Duas canções botaram Angela Davis no radar de muita gente

Angela Davis veio a São Paulo pela primeira vez.

É uma admirável ativista pop em escala planetária.

A luta contra o racismo, a defesa do feminismo,  problemas da população carcerária, a causa LGBT – tudo isso está na sua agenda.

Angela Davis agora tem 75 anos.

Tinha 30 quando comecei a prestar atenção nela.

Em Angela, observei a força do ativismo e a sua beleza.

Em 1972, duas canções botaram Angela Davis no radar de muita gente.

Em seu disco Some Time in New York City, o casal John Lennon e Yoko Ono gravou uma balada que tinha o nome da ativista.

No álbum Exile on Main Street, os Rolling Stones chamaram Angela de Sweet Black Angel.

O doce anjo negro.

Rock e política caminhando juntos.

Na balada de John & Yoko.

Na canção country dos Rolling Stones.

Não é por acaso que acho estranho gente que admira Beatles e Rolling Stones votando em candidatos da extrema direita.

São coisas incompatíveis.

Um bolsonarista raiz aceitaria homens vestidos de mulher?

No grupo Stoneanos, segue a briga entre stoneanos bolsonaristas e stoneanos não bolsonaristas.

Acho saudável.

Quanto menos stoneano bolsonarista no grupo, melhor.

É Brasil acima de tudo, Deus acima de todos ou Sympathy for the Devil?

É bandido bom é bandido morto ou sexo, drogas e rock’n’ roll?

É Bolsonaro fazendo arminha no rolls royce presidencial ou Keith Richards batendo com os punhos fechados na cabeça, no coração e no sexo?

Sabem aquela foto, ainda do tempo de Brian Jones, dos Rolling Stones vestidos de mulher?

É uma das imagens clássicas do grupo na década de 1960.

Pois é.

O que um bolsonarista raiz, não stoneano, diria a um bolsonarista stoneano, talvez mais nutella do que raiz?

Homens que se vestem de mulher?

Isso pode?

Pode para mim e para você.

Jamais para um filho que, ao visitar o pai no hospital, exibe ostensivamente a pistola que carrega na cintura.

O que Jagger diria a um stoneano bolsonarista? “A crock of shit”?

O último disco autoral de inéditas dos Rolling Stones já tem 14 anos.

É A Bigger Bang. A turnê passou pelo Brasil em 2006 com aquele show monumental em Copacabana.

A Bigger Bang não é um grande título da discografia deles. É somente mediano.

É lá que está a faixa Sweet Neo Con.

A letra começa assim:

Você se diz cristão
Eu te acho um hipócrita
Você se diz patriota
Eu acho que você está cheio de merda

Imaginemos a cena.

Um stoneano bolsonarista (pois é, descobri surpreso que eles existem!) no front stage do show dos Rolling Stones.

Uma maravilha ver os Stones ao vivo!

Ele se empolga, lembra do “mito” (seu novo guru), e começa a fazer arminha.

Arminha pra lá, arminha pra cá.

Como um autêntico bolsonarista.

Uma coisa louca, é claro: meio Bolsonaro, meio rock’n’ roll.

Aí Mick Jagger, depois de correr de um lado para o outro do palco, começa a cantar Sweet Neo Con.

A letra é um petardo!

Você se diz cristão
Eu te acho um hipócrita
Você se diz patriota
Eu acho que você está cheio de merda

Sejamos verdadeiros: COMBINA? 

Caros stoneanos: é óbvio que não combina!

Querem ser bolsonaristas? Que sejam!

Mas não misturem a truculência da extrema direita com o velho e bom rock’n’ roll dos Rolling Stones!

Stoneanos que são bolsonaristas deviam era ter vergonha na cara

Pleased to meet you
Hope you guess my name

Descobri num grupo que fãs brasileiros dos Rolling Stones estão brigando por causa de Bolsonaro.

Aqui na coluna, escrevi o que penso sobre o assunto: fãs dos Rolling Stones e bolsonaristas são incompatíveis.

Não estou censurando o gosto de ninguém, mas é que são mesmo.

