Morreu Geneton Moraes Neto. Era sinônimo do melhor jornalismo!

Morreu nesta segunda-feira (22) aos 60 anos o jornalista Geneton Moraes Neto.

Caetano e Geneton

Estive com ele pela primeira vez no Recife, no dia cinco de agosto de 1982. Dois dias depois, Caetano Veloso faria 40 anos, e, num hotel em Boa Viagem, fomos apresentados enquanto esperávamos pelo artista para uma entrevista coletiva.

Guiados por Jomard Muniz de Britto, nosso mestre, tínhamos objetivos diferentes. Eu participaria da coletiva. Ele colheria um depoimento exclusivo de Caetano sobre Glauber Rocha.

Na minha memória afetiva, Geneton está muito associado a Caetano, Gil, Jomard, aos tropicalistas de um modo geral. Ao Recife e aos meus vínculos com essa cidade de tradições culturais tão fortes.

Mas está associado principalmente a um exercício jornalístico de grande qualidade que ele desenvolveu por onde passou, sobretudo na Rede Globo.

Jornalismo memorialista. Sua obsessão pelas pautas ligadas à memória sempre me pareceu muito atraente, bem como seu gosto pelas entrevistas.

A pesquisa histórica, os temas políticos, a investigação – tudo em Geneton era feito com as marcas de quem tinha admirável domínio de um ofício tão aviltado quanto o nosso.

De quem de fato dignificava o jornalismo!

Muitas lembranças dele: Geneton entrevistando Roberto Carlos, ou o maestro George Martin. Os livros, os longos textos em seu blog. A voz em off no Fantástico com o sotaque pernambucano que nunca perdeu.

Nosso último encontro foi há uns dois anos na sede da TV Cabo Branco, em João Pessoa. Falamos do seu Canções do Exílio e do filme que estava realizando sobre Glauber.

Que coincidência! Quis o destino que Geneton Moraes Neto nos deixasse no mesmo 22 de agosto e na mesma Clínica São Vicente onde, há 35 anos, morria Glauber Rocha!

Na foto, Geneton, adolescente, entrevista Caetano na primeira passagem pelo Recife após o exílio londrino.

 

A lua como inspiração, dos clássicos aos populares

A lua é cheia nesta quinta-feira (18). Uma leitora sugere uma lista de músicas que tenham a lua como inspiração. Essas escolhas são sempre incompletas e insatisfatórias. Mas faço uma, que amanhã já pode ser outra.

Começando pelos eruditos, há a Sonata ao Luar, de Beethoven, e Clair de Lune, de Debussy. A lua a inspirar um gênio absoluto, que passou pelo clássico e pelo romântico, e um impressionista.

No grande cancioneiro popular americano do século XX, é imediata a lembrança de Blue Moon e Fly Me To The Moon. A primeira, com Ella Fitzgerald. A segunda, com Frank Sinatra. Embora tenha recebido letra, é como tema instrumental que Moonlight Serenade foi imortalizada pela orquestra de Glenn Miller.

Nos Beatles, George Harrison fez Here Comes The Sun. Sozinho, compôs Here Comes The Moon. Paul McCartney fez C Moon. Os Rolling Stones, Moonlight Mile.

E na música popular do Brasil? A lista é extensa.

Desde o Catulo da Paixão Cearense de Luar do Sertão. Ou a Chiquinha Gonzaga de Lua Branca. Ou o Sílvio Caldas de Noite Cheia de Estrelas. “Lua, manda a tua luz prateada despertar a minha amada”.

O original é italiano, mas foi na voz de Celly Campello que Banho de Lua incorporou-se ao nosso cancioneiro, nos primórdios do rock nacional. E o “eu vou perguntar, se na lua há um broto legal pra me namorar”? É o jovem Roberto Carlos.

Caetano Veloso é logo lembrado por Lua de São Jorge. Mas ele também fez Lua, Lua, Lua, Lua. E Shy Moon. E Canto do Povo de um Lugar. “Quando a noite, a lua mansa, e a gente dança venerando a noite”.

