RETRO2016/CDs indispensáveis do ano que termina

É uma lista totalmente pessoal. São CDs que fariam muita falta se não estivessem no meu acervo. Posto aqui para compartilhar com todos:

Saudade de Pernambuco – Alceu Valença

Vivo! Revivo! – Alceu Valença

Até Pensei que Fosse Minha – António Zambujo

Don Don – Danilo Caymmi

Perpetual Gateways – Ed Motta

Donato Elétrico – João Donato

Ao Vivo no Cine Theatro Brasil – Lô Borges e Samuel Rosa

Abraçar e Agradecer – Maria Bethânia

Frevo Sanfonado – Spok Frevo Orquestra

Teresa Cristina Canta Cartola 

The Real Royal Albert Hall 1966 Concert – Bob Dylan

Black Star – David Bowie

I Still Do – Eric Clapton

75th Concert Celebration – Joan Baez

Invitation to Illumination – John McLaughlin e Santana

Freedom Jazz Dance – Miles Davis

Blue & Lonesome – The Rolling Stones

Santana IV – Santana

57th e 9th – Sting

RETRO2016/Leon Russell

Leon Russell morreu no dia 13 de novembro. Tinha 74 anos.

Ele não é muito conhecido, mas não ficaria de fora da minha retrospectiva.

Grande músico!

Pianista, guitarrista, cantor, arranjador, compositor, band leader, Leon trabalhou com Joe Cocker, Eric Clapton, George Harrison, e fez canções que marcaram os anos 1970, como This Masquerade e A Song for You.

Querem vê-lo em ação, no palco? Confiram os documentários The Concert for Bangladesh e Mad Dogs & Englishmen.

leon-russell

RETRO2016/Umberto Eco

Umberto Eco morreu no dia 19 de fevereiro. Tinha 84 anos.

eco

Notável pensador contemporâneo, grande escritor, professor, Eco escreveu o best seller O Nome da Rosa.

Era um acadêmico que escrevia romances, e foram estes que o tornaram popular no mundo inteiro.

No fim da vida, deu uma declaração tão lúcida quanto polêmica: reconheceu que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.

O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade, disse Eco.

RETRO2016/Eric Clapton, mesmo doente, ainda faz!

I Still Do”. Eu ainda faço. É o nome do novo disco de Eric Clapton. O lançamento coincidiu com uma notícia ruim: o guitarrista, que um dia foi chamado de deus, tem neuropatia periférica, uma doença grave que pode impedi-lo de tocar. Consequência dos excessos do passado.

Eric Clapton

Eric Clapton tem 71 anos. Seu disco novo parece antigo. O produtor é o velho Glynn Johns, que, há muito tempo, já trabalhou com os Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin e o próprio Clapton. A capa foi desenhada por Peter Blake, o autor, no remoto 1967, da capa do “Sgt. Pepper”, o disco mais importante dos Beatles.

A sonoridade é de disco analógico, e o repertório, pouco autoral, vai do tradicional a Bob Dylan, de Robert Johnson a J.J. Cale. Mas o resultado é um primor para os que admiram o guitarrista. Tocando ou cantando, Clapton continua irresistível.

Na ficha técnica, há um dado intrigante: um músico chamado de anjo misterioso. No final dos anos 1960, num disco do Cream (o power trio de Clapton), o beatle George Harrison assinou como o anjo misterioso, no lugar de colocar seu nome na faixa “Badge”. Quem é, então, o anjo misterioso de 2016?

RETRO2016/Jackson do Pandeiro num box cinco estrelas

O box da Universal Music “Jackson do Pandeiro, O Rei do Ritmo” foi recebido como um dos grandes lançamentos do ano. E é. São 15 discos que reúnem, não a íntegra, mas boa parte das gravações feitas por esse paraibano de Alagoa Grande entre a década de 1950 e o início da de 1980.

jackson-do-pandeiro

Não é à toa que Jackson ficou conhecido como o rei do ritmo. Ele, de fato, notabilizou-se por uma muito peculiar divisão rítmica que marcava o seu jeito de cantar e tocar o instrumento que incorporou ao seu nome artístico.

Foi grande cantando forró e também muita música de carnaval (frevos e sambas). E exerceu notável influência sobre artistas como Gilberto Gil, Alceu Valença, João Bosco, Lenine e Xangai. Era urbano, enquanto Luiz Gonzaga era rural.

Os dois – Gonzaga e Jackson – se completam para orgulho da nação nordestina.

Questões autorais impediram que os discos fossem relançados em seus formatos originais. Apenas dois estão no box da Universal. Os demais estão distribuídos em seis coletâneas duplas e uma simples. Os registros da fase Philips estavam bem preservados e permitiram uma remasterização muito boa.

O nome do produtor e pesquisador musical Rodrigo Faour não pode ser esquecido. Sem ele, não haveria a preciosa caixa de Jackson do Pandeiro.

