PAUL McCARTNEY NÃO SABE FAZER MÚSICA BRASILEIRA!

Em 1959, Chuck Berry fez Back in The USA.

Em 1968, Paul McCartney fez Back in The USSR, que abre o Álbum Branco dos Beatles.

O rock de Paul é um pastiche de Berry e também dos Beach Boys.

Foi sugerido ao autor por um dos integrantes dos Beach Boys. Seria (e é) uma versão soviética do rock de Berry.

50 anos se passaram, e Paul McCartney agora fez Back in Brazil.

A música foi composta numa das muitas passagens dele pelo Brasil.

Paul conta que compôs a música num piano que havia no quarto do hotel onde estava hospedado. Era dia de folga, sem show, e ele escreveu a canção.

Back in Brazil tenta parecer música brasileira. Se quisermos, remete a uma entrevista em que McCartney disse que queria tomar uma lições de Bossa Nova. A julgar pela canção, não deve ter tomado.

Paul McCartney é maravilhoso! É um dos meus heróis! Mas, definitivamente, não sabe fazer música brasileira. Do mesmo modo que Mick Jagger e Keith Richards, que, há 50 anos, fizeram Sympathy for the Devil pretendendo que fosse um samba.

O Brasil de Paul McCartney, em Back in Brazil, é o Brasil visto por um turista estrangeiro que está muitíssimo longe de saber quem somos.

O gesto do grande músico é bacana, é simpático, mas o resultado é de uma superficialidade que incomoda. Ainda mais quando a gente assiste ao vídeo da canção.

Back in The USSR virou um clássico dos Beatles.

Duvido que Back in Brazil vire um clássico de Paul McCartney.

Single dos Beatles com Hey Jude e Revolution foi lançado há 50 anos

Segunda-feira, 26 de agosto de 1968.

Nos Estados Unidos, ainda com o selo Capitol, é lançado o novo single dos Beatles.

No lado A, Hey Jude. No lado B, Revolution.

Sexta-feira, 30 de agosto de 1968.

Já com o selo Apple, Hey Jude e Revolution chegam às lojas do Reino Unido.

50 anos depois, qualquer garoto dirá que Apple é o nome da empresa de produtos eletrônicos fundada por Steve Jobs.

Meio século atrás, era outra coisa. Apple era o nome da empresa fundada pelos quatro Beatles para, fundamentalmente, comercializar os discos do grupo e lançar novos artistas.

Os singles (no Brasil, compactos simples) da Apple eram lindos.

No lado A, o verde da maçã ainda inteira.

No lado B, o branco da maçã partida ao meio.

Hey Jude/Revolution foi o primeiro single com o selo Apple.

Hey Jude é uma balada de Paul McCartney. Letra e música de Paul, apesar da assinatura Lennon/McCartney.

Revolution é um rock de John Lennon. Letra e música de John, apesar da assinatura Lennon/McCartney.

Hey Jude – O Jude do título na verdade é Julian, filho de Lennon que sofria com a separação dos pais. McCartney escreveu a canção pensando no garoto, que estava com cinco anos. É uma das suas melodias mais marcantes. E tem o “na-na-na-na” do longo coro que fecha a gravação. Hey Jude dura sete minutos, mas isto não impediu o seu sucesso radiofônico. A música atravessou meio século e ainda hoje fecha os shows de Paul McCartney, emocionando plateias do mundo inteiro.

Revolution – É a resposta dos Beatles aos acontecimentos de 1968, ao tema da revolução. Essa resposta só podia vir de Lennon, o mais politizado dos quatro. Como há duas versões (a do single e, em seguida, a do Álbum Branco), Lennon preferiu a ambiguidade. Podem contar com ele para a revolução? Uma versão diz que sim, a outra diz que não. No compacto, Revolution é um rock visceral, pesado, cheio de guitarras saturadas – do jeito que John gostava.

50 anos se foram e cá estamos nós falando de Hey Jude e Revolution.

Parece que os Beatles faziam boa música, não é?

Venus and mars are all right tonight!

Vênus está aparecendo no poente, depois que escurece.

À exceção do Sol e da Lua, é o corpo celeste mais brilhante que vemos aqui da Terra.