É uma incoerência absoluta.

A menos que você só conheça muito superficialmente a banda e, a partir dessa superficialidade, diga que gosta.

Quem conhece de verdade, quem ama os caras e a música deles, quem tem todos os discos, quem viaja para vê-los ao vivo, quem acompanha há décadas – esses não podem ser bolsonaristas.

Não há como combinar uma coisa com a outra. Elas não se misturam.

Os Rolling Stones não coincidem em nada com a burrice da extrema direita brasileira.

Mick Jagger está para Obama, jamais para Trump.

Nesta quarta-feira (11), muitos comentaram meu texto, e a briga entre os stoneanos continuou.

Vou confessar: de tão estúpida, ficou engraçada.

Sabem o que fiz? Fui rever o documentário Havana Moon, lançado no final de 2016.

Minhas impressões?

Estão aí:

Não sem alguma ironia, a voz em off de Keith Richards diz no início do filme que a ida de Barack Obama a Cuba foi como uma abertura para o show dos Rolling Stones.

A estreia da banda em Havana tem significado simbólico forte. Marca o reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba e ilustra os estertores do ciclo de poder dos irmãos Castro.

Se quisermos, o filme é sobre esse tema. Mas com abordagem sutil e olhar simpático e respeitoso.

Houve a Revolução e suas conquistas. E houve o declínio com o fim do subsídio soviético. Os ganhos na saúde e na educação sempre se contrapuseram às restrições das liberdades individuais.

Havana Moon toca nessas questões sem precisar entrar nelas. Indiretamente, aparecem nas falas de Mick Jagger e Keith Richards que abrem o documentário. E no que eles dizem no palco, durante o concerto.

Jagger se estende mais, ao mencionar a censura ao rock.

Richards resume: Havana, Cuba e os Rolling Stones. Isto é incrível!

As imagens falam mais alto. Da memória da Revolução estampada no muro à pobreza do povo.

Jagger conta para a multidão em êxtase que viu a rumba de perto na Casa da Música. O diálogo se dá através da arte. É mais fluente do que nas relações políticas.

Buena Vista Social Club tem um anticomunismo que soa mal. Havana Moon não tem.

É como se os Stones repetissem o que Obama disse ao discursar diante de Raul Castro: que o destino de Cuba está nas mãos dos cubanos.

Aquela alegria toda, no palco e na plateia, é, então, para dizer isso: celebremos com música, mas o destino de vocês está nas suas mãos.

A música que os cubanos ouvem ao vivo pela primeira vez tem seu ponto alto numa “blues suite”.

É Midnight Rambler, que se estende por muitos minutos e resume o que os Stones são.

Naquela noite de 25 de março de 2016, eles se projetaram como a luz do luar sobre a noite de Havana.

Velhos, mas ainda muito intensos.

Fãs brasileiros dos Rolling Stones brigam por causa de Bolsonaro

No Festival de Veneza, Mick Jagger fez críticas à política ambiental do governo Trump. Falou dos que votam em candidatos de direita e do que isso pode representar para o futuro da humanidade.

Nas notícias que li, Jagger não mencionava o presidente Jair Bolsonaro, mas, aqui no Brasil, muita gente disse que sim.

Ao lado de Jagger, o ator Donald Shuterland – este sim – citou o nome do presidente brasileiro.

A fala de Jagger acabou sendo tema em um grupo de fãs dos Rolling Stones que, por sugestão de um amigo, acompanho há alguns anos.

Integrantes do grupo brigaram por causa de Bolsonaro. Ou pelo fato de que Mick Jagger, a quem idolatram, teria feito críticas a Bolsonaro.

O que chamou minha atenção nem foi a briga entre os fãs da banda, mas a constatação de que uma pessoa consegue, a um só tempo, admirar os Rolling Stones e Jair Bolsonaro.

Já tinha ficado surpreso com beatlemaníacos que aderiram ao bolsonarismo. Não dá para conciliar os dois. Se você conhece, de fato, os Beatles, não pode sair por aí defendendo um político como Bolsonaro.