“Jackson do Pandeiro, O Rei do Ritmo” é um lançamento cinco estrelas!

RETRO2016/George Martin

George Martin, o quinto beatle, morreu no dia oito de março.

O texto a seguir, escrevi nos 90 anos do maestro, comemorados no dia três de janeiro.

sir-george-martin

A quem cabe o título de quinto beatle? A Pete Best, o baterista substituído por Ringo em 1962? A Stu, o amigo de John que tocou no grupo antes da fama? A Brian Epstein, o empresário que levou os rapazes ao sucesso? A nenhum deles. O quinto beatle, não tenho dúvidas, é o maestro e produtor George Martin.

Em 1962, quando conheceu os Beatles, levados por Brian, Martin tinha 36 anos. John Lennon e Ringo Starr, os mais velhos, tinham 22. Paul McCartney, 20. George Harrison, o caçula, apenas 19. A diferença de idade era significativa. Embora ainda muito jovem, o maestro já era conhecido como arranjador e produtor de discos. Sua figura se impôs como a de um pai que desconfia um pouco do talento dos filhos, mas enxerga neles algo que o faz crer na viabilidade do investimento.

Entre 1962 e 1969, George Martin atuou como produtor e arranjador de todos os discos dos Beatles. Somente o último, “Let it Be” (de 1970), foi gravado por ele, mas finalizado por Phil Spector. Muito mais do que um nome impresso nas capas e selos: a música de Martin está dentro da música dos quatro beatles. A despeito da tese de Paul McCartney de que, se é assim, por que o maestro não transformou em fenômenos semelhantes outros artistas que produziu?

Não é um bom argumento o de Paul. É injusto. Sim, claro que os Beatles evoluíram naturalmente como músicos e autores, e isto ocorreu graças ao talento extraordinário que provaram ter. Mas, do jeito que os conhecemos, não há como desassociá-los de George Martin, seus conselhos, sua experiência, sua erudição, as trocas que os técnicos dos estúdios londrinos de Abbey Road testemunharam.

O resultado objetivo está nos arranjos e produção dos discos. No terreno do subjetivismo, temos Martin como uma espécie de tradutor de ideias. Quando John quis fazer música concreta (em “Revolution 9”), precisou muito mais do maestro do que do vanguardismo de Yoko. Sua “Strawberry Fields Forever” (comparemos a fita demo com o resultado final) não seria o que é sem o arranjo deslumbrante que ganhou. E assim por diante. Um quarteto de cordas aqui, instrumentos de sopro ali, até a complexidade de uma orquestra sinfônica – não é tarefa difícil enxergar George Martin nos Beatles.

O autor, eclipsado pelo produtor, aparece na bela “Pepperland”, escrita para a trilha do desenho “Yellow Submarine”. E em outros temas que ouvimos na animação. O produtor segue depois dos Beatles. “Tug of War”, de Paul McCartney, é um exemplo eloquente. Ou “The Glory of Gershwin”, tributo ao grande compositor americano gravado, já na década de 1990, em torno do instrumentista Larry Adler.

Em 1998, com sinais de surdez, o maestro anunciou sua despedida. Debruçou-se sobre os Beatles em “In My Life”. Revisitou o repertório do grupo com suaves ousadias. Além de músicos, convidou atores para gravar com ele. Mexeu nos arranjos, recriou. Com a prerrogativa de quem ouviu aquelas canções no nascedouro. A Sean Connery, pediu que declamasse a letra de “In My Life”. A canção, que John compôs aos 25 anos como se estivesse na velhice, recebeu, afinal, a voz de um homem velho.

Não há outros. Os Beatles, como eles são, sem exagero algum, não existiriam sem a elegância e a musicalidade do maestro George Martin.

RETRO2016/Bob Dylan não vai, mas o Nobel é dele!

Neste sábado (10), Bob Dylan deveria estar em Estocolmo para receber da Academia Sueca o Nobel de Literatura. Mas ele não vai. Mandou um discurso que será lido durante a cerimônia.

Surpreendente? Claro que não! É Bob Dylan sendo Bob Dylan!

Surpreendente foi a escolha da academia.

leon-russell-e-bob-dylan

Surpreendente porque a regra é que o prêmio da Academia Sueca vá para um nome da literatura. Não para um músico, um músico de rock, um letrista de música popular.

Dar o Nobel a Dylan é conferir aos letristas da música popular um status acadêmico nem sempre admitido. É reconhecer as inovações literárias processadas no seu campo de criação. É também premiar uma geração brilhante que, meio século atrás, enriqueceu o mundo com suas melodias, seus versos, suas ideias generosas.

O Dylan premiado com o Nobel representa todos. Os Beatles, os Rolling Stones, a musa Joan Baez, Paul Simon. Os daqui também. Caetano, Chico, Gil, grandes letristas, no nível dos melhores do mundo.

