Edu Lobo, um dos grandes da era dos festivais, completa 75 anos

Edu Lobo, um dos grandes compositores da era dos festivais, faz 75 anos nesta quarta-feira (29).

Está aí ele em 1967, vencedor, com Ponteio, do III Festival da Música Popular Brasileira.

Está aí ele agora, em seu disco mais recente, ao lado dos contemporâneos Dori Caymmi e Marcos Valle.

Eduardo de Góes Lobo se projetou na era dos festivais. Era um vencedor com músicas como Arrastão (letra de Vinícius de Moraes), que revelou Elis Regina, e Ponteio (parceria com José Carlos Capinam). Na segunda metade da década de 1960, poderia ter se transformado num artista tão popular quanto seus contemporâneos Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, que também conquistaram dimensão nacional através dos festivais de MPB. Mas não era este o seu desejo e não foi esta a sua opção. Nadou contra a corrente, contrariou as regras do mercado de música popular, trocou o Brasil pelos Estados Unidos e foi estudar composição, arranjo, regência. Quando voltou, já estava à margem do sucesso e não mais o procurou. Aprimorou seu repertório autoral, escreveu arranjos como os de Calabar, de Chico Buarque, gravou pouco, atuou discretamente em suas performances ao vivo. Seguiu o caminho que escolheu.

Vi Edu Lobo no palco pela primeira vez no Projeto Pixinguinha de 1978. Era um show vigoroso que resumia o seu trabalho. Desde os sucessos da época dos festivais até as músicas mais recentes (o disco novo se chamava Camaleão). O que mais me surpreendeu foi o seu desempenho ao vivo. Não tinha nada com o hermetismo que eu imaginava ser marca dos shows que fazia. Edu, àquela altura, não era mais um artista popular, com um grande público, mas o repertório sofisticado não dificultava o seu diálogo com a plateia. O trabalho refinado era muito atraente quando executado ao vivo. O músico se acompanhava ao piano e ao violão e, além do quarteto vocal Boca Livre, tinha ao seu lado uma banda que ia dos ritmos nordestinos, assimilados nas férias recifenses da infância e da adolescência, ao jazz.

Edu Lobo tem grandes discos. Difícil escolher os melhores. Podemos mencionar logo o LP em que é acompanhado pelo Tamba Trio (A Música de Edu Lobo por Edu Lobo). Ou pensar naquele disco que começa com No Cordão da Saideira e marca a sua estreia como arranjador. É lá que está a belíssima Canto Triste. Em Cantiga de Longe, registrado num estúdio de Los Angeles, junta-se a músicos brasileiros como Hermeto Pascoal e Airto Moreira. São todos dos anos 1960. Limite das Águas, dos anos 1970, traz o Edu bem depois da temporada americana. Camaleão teve uma faixa (Lero Lero) executada no rádio, mas não podemos dizer que a música escrita em parceria com Cacaso o reconciliou com o êxito comercial.

Edu & Tom é soberbo. No início da década de 1980, Edu Lobo estava gravando um novo disco, sob a produção de Aloysio de Oliveira. Convidou Tom Jobim para participar de uma faixa. Tom chegou ao estúdio e foi ficando. O que era um projeto solo virou um encontro antológico. Um visitando o repertório do outro. Os dois dividindo vozes e instrumentos. Tudo muito cool. Formação acústica, diminuta. Piano, violão, contrabaixo, bateria, um trompete. Pra Dizer Adeus, de Edu e do poeta tropicalista Torquato Neto. Chovendo na Roseira, do Tom ecológico. Vento Bravo, Ângela, Canção do Amanhecer, Luiza. Um mestre e um aluno aplicadíssimo, talvez o compositor mais jobiniano de sua geração. Depois, teríamos um outro encontro e uma nova parceria: O Grande Circo Místico. Melodias de Edu, letras de Chico Buarque. A compilação Álbum de Teatro resume o trabalho dos dois.

Nos últimos anos, Edu Lobo tem gravado discos distribuídos pelo selo Biscoito Fino. O mais recente, lançado há pouco, é dividido com os contemporâneos Dori Caymmi e Marcos Valle. Seu cancioneiro é belo e exuberante. Cada novo disco reafirma o imenso talento de Edu do mesmo modo que a sua decisão de não ser um autor para muitos ouvintes.

Num livro, os 300 discos mais importantes da música brasileira

Quando me perguntam sobre livros indispensáveis sobre a música popular brasileira, gosto de citar este aqui.

Sempre releio.

Sempre consulto.

