Paul McCartney faz 77 anos. Vamos ouvir Pure McCartney?

Paul McCartney faz 77 anos nesta terça-feira (18).

Vamos ouvir Paul?

Sugiro a compilação Pure McCartney.

O mercado de discos está repleto de coletâneas. A qualidade delas muitas vezes depende de um conceito. “O melhor de…” não é o suficiente para tornar atraente uma compilação.

Vejamos o caso de Paul McCartney.

Pure McCartney (caixa com quatro discos, versão simplificada no Brasil com dois CDs) teve o próprio Paul como curador. O conceito é dele: uma seleção para ouvir no carro durante uma longa viagem, em casa num final de tarde ou numa festa com os amigos.

O conceito é banal. Poderia ser outro: um extenso painel do cancioneiro solo de Paul McCartney montado por ele.

Mas o fato é que Pure McCartney desmente um pouco essa tese de conceito. As canções são tão boas que a coletânea se torna irresistível.

Uma das virtudes é que Sir Paul misturou lado A com lado B. Fora da ordem cronológica, canções menos óbvias se fundem aos grandes sucessos numa sequência de 39 números (na edição brasileira). Eles confirmam McCartney como um dos melhores do seu tempo quando o assunto é o artesanato da canção.

E fazem de Pure McCartney um excelente songbook.

Beba por mim e por minha saúde, já que eu não posso mais beber

O ano era 1973.

Pablo Picasso, uma das figuras geniais do século XX, esteve com amigos à noite.

Pediu que bebessem por ele e por sua saúde já que não podia mais beber.

No dia seguinte, estava morto.

O homem que legou Guernica ao mundo tinha 91 anos.

*****

O ator Dustin Hoffman, num intervalo das filmagens de Papillon, contou essa história a Paul McCartney.

Paul pegou o violão e cantou mais ou menos assim:

Beba por mim

Beba por minha saúde

Você sabe que não posso mais beber

O resultado, mais tarde, foi uma bela canção chamada Picasso’s Last Words.

As últimas palavras de Picasso.

De Paul para Pablo.

O vídeo é do filme Rock Show, que mostra o grupo Wings em turnê pela América.

A gravação original de Picasso’s Last Words está no disco Band on the Run.

De volta ao Brasil, McCartney já foi tratado como lixo pop

Paul McCartney está de volta ao Brasil.

Na semana que vem, fará shows terça (26) e quarta (27) em São Paulo e sábado (30) em Curitiba, onde esteve pela última vez em dezembro de 1993.

Às vésperas de completar 77 anos, faz tempo que Paul é uma unanimidade no mundo do pop/rock.

Mas nem sempre foi assim.

Ele já foi considerado um verdadeiro lixo pop.

Precisou até de um livro – Many Years From Now – para tentar desfazer essa imagem.

Perrepistas e liberais.

Estados Unidos e União Soviética.

Flamengo e Vasco.

Sabem aquelas forças antagônicas?

Tipo Beatles e Rolling Stones?

Pois é. Um dia houve também John Lennon e Paul McCartney.

No início dos anos 1970, ou você era John Lennon ou era Paul McCartney.

Muito raramente havia espaço para os dois na mesma discoteca.

John Lennon era o gênio politizado.

Paul McCartney era o tolo que fazia muzak.

Uma bobagem sem tamanho que, em alguns, perdurou até a década de 1990!

*****

Nunca gostei dessa conversa.

Sempre amei imensamente os dois. Compreendendo que um era diferente do outro. Por isso, se completavam enquanto beatles.

John Lennon fez John Lennon/Plastic Ono Band. E Imagine.

Paul McCartney fez Band on the Run. E Venus and Mars.

E ainda teve George Harrison que fez All Things Must Pass. E Living in the Material World.

*****

Desde 2010, o relançamento dos discos de Paul McCartney, em caprichadas edições, propicia um feliz reencontro com o seu cancioneiro solo.

Já são 12 volumes remasterizados e com material inédito.

Agora mesmo, temos mais dois no mercado: Wild Life e Red Rose Speedway, da época do grupo Wings.

