Sérgio Moro, como é grande o meu amor por você!

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

Eu tinha oito anos, no final de 1967, quando essa canção foi lançada. Lembro como se fosse hoje.

Era a segunda faixa do disco novo de Roberto Carlos. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura. O LP tinha as músicas do seu primeiro filme. Eu Sou Terrível, Quando, etc.

Como é Grande o Meu Amor por Você é uma sensível declaração de amor. No meio, tem um solo de flauta que parece conectar Roberto Carlos à MPB, marca de “qualidade” na qual o artista nunca foi inserido.

A canção se incorporou ao repertório de Roberto Carlos. É praticamente obrigatória no set list dos seus shows. Mais do que isso: está na memória afetiva de milhões de brasileiros.

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

É comum ouvir em casamentos. No altar, a noiva canta para o noivo. Ou o noivo canta para a noiva.

É comum também ouvir em velórios. Familiares e amigos se despedem do morto cantando.

São manifestações que colocam Roberto Carlos nas nossas deep areas. Ele pode não ter o selo da MPB, mas seu canto vem de regiões profundas do ser do Brasil.

*****

Domingo (30), a canção adentrou por um território ao qual – creio – ainda não pertencia. Sim. O das manifestações políticas.

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

Lá estava a multidão vestida de amarelo a cantar na Avenida Paulista.

E cantar para quem?

Ora! Para o ministro Sérgio Moro!

E com o aval de quem?

De Eduardo Lages!

E quem é Eduardo Lages?

É o maestro de Roberto Carlos!

Em cima de um caminhão, ao teclado, era Lages que puxava o coro.

Eu tenho tanto pra lhe falar

Mas com palavras não sei dizer

Como é grande o meu amor por você

A quem ama Sérgio Moro, não há o que dizer.

Mas se você – como eu – está entre os que não amam, não minimize essa declaração de amor.

Ela vem das mesmas deep areas que elegeram Bolsonaro presidente.

Qual é o Rei DO Reis?

Roberto Carlos?

Acho que cada um tem o seu.

Depende de muita coisa. Da idade. Do tempo em que ouviu. Das lembranças que traz. Das associações que a música permite. De alegrias. De tristezas.

Com Roberto Carlos, é assim mesmo. Não adianta negar.

A pergunta é por causa de Nando Reis. Ele acaba de lançar um CD chamado Não Sou Nenhum Roberto, Mas às Vezes chego Perto.

Qual é, então, o Roberto Carlos de Nando Reis?

Ou: qual é o Rei DO Reis?

As 12 músicas do repertório respondem.

Nando é de 1963. Fez 56 anos em janeiro.

Seria natural imaginar que, vindo de uma banda como Titãs, o Rei DO Reis fosse o do rock.

Mas não é.

O Roberto de Nando é o dos anos 1970. Tem a ver com a idade em que ele, garoto, adolescente, foi apanhado por aqueles discos de final de ano.

OK. Nossa Senhora é dos anos 1990. Alô, também. Mas o que predomina no repertório são canções da década de 1970. Algumas, muito conhecidas. Outras, nem tanto. As escolhas de Nando têm essa vantagem: fogem do óbvio.

Em Nossa Senhora, a letra é substituída por um solfejo. Peço permissão para “viajar”: ficou parecida com a valsa Bebel, de João Gilberto.

Em A Guerra dos Meninos, a letra não é cantada, mas declamada. E sabem por quem? Por Jorge Mautner. É incrível ouvir o Rei por Mautner.

Não Sou Nenhum Roberto é, sobretudo, um disco reverente, uma homenagem feita por alguém que ama o homenageado. Esse amor sem preconceito.

A reverência começa pela capa. Nando tal como Roberto na capa dos seus discos.

Que Nando não é nenhum Roberto, isso a gente sabe. Aliás, ninguém é. Seu CD é mais um trabalho dedicado ao cancioneiro do Rei.

Há o de Bethânia, o de Cauby, o de Ângela, o de Lulu, o de Teresa Cristina, o da banda RC na Veia. Ouvi-los, gostar deles, vai depender muito da relação de cada ouvinte com as gravações originais. Elas são muito marcantes, e Roberto Carlos é o melhor intérprete de si próprio.

O que há no CD de Nando Reis é o respeito profundo, a grande admiração, a consciência plena de quem é esse cara que a gente chama de Rei.

E o desejo de dizer tudo isso cantando.

Um THE BEST do Roberto Carlos que não é tão antigo assim

Somente o Roberto Carlos antigo presta.

Há essa discussão, sobretudo entre os detratores desse grande artista a quem chamamos de Rei.

