Show do Who é incrível jornada pela história de uma grande banda!

“Come on the amazing journey

And learn all you should know”

Essa é a primeira imagem do The Who que guardei na minha memória afetiva. Foi quando vi o quarteto no cinema, em Woodstock, no comecinho dos anos 1970.

O Who que, mais tarde, vi em Tommy, delírio visual de Ken Russell, era assim.

Agora em 2017, sem Keith Moon e John Entwistle, restaram Roger Daltrey e Pete Townshend (foto de Fábio Tito). Foi como os vi neste sábado (23) no Rock in Rio.

O Who estava em Monterey, Woodstock e Wight.

O Who cantou My Generation.

O Who inventou a ópera rock em Tommy. Voltou ao formato em Quadrophenia.

O Who fez Who’s Next.

O Who, para mim, está entre as cinco maiores bandas da história do rock, numa lista que começa, invariavelmente, com Beatles e Rolling Stones.

O baterista Keith Moon morreu cedo. O baixista John Entwistle viveu até o início do século XXI. Ambos foram levados pelos excessos que cometeram.

Ficaram o cantor Roger Daltrey e o guitarrista Pete Townshend. Setentões, eles mostram pelos palcos do mundo o que foi o Who.

Daltrey desafina. Townshend não dá mais aqueles pulos, nem quebra a guitarra no final.

Mas ainda é o Who.

No Rock in Rio, durante 100 minutos, eles apresentaram uma espécie de antologia do quarteto.

Teve The Kids Are All Right, lá do começo, quando o Who soava como os Beatles. Teve – claro! – My Generation. E teve, sobretudo, canções do Who’s Next, Tommy e Quadrophenia.

Na bateria, Zak Starkey, o filho de Ringo Starr, parece dizer: meu padrinho Keith Moon fazia mais ou menos assim!

Três tecladistas, um guitarrista e um baixista completam o time. Juntos, reproduzem algo que se aproxima do som que o quarteto fazia no passado.

O show é simples. Um hit atrás do outro. Rock da melhor qualidade. A história do rock passando na frente do público que vê ao vivo ou na transmissão pela TV.

Amazing Journey!

Viva The Who!

Canções contra a ditadura viram rock pesado com Marya Bravo

O nome é Marya Bravo.

Ela canta muito.

O pai é Zé Rodrix, aquele que compôs (com Tavito) Casa no Campo e integrou o trio Sá, Rodrix e Guarabyra.

A mãe é Lizzie Bravo, a única brasileira que gravou com os Beatles. Fez vocal em Across the Universe.

Marya estudou canto nos Estados Unidos e, no Brasil, já fez vários musicais.

De Pai Para Filha é o disco que dedicou ao repertório autoral de Rodrix. Ótimo trabalho.

Comportamento Geral – Canções da Resistência é o disco em que se debruça sobre músicas de protesto contra a ditadura militar.

Embora tenha Apesar de Você, Cálice e Roda Viva, o repertório não é de escolhas óbvias. Lá estão Gás NeonCorpos e Demoníaca. Nada óbvias!

Outra coisa: Marya mudou tudo ao resgatar essas 13 músicas. Fez um disco de rock pesado. Ela é acompanhada por um power trio (guitarra, baixo e bateria) e transforma todo o repertório em rock.

Combina bem com a sua voz. E dá uma nova força a essas canções compostas entre 1967 e 1977.

Os retratinhos reunidos na capa do disco são de mortos e desaparecidos.

O CD começa com Pesadelo. Você corta um verso, eu escrevo outro.

E termina com Sinal Fechado. Por favor, não esqueça.

Comportamento Geral – Canções da Resistência não tem Caminhando, de Vandré.

Felizmente!

Qual foi o dia em que você conheceu os Beatles?

Quando vi a exposição dos Beatles, no Recife, gostei muito da cabine do trem de A Hard Day’s Night. O motivo: ela tem a ver com o dia em que descobri o quarteto.

Conto a história nesse texto.

Quando eu era criança, meu tio Humberto me levava ao cinema. Para a matinê daquele sábado, 18 de março de 1967, o programa era Deu a Louca no Mundo, no Cine Santo Antônio. Na véspera, descobri que a comédia maluca de Stanley Kramer fora substituída por Os Reis do Iê-Iê-Iê. No original, A Hard Day’s Night.

Pensei em não ir, não sabia do que se tratava, mas ouvi do meu tio: “é o filme dos Beatles, um conjunto inglês fabuloso que você precisa conhecer”. E foi assim que eles entraram em minha vida.

Luminosas imagens em preto e branco. Ficção com jeito de documentário. Narrativa ágil, música vibrante.

