Santana, um dos grandes guitarristas do rock, faz 70 anos

O guitarrista mexicano Carlos Santana faz 70 anos nesta quinta-feira (19).

Tinha somente 22 quando, em 1969, tocou com sua banda no Festival de Woodstock, evento que o projetou mundialmente.

A trajetória longa e a discografia extensa confirmam Santana como um dos grandes do seu instrumento.

Santana se consagrou como exímio guitarrista e como autor de uma fusão: a do rock com os ritmos latinos. Nas notas agudas, sua guitarra à vezes soa como um desses trompetes que ouvimos na música da América Central. O uso que faz dos instrumentos de percussão é outra marca forte do seu trabalho. É um traço de originalidade que não encontraríamos numa banda de rock genuinamente americana.

A fusão entre o jazz e o rock, promovida por Miles Davis na virada dos 60 para os 70, também se incorporou à música de Santana. É o que temos no disco excepcional que, em 1972, dividiu com John McLaughlin, outro mestre da guitarra. Love Devotion Surrender é um tributo a John Coltrane e uma experiência mística de dois homens.

Rock, blues (no início, a Santana Band era uma banda de blues), rock latino, jazz rock, música brasileira (entre outros, o Jobim de Stone Flower). Carlos Santana é um artista em permanente diálogo entre suas matrizes e o mundo. Nos grandes hits cantados, em popularíssimos temas instrumentais, nos momentos de menor exposição, Santana é um dos legados da geração de Woodstock, com seus sonhos impossíveis e suas ideias generosas.

Entre 1969 e 1971, Santana e sua banda gravaram três discos absolutamente antológicos. Há muitos outros, mas esses são imbatíveis.

SANTANA

ABRAXAS

SANTANA III

Ouvindo Paez. Reouvindo Krall

Ouvindo Fito Paez.

Canciones Para Aliens.

O argentino Fito Paez é uma das lacunas da minha discoteca. Aventuro-me com um disco mais de covers do que de autor. São canções do mundo que o roqueiro gravou para audição por alienígenas, o título explica. Do nosso Chico a Brel, de Dylan a Mercury, de Gaye a Jarra, de Verdi a Milanés – o resultado é muito bom. As canções foram recriadas por Paez com sua assinatura e não frustram o ouvinte que pensar nos registros originais. Mesmo que estes sejam – e efetivamente são – muito melhores.

Reouvindo Diana Krall.

The Look of Love.

Fazia tempo que eu não ouvia Diana Krall. Escolhi The Look of Love. Menos por ela, mais por Claus Ogerman, o arranjador. Ogerman, que trabalhou para Tom Jobim e João Gilberto. O disco tem uma “pegada” de Bossa Nova. Ótima pianista, boa cantora, Krall canta standards. Os dois que João Gilberto já havia gravado (S’Wonderful e Besame Mucho) confirmam que a influência da Bossa Nova sobre o jazz é muito maior do que o contrário. E que João – claro! – é infinitamente maior do que Krall.

12 álbuns ao vivo para celebrar, hoje, o Dia Mundial do Rock

Hoje é o Dia Mundial do Rock.

A data é por causa do Live Aid, que não é, certamente, o maior momento da história do rock. Mas, muito bem, ela existe, e vamos celebrar.

Escolhi 12 álbuns para a comemoração. Não necessariamente os melhores.

São todos gravados ao vivo. E me são muitíssimo caros.

BEFORE THE FLOOD – Bob Dylan e The Band

Dylan com The Band. Dylan sozinho ao violão. The Band sem Dylan. Em dois discos, um show vigorosíssimo, resultado da longa parceria do artista com o grupo canadense.

THE CONCERT FOR BANGLADESH – George Harrison e convidados

O beatle George recebe seus amigos (Dylan, Clapton, Russell, Preston, Ringo, Shankar) num concerto que angariou fundos para a população faminta de Bangladesh.

