Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.

Dudu Braga, Roberto Carlos, ativismo, cidadania

Paizão!

É assim que ele chama o pai.

Ele é Dudu Braga.

O pai é Roberto Carlos.

Nesta quinta-feira (25), recebemos Dudu para uma entrevista na CBN João Pessoa.

Aos 58 anos, sou um homem desencantado com minha profissão. Poucas coisas nela ainda me alegram. Entrevistar (com o âncora Bruno Filho) Dudu Braga me proporcionou momentos de grande alegria.

Ele veio a João Pessoa fazer palestras.

Dudu conta a história do garoto que nasceu com um glaucoma congênito e enxergou normalmente até os 23 anos, quando, por causa de um descolamento de retina, perdeu a visão. É a sua história.

Dudu faz um ativismo sem a chatice do politicamente correto. Ele conversa abertamente sobre os temas relacionados à perda da visão. Usa a palavra cego. Tira os óculos escuros e mostra os olhos enquanto fala com você. Sabe que as pessoas vão usar o verbo ver com ele e não se importa nem um pouco.

Não quero dizer que Dudu Braga é um exemplo de superação porque não gosto da expressão. Acho tão lugar-comum!

Vou dizer de outro jeito:

Dudu Braga é um grande exemplo de cidadania!

Cidadania que se sobrepõe ao debate ideológico, aos limites dos partidos políticos.

Cidadania! Assim! Com exclamação!

O cara viaja, conversa com as pessoas, conta sua história, atua junto a entidades. Age com uma simplicidade que conquista de cara, em poucos minutos. O que há nele é o humano acima de tudo. A sensibilidade. A emoção. Também a consciência dos papéis sociais que cada um tem.

E ainda há a conversa sobre música. A música do pai e a relação do seu cancioneiro com regiões profundas do ser do Brasil. A música da sua banda (Dudu é baterista) RC na Veia. A música que ele ouve. Que nós ouvimos. Da contenção da Bossa Nova ao rock do Led Zeppelin, ao soul de James Brown.

Muita música! Muitas histórias!

Especial mesmo essa tarde com Dudu Braga!

Roberto Carlos é muito bom na voz de Teresa Cristina!

Estou entre os que defendem a tese de que o melhor intérprete de Roberto Carlos é ele mesmo. Tendo a identificar um certo preconceito quando vejo alguém dizendo que só gosta das canções dele com outras vozes. Parece argumento de quem ouve apenas o que se convencionou chamar de MPB, território no qual, desde os anos 60 do século passado, o Rei não caberia. Bobagem. Com sua voz nasal e pouco extensa, Roberto Carlos é um grande cantor, um dos nossos mais expressivos. E o seu repertório ainda não encontrou intérprete mais adequado do que ele. O que não nos impede de reconhecer que também é bom ouvi-lo com cantores e cantoras que o gravaram.

Na segunda metade da década de 1970, no auge da atuação das patrulhas ideológicas, Nara Leão dedicou um disco inteiro às canções da dupla Roberto & Erasmo Carlos. E o fez como se estivesse gravando um LP de Bossa Nova. Foi muito criticada, mas, guiada certamente por sua elegância, não deu a mínima para o que disseram seus críticos. Na primeira metade da década de 1990, foi a vez de Maria Bethânia, que não surpreendeu ninguém quando lançou o CD “As Canções que Você Fez Pra Mim”. Afinal, foi ela que, antes do Tropicalismo, disse ao mano Caetano Veloso que prestasse atenção na vitalidade da Jovem Guarda, o programa de televisão de Roberto Carlos.

Os intérpretes do Rei me ocorrem agora que estou reouvindo o CD “Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos”. Meu primeiro contato com a cantora foi quando ela gravou, ao lado do grupo Semente, um songbook de Paulinho da Viola. Trabalho sensível que a projetou entre as cantoras brasileiras da sua geração. Projetou, mas a manteve presa ao universo do samba, o que não era necessariamente positivo para a sua carreira. Mais tarde, os discos de Teresa Cristina revelavam que ela sentia outras coisas que não eram o samba. Este, leva o desejo às últimas consequências ao trazer a sambista cantando Roberto Carlos acompanhada por uma banda de rock.

