RETRO2016/Zé Ramalho e Sinfônica PB numa noite inesquecível

Um grande momento do ano que está acabando: o concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba no teatro A Pedra do Reino.

Comento a seguir.

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Os acordes iniciais e os primeiros versos de Avôhai arrebataram o público de quase três mil pessoas no teatro A Pedra do Reino. Que canção enigmática e mágica. Agora, vista de longe. Tão nordestina quanto universal.

Que beleza ver seu autor reapresentando a música na mesma cidade onde a cantou pela primeira vez, 40 anos atrás, num evento chamado Coletiva de Música da Paraíba, no velho Teatro Santa Roza.

Testemunhei os dois momentos. Separados por quatro décadas, eles podem sintetizar a longa caminhada de Zé Ramalho.

Essa noite dele com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi histórica. Doze canções retiradas de discos seminais ganharam os adornos luxuosíssimos de uma grande formação. Quase 140 músicos a executar os belos arranjos escritos por Emanoel Barros, um jovem de 21 anos. O solista era o próprio autor: Zé, sua voz e seu violão. Tudo sob a batuta de Luiz Carlos Durier, o maestro que não continha a alegria de estar ali.

AvôhaiVila do SossegoChão de GizAdmirável Gado Novo. Cada uma das canções do certeiro set list escolhido pelo compositor confirmava a força e a beleza da sua música. Mais do que isto: a permanência delas. O tempo, em sua inevitável passagem, já as tornou verdadeiros clássicos populares.

Clássico é o que diz respeito ao período do classicismo. Clássico é uma expressão utilizada para denominar a música de concerto. Mas clássico é também o repertório que fica. Explicou didaticamente o maestro Durier numa de suas falas à plateia.

O público do concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi testemunha de um encontro repleto de significados. Uma noite inesquecível. Para ficar muito bem guardada na nossa memória afetiva.

Salve, Zé!

RETRO2016/Ettore Scola

Um dos grandes cineastas contemporâneos nos deixou em 2016. O italiano Ettore Scola, em 19 de janeiro, aos 84 anos.

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Dele, tenho uma afeição muito especial por três filmes.

Nós que Nos amávamos Tanto. Três amigos e o amor por uma mulher. A passagem do tempo na vida deles e um pouco da história do mundo em que vivem. Cinema, teatro, amor, amizade, política, ideologia – elementos que Scola funde nesse filme admirável.

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Um Dia Muito Especial. Enquanto a família vai à cidade para a recepção de Mussolini a Hitler, uma dona de casa e um vizinho, homossexual, se encontram e compartilham suas dores e sua solidão. O som de um rádio dá notícia do mundo lá fora, enquanto os dois personagens se deixam guiar por afinidades improváveis.

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O Baile. Os personagens não falam, só dançam, nesse filme muito original. A passagem do tempo e a história – verdadeiras obsessões do cineasta – estão nos figurinos de homens e mulheres num salão de dança. E, principalmente, na música.

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RETRO2016/Domingos Montagner

Uma morte que comoveu o país. A do ator Domingos Montagner, na reta final da novela Velho Chico. Aos 54 anos, por afogamento no Rio São Francisco.

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A precocidade, a circunstância trágica, o talento, a beleza física, o sucesso, o reconhecimento, a força do personagem. Tudo se mistura em meio à perplexidade até de quem não acompanhava tão atentamente a novela, mas o suficiente para perceber quantos diferenciais há nela.

A morte de Montagner fala da relação afetiva que construímos com atores e atrizes e seus personagens. E do quanto são dolorosas essas perdas. Como se elas ocorressem bem perto de cada um de nós. Mortes assim assustam porque falam do imprevisível e da brevidade da vida.

Lembro aqui de Jardel Filho, o grande ator de Terra em Transe, levado por um ataque cardíaco durante Sol de Verão. Ou de Sérgio Cardoso, o eterno Antônio Maria, que nos deixou antes de terminar O Primeiro Amor. Ou, ainda, da jovem Daniela Perez, assassinada por um colega de elenco e pela mulher dele quando fazia De Corpo e Alma.

A arte imita a vida é um clichê.

Na trama, Santo desapareceu nas águas do Velho Chico para ressurgir lá na frente.

Na vida real, Montagner morreu nas águas do São Francisco.

