RETRO2018/Paul Simon

In the Blue Light, o disco novo de Paul Simon, é imprescindível para quem acompanha de perto o seu trabalho. Traz um homem velho recriando canções. Elas vêm de discos gravados entre 1973 (There Goes Rhymin’ Simon) e 2011 (So Beautiful or So What).

Os timbres são outros, os instrumentos, os arranjos, o jeito de cantar. A exposição do que talvez estivesse escondido nas gravações originais. Um certo desejo de tornar essas canções ainda mais perenes. De acentuar o que lhes confere permanência, resistência à passagem do tempo.

É justo pressupor que são canções da predileção do autor. E é fácil constatar que são canções pouco conhecidas. Não são grandes sucessos. É como se ele nos sugerisse: “Prestem atenção nessas aqui. Elas são tão bonitas também”.

E como são!

In the Blue Light traz músicos excepcionais e formações menos comuns nos discos de Simon. Há de Wynton Marsalis aos brasileiros do Duo Assad, de Jack DeJohnette e Steve Gadd ao sexteto yMusic .

E há canções perfeitas como René and Georgette Magritte with Their Dog After the War, que reputo como uma das mais inspiradas de todo o cancioneiro de Paul Simon.

Hoje não tem mais Phil Ramone, mas, aos 84 anos, Roy Halee divide a produção com Simon. A parceria dos dois, que vem de longe, é um selo de altíssima qualidade.

RETRO2018/Ofertório

Republico texto que escrevi no dia 26 de outubro depois de ver o show Ofertório no teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa:

Há uns 30 anos, Gilberto Gil disse que ele e Chico Buarque eram de centro. Roberto Carlos e Maria Bethânia, de direita. E Caetano Veloso, o mais à esquerda de todos.

As pessoas não gostaram porque entenderam mal, mas Gil falava de estética. Não era de política.

Lembro disso agora vendo o engajamento de Caetano nesse momento de tamanha turbulência e tantos riscos que o Brasil atravessa.

Não é mais estética. É política mesmo. Ele é o mais à esquerda porque é o mais incisivo, o mais corajoso, o mais destemido. E essa coragem, esse destemor, Caetano vai buscar na sua liberdade. Uma liberdade notável que permitiu a esse grande artista brasileiro estar sempre à esquerda sem que seu pensamento estivesse preso à macrovisão da esquerda.

Nesta quinta-feira (25/10), em João Pessoa, vi pela terceira vez Ofertório, o show de Caetano com os filhos Moreno, Zeca e Tom.

Foi muito forte ver Caetano de perto a três dias de uma eleição presidencial que pode nos jogar na escuridão.

O “ame-o e deixe-o livre para amar”, da letra da canção de Gil que aparece logo no início do show, é o oposto do “ame-o ou deixe-o” dos tempos de Médici. Muita gente nem percebia, mas como era significativo na época dos Doces Bárbaros, meados dos anos 1970. Volta a ficar agora, em oposição ao discurso insano do candidato Bolsonaro, dirigido aos que estavam domingo na Avenida Paulista. Discurso de exclusão, de ameaça aos diferentes, de gravíssimos e insidiosos ataques à democracia.

O “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” arranca o aplauso da plateia e faz Caetano chorar no palco, de tão atual que é, de tão permanente que continua sendo.

E tem o “quem cultiva a semente do amor/segue em frente e não se apavora/se na vida encontrar dissabor/vai saber esperar a sua hora”, esse samba bonito do grupo Revelação, que surge no final do show. Agora, dizendo muito mais do que dizia quando vi o show pela primeira vez, em janeiro.

Há um árduo trabalho a ser desenvolvido a partir de segunda-feira. Trabalho de muitos.

No artigo que escreveu para o New York Times, Caetano já disse que fará a parte dele. Vê-lo no palco, em instantes de imensa beleza ao lado dos filhos, é especialmente forte nesses dias que antecedem a eleição presidencial. Provoca júbilo por todo o amor reunido no encontro de família. E também nos toca muito profundamente quando faz pensar que, lá fora, há grandes ameaças às belezas do Brasil.

RETRO2018/Bernardo Bertolucci

O cineasta Bernardo Bertolucci morreu nesta segunda-feira (26/11).