Na batuta, Richard Lester, homem de televisão fazendo cinema. Perfeitamente afinado com os cinemas novos da década de 1960. Coisas que entendi mais tarde. Na hora, só o impacto. E a alegria de senti-lo.

Os rapazes correndo dos fãs numa estação. A canção dentro do trem. Paul e seu “avô”, que às vezes roubava a cena. O humor de John. A timidez de George. A fuga de Ringo. A música dos quatro. Os ensaios no estúdio de televisão. O show final. O acorde mágico que abre a canção A Hard Day’s Night. Há duas ou três notas que, até hoje, me remetem ao momento em que descobri os Beatles.

Na madrugada daquele sábado em que vi Os Reis do Iê-Iê-Iê, Paul terminara de gravar She’s Leaving Home, uma das faixas do Sgt. Pepper, o disco que lançariam em junho de 1967. Haviam mudado muito em apenas três anos. Longe dos palcos, produziam o álbum que seria considerado o mais importante do pop/rock. Disco de ruptura e pura invenção.

“O rock será o que fizermos dele”, disse John Lennon.

Os Beatles deram ao rock um status que este não tinha.

Ninguém tem a dimensão deles. Ninguém os substituiu.

Nunca houve um guitarrista como Jimi Hendrix!

Para Alex Madureira, que levou os sons de Hendrix para Jaguaribe

Jimi Hendrix é o maior guitarrista de todos os tempos. Um lugar comum. Mas está certo!

Os garotos que hoje estudam o instrumento e têm às mãos todos os recursos tecnológicos farão coisas inacreditáveis com uma Fender semelhante à de Hendrix. Mas não inventarão nada. Não escreverão a gramática, nem a história, como Jimi fez numa carreira tão intensa quanto meteórica, entre 1966 e 1970.

Ele foi descoberto em Londres, na época em que os Beatles e os Rolling Stones comandavam a cena roqueira da cidade, e impressionou todos os que puderam vê-lo ao vivo. Os melhores guitarristas – gente como Eric Clapton e Jimmy Page – ficaram perplexos. E quiseram desistir.

Dizer que a guitarra é extensão do corpo de Jimi Hendrix é outro lugar comum. Tanto quanto classificá-lo como o maior de todos os guitarristas. Mas também é verdade. Com o instrumento colado ao corpo, ou dando voltas ao redor deste, às vezes tocando com a boca, Hendrix ultrapassa os limites das convenções musicais.

Produz ruídos que se misturam ao que não é ruído. Notas certas no lugar certo fundidas a notas que poderiam ser consideradas incorretas. Acordes que não estão nos manuais, dedos pressionando cordas e trastes como ninguém ousaria fazer. Invenção pura. Resultado excepcional.

Como as cores que um gênio da pintura joga numa tela.

Hendrix lançou três discos gravados em estúdio antes de morrer aos 27 anos, em 18 de setembro de 1970. Mas a discografia é extensa. Alguns dos muitos discos póstumos estão à altura da sua importância. Há fabulosos registros ao vivo. Também em estúdio.

Todo o material foi recuperado, restaurado à luz dos mais avançados recursos tecnológicos disponíveis nos estúdios da era digital. A família cuida bem da memória e do legado musical.

Os sons que produziu na guitarra Fender já atravessaram quase cinco décadas desde que Jimi Hendrix morreu, há 47 anos. E permanecem ousados e modernos.

Se tiverem boa vontade (e bons ouvidos), os garotos de hoje facilmente confirmarão!

Show de Erasmo Carlos é um orgasmo inenarrável!

Fui ver Erasmo Carlos de perto mais uma vez.

Gigante Gentil é um vigoroso show de rock.

No teatro (A Pedra do Reino, João Pessoa), é melhor porque a gente vê quieto, contempla o artista, sua música, seus sonhos e memórias.

Erasmo tem 76 anos. 50 e tantos de carreira. Começou no rock, esteve na linha de frente da Jovem Guarda, trilhou caminhos que o aproximaram da chamada MPB. É autor (com e sem Roberto Carlos) de vastíssimo cancioneiro pop. Um poderoso hit maker que, no palco, oferece à plateia uma síntese da sua trajetória e do seu songbook.

Cinco músicos acompanham Erasmo, comandados pelo maestro José Lourenço. Entre eles, os rapazes que vieram do grupo Filhos da Judith e o experiente guitarrista Billy Brandão.

O set list tem poucos números da trilogia formada pelos discos Rock’n’ Roll, Sexo e Gigante Gentil. Predominam os clássicos do repertório do Tremendão.

