Roberto Carlos não criticou Sérgio Moro. Notícia falsa, diz assessoria

Roberto Carlos não fez críticas ao juiz Sérgio Moro. A notícia é falsa, diz em nota a assessoria do artista.

O episódio ocorreu na mesma semana em que o Dicionário de Oxford escolheu pós-verdade como a palavra de 2016.

Estamos na era da pós-verdade. Post-truth. A pós-verdade ajudou a eleger Donald Trump presidente dos Estados Unidos.

As mentiras disseminadas nas redes sociais se sobrepõem às verdades. As pessoas se deixam guiar pelo que não é verdadeiro.

Os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Em 1989, no debate às vésperas da eleição, Collor disse que não tinha dinheiro para comprar um equipamento de som como o de Lula. Collor mentiu. O eleitor acreditou nele. Se fosse hoje, a afirmação dele se enquadraria no conceito de pós-verdade.

O caso de Roberto Carlos: uma “notícia” no Facebook dizia que o artista estava perdendo seguidores nas redes sociais depois de criticar o juiz Sérgio Moro e apoiar o PT. Não é verdade.

A assessoria do Rei divulgou nota que está em seu perfil no Facebook.

O teor da nota: “Roberto Carlos, como a maioria dos brasileiros, tem orgulho do trabalho do juiz Sérgio Moro e de todos da equipe do Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público envolvidos na operação Lava Jato, exemplos de dignidade e competência. Novamente a internet é usada para divulgar notícias falsas e estamos tomando providências jurídicas para que fatos como este não tornem a acontecer”.

Roberto Carlos tem 75 anos, quase 60 de carreira. Ele não costuma se envolver com política. Direito dele. O que é grande nesse artista que chamamos de Rei é a singularíssima relação da sua música com milhões de brasileiros.

A pós-verdade sempre existiu. O que assusta é sermos dominados por ela.

Em “Alucinação”, agora relançado, Belchior é injusto com tropicalistas

Belchior fez 70 anos em outubro. Seu melhor disco, lançado há 40 anos, voltou às lojas num CD afinal remasterizado (a edição anterior era inaudível). O tempo passou, mas Alucinação permanece um grande disco.

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Em 1976, quando lançou Alucinação, Belchior tinha 30 anos incompletos. Sua Mucuripe (parceria com Fagner) havia sido gravada por Elis Regina e por Roberto Carlos. E seu primeiro disco, numa gravadora pequena, era praticamente desconhecido.

Elis, então, cuidou de projetar Belchior nacionalmente ao gravar Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, duas canções do cearense que, na voz dela, ganharam versões definitivas.

Alucinação saiu pela Philips. Belchior assinou contrato para apenas um LP. Fez um grande disco, entrou para a história da MPB com ele.

Apenas um Rapaz Latino Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, A Palo Seco – algumas das suas canções mais importantes e mais populares estão no breve repertório de dez faixas.

Em letras antológicas, Belchior dialoga com a sua geração na noite brasileira. Está antenadíssimo com o universo pop do Brasil e do mundo, também com as referências que o ajudariam a construir a sua poesia cantada.

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Mas há um equívoco pouco mencionado nesse grande disco: chamar de velhos os tropicalistas.

Está na letra de Apenas um Rapaz Latino Americano. O antigo compositor baiano é Caetano Veloso, autor da letra (a música é de Gilberto Gil) de Divino, Maravilhoso, a canção na qual Belchior diz não acreditar.

Ora, antigo é uma palavra que não cabia em Caetano em 1976, quando ele tinha pouco mais de 30 anos e era um dos responsáveis por parte significativa das transformações operadas na música popular do Brasil daquela época.

Divino, Maravilhoso é uma canção identificada com a turbulência do ano de 1968 e tem um refrão antológico:

É preciso estar atento e forte/não temos tempo de temer a morte.

Se prestarmos atenção, o verso permanece atual!

“Teresa Cristina Canta Cartola” é um dos melhores discos do ano

Uma voz feminina, um violão de sete cordas a acompanhá-la, o repertório de um compositor. Juntos, os três elementos falam da grandeza do samba do Brasil. “Teresa Cristina Canta Cartola” (CD e DVD) é um dos melhores lançamentos do ano.

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Teresa Cristina surgiu na cena carioca, em plena Lapa, há uns 15 anos ou um pouco mais. Com o grupo Semente, gravou um songbook duplo de Paulinho da Viola que marcou o início da sua carreira e a projetou nacionalmente.

Desde cedo, foi identificada como cantora de samba. Mas Teresa gosta de black music americana, de rock pesado e de Roberto Carlos.

O disco Melhor Assim, de 2010, indicava que ela seguiria outros caminhos além do samba. A confirmação viria em 2012: com o grupo indie Os Outros, fez um disco de rock todo dedicado ao repertório de Roberto Carlos. Saudável ousadia para uma sambista tradicional.

Agora, volta à tradição do samba num registro ao vivo lançado primeiro no mercado americano.

A portelense se debruça sobre o repertório do mangueirense Cartola com uma doçura e uma sensibilidade singulares. O violão de Carlinhos Sete Cordas mistura a tradição à modernidade do violão brasileiro e oferece a parceria perfeita para a voz da cantora.

Teresa Cristina (agora em turnê com Caetano Veloso) traz para os nossos dias a música de Cartola. O compositor, que morreu em 1980, já estava em cena nos anos 1930. Seus sambas atravessam o tempo com um frescor invejável. A extraordinária beleza da sua música encontra na voz da nova intérprete algo que não é passado, nem precisa ser presente. É permanência.

Quem disse que Teresa Cristina é uma princesa do samba? Deve ter sido Caetano Veloso. Acertou. É isso mesmo o que ela é!

