Por isso essa voz tamanha!

Roberto Carlos gravou três músicas compostas por Caetano Veloso: Como 2 e 2, Muito Romântico e Força Estranha.

Na primeira, o Rei foi porta-voz da tristeza de um exilado. Caetano já voltara para o Brasil quando compôs as outras duas.

Em 1979, na turnê Muito, tivemos a oportunidade de ouvir as três na voz do autor.

Retratos de Roberto Carlos tirados por Caetano?

Retratos de Caetano tirados por Roberto Carlos através de Caetano?

As duas coisas juntas?

O autor falava disso antes de cantá-las.

Das três, talvez a mais marcante seja Força Estranha. E a que de fato se incorporou ao repertório permanente do Rei.

Gosto muito dessa versão gravada ao vivo em São Paulo.

Vejam os metais. E a guitarra. E a voz tamanha do artista!

Vamos ouvir?

 

Roberto Carlos tem discografia que desmente quem fala mal dele

Quem faz aniversário nesta quarta-feira (19) é Roberto Carlos. Vai completar 76 anos e ainda não é uma unanimidade nacional. Uma pena. Um grande artista que inseriu dezenas de canções na memória afetiva do povo brasileiro.

Fui fazer um top 10 dos discos de Roberto Carlos. Não deu. Fiz um top 15. E ainda senti falta de alguma coisa.

É Proibido Fumar (1964)

A Jovem Guarda ainda não existia, mas Roberto Carlos já começava a se transformar num nome nacional. Tem O Calhambeque, versão assinada por Erasmo Carlos, e É Proibido Fumar, da dupla Roberto e Erasmo. Nasci para Chorar pode entrar para a lista dos números muito bons, mas pouco lembrados, do repertório de Roberto Carlos.

Jovem Guarda (1965)

Quero que Vá Tudo pro Inferno, faixa que abre o disco, colocou Roberto Carlos no topo de todas as paradas brasileiras. Aos 24 anos, ele começava, como ídolo da juventude, a conquistar um espaço que o transformaria num dos maiores nomes da nossa música popular. O repertório traz ainda Lobo Mau, Coimbra e Mexerico da Candinha.

Roberto Carlos (1966)

A capa preta com a foto do artista lembra a de With The Beatles. O repertório é cheio de sucessos: Eu Te Darei o Céu, Nossa Canção, Querem Acabar Comigo, Esqueça, Negro Gato, Namoradinha de um Amigo Meu, É Papo Firme. Roberto iniciava uma série de discos com vários hits, algo que não existe mais no mercado fonográfico.

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967)

O disco com as músicas do filme dirigido por Roberto Farias. Roberto Carlos ainda é um artista jovem, mas dá os primeiros sinais de amadurecimento, como na canção Como É Grande o Meu Amor por Você. Os metais mexem com a sonoridade da banda. Entre os hits, Eu Sou Terrível, Por Isso Corro Demais, Quando e Por Isso Estou Aqui.

O Inimitável Roberto Carlos (1968)

O êxito de um novo cantor, Paulo Sérgio, cuja voz lembrava remotamente a de Roberto Carlos, foi responsável pelo inimitável do título. Bobagem. Àquela altura, não havia mais volta na relação profunda de Roberto Carlos com o público brasileiro. As Canções que Você Fez pra Mim é destaque no repertório. A influência da soul music é nítida.

Roberto Carlos (1969)

Quando o disco foi lançado, no fim de 1969, Roberto Carlos já estava associado aos nossos natais. Novamente voltado para o soul, ele canta As Flores do Jardim da Nossa Casa, As Curvas da Estrada de Santos e Sua Estupidez. Não Vou Ficar é de Tim Maia e está no filme O Diamante Cor de Rosa, o segundo que tem RC como protagonista.

Roberto Carlos (1970)

O maior sucesso do disco foi Jesus Cristo, que inaugurou a longa série de canções de inspiração religiosa de Roberto Carlos. Uma Palavra Amiga e O Astronauta estão na lista das grandes canções pouco lembradas do repertório do Rei. Meu Pequeno Cachoeiro, de Raul Sampaio, é um emocionado tributo à cidade onde RC nasceu.

Roberto Carlos (1971)

Para muita gente, o melhor disco de Roberto Carlos. Marca o ingresso na maturidade. Detalhes, a faixa que abre o repertório, é, talvez, a sua melhor canção. Em Como Dois e Dois, ele é intérprete do Caetano Veloso exilado. Em Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, homenageia Caetano, mas o público não sabe. Tem ainda Amada Amante.