Da balada Gatinha Manhosa a Sou Uma Criança Não Entendo Nada e Filho Único, rocks dos anos 1970. De Quero Que Vá Tudo Pro Inferno a Mulher e Mesmo Que Seja Eu, sucessos da década de 1980. No momento voz e piano, um medley de canções erótico-sentimentais que ficaram conhecidas na voz de Roberto Carlos. Em duas homenagens, a lembrança de Taiguara e de Belchior. E – claro! – o mantra Sentado à Beira do Caminho.

Uma irresistível sessão do melhor rock’n’ roll brasileiro encerra o show. Arromba a festa! Minha Fama de Mau, Vem Quente Que Eu Estou Fervendo, É Proibido Fumar, Negro Gato, Eu Sou Terrível e Festa de Arromba.

Na fala de Erasmo, sobrevive muito do que houve de generoso e ingênuo nas ideias da sua geração. É bonito de ver. O cara vai da crença à indignação. E – salve! – é politicamente incorreto!

É preciso dar um jeito, meu amigo! – diz a letra da canção de 1971 que agora está na trilha de Os Dias Eram Assim. Na época, era uma conversa cifrada. Hoje, permanece atual, e só não entende quem não quer.

Erasmo Carlos continua à procura de ombros amigos.

Mas que sejam honestos!

Seu show é um orgasmo inenarrável!

Palavras desse gigante gentil que podem ser nossas.

Elvis Presley em 10 discos

Vamos reouvir Elvis Presley?

Nesta quarta-feira (16), faz 40 anos que ele morreu.

Fiz um top 10 dos discos de Elvis. Estão na ordem cronológica.

Os cinco primeiros são de estúdio. Os cinco últimos foram gravados ao vivo.

ELVIS PRESLEY

ELVIS

LOVING YOU

ELVIS IS BACK

FROM ELVIS IN MEMPHIS

ELVIS NBC TV SPECIAL

ELVIS IN PERSON

ELVIS ON STAGE

ELVIS AS RECORDED AT MADISON SQUARE GARDEN

ELVIS ALOHA FROM HAWAII VIA SATELLITE

Elvis Presley morreu há 40 anos. Elvis está vivo!

Nesta quarta-feira (16), faz 40 anos que Elvis Presley morreu.

Onde você estava naquele 16 de agosto de 1977?

Eu estava vendo Taxi Driver, de Martin Scorsese, no Cine Plaza, em João Pessoa. Só soube depois da sessão. Durante três dias, entre o anúncio da morte e o enterro, o mundo parou para acompanhar os serviços fúnebres em Memphis.

Elvis se transformou num fenômeno em 1956, aos 21 anos, ao ser contratado pela RCA Victor. Nos dois anos anteriores, gravara em Memphis, na pequena Sun Records, fonogramas fundadores do rock’n’ roll. As chamadas Sun Sessions reúnem as bases do rock na medida em que Elvis mistura blues, R & B, gospel e country. Dos Beatles ao U2, todos se curvam à importância daqueles registros e reconhecem neles matrizes do que vieram a fazer. O artista que o mundo conheceu a partir da chegada à RCA conservou muito do que encontramos nas sessões da Sun, mas também foi tragado pelas artimanhas da indústria fonográfica e pelos grandes estúdios de cinema.

Os anos 1950 foram extremamente produtivos, apesar do serviço militar prestado na Alemanha – uma jogada comandada pelo Coronel Parker, seu empresário. A volta, no disco Elvis Is Back, foi triunfal. O LP promove o reencontro do artista com suas fontes. A década de 1960 seria dedicada ao cinema, entre filmes medíocres e discos com suas trilhas sonoras. Felizmente, um outro retorno recuperaria a imagem de Elvis e o levaria a uma fase em que gravou grandes discos. O primeiro, e um dos melhores, se chama From Elvis in Memphis. É da época do especial de televisão que mostrou um intérprete vigoroso revisitando o que fizera nos tempos da Sun.

Elvis Presley vem de regiões profundas do ser da América. Estabeleceu um vínculo raro com milhões de ouvintes, interpretando com um vozeirão kitsch um repertório irresistível para quem nasceu nos Estados Unidos. Ele não largou as raízes, ainda que as tenha submetido a um verniz que desagrada aos puristas. Não deve ser condenado por isso. Se tivermos boa vontade, verificaremos com facilidade que produziu música pop de ótima qualidade numa carreira relativamente curta, iniciada em meados da década de 1950 e encerrada em 1977, com a morte prematura aos 42 anos.

Ainda hoje, posto as capas dos melhores discos de Elvis. 

