JN chega aos 50 como o melhor noticioso da televisão brasileira

O Jornal Nacional completou 50 anos neste domingo (01/09).

Desagradarei muita gente (de esquerda e de direita) ao dizer o que penso do JN:

Não é só o mais importante, é o melhor noticioso da televisão brasileira.

A equipe do Jornal Nacional está sempre em busca da informação correta, bem checada, com espaço para os dois lados da notícia. Como, na universidade, a gente aprende que deve ser feito.

Mais do que isso:

Traz o mais completo resumo do que aconteceu no Brasil e no mundo e o faz seguindo um altíssimo padrão de qualidade.

É o óbvio ululante o que estou dizendo.

Mas não para todos.

Para boa parte da esquerda, o Jornal Nacional ajudou a dar o golpe que derrubou a presidente Dilma, botou Lula na cadeia e levou Bolsonaro ao poder.

Para a direita truculenta que chegou ao poder na eleição de 2018, o Jornal Nacional é coisa de comunista.

Claro que nem uma coisa nem outra.

O Jornal Nacional não faz diferente do que fazem os melhores veículos da chamada grande imprensa. A Folha, por exemplo.

É que a radicalização do jogo político no Brasil levou muita gente a não compreender o papel imprescindível da mídia – do jeito que ela é, com suas virtudes e seus defeitos – na nossa frágil democracia.

Notem que, para chancelar seus argumentos, a esquerda, nas redes sociais, recorre comumente à imprensa que ela tanto critica. Compartilha conteúdos da Folha, da Globo, até de colunistas reconhecidamente de direita.

Não me surpreende que a extrema direita veja comunistas na grande imprensa. É próprio da sua burrice, da sua ignorância.

Mas lamento que o campo progressista lide tão mal com a mídia, no lugar de ter uma visão crítica, de saber ler/ver/ouvir, identificando e respeitando as opções editoriais de cada um.

O Jornal Nacional chega aos 50 anos como o mais importante e melhor noticioso da televisão brasileira.

Nesse Brasil sob desconstrução, esse aniversário bem que pode suscitar oportunas reflexões para espectadores e para nós, jornalistas.

Nota em defesa de Miriam Leitão é marco no Jornal Nacional

A jornalista Miriam Leitão ia participar de uma feira literária.

Foi desconvidada por causa de ataques feitos por bolsonaristas nas redes sociais.

Nesta sexta-feira (19), num encontro com jornalistas estrangeiros, o presidente Jair Bolsonaro também atacou a jornalista. Disse que ela mentiu sobre ter sido torturada e vítima de abuso em instalação militar, durante a ditadura.

A fala do presidente causou indignação traduzida em longa nota lida por Renata Vasconcelos no Jornal Nacional.

A nota – firme, contundente, corajosa – registra que “é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente”.

Em tom de editorial, a nota traz necessário posicionamento da Rede Globo num momento em que o país é governado por um grupo de extrema direita e é um marco para o mais importante noticioso da televisão brasileira.

Segue, na íntegra, o texto lido no Jornal Nacional:

“O presidente Jair Bolsonaro recebeu nesta sexta-feira (19) um grupo de jornalistas estrangeiros para um café da manhã. Os jornalistas cobraram do presidente um comentário sobre o ato de intolerância de que foi vítima a jornalista Miriam Leitão, no fim de semana.

Miriam e o marido, Sérgio Abranches, participariam de uma feira literária em Jaraguá do Sul, Santa Catarina. Em redes sociais, foi organizado um movimento de ataques e insultos à jornalista, cuja postura de absoluta independência foi tratada como um posicionamento político de esquerda e de oposição ao governo Bolsonaro.

Em resposta aos correspondentes internacionais, o presidente Jair Bolsonaro disse que sempre foi a favor da liberdade de imprensa e que críticas devem ser aceitas numa democracia.

Mas, depois, afirmou que Miriam Leitão foi presa quando estava indo para a Guerrilha do Araguaia para tentar impor uma ditadura no Brasil e repetiu duas vezes que Miriam mentiu sobre ter sido torturada e vítima de abuso em instalações militares durante a ditadura militar que governava o país então.

Essas afirmações do presidente causam profunda indignação e merecem absoluto repúdio. Em defesa da verdade histórica e da honra da jornalista Miriam Leitão, é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente.