Roberto Carlos (1972)

O disco traz A Montanha, da série de canções religiosas, e Como Vai Você, até hoje um grande sucesso do repertório de Roberto Carlos. À Distância apareceria, pouco depois, no filme Violência e Paixão, de Luchino Visconti. Em Acalanto, temos a única vez em que o Rei interpretou Dorival Caymmi. O Divã é do grupo de canções confessionais.

Roberto Carlos (1973)

Jesus Cristo é a canção religiosa mais popular de Roberto Carlos, mas O Homem talvez seja a mais bonita. O arranjo lembra as gravações de George Harrison logo após o fim dos Beatles. O disco traz também Proposta, uma das melhores entre as baladas erótico-sentimentais da década de 1970. Em Atitudes, Roberto ainda é soul.

Roberto Carlos (1975)

Dez anos depois, Roberto Carlos regrava Quero que Vá Tudo pro Inferno, que acabou banida do seu repertório. O disco traz os sucessos Olha e Além do Horizonte. O intérprete brilha em Mucuripe, de Fagner e Belchior, gravada antes por Elis Regina. Em El Humahuaqueño, Roberto dialoga com a música latino-americana.

Roberto Carlos (1977)

A homenagem surpresa ao parceiro, Erasmo Carlos, em Amigo abre o disco que está entre os mais vendidos e os melhores que gravou. Um repertório cheio de grandes sucessos: Falando Sério, Muito Romântico, Cavalgada, Jovens Tardes de Domingo, Outra Vez. Solamente una Vez mostra Roberto interpretando Agustín Lara.

Roberto Carlos (1981)

O disco tem o Roberto Carlos religioso (no rock Ele Está pra Chegar) e o engajado nas causas ecológicas (na balada As Baleias). Tem também o erótico que marcou tanto a década de 1970 (Tudo Para, Cama e Mesa). Mas o melhor do repertório é o autorretrato que nos oferece em Emoções. Há muitos anos, a música que usa para abrir seus shows.

Acústico (2001)

Como seu ídolo, Tony Bennett, Roberto Carlos também se rendeu aos especiais acústicos da MTV. E fez um programa primoroso, nunca exibido por causa do seu contrato de exclusividade com a Globo, mas transformado em CD e DVD. As canções ganharam arranjos modernos num repertório que percorre toda a carreira do Rei.

A Música de Tom Jobim (2008)

Ninguém acreditava que fosse possível. Nem o empresário de Roberto Carlos. O Rei e Caetano Veloso juntos, interpretando Tom nos 50 anos da Bossa Nova. O show virou CD e DVD. Foi a primeira vez em que RC dividiu um disco com outro artista. Bom que tenha sido com Caetano, que enxerga nele regiões profundas do ser do Brasil.

Sérgio Sampaio fez música para Roberto Carlos sem poupar o ídolo

Se estivesse vivo, o compositor capixaba Sérgio Sampaio faria 70 anos nesta quinta-feira (13). Morreu em 1994, aos 47 anos, sem conseguir manter uma carreira estável que fosse proporcional ao seu talento.

Há o grande disco de estreia, em 1973, puxado pelo êxito comercial da canção Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua. E há um (bom) segundo disco cujo título, Tem que Acontecer, apontava para as dificuldades que o artista tinha para se manter no mercado fonográfico.

Sérgio Sampaio é da geração que conquistou dimensão nacional na década de 1970, depois do Tropicalismo. Muito ligado a Raul Seixas, dividiu com o baiano (mais Edy Star e Miriam Batucada), antes da fama, o projeto coletivo Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10.

Fã de Roberto Carlos (e, como o Rei, filho de Cachoeiro do Itapemirim), Sérgio Sampaio compôs e gravou um blues dedicado ao ídolo. Mas Meu Pobre Blues acaba por não poupar o homenageado.

Vamos ouvir?

Roberto Carlos tenta repetir sucesso de “Esse Cara Sou Eu”

Roberto Carlos rompeu com a tradição do disco de final de ano na década de 1990. A fórmula estava desgastada.

Foi Bom. O artista fez o que nunca havia feito: o acústico da MTV, o ao vivo com Caetano Veloso dedicado a Tom Jobim, o disco gravado em Abbey Road, além de registros ao vivo no Brasil, em Israel, nos Estados Unidos.