Tinha 77 anos.

Nascido em 1941 e diretor desde o início dos anos 1960, era um mestre do cinema contemporâneo.

Fascismo.

Fascistas.

Fascistoides.

A morte de Bernardo Bertolucci coincide com um tempo em que essas palavras são largamente usadas no Brasil.

Pela esquerda para falar de ultradireitistas. Às vezes, nem tão ultra assim.

Vou usar fascistoides.

Claro que a extrema direita brasileira está cheia de fascistoides. Mas também há comportamento fascistoide na esquerda.

O ambiente que conduz ao Fascismo é o que se tem em O Conformista (foto), que Bertolucci realizou quando ainda não tinha 30 anos.

Para mim, o seu melhor filme.

O Último Tango em Paris é o mais polêmico e foi muito marcante para nós, brasileiros, porque passou quase uma década proibido pela Censura. Símbolo da ação da Censura durante o regime militar, também simbolizou o fim dessa ação tão danosa quando então foi liberado.

O Último Imperador fez muito sucesso porque, além de ser um grande filme, saiu da América cheio de estatuetas do Oscar. Incluindo as de Melhor Filme e Melhor Diretor.

Bernardo Bertolucci é o último de um vasto conjunto de extraordinários diretores de cinema que a Itália legou ao mundo. E era o mais jovem deles.

Filho de um poeta, assistente de direção de Pier Paolo Pasolini, era por natureza um esteta. Ou um burguês romântico – assim classificado por Jean Tulard em seu Dictionnaire du Cinéma.

Bernardo Bertolucci morreu no ano em que o mundo lembrou os 50 anos de 1968. Os Sonhadores, um dos seus derradeiros filmes, é uma revisão poética de maio de 68.

No mundo do politicamente correto, houve uma discussão recente sobre a cena de sexo anal não consentido de O Último Tango em Paris.

Que o artista e a sua obra se sobreponham a esse debate improdutivo.

RETRO2018/Cultura e Saraiva

Telefono para a Cultura do Riomar:

Boa noite. Vocês têm essa edição do Drácula de Bram Stoker lançada há pouco pela Dark Side?

Boa noite, senhor. Não temos.

Quando devem receber?

Não vamos receber. A Dark Side não está mais enviando seus livros para as nossas lojas.

Pena. Vou tentar na Saraiva.

Não perca seu tempo, senhor. A Saraiva está na mesma situação.

*****

Mais um telefonema para a Cultura do Riomar:

Boa tarde. Consulta sobre filmes pode ser com você?

Boa tarde, senhor. Pode, sim.

Vocês têm o box com a obra completa de Jacques Tati? Eu vi que estava em pré-venda há alguns dias.

Como se escreve, senhor?

Jacques. J-A-C-Q-U-E-S. Tati. T-A-T-I. É um diretor e ator francês. O box com todos os seus filmes foi lançado pelo selo Obras-Primas.  

Lamento, senhor. Já saiu da pré-venda, mas ainda não recebemos. 

*****

Outro dia, telefono para a Saraiva do Shopping Recife:

Boa tarde. Vocês têm a nova edição do Imagine de John Lennon? 

Boa tarde, senhor. Tínhamos, mas acabou.

Era simples ou dupla?

Simples. 43 Reais.

Não, não. Estou procurando a dupla. Saiu há pouco. Essa simples foi lançada há quase dez anos.

Senhor, nós não estamos recebendo novos produtos. Essa não chegou e acredito que não vai chegar. Do mesmo jeito que não veio o CD novo de Gal, nem virá o de Bethânia com Zeca Pagodinho.   

*****

A cliente aborda o vendedor na Cultura do Riomar:

Boa tarde. Estou com alguns itens para verificar o que está disponível. Você pode me atender?

Pois não, senhora. Pode dizer.

O CD novo de Djavan, se chama Vesúvio.

Não temos.

O CD duplo Imagine, de John Lennon.

Ainda não recebemos.

A edição de 50 anos do Álbum Branco dos Beatles.

Também não recebemos.

E, pra terminar, dois DVDs dos Rolling Stones.  No Security e Voodoo Lounge.

Não temos, infelizmente. 

A busca se repete na Saraiva.

O resultado é o mesmo.

