Ney Matogrosso é homenageado do Prêmio da Música Brasileira

O Prêmio da Musica Brasileira será realizado nesta quarta-feira (19) no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O homenageado da edição 2017 é o cantor Ney Matogrosso.

Esse ano, o empresário José Maurício Machline teve dificuldades para realizar o evento, que já se tornou uma tradição entre os artistas. Para que a festa fosse viabilizada, os participantes aceitaram cantar e tocar sem cachê.

A escolha do homenageado faz justiça a um dos grandes artistas da música brasileira.

São mais de 40 anos de carreira, desde a explosão dos Secos e Molhados, em 1973.

Ney Matogrosso é um intérprete singularíssimo, com seu timbre vocal incomum e um absoluto domínio do palco. Começou pelo novo, depois buscou a tradição da canção popular. Esteve no topo das paradas, também fez discos nos quais o êxito comercial era o que menos importava. Tudo o que produziu tem uma marca de qualidade muito forte. Tem escolhas de um artista guiado pela liberdade de criação.

Visto de perto, Ney parece um homem tímido. O inverso do que há na sua admirável trajetória.

Escolhi seis discos para uma reaudição de Ney Matogrosso. Vamos a eles?

SECOS E MOLHADOS

De 1973. Primeiro dos dois discos dos Secos e Molhados, o grupo que revelou Ney Matogrosso. Foi um sucesso absoluto de crítica e público e uma grande ousadia em plena ditadura militar. Novo em sua proposta musical, novo também pela atitude.

ÁGUA DO CÉU – PÁSSARO

De 1975. Primeiro disco solo de Ney Matogrosso. O que ele faria depois dos Secos e Molhados? A resposta veio num LP que parecia ainda mais ousado do que o grupo desfeito. Com sua voz incomum, Ney se consolidava como um dos grandes da MPB.

NEY MATOGROSSO

De 1981. Comercialmente, foi o maior sucesso da carreira de Ney Matogrosso. Homem com H, do paraibano Antônio Barros, colocou Ney em primeiro lugar em todas as paradas. Depois, o artista saiu em excursão lotando os lugares onde cantava.

Ney CDs

PESCADOR DE PÉROLAS

De 1987. Gravado ao vivo. Um Ney Matogrosso diferente. Na performance, no figurino, no repertório . Contido, colocando sua bela voz diante de um cancioneiro de clássicos populares. Ao seu lado, Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Rafhael Rabello.

NEY MATOGROSSO INTERPRETA CARTOLA

De 2002. Ney Matogrosso na maturidade debruçado sobre o repertório do grande sambista da Mangueira. Um dos seus muitos álbuns conceituais. Os sambas de Cartola recebem arranjos primorosos para essa leitura muito fiel aos originais.

BEIJO BANDIDO

De 2009. Arranjos camerísticos e sofisticados para um repertório impecável. Ney Matogrosso canta verdadeiros clássicos do cancioneiro popular. Alguns antigos, outros ainda recentes. O disco reafirma a extrema qualidade do seu trabalho.

A arte de Chico Buarque não vai passar. Nossos impasses, sim!

No final do documentário Chico, Artista Brasileiro, Chico Buarque brinca com o futuro e diz que suas novas músicas começariam a ser compostas em 2017 para que o novo disco fosse lançado em 2020.

Na vida real, foi bem melhor. O disco já está sendo gravado e será lançado no próximo mês pela Biscoito Fino. É o primeiro de inéditas depois de seis anos.

É o primeiro também depois que o acirramento dos impasses brasileiros levou a cenas explícitas (e inéditas) de intolerância. Chico, no meio delas.

Penso nisso sempre que volto aos discos de Chico Buarque.

Agora mesmo, vejo o artista nesse vídeo cheio de beleza e sensualidade com Chiara Civello. Chiara é uma italiana nascida em Roma. Cantora moderna de jazz, transita pelo pop, pela MPB.

Io Che Amo Solo Te. Vamos ouvir?

Mas o tema desse post é Chico Buarque.

No documentário Artista Brasileiro, ele menciona Vai Passar como a última das suas músicas engajadas. O samba composto em parceria com Francis Hime é de 1984.