Roberto Carlos volta a cantar “Quero que Vá Tudo pro Inferno”

Dias atrás, escrevi aqui que torcia para que, ao receber Gilberto Gil na gravação do seu especial de fim de ano, Roberto Carlos cantasse Se Eu Quiser Falar com Deus. A música foi composta por Gil para o Rei, mas este não quis gravá-la.

Claro que não aconteceu. Mas houve algo surpreendente na gravação. Roberto Carlos voltou a cantar Quero que Vá Tudo pro Inferno, que banira do seu repertório há muitos anos.

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Costumo dizer que só quem ouviu Quero que Vá Tudo pro Inferno na época sabe da sua força e do quanto ela tinha de transgressão.

Eu estava com sete anos incompletos e ainda tenho a lembrança de como foi. Um sucesso extraordinário, uma verdadeira febre nacional. Na nossa rua, em Jaguaribe, uma difusora tocava a música o dia inteiro.

Nos sábados, eu e meus primos fazíamos “shows” para a nossa avó. Católica fervorosa, ela permitia a inclusão da música no repertório, desde que a palavra inferno fosse omitida.

Engraçado! Parecia antecipar, em muitos anos, o que o próprio Roberto Carlos faria.

Impossibilitado de cantar a música, menos pela crença do que pelo transtorno obsessivo compulsivo, o Rei acabou por retirá-la do set list dos seus shows.

Não foi a única canção atingida por suas compulsões. Em outras, alterou letras, trocou palavras, mexeu com o sentido dos versos originais.

Roberto Carlos buscou ajuda profissional e falou abertamente sobre o problema.

Os resultados vieram com o tempo. Voltou a cantar Negro Gato. E a pronunciar “se o bem e o mal existem” e não “se o bem e o bem existem”, em É Preciso Saber Viver.

Muita gente sabia que, no dia em que voltasse a cantar Quero que Vá Tudo pro Inferno, teria atingido um estágio muito satisfatório de convivência com o TOC.

O retorno da canção ao seu repertório é uma vitória para Roberto Carlos na luta contra o transtorno. E um motivo a mais para vermos o seu especial de fim de ano.

Roberto Carlos recebe Gil e Caetano para ensaiar

Não é todo dia que esses três se encontram.

Roberto Carlos recebeu Gilberto Gil e Caetano Veloso para um ensaio em seu estúdio no Rio de Janeiro.

Eles estarão juntos no especial de fim de ano do Rei.

A foto foi postada no perfil de Gil no Facebook.

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Trilha de “Aquarius” precisa ser lançada em CD

Anotei as músicas da trilha de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, para usar num programa da CBN João Pessoa. Não existe ainda em CD, nem sei se será lançado.

Aquarius foto do cartaz

Compartilho com vocês:

Hoje – Taiguara

Another One Bites the Dust – Queen

Toda Menina Baiana – Gilberto Gil

Dois Navegantes – Ave Sangria

Jeito Estúpido de Te Amar – Maria Bethânia

O Quintal do Vizinho – Roberto Carlos

Sentimental Eu Sou – Altemar Dutra

Recife Minha Cidade – Reginaldo Rossi

Sufoco – Alcione

Pai e Mãe – Gilberto Gil

Fat Bottomed Girls – Queen 

A música tem um papel importantíssimo no filme. Quem viu Aquarius, sabe!

 

Parceria de Roberto e Erasmo é um mistério a ser desvendado

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.

Trilha de “Aquarius” é ótima porque é desigual

A música é um dos destaques de Aquarius, o fascinante e perturbador filme de Kleber Mendonça Filho, em cartaz nos cinemas brasileiros desde a última quinta-feira (01).

A opção de Kleber foi por uma trilha preexistente. Como Tarantino e Scorsese gostam de fazer com absoluta maestria.

Muito tem se falado da canção “Hoje”, sucesso de Taiguara. Ela está na abertura e no encerramento do filme. É evocativa de uma época, mas não custa lembrar que Taiguara não era muito bem assimilado pela turma da MPB. O passaporte veio aos poucos, junto com o engajamento político do artista.

A trilha vai do popularesco ao erudito. Por isso é tão boa. Não há preconceitos na escolha. Ela é desigual. Reginaldo Rossi e Villa-Lobos. Roberto Carlos e Queen. Alcione e Gilberto Gil.

Tudo escolhido com muita propriedade.

Vejam o efeito dos vocais arrojados do Queen na cena em que a personagem de Sônia Braga põe “Fat Bottomed Girls” na vitrola, em contraponto aos ruídos que vêm da festa no apartamento do andar de cima.

Ou a delicadeza do choro canção “Pai e Mãe”, de Gilberto Gil, que o sobrinho e a namorada carioca oferecem à tia.

Ou, ainda, as falas sobre Maria Bethânia, provocadas por “Um Jeito Estúpido de te Amar”.

E a criança diante da música de Villa-Lobos? E o brega estilizado de Reginaldo Rossi na noite em que Clara sai para dançar com as amigas? E a voz de Alcione no aniversário em Brasília Teimosa?

Momentos antes, tem a fala sobre Boa Viagem e Pina, Copacabana e Leme. Ricos e pobres. Num pequeno comentário, um retrato do Brasil e suas divisões.

O momento musical que mais me emocionou em Aquarius não foi nenhum desses que mencionei. Foi na festa dos 70 anos da tia de Clara, logo no começo do filme.

No lugar do tradicional “Parabéns pra você”, a família canta um outro: “Saudamos o grande dia/em que hoje comemoras/seja a casa onde moras/a morada da alegria”.

Conhecem? É um “parabéns” com melodia de Heitor Villa-Lobos e letra de Manuel Bandeira!

Era a canção que, na infância, eu ouvia nas festas de aniversário da minha família!