*****

Para mim, a crise que atingiu a Saraiva e a Cultura, as duas maiores redes de livrarias do país, é uma das notícias tristes desse final de ano.

RETRO2018/Tônia Carrero

Tônia Carrero morreu no fim da noite deste sábado (03/03), no Rio de Janeiro.

Internada desde sexta-feira numa clínica particular, a atriz estava fazendo uma pequena cirurgia quando teve uma parada cardíaca.

Grande dama do teatro, cinema e televisão, Tônia tinha 95 anos e não atuava mais.

Em 1982, levei Paulo Autran para conhecer o Espaço Cultural, ainda em obras. O ator era reconhecido nas ruas. As pessoas gritavam: “Baldaracci!”, nome de um personagem que viveu na televisão. Autran tinha uma queixa: “Fiz teatro a vida inteira e as pessoas só sabem quem eu sou por causa de uma novela”.

Como Autran, Tônia Carrero foi uma grande atriz de teatro. Com o cinema dos tempos da Vera Cruz, ganhou projeção nacional, mas as pessoas lembram dela principalmente por causa das novelas da Globo.

Tônia fez mais teatro do que cinema e televisão juntos, embora sua estreia tenha sido na tela grande. Foram 54 peças, 19 filmes, 15 novelas.

Nome fundamental da história do TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), no palco ela foi de Pirandello a Sartre, de Shakespeare a Plínio Marcos.

Na foto, Paulo Autran e Tônia Carrero fazem Macbeth.

A atriz foi casada com Adolfo Celi, ator e diretor italiano que veio para o Brasil e atuou no teatro e no cinema.

A televisão só entrou em sua vida quando já tinha quase 50 anos.

Era de uma geração de admiráveis atores e atrizes que migraram do palco para as telenovelas.

E é por causa destas que será lembrada hoje por milhões de brasileiros que lamentam a sua morte.

RETRO2018/Milos Forman

O cineasta Milos Forman morreu neste sábado (14/04) aos 86 anos.

Era tcheco, mas a maior parte da sua carreira foi nos Estados Unidos.

Em 1968, fugiu dos tanques soviéticos que acabaram com a Primavera de Praga.

Seu primeiro filme americano, vi na época, com sabor de estreia. É Procura Insaciável. Fala de pais e filhos, tem muita música e traz o olhar de um estrangeiro sobre conflitos específicos da América ali na virada dos anos 1960 para os 1970. Revi há pouco. Envelheceu, é ingênuo, mas conserva algo de singelo que faz com que não o esqueçamos.

O filme que projetou Forman internacionalmente foi Um Estranho no Ninho. Cinco prêmios Oscar, incluindo melhor filme e melhor diretor. A loucura tomada como metáfora da rebeldia do homem às pressões do sistema sobre suas prerrogativas individuais – resumiu, na época, o crítico Antônio Barreto Neto.

Milos Forman filmou Hair no final da década de 1970. O musical fizera sucesso 10 anos antes. É, portanto, um filme tardio. Belo, mas anacrônico. Quando chegou às telas, o sonho da era de aquarius já estava desfeito.

O maior triunfo de Milos Forman veio quando, afinal, voltou a Praga para rodar Amadeus. Teatro transformado em cinema com absoluta maestria. A vida de Mozart narrada pelo rival Salieri. Oscar de melhor filme. Estatueta de melhor diretor para Forman.

Há outros, mas esses quatro filmes podem apresentar o cinema de Milos Forman às novas gerações.

RETRO2018/Charles Aznavour

O cantor Charles Aznavour, de 94 anos, morreu na madrugada desta segunda-feira (01/10).

Ele tinha voltado de uma turnê pelo Japão e estava em sua casa, no sul da França.

Charles Aznavour era (é) o maior cantor popular da França.

Charles Aznavour era (é) um dos maiores cantores do mundo.

Sabia tudo do seu ofício.

Dominava o palco como poucos.

Também brilhou no cinema.

Aí está o jovem Aznavour em Tirer Sur Le Pianiste, de Truffaut, clássico da Nouvelle Vague.

Charles Aznavour tinha apenas 1.60 de altura, mas era um gigante.

Aznavour morreu cantando.

RETRO2018/Roger Waters

Quem vai ao show de Chico Buarque sabe da militância política do artista.