No filme, Chico fala dos sonhos daquela época, fala do que veio depois, do engajamento que pode macular a criação artística, da permanência do cancioneiro para além de um determinado contexto político. Diz coisas muito interessantes.

Exibe serenidade e lucidez em contraponto à intolerância.

Chico é uma das nossas joias raras. Lá pelo meio do filme, Tom Jobim o coloca entre Noel, Ary, Caymmi – nossos grandes. Nossos maiores.

A música de Chico não depende do seu direito cidadão de estar ao lado de quem ele quiser.

O ouvinte pode concordar com ele. Ou discordar dele. Não importa. Seu cancioneiro é infinitamente maior do que os erros e os acertos do homem.

Seu cancioneiro tem permanência. É belo e vastíssimo. Não trata só da luta contra a ditadura que já passou.

Os impasses brasileiros de hoje também passarão. Logo serão substituídos por outros.

Mas, por muito tempo, a arte de Chico Buarque não vai passar!

Salve o compositor popular!

Uma conversa com Cazuza no verão de 1989

Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

Estive com Cazuza uma única vez, quando ele cantou em João Pessoa no verão de 1989.

Percorria o país com o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado também em disco ao vivo (O Tempo Não Pára).

Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira que era portador do HIV.

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa A Palavra É Sua, que era exibido nos domingos pela manhã na TV Cabo Branco. Costumávamos fazer em estúdio, mas, naquela semana, claro que abrimos uma exceção.

Assumi com a produção do artista o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que, naquele momento, a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável.

Cazuza estava na piscina (ao lado do amigo Ezequiel Neves, seu parceiro e produtor) e gravou comigo numa mesa próxima. De sunga, camiseta sem manga e boné.

Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, as diferenças entre poesia e letra de música, rock e MPB – estes foram os temas da nossa conversa.

Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo “passado da música popular” (usou essa expressão) lhe servira de parâmetro.

A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes numa conversa sobre o rock brasileiro da década de 1980: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Era Gil me convencendo de que o rock brasileiro dos 80 era muito melhor do que eu imaginava!

Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou.

Mas fiquei triste no dia em que o entrevistei. O resultado jornalisticamente positivo do que gravamos não era nada diante do quadro que vi: um artista jovem e talentoso consumido por uma doença devastadora.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza assumiu que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha.

Sua agonia se estendeu até sete de julho de 1990.

Ben, Ben Jor. Não importa. Jorge é um inventor!

Nunca me acostumei com a mudança de nome para Ben Jor. Até hoje, prefiro Jorge Ben.

Do jeito que era na época em que comecei a ouvi-lo, no final da década de 1960, na fase em que se aproximou do Tropicalismo. Vinha da Bossa Nova e passara também pela Jovem Guarda, com seu jeito absolutamente original de compor, cantar e tocar sambas.

Ben é um inventor. Os sambas em tom menor com os acordes que utiliza, o modo com que se acompanha ao violão (mais tarde, à guitarra), as letras sem similar na MPB – tudo nele é singular, único. E era novíssimo, no instante em que foi revelado com o LP Samba Esquema Novo. É lá que estão seus primeiros sucessos, os hits que o projetaram: Mas Que Nada, Chove Chuva e Por Causa de Você, Menina.

Três discos sintetizam os fundamentos do seu trabalho: Samba Esquema Novo (1963), Sacundin Ben Samba (1964) e Ben É Samba Bom (1964).

O impacto provocado por Samba Esquema Novo foi tão grande que Gilberto Gil, ainda na Bahia, ficou desnorteado em relação ao seu futuro musical. E enxergou naquelas músicas a semente do que o Tropicalismo viria a ser. Por mais que se guiasse pela intuição, o jovem Ben se aparelhara na noite carioca, frequentando o Beco das Garrafas, e já havia nele uma nítida vocação para as fusões que iriam transformar a música popular brasileira nos anos seguintes.

Em sua extensa produção, os discos que prefiro são aqueles que vão do LP de 1969 (não tem título, apenas o nome do artista e os sucessos País Tropical e Charles Anjo 45) até o de 1976 (África Brasil), quando trocou a Philips pela Som Livre. Se ouvirmos esta fase da sua carreira, vamos encontrá-lo trabalhando com o que aprendera na Bossa Nova, na Jovem Guarda e no Tropicalismo. E com todas as outras influências que recebeu, das matrizes africanas, da soul music, do rock.

