no Recife. Falamos do trabalho da banda, das melhores canções, e tive a curiosidade de perguntar o que ela achava dos discos do grupo. A resposta me surpreendeu:

Não conheço nenhum disco deles.

Claro! Simples assim! Ela é de uma geração que não dá valor a esse conceito. Disco – uma coleção de canções com começo, meio e fim, uma capa, um encarte para ser manuseado durante a audição.

A conversa com aquela moça foi, para mim, o primeiro indício forte da morte do CD.

 

Dez anos atrás, você entrava numa livraria como a Cultura do Paço Alfândega, no Recife Antigo, e a oferta de CDs era um deleite para o consumidor. Alguns milhares de títulos distribuídos por gêneros em seções que misturavam nacionais e importados, lançamentos e catálogo. A área destinada a jazz e clássicos era do tamanho de uma loja não tão pequena!

Hoje, as seções diminuíram, os títulos ficaram escassos, as prateleiras estão vazias. O consumidor pergunta pelo disco novo dos Rolling Stones, um dos lançamentos do final do ano, e a loja não tem o produto. Tive essa experiência, semanas atrás.

O CD morreu? Está morrendo? Vai ser substituído por esse revival do vinil?

Penso que nem CD, nem vinil! O disco como conceito, não importa o formato, é que parece condenado a um consumo cada vez mais restrito.

Não é só a transferência do físico para o mundo digital. O conteúdo que se baixa na Internet, os serviços de streaming aos quais se recorre. Não. O problema é o fim do conceito, é a mudança de hábito no ato de consumir música.

Ora, num tempo em que até a morte da canção está em pauta, por que não falaríamos da morte do disco?

Vou concluir com o que ouvi de um músico, meia dúzia de anos atrás, numa conversa descontraída de mesa de bar. Ele me disse:

Você é um homem do século passado!

Fiquei curioso. Quis saber o motivo. E ele explicou:

Você ainda compra discos!

Os Rolling Stones são como um luar sobre a noite de Havana

Andam dizendo que 2016 foi um ano surpreendente. Eleição de Donald Trump, saída do Reino Unido da União Europeia, Nobel de Literatura para Bob Dylan.

Acrescento: o presidente americano em Cuba e um show dos Rolling Stones em Havana. Com o comandante Fidel Castro ainda vivo e o irmão Raul no poder.

Nove meses se passaram desde a noite de 25 de março, e o registro está disponível para vermos nos nossos cinemas caseiros.

É o documentário Havana Moon, que a Som Livre acaba de lançar no mercado brasileiro. O título vem de uma música de Chuck Berry.

Não sem alguma ironia, a voz em off de Keith Richards diz no início do filme que a ida de Barack Obama a Cuba foi como uma abertura para o show dos Rolling Stones.

A estreia da banda em Havana tem significado simbólico forte. Marca o reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba e ilustra os extertores do ciclo de poder dos irmãos Castro.

Se quisermos, o filme é sobre esse tema. Mas com abordagem sutil e olhar simpático e respeitoso.

Houve a Revolução e suas conquistas. E houve o declínio com o fim do subsídio soviético. Os ganhos na saúde e na educação sempre se contrapuseram às restrições das liberdades individuais.

Havana Moon toca nessas questões sem precisar entrar nelas. Indiretamente, aparecem nas falas de Mick Jagger e Keith Richards que abrem o documentário. E no que eles dizem no palco, durante o concerto.

Jagger se estende mais, ao mencionar a censura ao rock.

Richards resume: Havana, Cuba e os Rolling Stones. Isto é incrível!

As imagens falam mais alto. Da memória da Revolução estampada no muro à pobreza do povo.

Jagger conta para a multidão em êxtase que viu a rumba de perto na Casa da Música. O diálogo se dá através da arte. É mais fluente do que nas relações políticas.

Buena Vista Social Club tem um anticomunismo que soa mal. Havana Moon não tem.

É como se os Stones repetissem o que Obama disse ao discursar diante de Raul Castro: que o destino de Cuba está nas mãos dos cubanos.

Aquela alegria toda, no palco e na plateia, é, então, para dizer isso: celebremos com música, mas o destino de vocês está nas suas mãos.

A música que os cubanos ouvem ao vivo pela primeira vez tem seu ponto alto numa “blues suite”. É Midnight Rambler, que se estende por muitos minutos e resume o que os Stones são.

Naquela noite de 25 de março de 2016, eles se projetaram como a luz do luar sobre a noite de Havana. Velhos, mas ainda muito intensos.

