Que tragédia é essa que cai sobre todos nós? é o brado de Milton

“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”.

O verso era um brado poderoso de Milton Nascimento no Brasil de 1976.

Está na letra de Promessas do Sol, do álbum Geraes.

Na live deste domingo (28), Bituca trouxe o verso para os dias de hoje.

“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”.

No Brasil de 2020, vivemos sob duas tragédias: a da pandemia do novo coronavírus, que, entre nós, já matou quase 60 mil pessoas, e a do país desgovernado, mergulhado em grave crise institucional.

Inevitável fazer essa associação vendo Milton na live Num domingo qualquer, qualquer hora, título subtraído da quase cinquentenária canção Nada Será Como Antes.

O artista cantou as nossas dores, mas também o amor em todas as formas que percorre o seu trabalho autoral.

Acompanhado por Christiano Caldas (teclado, piano e sanfona) e Wilson Lopes (violões e guitarra), esse gigante da música popular do Brasil levou para o ambiente intimista da live parte do repertório do show Clube da Esquina, cuja turnê percorreu o Brasil e vários países até o início de 2020.

O roteiro priorizou canções dos anos 1970, o período mais importante da carreira de Bituca, e também incluiu músicas das décadas de 1960 e 1980.

Aos 77 anos, Milton Nascimento é um homem frágil, marcado por um quadro severo de diabetes, mas nada macula a riqueza enigmática da sua música nem a beleza da sua performance ao vivo.

Milton é um dos mistérios de Minas.

Seu canto enriqueceu nossas vidas.

Cinco cantadas para o Dia dos Namorados. Confira os vídeos

Não precisa texto.

São cinco cantadas de tempos passados para o Dia dos Namorados.

Vejam e ouçam.

MINHA NAMORADA

Carlos Lyra e Vinícius de Moraes 

COMO É GRANDE O MEU AMOR POR VOCÊ

Roberto Carlos

VOCÊ É LINDA

Caetano Veloso

EU SEI QUE VOU TE AMAR

Tom Jobim e Vinícius de Moraes

MANIA DE VOCÊ

Rita Lee e Roberto de Carvalho

Tributo a Brant é reencontro com legado do Clube da Esquina

Vendedor de Sonhos estava sendo gravado quando Fernando Brant morreu, em 2015.

O disco, tributo ao parceiro de Milton Nascimento, só foi lançado há pouco, nos últimos dias de 2019.

Produzido por Robertinho Brant, sobrinho do homenageado, promove precioso reencontro do ouvinte com o legado do Clube da Esquina.

São 20 canções.

Entre elas, há as obrigatórias (Travessia, San Vicente, Ponta de Areia), mas também os B sides (Vida, Canoa, Canoa).

Podemos dizer que a presença de Durango Kid (um autêntico B side) é tão surpreendente quanto as ausências de Canção da América ou Maria, Maria. Não sentimos, no entanto, falta destas.

O disco está perfeito do jeito que é, com as escolhas que foram feitas na composição do repertório.

Vendedor de Sonhos é um disco póstumo de Fernando Brant, esse importante letrista da música popular do Brasil. Mas, se quisermos, pode ser ainda um disco de Milton Nascimento.

Sim. Das suas 20 faixas, 19 estão em discos de Bituca. A única que não está (O Medo de Amor é o Medo de Ser Livre) foi agora gravada por ele. A maioria é produto da parceria de Milton com Brant.

Beto Guedes, Lô Borges, Toninho Horta, Flávio Venturini, Tavinho Moura – os caras do Clube estão no CD, em meio a convidados como Djavan, Mônica Salmaso, Joyce Moreno, Dori Caymmi, Samuel Rosa, Roberta Sá, Fernanda Takai, Seu Jorge.

A sonoridade das gravações remete ao som que ouvíamos nos anos 1970. Elas são melhores do que as originais? Claro que não! São diferentes, mas são muito boas!

Regravar essas canções há de ter sido um grande desafio para os convidados de Robertinho Brant.

Ouçam Vendedor de Sonhos e vejam que eles foram aprovados. Alguns, com distinção!

Show de Milton é bálsamo num país sob desconstrução

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

O verso vem de longe. Lá do começo dos anos 1970. De uma canção chamada Clube da Esquina. Ela está no disco de Milton Nascimento com o Som Imaginário. Aquele que começa com Para Lennon e McCartney. É, portanto, anterior ao álbum Clube da Esquina.

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

O verso falava de um sonho (ou de muitos sonhos) que a gente tinha no Brasil da ditadura militar.

Depois dele, veio o álbum Clube da Esquina, no qual os espaços eram divididos entre Milton e um quase garoto chamado Lô Borges.

E, em seguida, vieram todos aqueles discos que Bituca gravou na década de 1970. Milagre dos Peixes e Milagre dos Peixes ao Vivo e Minas e Geraes e, finalmente, o Clube da Esquina 2.

Esses discos e suas canções são um pedaço das nossas vidas. Pedro Osmar me disse algo parecido ao final do show Clube da Esquina, que Milton apresentou nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Aos 76 anos (77 em outubro), Milton Nascimento está na estrada (Brasil e mundo), revisitando o repertório dos dois álbuns Clube da Esquina e mais algumas canções daquela época.