O CD remete a uma coincidência muito feliz. Em seus últimos últimos discos de carreira, Erasmo Carlos teve ao seu lado jovens músicos da cena indie do Rio de Janeiro. Como ocorre com Teresa Cristina, que se junta ao grupo Os Outros para esta releitura de Roberto Carlos. As razões dela para debruçar-se sobre este repertório devem ser as mesmas dos demais (e não são poucos) que já gravaram o Rei: todos, no fundo, o adoram. Como milhões de brasileiros que há décadas ouvem seus discos e veem seus shows. O resultado é bom até para quem prefere RC com RC.

O repertório de 14 faixas não é óbvio. Mescla lado A e lado B em quase 60 minutos de pura satisfação. Tem Roberto & Erasmo várias vezes, tem Roberto sozinho (“Quando”) e também músicas de outros autores que se incorporaram ao cancioneiro do artista (“Como 2 e 2”, “O Moço Velho”, “Não Serve Pra Mim”). Os arranjos são fortes e vibrantes e têm uma permanente “pegada” roqueira. O disco atualiza Roberto Carlos sem perder de vista a fidelidade aos originais. Nem o que existe de melancólico nas suas canções.

Show de Roberto Carlos tem grandes surpresas

Fui ver Roberto Carlos ao vivo em João Pessoa nesta quarta-feira (10).

O show repete a muitíssimo bem-sucedida fórmula que o Rei adota há anos: o set list compila uma série de hits e acrescenta alguma canção nova. Dessa vez, duas (Chegaste e Sereia, hits instantâneos).

Não precisa de nada além disso. É sempre um grande show de um artista extraordinário.

Mas Roberto surpreendeu dessa vez com três números muito especiais.

Antes, um intervalo para a foto cedida pelo amigo Carlos Lira.

Um desses números foi, para mim, o maior momento do show: Quero que Vá Tudo pro Inferno.

Esperei décadas para ouvi-la ao vivo com o Rei!

Roberto tem transtorno obsessivo compulsivo. Uma doença que o atormenta e que o fez banir canções do seu repertório. Uma delas era esta, sucesso avassalador da época da Jovem Guarda.

Voltar a cantá-la é uma vitória pessoal na luta contra o transtorno. E um presente para seus fãs.

O artista superou (ao menos parcialmente) o TOC, e o público comemora, ouvindo e cantando essa canção tão imensamente transgressora em sua época.

Outra grata surpresa do show: a inclusão de Sua Estupidez, canção de 1969 que não costuma frequentar o set list do Rei. Eduardo Lages ao piano, grande performance vocal do artista. Belíssima canção!

Mais uma surpresa: Se Você Pensa, do remoto ano de 1968, outra da fase soul do artista. Versão maravilhosa! Atual! Totalmente funkeada!

(Mais uma foto de Carlos Lira)

No mais, as mesmas emoções dos outros shows do Rei. Emoções & Detalhes & Além do Horizonte & Outra Vez & Desabafo & Como Vai Você & Olha & Lady Laura & O CalhambequeNossa Senhora & Como É Grande o Meu Amor Por você & Jesus Cristo!

Todas bem guardadas na memória afetiva do seu público.

Que voz! Que carisma! Que banda! Que show!

Que Noite!

Por tudo isso, nós o chamamos de Rei!

Perde muitíssimo quem ainda não viu Roberto Carlos ao vivo!

Hoje (10) é dia de ver Roberto Carlos ao vivo em João Pessoa. Sexta-feira (12), em Campina Grande.

Cumpro esse ritual há muitos anos com absoluta fidelidade ao grande artista que ele é.

Seu show é sempre muito parecido. Como são os shows de Paul McCartney ou dos Rolling Stones. Não é defeito.

Uma série de sucessos, uma ou outra canção nova. A fórmula é essa. Não há grandes surpresas. Nem é necessário.

No caso de Roberto Carlos, o que é mais importante é a experiência de estar diante de um artista com a dimensão desse cantor a quem nós, brasileiros, há tantos anos chamamos de Rei.

O set list de hits percorre a carreira de Roberto Carlos. O show geralmente começa com um medley instrumental seguido de Emoções. E termina com Jesus Cristo e a distribuição de rosas.

As canções oferecem pequenos retratos do Rei. Falam do tempo delas e de como essas melodias e letras foram se inserindo na memória afetiva de milhões de pessoas. Isso está entre o que há de essencial no show de Roberto Carlos.

E há o seu extraordinário carisma, a voz tamanha, a grande banda conduzida pelo maestro Eduardo Lages.