Na turnê Caravanas, que passou há pouco por João Pessoa, nem era preciso que Chico gritasse o “Lula livre”. A plateia já se manifestava espontaneamente.

Quem vai ao show de Roger Waters sabe da militância política do artista. Muito maior do que a de Chico Buarque porque se dá em escala planetária.

No caso do ex-Pink Floyd, não é necessário que a plateia se manifeste. O grito vem do palco, do artista, está estampado explicitamente nos telões.

O neofascismo está crescendo. Trump nos Estados Unidos. Le Pen na França. Putin (com uma interrogação) na Rússia. Bolsonaro no Brasil. O alerta de Waters é claro.

Nesta terça-feira (09/10), Roger Waters se apresentou em São Paulo. E foi surpreendido.

Uma parte expressiva do público que pagou caro para vê-lo cantar grandes sucessos dos tempos do Pink Floyd não gostou do engajamento político do artista (sobretudo do “ele não” exibido no telão). Como se não o conhecesse, como se não soubesse que ele faz assim em qualquer parte do mundo.

Waters foi vaiado. Foi xingado. Chamado de “filho da puta”.

O músico pode até ter ficado constrangido nos quatro minutos de vaias e xingamentos, mas reafirmou a sua postura em favor dos direitos humanos e falou especificamente sobre o Brasil:

“Vocês têm uma eleição importante em três semanas. Vão ter que decidir quem querem como próximo presidente. Sei que não é da minha conta, mas eu sou contra o ressurgimento do fascismo por todo o mundo. E como um defensor dos Direitos Humanos, isso inclui o direito de protestar pacificamente sob a lei. Eu preferiria não viver sob as regras de alguém que acredita que a ditadura militar é uma coisa boa. Eu lembro dos dias ruins na América do Sul, e das ditaduras, e foi feio”.

RETRO2018/OK OK OK é o melhor disco do ano

OK OK OK, de Gilberto Gil, é, para mim, o melhor disco de música popular brasileira do ano que está terminando.

Na RETRO2018, republico o que escrevi quando o CD foi lançado.

Sei que não dei nenhuma opinião
É que eu pensei, pensei, pensei, pensei
Palavras dizem sim, os fatos dizem não

OK OK OK, a faixa que dá título ao disco, abre o repertório com uma resposta de Gil às cobranças que lhe são feitas. “E então, não vai se posicionar sobre a atual situação?” – coisas assim.

Vi num artigo alguém dizer que a letra é ambígua. Não me parece. Gil costuma olhar o mundo com riqueza e complexidade e não o faz de forma diferente quando o assunto é o Brasil e seus impasses.

Uma entrevista de dias atrás fala disso: o artista foi ao show Lula Livre na Lapa, cantou Cálice com Chico Buarque, mas disse depois que não votaria necessariamente em Lula.

Sua presença no evento tem a ver com princípios e preocupações que vão além do desejo real de que o ex-presidente seja posto em liberdade e da possibilidade de votar nele.

OK OK OK  me remeteu a Metáfora, de 1982. Aqui, acolá, nas soluções melódicas. Também na letra. Deixem o poeta em paz. Ele diz tudo sem dizer nada.

*****

Há algum tempo, a morte se incorporou às conversas que tenho com Gil. Por causa da passagem dos anos, por causa das perdas que vão se acumulando.

Uma década atrás, ouvi dele uma lição que recebeu de Walter Smetak: todos os dias, é preciso tirar um tempinho para refletir sobre a inevitabilidade da morte. Pode não ser fácil, mas é importante fazê-lo.

OK OK OK, o disco, é uma grande conversa sobre a vida e a morte. Ao modo de Gil.

A doença grave que enfrentou há dois anos, o envelhecimento, a família (após os filhos, os netos e bisnetos), os amigos, os colegas de ofício, os médicos, a ausência de Jorge Bastos Moreno (um “irmão” tardio) – tudo isso foi mexendo com o compositor. Foi se juntando para montar uma espécie de retrato que é esse primeiro disco da velhice, como Gil chamou OK OK OK.

É uma conversa serena. Uma conversa que é construída pelo conjunto das canções (12 + três bônus). Com essa serenidade e com a sabedoria que Gil foi acumulando ao longo da vida.

