RETRO2018/Paul Simon

In the Blue Light, o disco novo de Paul Simon, é imprescindível para quem acompanha de perto o seu trabalho. Traz um homem velho recriando canções. Elas vêm de discos gravados entre 1973 (There Goes Rhymin’ Simon) e 2011 (So Beautiful or So What).

Os timbres são outros, os instrumentos, os arranjos, o jeito de cantar. A exposição do que talvez estivesse escondido nas gravações originais. Um certo desejo de tornar essas canções ainda mais perenes. De acentuar o que lhes confere permanência, resistência à passagem do tempo.

É justo pressupor que são canções da predileção do autor. E é fácil constatar que são canções pouco conhecidas. Não são grandes sucessos. É como se ele nos sugerisse: “Prestem atenção nessas aqui. Elas são tão bonitas também”.

E como são!

In the Blue Light traz músicos excepcionais e formações menos comuns nos discos de Simon. Há de Wynton Marsalis aos brasileiros do Duo Assad, de Jack DeJohnette e Steve Gadd ao sexteto yMusic .

E há canções perfeitas como René and Georgette Magritte with Their Dog After the War, que reputo como uma das mais inspiradas de todo o cancioneiro de Paul Simon.

Hoje não tem mais Phil Ramone, mas, aos 84 anos, Roy Halee divide a produção com Simon. A parceria dos dois, que vem de longe, é um selo de altíssima qualidade.

Paul Simon é um homem velho relendo canções em grande CD

Paul Simon está com 77 anos.

Ele acaba de lançar um CD chamado In the Blue Light.

O título foi retirado de uma canção do início dos anos 1980 (How the Heart Approaches What It Yearns).

O disco reúne releituras de 10 das suas canções.

Paul Simon? Há muitos.

Há o jovem que fazia dupla com Art Garfunkel na juventude. Ficaram famosos como Simon & Garfunkel, mas, na adolescência, no tempo da escola, eram Tom e Jerry. Simon compunha, Garfunkel só cantava. Miravam-se na canção branca, muito folk, dos Everly Brothers.

Há o autor em trajetória solo, longe do parceiro. Três discos primorosos nos anos 1970 (+ um o vivo). Canções mais refinadas e até mais belas do que as da década anterior. Um pé na música do mundo (o Peru do Urubamba, o Brasil de Sivuca e Airto Moreira). O gospel dos negros somado ao folk dos brancos.

Há o homem maduro a descobrir e difundir a música da África do Sul. Aos que o criticaram por romper o bloqueio cultural imposto ao regime racista de minoria branca, ofereceu Graceland, um canto à harmonia entre os povos através da canção popular.

Há o artista que, após o êxito de Graceland, veio ao Brasil fazer The Rhythm of the Saints e, da Bahia, das ladeiras do Pelourinho, projetou os tambores do Olodum para o mundo.

As descobertas de Graceland e de The Rhythm of the Saints mudaram seu trabalho. Muitas vezes, sobrepuseram o ritmo à melodia. O Paul Simon aos 50 anos, em 1991, era muito diferente do jovem que encantou as pessoas com canções como The Sound of Silence e Bridge Over Troubled the Water.

In the Blue Light, o disco que Paul Simon acaba de lançar, é imprescindível para quem acompanha de perto o seu trabalho. Traz um homem velho recriando canções. Elas vêm de discos gravados entre 1973 (There Goes Rhymin’ Simon) e 2011 (So Beautiful or So What).

Os timbres são outros, os instrumentos, os arranjos, o jeito de cantar. A exposição do que talvez estivesse escondido nas gravações originais. Um certo desejo de tornar essas canções ainda mais perenes. De acentuar o que lhes confere permanência, resistência à passagem do tempo.

É justo pressupor que são canções da predileção do autor. E é fácil constatar que são canções pouco conhecidas. Não são grandes sucessos. É como se ele nos sugerisse: “Prestem atenção nessas aqui. Elas são tão bonitas também”.

E como são!

In the Blue Light traz músicos excepcionais e formações menos comuns nos discos de Simon. Há de Wynton Marsalis aos brasileiros do Duo Assad, de Jack DeJohnette e Steve Gadd ao sexteto yMusic .

E há canções perfeitas como René and Georgette Magritte with Their Dog After the War, que reputo como uma das mais inspiradas de todo o cancioneiro de Paul Simon.

Hoje não tem mais Phil Ramone, mas, aos 84 anos, Roy Halee divide a produção com Simon. A parceria dos dois, que vem de longe, é um selo de altíssima qualidade.