Na música popular do Brasil, poucas coisas são tão boas quanto ver Roberto Carlos ao vivo.

Perde muitíssimo quem ainda não teve esse experiência.

Eu repito sempre!

Roberto Carlos é tão bom que até seu lado B é irresistível!

Aos mais jovens: no passado, o compacto simples tinha uma música de cada lado.

A regra era: o lado A fazia sucesso, tocava no rádio. O lado B, não. Muitas vezes, caía até no esquecimento.

Muitos de nós, contemporâneos dos velhos compactos de vinil, usamos a expressão “lado B” não ao pé da letra, mas quando nos referimos a músicas menos lembradas no repertório de um artista. Não necessariamente aquelas que de fato ocuparam a face B de um compacto.

Depois dessa pequena introdução, vou a Roberto Carlos, que na próxima semana faz shows em João Pessoa (dia 10) e em Campina Grande (dia 12).

O Rei tem, por baixo, dezenas e dezenas de músicas inseridas na memória afetiva do ouvinte brasileiro. Como ele, não há mais ninguém. Essas, são os seus lados A.

E os lados B?

A coluna de hoje é dedicada a eles. São canções menos óbvias do seu repertório. A lista é grande, mas os verdadeiros fãs do artista conhecem todas, é claro!

Algumas me são muito caras.

Vou fazer uma pequena lista. Um top 10.

Vamos, então, ouvir os lados B de Roberto Carlos?

Começo com Nasci Para Chorar. Versão deliciosa do rock Born to Cry. Do começo da carreira. Está no disco É Proibido Fumar.

Coimbra. Canção portuguesa. Linda. Está em Jovem Guarda. Caetano Veloso gravou, três décadas mais tarde.

Madrasta. Pouca gente lembra. É a última faixa do LP O Inimitável Roberto Carlos.

Nada Vai me Convencer. Da fase soul do artista. Está no álbum de 1969.

Uma Palavra Amiga. Mais uma da fase soul. Do disco de 1970.

Você Não Sabe o que Vai Perder. Grande rock, muitíssimo bem arranjado, muito bem executado. De 1971.

Acalanto. O Rei cantando Dorival Caymmi. Precisa dizer mais alguma coisa? De 1972.

Não Adianta Nada. Meio rock, meio blues, meio soul. Um canção esquecida. De 1973.

Desenhos na Parede. Quem lembra dessa? Está no disco de 1975.

Você me Pediu. É da compilação San Remo 1968.

Fechei um top 10! E só fui até meados da década de 1970!

20, 30, 40 canções! Faria outras listas facilmente!

Roberto e Erasmo entram bem no mapa da nossa canção

Os dois volumes de A Canção no Tempo oferecem precioso mapeamento da música popular que os brasileiros produziram entre 1901 e 1985. Os pesquisadores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello comentam as canções que marcaram cada ano. De Parei na Contramão a Caminhoneiro, Roberto Carlos aparece várias vezes.

REBELDIA

O registro inicial que o livro faz de Roberto Carlos é de 1963: Parei na Contramão, citado como um dos primeiros grandes sucessos de autoria brasileira na área do rock. “O espírito de rebeldia e o impulso dançante do jovem estão presentes nesta gravação, marcada pela guitarra, contrabaixo e a voz anasalada do maior ídolo da mocidade brasileira nos anos seguintes”, comentam os autores. No texto sobre Quero que Vá Tudo pro Inferno (1965), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello chamam atenção para o fato de que “tal como Orlando Silva, que foi o primeiro ídolo de massa criado pelo rádio no Brasil, Roberto Carlos seria o primeiro criado pela televisão”. Quero que Vá Tudo pro Inferno, dizem eles, “é a canção que marca o início desse reinado”.

BOATO

Namoradinha de um Amigo Meu (1966), por ser assinada só por Roberto, favoreceu “um boato, negado pelo cantor, de que a composição referia-se a um caso realmente vivido por ele e que envolvia um casal em evidência na época”. Já Negro Gato, também de 1966, é de Getúlio Cortes, “um dos raros artistas negros ligados à Jovem Guarda”. O autor nega que a música tenha uma conotação de protesto identificada com os conflitos raciais tão em evidência àquela época.

