RETRO2016/Paralamas de volta ao formato de power trio

Em setembro, Os Paralamas do Sucesso, de volta ao formato de power trio, tocaram no teatro A Pedra do Reino.

O show está na minha retrospectiva do ano.

Paralamas trio

Os Paralamas voltam ao começo para rever o conjunto da obra. O set list é um retrospecto. Momentos autorais importantes somados a influências e a alguma coisa de amigos e contemporâneos.

A fórmula funciona muitíssimo bem.

É bonito de ver. Bom para contemplar. Ainda mais num teatro, longe do desconforto das casas de show.

O conterrâneo Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone formam um grupo longevo. Produzem um som conciso e vigoroso.

Aqui, cada música é um pequeno retrato. Lembra um momento. Óculos na abertura não é uma escolha gratuita. Parece um convite para que o público junte cada retrato e se veja diante de um grande painel.

Nesse painel, há dores individuais em canções que são autorretratos. E dores coletivas em letras fortes que ainda guardam alguma atualidade.

Quando os Paralamas tocam em João Pessoa, Herbert está em casa. Lembra logo da maternidade do Grupamento de Engenharia, onde nasceu. “Na Epitácio”, referindo-se à avenida do jeito que nós, pessoenses, falamos. Tios e primos na plateia. Dessa vez, não foi diferente.

Os Paralamas atravessaram o tempo e as adversidades. Estão envelhecendo juntos. Voltam ao formato do início, apenas um trio, mas com o olhar de quem percorreu uma extensa trajetória. É sempre uma alegria revê-los ao vivo.

(A foto é de Maurício Valladares)

RETRO2016/Mais discos que “Ouvi e Gostei” no ano que termina

Ouvi e Gostei é um espaço que ocupo no site da Cabo Branco FM, comentando discos. Alguns títulos que se destacaram estão aqui, somando-se a outros que já incluí na minha retrospectiva de 2016.

DONATO ELÉTRICO/João Donato

João Donato nasceu no Acre, mas, musicalmente, se fez no Rio de Janeiro, no mesmo ambiente que viu nascer a Bossa Nova. Pianista, compositor, arranjador, Donato morou nos Estados Unidos, onde gravou “A Bad Donato”, disco de timbres elétricos muito influenciado pela fusão criada por Miles Davis. Agora, mais de 40 anos depois, retorna ao elétrico num CD em que divide o estúdio com jovens músicos da cena paulistana. Com repertório totalmente inédito, o trabalho soa jovem e moderno como João Donato costuma ser. Mesmo agora, aos 81 anos. 

PERPETUAL GATEWAYS/Ed Motta

O novo disco de Ed Motta foi gravado nos Estados Unidos e lançado primeiro na Europa e no Japão. É, de fato, trabalho voltado mais para o mercado internacional do que para o brasileiro. Tem dez faixas. Cinco fazem uma ponte com a soul music. As outras cinco, com o jazz. O artista, cantando em inglês, está totalmente à vontade com o virtuosismo dos grandes músicos que o acompanham. Não tem nada a ver com o Motta pop de anos atrás. O que há agora é um cantor refinadíssimo que aprendeu muito com os discos que ouviu. 

XANGAI/Xangai

Xangai está na estrada desde a década de 1970, sempre muito associado a Elomar. Seu novo CD é o primeiro que faz apenas com voz e violão. O resultado é muito bom, apesar das suas limitações como instrumentista. O disco tem autores do passado, como Ataulfo Alves e Zé Dantas, e contemporâneos, como Renato Teixeira e Geraldo Azevedo. Os nossos Jessier Quirino e Ivanildo Vila Nova também estão presentes. Xangai tem uma bela voz e um jeito de cantar que passa por Jackson do Pandeiro e Gilberto Gil. O CD coincide com sua participação na novela “Velho Chico”.

FREVO SANFONADO/Spok Frevo Orquestra

A orquestra do maestro e saxofonista pernambucano Spok renovou o frevo ao incorporar a improvisação jazzística. A renovação do gênero deu projeção à big band, que é convidada a participar de grandes festivais internacionais de jazz. Seu novo trabalho é todo dedicado ao frevo sanfonado, um formato criado pelo nosso Sivuca. A sanfona se junta à orquestra tradicional de frevo num repertório de altíssima qualidade. São peças cheias do virtuosismo que é característico dos grandes sanfoneiros do Nordeste. Spok dialoga muito bem com eles.