4 WAY STREET – Crosby, Stills, Nash & Young

David Crosby, Stephen Stills, Graham Nash e Neil Young estão juntos nesse álbum duplo com performances elétricas e acústicas. O que neles restou do sonho de Woodstock.

ELVIS AS RECORDED AT MADISON SQUARE GARDEN – Elvis Presley

Quando cantou em Nova York, em 1972, Elvis foi chamado de príncipe de outro planeta. O disco traz o registro integral de um dos seus shows no Garden.

JOPLIN IN CONCERT – Janis Joplin

Álbum duplo lançado dois anos após a morte de Janis Joplin. Reúne trechos de vários shows da grande cantora de carreira meteórica e vida muito curta.

HENDRIX IN THE WEST – Jimi Hendrix

Preciosos registros de Hendrix no palco. Um dos melhores dos muitos discos póstumos daquele que permanece na história do rock como o maior de todos os guitarristas.

MAD DOGS & ENGLISHMAN – Joe Cocker

Depois do sucesso em Woodstock, Joe Cocker fez uma excursão louca pelos Estados Unidos. Esse álbum duplo mostra como era, na íntegra, o show de Cocker e sua banda.

LIVE RHYMIN‘ – Paul Simon

Longe de Garfunkel, Paul Simon submete suas melodiosas canções e sua voz delicada e doce a novos formatos: do gospel dos negros americanos aos sons da América do Sul.

GET YER YA-YA’S OUT! – The Rolling Stones

Os Rolling Stones em concerto no Madison Square Garden, na excursão de 1969. Estão em plena forma numa apresentação vista e ouvida parcialmente no filme Gimme Shelter.

BRING ON THE NIGHT – Sting

Depois de integrar o power trio The Police, Sting partiu para a carreira solo. Nesse álbum ao vivo, trabalha com grandes músicos e mistura o seu rock com um sotaque jazzístico.

WINGS OVER AMERICA – Paul McCartney e Wings

Em meados dos anos 1970, McCartney e seu grupo, o Wings, percorreram a América com esse show registrado integralmente num álbum triplo. Em alguns números, Paul volta aos Beatles.

YESSONGS – Yes

Um dos grandes grupos do rock progressivo, o Yes mostra o seu melhor nesse álbum triplo. Grandes números, virtuosismo vocal e instrumental, repertório antológico.

Chuck Berry se despede com disco que não decepciona

Chuck Berry fez 90 anos em outubro de 2016. Morreu em março de 2017.

Deixou um disco pronto. Ou quase pronto.

Temi que não estivesse à sua altura. Por causa da idade avançada. E do que acontece com tantos trabalhos póstumos.

Mas Chuck (que acaba de ser lançado no mercado brasileiro) é muito bom!

Seu último disco de inéditas (Rock It) tem quase quatro décadas. De lá para cá, lançou o álbum (ao vivo) comemorativo dos seus 60 anos e fez muitos shows pelo mundo. Disco novo, à medida em que a idade avançava, ninguém esperava mais.

Mas eis que o velho Berry surpreendeu no fim da vida.

Chuck é trabalho de um homem velho. Um artista que já fez tudo. Há “truques” de estúdio para suprir as limitações (a voz frágil, a guitarra imprecisa) trazidas pela idade. O filho, guitarrista como o pai, está no estúdio, tocando e aperfeiçoando o que foi gravado.

O resultado não decepcionará os admiradores do grande artista que Chuck Berry foi.

Está tudo lá: a voz inconfundível, a guitarra que influenciou tanta gente, as músicas irresistíveis, o universo poético (tão intuitivo quanto inteligente) do letrista. Blues, balada, country waltz e – claro! – o melhor rock’n’roll!

Como não havia mais o que inventar, Berry se reinventa. Dois exemplos: Lady B. Goode dialoga com seu maior sucesso, Johnny B. Goode. Jamaica Moon recria Havana Moon.

São 10 faixas. Apenas 35 minutos.

É o adeus de um dos pais do rock.

E inventor de um estilo de fazer rock que, de tão singular, deve levar seu nome!

Como os Rolling Stones estão velhos! 55 anos juntos!