“300 Discos Importantes da Música Brasileira” é um livro precioso. Foi organizado por Charles Gavin, que ficou conhecido como baterista do grupo paulistano Titãs e há anos se dedica à pesquisa sobre a memória da nossa música popular a partir dos discos.

Tárik de Souza, Carlos Calado e Arthur Dapieve foram convidados para escrever os textos, breves comentários sobre cada um dos 300 escolhidos. Ao lado do que os três escreveram, além de muitas fotografias dos artistas, temos as capas. Algumas reproduzidas no tamanho original dos velhos LPs. Um charme. E um verdadeiro deleite para os ouvintes do tempo do vinil.

300 discos. Uma boa quantidade para que as lacunas sejam evitadas. Há espaço para todos. Ou quase todos. Alguém pode sentir falta de um título da discografia de um determinado artista. Mas certamente ele estará presente de alguma maneira com um (ou mais de um) dos seus trabalhos.

As escolhas são criteriosas. Os textos, de ótima qualidade. O livro reconstitui a história de um pedaço muito importante da nossa produção musical. E ainda oferece, como complemento, listas individuais de discos que ficaram de fora, mas que poderiam ter entrado para os 300 mais importantes.

Autores que interpretam suas composições, cantores e cantoras, grandes solistas da música instrumental, os nomes que brilharam antes da Bossa Nova, os que foram revelados a partir da invenção de João Gilberto, os da era dos festivais, os tropicalistas, as estrelas do rock nacional, as revelações dos últimos anos. Encontraremos cada um destes no trabalho organizado por Gavin.

Quem conhece o programa “O Som do Vinil” sabe da seriedade com que o baterista cuida da memória dos nossos discos. A série transporta para a linguagem da televisão o que temos no livro. E torna a leitura ainda mais prazerosa. Um produto acaba enriquecendo o outro.

Se procurarmos por “Chega de Saudade”, de João Gilberto, o disco estará lá. Como “Construção”, de Chico Buarque. Ou “Clube da Esquina”, de Milton Nascimento. Também o LP tropicalista de Caetano Veloso. Ou o disco do fardão, de Gilberto Gil. E ainda o “Samba Esquema Novo”, de Jorge Ben. Assim como “Nervos de Aço”, de Paulinho da Viola, e “Academia de Danças”, de Egberto Gismonti.

Se pensarmos nos paraibanos, vários estão lá. Jackson do Pandeiro, Sivuca, Geraldo Vandré, Zé Ramalho, Chico César – nossos conterrâneos e seus trabalhos mais significativos.

Um levantamento que faz justiça aos artistas e orgulha os ouvintes.

TRANSA? Muita gente nem sabia o que era transa!

Transa. Segundo o Aurélio, “palavra-ônibus que traduz ideias de: entendimento, combinação, acordo, pacto, ligação, trama, conluio, relação amorosa, etc.; transação”. Segundo o Houaiss, “combinação para atingir determinado fim; acordo; assunto; questão; relação sexual”. Não é preciso invocar dicionários. Hoje, todo mundo conhece os diversos significados que a palavra tem. Mas não era assim em 1972, quando Caetano Veloso lançou um disco chamado Transa. Para muitos, é o melhor título da sua discografia.

No exílio londrino, Caetano gravou dois discos. No primeiro, aparecia deprimido na foto da capa. Igualmente nas canções. “Eu não vim aqui para ser feliz/cadê meu sol dourado/e cadê as coisas do meu país”, cantava em Português na faixa If You Hold a Stone, que vertia Marinheiro Só para o Inglês. Asa Branca era um longo lamento com gemidos que lembravam os cantadores nordestinos. As letras falavam da situação dele, de exilado, e das percepções do lugar que escolhera para morar. “Green grass, blue eyes, grey sky/god bless silent pain and happiness” – diz a letra de London, London. Belos versos de palavras certeiras que Caetano escreveu na língua estrangeira como se o fizesse na língua nativa.

No segundo disco gravado em Londres, o compositor dava a impressão de que dominara a tristeza que o primeiro deixava transparecer. Sempre identifiquei esta como uma (não á única) grande diferença entre os dois. Transa chegou às lojas mais ou menos na época em que ele voltou ao Brasil. As poucas faixas (apenas sete), que se estendiam por menos de 40 minutos, foram registradas na Inglaterra com uma banda de brasileiros: o violão e a direção musical de Jards Macalé, o contrabaixo de Moacir Albuquerque, a bateria de Tuty Moreno, a percussão de Áureo de Souza. Mais os vocais de Gal Costa e a gaita da então desconhecida Ângela Rô Rô no rock Nostalgia.