Ela foi presa e torturada, grávida, aos 19 anos, quando estava detida no 38º Batalhão de Infantaria em Vitória. No auge da ditadura de 64, em 1973, Miriam denunciou a tortura perante a 1ª Auditoria da Aeronáutica, no Rio, enfrentando todos os riscos que isso representava na época.

Narrou seu sofrimento aos militares e ao juiz auditor e esse relato consta dos autos para quem quiser pesquisar.

A jornalista foi julgada e absolvida de todas as acusações formuladas contra ela pela ditadura. A absolvição se deu em todas as instâncias.

É importante ressaltar que Miriam Leitão, ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores, foi também alvo constante de ataques. Não questionaram, como agora, o sofrimento por que passou na ditadura, mas a ofenderam em sua honra pessoal e profissional em discursos do ex-presidente Lula em palanques, e até mesmo a bordo de avião de carreira, quando Miriam Leitão ouviu insultos e ofensas por parte de militantes petistas, que então a chamavam de neoliberal e direitista.

Esses insultos, no passado como agora, em sinais trocados, apenas demonstram a maior das virtudes de Miriam como profissional: a independência em relação a governos, sejam de esquerda ou de direita ou de qualquer tipo.

A Globo aplaude essa independência, pedra de toque do jornalismo profissional, e se solidariza com Miriam Leitão”.

Uma solidariedade compartilhada por nós, seus colegas da TV Globo, da rádio CBN e do jornal “O Globo”.

Dos meus comunistas, cuido eu!

Antes da Copa de 70, o presidente Médici quis escalar Dadá para a Seleção Brasileira.

O técnico João Saldanha, que era comunista, reagiu:

O presidente escala os seus ministros, eu escalo os meus jogadores.

Saldanha foi demitido, e o Brasil foi tri no México com a equipe que ele montou.

*****

O jornalista Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, foi questionado pelo governo militar:

Tem muito comunista nas suas redações.

Dr. Roberto, reconhecidamente um homem de direita, reagiu:

Dos meus comunistas, cuido eu.

*****

João Saldanha foi um dos comunistas de Roberto Marinho.

As duas histórias são parecidas.

E são ótimas histórias.

*****

Não se faz bom jornalismo sem comunistas, assim como não se faz boa dramaturgia sem homossexuais.

A frase é atribuída a Roberto Marinho.

Realidade?

Lenda?

Não importa.

Quando a lenda é melhor do que a realidade (aprendemos com John Ford), imprima-se a lenda.

*****

Durante boa parte do século XX, o mundo era dividido em duas bandas.

Numa, estavam os Estados Unidos.

Na outra, a União Soviética.

O mundo sem essa divisão não cabia na cabeça de ninguém.

Digamos que a direita tinha razões de sobra para temer os comunistas porque de fato havia comunistas.

Hoje, temos no Brasil gente que vê comunistas onde não há comunistas.

A exaltação da ignorância está na moda.

Não acompanhar a cena cultural não descredencia o jornalista

Gente ligada à cena cultural (sobretudo a musical) de João Pessoa – artistas, produtores, público – me critica porque não vou aos shows dos artistas e grupos que estão em evidência na cidade.

Mais do que isso: porque não conheço o trabalho deles.

Em alguns, a queixa exposta nas redes sociais é cordial, civilizada.

Em outros, é grosseira, agressiva.

Alguém até sugeriu, com muito senso de humor, uma campanha que poderia ser chamada de Sílvio Osias saia de casa. Ou coisa parecida.

Vou confessar: me senti mais importante do que na verdade sou.

Sim. Porque sou apenas um jornalista.

Passei 40 anos dentro de redações, vivendo do meu salário, sem nunca ter recorrido (como alguns) a métodos duvidosos para ganhar (muito) dinheiro. E hoje, aposentado e chegando ao limiar da velhice, continuo fazendo o que sempre fiz: escrevendo.

Um comentário chamou minha atenção porque dizia que a ausência descredencia minha opinião.

É necessário falar sobre isto.

O autor do comentário pretendia descredenciar minha opinião em relação a outros assuntos. Não só àqueles relacionados à atual cena musical pessoense. É o que está dito no post.

