EPs de Milton só em plataformas digitais. (Mau) sinal dos tempos

Milton Nascimento vai sair em turnê a partir de março.

Seu show se chamará Clube da Esquina.

Aos 76 anos, Bituca vai voltar ao repertório do álbum Clube da Esquina, de 1972. Também do Clube da Esquina 2, de 1978. E ainda a canções de outros discos da década de 1970, a fase mais criativa da sua trajetória.

Nos últimos meses de 2018, em dois EPs, Milton revisitou canções daquela época em versões acústicas. Voz e violão.

O primeiro EP é A Festa. O segundo, Nada Será Como Antes.

Vejam as capas.

A boa notícia: ouvir novas versões dessas grandes canções. Mesmo que inferiores às gravações antológicas, é bonito ver um artista da dimensão de Milton Nascimento voltando ao melhor do seu repertório com o distanciamento que só a passagem do tempo oferece.

A má notícia: ainda que, juntos, com suas 11 faixas, os dois EPs pudessem se transformar num belo CD de Milton, não há edição física desses trabalhos. Por enquanto (?), está tudo apenas nas plataformas digitais.

(Mau) sinal dos tempos.

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Repertório do EP A Festa:

O Cio da Terra

A Festa

Maria, Maria

Beco do Mota

Cuitelinho

Canção da América

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Repertório do EP Nada Será Como Antes:

Clube da Esquina

Para Lennon e McCartney

Clube da Esquina 2

Nada Será Como Antes

Saudade dos Aviões da Panair 

Ronaldo Bastos, letrista do Clube da Esquina, faz 70 anos

A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada

O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada

 

Eu já estou com o pé nessa estrada

Qualquer dia a gente se vê

Sei que nada será como antes amanhã

 

Você pega o trem azul, o Sol na cabeça

O Sol pega o trem azul, você na cabeça

Um sol na cabeça

 

Eu queria ser feliz

Invento o mar

Invento em mim o sonhador

 

Quando entrar setembro

E a boa nova entrar nos campos

Quero ver brotar o perdão

Onde a gente plantou

Juntos outra vez

 

Quem não conhece esses versos?

São de Fé Cega Faca Amolada, Nada Será Como Antes, O Trem Azul, Cais e Sol de Primavera.

Melodias de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes.

Letras de Ronaldo Bastos.

Ronaldo Bastos faz 70 anos neste domingo (21).

Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos! Pois é! Ronaldo está nessa lista dos três parceiros mais importantes de Milton Nascimento. Figura imprescindível no Clube da Esquina, o grupo de artistas (mineiros ou não) formado na década de 1970 em torno da figura de Milton.

Tomemos os discos de Milton Nascimento. Do primeiro (Travessia, 1967) até o Clube da Esquina 2 (1978). Destaquemos as músicas que têm Ronaldo Bastos como letrista. Pronto! É o suficiente para que se perceba a sua dimensão entre os letristas do nosso cancioneiro popular.

A letra de Menino é dele:

Quem cala sobre teu corpo

Consente na tua morte

Talhada a ferro e fogo

Nas profundezas do corte

A de Amor de Índio, também:

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas

Com todo o cuidado

Meu amor

E tem as versões:

Nem o Sol, nem o mar

Nem o brilho das estrelas

Tudo isso não tem valor

Sem ter você

Ou:

Sinto quando alguém te interessa

Mesmo quando finges que não vês

Se desapareces numa festa

Eu já sei

Muita gente ouviu. Muita gente cantou.

Muita gente guardou na memória afetiva os versos de Ronaldo Bastos.

Febre Amarela mata Flávio Henrique, compositor de Casa Aberta

O compositor Flávio Henrique morreu nesta quinta-feira (18) em Belo Horizonte.

Ele estava internado há uma semana com febre amarela.

Flávio Henrique, de 49 anos, era presidente da Empresa Mineira de Comunicação.

O compositor tinha quase 200 músicas gravadas.

Uma delas, Casa Aberta, que está aí nesse vídeo de Milton Nascimento com Marina Machado.

Vai dos tambores de Minas ao jazz, passando por algo dos Beatles.

É linda!

Voz e cello. Milton por Duncan e Morelenbaum. Inusitado!

Inusitado.

A ideia saiu da cabeça de André Midani, um cara que veio para o Brasil fazer História na indústria do disco e da nossa música popular.

Inusitado – uma série de shows para tirar os artistas da zona de conforto.

Erasmo Carlos fez os lados B dele. Virou CD e DVD.

Anitta cantou MPB ao lado de Arlindo Cruz e Arnaldo Antunes.

Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum se juntaram num tributo a Milton Nascimento.

Voz e cello.

É desse encontro que quero falar.

Foi há uns dois anos. Vi ao vivo num desses canais fechados.

Sensacional!

Agora, virou CD gravado em estúdio.

Invento +, lançado há pouco pela Biscoito Fino.

Imprescindível!

Reler Milton Nascimento não é tarefa simples.

Primeiro, há Milton por Milton.

Depois, há Milton por Elis.

Coisas geralmente definitivas.

Mas Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum encararam o desafio proposto pelo velho Midani. E acertaram.

Invento + não carece de comparações. Ouço sem pensar em Milton ou em Elis.

Penso apenas na beleza infinita dessas canções e em como elas ficaram bem nesse diálogo da voz de Zélia com o cello de Jaques.