A vida a imitar a arte – não há como fugir da inversão do clichê!

Nem do verso de Tom Jobim, que a gente ouvia na trilha de uma novela, uns 25 anos atrás:

Longa é a arte, tão breve a vida!

RETRO2016/O ano de “Aquarius”

No cinema brasileiro, 2016 foi o ano de Aquarius. Algumas impressões minhas sobre o filme e Kleber Mendonça Filho, seu realizador:

Acompanho Kleber Mendonça Filho desde quando ele atuava como crítico de cinema no Recife. Excelente crítico. Como os melhores.

Depois vieram os filmes. Surpreendente o curta Recife Frio.

Mais tarde, a estreia na ficção de longa metragem. O Som ao Redor confirmava que Kleber era da linhagem dos cineastas bem-sucedidos quando migram da crítica para a direção. Feito Truffaut ou Godard, os exemplos que logo me ocorrem.

Kleber Mendonça Filho não venceu somente o primeiro grande desafio (deixar de ser crítico para ser cineasta). Acaba de vencer outro: realizar um segundo filme tão bom quanto o primeiro. Ou talvez melhor.

Sônia Braga Aquarius

Aquarius é um grande filme. No nível de qualquer grande filme realizado no mundo atualmente.

O tema da resistência, traduzido no comportamento da personagem de Sônia Braga, combina com os que aplaudem o filme com o mesmo sentimento que levou Kleber e equipe a um protesto legítimo contra o governo Temer no Festival de Cannes. Mas seria reducionista vê-lo apenas por esse prisma.

Um filme com os méritos que esse ostenta não pode estar circunscrito às paixões do Brasil de hoje.

Impressiona em Aquarius (como em O Som ao Redor) o fato de que estamos diante de um realizador excepcional. Como nenhum outro que vimos surgir no Brasil desde que o cinema nacional começou a se recuperar da destruição imposta pelo governo Collor.

Kleber Mendonça Filho soube, com maestria, transformar teoria em prática. O que ele escrevia como crítico virou filmes. O domínio da arte de fazer cinema está em cada momento de Aquarius.

A construção da trama, as suas tensões, o texto, as sutilezas da narrativa, as marcas de originalidade, a dimensão humana dos personagens, as referências, a direção de atores, o uso da trilha pré existente, os ruídos de fora – tudo é enormemente bem resolvido. Como já era em O Som ao Redor.

Posso dizer que ver Aquarius é uma experiência fascinante e perturbadora. Mas a verdade é que não há palavras que traduzam o prazer estético de assistir a um filme de Kleber Mendonça Filho!

RETRO2016/”Velho Chico” é marco da telenovela

“Velho Chico” foi o grande acontecimento da televisão brasileira em 2016. Dediquei alguns textos à novela aqui na coluna.

Segue um deles:

“Velho Chico” é um marco da telenovela brasileira. Uma produção inovadora num gênero que tem dificuldades para se reinventar.

O modo com que a cor foi usada, os enquadramentos incomuns na televisão, o tempo da narrativa, o ritmo da montagem, o tom teatral muitas vezes adotado na encenação, a influência do cinema brasileiro dos anos 1960, a escolha da trilha sonora.

Juntos, esses elementos são mais do que suficientes para fazer de “Velho Chico” um grande feito da televisão brasileira.

E, se pensarmos em conteúdo, a novela trouxe para o horário nobre temas que são o inverso do que dizem os muitos críticos da Rede Globo.

Para nós, paraibanos, “Velho Chico” ainda teve a notável presença dos nossos conterrâneos no elenco.

São tantos! Todos sintam-se representados na menção a duas atrizes: Zezita Matos, grande nome do nosso teatro, impecável na construção da personagem Piedade, e Lucy Alves, que já nos conquistara com seu talento musical, agora também como significativa revelação na teledramaturgia.

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E, por falar em elenco, há o Bento de Irandhir Santos, que vimos nos filmes de Kleber Mendonça Filho. E o padre de Carlos Vereza, sempre excepcional. E a Encarnação de Selma Egrei, que está na memória afetiva de quem viu o cinema de Walter Hugo Khouri. E Fagundes, Pitanga, Serrado. Muitos!

E, claro, o Santo de Domingos Montagner. A afeição do público pelo personagem pôde ser dimensionada na morte trágica do ator.

“Velho Chico” vai deixar saudades!