Ainda louco após todos esses anos

Still Crazy After All These Years.

Ainda louco após todos esses anos.

Ouvi essa canção pela primeira vez aos 16 anos, em 1975.

Paul Simon, o autor, tinha 34.

Dava título ao LP que tem essa capa.

O tempo passou. Paul Simon vai fazer 77 anos agora em outubro.

Está mais ou menos assim, como nessa foto.

Mas Still Crazy After All Theses Years não se descolou dele.

Continua obrigatória no set list dos seus shows.

Volto sempre à canção, nas diversas versões que tenho.

Recentemente, como número de encerramento do grande concerto que Simon fez no Hyde Park, em Londres.

O show foi em 2012, mas só no ano passado se transformou num combo (ainda não distribuído no mercado brasileiro) com dois CDs e um DVD.

Still Crazy After All These Years é uma balada com uma atmosfera bluesy. Um piano elétrico acompanha o cantor. Uma bateria, um baixo, um teclado simulando cordas. No meio, tem um solo devastador de sax tenor. Parece ser sempre o mesmo, mas comporta a assinatura do músico da vez. Para mim, era o máximo quando Michael Brecker estava na banda de Simon.

Não é uma canção simples, fácil. É refinada, tem algo da sofisticação das grandes canções do american songbook. A melodia é bela. A performance vocal cresce depois do solo de sax, até chegar às notas mais altas do final.

A letra parte do reencontro com um velho amor. O autor conta pra gente como foi. E tem aqueles versos: I’m not the kind of man/Who tends to socialize/I seem to lean on/Old familiar ways.

Gosto de ouvir essa música pensando que é bom conservar algo das nossas loucuras juvenis, a despeito da passagem do tempo.

Still Crazy After All These Years cresce na medida em que os anos se vão.

Penso que cresce para o seu autor. Certamente, cresce para os seus ouvintes.

O jovem Paul Simon já flertava com a música do mundo

Muita gente ainda pensa que o interesse de Paul Simon pela música de outros países, que não os Estados Unidos, só se manifestou em 1986, quando lançou o álbum Graceland. Tudo é mais explícito naquele disco gravado com instrumentistas e cantores da África do Sul nos estertores do regime racista de minoria branca, mas os sinais de que um dia faria algo assim podem ser identificados desde o começo da sua carreira solo, no início da década de 1970 (talvez até antes, nos anos 1960, quando fazia dupla com Art Garfunkel). É só ouvir os quatro discos (três de estúdio, um ao vivo) que o artista gravou logo depois do fim da dupla Simon & Garfunkel.

Tenho grande admiração por Live Rhymin. Sei que não é melhor do que os títulos gravados em estúdio, mas há algumas coisas especiais neste registro ao vivo de 1974. Podemos dividir o repertório em três grupos: o das faixas acústicas, em que o compositor se acompanha apenas ao violão, o dos números com o Urubamba, um grupo peruano, e o do encontro de Simon com o Jessy Dixon Singers, conjunto vocal de negros que cantam gospel. O Urubamba nos dá a nítida impressão de que canções americaníssimas como Duncan e The Boxer são música inca. Ao dividir o palco com o Jessy Dixon Singers, Paul Simon faz The Sound of Silence e Bridge Over Troubled Water soarem como gospel.

Em estúdio, Paul Simon, de 1971, começa com o hit Mother and Child Reunion. É, provavelmente, o primeiro reggae de grande sucesso gravado por um artista branco numa época em que o ritmo jamaicano estava longe de ser tão conhecido como se tornou mais tarde. Neste disco, o violinista francês de jazz Stéphane Grappelli toca blues com Simon, enquanto as cuícas do brasileiro Airto Moreira, como num samba, se fazem ouvir em Me and Julio Down By The School Yard. Mesmo que de modo sutil, Paul Simon já revelava, ali, o interesse dele por sons que ultrapassassem as fronteiras do seu trabalho tal como ficou conhecido na maior parte das gravações feitas na década de 1960 ao lado de Garfunkel.

O melhor disco desta fase talvez seja There Goes Rhymin Simon, de 1973, puxado pelo hit Kodachrome. Mais elaborado do que o anterior, revela um autor que se deixa influenciar por muitas vertentes da música popular dos Estados Unidos. O mesmo pode ser dito de Still Crazy After All These Years, de 1975. A canção-título é uma balada sofisticada, com melodia e letra que só um compositor maduro escreveria. Na faixa I Do It For Your Love, o músico convidado para o solo é Sivuca. Sua sanfona e sua voz, soando como um saxofone, se misturam numa pequena melodia que lembra uma toada nordestina. Antes de pensar na África do Sul, Simon já percorrera um pouco do Brasil.