O repertório mistura o que é de autoria de Bituca com o que ele gravou como intérprete.

O duo explora outras possibilidades de cada música e nos oferece um registro irresistível.

O título não é gratuito.

Duncan e Morelenbaum tentam inventar mais.

E conseguem.

Milton Nascimento faz 75 anos

Milton Nascimento faz 75 anos nesta quinta-feira (26).

Travessia, a música que lhe deu projeção nacional, está fazendo 50 anos.

Nascido no Rio, criado em Minas, Bituca é um dos grandes de uma geração de grandes.

Sua bela voz (com seu falsete único) ecoou pelo mundo.

Há muito a ouvir nas suas canções. Dos mistérios de Minas às influências do jazz e do rock.

Os discos mais importantes de Milton Nascimento são dos anos 1970. Uma impressionante sequência de LPs lançados pela velha Odeon. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978. Trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio.

“Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. Para Lennon e McCartney, Canto Latino, Pai Grande. A Felicidade, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos.

Depois, Clube da Esquina. Brancos e pretos. Lô e Milton. Tudo o que Você Podia Ser, O Trem Azul, Cais, Nada Será Como Antes, San Vicente.

E aí vem Milagre dos Peixes. Em estúdio, com a ação da Censura, que transformou canções em temas instrumentais. Disco de resistência e raras belezas.

Segue o Milagre, agora ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em Bodas.

“E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

Minas e Geraes consolidam o artista extraordinário.

Fé Cega, Faca Amolada, Saudade dos Aviões da Panair, Ponta de Areia. A voz metálica misturada ao coro infantil.

Mi de Milton, nas de Nascimento. As sílabas iniciais formando Minas.

Minas abre caminho a Geraes, o disco seguinte. Os dois se completam.

“Voltar aos 17, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa.

Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em Clube da Esquina 2.

Elis, Chico, todos! Fechando um ciclo, anunciando novas belezas.

“Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre”.

Salve, Bituca!

Milton Nascimento tomou chá com Jeanne Moreau

Morreu Jeanne Moreau. Tinha 89 anos.

Conheci Moreau junto com Bardot. Assim. Em Viva Maria!. Numa inesquecível matinê do Cine Santo Antônio.

Mas quero lembrar dela assim. Em Jules e Jim.

Vou contar uma historinha.

Descobri, há muitos anos, que Milton Nascimento é louco por Truffaut. E por Moreau. Mais do que isso: fez sua primeira música depois de ver Jules e Jim.

Estive com Milton e, no lugar de falar sobre música, falei sobre Truffaut e Moreau.

Ele, então, contou que, certa vez, estava em Nova York e recebeu um convite misterioso de um amigo.

O amigo pegou Milton no hotel e o levou a um apartamento sem dizer quem os esperava.

Era um prédio antigo, com um velho elevador.

Quando tocaram a campainha, eis quem abre a porta:

Jeanne Moreau!

Bituca ficou tão em transe quanto no dia em que viu Jules e Jim pela primeira vez.

Seguiu-se uma tarde de chá e muita conversa.

Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.

Participante do The Voice Kids denuncia ofensas racistas

Domingo passado (08), Franciele Fernanda, uma garota de 14 anos, participou do The Voice Kids, programa da Rede Globo, cantando Maria Maria, de Milton Nascimento.

O número emocionou muita gente pela força da interpretação da menina.

Milton Nascimento usou as redes sociais para elogiar a performance: “você emocionou a todos nós”, disse o autor da canção.

Ao mesmo tempo, Franciele foi alvo de ofensas racistas: “essa neguinha não canta porra nenhuma”, alguém postou, comentando o desempenho dela no programa.

Nesta terça-feira (10), com a mãe ao lado, Franciele Fernanda foi à polícia prestar queixa contra quem a ofendeu.

Franciele fez o que deve ser feito. Racismo é crime! É uma prática abominável! E uma das muitas faces da intolerância que vemos crescer a cada dia!

David Bowie, no jazz, ficou parecido com Milton Nascimento

Hoje (10) faz um ano que o mundo da música foi surpreendido pela morte de David Bowie. Dois dias antes, Bowie tinha feito 69 anos e lançado Blackstar, um novo disco. Falou-se até em suicídio assistido. O artista tinha câncer no fígado, mas ninguém sabia que ele estava doente.

Em Blackstar, Bowie é acompanhado por músicos de jazz. Mas não é um disco jazzístico, como se disse inicialmente. Não! São músicos de jazz tocando Bowie!

Jazzística – aí, sim! – é Sue (Or In a Season of Crime), a faixa inédita da coletânea Nothing Has Changed, de 2014.

E com um dado muito curioso e atraente para nós, brasileiros. A melodia sinuosa da canção lembra muito Cais, de Milton Nascimento. E a sonoridade da gravação remete ao jazz e também a um certo experimentalismo que há em Milton.

Vamos, então, ouvir Bowie pensando em Milton? Não é plágio, não! Se não for coincidência, é Milton influenciando um gigante do pop como Bowie!

“Elis” estreia nos cinemas. Vamos reouvir os discos de Elis?

A estreia nacional de Elis será nesta quinta-feira (24). O filme conta a história de Elis Regina, a maior cantora do Brasil, interpretada pela atriz Andréia Horta (em foto de divulgação).

elis-o-filme

Que tal reouvir os discos de Elis antes de ver o filme? Selecionei dez. É uma escolha pessoal.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.