RETRO2016/Discos que “Ouvi e Gostei” no ano que termina

Ouvi e Gostei é um espaço que ocupo no site da Cabo Branco FM, comentando discos. Alguns títulos que se destacaram estão aqui, somando-se a outros que já incluí na minha retrospectiva de 2016.

INVITATION TO ILLUMINATION/Carlos Santana e John McLaughlin

Santana apareceu fundindo o rock com os ritmos latinos. McLaughlin surgiu tocando com Miles Davis na fusão do rock com o jazz. Em 1973, já consolidados, os dois guitarristas se encontraram para gravar um disco que homenageava John Coltrane, mestre do jazz. Em 2011, passadas quase quatro décadas, eles se reencontraram no Festival de Montreux. A íntegra do concerto está no CD duplo (também em DVD e BD) que chega agora ao mercado brasileiro. Verdadeira aula de música, show de virtuosismo, a performance de Santana/McLaughlin é puro deleite para quem os admira.

FALLEN ANGELS/Bob Dylan

Bob Dylan volta ao repertório de Frank Sinatra. No ano passado, foi em “Shadows in the Night”. Agora, aos 75 anos, em “Fallen Angels”. Dylan perdeu a condição vocal há mais de duas décadas, mas isto não o impede de gravar canções imortalizadas por The Voice. Ele faz ao seu modo, como quem busca as fontes, as matrizes do grande american songbook. O ouvinte não deve procurar Sinatra nas gravações. Ao contrário, deve ouvir essas canções pensando que elas soam como Bob Dylan. O repertório mistura músicas muito conhecidas com outras dignas de lados B.

75th BIRTHDAY CELEBRATION/Joan Baez

Nos anos 1960, Joan Baez foi musa do folk e da canção de protesto, namorada de Bob Dylan, cantou para Martin Luther King na marcha sobre Washington e esteve em Woodstock. Não é pouca coisa. Agora, está com 75 anos. Seu aniversário foi celebrado em janeiro com um concerto memorável no Beacon Theatre, em Nova York. O show se transformou num álbum duplo em que Baez divide o palco com Paul Simon, David Crosby, Judy Collins e Emylou Harris. No set list, “The Boxer”, “Gracias a la Vida”, “Swing Low, Sweet Chariot” e “Forever Young”. Primoroso!

GEORGE FEST/Dhani Harrison e convidados

Quem cuida da memória do beatle George Harrison é seu filho, Dhani. Shows, relançamento de discos – é tudo com ele, músico como o pai. Aqui, temos um longo concerto com o repertório básico de George, canções dos tempos dos Beatles e outras da carreira solo. No elenco, veteranos e jovens artistas se misturam em versões geralmente muito parecidas com os originais. A fidelidade ao universo musical de Harrison é, portanto, uma das marcas desse tributo gravado nos Estados Unidos. O próprio Dhani participa em alguns números, cantando e tocando. Dois CDs e um DVD.

LIVE IN SAN DIEGO/Eric Clapton

Nos últimos meses, desde que Eric Clapton anunciou que sofre de neuropatia periférica, três discos seus chegaram ao mercado: um trabalho inédito de estúdio, uma coletânea tripla do festival de guitarristas que promove há mais de uma década e, agora, um duplo ao vivo gravado em San Diego. O show traz o Clapton que conhecemos no palco: exímio guitarrista, executando e cantando repertório autoral e clássicos do blues. O artista tem o amigo J.J. Cale como convidado. Cale, que participa em várias faixas, é autor de “After Midnight” e “Cocaine”, dois grandes êxitos de Clapton.

QUEEN ON AIR/Queen

Já imaginaram uma emissora de rádio que recebia em seu estúdio, para performances ao vivo, grupos como os Beatles, o Who, o Led Zeppelin, o Queen? Era o que ocorria na BBC de Londres, nas décadas de 1960 e 1970. Muitas dessas apresentações viraram discos. O mais recente é o do Queen. O material completo está em seis CDs. No Brasil, a Universal lançou uma edição com dois discos. São gravações feitas entre 1973 e 1977, quando, para muitos, a banda liderada por Freddie Mercury estava em seu melhor momento. Irresistível para os fãs do quarteto.

RETRO2016/Geneton Moraes Neto

Em 2016, perdemos o jornalista Geneton Moraes Neto (na foto, com Woody Allen). No dia 22 de agosto, aos 60 anos.

Na minha memória afetiva, Geneton está muito associado a Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jomard Muniz de Britto, aos tropicalistas de um modo geral. Ao Recife e aos meus vínculos com essa cidade de tradições culturais tão fortes.