Com algum esforço, pode ser observado até durante o dia, sem ajuda de nenhum aparelho ótico.

Numa região sem nenhuma luz artificial, chega a provocar sombras.

Marte está avermelhando as nossas noites.

Agora, mais perto da Terra, como não acontecia há uns bons 15 anos.

Olhe para o céu e procure.

Quando encontrar uma estrela vermelha de brilho intenso, não é uma estrela. É Marte!

Se quiser trilha sonora, ouça a canção de Paul McCartney.

Venus and Mars are all right tonight.

Brasileira gravou com os Beatles há 50 anos

A data é quatro de fevereiro de 1968, um domingo de inverno em Londres.

Fez 50 anos neste domingo.

A brasileira Lizzie Bravo gravou com os Beatles.

Tomemos a Ultimate Beatles Encyclopedia, organizada por Bill Harry.

Na página 120, Lizzie Bravo é verbete:

Bravo, Lizzie

A Brazilian girl, Lizzie was sixteen years and a student living in Company Gardens.

E segue a história.

No Diário dos Beatles, de Barry Miles, temos no dia quatro de fevereiro de 1968:

Duas fãs que estavam em frente a Abbey Road foram levadas para dentro do estúdio para gravar os falsetes para a banda.

O quarteto gravava Across the Universe, canção de Lennon.

The Beatles Chronicle, de Mark Lewisohn, conta em detalhes como foi a gravação.

E lá surge novamente o nome de Lizzie Bravo:

Paul did just this, selecting Lizzie Bravo, a 16-years-old from Brazil, and Gayleen Pease, 17, a Londoner. 

Não é lenda. É História, assim com H Maiúsculo.

Lizzie e Gayleen estavam na entrada do estúdio da EMI, onde os Beatles gravavam seus discos. Paul apareceu na porta e perguntou se elas sustentariam uma nota aguda. As garotas disseram que sim e foram levadas para o estúdio de número 03. Fizeram vocal em Across the Universe, num registro destinado a um disco beneficente. Lizzie cantou com o rosto colado em John, no mesmo microfone.

Em 1982, nos 20 anos de Love Me Do, a própria Lizzie contou essa história incrível num LP promocional distribuído no Brasil.

Lizzie Bravo, a única brasileira que gravou com os Beatles.

Na volta ao Brasil, foi casada com o compositor Zé Rodrix.

Lizzie e Rodrix tiveram uma filha: Marya Bravo, vigorosa cantora.

Os fãs brasileiros dos Beatles reverenciam Lizzie Bravo!

O psicopata Charles Manson roubou “Helter Skelter” dos Beatles

O psicopata Charles Manson morreu neste domingo (19) na Califórnia. Tinha 83 anos.

Manson cumpria prisão perpétua como líder da seita (a “Família Manson”) que assassinou a atriz Sharon Tate e mais sete pessoas.

Os crimes, ocorridos em 1969, transformaram Charles Manson num dos assassinos mais conhecidos do mundo.

Atriz de A Dança dos Vampiros, Sharon Tate era casada com o diretor do filme, o cineasta Roman Polanski.

Ela tinha somente 26 anos e estava grávida de oito meses e meio quando foi assassinada, no dia nove de agosto de 1969.

Em sua absoluta loucura, Charles Manson acreditava que os Beatles se comunicavam com ele através das letras das canções.

A música mais emblemática dessa “comunicação” é o rock Helter Skelter, de Paul McCartney, gravado e lançado em 1968 no Álbum Branco.

Helter Skelter, que McCartney canta até hoje em seus shows, é um rock sujo e pesado, que muitos consideram o marco zero do heavy metal.

Na abertura do documentário Rattle and Hum, de 1988, antes de cantar Helter Skelter, Bono Vox, o então jovem líder da banda irlandesa U2, diz:

Essa música, Charles Manson “roubou” dos Beatles. Nós a “roubamos” de volta!

Vejam o vídeo.

Agora, com Paul McCartney.

Fecho com uma lembrança da época do assassinato de Sharon Tate.

Eu tinha dez anos.