Os Rolling Stones estão juntos há 55 anos!

Em 12 de julho de 1962, eles tocaram pela primeira vez no Marquee, em Londres.

No começo, eles eram rudimentares, embora os primeiros discos tenham resistido à passagem do tempo justamente por sua aspereza e simplicidade. Antes que se tornassem maduros, tocando rock’n’ roll de um jeito parecido com os negros, trilharam outros caminhos, às vezes conduzidos por Brian Jones, o guitarrista morto em 1969. A fase psicodélica rendeu boas canções, mas é menor, se compararmos com o que os Beatles fizeram. O melhor ainda estava por vir. Depois do psicodelismo, o grupo deu sinais claros de que amadurecera e, principalmente, de que estava de volta ao rock básico. Estamos em 1968, o ano de Jumpin’ Jack Flash.

Quatro discos, gravados entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, trazem o melhor dos Rolling Stones: Beggars Banquet, Let It Bleed, Sticky Fingers e Exile on Main Street. No meio, ainda há o ao vivo Get Yer Ya-Ya’s Out!, gravado em Nova York no final de 1969, durante a turnê marcada pelo concerto de Altamont, na Califórnia, onde um homem foi assassinado em frente ao palco, diante das câmeras dos irmãos Maysles. As imagens, que vinculam os Stones ao episódio de violência por causa do suposto envolvimento deles com os Hell’s Angels, podem ser vistas com riqueza de detalhes no filme Gimme Shelter.

Em sua longa trajetória, os Stones nos ofereceram uma mistura de rock’n’ roll, R & B, blues, soul, gospel, country. “E toda uma gama de música pop”, como definiu Mick Jagger num velho documentário sobre a banda. Naqueles discos feitos entre o final da década de 1960 e o início da de 1970, eles estão no auge dos excessos e da criatividade. Produzem um som coeso, são vigorosos. E ainda têm o frescor da juventude ao seu lado. O repertório é brilhante. Muitas canções do período permanecem no set list da banda. Nunca mais seriam tão bons nos estúdios, a despeito de terem gravado ótimos discos. Mas o domínio do palco seria cada vez maior.

Os Stones são a escola de samba do mundo, reúnem todos os carnavais – disse Gilberto Gil numa noite em que os viu no Maracanã. Vê-los ao vivo é uma extraordinária experiência visual e sonora. A banda evoca nossa natureza animal (definição de Arnaldo Jabor) com uma força e uma alegria raras. Os riffs da guitarra de Richards (que se funde à de Wood como se as duas fossem uma só), a batida seca de Watts, o impressionante gestual de Jagger, a massa sonora que produzem com os músicos de apoio.

Que bom que os Rolling Stones tenham envelhecido juntos. É apenas rock’n’ roll, mas eu gosto – diz o refrão que a gente canta diante deles.

Uma conversa com Cazuza no verão de 1989

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

Estive com Cazuza uma única vez, quando ele cantou em João Pessoa no verão de 1989.

Percorria o país com o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado também em disco ao vivo (O Tempo Não Pára).

Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira que era portador do HIV.

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa A Palavra É Sua, que era exibido nos domingos pela manhã na TV Cabo Branco. Costumávamos fazer em estúdio, mas, naquela semana, claro que abrimos uma exceção.

Assumi com a produção do artista o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que, naquele momento, a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável.

Cazuza estava na piscina (ao lado do amigo Ezequiel Neves, seu parceiro e produtor) e gravou comigo numa mesa próxima. De sunga, camiseta sem manga e boné.

Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, as diferenças entre poesia e letra de música, rock e MPB – estes foram os temas da nossa conversa.

Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo “passado da música popular” (usou essa expressão) lhe servira de parâmetro.

A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes numa conversa sobre o rock brasileiro da década de 1980: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Era Gil me convencendo de que o rock brasileiro dos 80 era muito melhor do que eu imaginava!

Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou.