O público cobra, e o Rei promete um disco de inéditas. Não acho que tenha obrigação de fazer. Não precisa. Já fez tudo o que o transformou num dos grandes artistas da nossa música popular.

Enquanto os fãs esperam pelo CD de inéditas, Roberto Carlos faz música para novelas e adere ao EP, formato pouco adotado no mercado fonográfico brasileiro.

O EP que lançou em 2012, com Esse Cara Sou Eu, foi um sucesso absoluto. Vendeu tanto quanto seus velhos LPs.

Agora em abril, está de volta com mais um EP. Sereia, que puxa o repertório de quatro faixas, está na trilha da nova trama das nove da Globo.

Tem soluções melódicas e harmônicas que lembram outras canções que Roberto fez, nos últimos 20 anos, sem a parceria de Erasmo Carlos.

Vamos ver se repete o êxito de Esse Cara Sou Eu.

O Rei merece a majestade! Ouçam/vejam “Cavalgada”

Trabalhei com o jornalista Chico Maria na TV Cabo Branco. Notável entrevistador da televisão paraibana e grande figura humana.

Como sabia do meu amor pela música, ele às vezes chegava junto de mim e cantarolava alguma coisa. Orlando Silva sempre estava no repertório.

Um dia, escolheu Cavalgada.

No trecho “estrelas mudam de lugar”, parou e fez o comentário:

O Rei merece a majestade!

Essa historinha de Chico Maria é um caminho oblíquo para chegar em Eduardo Lages.

Pois é! O maestro de Roberto Carlos faz show nesta sexta-feira em João Pessoa, no teatro A Pedra do Reino. Ao piano, divide o palco com Joanna e Rosemary.

Vamos ver Lages num momento intimista. Um piano, duas vozes, o maestro e suas histórias.

Eduardo Lages trabalha com Roberto Carlos há quase 40 anos. Arranjador inspirado, na verdade divide o palco com o Rei, comandando com muito charme uma grande banda.

Como nessa versão de Cavalgada, em que brilha trazendo elementos do rock progressivo para a balada de Roberto e Erasmo.

Minha avó “censurou” Quero que Vá Tudo pro Inferno antes do Rei!

Detalhes inaugura a fase adulta. Jesus Cristo é sua canção de inspiração religiosa mais marcante. Emoções é um autorretrato tirado aos 40. Quero que Vá Tudo pro Inferno é a melhor tradução da rebeldia juvenil do Rei.

São canções inesquecíveis de Roberto Carlos. Há outras dezenas e dezenas guardadas na memória afetiva do povo brasileiro.

Quero que Vá Tudo pro Inferno é do final de 1965. Foi um sucesso avassalador. Os contemporâneos sabem o quanto havia de transgressão naquele quase rock.

Sempre que ouço, lembro de uma história. Peço licença para contar.

Minha avó Stella (na foto, com Egberto Gismonti) era católica fervorosa.

Aos sábados, eu e meus primos tínhamos o hábito de cantar para ela. À noite, na cozinha da sua casa em Jaguaribe. Garotos fazendo um “show” particular para a Vovó.

De repente, a canção de Roberto Carlos se transforma numa febre nacional.

Resolvemos incluí-la no set list do próximo “show” doméstico.

Ensaiamos. Estava tudo pronto quando recebemos a advertência. Minha avó, guiada pelos rigores da igreja, determinou:

Podem cantar, mas não pronunciem a palavra inferno! 

E assim fizemos!

Vovó, sem saber, antecipou em anos a censura a que, entre a fé e o transtorno obsessivo compulsivo, o rei acabou por se impor.

Censura extinta nesta sexta-feira (23), quando Roberto Carlos, afinal, voltou a cantar Quero que Vá Tudo pro Inferno.

Roberto Carlos dribla TOC e canta Quero que Vá Tudo pro Inferno

Roberto Carlos quebrou, faz tempo, a tradição do seu disco de final de ano. Gostando ou não do artista, os discos eram essenciais nos natais brasileiros e marcaram milhões de pessoas.

Roberto Carlos, aos 75 anos, mantém a tradição do especial natalino na Rede Globo. São mais de quatro décadas.

O programa exibido nesta sexta-feira (23) foi gravado num ambiente menor, com uma plateia menos numerosa. Ficou mais intimista e, por isso, recebeu o nome de Simplesmente Roberto Carlos.