Júbilo para os ouvintes de Mr. Zimmerman! Principalmente os da geração dele, os que puderam ouvi-lo desde o início, há mais de 50 anos. Também para os da minha faixa etária, os que estão beirando os 60. Os que alcançaram Dylan num momento de grande criatividade, ainda com o frescor da juventude por perto.

Em maio, quando Dylan fez 75 anos, escrevi algo sobre ele. Transcrevo parte aqui:

Judeu, Robert Allen Zimmerman é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com essas duas opções. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.   

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.      

RETRO2016/Prince

Uma morte que surpreendeu o mundo da música popular.

Prince, aos 57 anos, no dia 21 de abril.

Artista de muitas facetas, ícone pop que se consolidou a partir dos anos 1980, teve trajetória irregular, às vezes controvertida, entre grandes êxitos e momentos de declínio.

Ficam a música, marcada por forte diversidade, e uma arrebatadora performance nos palcos.

prince

RETRO2016/Cauby Peixoto

Em 2016, o Brasil perdeu um dos seus maiores cantores. Cauby Peixoto morreu no dia 15 de maio.

Segue o texto que publiquei na edição online do JORNAL DA PARAÍBA.

cauby

Perdemos Cauby Peixoto. O intérprete de “Conceição” morreu em São Paulo. Tinha 85 anos, 65 de carreira. Poucos experimentam o privilégio de trajetória tão extensa e íntegra.

Nascido em Niterói numa família de músicos, Cauby vem de longe. Da época em que os artistas brilhavam no rádio, cantando ao vivo. Suas gravações na Columbia, na década de 1950, já revelavam uma grande voz. O samba-canção “Conceição” é daquele tempo. Tornou-se obrigatório nos shows do cantor.

Claro que Cauby não era roqueiro, mas foi ele que gravou o primeiro rock cantado em português, “Rock and Roll em Copacabana”. Mudou de nome (Ron Coby) quando tentou carreira nos Estados Unidos. Gravou e fez cinema lá, mas não ficou. Dizia que sentiu saudade do Brasil.

Cantava como poucos. Tinha um registro vocal grave, um dos mais belos da música popular que o Brasil produziu. Sua versatilidade era impressionante. Ia do samba ao jazz, do bolero ao rock, do tango às baladas românticas com uma intimidade invejável. Brincava com a voz, fazia scat como só os grandes do jazz costumam fazer.

Gravou muito, enfrentou um período de declínio, ressurgiu cantando “Bastidores”, de Chico Buarque. “Cantei, cantei/jamais cantei tão lindo assim”- Cauby, literalmente, tomou para si a canção de Chico!

Nos últimos anos (entre 2009 e 2015), lançou nove CDs, como se tivesse a consciência do fim próximo. Quase todos temáticos: Roberto Carlos, Frank Sinatra, Beatles, Nat King Cole, Bossa Nova. O canto estava mais contido, menos ousado, mas continuava irresistível.

Perdemos Cauby Peixoto, mas não o privilégio de ouvi-lo. Cauby! Cauby!

RETRO2016/Zé Ramalho e Sinfônica PB numa noite inesquecível

Um grande momento do ano que está acabando: o concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba no teatro A Pedra do Reino.

Comento a seguir.

ze ramalho e rquestra sinfonica da pb foto francisco fran??a scom pb (7)

Os acordes iniciais e os primeiros versos de Avôhai arrebataram o público de quase três mil pessoas no teatro A Pedra do Reino. Que canção enigmática e mágica. Agora, vista de longe. Tão nordestina quanto universal.

Que beleza ver seu autor reapresentando a música na mesma cidade onde a cantou pela primeira vez, 40 anos atrás, num evento chamado Coletiva de Música da Paraíba, no velho Teatro Santa Roza.

Testemunhei os dois momentos. Separados por quatro décadas, eles podem sintetizar a longa caminhada de Zé Ramalho.

Essa noite dele com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi histórica. Doze canções retiradas de discos seminais ganharam os adornos luxuosíssimos de uma grande formação. Quase 140 músicos a executar os belos arranjos escritos por Emanoel Barros, um jovem de 21 anos. O solista era o próprio autor: Zé, sua voz e seu violão. Tudo sob a batuta de Luiz Carlos Durier, o maestro que não continha a alegria de estar ali.

AvôhaiVila do SossegoChão de GizAdmirável Gado Novo. Cada uma das canções do certeiro set list escolhido pelo compositor confirmava a força e a beleza da sua música. Mais do que isto: a permanência delas. O tempo, em sua inevitável passagem, já as tornou verdadeiros clássicos populares.

Clássico é o que diz respeito ao período do classicismo. Clássico é uma expressão utilizada para denominar a música de concerto. Mas clássico é também o repertório que fica. Explicou didaticamente o maestro Durier numa de suas falas à plateia.

O público do concerto de Zé Ramalho com a Orquestra Sinfônica da Paraíba foi testemunha de um encontro repleto de significados. Uma noite inesquecível. Para ficar muito bem guardada na nossa memória afetiva.

Salve, Zé!