Numa banca, mostrei ao meu pai a cara de Manson na capa de uma revista e ouvi dele algo mais ou menos assim:

Não permita que, em você, esse crime horrível manche tudo o que há de importante na cultura hippie!

Antes de falar mal do funk, é preciso ouvir algumas coisas

“Funk-se quem puder

É imperativo dançar

Sentir o ímpeto

Jogar as nádegas

Na degustação do ritmo”

(Gilberto Gil, Funk-se Quem Puder)

Num desses concursos para escolher fãs que seriam recebidos por Paul McCartney, um dos vencedores foi um rapaz que gravou uma versão totalmente funk de A Hard Day’s Night.

Olhem ele aí, o de camisa branca.

McCartney postou o vídeo nas redes sociais.

Chamou sua atenção?

A minha, não!

O beatle Paul tem muita coisa funkeada nos seus discos.

Exemplos? Coming Up Dress Me Up As a Robber. A primeira, de 1980. A segunda, de 1982. Ele sabe o que é funk.

Não só ele.

O maestro Leonardo Bernstein, grande músico erudito, fã do jazz e dos Beatles, também sabia.

Isto é funkeado!

É o que ele, ao piano, diz às cantoras líricas com quem aparece, num documentário, ensaiando, no seu apartamento no Dakota, em Nova York, para a gravação de West Side Story.

O vídeo é de meados dos anos 1980.

Miles Davis, um dos gênios consumados do jazz, era outro que sabia. Basta ouvir On The Corner, de 1972. 

Vejam a capa.

Foi nesse disco que Gilberto Gil se inspirou para compor Essa É Pra Tocar no Rádio, gravada com Dominguinhos e o baixo estupendo de Rubão Sabino no nordestiníssimo Refazenda.

Tem muito funk em Quincy Jones, Stevie Wonder e Michael Jackson!

Tem também nos Rolling Stones! Black and Blue.

Tem no nosso inigualável Jorge Ben!

No Herbie Hancock de Head Hunters, notável demarcador de territórios.

E no bossanovista João Donato!

A Bad Donato, sua pshycodelicfunkyexperience.

Ah! Tem funk em tanta gente!

Por que, então, depreciamos o povo do Rio de Janeiro que releu o funk e, ao seu modo, fez deste uma das suas legítimas expressões?

Eu não deprecio!

Começo a semana com essas pequenas anotações estimulado pelo gesto de Paul McCartney.

Para ele, por muitos motivos, a versão funk de A Hard Day’s Night feita por aquele rapaz é criativa, inteligente, tem conteúdo social, liberdade – vai muito além dos vídeos (mesmo os melhores) com covers dos Beatles fiéis aos originais.

Paul é um extraordinário músico popular do seu tempo e compreende bem todas essas coisas.

Por que nós, seus ouvintes, não podemos compreender?

Salve o funk!

Estive a dois metros de Paul McCartney e fiquei paralisado!

Paul McCartney está no Brasil mais uma vez. Já fez Porto Alegre, São Paulo, hoje (17) faz Belo Horizonte e, em seguida, Salvador.

Uma vez, estive perto dele e fiquei paralisado. Verdade!

Conto essa história.

Paul McCartney ainda era muito jovem quando começou a se imaginar como um compositor de verdade. Talvez por influência do maestro George Martin, que lhe abrira os códigos da música erudita. Também por causa do pai, músico amador, que lhe despertara o gosto pelos grandes autores populares americanos.

Mesmo que pretendesse, Paul jamais seria um erudito, até porque não tinha formação para isto, mas um brilhante artesão da canção popular. Fazendo o artesanato do seu tempo e não o do tempo do seu pai. Um autor contemporâneo de canções pop, de melodias feitas sob medida para a sua voz de sereia sílfide (a definição é do maestro Bernstein).

Um dia, McCartney conversou via Internet com gente do mundo inteiro. Tentei fazer uma pergunta, mas não consegui. Ele seria um novo Cole Porter? Porter como um referencial apontado pelo pai do beatle. Um tipo de compositor que fez, em seu tempo, algo que guarda certa semelhança com o que Paul criou muitos anos depois.