Mas está associado principalmente a um exercício jornalístico de grande qualidade que ele desenvolveu por onde passou, sobretudo na Rede Globo.

Jornalismo memorialista. Sua obsessão pelas pautas ligadas à memória sempre me pareceu muito atraente, bem como seu gosto pelas entrevistas.

A pesquisa histórica, os temas políticos, a investigação – tudo em Geneton era feito com as marcas de quem tinha admirável domínio de um ofício tão aviltado quanto o nosso.

De quem de fato dignificava o jornalismo!

Muitas lembranças dele: Geneton entrevistando Roberto Carlos, ou o maestro George Martin. Os livros, os longos textos em seu blog. A voz em off no Fantástico com o sotaque pernambucano que nunca perdeu.

Nosso último encontro foi há uns dois anos na sede da TV Cabo Branco, em João Pessoa. Falamos do seu Canções do Exílio e do filme que estava realizando sobre Glauber.

Que coincidência! Quis o destino que Geneton Moraes Neto nos deixasse no mesmo 22 de agosto e na mesma Clínica São Vicente onde, há 35 anos, morria Glauber Rocha!

RETRO2016/Chacrinha e Cássia Eller, os musicais

Chacrinha, o Musical e Cássia Eller, o Musical. Dois espetáculos que passaram por João Pessoa em 2016 e estão na minha retrospectiva.

CHACRINHA

Chacrinha, o Musical não é apenas um espetáculo biográfico. O que ele tem de mais atraente é a recriação dos programas do Chacrinha, como se estes estivessem sendo assistidos ao vivo.

No Brasil de hoje, tomado pela chatice do politicamente correto, só quem foi contemporâneo sabe como era inacreditavelmente louco o delírio tropicalista do velho Abelardo Barbosa.

Ótimo entretenimento, o espetáculo ganha força no segundo ato, quando, da plateia, somos conduzidos à ilusão de que os programas do Chacrinha estão ocorrendo ali, ao vivo.

Os personagens (cantores, jurados, executivos como Boni) são todos mostrados em tom de caricatura.

Chacrinha, não. No palco, temos uma fidelíssima recriação da figura que conhecemos na vida real.

E tudo se completa porque Stepan Nercessian não interpreta o velho guerreiro! Ele “recebe” o Chacrinha!

CÁSSIA ELLER

Cássia Eller, o Musical tem uma estrutura simples. Uma eficiente banda no fundo do palco e um pequeno elenco que encena, em ordem cronológica, alguns episódios da vida de Cássia Eller, grande intérprete da cena musical dos anos 1990.

As questões da sexualidade, os excessos que podem ter levado à morte prematura aos 39 anos, a opção por se manter à margem a despeito do êxito comercial – o musical trata abertamente desses temas.

Mas o principal (e o melhor mesmo!) é a música. As canções vão se incorporando à narrativa para também contar a história. E, no conjunto, oferecem um retrato dessa artista tão extraordinariamente talentosa do Brasil de apenas duas décadas atrás.

Muito mais cantora do que atriz, Tacy de Campos brilha intensamente e engrandece o espetáculo. Impressiona, convence, arrebata. E, por vezes, nos dá a sensação de que Cássia Eller está ali no palco, a poucos metros de nós, que estamos na plateia.

RETRO2016/Lucy Alves, depois da música, a atriz!

Já contei essa história, mas vou contar de novo.

Em 2006, fui ao apartamento de Sivuca e Glorinha Gadelha para uma sessão do DVD O Poeta do Som, que ainda não havia sido lançado.

Sivuca comentava cada número. Quando chegou a vez do Clã Brasil, ele me disse algo assim:

Está vendo essa menina? Ela é muito talentosa! Preste atenção nela!

Era Lucy Alves, que ainda não usava esse nome artístico.

Dez anos se passaram, e está aí confirmadíssimo o talento que Sivuca enxergou em Lucy (na foto, ao lado de Zezita Matos).

Primeiro, na música. Depois, na dramaturgia.

Pois é! Lucy Alves entra na minha retrospectiva de 2016 por seu desempenho (reconhecido, premiado) em Velho Chico.

Grande desempenho! Um orgulho para nós, seus conterrâneos!

Parabéns! Mais sucesso!

RETRO2016/Mônica Salmaso fez o melhor show do ano

Em 2016, Mônica Salmaso trouxe “Corpo de Baile” a João Pessoa. Foi o melhor show que vi durante o ano que está terminando.