Caetano Veloso usa duas línguas para se comunicar, embora, fundamentalmente, dialogue com os ouvintes brasileiros num disco que nem foi lançado ao mesmo tempo no mercado do Reino Unido. Em Nine Out of Ten, tem antenas direcionadas para uma novidade que ouviu em Londres (o reggae jamaicano), mas, a rigor, suas referências são as nossas: de Luiz Gonzaga a Carlos Lyra e Edu Lobo (em You Don’t Know Me), de Caymmi aos afro-sambas de Baden e Vinícius (em It’s a Long Way). Ou no samba de Monsueto, que ele reencontra em Mora na Filosofia. Em Triste Bahia (a mais longa e talvez a melhor faixa do disco), recorre aos versos de Gregório de Mattos e a temas guardados na memória afetiva.

Quando, em 2006, trabalhou com um power trio no CD , Caetano disse que a nova banda remetia àquela de Transa. Mais pelo sentido do trabalho em grupo do que pelo sotaque rocker. De todo modo, é curioso que ouvintes jovens de hoje identifiquem uma certa “pegada” roqueira no velho Transa, muito mais do que nós que o ouvimos na época em que foi lançado. Identificávamos, na colocação da voz e na concepção dos arranjos, outras características que depois se tornariam marcas do trabalho de Caetano. Nos muitos anos que se seguiram, o artista fez grandes discos, guiado sempre por uma salutar inquietação. Mas a verdade é que ali, aos 30, ele já tinha o seu melhor para nos ofertar.

Como é bonito e triste o Rancho da Goiabada!

A sessão do STF entrou pela madrugada.

As redes sociais retratam o Brasil dividido.

Lembrei de uma marcha-rancho de João Bosco e Aldir Blanc.

Rancho da Goiabada.

É de um tempo de escuridão e sonhos.

Nos últimos anos, ficou cada vez mais triste e bela.

Este é o lixo que Chico Buarque produziu nos últimos 30 anos?

Um cara que faz música me disse que Chico Buarque não sabe fazer música.

E começou a questionar as linhas melódicas, as soluções harmônicas e a qualidade das letras.

Nas redes sociais, então, são muitos os absurdos que ando lendo sobre Chico.

A maioria vinda de gente desinformada, que não acompanha a carreira do artista disco a disco, show a show, gente que fala por falar.

Quando não, haters de direita ou extrema direita movidos por razões ideológicas, jamais por avaliações estéticas.

Chico Buarque mudou?

Mudou, sim!

Os clássicos instantâneos das duas primeiras décadas de carreira foram substituídos por canções de concepção mais refinada, de assimilação mais difícil, mas nem por isso menores do que as que ouvimos do jovem Chico. Somente diferentes.

Se tomarmos como referência do início dessa fase o disco Francisco, temos aí o que o compositor produziu nos últimos 30 anos.

São os discos da BMG-Ariola (até o duplo As Cidades ao Vivo) e aqueles lançados depois pela Biscoito Fino (a partir de Carioca).

Este é o lixo que Chico Buarque produziu, diriam seus críticos.

Pensando nisso, para quem gosta de listas, fiz uma compilação do período.

Uma espécie de The Best com 28 músicas.

Segue, disco a disco, em ordem cronológica.

E com as capas, para que o leitor saiba de onde vem cada música:

O VELHO FRANCISCO

ESTAÇÃO DERRADEIRA

BANCARROTA BLUES

TODO O SENTIMENTO

MORRO DOIS IRMÃOS

O FUTEBOL

UMA PALAVRA

VALSA BRASILEIRA

PARATODOS

DE VOLTA AO SAMBA

FUTUROS AMANTES

PIANO NA MANGUEIRA

CARIOCA

A OSTRA E O VENTO

INJURIADO

CHÃO DE ESMERALDAS

SUBÚRBIO

ODE AOS RATOS

ELA FAZ CINEMA

RENATA MARIA

LEVE

QUERIDO DIÁRIO

NINA

SINHÁ

TUA CANTIGA

BLUES PARA BIA

MASSARANDUPIÓ

AS CARAVANAS

DORIVAL CAYMMI

João Gilberto revolucionou a música popular do Brasil com a Bossa Nova. A chave está na batida que criou ao violão. E no diálogo do instrumento com a sua voz. Um negócio que parece simples, mas que é de alta complexidade.

Voz e violão. Antes de João, há Dorival Caymmi (foto de Evandro Teixeira).