Lembranças do 11 de setembro em uma foto e uma canção

Hoje é dia de lembrar do 11 de setembro.

Antes do 11 de setembro de 2001, do ataque às torres gêmeas em Nova York, há o 11 de setembro de 1973, da deposição do presidente Allende no Chile.

O grande fotógrafo brasileiro Evandro Teixeira estava lá, cobrindo o golpe para o Jornal do Brasil.

É dele essa foto histórica:

O poeta Pablo Neruda morto, em cima de uma maca, no corredor de um hospital.

Do 11 de setembro de 2001, vou lembrar com uma canção.

Em 2011, no décimo aniversário do atentado, na cerimônia em memória das vítimas, o compositor Paul Simon cantou The Sound of Silence.

Essa canção que vem de longe, dos anos 1960, há muito está incorporada à memória afetiva dos novaiorquinos.

O dia em que Sivuca tocou com Paul Simon

A reaudição de um disco de Paul Simon de meados da década de 1970 me faz pensar em Sivuca. Não só por causa da presença do músico paraibano numa das faixas, mas, principalmente, porque o solo que ouvimos ali remete à origem de uma fusão que diferenciou a sanfona dele das outras sanfonas. E talvez a tenha feito mais ouvida dentro e fora do Brasil por sua absoluta originalidade.

O disco de Simon: Still Crazy After All These Years. A canção: I Do It For Your Love. A fusão: da voz do nosso sanfoneiro com o seu instrumento. O encontro dos dois elementos – a voz e a sanfona – geraria um terceiro, uma sonoridade única que se transformaria numa espécie de assinatura.

Sivuca faz um breve solo no meio da canção de Paul Simon. Melodia que, por nunca ter esquecido, solfejava com facilidade. Uma lembrança que esteve presente duas ou três vezes em nossas conversas e que a ele, se não estou equivocado, não parecia importante. Quero, contudo, retomá-la pelo que há de elucidativo nela em relação à origem da fusão entre voz e sanfona.

O que temos no disco de Simon é um solo em que, misturada à sua voz, a sanfona de Sivuca, numa melodia que lembra uma toada nordestina, soa como se fosse um sax. Mais do que em outros registros, em I Do It For Your Love, Sivuca desliza os dedos pelas teclas do instrumento como se estivesse soprando num saxofone.

Toda esta conversa, que começa com a reaudição de um disco de Paul Simon e desemboca no casamento entre a voz e a sanfona de Sivuca e na sua semelhança com o sax, tem a ver com o que o músico me disse na última grande entrevista que deu, duas semanas antes de morrer.

Eis a transcrição:

Meu sonho começou quando escutei a Orquestra Tabajara pela primeira vez, em 1943, 1944, nos bailes que Severino Araújo fazia no Itabaiana Clube. Verifiquei que aquele tipo de arranjo era diferente do que eu escutava nas bandas, e aquilo era o que eu queria fazer. Tanto que a minha sanfona soava diferente das outras porque eu tocava o instrumento como se estivesse tocando um saxofone.

A explicação é do próprio Sivuca. A sonoridade da sua sanfona vem dos saxofones da Orquestra Tabajara tal como ele a ouviu em Itabaiana, antes de Severino Araújo levar a big band para o Rio de Janeiro. Ao tomar a Tabajara como parâmetro e ao buscar em um dos seus naipes o som da sua sanfona, Sivuca parecia antecipar a sua compreensão da música como algo do mundo e não como uma manifestação circunscrita à sua pequena Itabaiana.

O caminho que ele seguiu, da Paraíba para Pernambuco (onde estudou com o maestro Guerra Peixe) e de Pernambuco para o mundo, só confirma a universalidade dos sons que produziu a partir daquele encontro da sanfona com os saxes da Tabajara.

Claro que não é preciso ouvir Paul Simon para desvendar Sivuca. O que acontece é que em I Do It For Your Love a sanfona está tão explicitamente parecida com um sax que o que ele me disse pouco antes de morrer fica ainda mais evidente.