Faz tempo que Mônica Salmaso frequenta minhas audições. Desde aquele disco no qual relê os afro-sambas de Baden e Vinícius, acompanhada pelo violão de Paulo Bellinati. Negócio difícil, mas muito bem-sucedido: regravar uma obra-prima indiscutível do nosso cancioneiro.

Rever o repertório de Chico Buarque também não é tarefa fácil. E Mônica enfrentou em “Noites de Gala, Samba na Rua”. Em estúdio e ao vivo. Os originais, que quase sempre a gente tem como definitivos, ressurgiram com novos timbres, novas cores. E como ficaram bonitos!

Mônica Salmaso. Belíssima voz, grandes escolhas de repertório, arranjos impecáveis, músicos virtuoses a acompanhá-la. Discos imprescindíveis. Notáveis participações em CDs de colegas. Uma joia rara nesse universo de tantas cantoras que ouvimos no Brasil das últimas duas décadas.

Chegamos, então, a “Corpo de Baile”. Um coleção de 14 canções da parceria de Guinga com Paulo César Pinheiro.

Somente “Bolero de Satã” é mais popular por causa do dueto de Elis Regina com Cauby Peixoto no disco “Essa Mulher”, de 1979. As outras já gravadas são muito menos conhecidas. E há as inéditas (guardadas durante anos no baú de Paulo César Pinheiro), razão principal da existência desse projeto de Mônica Salmaso.

Ao disco, seguiu-se o show.

No palco, ao lado de nove músicos, Mônica faz o repertório integral do disco. O show é primoroso, é excepcional. É perfeito! Os adjetivos serão todos insuficientes!

Uma valsa, uma modinha, uma marcha-rancho, um fado, um bolero, um tema nordestino. A tradição e a contemporaneidade. O popular e o erudito. Ou o popular tratado com felicíssima erudição. Um Brasil menos ouvido.

Algo que a gente viu em Villa-Lobos, ou em Tom, ou em Edu, ou em Hime. E vê em Guinga, autor de melodias refinadas, mestre nas harmonias do seu instrumento. Aliado aqui à poesia de Paulo César Pinheiro.

Disco guiado por um conceito. Na escolha dos arranjadores e na feitura dos arranjos. Na presença de músicos do nosso primeiríssimo time. Tudo transposto minuciosamente para o palco iluminado pelo vídeo cenário de Walter Carvalho, fotógrafo e cineasta que orgulha os paraibanos.

“Corpo de Baile” é um irretocável recital de feição camerística e tom onírico. A música é intensa. A luz, não. Ela é incomum. Talvez por causa da tela transparente que separa a cantora e seus músicos da plateia. Tela sobre a qual Walter Carvalho projeta sua “viagem”. Como se ele levasse para o teatro um pouco do seu cinema e nos dissesse que aquilo tudo, de tão bom, não parece ser real!

RETRO2016/Mohamed Ali

Virá, que eu vi!

Impávido que nem Mohamed Ali!

Mohamed Ali (que eu ainda chamo de Cassius Clay) nos deixou em 2016. Aos 74 anos, no dia três de junho.

Atleta extraordinário! Cidadão notável do seu tempo!

Com os Beatles. 

Com o grande brasileiro Pelé.

Com Nelson Mandela. 

RETRO2016/Elis Regina no palco e na tela

No ano que está terminando, tivemos dois reencontros com Elis Regina.

João Pessoa viu, afinal, o musical que conta a história da maior cantora brasileira. E chegou aos cinemas a sua cinebiografia.

NO PALCO

Elis, a Musical dialoga com dois públicos. Um, formado pelos que não foram contemporâneos de Elis Regina. Outro, pelos que foram. Neste, cabe uma subdivisão: os que não só foram contemporâneos da maior cantora do Brasil, mas tiveram o privilégio de vê-la ao vivo.

Seja qual for o público, objetivamente, é um espetáculo muitíssimo bem realizado. Dirigido por Dennis Carvalho, Elis, a Musical, da concepção ao resultado final, tira nota 10 em qualquer um desses itens: texto, escolha de repertório, cenografia, figurino, direção musical, desempenho do elenco. Nada está fora do lugar nos 150 minutos de duração dos dois atos.