Igualmente baiano. E inventor. A nossa canção moderna passa necessariamente por ele. O artesanato perfeito. Melodia, harmonia, letra. Casamento indissolúvel entre letra e música. Imagens extraordinárias criadas pelos dois elementos.

Caymmi, voz e violão. Não há violão brasileiro sem ele. Nem banquinho e violão, como vimos a partir da Bossa Nova.

Caymmi, mínimo e máximo. Obra numericamente pequena. Pouco mais de 100 músicas. Se pensarmos em qualidade, e em influência, imensas!

Canções praieiras. Um gênero. Originalmente, oito num disquinho de dez polegadas. Depois vieram outras. “É doce morrer no mar”. Ou “o pescador tem dois amor”. Ou “era só jogar a rede no mar”. Ou “a Estrela Dalva me acompanha”. Difícil acreditar que elas existam!

E tem os sambas. Os sambas de Caymmi. “Acontece que eu sou baiano”. “Amar é tolice, é bobagem, é ilusão”. “A vizinha quando passa”. João passa por eles. E Gil. E Caetano. Até Tom. Os primeiros versos do Samba do Avião – poucos sabem – são de Caymmi. “Ê, Xangô, vê se me ajuda a chegar”.

Caymmi, infinito em cento e poucas canções. Marina, moderníssimo samba-canção. Dora, o Recife visto por um baiano. Como poucos pernambucanos viram. João Valentão. O final beira a perfeição. Ou atinge.

E a família? A mulher, cantora que não fez carreira. Stella Maris. Estrela do Mar. Os filhos. Nana, Dori, Danilo, lindas vozes. A zelar pelo legado do pai.

Canções Praieiras. Sambas de Caymmi. Eu Vou pra Maracangalha. Caymmi e o Mar. Caymmi e seu Violão. Discos gravados na velha Odeon. Todo o Caymmi está neles.

Dorival Caymmi, o popular que melhor ouviu os eruditos.

Viva Caymmi!

“Ouvindo Chico, somos obrigados a crer no povo brasileiro”

Caetano Veloso, 75 anos.

Chico Buarque, 73 anos.

Caetano, esteticamente mais à esquerda.

Chico, ideologicamente mais à esquerda.

Caetano, em permanente flerte com as rupturas estéticas.

Chico, sempre mais conectado aos modos clássicos da canção popular do Brasil.

Caetano e Chico, dois gigantes da música popular brasileira.

Na era dos festivais, os tropicalistas não gostavam do bom mocismo de Chico.

E os fãs de Chico não assimilavam a retomada da linha evolutiva da MPB proposta pelo Tropicalismo.

Os dois trataram de calar as “torcidas” em 1972, quando se juntaram para um show histórico no Teatro Castro Alves, em Salvador.

O eu quero que você venha comigo, de Caetano, nunca mais foi desassociado do todo dia ela faz tudo sempre igual, de Chico.

Aos 75 anos, Caetano Veloso está na estrada com os filhos.

Aos 73 anos, Chico Buarque está de volta aos palcos após uma ausência de cinco anos.

Ali parece que o Brasil chega finalmente a merecer a bossa nova

Caetano foi ver o show de Chico no Rio e usou as redes sociais para publicar esse texto que transcrevo:

Fiquei extasiado, não somente porque estávamos diante de um artista imenso que nos deixa esperando anos para vê-lo atuar; nem apenas porque os lindos versos de “Caravanas” trazem “suburbanos como muçulmanos do Jacarezinho a caminho do Jardim de Alá”; nem só porque o cenário de Hélio Eichbauer, com esfera armilar esboçando assimetrias a partir do sistema concêntrico, estende suas cordas de assinatura a uma complexidade de rede de ondas, movimento e poesia; nem mesmo porque “Massarandupió” traz a rica música que habita o coração de Chico Brown. Ou porque o repertório contenha sucessos cantados pela multidão e que estes sejam todos posteriores aos clássicos que fincaram Chico no lugar que ocupa em nossas vidas: não há “Quem te viu, quem te vê”, “Carolina”, “Januária”, “Samba do grande amor” ou “Noite dos mascarados” – nem pensar em “Pedro Pedreiro” ou “Olê olá”: para um cara da geração de Chico, o repertório é todo de coisas novas, a maioria datando de quando ele entortou seus caminhos harmônico-melódicos, toreou suas rimas (justo quando um idiota da imprensa disse que não ouviria seu novo disco por já saber o que iria encontrar: era um erro perfeito). É uma exuberância. Os arranjos de Luiz Cláudio levam ao máximo a elegância musical que ele sempre apresenta. Mas a força vem de como tudo isso foi estruturado dentro da concepção bossa nova. Um homem de voz pequena e anasalada domina o universo, rodeado por sons econômicos e profundos, equilibrados e misteriosos. Da forma dos arranjos (que contam com o canto perfeito de Bia Paes Leme) à política de volumes da amplificação (finalmente um show que não rompe nossos tímpanos toma toda a grande sala de difícil acústica!), tudo funciona para expor a realização da bossa nova, do seu essencial. É a vitória da bossa nova verdadeira, sua vingança, sua definitiva consagração, desmentindo a sensação de que o Brasil não se respeita: ao contrário, ali parece que o Brasil chega finalmente a merecer a bossa nova. E nada disso seria possível sem a lealdade de Chico à prosódia irretocável, à rima que vem com a ideia, à melodia que homenageia a tradição e amadurece para quase se desmelodizar. Ouvindo Chico assim, somos obrigados a crer no povo brasileiro.