METÁFORA

Para Severiano e Zuza, As Curvas da Estrada de Santos, de 1969, “é mais ou menos uma reedição do rebelde de Quero que Vá Tudo pro Inferno com um carro mais veloz”. Sentado à Beira do Caminho (1969), sucesso na voz de Erasmo, “é uma metáfora que expõe o desengano dele ante o fim da Jovem Guarda e o que isso representa para a sua carreira”. Do disco que Roberto Carlos lançou em 1970, A Canção no Tempo destaca Jesus Cristo, de certa forma inspirada no sucesso de Jesus Christ Superstar. O livro a classifica como “um rock-hino cantado com respeitoso entusiasmo por Roberto”.

PROTESTO

Três músicas do disco de 1971 são comentadas em A Canção no Tempo. Composta por Caetano Veloso, Como Dois e Dois “é uma canção de protesto, deixando transparecer em seus versos ambíguos referências à ditadura e ao drama do exílio”. Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos é uma homenagem de Roberto a Caetano, depois que o visitou no exílio londrino. E Detalhes atesta “o alto nível de interpretação alcançado por RC, um dos maiores cantores românticos de nossa música popular”. Severiano e Zuza consideram Detalhes uma das melhores canções da parceria Roberto & Erasmo.

AMIZADE

Os pesquisadores seguem comentando as músicas da dupla com Amigo, de 1977, classificada como “um verdadeiro hino à amizade”, que ultrapassou a homenagem a Erasmo Carlos, “aplicando-se a amigos do mundo inteiro”. Falam também de Café da Manhã (1978), “balada romântica temperada por boa porção de sensualidade”, Força Estranha (1978), que Caetano Veloso escreveu como “uma homenagem à figura do cantor” e Outra vez (ainda 1978), de Isolda, “uma das raras músicas não compostas por Roberto e Erasmo que podem ser consideradas clássicos de seu repertório”.

NOSTALGIA

Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello enquadram Amante à Moda Antiga (1980) na categoria das canções nostálgicas e confessionais, destacando a elegância de sua melodia. Quando comentam Emoções (1981), fazem menção à sua bela melodia e ao competente arranjo de big-band e lembram que a música reproduz o clima romântico e nostálgico de outros foxes de Roberto & Erasmo. De Fera Ferida (1982), dizem que é uma das melhores canções da obra de Roberto e Erasmo Carlos. “Composta à época em que se desfazia o casamento de Roberto e Nice, a canção parece refletir o fato nas entrelinhas”.

PARCERIA

No texto sobre Caminhoneiro (1984), Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello aproveitam para falar um pouco da dupla Roberto & Erasmo: “Em atividade desde o início dos anos sessenta, Roberto Carlos e Erasmo Carlos são recordistas de sucessos no período 1963/1985, tendo Roberto setenta e cinco composições relacionadas neste livro (setenta em parceria com Erasmo), das quais, treze são comentadas como destaques. Uma particularidade no trabalho da dupla: há uma participação maior de Roberto na criação das canções mais românticas e de Erasmo nas mais roqueiras”.

Roberto Carlos é um cara que merece ser chamado de Rei!

Roberto Carlos chega aos 76 anos nesta quarta-feira (19) como o artista mais popular da música brasileira e um dos mais amados pelo público. Se voltarmos a 1965, podemos dizer que, àquela época, quando alcançou o topo das paradas com Quero que Vá Tudo pro Inferno, ninguém imaginava que o cantor que se consolidava como ídolo da juventude se transformaria nesta figura a quem chamamos de Rei – nem seus ouvintes, nem os críticos, muito menos os marqueteiros que criaram a Jovem Guarda, o programa de televisão comandado por Roberto todos os domingos na antiga TV Record.

Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, Roberto Carlos Braga cantava desde menino. Começou a atuar profissionalmente no Rio de Janeiro em 1959, como crooner de boate. Suas primeiras gravações confirmam que tentou entrar na turma da Bossa Nova. Não conseguiu. O disco de estreia soava como um pastiche de João Gilberto. O caminho seguinte foi o rock, mas a contenção de sua performance vocal e o perfeccionismo que o acompanha desde cedo mostram que incorporou ao seu canto algo da lição de João, o homem que criou a batida da Bossa Nova ao violão ao gravar Chega de Saudade.

O espírito transgressor e a ingenuidade do rock primitivo estão presentes nas músicas que deram dimensão nacional a Roberto Carlos. E são marcas da Jovem Guarda. Mas os sinais de amadurecimento logo seriam notados. Como no disco Em Ritmo de Aventura, de 1967, que já incorpora ao seu repertório canções menos ingênuas e novos timbres fornecidos pelos arranjos de metais e pelas cordas. Ao se desvencilhar do programa de televisão, Roberto Carlos se curvaria às influências da soul music, adesão difundida nos discos gravados entre o final da década de 1960 e o início da de 1970.