Já disse e vou repetir: não sou obrigado a acompanhar esta cena musical.

O que não posso fazer é escrever sobre o que não vi, sobre o que não conheço. E isto, nunca fiz.

Para comentar a letra de uma canção de Chico Limeira (ouvi a música, vi o video, li a letra) ou para dizer que Seu Pereira não soube tocar Blowin’ in the Wind à guitarra (vi o vídeo), sejamos honestos, não preciso ir ao show deles.

Não conheço o trabalho dos dois.

Vi Chico Limeira e Seu Pereira pela primeira vez na homenagem que fizeram aos 30 anos das afiliadas da Rede Globo na Paraíba. Eles encerraram dois dos três especiais chamados Tempo de 30, exibidos no ano passado pelas TVs Cabo Branco e Paraíba.

De Chico, ouvi rapidamente algumas canções e gostei muito. De Seu Pereira, nunca ouvi nada.

Não escreverei, portanto, sobre o trabalho deles. Até que os conheça. Se, um dia, os conhecer. Se quiser conhecê-los. Com a liberdade de escolha que todos nós, jornalistas ou não jornalistas, temos.

Já atuei profissionalmente acompanhando a cena cultural da cidade. Os que hoje querem me descredenciar nem eram nascidos. Há muitos anos, deixei de acompanhar. Não tenho interesse.

Hoje, quem tem dever profissional de ver tudo é Gi Ismael, jovem repórter da TV Cabo Branco que todos os sábados diz na telinha qual é a boa na cidade.

Eu, não!

O tempo e a experiência me deram a liberdade de escolher sobre o que escrevo.

E escrevo sobre o que conheço.

Esses jovens açodados que escrevem tolices nas redes sociais me remetem a jovens açodados de 30 ou 40 anos atrás. Como não havia redes sociais, eles falavam tolices semelhantes na mesa de bar.

Hoje, cinquentões, votam em Bolsonaro!

Transferiram a intolerância e o ódio deles da esquerda para a direita!

Globo acerta ao afastar William Waack. Racismo é abominável!

Na infância, perguntei à minha mãe o que eram símbolos.

Ela respondeu que podiam ser coisas pequenas que falavam de coisas grandes.

E recomendou que eu prestasse atenção a eles.

Sobre William Waack, acusado de racismo e agora afastado da apresentação do Jornal da Globo:

Num ao vivo, após a solenidade de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, ele entrevistou Anitta, que acabara de se apresentar ao lado de Caetano Veloso e Gilberto Gil.

A postura de Waack não foi respeitosa. Em síntese, parecia que ele humilhava a cantora com suas perguntas.

Na hora, lembrei dos símbolos da minha mãe. E passei a prestar atenção às posturas dele.

Por isso, talvez, não tenha me surpreendido com a fala abominável que ontem viralizou na Internet e rapidamente provocou o seu afastamento da bancada do JG.

O vídeo, minutos (ou segundos) antes de um ao vivo durante a cobertura das eleições americanas (a Casa Branca está ao fundo), mostra Waack reclamando de uma buzina:

Tá buzinando por quê, seu merda do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é. É preto. É preto!

A resposta da Globo foi rápida, acertada e coerente com um caminho adotado pela Rede.

Há uns dois anos, o Jornal Nacional abriu espaço para que Maria Júlia Coutinho se defendesse de ofensas racistas disseminadas nas redes sociais.

Recentemente, tivemos o caso de José Mayer, punido sob acusação de assédio sexual a uma figurinista, sua colega de trabalho.

Agora, William Waack.

A Globo fez o que deve ser feito! E ainda noticiou!

Intolerância, homofobia, misoginia, racismo! São coisas absolutamente abomináveis!

Sempre criticada por razões políticas e ideológicas, a Globo tem um posicionamento admirável em relação a esses temas, afinada com os avanços do mundo civilizado e da contemporaneidade.

Pena que tantos não queiram reconhecer!

Zezé Di Camargo, eu vi a ditadura sexta à noite na Rede Globo!

Para mim, foi um dos assuntos da semana:

Zezé Di Camargo, em entrevista a Leda Nagle, disse que não houve ditadura no Brasil.

Para ele, foi militarismo vigiado.