Com os Rolling Stones, então, é muito pior.

Porque há muito mais transgressão na trajetória deles do que na dos Beatles. Toda sorte de transgressão.

Vejam os caras no palco, reparem as letras das canções, acompanhem o périplo deles pelo mundo das celebridades.

Imagine um bolsominion fazendo arminha com Jagger rebolando na sua frente! Não há qualquer compatibilidade.

Os Rolling Stones – essa banda que está na estrada há 56 anos – são o que o rock é.

Claro que eles se transformaram num grande produto, mas, dentro desse grande produto, ainda pulsa muito da essência do gênero a que aderiram quando eram jovens e rebeldes.

Olavo de Carvalho disse que os Beatles eram satanistas e que as canções deles foram escritas por Adorno.

O que o filósofo do bolsonarismo diria de Mick Jagger e sua turma?

Brian Jones morreu há 50 anos

Nesta quarta-feira (03), faz 50 anos que Brian Jones morreu.

Ele foi encontrado morto na piscina da casa onde morava, em Sussex.

O guitarrista tinha 27 anos e acabara de ser desligado dos Rolling Stones.

*****

Brian Jones era da formação original dos Rolling Stones.

Tocava muitos outros instrumentos, além da guitarra. Nos Beatles, o sax que se ouve em You Know My Name é dele.

Ao longo da década de 1960, sempre que os Stones se distanciavam do rock, havia o dedo de Brian, que não assinava as canções. Essas, desde cedo, eram da dupla Jagger/Richards.

Brian Jones foi para os Rolling Stones o que George Harrison foi para os Beatles? É provável que sim.

Só que George nunca lutou pela liderança.

Brian foi destruído pelos excessos. As imagens feitas por Godard em One plus One mostram claramente. Também as do Rock and Roll Circus, registradas sete meses antes da morte de Brian.

Brian Jones foi o primeiro dessa estranha lista de astros da música mortos aos 27.

Depois dele, vieram Jimi e Janis e Jim e Kurt e Amy.

O mundo quer saber qual é a doença que Mick Jagger tem

Mick Jagger está doente.

No sábado (30), os Rolling Stones anunciaram o adiamento da turnê que fariam, a partir de abril, pelos Estados Unidos e Canadá.

Na agenda da banda, estava uma apresentação no festival de jazz de New Orleans.

O frontman dos Rolling Stones tem 75 anos, completados em julho de 2018.

Mick Jagger usou as redes sociais para fazer o anúncio ao público e dizer o quanto lamenta pelo adiamento da turnê.

Os Rolling Stones são uma empresa que funciona muitíssimo bem.

Jagger não é só um excepcional artista de palco e um dos grandes nomes do rock.

Ele estudou economia numa tradicional escola da Inglaterra e levou os seus conhecimentos para a gestão empresarial do grupo.

Os Rolling Stones não caem na estrada sem que os seus integrantes se submetam a exames médicos. Sobretudo agora que são homens velhos.

Foi assim que se detectou em Ronnie Wood um câncer de pulmão em estágio inicial. Foi assim que o problema de saúde de Mick Jagger foi descoberto.

Naturalmente, o mundo quer saber qual é a doença que ele tem, mas isso ainda não foi revelado.

O que se sabe, por enquanto, é que o músico já iniciou o tratamento nos Estados Unidos e que deve retomar suas atividades em poucos meses.

*****

Se tomarmos como referência o primeiro single da banda (Come On/I Want To Be Loved, 1963), os Rolling Stones estão na estrada há 56 anos.

Já foram um quinteto, mas desde os anos 1990 são um quarteto.

Mick Jagger, Keith Richards e Charlie Watts vêm da formação original, do início da década de 1960. Ronnie Wood, o caçula, entrou para o grupo em meados dos anos 1970.

Se pensarmos em discografia, a fase áurea da carreira deles foi entre o final dos anos 1960 e o começo dos 1970.

Mas, no palco, à medida que o tempo passou, se tornaram cada vez melhores.

Vê-los ao vivo é uma extraordinária experiência sonora e visual.