Os Rolling Stones na América Latina em ótimo documentário

Vi Olé, Olé, Olé! – A Trip Across Latin America, registro da turnê que os Rolling Stones fizeram pela América Latina em 2016, e quero falar um pouco sobre o documentário e também sobre a relação da banda com o cinema documental.

Os Rolling Stones têm várias experiências com o gênero.

A mais importante é Gimme Shelter. Não é um filme sobre o rock que o grupo produz. É um registro de valor histórico e sociológico sobre a violência no free concert de Altamont, em 1969. Os méritos são dos realizadores, os irmãos Maysles, mestres do cinema direto.

Let’s Spend the Night Together é um concert film. Mostra a íntegra de um show da turnê americana de 1981. É o inverso de Gimme Shelter: só tem música. O diretor, Hal Ashby, havia se consolidado com os filmes que realizou na década de 1970.

Shine a Light traz os Rolling Stones no palco de um teatro, flagrados pelo olhar mais intimista e menos grandioso do diretor Martin Scorsese. Há entrevistas entre os números, embora o principal seja o concerto filmado como cinema.

A turnê pela América Latina no início de 2016 rendeu dois filmes: Havana Moon e Olé, Olé, Olé! – A Trip Across Latin America, ambos dirigidos por Paul Dugdale.

Havana Moon é sobre a ida dos Stones a Cuba, o primeiro concerto deles na ilha. Tem uma introdução que contextualiza tudo, mas o resto é o show ao ar livre. Sem o anticomunismo ostensivo de Buena Vista Social Club, Havana Moon mistura sutilmente rock e política.

Olé, Olé, Olé! não é um concert film. Tem poucos números musicais completos. Acompanha cronologicamente a excursão, e, entre um país e outro, volta sempre a Cuba com os preparativos do show e as dificuldades para a sua realização.

O documentário começa pelo Chile. O grupo toca no Estádio Nacional. O mesmo onde tanta gente foi morta pelos militares que derrubaram o presidente Salvador Allende em 1973.

Mick Jagger fala das ditaduras dos anos 1970 e das restrições impostas ao rock por governos autoritários.

Na Argentina, os Rolling Stones encontram um público tão apaixonado e eufórico quanto o que vai aos jogos de futebol.

A conversa de Jagger com dois velhos fãs é um momento tocante do filme.

No Brasil, Jagger e Richards resgatam a viagem de férias que fizeram em 1968. A conversa deles desemboca num delicado registro musical de voz e violão: Honk Tonk Women do jeito que foi composta, há quase meio século, numa fazenda em São Paulo.

O vínculo de Ronnie Wood com as artes plásticas (além de guitarrista, ele pinta) é pretexto para o elogio aos artistas que fazem arte nas ruas de São Paulo, em paredes e muros. É o contrário do que vimos nas manifestações de truculência do prefeito João Dória.

O filme passa pelo Uruguai, Peru, Colômbia, México e termina em Cuba com sons e imagens que enriqueceriam Havana Moon.

Olé, Olé, Olé! não é somente um filme sobre uma turnê dos Rolling Stones.

O documentário fala do amor pela música, da alegria que esta proporciona, da arte como elemento que une os povos, da relação entre fãs e artistas. Esses temas estão espalhados pela narrativa, às vezes explicitamente, outras vezes não. Eles foram reunidos pela sensibilidade do realizador e de sua equipe. Em olhares, depoimentos, encontros, gritos, lágrimas, trocas entre os velhos roqueiros e representantes das culturas de cada lugar.

Com essa abordagem, Olé, Olé, Olé! está muito distante dos filmes que são meros registros de shows. Humaniza os astros, tira do anonimato pessoas comuns. Procura personagens e situações que se encaixam perfeitamente no ótimo cinema documental feito aqui por Paul Dugdale.

Em Nova York, Elvis era um príncipe de outro planeta

Reouvindo Elvis.

Os americanos costumam filmar tudo. Mas não registraram as imagens dos shows que Elvis Presley fez no Madison Square Garden, em junho de 1972. Gravaram o áudio. Uma das performances logo se transformou em disco. Outra, virou CD póstumo na década de 1990. Uma edição de luxo junta os dois em versões remasterizadas. E surpreende os fãs: um DVD traz imagens raríssimas filmadas em oito milímetros por alguém que estava na plateia. Elas são do mesmo show da tarde lançado nos anos 1990. É tudo muito precário e incompleto, mas certamente encantará os admiradores do cantor.