Claro que, de um modo geral, na música popular os artistas parecem produzir melhor na juventude. Dos Rolling Stones a Chico Buarque, aconteceu com todos, não só com Roberto Carlos. Mas isso não quer dizer que, a partir de um certo momento da vida e da carreira, todas as novas canções sejam desprezíveis.

Nesta sexta-feira (19), Roberto Carlos faz 78 anos. Vou, então, fazer um THE BEST da sua fase, digamos, ruim. A compilação começa em 1982, um ano depois daquele que muitos consideram o último grande disco autoral do Rei, o LP que tem Emoções.

Na ordem cronológica, seguem as canções:

PENSAMENTOS

FERA FERIDA

O CÔNCAVO E O CONVEXO

CORAÇÃO

EU E ELA

ALELUIA

CAMINHONEIRO

APOCALIPSE

DO FUNDO DO MEU CORAÇÃO

AMOR PERFEITO

AMAZÔNIA

TODAS AS MANHÃS

LUZ DIVINA

MULHER PEQUENA

NOSSA SENHORA

ALÔ

QUANDO DIGO QUE TE AMO   

EU TE AMO TANTO

AMOR SEM LIMITE

O CADILAC

ESSE CARA SOU EU

O romântico, o roqueiro, o religioso, o ecológico, o erótico, o nostálgico, o apaixonado – os vários ROBERTOS que conhecemos estão nessa lista, o cara que a gente chama de REI e que continua fazendo shows primorosos.

Se eu tivesse que escolher somente uma, entre essas 21 canções, ficaria com Alô, que é de 1994. Leva a assinatura de Roberto e Erasmo Carlos. Tocou um bocado, mas não foi um grande sucesso. É do momento em que o artista se preparava para quebrar a tradição do disco de final de ano.

Não por acaso, é a canção que Nando Reis escolheu para abrir o álbum que, neste 19 de abril, lança em tributo a Roberto Carlos.

“Você, meu amigo de fé, meu irmão, camarada…”

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.

Morre Isolda, que compôs “Outra Vez” para Roberto Carlos

Você foi o maior dos meus casos

De todos os abraços

O que eu nunca esqueci

Quem não conhece esses versos?

São de Outra Vez, uma das canções mais populares do repertório de Roberto Carlos.

A sua autora, Isolda Bourdot (ou, simplesmente, Isolda), morreu neste domingo (16) vítima de um infarto. Tinha 61 anos. Será velada e enterrada nesta terça-feira (18) em São Paulo.

Isolda teve várias músicas gravadas por Roberto Carlos. Nos anos 1970, ela compunha em dupla com o irmão, Milton Carlos. A dupla se desfez em 1976, quando ele morreu aos 22 anos num acidente de carro.

Roberto Carlos cai no rock (muito) pesado ao lado do filho Dudu

Roberto Carlos é o melhor intérprete de Roberto Carlos.

Muito gente diz que prefere ouvir as canções do Rei com outras vozes.

Não é o meu caso.

Mas é claro que não é pequena a lista dos que gravaram bem o seu repertório.

Maria Bethânia, Gal Costa, Nara Leão, Caetano Veloso, Cauby Peixoto, Ângela Maria, Teresa Cristina, etc., etc.

Tem mais um agora para aumentar essa lista: RC na Veia.

Sabem do que se trata?

Não?

Então, vamos lá!

RC na Veia é a banda de Dudu Braga, filho de Roberto Carlos.

Dudu é baterista nesse grupo que toca o repertório do paizão em versões super rock’n’ roll.

O resultado é uma delícia e pode ser ouvido/visto no CD/DVD que acaba de ser lançado.

É um registro ao vivo.

Rock pesado, visceral, arrebatador, irresistível.

Ótimas versões de um repertório de clássicos do pop nacional, músicas que a gente ouve, canta e ama ao longo das décadas. As músicas desse grande artista que a gente chama de Rei.

O RC na Veia gravou com convidados. Tony Garrido (Cidade Negra), Digão (Raimundos), Rogério Flausino (Jota Quest). Até Andreas Kisser (Sepultura), que, com sua guitarra, incorpora um toque de metal ao show.

No final, claro, não poderia faltar Roberto Carlos. E lá está ele, totalmente à vontade, cantando Se Você Pensa e (ao lado dos convidados) É Preciso Saber Viver. Mostrando que também sabe tudo quando o assunto é rock.

Numa entrevista que fiz com Dudu Braga, ano passado na CBN João Pessoa, fiquei sabendo da existência da banda RC na Veia.

Agora, sou, afinal, apresentado a esse grupo que fala do Rei, dos caminhos do rock nacional e de Dudu, que é ótimo ouvinte de música e figura fundamental nessa recriação das canções de Roberto Carlos.