Jorge Ben recorre a tudo isto sem jamais abrir mão da sua singularidade, da sua assinatura. Aquilo que um maestro, certa vez, chamou de “estilo Jorge Ben”. Chamou e colocou na partitura, na falta de uma definição melhor.

No livro 300 Discos Importantes da Música Brasileira, organizado por Charles Gavin, aparecem três de Jorge Ben: Samba Esquema Novo, A Tábua de Esmeralda e África Brasil.

Há outros muito bons. Ben, que traz o primeiro dos diversos registros de Taj Mahal, e Força Bruta são excepcionais. Assim como o álbum-duplo Ogum-Xangô, que gravou com Gilberto Gil em 1975. Duas vozes, dois violões, contrabaixo e percussão em intermináveis improvisações. Eric Clapton viu de perto, numa jam no Rio, e ficou perplexo. Deve ter identificado, no canto e nas cordas, o que o deslumbrou no blues.

Salve, Jorge!

Marisa Monte chega aos 50 com a voz de uma artista vitoriosa

Marisa Monte chega aos 50 anos neste sábado (01) como uma das grandes cantoras do Brasil.

Ainda não tinha 22 quando lançou o primeiro disco, em 1989. Foi uma estreia singular: optou por um registro ao vivo.

O repertório sofisticado e eclético, tradicional e moderno, veio do gosto de Marisa e da estratégia do seu produtor, Nelson Motta.

O refinamento, a diversidade, o velho e o novo – tudo isso ficou como marcas do trabalho da artista.

Ficaram outras coisas: a liberdade das escolhas, a discografia pouco extensa, a ausência de coletâneas (somente uma em quase três décadas de carreira).

O êxito de Marisa Monte é resultado dos seus méritos como cantora, dos belos shows que faz, mas também do seu marketing pessoal, da capacidade que tem para administrar a carreira e gerar grandes expectativas sempre que anuncia um novo projeto.

Ela vai do pop mais banal ao mais sofisticado standard do cancioneiro americano com a mesma postura com que divide palcos com Paulinho da Viola. Ou Arnaldo Antunes. Ou Roberto Carlos. Ou produz a Velha Guarda da Portela.

Aos 50 anos (e já há um bom tempo), Marisa Monte – como na canção de Bethânia – tem a voz de uma pessoa vitoriosa.

A voz e a trajetória de uma artista vitoriosa!

Quem ainda ouve Sérgio Ricardo? Eu ouço e gosto muito!

O nome de batismo é João Mansur Lutfi, paulista de Marília, filho de libanês. O nome artístico, Sérgio Ricardo.

Pianista, compositor, diretor de cinema. Começou na Bossa Nova e dela saiu para um repertório de canções engajadas. Fez sambas refinados, como bom bossanovista, e incursionou pela música nordestina, algo surpreendente para um artista com sua formação e sua origem.

Com raras exceções, o público de hoje não o conhece. Dos ouvintes do seu tempo, acredito que são poucos os que continuam a ouvi-lo. Estou entre eles.

Faz Escuro, Mas Eu Canto. Era este o nome do show de Sérgio Ricardo com o poeta Thiago de Melo que vimos no Teatro Santa Roza nos anos 1970. O título dizia tudo. O homem que compôs Zelão cantava o que era possível naquele tempo.

No meio do espetáculo, apanhava o público de surpresa ao interpretar o Hino à Bandeira. Como se quisesse dizer que o Brasil era maior do que o momento histórico em que vivíamos. A ditadura passaria e permaneceria a beleza do hino que fala do afeto que se encerra em nosso peito juvenil.

Dom José Maria Pires estava na plateia, e Thiago de Melo jogou uma rosa para o arcebispo.

Tenho muitas lembranças de Sérgio Ricardo. A mais remota é a do episódio de Beto Bom de Bola, no Festival da Record de 1967. Foi ali que o vi pela primeira vez. Irritado com as vaias, o músico quebrou o violão, atirou o instrumento na plateia e foi eliminado da disputa. A história está no documentário Uma Noite em 67.