Nos meus 60 anos, nos meus quase 50 anos de espectador de shows ao vivo, vi (prossigo vendo) muita coisa bonita. Muita mesmo. Mas não foram muitas as que me emocionaram tanto quanto este Milton que vi agora, na velhice, voltando às canções dos seus 30 ou 30 e poucos anos.

São canções belas, fortes, cortantes, e elas nos remetem não somente a grandes discos, que a gente ouve até hoje, mas ao tempo dos nossos melhores sonhos, das nossas maiores esperanças.

O show de Milton, só com velhas canções, é um arrebatador diálogo do presente com o passado. O nosso passado e o nosso presente. É o Brasil que está ali, o Brasil dos seus grandes legados, dos seus construtores, daqueles que nos representam, que nos orgulham, estejamos aqui ou longe daqui. Seja noite ou dia.

Nada Será Como Antes e Cais e San Vicente e Trem Azul e Para Lennon e McCartney e Maria, Maria e Ponta de Areia. Bituca e sua vigorosa banda. Arranjos que remetem aos originais, mas injetam atualidade a velhos sons. Versos e versos e mais versos que são ressignificados pela passagem do tempo e se reencontram agora, numa outra noite brasileira.

Clube da Esquina, o show de Milton Nascimento, é um bálsamo num país em desconstrução.

Comove. Emociona. Alegra. Entristece também.

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

A canção que tem esse verso não está no set list.

Mas aquela outra, que se chama Clube da Esquina 2, está.

É ela que nos diz que sonhos não envelhecem.

Tomara.

Milton faz Clube da Esquina em João Pessoa. Veja o repertório

Milton Nascimento traz o show Clube da Esquina a João Pessoa.

A única apresentação será nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, às 21 horas.

O repertório reúne canções que Milton gravou nos anos 1970, principalmente nos discos Clube da Esquina e Clube da Esquina 2:

Tudo que você podia ser (Lô Borges e Márcio Borges)

Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Clube da esquina (Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges)

Cais (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes)

Mistérios (Joyce Moreno e Maurício Maestro)

Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Casamiento de negros (Violeta Parra e Polo Cabrera)

Um girassol da cor de seu cabelo (Lô Borges e Márcio Borges)

Os povos (Milton Nascimento e Márcio Borges)

Dos cruces (Camilo Larrea)

Para Lennon & McCartney (Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant)

San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Estrelas (Lô Borges e Márcio Borges)

Clube da esquina 2 (Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges)

Nuvem cigana (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

Lilia (Milton Nascimento)

Paixão e fé (Tavinho Moura e Fernando Brant)

Um gosto de sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Paisagem da janela (Lô Borges e Fernando Brant)

Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant)

O que foi feito devera (Milton Nascimento e Fernando Brant) / O que foi feito de Vera (Milton Nascimento e Márcio Borges)

O trem azul (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

BIS

Francisco (Milton Nascimento)

Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso)

Milton: “Nosso lance mesmo era fazer música. Simples assim”

Trago hoje uma breve conversa do colunista com Milton Nascimento, que se apresenta nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa, com o show Clube da Esquina:

O que há de fusion no álbum Clube da Esquina, o primeiro? Se falava que o disco trazia um certo pioneirismo na área.

Sabe que a gente nunca fez nada assim muito pensado? As coisas sempre aconteceram naturalmente. Nosso lance mesmo era fazer música. Simples assim.  

O que dizer da relação do Clube 1 com o cenário político do Brasil daquela época?

Talvez a gente esteja vivendo momentos muito próximos um do outro. 

Qual o papel de Lô Borges na criação do álbum?

Sem Lô Borges não teríamos o Clube da Esquina. Foi da minha união com ele que a gente conseguiu fazer tudo isso que está aí até hoje. 

O Clube 2 é a melhor síntese da sua música e também do encontro desses amigos em torno desse conceito do Clube da Esquina?

Eu sou muito feliz com as coisas que o Clube da Esquina trouxe para a nossa vida. Jamais poderia imaginar que viveria tantas coisas através dele. 

Como é revisitar o Clube da Esquina?

Uma emoção muito grande. A gente acabou de voltar de uma turnê de nove países com o Clube. E isso depois de ter feito esse show em várias cidades do país. A recepção tem sido uma coisa que jamais vamos esquecer. 

Um grande país eu espero do fundo da noite chegar. O verso continua atual?

Eu espero que sim, apesar de tudo o que anda acontecendo, né? 

EPs de Milton só em plataformas digitais. (Mau) sinal dos tempos

Milton Nascimento vai sair em turnê a partir de março.

Seu show se chamará Clube da Esquina.

Aos 76 anos, Bituca vai voltar ao repertório do álbum Clube da Esquina, de 1972. Também do Clube da Esquina 2, de 1978. E ainda a canções de outros discos da década de 1970, a fase mais criativa da sua trajetória.

Nos últimos meses de 2018, em dois EPs, Milton revisitou canções daquela época em versões acústicas. Voz e violão.