O momento mais importante do especial foi quando Roberto Carlos cantou Quero que Vá Tudo pro Inferno. A canção, uma das mais icônicas da sua carreira, fora banida do seu repertório por causa do TOC (transtorno obsessivo compulsivo), doença que atormenta o Rei.

Voltar a cantar (e pronunciar a palavra “inferno”) essa música que conquistou o Brasil há mais de 50 anos é uma vitória pessoal do artista e uma alegria para os seus fãs.

Só quem foi contemporâneo de Quero que Vá Tudo pro Inferno conhece a força dessa canção e sabe o quanto ela foi transgressora.

O especial teve outros grandes momentos.

Destaco o encontro de Roberto Carlos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, amigos e companheiros de geração. Comovente ouvir os três cantando Coração Vagabundo e Marina.

Marisa Monte, com Dadi à guitarra, cantou De que Vale Tudo Isso como se fosse sua.

E Zeca Pagodinho fez o Rei cair no samba. Só assim, ouvimos, na sua voz, Noel, Lupicínio e Cartola!

Roberto Carlos vem de regiões profundas do ser do Brasil, diz Caetano Veloso. Isso, ninguém tira dele. Os seus defeitos são infinitamente menores do que as suas virtudes. Basta vê-lo num programa de televisão!

Roberto Carlos fez música para um exilado pela ditadura

Hoje (23) é dia de ver o especial de Roberto Carlos na Globo. Esse ano, o Rei canta com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Por isso, conto essa história:

Um pouco antes do Tropicalismo, Maria Bethânia sugeriu a Caetano Veloso que prestasse atenção em Roberto Carlos e na Jovem Guarda. Ele conta, no livro de memórias Verdade Tropical, que “Bethânia, cujo não alinhamento com a Bossa Nova a deixava livre para aproximar-se de um repertório variado, me dizia explicitamente que seu interesse pelos programas de Roberto Carlos se devia à vitalidade que exalava deles, ao contrário do que se via no ambiente defensivo da MPB respeitável”. Caetano seguiu o conselho da irmã e incorporou a vitalidade que Bethânia enxergava em Roberto e na Jovem Guarda ao Tropicalismo, o movimento que, em 1968, lideraria ao lado de Gilberto Gil.

Sempre que voltamos aos tropicalistas, identificamos em Gil o interesse pela música nordestina, fruto, sobretudo, da temporada que passou no Recife pouco antes de se transformar num artista de dimensão nacional. O vínculo com Roberto Carlos e a Jovem Guarda deve ser atribuído a Caetano. É ele, afinal, que costuma mencionar a influência que o Rei exerceu no momento em que o Tropicalismo foi esboçado. Foi ele que mais assumiu uma postura de valorização do trabalho de Roberto Carlos, arriscadíssima no universo resguardado da esquerda pós-Bossa Nova. A gratidão de Roberto seria traduzida numa canção.

Preso (junto com Gil) em dezembro de 1968, depois confinado em Salvador e, finalmente, exilado na Inglaterra entre 1969 e 1972, Caetano Veloso, um dia, recebeu a visita de Roberto Carlos na sua casa em Londres. “Roberto veio com Nice, sua primeira mulher, e nós sentimos nele a presença simbólica do Brasil”, relata em Verdade Tropical. Caetano lembra que, “como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a embaixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas que a princípio não nos entenderam e nos queriam agora mitificar: ele era o Brasil profundo”.

Durante a visita, Roberto Carlos levou Caetano às lágrimas quando, ao falar do seu novo disco (o LP que começa com As Flores do Jardim da Nossa Casa, lançado no Natal de 1969), pegou o violão e cantou As Curvas da Estrada de Santos, “dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar”. Caetano recorda que “essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nós nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim”. E diz que usou a barra do vestido preto de Nice para assoar o nariz e enxugar as lágrimas, enquanto, com ternura, o Rei o chamava de bobo. Roberto Carlos voltou para o Brasil pensando em Caetano e o homenageou com uma canção.

A música é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, lançada no final de 1971 no disco que tem Detalhes. Na época, pouca gente sabia que a canção havia sido composta para Caetano Veloso e falava do dia em que ele retornaria ao Brasil. A maioria achava que a letra era sobre uma mulher. A tristeza de um exilado que desejava voltar não fazia parte das conversas dos fãs do Rei. Do mesmo modo que a esquerda não atribuiria a Roberto Carlos a disposição de dedicar uma música a um artista que havia sido preso e mandado para fora do país. O seu distanciamento da MPB engajada parecia assegurar que ele não agiria assim.