O Brasil não é para principiantes

Nesta quarta-feira (24), lembrei de Antônio Mariz.

Em outubro de 1992, quando foi escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor, ouvi dele a seguinte frase:

O país vive o instante trágico do afastamento de um presidente.

Lembrei de Mariz, ontem, ao ver nas redes sociais manifestações de grande júbilo pela confirmação (com ampliação da pena) da sentença de condenação do ex-presidente Lula.

Atualizada, a frase de Mariz seria assim:

O país vive o instante trágico da condenação de um ex-presidente.

Penso que não há o que comemorar. Mesmo pelos que são contra Lula.

Mas esse post é sobre Tom Jobim (em foto de Evandro Teixeira).

Se vivo fosse, ele faria 91 anos nesta quinta-feira (25).

O nome completo: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

O nome artístico que gostava de usar: Antônio Carlos Jobim.

O nome que todos usam: Tom Jobim.

O que Chico Buarque usou na letra de Paratodos: Antônio Brasileiro.

Novamente Chico: Maestro Soberano.

Tom Jobim é o maior compositor popular do Brasil.

Nascido no Rio de Janeiro, Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil.

Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa.

Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Seu vasto cancioneiro permanece vivo e atual como documento sonoro do país que nunca deixou de ser uma promessa de vida em seu coração.

Tão permanente e atual quanto as suas canções é a frase de Jobim que escolhi para fechar o post:

O Brasil não é para principiantes.

ELIS REGINA, 1945 – 1982

Nesta sexta-feira (19), faz 36 anos que Elis Regina morreu.

Se estivesse viva, ela faria 73 anos em março.

Conheço gente jovem que ouve Elis Regina e se emociona.

Será pela qualidade do seu canto?

Será pelo encontro da grande voz com o grande repertório?

Será pela evocação de uma época e de uma luta por dias melhores?

Ou misturamos tudo para perguntarmos se não é pela imensa beleza da sua arte?

Elis Regina resistiu à passagem do tempo. Sua vida foi contada no palco, num musical que provoca a ilusão de que estamos diante dela. Chegou à tela do cinema, num filme que não é excepcional, mas é necessário. Está nas livrarias, numa biografia escrita pelo jornalista Júlio Maria.

Nada será como antes. Diz a canção do Clube da Esquina. Diz o título do livro.

Acho que tudo foi bem diferente dos sonhos de uma geração.

A música de Elis evoca um tempo e faz pensar na distância entre sonho e realidade. Por isso, soa anda mais bela. Porque vem carregada de melancolia.

O “façam a festa por mim” da canção de Ivan Lins e Vítor Martins é dilacerante, ouvido hoje! Não há festa a fazer!

O pedaço do seu cancioneiro dedicado às dores coletivas lembra noites escuras à espera de dias claros. Permanece como retrato de um tempo.

O pedaço que fala das dores individuais não tem tempo.

Elis era singular na mistura das duas dores. Como era singular na mistura de técnica com emoção.

No país de Ângela, Elizeth, Maysa, Gal, num país de grandes vozes femininas, Elis Regina, entre 1965 e 1981, edificou um legado que a gente tenta traduzir assim:

É mais do que uma intérprete excepcional. É uma intérprete excepcional, perfeccionista, posta a serviço da construção de um repertório de altíssima qualidade. A nos mostrar, ontem e hoje, que é possível!

AO VIVO

Transversal do Tempo

Um grande momento de Elis ao vivo. O disco é mal gravado e mal editado, o show está incompleto, mas a performance da cantora, o vigor da banda, a força dos arranjos e um repertório primoroso superam qualquer limitação técnica.