Sivuca estava deixando Nova York para voltar a viver no Brasil quando participou do disco de Simon. Mais ou menos na época em que o vi ao vivo pela primeira vez, num memorável concerto no Teatro Santa Roza. Ali, a execução de Moonlight Serenade também nos levava a identificar um sax na fusão da voz com a sanfona.

Em seus últimos anos, quase sem voz, Sivuca foi privado de produzir esta sonoridade que sempre reencontro nesse belo disco de Paul Simon.

No auge do Axé, Olodum e Simon tocaram para 750 mil em NY. Veja

O documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar está em cartaz a partir desta quinta-feira (26).

Quem já viu assegura que é um retrato muio honesto da Axé Music, esse fenômeno musical e comercial que transformou o carnaval da Bahia há três décadas.

Quero ver. Não sou fã de Axé, mas tenho grande respeito pelo fenômeno e o observo sem qualquer preconceito.

Aproveitando a estreia do filme, vou relembrar aqui o dia em que Paul Simon recebeu o Olodum e o incorporou à sua banda num show em Nova York. O concerto, em 1991, foi assistido por 750 mil pessoas no Central Park.

Depois do sucesso de Graceland, o disco que gravou com músicos da África do Sul, Paul Simon fez um disco com músicos brasileiros, e, nele, está o Olodum.

É desse trabalho (The Rhythm of the Saints) a faixa The Obvious Child, em que Simon é acompanhado pela percussão inconfundível do Olodum.

The Obvious Child é o número de abertura do show de Simon no Central Park.

 

Bob Dylan, o bardo judeu romântico de Minnesota, é Nobel de Literatura!

dylan-nos-1960

Começamos esta quinta-feira (13) com uma grande e surpreendente notícia. Bob Dylan é Nobel de Literatura!

Surpreendente porque a regra é que o prêmio da Academia Sueca vá para um nome da literatura. Não para um músico. Um músico de rock, um letrista de música popular, e não um poeta no sentido clássico da palavra.

Grande notícia porque tem uma extraordinária força simbólica. Dar o Nobel a Dylan é conferir aos letristas da música popular um status acadêmico nem sempre admitido. É reconhecer as inovações literárias processadas no seu campo de criação. É também premiar uma geração brilhante que, meio século atrás, enriqueceu o mundo com suas melodias, seus versos, suas ideias generosas.

O Dylan premiado com o Nobel representa todos. Os Beatles, os Rolling Stones, a musa Joan Baez, Paul Simon, que hoje faz 75 anos. Os daqui também. Caetano, Chico, Gil, grandes letristas, no nível dos melhores do mundo. O nosso Zé Ramalho, em cuja música há tantos traços de Dylan, a quem já dedicou um disco inteiro.

Júbilo para os ouvintes de Mr. Zimmerman! Principalmente os da geração dele, os que puderam ouvi-lo desde o início, há mais de 50 anos. Também para os da minha faixa etária, os que estão beirando os 60. Os que alcançaram Dylan num momento de grande criatividade, ainda com o frescor da juventude por perto.

Em maio, quando Dylan fez 75 anos, escrevi algo sobre ele. Transcrevo parte aqui:

Judeu, Robert Allen Zimmerman é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com essas duas opções. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.   

Sete discos nos oferecem o melhor Dylan. De The Freewheelin’ (1963) a John Wesley Harding (1968). Entre os dois, temos Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. As questões cruciais do artista e sua obra estão neles. Mas é claro que há muito o que ouvir nos anos seguintes. De New Morning a Desire, de The Basement Tapes a Blood on the Tracks. E o ao vivo Before the Flood, em que divide o palco com o grupo The Band, que o acompanhou muitas vezes em estúdios e turnês. 

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.      

Quem chama Dylan de o bardo judeu romântico de Minnesota é Caetano Veloso, na letra de A Bossa Nova É Foda.

Paul Simon, 75: ainda louco após todos esses anos!

Paul Simon faz 75 anos nesta quinta-feira (13). Se quisermos brincar com o título de sua canção, ainda louco após todos esses anos! Mas, nem tanto! Brinquemos com outra: apenas terno!

Falando sério! Paul Simon é um dos grandes nomes da canção popular dos Estados Unidos na segunda metade do século XX. Chega aos 75 sem que possa ser visto de outro modo.

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O começo foi na adolescência, na escola. Tom e Jerry, dois garotos cantores, judeus de New Jersey. Mais tarde, Simon e Garfunkel. A matriz deles: os Everly Brothers.

Paul Simon e Art Garfunkel cantavam. Mas o autor das melodias e das letras era Simon.