“Uma história pra contar de um mundo tão distante” ou “você olha tudo e nada lhe faz ficar contente/você só deseja agora voltar pra sua gente”. Ou ainda: “você anda pela tarde e o seu olhar tristonho/deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho”. Os versos soaram claros quando Caetano, aos 50 anos, revelou a origem da canção. No período mais duro do regime militar, Roberto fez música para um exilado e foi seu porta-voz ao gravar Como Dois e Dois. De um lado, o gesto solidário que vale por muitas canções engajadas. Do outro, o intérprete trazendo para o Brasil profundo o que Caetano sentia no exílio: “tudo vai mal, tudo/tudo é igual quando eu canto e sou mudo”.

Roberto Carlos tem um paraibano em sua corte! Vocês sabiam?

Jô Soares entrevistou Roberto Carlos sexta-feira passada.

No meio da conversa, ele comentou a presença de alguém na plateia.

Era Genival Barros, da equipe do Rei. E soltou o apelido do cara:

Quém Quém! 

Foi Jô que passou a chamá-lo assim. Desde os tempos da velha TV Record.

Conheci Genival Barros no final do ano 2000. O show de Roberto Carlos em João Pessoa fora remarcado duas vezes, e ele veio na frente dizer ao público que ficasse tranquilo. A apresentação estava confirmada.

Em poucos minutos de conversa, descobri quem era: um campinense que trocara sua cidade por São Paulo no início dos anos 1960 e que, na segunda metade daquela década, passara a trabalhar com Roberto Carlos. Era um paraibano na corte do Rei.

Genival sempre vem na frente. Checa cada detalhe: o palco, a plateia, o espaço onde será montado o camarim do artista.O Rei é um perfeccionista, e as casas de shows têm que estar prontas para recebê-lo.

Desde que o conheci, tenho o hábito de procurá-lo no dia do show de Roberto Carlos. Genival e suas histórias. Do tempo em que trabalhou como controlista da Rádio Caturité, em Campina Grande. Da grande aventura que foi a sua ida para São Paulo, em 1961. Das passagens pelas rádios Bandeirantes, Excelsior e Record. Da chegada à TV Record.

Genival estava no lugar certo, na hora certa. Testemunhou um momento de grande efervescência na música popular do Brasil – os festivais, a Jovem Guarda, o Fino da Bossa – e atuou como técnico de som da emissora de televisão que reunia em seus programas os melhores artistas da geração que se revelou a partir de meados da década de 1960.

Foi na Record que conheceu Roberto Carlos. E foi lá que recebeu o convite para trabalhar com ele. O garoto que saíra de Campina Grande só com a passagem de ida, sem saber o que faria em São Paulo, entrava para a corte do Rei. Está lá há quase 50 anos. E fala com orgulho do artista de quem todos nós também nos orgulhamos muito.

Em outubro de 2007, na noite do show de Roberto Carlos em João Pessoa, Genival Barros me deu um presente. No backstage, colocou uma pulseira no meu braço e disse que a minha vez havia chegado.

Em seguida, me conduziu ao camarim do Rei.

Roberto Carlos, Jô Soares e Michel Temer!

Quando estava no SBT, Jô Soares convidou Roberto Carlos para ir ao seu talk show.

Roberto Carlos, contratado da Globo, pediu autorização a Boni. E conseguiu.

Pouco antes da gravação, ligou para Jô e disse que não ia mais. Boni tinha viajado e não deixara nada por escrito.

O Gordo, então, deu um conselho ao amigo. Sugeriu que, todos os dias, ao acordar, ele se pusesse diante de um espelho e dissesse várias vezes:

Eu sou Roberto Carlos!

Eu sou Roberto Carlos!

Eu sou Roberto Carlos!

Despediram-se. Minutos depois, o Rei liga e diz:

Jô, eu vou ao seu programa!

Jô Soares contou essa história sexta passada ao entrevistar Roberto Carlos.

Lembrei do Brasil.

Precisamos de um presidente que vá ao espelho e diga:

Eu sou o presidente da República!

Eu sou o presidente da República!

Eu sou o presidente da República!

Claro que não é Michel Temer!