Musicalmente, tem o reencontro com João Donato (velho parceiro), o encontro com Yamandu Costa (exímio violonista), o diálogo profícuo com Bem, o filho músico, a quem se deve muito da sonoridade do disco.

Na hora de compor, Gil está afiado. É o Gil de ontem, o Gil de sempre, sem deixar de ser o Gil de hoje. É curioso como ele consegue ser o mesmo sendo outro. Como ele é perene e atual.

Esse disco começou num momento difícil, de doença, riscos e longas permanências no hospital.

Uma canção, outra, mais outra, aos poucos reveladas, ainda nuas, nas redes sociais.

Terminado, OK OK OK sobrepõe a vida à morte.

E reúne infinitas belezas para nós que amamos Gil.

RETRO2018/Leonard Bernstein

Os americanos celebram neste sábado (25/08) o centenário de nascimento de Leonard Bernstein.

Não, não. Dizer os americanos é pouco.

O mundo da música celebra neste sábado o centenário de nascimento de Leonard Bernstein.

Está aí ele jovem, regendo.

Está aí ele velho, regendo.

Está aí ele “louco”, feito um astro do rock, regendo.

Leonard Bernstein foi um dos músicos mais importantes do século XX. Imenso em tudo o que fez. Grande compositor, grande pianista, grande regente de orquestra.

Como homem do seu tempo (embora sofresse por acreditar que havia pouca contemporaneidade em sua música), Bernstein tem seu nome junto dos que produziram o melhor repertório erudito do século XX. Também figura ao lado dos regentes mais notáveis da era do disco (sobretudo nos anos em que esteve à frente da Filarmônica de Nova York). Conduzindo uma orquestra, era performático, “louco”, expressivo, passional. Usou a televisão para divulgar a música clássica numa extensa série de concertos dedicados sobretudo ao público jovem. Tinha ainda uma admiração singular pelo jazz e o difundiu através de programas didáticos que fizeram história.

Bernstein era um astro pop. Ousado, provocativo, controvertido.

Casou com a atriz chilena Felicia Montealegre, com quem teve três filhos, mas era gay. Também era de esquerda. “Me respeitem! Sou um veado vermelho!”, teria dito certa vez aos seus críticos (se é lenda, imprima-se a lenda!). Judeu, vivendo em Nova York, vizinho de John Lennon no Edifício Dakota, o maestro não gostava somente do jazz quando o assunto era a música popular. Amava o rock de Elvis, dos Beatles e dos Rolling Stones. E cutucava os colegas do mundo erudito ao dizer que, se pensarmos na relação do homem com a música, os Beatles foram mais importantes do que os clássicos contemporâneos do século XX.

Quando a Orquestra Filarmônica de Israel tocou Richard Wagner pela primeira vez, o público reagiu mal por causa da preferência de Hitler pelo compositor. Bernstein, mesmo sendo judeu, defendeu a escolha, afirmando que Wagner não poderia estar ausente do repertório de nenhuma orquestra moderna. Já no concerto em comemoração pela queda do muro de Berlim, regeu a Nona Sinfonia de Beethoven e, no trecho cantado, trocou a palavra alegria por liberdade.

Seu amor pela música popular foi recompensado. São dele as melodias de um dos musicais mais populares do século XX: West Side Story, que transpõe a tragédia de Romeu e Julieta para a Nova York dos anos 1950, colocando o casal apaixonado (Tony e Maria) no meio de duas gangues de rua. O tema da luta dos imigrantes pela conquista do sonho americano permanece atual, mais ainda agora sob Donald Trump. West Side Story virou filme, dirigido por Robert Wise, que no Brasil se chama Amor, Sublime Amor.

West Side Story parece música popular, se transformou em música popular, mas não é. Suas “canções” e seus temas instrumentais foram escritos com o rigor da música erudita. Leonard Bernstein, já no fim da vida, gravou pela primeira (e única) vez este grande musical. E o fez com uma orquestra montada com músicos que arregimentou em Nova York e maravilhosos cantores líricos, de Kanawa a Carreras, de Troyanos a Ollmann.

Leonard Bernstein morreu em outubro de 1990, aos 72 anos. Tinha câncer de pulmão.

A música de Lenny está viva!