George Harrison, o mais discreto dos Beatles, morreu há 15 anos

Nesta terça-feira (29), faz 15 anos que morreu o beatle George Harrison.

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Numa banda em que o comando era disputado por John Lennon e Paul McCartney, para George Harrison, o mais discreto e também o mais místico dos quatro Beatles, só havia lugar de coadjuvante. Mesmo que ele fosse o guitarrista solo, como se chamava na época. No começo, quando os Beatles gravavam covers de outros artistas, Harrison fazia o vocal principal de algumas canções. Como “Chains” e “Roll Over Beethoven”. Depois, os discos do quarteto traziam uma música de sua autoria, ou duas. Três no “Revolver”. Quatro no “Álbum Branco” porque era duplo. John e Paul, trabalhando juntos ou separados, escreviam a maior parte das canções, e o maestro e produtor George Martin dava preferência a elas.

Há quem defenda o argumento de que, nos Beatles, George Harrison desempenhou papel semelhante ao de Brian Jones nos Rolling Stones. Com a diferença de que Brian foi aniquilado porque tentou ser o líder. George ficou meio à margem, mas, a despeito disto, o quarteto não pôde prescindir da sua contribuição. Foi ele que apresentou a música indiana aos companheiros de banda e ajudou a difundi-la no Ocidente. Não ouviríamos Ravi Shankar se não fosse George Harrison. Deve-se a ele a presença de um instrumento como o sitar em incontáveis manifestações musicais do mundo ocidental, não só no universo do rock. O mesmo sitar que aparece em algumas gravações dos Beatles.

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George era melhor instrumentista do que John. Sua guitarra é muito marcante na produção do quarteto. No início, fortemente influenciada pelo rock da década de 1950, pelos solos criados por Chuck Berry e Carl Perkins. Depois, com cores próprias. O músico inventou o seu jeito de tocar o instrumento. Um modo choroso de se expressar. “Enquanto minha guitarra chora gentilmente”, diz o título da canção que gravou em 1968, no “Álbum Branco”, com solo não dele, mas do amigo Eric Clapton. Não tinha virtuosismo, mas era um perfeccionista. Um músico aplicado que criou belos solos para as canções dos Beatles.

Se fôssemos escolher uma música, diríamos que o melhor do autor está em “Something”. Foi composta sob inspiração de Ray Charles. A gravação dos Beatles beira a perfeição. O vocal de George, as vozes de John e Paul, o solo de guitarra, as notas graves do piano, o caminho percorrido pelo baixo, as cordas arranjadas e conduzidas por George Martin. Há muitos registros de “Something”. De Joe Cocker, cover branco de Charles. De Elvis Presley, de Frank Sinatra, que, uma vez, atribuíu a autoria a Lennon e McCartney. Nenhum supera o dos Beatles. Foi a única composição de Harrison a ocupar o lado A de um single do grupo.

Longe dos Beatles, George gravou o antológico álbum “All Things Must Pass”, seu maior feito. Reuniu os amigos no concerto para Bangladesh, precursor dos grandes eventos voltados para o combate à fome no mundo. Produziu pouco e se manteve distante do show business. Deixou saudades, além de belas e melancólicas canções.

Autor de “A Song for You”, Leon Russell morre aos 74 anos

A música americana perdeu um grande músico. Leon Russell morreu aos 74 anos.

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Conheci Leon Russell na época da foto a seguir. Quando trabalhou com Joe Cocker na turnê Mad Dogs and Englishmen, que virou disco e filme. À guitarra ou ao piano, também cantando, ele era o maestro. 1970.

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Depois, ele brilhou na banda montada pelo beatle George Harrison para o concerto que arrecadou fundos para a população de Bangladesh. Na foto, o momento da apresentação de Bob Dylan. Leon no baixo. 1971.

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Leon Russell viveu e morreu meio à margem, a despeito do seu imenso talento e de ter estado tantas vezes ao lado de grandes nomes do pop/rock.

Lembro de músicas admiráveis que compôs. This Masquerade, projetada internacionalmente por George Benson, é uma delas. Delta Lady, obrigatória no set list de Joe Cocker, é outra. E, claro, A Song for You, lindamente cantada por Ray Charles.

Também era um excelente intérprete. De Harrison em Beware of Darkness. De Dylan em A Hard Rain’s A-Gonna Fall. Dos Rolling Stones em Jumping Jack Flash.

Em 2010, dividiu um trabalho com Elton John. Um delicioso disco de sonoridade setentista.

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Na velhice, ficou assim. Totalmente brancos os longos cabelos prateados da juventude.

RIP, Leon!