Foram execrados por críticos e ouvintes na primeira metade dos anos 1970.

Padeciam de um comercialismo vulgar – diziam os que detratavam Paul.

Hoje, são adoráveis. Reúnem rocks e baladas com a inconfundível e competentíssima assinatura do autor.

Não têm nada de lixo pop.

É pop/rock de primeira qualidade.

“O problema não é ser de direita. O problema é ser burro”

Em 1989, fui à Mesbla comprar o disco novo de Paul McCartney.

Flowers in the Dirt era o título.

Paul, até então, nunca tinha vindo ao Brasil. Permanecia como uma figura inacessível para todos nós (diferente do cara que, mais tarde, eu vi de perto, a uma distância de dois metros). Bem como era razoável pensar que ele também vivia desconectado dos problemas brasileiros.

Pois bem, fui ouvir Flowers in the Dirt, que, com My Brave Face, começava de um jeito tão Beatle. Sabem aquela audição cuidadosa, faixa a faixa, lendo o encarte? Foi o que fiz.

Quando cheguei na faixa 11, um reggae de branco chamado How Many People, vi que havia uma dedicatória:

Dedicated to the memory of Chico Mendes, brazilian rain forest campaigner 

Traduzindo: Dedicada à memória de Chico Mendes, ativista brasileiro da floresta pluvial.

Claro! McCartney é um artista do mundo, preocupado com a vida do planeta. Cidadão engajado nas lutas pela preservação do meio ambiente e pela sobrevivência dos animais. Daí a dedicatória a Chico Mendes.

Paul McCartney veio pela primeira vez ao Brasil em abril de 1990, em duas noites inesquecíveis no Maracanã. Eu estava lá.

No último show, em 21 de abril, houve um momento em que ele falou do seu engajamento e bradou:

CHICO MENDES!

A plateia (pouco mais de 180 mil pessoas, está no Guinness), traumatizada semanas antes com o confisco da poupança pelo presidente Collor, respondeu com um inequívoco “Lula-lá”.

*****

Conto essa história por causa de Ricardo Salles, o ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro (vejam/ouçam a entrevista dele ao Roda Viva).

O resumo – simples assim – é:

Há 30 anos, Paul McCartney, cidadão do Reino Unido, sabia o que, em 2019, o ministro brasileiro do Meio Ambiente (sim!, do Meio Ambiente!) não sabe.

Ou finge não saber.

Serei mais enfático:

Ao desconsiderar a importância de Chico Mendes e sua luta, Ricardo Salles se revela um ignorante na área em que está atuando.

Ignorante. Aquele que ignora.

O ministro do Meio Ambiente ignora Chico Mendes.

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Fecho com o que ouvi de um amigo:

“NO BRASIL DE HOJE, O PROBLEMA NÃO É SER DE DIREITA. O PROBLEMA É SER BURRO”. 

Em apoio a Bolsonaro, Let It Be vira Ele Sim. Afronta aos Beatles

Começo com um vídeo.

Paul McCartney cantando Let It Be ao vivo em Nova York.

Let It Be é uma das mais belas canções dos Beatles. Deu título também ao último LP do grupo, lançado em maio de 1970, e ao documentário que retrata os estertores do quarteto. Leva a assinatura Lennon/McCartney, mas foi composta somente por Paul McCartney.

Let It Be nasceu de um sonho. Num momento de aflição, Paul sonhou com sua mãe, Mary, que morreu de câncer quando ele tinha 14 anos. Ela disse a ele que não se preocupasse, que tudo daria certo. “Eu me senti abençoado por haver tido esse sonho”, conta o músico.

Sobre a canção, Hunter Davis, biógrafo oficial dos Beatles, escreveu:

“Lançada num single em março de 1970, antes de o próprio álbum sair, é de longe a música mais comercial do LP. Embora seja quase um pastiche de hino religioso, com alusões e conotações bíblicas como hora da escuridão e uma luz que brilha sobre mim e, claro, a imagem de sua mãe associada à de Nossa Senhora, é sincera e comovente. Hoje, quando Paul a toca, as luzes são diminuídas e o público em geral acende velas e isqueiros ou levanta celulares ligados. Quase se tem a impressão de estar num encontro religioso nessa hora”.