O sucesso não veio no início. Só ocorreu quando o registro original de The Sound of Silence, com duas vozes e um violão, ganhou instrumentos acrescentados pela gravadora: guitarra, baixo e bateria que transformaram a canção num hit poderoso. E num clássico instantâneo do songbook americano.

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Simon e Garfunkel frequentaram as paradas com muitos hits na segunda metade dos anos 1960. Folk, rock, pop. E, de vez em quando, um pé fora da América: seja em El Condor Pasa, seja na Bossa Nova que há em So Long Frank lloyd Wright.

No final, antes da ruptura da dupla, um clássico absoluto: Bridge Over Troubled Water.

O autor maduro viria na carreira solo. Poucos, mas grandes discos, sobretudo na primeira década e meia. Intérprete delicado de belas melodias e letras inspiradas. A tradição americana a se fundir com a música do mundo. Da cuíca de Airto Moreira à sanfona do nosso Sivuca ou os sons do grupo peruano Urubamba.

Há 30 anos, em 1986, Simon deu seu passo mais arriscado. Desobedeceu ao bloqueio ao regime racista de minoria branca da África do Sul e lá gravou Graceland. Um projeto artisticamente vitorioso, a despeito das críticas dirigidas ao músico.

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Graceland leva às últimas consequências a fusão da música americana de Paul Simon com a chamada world music. A força rítmica ocupou espaços que antes eram só das doces melodias. Muitos dos seus ouvintes tiveram que se reciclar. Mas esses são os caminhos legítimos de um artista da sua dimensão.

Salve Paul Simon!

Nos 15 anos do 11/09, sons e imagens para homenagear Nova York

Neste domingo (11), são 15 anos do atentado às torres gêmeas.

Filmes e canções ajudaram a construir minha admiração por Nova York.

O maior compositor americano está associadíssimo a ela. George Gershwin é tão novaiorquino quanto Antônio Carlos Jobim é carioca. Teve o jazz como fonte, e as músicas que escreveu foram popularizadas por grandes intérpretes do universo jazzístico. Neste particular, podemos mergulhar no seu cancioneiro, ouvindo o extenso songbook gravado por Ella Fitzgerald ou a versão de Ella e Louis Armstrong da ópera Porgy and Bess.

Outro músico erudito muito associado a Nova York é Leonard Bernstein, que regeu a filarmônica da cidade e compôs as melodias de West Side Story, musical que atualiza a tragédia de Romeu e Julieta, ambientando seus personagens na Nova York da década de 1950.

Ainda que muito conhecidas, as melodias de George Gershwin e Leonard Bernstein são menos populares do que New York, New York, que ouvimos no filme homônimo de Martin Scorsese, mas que tem sua versão definitiva na voz de Frank Sinatra. É provável que nenhuma outra canção represente tão bem a cidade como esta.

Se fizermos escolhas menos óbvias, temos Autumn in New York, com Billie Holiday, Manhattan, com Dinah Washington, Lullaby of Birdland, com Sarah Vaughan, e, saindo do jazz, American Tune, com Paul Simon.

Há, também, o olhar dos estrangeiros. De John Lennon (New York City), de Sting (English Man in New York) e do nosso Antônio Carlos Jobim (Chansong).

Woody Allen declarou seu amor a Nova York em Manhattan. As torres gêmeas aparecem na logo do filme. Elas são a letra “h” do título. As melodias de Gershwin acompanham os personagens de Allen.

Perdidos na Noite é outro retrato de Nova York tirado pelo cinema. Solidão, amizade, marginalização – aborda temas que teriam igual significado em muitas cidades do mundo. Mas é nas ruas de Manhattan que os personagens se movem ao som de Everybody’s Talkin’.

Nova York como metáfora do sonho americano é o que temos na Estátua da Liberdade vista pelos que chegam de navio, na segunda parte de O Poderoso Chefão. A música de Nino Rota dá maior dramaticidade às imagens.

Cinco anos atrás, no décimo aniversário do 11 de setembro, Paul Simon fez uma breve aparição na cerimônia de inauguração do memorial às vítimas do atentado. Ele cantou The Sound of Silence.

Com a linha melódica ligeiramente alterada, era como se estivesse conversando. O compositor, que já reuniu multidões no Central Park, deu um sentido especial a esta canção que vem de longe. Parecia que seus versos haviam sido escritos para a ocasião.

The Sound of Silence há muito está incorporada à memória afetiva dos novaiorquinos.