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De Kennedy a Obama. E agora? Hillary ou Trump?

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Eu tinha pouco mais de quatro anos, mas a lembrança ainda é nítida em minha memória. Meu pai ouvindo na Voz da América a notícia do assassinato do presidente Kennedy. Posso dizer que os americanos entraram na minha vida naquela tarde do dia 22 de novembro de 1963. Nas semanas seguintes, vieram as muitas revistas que minha mãe comprava. E, alguns meses mais tarde, também por iniciativa dela, a foto autografada do casal Kennedy ao lado dos dois filhos. Meu pai era comunista, mas admirava JFK. A um só tempo, respeitava a sólida democracia dos americanos e lamentava que eles separassem os homens pela cor da pele.

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Cinco anos depois, mais duas tragédias americanas. Os assassinatos do reverendo Luther King e do senador Bob Kennedy pareciam sugerir que a América teria grandes dificuldades para avançar na luta pelos direitos civis. Estávamos em 1968, o ano em que os estudantes puseram a França de cabeça para baixo, e os militares brasileiros endureceram o regime, promovendo o que Brizola chamava de o golpe dentro do golpe.

Os democratas ficaram oito anos com Kennedy e Johnson, depois veio o republicano Nixon. O desfecho foi o pior possível: o escândalo de Watergate e a renúncia, já no segundo mandato. De Carter, a gente lembra sobretudo da defesa dos direitos humanos. O eleitor não quis que ele ficasse oito anos. Os republicanos voltaram com Reagan, canastrão do cinema que governou a Califórnia e terminou presidente. Em 1980, admirávamos a velocidade da apuração dos votos nos Estados Unidos. A nossa era obsoleta, e os brasileiros estavam enferrujados se o assunto fosse eleição.

Esperávamos o pior de Reagan, um ultraconservador no comando da Casa Branca. Era assustador para nós, que vivíamos sob governos de exceção e sonhávamos com um país redemocratizado. A realidade foi menos sombria. O velho ator ficou oito anos e fez o sucessor, Bush pai, que não se reelegeu. Aí veio Clinton, um cara da geração que se rebelou nos anos 1960. Da Casa Branca ao show dos Rolling Stones – dá para traduzir assim. No ano 2000, seu vice, Al Gore, ganhou no voto popular, mas perdeu no número de delegados para Bush filho. Os oito anos que se seguiram confirmaram que o pesadelo não atendia pelo nome de Ronald Reagan.

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Em 2008, os democratas queriam uma mulher no poder. Quando vi Obama pela primeira vez, não pensei que ele ultrapassaria Hillary para ser o primeiro negro na Casa Branca. Na madrugada em que discursou como presidente eleito, a imagem mais forte, para mim, foi a do reverendo Jackson com lágrimas nos olhos, no meio da multidão. Resumia a longa caminhada. Havia muitos símbolos ali, embora a vida real fosse menor do que o sonho. Em 2012, sem a reeleição de Obama, teria vencido a América que ainda separa os homens pela cor da pele. Assinado, selado, entregue, eu sou de vocês – cantou Stevie Wonder na vitória. The best is yet to come, prometeu o presidente. Como na canção de Sinatra.

Alternância de poder é um negócio que os americanos levam a sério. Se ocorrer agora em 2016, a letra da canção será invertida. O pior estará por vir!

Chuck Berry faz 90 anos. Chuck Berry Fields Forever!

Chuck Berry faz 90 anos nesta terça-feira (18).

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Há quatro décadas, quando quis difundir sua adesão ao rock, Gilberto Gil foi buscar inspiração na Strawberry Fields Forever de John Lennon e compôs Chuck Berry Fields Forever!

E cantou:

Rock é nosso tempo, baby

Rock’n’n  roll é isso

Chuck Berry Fields Forever! 

Claro! Se o assunto é rock’n’roll, Chuck Berry aparece logo na frente.

Lennon, quando o viu de perto num programa da televisão americana, gritou:

Chuck Berry! Meu herói!

E falou sobre o seu senso rítmico, a sua métrica, os comentários sociais das letras. Se o rock’n’roll tivesse outro nome, seria Chuck Berry! Quem disse foi o beatle.

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Eric Clapton? Keith Richards? George Harrison? Beatles? Rolling Stones? Todos foram influenciados pela guitarra de Berry.

Se pensarmos num fenômeno poderoso como o rock, esse artista extraordinário que faz 90 anos hoje é um fundador. Se pensarmos num instrumento icônico como a guitarra, é um inventor. Seus riffs e suas soluções soam pelo mundo há 60 anos!