E o Gilberto Gil de Lunik 9? A conquista espacial a ameaçar os poetas, os seresteiros, os sonhos dos namorados. “É chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”. Muito mais tarde, Gil diria que “a gente precisa ver o luar”.

Tem o nosso Cassiano, soul man, com A Lua e Eu. Tem o Milton Nascimento de A Lua Girou. O Chico Buarque de Mar e Lua. “Uma andava tonta, grávida de lua, e outra andava nua, ávida de mar”, verso de beleza infinita.

A lista já passa de 20 títulos. Está bom. Pelo menos para a lua cheia de hoje!

 

 

 

Pais e filhos também dialogam na música popular

Na minha coluna “Sexta de Música”, na CBN João Pessoa, falei de músicas que tratam da relação entre pais e filhos. Abordo o tema aqui também.

Geralmente, são canções sentimentais, quando não piegas. Mas acabam sendo muito verdadeiras.

“Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”. Quem não lembra? É Sérgio Bittencourt falando para o pai, o grande Jacob do Bandolim, em “Naquela Mesa”.

Ou: “Você foi meu herói, meu bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo”. É Fábio Jr. na letra de  “Pai”.

Ou ainda: “Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse seu olhar cansado, profundo”. É Roberto Carlos, claro, em “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”.

Tem o Rei no divã do analista: “Meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse, mas ele também se esqueceu de me dizer a verdade”. É “Traumas”. Mais dolorida, menos lembrada.

Gosto muito de “Pai e Mãe”, de Gilberto Gil. Um belíssimo choro canção. “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar outros homens, como beijo o meu pai”. Fala de afeto, não de homoafetividade, como ainda pensam muitos ouvintes. “Como é, minha mãe, como vão seus temores? Meu pai, como vai?”. É Gil!

Há também “14 Anos”, de Paulinho da Viola. O pai dele, músico, sugerindo ao filho que fosse doutor, não sambista. “Sambista não tem valor nessa terra de doutor, e, seu doutor, o meu pai tinha razão”.

E tem: “Dorme menino levado, dorme que a vida já vem, teu pai está muito cansado de tanta dor ele ele tem”. São versos de Vinícius de Moraes no acalanto “O Filho que Eu Quero Ter”, melodia de Toquinho. Aí já é uma outra modalidade: o pai falando para o filho.

Como Chico Buarque em “Acalanto”: “Dorme (mi)nha  pequena, não vale a pena despertar”. Ou Dorival Caymmi, em outro “Acalanto”: “É tão tarde, a manhã já vem, todos dormem, a noite também, só eu velo por você, meu bem”.

Temos exemplos menos densos, mais divertidos, do baião ao rock. O Luiz Gonzaga de “Respeita Januário”. Ou a Rita Lee de “Papai Me Empresta o Carro”.

E as canções internacionais. “Father and Son”, de Cat Stevens, que Nara Leão cantou em português. E a dolorida “Mother”, de John Lennon, que, apesar do título, também fala do pai (“Você me deixou, mas eu nunca deixei você”).

Há muito mais de pais e filhos no cancioneiro popular. Com suas dores e seus amores.

 

 

 

 

 

No Dia do Amigo, músicas sobre amigos e amizades

Hoje é o Dia do Amigo. Num tempo em que os amigos são cada vez menos presenciais e mais virtuais. E deixam de ser amigos movidos por cores partidárias, diferenças ideológicas, intolerância religiosa.

Mas o que desejo, aqui, é apenas lembrar de músicas que falam de amigos e amizades. São muitas. O cancioneiro do mundo está cheio delas.

Dos Beatles (“In My Life”) aos Rolling Stones (“Waiting on a Friend”), de James Taylor (“You’ve Got a Friend”) a Simon & Garfunkel (“Bridge Over Troubled Water”). De Milton Nascimento (“Canção da América”) ao MPB4 (“Amigo É Pra Essas Coisas”), de Roberto Carlos (“Amigo”) a Gilberto Gil (“Meu Amigo, Meu Herói”).