As imagens foram restauradas. Ficaram excessivamente granuladas, mas não faz mal. O áudio do CD foi editado em sincronia com o vídeo e aparece completo no DVD, mesmo quando não há imagem. Elvis e sua banda oferecem uma performance vigorosa ao público que esgotou a lotação do Garden. A coletiva de imprensa e um pequeno documentário completam o material do DVD. Os dois CDs têm selos originais da velha RCA e o mesmo repertório das edições anteriores, só que com sensível ganho de qualidade. O pacote se chama Prince from Another Planet.

As apresentações de Elvis no Madison Square Garden são de uma época em que ele fez muitos shows pelos Estados Unidos. Alguns estão no documentário Elvis on Tour, realizado em 1972. Mas não os de Nova York, que marcaram o seu retorno à cidade, onde não cantava desde que participara do Ed Sullivan Show, no início da carreira, em meados da década de 1950. E onde não voltaria a se apresentar. Em 1972, longe do cinema, Presley estava dividido entre as gravações em estúdio e os palcos. A decadência física que o levaria à morte cinco anos mais tarde ainda não se fazia sentir nos dias em que cantou para o público que foi vê-lo no Garden.

Elvis tinha um show pronto. As pequenas alterações no set list não mexiam com a estrutura básica do espetáculo. Os registros ao vivo do período são muito parecidos. O rock’n’ roll dos 1950 ficara para trás. Era apenas uma referência. Prevalecia o vozeirão de tenor a cantar mais baladas dos que rocks. Ao seu lado, havia uma banda, uma pequena orquestra e um grupo de vocalistas, brancos e negros que pareciam saídos de uma igreja. O resultado era fantástico. Antes dos 40, o artista já era uma lenda. Um rei amado por seus súditos e também pelos colegas, a exemplo do beatle George Harrison, que foi vê-lo no camarim.

Os dois shows dessa edição de luxo são do mesmo dia. O da noite, que está no LP de 1972, é melhor do que o da tarde. Foi consumido à exaustão no disco de vinil. O áudio restaurado deu mais brilho à performance. Elvis revisita o repertório antigo, acrescenta novas canções, interpreta algumas que outras vozes tornaram conhecidas. No fundo, faz a síntese da sua música e também da música popular do seu país, com domínio absoluto do que canta. Há rock, balada, blues, soul, gospel, country. O show dura uma hora, e a plateia quer mais. Só que Elvis já deixou o Garden, assegura o animador que está no palco.

Rock e cinema documental, um subgênero do documentário

O rock e o cinema documental se encontraram muitas vezes na década de 1970. Juntos, criaram um verdadeiro subgênero do documentário. Aqueles filmes de longa metragem exibidos nos cinemas para grandes plateias permitiam um contato mágico do público com artistas que dificilmente seriam vistos ao vivo. Em alguns casos, havia cinema e música de qualidade. Em outros, o forte era só a música.

Considero Woodstock o melhor momento desse tipo de documentário.

Woodstock não tem narrador em off, como tantos documentários. Alterna falas, locuções de palco e números musicais. Pode parecer cronológico, mas não é. Em sua narrativa, entendemos que, da tarde de uma sexta-feira à manhã de uma segunda, o festival começa, acontece e termina. A despeito desta certeza, os fatos gerados pela multidão, pelos artistas e pela natureza (o temporal que se abateu sobre o evento) estão misturados. Tudo é fragmentado. A montagem é uma aula permanente de cinema. Marco e influência no gênero, o documentário tem no uso da tela múltipla um grande trunfo. É o que lhe dá ritmo como espetáculo fílmico. É também o que permite uma tradução mágica da música que o festival ofereceu aos seus espectadores e legou ao futuro.

Martin Scorsese, ainda um jovem desconhecido, participou de Woodstock operando uma das câmeras. Em Elvis on Tour, esteve envolvido no trabalho de montagem. Mais tarde, realizou um dos grandes documentários de rock dos anos 1970: The Last Waltz.

Os irmãos Maysles sobrepuseram a violência de Altamont à música dos Rolling Stones no controvertido Gimme Shelter. Em The Concert for Bangladesh, é a música que se sobrepõe ao cinema. Mad Dogs & Englishmen e Elvis on Tour são belos registros de bastidores.

Nos anos 1980, o VHS levou os shows para dentro de casa. O acesso fácil banaliza as coisas. Hoje, temos esses filmes em nossos acervos. Mas nada se compara à emoção de tê-los visto na estreia.

Rock e cinema documental: meu top 6.

WOODSTOCK

THE LAST WALTZ

GIMME SHELTER

ELVIS ON TOUR

MAD DOGS & ENGLISHMEN

THE CONCERT FOR BANGLADESH