RETRO2016/David Bowie

Dos grandes artistas que morreram em 2016, David Bowie foi o primeiro. No dia dez de janeiro, vítima de câncer no fígado, doença que não foi tornada pública. No dia oito, fizera 69 anos e lançara um novo disco.

O texto que posto a seguir foi publicado na edição impressa do JORNAL DA PARAÍBA de 12 de janeiro.

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David Bowie é chamado ao palco do majestoso Royal Albert Hall para fazer dois números no bis do show de David Gilmour. É ovacionado pela plateia, recebido de pé. Agradece e solta a frase: “I hope I warrant that”. O comentário pode inseri-lo no grupo dos artistas que sabem o quão importantes são, mas às vezes se comportam como se não soubessem. O que se segue é um momento de grande elegância de um homem que começava a envelhecer e, ali, ao revisitar a canção psicodélica do Pink Floyd, funde a ousadia da juventude com uma contenção trazida pelo passar do tempo.

Ouvi David Bowie na primeira metade dos anos 1970 com um amigo que, num surto psicótico, disse ter sido levado pelos marcianos. O amigo, nunca mais vi. A música de Bowie, só reencontrei nos 40 anos de “Ziggy Stardust”, em 2012. Desperdicei mais de 35 anos – foi a sensação que tive. Corri atrás, mas, claro, perdi o prazer do olhar contemporâneo, da audição do disco no instante em que é lançado. Como havia feito um pouco, porém menos do que desejava, com “Ziggy”, “Aladdin Sane”, “Pinups”, “Diamond Dogs”, “Young Americans” e “Station to Station”.

O David Bowie que me restou, entre o quadragésimo aniversário de “Ziggy Stardust” (ainda de devastadora beleza) e o dia em que amanheço com a inesperada notícia de sua morte, tem o sabor inevitável de uma descoberta tardia. Mas não ouvi-lo teria sido muito pior. Não tê-lo a enriquecer a minha discoteca equivaleria, de resto, a ignorar o óbvio: o significado do que sua música e sua figura (aliadas à performance no palco, ao cinema, à moda, ao comportamento, à ousadia, ao experimentalismo) representam para a cultura pop da segunda metade do século passado.

A tese tropicalista de entrar em todas as estruturas e sair (inteiro) delas, Bowie viveu intensamente em sua carreira. Do pop mais banal ao experimentalismo mais ousado. Até o jazz do disco que lançou na semana passada, no dia em que completou 69 anos. Jazz que já norteara a excepcional “Sue”, de 2014, que remete ao Milton Nascimento de “Cais” e “Trastevere”. Se me perguntam pelo Bowie que prefiro, digo que é o dos anos 1970, talvez pelo gosto do olhar contemporâneo. Mas o melhor é ouvi-lo todo. Só o conjunto dará a dimensão do artista extraordinário que ele foi.

RETRO2016/Dezembro por Jomard Muniz de Britto

Sabem o acróstico?

Aquele tipo de texto poético em que as primeiras letras de cada verso, lidas verticalmente, formam uma palavra?

É, geralmente, cafona! Kitsch! Por vezes, brega! Tem coisa mais antiga?

Mas não com Jomard Muniz de Britto!

JMB faz o velho ficar novo nesse acróstico sobre dezembro, que posto aqui para iniciar a minha RETRO2016.

jomard-muniz-de-britto

Dez gestos de fervor familiar aos prazeres de fim-recomeço de ano. Dezenas de promessas em desejos.

Entrelugares do senso comum à criticidade sem temor nem tremor.

Zunindo todos os sons e signos do mundo vivido e compartilhado.

Errantes navegantes em busca do tempo reencontrado.

Melhor do que ignorar é preciso e urgentíssimo depurar e descortinar mentiras do empoderamento das falas, falhas, falácias do falocratismo.

Brincar de homo ludens. Berrando memórias musicais dos tempos do pós-tudo. Dos sertões de Vidas Secas às miragens desbragadas: do BOI NEON ao CÃO SEM PLUMAS de João Cabral de Melo Neto.

Rir com a retórica líquida da palavra quase palavrão: em po de ra men to!?

Ouvir a escrita além da caligrafia, fábulas para nossos encantos e desenganos da politicagem. Mais que nunca é preciso ser compartilhado. Viver Dezembro.