Na época em que os direitos sobre as canções dos Beatles estiveram nas mãos de Michael Jackson, Paul McCartney temia que sua canção fosse dessacralizada, transformando-se, por exemplo, em trilha de um comercial qualquer.

Não imaginava ele que, tantos anos depois, seria muito pior. Let It Be ganhou uma letra em Português, foi chamada de Ele Sim e é divulgada nas redes sociais em apoio ao candidato Jair Bolsonaro.

Guto Sállen assina a versão, cujo refrão diz: “Melhor Jair se acostumando, ele sim”.

Que tristeza. Let It Be, a bela balada de Paul McCartney, virou Ele Sim.

Paul McCartney, aos 76, volta ao topo dos discos mais vendidos

Egypt Station, lançado há pouco, colocou Paul McCartney no topo dos discos mais vendidos nos Estados Unidos.

A última vez foi há 36 anos, em 1982, quando ele lançou Tug of War.

Na época de Tug of War, Paul tinha 40 anos.

Foi o primeiro disco que gravou depois do assassinato de John Lennon.

É lá que está a canção Here Today, feita em homenagem ao parceiro do tempo dos Beatles.

Egypt Station flagra McCartney na velhice. Ele tem 76 anos e continua percorrendo o mundo com seu show.

Para lançar o novo trabalho, Paul fez uma grande divulgação.

Tug of War é um dos seus melhores trabalhos.

E Egypt Station?

O tempo dirá.

PAUL McCARTNEY NÃO SABE FAZER MÚSICA BRASILEIRA!

Em 1959, Chuck Berry fez Back in The USA.

Em 1968, Paul McCartney fez Back in The USSR, que abre o Álbum Branco dos Beatles.

O rock de Paul é um pastiche de Berry e também dos Beach Boys.

Foi sugerido ao autor por um dos integrantes dos Beach Boys. Seria (e é) uma versão soviética do rock de Berry.

50 anos se passaram, e Paul McCartney agora fez Back in Brazil.

A música foi composta numa das muitas passagens dele pelo Brasil.

Paul conta que compôs a música num piano que havia no quarto do hotel onde estava hospedado. Era dia de folga, sem show, e ele escreveu a canção.

Back in Brazil tenta parecer música brasileira. Se quisermos, remete a uma entrevista em que McCartney disse que queria tomar uma lições de Bossa Nova. A julgar pela canção, não deve ter tomado.

Paul McCartney é maravilhoso! É um dos meus heróis! Mas, definitivamente, não sabe fazer música brasileira. Do mesmo modo que Mick Jagger e Keith Richards, que, há 50 anos, fizeram Sympathy for the Devil pretendendo que fosse um samba.

O Brasil de Paul McCartney, em Back in Brazil, é o Brasil visto por um turista estrangeiro que está muitíssimo longe de saber quem somos.

O gesto do grande músico é bacana, é simpático, mas o resultado é de uma superficialidade que incomoda. Ainda mais quando a gente assiste ao vídeo da canção.

Back in The USSR virou um clássico dos Beatles.

Duvido que Back in Brazil vire um clássico de Paul McCartney.

Single dos Beatles com Hey Jude e Revolution foi lançado há 50 anos

Segunda-feira, 26 de agosto de 1968.

Nos Estados Unidos, ainda com o selo Capitol, é lançado o novo single dos Beatles.

No lado A, Hey Jude. No lado B, Revolution.

Sexta-feira, 30 de agosto de 1968.

Já com o selo Apple, Hey Jude e Revolution chegam às lojas do Reino Unido.

50 anos depois, qualquer garoto dirá que Apple é o nome da empresa de produtos eletrônicos fundada por Steve Jobs.

Meio século atrás, era outra coisa. Apple era o nome da empresa fundada pelos quatro Beatles para, fundamentalmente, comercializar os discos do grupo e lançar novos artistas.

Os singles (no Brasil, compactos simples) da Apple eram lindos.

No lado A, o verde da maçã ainda inteira.

No lado B, o branco da maçã partida ao meio.