Os versos estão na nossa memória afetiva.

“Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”, do Milton cantado por Elis Regina.

“Meu amigo, meu herói, como dói saber que a ti também corrói a dor da solidão”, do Gil cantado por Zizi Possi.

E as imagens: como uma ponte sobre águas turvas que protege o amigo, na letra da canção de Paul Simon que ele gravou com Art Garfunkel.

Ou, simplesmente, a garantia: “você tem um amigo”. Com a doçura da autora (Carole King) ou a delicadeza do intérprete (James Taylor).

 

Caetano, Gil e Elba entre os vencedores do Prêmio da MPB

Cae e Gil

Caetano Veloso e Gilberto Gil ganharam o prêmio de Melhor Álbum de MPB na 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Eles venceram com o álbum duplo ao vivo “Dois Amigos, um Século de Música”. Elba Ramalho, com o CD “Cordas, Gonzagas e Afins”, levou os prêmios de Melhor Álbum e Melhor Cantora na categoria regional. O evento, que este ano homenageou Gonzaguinha, foi realizado nesta quarta-feira (22) no Rio de Janeiro. 

O CD duplo de Caetano e Gil (também lançado em DVD) foi gravado em São Paulo em um dos muitos shows da turnê que os dois artistas realizam há um ano. O show – um duo acústico de voz e violão – percorreu diversos países da Europa e América do Sul. Também passou pelos Estados Unidos e Israel. No Brasil, foi apresentado nas principais capitais. O CD de Elba (também editado em DVD) traz a cantora interpretando um repertório que mistura Luiz Gonzaga com outros autores. 

Outros premiados ontem à noite no Prêmio da Música Brasileira: Roberto Carlos, melhor cantor na categoria popular; Cauby Peixoto, melhor álbum em língua estrangeira (“Cauby Sings Nat King Cole”); Adriana Calcanhoto, melhor DVD (“Loucura”); Xangai, melhor cantor, categoria regional; Caetano Veloso, melhor cantor categoria MPB.

Erasmo é grande nome do rock, mas sempre flertou com a MPB

Erasmo 75

Chamado de Tremendão desde a época da Jovem Guarda, Erasmo Carlos faz 75 anos neste domingo (05). A parceria com Roberto Carlos e o vínculo profundo com o rock são o que há de mais significativo na trajetória desse gigante gentil.

A parceria com Roberto Carlos produziu dezenas e dezenas de canções. É uma das mais importantes da música popular do Brasil, a despeito de todas as críticas que são dirigidas aos dois artistas. Mas é um mistério: ninguém sabe quem fez o que, qual o papel de cada um no cancioneiro dos Carlos.

Desde a juventude, Erasmo sempre se identificou mais com o rock do que Roberto. Identificação que o levou a se consolidar como um dos grandes nomes da versão brasileira do gênero que transformou a música popular e a indústria do disco a partir de meados dos anos 1950.

Paradoxalmente, lutou a vida toda para ser reconhecido fora do rock. No fundo, o que Erasmo sempre quis foi fazer parte da turma da MPB. As pistas estão nos primeiros discos que gravou após a Jovem Guarda. Lá estão o autor de um samba como “Coqueiro Verde” e o intérprete do Caetano Veloso de “Saudosismo”.

A longa estrada percorrida pelo garoto da turma da Tijuca mostra que o bom em Erasmo é juntar o que parece diferente: a parceria com Roberto Carlos, o amor pelo rock, o desejo de ser da MPB. Sua música é tudo isso.

Os melhores momentos de sua discografia são da década de 1970 (“Carlos, Erasmo”, “Sonhos e Memórias”, “Projeto Salva Terra”, “Banda dos Contentes”). Mas, recentemente, entre os 68 e os 73 anos, gravou uma surpreendente trilogia de inéditas. “Rock`n`Roll”, “Sexo” e “Gigante Gentil” são discos irresistíveis. Confirmam o talento e a vitalidade do velho Tremendão.