RC na veia?

Prescrevo!

Não há contraindicação!

Dudu Braga, filho de Roberto Carlos, escolhe as melhores músicas do Rei

Na quinta-feira (19), Roberto Carlos fez 77 anos.

Pedi a Dudu Braga, filho do Rei, as músicas que ele prefere no repertório do paizão.

Dudu mandou a lista.

Com elas, fiz a Sexta de Música, minha coluna semanal na CBN João Pessoa.

Adorei!

Segue o áudio.

No ano passado, eu e Bruno Filho entrevistamos Dudu Braga na CBN.

Republico o texto que fiz depois da entrevista:

Paizão!

É assim que ele chama o pai.

Ele é Dudu Braga.

O pai é Roberto Carlos.

Aos 58 anos, sou um homem desencantado com minha profissão. Poucas coisas nela ainda me alegram. Entrevistar (com o âncora Bruno Filho) Dudu Braga me proporcionou momentos de grande alegria.

Ele veio a João Pessoa fazer palestras.

Dudu conta a história do garoto que nasceu com um glaucoma congênito e enxergou normalmente até os 23 anos, quando, por causa de um descolamento de retina, perdeu a visão. É a sua história.

Dudu faz um ativismo sem a chatice do politicamente correto. Ele conversa abertamente sobre os temas relacionados à perda da visão. Usa a palavra cego. Tira os óculos escuros e mostra os olhos enquanto fala com você. Sabe que as pessoas vão usar o verbo ver com ele e não se importa nem um pouco.

Não quero dizer que Dudu Braga é um exemplo de superação porque não gosto da expressão. Acho tão lugar-comum!

Vou dizer de outro jeito:

Dudu Braga é um grande exemplo de cidadania!

Cidadania que se sobrepõe ao debate ideológico, aos limites dos partidos políticos.

Cidadania! Assim! Com exclamação!

O cara viaja, conversa com as pessoas, conta sua história, atua junto a entidades. Age com uma simplicidade que conquista de cara, em poucos minutos. O que há nele é o humano acima de tudo. A sensibilidade. A emoção. Também a consciência dos papéis sociais que cada um tem.

E ainda há a conversa sobre música. A música do pai e a relação do seu cancioneiro com regiões profundas do ser do Brasil. A música da sua banda (Dudu é baterista) RC na Veia. A música que ele ouve. Que nós ouvimos. Da contenção da Bossa Nova ao rock do Led Zeppelin, ao soul de James Brown.

Muita música! Muitas histórias!

Especial mesmo essa tarde com Dudu Braga.

Roberto Carlos, aniversariante do dia, em 20 canções imprescindíveis

Roberto Carlos é o aniversariante do dia.

O Rei faz 77 anos nesta quinta-feira (19).

Quais são as 20 canções imprescindíveis do vasto repertório dele?

As minhas?

As suas?

As que se sobrepõem ao gosto pessoal?

Segue uma lista de grandes hits.

O Calhambeque

Quero Que Vá Tudo Pro Inferno

Como É Grande o Meu Amor Por Você

Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo

As Curvas da Estrada de Santos

Sua Estupidez

Jesus Cristo

Detalhes

Como Vai Você

Proposta

Amigo

Cavalgada

Outra Vez

Café da Manhã

Força Estranha

Emoções

As Baleias

Nossa Senhora

O Caminhoneiro

Esse Cara Sou Eu

Você conhece as músicas, mas só agora vai conhecer o autor

Getulio Cortes.

Você conhece esse nome?

Muita gente não conhece.

Ele é compositor, nascido no Rio de Janeiro.

Fez 80 anos em março e só agora conseguiu lançar seu primeiro disco.

É nome importante da Jovem Guarda, do rock nacional.

As músicas de Getúlio?

Negro Gato, Quase Fui Lhe Procurar, Atitudes e tantas outras.

Todos nós ouvimos na voz de Roberto Carlos.

O CD, lançado pelo selo Discobertas, se chama As Histórias de Getulio Cortes.

As músicas ganham uma sonoridade atual, e a voz do compositor permanece surpreendentemente jovem para um homem de 80 anos.

Uma das histórias desse disco – além, claro, das canções – é a de Getúlio, mas não apenas a dele. É a história dos que, como ele e a despeito do talento que tinham, ficaram à margem.

Nesta sexta-feira (13), Getulio Cortes foi tema da minha coluna na CBN João Pessoa.

Ilustrando a coluna com as gravações de Roberto Carlos e deixando para revelar somente no final o nome do autor das canções, a Sexta de Música confirmou o quanto é importante o resgate do compositor de Negro Gato.

Segue o áudio da Sexta de Música.