O primeiro EP é A Festa. O segundo, Nada Será Como Antes.

Vejam as capas.

A boa notícia: ouvir novas versões dessas grandes canções. Mesmo que inferiores às gravações antológicas, é bonito ver um artista da dimensão de Milton Nascimento voltando ao melhor do seu repertório com o distanciamento que só a passagem do tempo oferece.

A má notícia: ainda que, juntos, com suas 11 faixas, os dois EPs pudessem se transformar num belo CD de Milton, não há edição física desses trabalhos. Por enquanto (?), está tudo apenas nas plataformas digitais.

(Mau) sinal dos tempos.

*****

Repertório do EP A Festa:

O Cio da Terra

A Festa

Maria, Maria

Beco do Mota

Cuitelinho

Canção da América

*****

Repertório do EP Nada Será Como Antes:

Clube da Esquina

Para Lennon e McCartney

Clube da Esquina 2

Nada Será Como Antes

Saudade dos Aviões da Panair 

Ronaldo Bastos, letrista do Clube da Esquina, faz 70 anos

A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada

O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada

 

Eu já estou com o pé nessa estrada

Qualquer dia a gente se vê

Sei que nada será como antes amanhã

 

Você pega o trem azul, o Sol na cabeça

O Sol pega o trem azul, você na cabeça

Um sol na cabeça

 

Eu queria ser feliz

Invento o mar

Invento em mim o sonhador

 

Quando entrar setembro

E a boa nova entrar nos campos

Quero ver brotar o perdão

Onde a gente plantou

Juntos outra vez

 

Quem não conhece esses versos?

São de Fé Cega Faca Amolada, Nada Será Como Antes, O Trem Azul, Cais e Sol de Primavera.

Melodias de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes.

Letras de Ronaldo Bastos.

Ronaldo Bastos faz 70 anos neste domingo (21).

Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos! Pois é! Ronaldo está nessa lista dos três parceiros mais importantes de Milton Nascimento. Figura imprescindível no Clube da Esquina, o grupo de artistas (mineiros ou não) formado na década de 1970 em torno da figura de Milton.

Tomemos os discos de Milton Nascimento. Do primeiro (Travessia, 1967) até o Clube da Esquina 2 (1978). Destaquemos as músicas que têm Ronaldo Bastos como letrista. Pronto! É o suficiente para que se perceba a sua dimensão entre os letristas do nosso cancioneiro popular.

A letra de Menino é dele:

Quem cala sobre teu corpo

Consente na tua morte

Talhada a ferro e fogo

Nas profundezas do corte

A de Amor de Índio, também:

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas

Com todo o cuidado

Meu amor

E tem as versões:

Nem o Sol, nem o mar

Nem o brilho das estrelas

Tudo isso não tem valor

Sem ter você

Ou:

Sinto quando alguém te interessa

Mesmo quando finges que não vês

Se desapareces numa festa

Eu já sei

Muita gente ouviu. Muita gente cantou.

Muita gente guardou na memória afetiva os versos de Ronaldo Bastos.

Febre Amarela mata Flávio Henrique, compositor de Casa Aberta

O compositor Flávio Henrique morreu nesta quinta-feira (18) em Belo Horizonte.

Ele estava internado há uma semana com febre amarela.

Flávio Henrique, de 49 anos, era presidente da Empresa Mineira de Comunicação.

O compositor tinha quase 200 músicas gravadas.

Uma delas, Casa Aberta, que está aí nesse vídeo de Milton Nascimento com Marina Machado.

Vai dos tambores de Minas ao jazz, passando por algo dos Beatles.

É linda!

Voz e cello. Milton por Duncan e Morelenbaum. Inusitado!

Inusitado.

A ideia saiu da cabeça de André Midani, um cara que veio para o Brasil fazer História na indústria do disco e da nossa música popular.

Inusitado – uma série de shows para tirar os artistas da zona de conforto.

Erasmo Carlos fez os lados B dele. Virou CD e DVD.

Anitta cantou MPB ao lado de Arlindo Cruz e Arnaldo Antunes.

Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum se juntaram num tributo a Milton Nascimento.

Voz e cello.

É desse encontro que quero falar.

Foi há uns dois anos. Vi ao vivo num desses canais fechados.

Sensacional!

Agora, virou CD gravado em estúdio.

Invento +, lançado há pouco pela Biscoito Fino.

Imprescindível!

Reler Milton Nascimento não é tarefa simples.

Primeiro, há Milton por Milton.

Depois, há Milton por Elis.

Coisas geralmente definitivas.

Mas Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum encararam o desafio proposto pelo velho Midani. E acertaram.

Invento + não carece de comparações. Ouço sem pensar em Milton ou em Elis.

Penso apenas na beleza infinita dessas canções e em como elas ficaram bem nesse diálogo da voz de Zélia com o cello de Jaques.

O repertório mistura o que é de autoria de Bituca com o que ele gravou como intérprete.

O duo explora outras possibilidades de cada música e nos oferece um registro irresistível.

O título não é gratuito.

Duncan e Morelenbaum tentam inventar mais.

E conseguem.