Fez pior: defendeu que os militares voltem para arrumar a casa e depois devolvam aos civis.

Repito o que já escrevi aqui:

O cantor perdeu uma grande chance de ficar calado!

Vendo TV, nesta sexta (15) à noite, pensei na entrevista de Zezé, a quem respeito como representante do nosso sertanejo pop.

Primeiro, por causa do penúltimo capítulo da super série Os Dias Eram Assim.

Durante uns cinco meses (vi todos os capítulos!), o tema ditadura militar no Brasil esteve presente na trama das 11 da noite da Globo.

É importante! É uma história que não pode ser apagada!

Antes que muitos repitam por aí o que Zezé Di Camargo disse.

Depois, vi Pedro Bial entrevistando Caetano Veloso.

Uma conversa que se estendeu por 60 minutos. Caetano e seus filhos, Moreno, Zeca e Tom, agora reunidos num show que estreia em outubro.

E lá estava também o tema ditadura militar no Brasil.

Conversando com Bial sobre a nova edição do livro de memórias Verdade Tropical, Caetano falou do período em que foi preso pelos militares. Ele e Gilberto Gil.

O episódio da prisão é minuciosamente narrado num dos capítulos do livro.

Pois bem, Zezé, houve ditadura militar no Brasil, sim!

A foto que escolhi para fechar esse post é uma das mais fortes imagens da violência do regime de exceção que se estendeu por 21 anos:

O jornalista Vladimir Herzog morto no DOI-CODI, em São Paulo.

“Os Dias Eram Assim” tem boa trilha sonora em CD duplo

A história de Os Dias Eram Assim começa no dia da final da copa de 70. Agora, a trama está em 1984, no momento da votação da emenda Dante de Oliveira, que restabeleceria as eleições diretas para presidente.

Já nas lojas em edição física, O CD duplo com a trilha da super série da Globo é bom painel da música brasileira do período.

Lançado pela Som Livre, o álbum contém 27 faixas.

Há músicas gravadas exclusivamente para a trilha (Aos Nossos Filhos, na voz dos atores principais. Tempo Perdido, com Tiago Iorc), mas predominam gravações da época em que se passa a trama.

Mesmo que o ouvinte não goste de alguns fonogramas compilados, não custa reconhecer que todos eles funcionam muito bem no conjunto. Até para quem não acompanha a série.

Há escolhas nada óbvias: Novos Baianos (Linguagem do Alunte), Walter Franco (Feito Gente, Mixturação), Vanusa (Atômico Platônico), Toni Tornado (Podes Crer, Amizade).

Outras são mais previsíveis, mas muito boas: Chico Buarque (Deus Lhe Pague), Chico e Milton Nascimento (Cálice), Elis Regina (Deus Lhe Pague, ao vivo), Gilberto Gil (Aquele Abraço), Mutantes (Ando Meio Desligado), Gal Costa (Divino Maravilhoso), Raul Seixas (Sociedade Alternativa).

Roberto Carlos está presente com Nossa Canção, tema dos personagens Renato e Alice. Secos e Molhados aparecem em quatro momentos: Sangue Latino, Flores Astrais, Amor e Fala. Baby Consuelo canta Menino do Rio. Erasmo Carlos, É Preciso Dar um Jeito Meu Amigo.

Quando o repertório avança para os anos 1980, temos Marina (Não Sei Dançar) e Legião Urbana (Índios).

O Bêbado e a Equilibrista (Elis), Coração de Estudante (Milton) e Caminhando (Geraldo Vandré) foram ouvidas na série, mas não entraram no CD.

A logo com letras verdes que a Som Livre usava na década de 1970 foi resgatada. Dá a impressão de que estamos manuseando um disco antigo.

“Os Dias Eram Assim” não precisa dizer que Globo apoiou a ditadura

Em 1992, Anos Rebeldes situou seus personagens entre os momentos que antecederam o golpe de 1964 e as primeiras lutas que se seguiram à volta dos exilados.

Foi marcante. Ajudou a colocar os caras pintadas nas ruas. O Brasil se redemocratizara, e, pela primeira vez, a Globo dedicava uma obra de ficção ao período da ditadura militar. Os que estiveram no poder eram os vilões. Os que lutaram pela redemocratização eram os mocinhos.