O futuro dos Rolling Stones depende da saúde do seu frontman.

Sem Mick Jagger, não há Rolling Stones.

Cineasta que filmou Beatles e Stones é filho de Orson Welles

Michael Lindsay-Hogg.

Pouca gente sabe quem é ele.

Menos ainda que é filho de Orson Welles com uma atriz com quem o diretor de Cidadão Kane teve um relacionamento.

O cineasta Michael Lindsay-Hogg não tem uma obra relevante, mas colocou seu nome junto de gente muito importante do mundo da música popular.

Beatles e Rolling Stones. Simplesmente.

Lindsay-Hogg dirigiu Let It Be, documentário que registrou o fim dos Beatles.

As filmagens, em janeiro de 1969, incluíram o último show que o grupo realizou.

Um pouco antes, em dezembro de 1968, Michael Lindsay-Hogg dirigiu Rock and Roll Circus, uma maratona de shows comandada pelos Rolling Stones.

A filmagem não agradou à banda e ficou inédita até 1996.

Tem indiscutível valor histórico por reunir, além dos Stones, John Lennon, Eric Clapton e The Who.

Mais tarde, em 1981, já na era do VHS, vamos encontrá-lo dirigindo The Concert in Central Park, que documentou o reencontro da dupla Simon & Garfunkel num fabuloso show em Nova York.

Michael Lindsay-Hogg, quando fez televisão, foi pioneiro do promo, espécie de “pai” do videoclipe.

O cineasta dirigiu os Beatles e os Rolling Stones em vídeos promocionais tais como os de Revolution (Beatles) e Jumping Jack Flash (Stones).

Quem vê esses dois vídeos reconhece a assinatura do diretor.

Se não bastasse, o cara, hoje com 78 anos, ainda é filho de Orson Welles!

Desafio dos 50 (e não dos 10) anos. O tempo não espera por ninguém

Agora tem o desafio dos 10 anos.

Como eu era em 2009. Como eu sou em 2019.

Brinco com o desafio e mudo o intervalo de 10 para 50 anos.

E o personagem não sou eu, mas um músico que admiro.

À esquerda, em 1969, esse belo rapaz de 20 anos com sua guitarra.

À direita, em 2019, o outrora belo rapaz, ainda com sua guitarra, aos 70, completados nesta quinta (17).

Mick Taylor – claro! – é o nome dele.

Foi um dos Rolling Stones entre 1969 e 1974 (até ser substituído por Ronnie Wood).

Ficou no lugar de Brian Jones.

Homem do blues. Tocava (ainda toca) muito!

Botou o som do seu instrumento nos melhores discos da banda.

Sticky Fingers, Exile on Main Street (querem mais?).

Dizem que entrou limpo. Saiu devastado pelos excessos.

O tempo não espera por ninguém.

O tempo não esperou por Mick Taylor.

Keith Richards faz 75 anos. Incrível!

Keith Richards faz 75 anos nesta terça-feira (18).

Dias atrás, o guitarrista dos Rolling Stones surpreendeu o mundo: anunciou que abandonara o álcool.

Está tocando sóbrio.

Bobagem.

Ele jamais deveria abandonar as drogas (lícitas ou ilícitas) nem o rock’n’ roll.

Viveu na transgressão. Permaneceria nela até a morte.

Keith Richards dividiu com Mick Jagger a autoria de muitos dos maiores números do rock.

À guitarra, criou riffs absolutamente antológicos.

No palco, quando cumprimenta o público, põe as mãos na cabeça, no peito e no órgão sexual.

Parece dizer que, com o cérebro, o coração e o sexo, está tudo em cima.

Devoto dos blues, ouvinte de Brahms, é rude, debochado, cínico e adorável.

Ele é o próprio rock’n’ roll. Selvagem, animal, profano.

Jagger e Richards são opostos. Os dois se completam.

Vê-los ao vivo, de perto, é uma das grandes experiências do mundo da música popular.

Que bom que Keith Richards tenha chegado aos 75 anos.

Os excessos nunca negados sugeriam que ele não iria tão longe.