Canção popular bem feita, bonita, de fácil assimilação, que casa perfeitamente letra e melodia. E que gruda para sempre nos nossos ouvidos. Pensemos em I’ve Got You Under My Skin na voz de Sinatra. Ou em Penny Lane no registro dos Beatles.

Fiquei com isto na cabeça. Paul McCartney é um Cole Porter moderno. Claro que não custa reconhecer que Porter era muito mais talentoso, menos vulgar. Mas, afinal, Paul é um rocker.

Em 2010, estive a dois metros dele na frente do Morumbi, em São Paulo. Encostado numa grade de segurança, ao lado de mais umas 40 pessoas, vi o músico sair do carro que o levava para o hotel, 24 horas antes do primeiro show que faria na cidade, e nos cumprimentar com um aceno.

Tive vontade de gritar: “Sir Paul, you are a modern Cole Porter!”. Mas faltou coragem. Ou iniciativa, tal foi o impacto de estar somente a dois passos do mais musical dos Beatles.

Perdi uma oportunidade única de pronunciar a frase diante dele. Seria ridículo? Qual seria a sua reação? Ficaria feliz com a comparação? Diria um “muito obrigado” em seu precário Português?

“Sir Paul, you are a modern Cole Porter!” – a frase ficou comigo, enquanto ele entrava no carro cercado por batedores e sumia em poucos segundos.

Deixei a comparação de lado e fiz o que todos ao meu lado fizeram: peguei o celular para dizer a alguém que estivera diante de Paul McCartney. E que não conseguira ao menos tirar uma foto. Ou gravar uma imagem em movimento. Nada.

Como se o desejo de fazer o comentário sobre Porter tivesse atrapalhado aquele momento.

Ei, ela é gay!, disse Paul McCartney ao pai da garota

A cena ocorreu num show de Paul McCartney no estado americano da Georgia.

Na plateia, a jovem Becka exibia um cartaz.

Estava escrito:

Por favor, me ajude a dizer à minha família que eu sou gay!

O beatle mandou chamar a garota ao palco. Perguntou se havia mais alguém da família na plateia. Ela disse que sim: o pai!

Paul, então, foi rápido e certeiro:

Ei, pai, ela é gay!

Becka ficou emocionada e ganhou um autógrafo.

Vejam o vídeo.

O gesto confirma. Paul McCartney envelheceu (está com 75 anos) fiel aos muitos sonhos de liberdade da sua geração.

Os Beatles nasceram há 60 anos no salão de festas de uma igreja

O dia era seis de julho de 1957. Portanto, há 60 anos. Se há uma data que pode ser tomada como a do nascimento dos Beatles, é essa.

Foi quando John Winston Lennon e James Paul McCartney se conheceram. John ainda não tinha 17 anos. Paul acabara de fazer 15.

John levou a banda dele – The Quarry Men – para se apresentar num evento no jardim de uma igreja, em Liverpool.

Era tudo muito rudimentar. Os garotos mal tocavam seus instrumentos. Ninguém podia imaginar que em poucos anos o líder daquele grupo de skiffle se transformaria numa das figuras mais importantes da música popular do seu tempo.

Paul estava na plateia. Ele e sua guitarra, com a qual tinha muito mais intimidade do que o futuro parceiro. Depois do show, os dois foram apresentados por um amigo comum no salão de festas da igreja.

Inicialmente, Lennon não foi tão receptivo. Mas não resistiu ao talento musical de McCartney quando ouviu a voz de autêntico rocker e viu os acordes e riffs da sua guitarra em Twenty Flight Rock, sucesso de Eddie Cochran.

A música que Paul tocou para John é esta que vemos no vídeo a seguir:

John Lennon tocava guitarra com alguns acordes de banjo ensinados por Julia, sua mãe. Paul McCartney conhecia melhor o instrumento e já aprendera os acordes corretos para tocar rock’n’roll.

Os dois tinham os mesmos sonhos. Queriam ser músicos, formar uma banda, tocar rock.

O encontro naquele remoto seis de julho de 1957 mudou as suas vidas. Ali, começou uma grande amizade, além de uma extraordinária parceria musical e da formação dos Beatles.

O resto é História.

O rock será o que nós fizermos dele – disse John Lennon.

E foi!