No momento em que Anos Rebeldes foi ao ar, o primeiro presidente eleito depois de 64 estava prestes a sofrer um impeachment.

Passados 25 anos, uma nova série da Globo trata do período em que o Brasil esteve sob governos de exceção.

Os Dias Eram Assim é chamada de super série. No fundo, tem as características de uma novela. No texto, na atuação do elenco, na fotografia, edição, uso de músicas que compõem a trilha sonora, etc. Tem as virtudes do padrão que a Globo há muito atingiu na sua teledramaturgia e, naturalmente, tem as limitações que os críticos das telenovelas costumam enxergar.

Os dois primeiros capítulos se passam durante a conquista da Copa do Mundo do México, em 1970, no Brasil do Ame-o ou deixe-o. A trama se estenderá até a primeira metade dos anos 1980, à época da campanha pelo restabelecimento das eleições diretas para presidente.

Os Dias Eram Assim coincide com um momento em que alguns (muitos?, poucos?) defendem a volta dos militares ao poder. Se Anos Rebeldes ajudou a botar os caras pintadas nas ruas, Os Dias Eram Assim reforçará o argumento tão imprescindível de que as ditaduras são sempre indesejáveis.

Entre os artigos que li sobre a super série, ao menos um afirmava, desqualificando a produção, que a Globo não dirá, na trama, que apoiou a ditadura. Ora, isso não é segredo para ninguém. Os méritos das empresas da família Marinho existem a despeito desse apoio – raciocínio que vale para outros grupos brasileiros de comunicação.

A Globo, ao retratar os anos da ditadura do jeito que está fazendo em Os Dias Eram Assim, não precisa fazer nenhum mea culpa. Inaceitável seria se, a essa altura, produzisse uma série para enaltecer os governos militares.

A Globo acertou, mas muita gente não quer reconhecer!

Indefensável o comportamento de José Mayer!

Admirável e corajosa a postura da figurinista!

Importante o protesto das mulheres dentro da Globo!

Correta a decisão da emissora de afastar o ator!

Estranho o silêncio de muita gente em relação à Globo!

Freixo, Crivella, Collor e o som de Lula

Partamos do pressuposto de que, por natureza, o jogo político nem sempre é muito verdadeiro. Consideremos que o que há são limites que não deveriam ser ultrapassados.

Vou dar um exemplo.

No debate histórico entre Collor e Lula, na eleição de 89, Collor ultrapassou esse limite quando disse que não tinha condições de possuir um aparelho de som igual ao de Lula.

Que bobagem, dirão alguns. Não! Não era bobagem! Collor, um homem rico. Lula, um homem pobre. Como este tinha um aparelho de som que aquele não poderia ter?

Até hoje, não sei ao certo o que levou Collor a fazer aquela afirmação, mas, para mim, ela teve uma grande força simbólica. Era como se ele fosse capaz de dizer (ou fazer) qualquer coisa, mesmo que fosse a mais descabida das mentiras. Mesmo o que não pode ser feito. Nem no jogo político.

Lembrei dessa história vendo, na Globo, o debate entre os Marcelos que disputam neste domingo (30) a prefeitura do Rio.

freixo-e-crivella

Freixo, o candidato do PSOL, partiu para o ataque. Crivella, do PRB, jogou na defensiva. Freixo parecia estar atuando dentro do que é permitido. Crivella, não.

As falas de Crivella davam a impressão de que, como Collor, ele faria (faz) qualquer coisa. A despeito do seu discurso religioso e do seu vínculo com uma igreja cristã. O episódio envolvendo a viúva de Amarildo é, no mínimo, nebuloso. E – convenhamos – não foi bem explicado pelo candidato.

Como show de televisão, o debate foi mais atraente do que muitos que tenho visto nos últimos tempos. As provocações, as acusações, o cinismo e a ironia como armas de defesa – tudo isso prende o telespectador. Ideias para a cidade, propostas, programa de governo? – não era o mais importante!

Freixo diz coisas nas quais é preciso acreditar nesses tempos de pouca crença no jogo político. Crivella atua num território que faz lembrar a história de Collor e o som de Lula. A julgar pelas pesquisas, é nas mãos dele que a prefeitura do Rio estará nos próximos quatro anos. A não ser que ocorra um milagre.