Hey Jude/Revolution foi o primeiro single com o selo Apple.

Hey Jude é uma balada de Paul McCartney. Letra e música de Paul, apesar da assinatura Lennon/McCartney.

Revolution é um rock de John Lennon. Letra e música de John, apesar da assinatura Lennon/McCartney.

Hey Jude – O Jude do título na verdade é Julian, filho de Lennon que sofria com a separação dos pais. McCartney escreveu a canção pensando no garoto, que estava com cinco anos. É uma das suas melodias mais marcantes. E tem o “na-na-na-na” do longo coro que fecha a gravação. Hey Jude dura sete minutos, mas isto não impediu o seu sucesso radiofônico. A música atravessou meio século e ainda hoje fecha os shows de Paul McCartney, emocionando plateias do mundo inteiro.

Revolution – É a resposta dos Beatles aos acontecimentos de 1968, ao tema da revolução. Essa resposta só podia vir de Lennon, o mais politizado dos quatro. Como há duas versões (a do single e, em seguida, a do Álbum Branco), Lennon preferiu a ambiguidade. Podem contar com ele para a revolução? Uma versão diz que sim, a outra diz que não. No compacto, Revolution é um rock visceral, pesado, cheio de guitarras saturadas – do jeito que John gostava.

50 anos se foram e cá estamos nós falando de Hey Jude e Revolution.

Parece que os Beatles faziam boa música, não é?

Venus and mars are all right tonight!

Vênus está aparecendo no poente, depois que escurece.

À exceção do Sol e da Lua, é o corpo celeste mais brilhante que vemos aqui da Terra.

Com algum esforço, pode ser observado até durante o dia, sem ajuda de nenhum aparelho ótico.

Numa região sem nenhuma luz artificial, chega a provocar sombras.

Marte está avermelhando as nossas noites.

Agora, mais perto da Terra, como não acontecia há uns bons 15 anos.

Olhe para o céu e procure.

Quando encontrar uma estrela vermelha de brilho intenso, não é uma estrela. É Marte!

Se quiser trilha sonora, ouça a canção de Paul McCartney.

Venus and Mars are all right tonight.

Brasileira gravou com os Beatles há 50 anos

A data é quatro de fevereiro de 1968, um domingo de inverno em Londres.

Fez 50 anos neste domingo.

A brasileira Lizzie Bravo gravou com os Beatles.

Tomemos a Ultimate Beatles Encyclopedia, organizada por Bill Harry.

Na página 120, Lizzie Bravo é verbete:

Bravo, Lizzie

A Brazilian girl, Lizzie was sixteen years and a student living in Company Gardens.

E segue a história.

No Diário dos Beatles, de Barry Miles, temos no dia quatro de fevereiro de 1968:

Duas fãs que estavam em frente a Abbey Road foram levadas para dentro do estúdio para gravar os falsetes para a banda.

O quarteto gravava Across the Universe, canção de Lennon.

The Beatles Chronicle, de Mark Lewisohn, conta em detalhes como foi a gravação.

E lá surge novamente o nome de Lizzie Bravo:

Paul did just this, selecting Lizzie Bravo, a 16-years-old from Brazil, and Gayleen Pease, 17, a Londoner. 

Não é lenda. É História, assim com H Maiúsculo.

Lizzie e Gayleen estavam na entrada do estúdio da EMI, onde os Beatles gravavam seus discos. Paul apareceu na porta e perguntou se elas sustentariam uma nota aguda. As garotas disseram que sim e foram levadas para o estúdio de número 03. Fizeram vocal em Across the Universe, num registro destinado a um disco beneficente. Lizzie cantou com o rosto colado em John, no mesmo microfone.

Em 1982, nos 20 anos de Love Me Do, a própria Lizzie contou essa história incrível num LP promocional distribuído no Brasil.

Lizzie Bravo, a única brasileira que gravou com os Beatles.

Na volta ao Brasil, foi casada com o compositor Zé Rodrix.

Lizzie e Rodrix tiveram uma filha: Marya Bravo, vigorosa cantora.

Os fãs brasileiros dos Beatles reverenciam Lizzie Bravo!