Mas fiquei triste no dia em que o entrevistei. O resultado jornalisticamente positivo do que gravamos não era nada diante do quadro que vi: um artista jovem e talentoso consumido por uma doença devastadora.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza assumiu que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha.

Sua agonia se estendeu até sete de julho de 1990.

Os Beatles nasceram há 60 anos no salão de festas de uma igreja

O dia era seis de julho de 1957. Portanto, há 60 anos. Se há uma data que pode ser tomada como a do nascimento dos Beatles, é essa.

Foi quando John Winston Lennon e James Paul McCartney se conheceram. John ainda não tinha 17 anos. Paul acabara de fazer 15.

John levou a banda dele – The Quarry Men – para se apresentar num evento no jardim de uma igreja, em Liverpool.

Era tudo muito rudimentar. Os garotos mal tocavam seus instrumentos. Ninguém podia imaginar que em poucos anos o líder daquele grupo de skiffle se transformaria numa das figuras mais importantes da música popular do seu tempo.

Paul estava na plateia. Ele e sua guitarra, com a qual tinha muito mais intimidade do que o futuro parceiro. Depois do show, os dois foram apresentados por um amigo comum no salão de festas da igreja.

Inicialmente, Lennon não foi tão receptivo. Mas não resistiu ao talento musical de McCartney quando ouviu a voz de autêntico rocker e viu os acordes e riffs da sua guitarra em Twenty Flight Rock, sucesso de Eddie Cochran.

A música que Paul tocou para John é esta que vemos no vídeo a seguir:

John Lennon tocava guitarra com alguns acordes de banjo ensinados por Julia, sua mãe. Paul McCartney conhecia melhor o instrumento e já aprendera os acordes corretos para tocar rock’n’roll.

Os dois tinham os mesmos sonhos. Queriam ser músicos, formar uma banda, tocar rock.

O encontro naquele remoto seis de julho de 1957 mudou as suas vidas. Ali, começou uma grande amizade, além de uma extraordinária parceria musical e da formação dos Beatles.

O resto é História.

O rock será o que nós fizermos dele – disse John Lennon.

E foi!

“Sgt. Pepper”, o “Cidadão Kane” do rock, chega aos 50 anos!

Estamos a poucos dias dos 50 anos do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Dizer que é o disco mais importante dos Beatles é pouco.

Chamá-lo de o disco mais importante do rock lhe faz justiça.

Por isso, a comparação com o filme de Orson Welles aí no título. Cidadão Kane é o filme mais importante do cinema. É quase uma unanimidade.

Quando o Sgt. Pepper foi lançado, eu tinha oito anos e acabara de ver os Beatles no cinema em A Hard Day’s Night e Help!.

Nos dois filmes de Richard Lester, a imagem deles era aquela ainda ingênua que conquistara o mundo em 1964 como irresistível fenômeno pop.

No Pepper, tínhamos coisas que eu não conseguia entender aos oito anos. Daí, tenho a lembrança de que o disco me soava estranho e enigmático quando o conheci.

Sgt. Pepper remete ao status que a segunda geração do rock deu ao gênero. Esse status começa com Bob Dylan, em 1962, um pouco antes do surgimento dos Beatles.

Nos primeiros tempos, os Beatles parecem ingênuos demais para dar continuidade à linha evolutiva do rock.

Mas amadureceram rapidamente, guiados (ou traduzidos, se quisermos enfatizar o talento dos rapazes) pelo maestro George Martin.

O Sgt. Pepper – após os passos dados no Rubber Soul e, sobretudo, no Revolver – é a confirmação desse amadurecimento do quarteto. E do amadurecimento do próprio rock.

O rock será o que fizermos dele – disse John Lennon.

O disco agora cinquentenário assegura que sim!

(Voltarei ao Pepper em outros textos aqui na coluna)

“Pulp Fiction” e “De Volta Para o Futuro” têm a música de Chuck Berry

Chuck Berry está fazendo 90 anos nesta terça-feira (18).

Um dos pais do rock, ele tem a sua música em momentos marcantes de filmes que quero lembrar aqui.