Em 1970, gravou Jesus Cristo, inaugurando a extensa série de canções de inspiração religiosa. Em 1971, compôs (com o parceiro, Erasmo Carlos) Detalhes, que muitos costumam apontar como a melhor das suas canções. O espírito transgressor e a ingenuidade do rock primitivo ficavam para trás. Com a linha melódica toda construída a partir de dois acordes básicos (um maior, outro menor), em Detalhes, Roberto e Erasmo recorrem à fórmula simples, mas eficaz, que já tinham utilizado em Sentado à Beira do Caminho e que voltariam a usar diversas vezes dali por diante.

As imagens do documentário Uma Noite em 67, lançado em 2010, mostram que, aos 26 anos, em plena era dos festivais, Roberto Carlos já era um performer com total domínio do palco e da voz. Muito mais do que seus companheiros de geração. Mas a verdade é que o amadurecimento do grande artista que ele é só se deu plenamente na década de 1970. Tempo também em que consolidou uma relação única com o público, associando seus discos aos natais de milhões de brasileiros e se fazendo de fato merecedor do título de Rei, com o qual todos nós, afetuosamente, o tratamos já há várias décadas.

Curiosamente, Roberto Carlos não é uma unanimidade nacional. Ele ainda tem muitos críticos entre os ouvintes do que se convencionou chamar de MPB. Se pensarmos nas restrições que lhe são feitas, encontraremos desde os que defendem o argumento de que somente o repertório antigo é bom, até os que acreditam que suas canções sempre soam melhor nas vozes de outros intérpretes. Ou os que atribuem a Erasmo os méritos que teimam em não enxergar em Roberto. Parecem esquecer que nenhum artista conseguiu inserir tantas canções na memória afetiva dos brasileiros. E isto não é pouco.

Na última década do século XX, Roberto Carlos acabou quebrando a tradição do disco anual com canções inéditas. Na primeira do século XXI, fez duas coisas que nunca havia feito: rendeu-se ao formato acústico que a MTV difundiu em todo o mundo e dividiu um disco com outro artista. Em 2008, ao lado de Caetano Veloso, debruçou-se sobre o repertório de Antônio Carlos Jobim no instante em que eram comemorados os cinquenta anos da Bossa Nova. Ali, às vésperas de festejar meio século de carreira, Roberto voltou à bossa, por onde quis começar quando ainda era um cantor de boate.

Em 2012, o EP com Esse Cara Sou Eu vendeu tanto quanto seus velhos LPs. Em 2015, diante de uma plateia de convidados, regravou velhos sucessos com novos arranjos nos lendários estúdios londrinos de Abbey Road.

Da transgressão ingênua de Parei na Contramão ao grito ecológico de As Baleias, do erotismo de Cavalgada à manifestação de fé de Nossa Senhora – citaríamos dezenas de canções que oferecem um retrato de Roberto Carlos tirado a partir do que ele cantou. Mas ficaremos só com quatro momentos emblemáticos: Quero que Vá Tudo pro Inferno, como síntese da sua rebeldia juvenil; Jesus Cristo, como a canção mais marcante do homem religioso; Detalhes, que se destaca entre as baladas maduras que falam de amor; e Emoções, sensível autorretrato que ele e Erasmo compuseram aos 40.

Por isso essa voz tamanha!

Roberto Carlos gravou três músicas compostas por Caetano Veloso: Como 2 e 2, Muito Romântico e Força Estranha.

Na primeira, o Rei foi porta-voz da tristeza de um exilado. Caetano já voltara para o Brasil quando compôs as outras duas.

Em 1979, na turnê Muito, tivemos a oportunidade de ouvir as três na voz do autor.

Retratos de Roberto Carlos tirados por Caetano?

Retratos de Caetano tirados por Roberto Carlos através de Caetano?

As duas coisas juntas?

O autor falava disso antes de cantá-las.

Das três, talvez a mais marcante seja Força Estranha. E a que de fato se incorporou ao repertório permanente do Rei.

Gosto muito dessa versão gravada ao vivo em São Paulo.

Vejam os metais. E a guitarra. E a voz tamanha do artista!

Vamos ouvir?