Há muitos anos, escrevi sobre ele e publiquei no meu livro Meio Bossa Nova, Meio Rock’n’ Roll:

Nascido em St. Louis, Chuck Berry é um músico simples, primitivo, mas, a despeito disso, carrega consigo uma força criadora que o transformou num grande artista popular. O que fez com a guitarra se insere no terreno da invenção. Ele ajudou a criar uma linguagem, a estabelecer os fundamentos de um gênero. Seus riffs se confundem com o próprio rock. A introdução que repete, com ligeiras alterações, em várias músicas, é uma marca registrada não apenas do seu estilo, mas do rock’n’ roll. 

E tem os rocks e blues absolutamente antológicos que compôs. Johnny B. Goode, o maior de todos.

No filme De Volta Para o Futuro, quando, sem saber, “inventa” o rock, o garoto que viajou no tempo toca Johnny B. Goode! E deixa a plateia estarrecida. Sim, porque ele vem de uma época em que a gramática do instrumento já está escrita, com todas as suas possibilidades. Associada também à presença cênica dos artistas do rock. Coisas que não existiam antes de Berry.

Portanto:

Hail! Hail! Rock’n’ Roll!

Chuck Berry Fields Forever!

Bob Dylan, o bardo judeu romântico de Minnesota, é Nobel de Literatura!

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Começamos esta quinta-feira (13) com uma grande e surpreendente notícia. Bob Dylan é Nobel de Literatura!

Surpreendente porque a regra é que o prêmio da Academia Sueca vá para um nome da literatura. Não para um músico. Um músico de rock, um letrista de música popular, e não um poeta no sentido clássico da palavra.

Grande notícia porque tem uma extraordinária força simbólica. Dar o Nobel a Dylan é conferir aos letristas da música popular um status acadêmico nem sempre admitido. É reconhecer as inovações literárias processadas no seu campo de criação. É também premiar uma geração brilhante que, meio século atrás, enriqueceu o mundo com suas melodias, seus versos, suas ideias generosas.

O Dylan premiado com o Nobel representa todos. Os Beatles, os Rolling Stones, a musa Joan Baez, Paul Simon, que hoje faz 75 anos. Os daqui também. Caetano, Chico, Gil, grandes letristas, no nível dos melhores do mundo. O nosso Zé Ramalho, em cuja música há tantos traços de Dylan, a quem já dedicou um disco inteiro.

Júbilo para os ouvintes de Mr. Zimmerman! Principalmente os da geração dele, os que puderam ouvi-lo desde o início, há mais de 50 anos. Também para os da minha faixa etária, os que estão beirando os 60. Os que alcançaram Dylan num momento de grande criatividade, ainda com o frescor da juventude por perto.

Em maio, quando Dylan fez 75 anos, escrevi algo sobre ele. Transcrevo parte aqui:

Judeu, Robert Allen Zimmerman é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com essas duas opções. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.   

Sete discos nos oferecem o melhor Dylan. De The Freewheelin’ (1963) a John Wesley Harding (1968). Entre os dois, temos Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. As questões cruciais do artista e sua obra estão neles. Mas é claro que há muito o que ouvir nos anos seguintes. De New Morning a Desire, de The Basement Tapes a Blood on the Tracks. E o ao vivo Before the Flood, em que divide o palco com o grupo The Band, que o acompanhou muitas vezes em estúdios e turnês. 

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.      

Quem chama Dylan de o bardo judeu romântico de Minnesota é Caetano Veloso, na letra de A Bossa Nova É Foda.

Rolling Stones tocam Beatles. Histórico e (quase) inacreditável!

Nos anos 1960, ficou estabelecido que os Beatles e os Rolling Stones eram rivais. Ou que os Beatles eram caretas, enquanto os Rolling Stones eram rebeldes.

Bobagem! Mais marketing do que realidade.

Lennon e McCartney fizeram I Wanna Be Your Man para os Stones. Lennon e McCartney fazem vocal em We Love You, dos Stones. Jagger é visto no estúdio dos Beatles. Lennon está no Rock an Roll Circus, etc.

De todo modo, os Rolling Stones não incluem música dos Beatles no repertório deles. Quando isso ocorre, portanto, é histórico e (quase) inacreditável!

Como ontem no grande festival que está sendo realizado nos Estados Unidos, reunindo lendas do rock dos anos 1960.

Pois é! Os Rolling Stones fazendo um cover dos Beatles. A escolha foi por Come Together, de John Lennon. Por essa música, Lennon foi acusado de plagiar Chuck Berry, ídolo de quem? Dos Rolling Stones!