Em De Volta Para o Futuro, o garoto que viajou no tempo “inventa” o rock ao tocar Johnny B. Goode.

Em Pulp Fiction, na cena do concurso de dança, John Travolta e Uma Thurman dançam You Never Can Tell.

Em American Graffiti, Johnny B. Goode faz crescer uma sequência que talvez não tivesse nada de especial sem a música.

 

Paulinho da Viola, a nobreza carioca, guardião do samba e do choro

“Olá, como vai?” é a pergunta.

“Eu vou indo, e você? Tudo bem?” é a resposta.

E começa o diálogo breve de frases curtas. Duas pessoas conversando, paradas num sinal vermelho.

Na verdade, uma letra de música. Sim, uma obra-prima da canção popular brasileira.

paulinho-da-viola

É “Sinal Fechado”, que o carioca Paulinho da Viola compôs em 1969, quando estava iniciando a sua carreira fonográfica. Um sambista ligado à tradição do gênero surpreendia a todos ao escrever algo como “Sinal Fechado”.

Originalíssima, ousada, moderna. Digna da turbulência e da criatividade da época em que foi composta. Metáfora da noite em que vivíamos. Comentário sobre a incomunicabilidade humana. A música de Paulinho venceu um festival, provocou polêmica e confirmou que, ao seu modo, ele também estava antenado com as novidades da música popular de então.

Garoto ligado no rock e nos tropicalistas, tive uma certa resistência quando ouvi Paulinho da Viola pela primeira vez, entre o final da década de 1960 e o começo da de 1970. Os sambas que eu consumia eram os da Bossa Nova, os de Chico Buarque e os de Jorge Ben. Paulinho soou duro demais. Faltava entender muitas outras coisas da complexidade da nossa música popular para incorporá-lo aos meus discos.

“Sinal Fechado” ajudou. Como o viva de Caetano a ele, na letra de “A Voz do Morto”. Talvez pela percepção de que aquele cara que fazia sambas tradicionais também era moderno. Também se deixara influenciar, ainda que remotamente, por seus contemporâneos. Sei hoje que não era preciso tanta complicação para ouvi-lo. Bastava render-se ao seu talento e à sua elegância. O que, felizmente, fiz a tempo.

Na discografia de Paulinho da Viola, prefiro a fase da velha Odeon. Os 11 discos gravados durante cerca de 10 anos, a partir do final da década de 1960. A essência do seu trabalho está naquela fase, bem como suas melhores músicas.

“Nervos de Aço” se destaca na comparação com os outros. Também os dois volumes intitulados “Memórias”. Um é “Cantando”. O outro, “Chorando”. Paulinho nos leva a ouvir velhos sambas que conheceu quando era garoto e choros que seu pai – violonista do conjunto de Jacob do Bandolim, o Época de Ouro – executava com os amigos.

Este é, com certeza, um dos papéis desempenhados por ele em sua trajetória: chamar nossa atenção para a tradição do samba carioca e para o choro, grande expressão da música instrumental produzida pelos brasileiros.

Vi Paulinho da Viola ao vivo muitas vezes. Quando a turnê do projeto “Memórias” passou por João Pessoa, em meados dos anos 1970, ele contou à plateia que lotava o Teatro Santa Roza a história da chegada de Canhoto da Paraíba ao Rio, no final da década de 1950. Nunca esqueci o seu depoimento sobre o impacto que Canhoto provocou entre os chorões cariocas.

Naquela noite, como em muitas outras, quem estava na sua banda era o flautista Nicolino Cópia, o Copinha, figura lendária do mundo do choro, o músico que fez o solo da introdução de “Chega de Saudade” na gravação de João Gilberto.

Era o show em que ouvíamos sua versão de “Pra que Mentir”, de Noel e Vadico. E um novo arranjo para “Coisas do Mundo, Minha Nega”, um dos seus grandes sambas.

Sábado (22) que vem, Paulinho da Viola traz ao teatro A Pedra do Reino o show comemorativo dos seus 50 anos de carreira.