Mas prefiro outras lembranças: das muitas audições em discos e das poucas vezes em que pude vê-lo no palco. Melodista inspirado, letrista sensível, intérprete marcante, Sérgio Ricardo está presente com seu talento de autor e sua bela voz na música popular que os brasileiros produziram nos anos 60 e 70 do século passado, mesmo que não tenha obtido grande sucesso.

Sérgio Ricardo não gravou muito. Na sua discografia, a qualidade se sobrepõe à quantidade. Como diretor de cinema, também realizou poucos filmes. Sempre gostei imensamente do título de um deles: Juliana do Amor Perdido. Em A Noite do Espantalho, trabalhou com os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo e filmou em Nova Jerusalém. A trilha deste filme é primorosa.

Quando se fala do seu vínculo com o cinema, é necessário mencionar a parceria com Glauber Rocha na trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O filme de Glauber não seria o mesmo sem aqueles temas que parecem compostos por um nordestino, jamais por um paulista filho de libanês.

Sérgio Ricardo fez 85 anos agora em junho.

Bom motivo para reouvi-lo.

Ou conhecê-lo.

Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.

Retrato de Chico Buarque mostra o grande artista que ele é

No dia em que Chico Buarque faz aniversário, que tal rever o documentário Chico, Artista Brasileiro?

Vinícius e Chico, Artista Brasileiro são muito parecidos na estrutura narrativa. Realizados por Miguel Faria Jr., os documentários fogem um pouco do formato clássico do gênero por causa dos trechos encenados.

Em Vinícius, música e poesia se misturam num pocket show para uma pequena plateia. Em Chico, Artista Brasileiro, dez números são apresentados num galpão/estúdio sem plateia. Nos dois, os números são intercalados por entrevistas produzidas para os filmes e material de arquivo. O segundo repete a fórmula e os méritos do primeiro.

Vinícius é sobre um homem morto. Daí, talvez, o grande número de entrevistas gravadas para o documentário. Em algumas (Chico, Gil, Caetano), há música à base de voz e violão. Os depoimentos montam o retrato do artista.

Chico é sobre um homem vivo e em atividade, dividido entre a música e a literatura. Os depoimentos são em menor número e sem ilustração musical. Quem conta a história é o próprio Chico numa longa entrevista que conduz a narrativa. O filme é, então, um retrato do compositor tirado por Miguel Faria Jr., mas, sobretudo, um autorretrato do artista.

Chico, Artista Brasileiro não é o primeiro documentário sobre o autor de Construção. Há um outro, inferior: Certas Palavras com Chico Buarque, que Maurício Berú realizou em 1980. Faria Jr. utiliza cenas de Berú, como as imagens de Maria Bethânia cantando Olhos nos Olhos em estúdio, com o autor ao seu lado.

Em Certas Palavras, a encenação das canções empobrece o filme. Em Chico, os números gravados o engrandecem.

As dez músicas, mesmo que de épocas distintas, têm a feição do Chico dos últimos anos. Certamente, por causa dos músicos da sua banda (à frente, o guitarrista Luiz Cláudio Ramos), a quem há de se atribuir a sonoridade e a concepção dos arranjos executados em palcos e estúdios.

As escolhas não são óbvias, nem os intérpretes. A versão de Sabiá, com a portuguesa Carminho, é comovente. As imagens de Chico e Tom no palco do FIC são preciosas. Chico reconhece que, no Brasil de 1968, a canção de exílio composta com Jobim era alienada. O tempo a conservou bela.

Chico dá um depoimento corajoso e sem preconceito sobre a diversidade da música popular que se produz no Brasil. A canção popular como representação do que somos. Não deve agradar a uma parcela significativa dos seus fãs, mas eles fingem que não veem. O artista se apresenta como um homem que não sente saudade, não tem medo da solidão e não é tímido. Para ele, o presente é melhor do que o passado.

“Elis” estreia nos cinemas. Vamos reouvir os discos de Elis?

A estreia nacional de Elis será nesta quinta-feira (24). O filme conta a história de Elis Regina, a maior cantora do Brasil, interpretada pela atriz Andréia Horta (em foto de divulgação).

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Que tal reouvir os discos de Elis antes de ver o filme? Selecionei dez. É uma escolha pessoal.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.

Parceria de Roberto e Erasmo é um mistério a ser desvendado

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.