Subjetivamente, a minha percepção é a de quem foi contemporâneo de Elis e pôde vê-la ao vivo. Nessa perspectiva, o musical escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade corresponde a tudo o que de melhor foi dito dele. É uma viagem melancólica e nostálgica por um tempo que, a despeito de ser de trevas, ofereceu contrapontos da dimensão de uma Elis Regina.

A tragédia pessoal da artista se funde ao impasse brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Do festival que a revelou com “Arrastão” (1965) à morte aos 36 anos (1982), Elis teve pouco mais de uma década e meia de carreira. Com muita fidelidade, o espetáculo conta a sua história e um pouco da história do país através de canções que são verdadeiros petardos para seus contemporâneos.

Viagem nostálgica porque remete à juventude dos que viram e ouviram Elis em sua época. Melancólica porque fala de sonhos desfeitos, de permanentes transversais do tempo. Elis, a Musical faz pensar no país convulsionado da ditadura, também no de hoje. A letra comovente de “Aos Nossos Filhos”, escrita num Brasil que não existe mais, soa mais forte ainda quando ouvida agora.

A permanência dos impasses brasileiros impede o que Elis, com a voz embargada, pede na letra da canção. Que se faça a festa por ela.

NA TELA

João Marcello, o filho de Elis Regina com Ronaldo Bôscoli, disse que Elis é um bom filme. Entendi assim a fala dele: é apenas bom, mas não deixe de ver!

Saí do cinema com essa sensação: é correto, bem realizado, não é excepcional, mas como é necessário!

No passado, as estrelas da música popular viravam estrelas de cinema. Ou, aqui, acolá, apareciam num documentário sobre um grande show ou uma turnê.

Agora, depois que o tempo passou, elas se transformaram em personagens de cinebiografias ou de documentários que olham as coisas de longe.

O cinema brasileiro está cheio desses filmes. Faz uns 15 anos. São importantes para a construção da memória.

Elis é o mais recente. Quem viu Elis, a Musical, pode achar que há muitas semelhanças entre os dois. E há. Eles, na verdade, se completam.

No teatro, vivemos um pouco a ilusão de que estamos diante de Elis. Isso impressiona contemporâneos e não contemporâneos dela.

No cinema, não. Mas há o impacto de uma atriz (Andreia Horta) que ficou muito parecida com a cinebiografada. Em muitos momentos, ela “recebe” Elis. Não tem nada de caricatural, como andaram dizendo!

E há o impacto da música. Andreia dubla. A voz é de Elis, cantora extraordinária que surgiu e cresceu no Brasil da ditadura e se consolidou pelo singular domínio da voz, entre a técnica e a emoção, e pelo marcante repertório que gravou em seus muitos discos.

O filme de Hugo Prata tem o contexto histórico em que Elis se firmou, seus (grandes) dramas pessoais, que acabaram levando ao desfecho trágico e prematuro, e tem muita música. Números muito bem filmados que impressionam os que admiram a artista.

A música de Elis e o desempenho de Andreia Horta são os destaques desse filme que emociona os que viram Elis em seu tempo e ensina algo aos que não viram!

RETRO2016/Teresa Cristina entre os melhores do ano

“Teresa Cristina Canta Cartola” (CD e DVD) foi um dos melhores lançamentos do ano que está terminando.

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Teresa Cristina surgiu na cena carioca, em plena Lapa, há uns 15 anos ou um pouco mais. Com o grupo Semente, gravou um songbook duplo de Paulinho da Viola que marcou o início da sua carreira e a projetou nacionalmente.

Desde cedo, foi identificada como cantora de samba. Mas Teresa gosta de black music americana, de rock pesado e de Roberto Carlos.

O disco Melhor Assim, de 2010, indicava que ela seguiria outros caminhos além do samba. A confirmação viria em 2012: com o grupo indie Os Outros, fez um disco de rock todo dedicado ao repertório de Roberto Carlos. Saudável ousadia para uma sambista tradicional.

Agora, volta à tradição do samba num registro ao vivo lançado primeiro no mercado americano.

A portelense se debruça sobre o repertório do mangueirense Cartola com uma doçura e uma sensibilidade singulares. O violão de Carlinhos Sete Cordas mistura a tradição à modernidade do violão brasileiro e oferece a parceria perfeita para a voz da cantora.

Teresa Cristina traz para os nossos dias a música de Cartola. O compositor, que morreu em 1980, já estava em cena nos anos 1930. Seus sambas atravessam o tempo com um frescor invejável. A extraordinária beleza da sua música encontra na voz da nova intérprete algo que não é passado, nem precisa ser presente. É permanência!