Show de Milton é bálsamo num país sob desconstrução

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

O verso vem de longe. Lá do começo dos anos 1970. De uma canção chamada Clube da Esquina. Ela está no disco de Milton Nascimento com o Som Imaginário. Aquele que começa com Para Lennon e McCartney. É, portanto, anterior ao álbum Clube da Esquina.

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

O verso falava de um sonho (ou de muitos sonhos) que a gente tinha no Brasil da ditadura militar.

Depois dele, veio o álbum Clube da Esquina, no qual os espaços eram divididos entre Milton e um quase garoto chamado Lô Borges.

E, em seguida, vieram todos aqueles discos que Bituca gravou na década de 1970. Milagre dos Peixes e Milagre dos Peixes ao Vivo e Minas e Geraes e, finalmente, o Clube da Esquina 2.

Esses discos e suas canções são um pedaço das nossas vidas. Pedro Osmar me disse algo parecido ao final do show Clube da Esquina, que Milton apresentou nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Aos 76 anos (77 em outubro), Milton Nascimento está na estrada (Brasil e mundo), revisitando o repertório dos dois álbuns Clube da Esquina e mais algumas canções daquela época.

Nos meus 60 anos, nos meus quase 50 anos de espectador de shows ao vivo, vi (prossigo vendo) muita coisa bonita. Muita mesmo. Mas não foram muitas as que me emocionaram tanto quanto este Milton que vi agora, na velhice, voltando às canções dos seus 30 ou 30 e poucos anos.

São canções belas, fortes, cortantes, e elas nos remetem não somente a grandes discos, que a gente ouve até hoje, mas ao tempo dos nossos melhores sonhos, das nossas maiores esperanças.

O show de Milton, só com velhas canções, é um arrebatador diálogo do presente com o passado. O nosso passado e o nosso presente. É o Brasil que está ali, o Brasil dos seus grandes legados, dos seus construtores, daqueles que nos representam, que nos orgulham, estejamos aqui ou longe daqui. Seja noite ou dia.

Nada Será Como Antes e Cais e San Vicente e Trem Azul e Para Lennon e McCartney e Maria, Maria e Ponta de Areia. Bituca e sua vigorosa banda. Arranjos que remetem aos originais, mas injetam atualidade a velhos sons. Versos e versos e mais versos que são ressignificados pela passagem do tempo e se reencontram agora, numa outra noite brasileira.

Clube da Esquina, o show de Milton Nascimento, é um bálsamo num país em desconstrução.

Comove. Emociona. Alegra. Entristece também.

“Um grande país eu espero do fundo da noite chegar”.

A canção que tem esse verso não está no set list.

Mas aquela outra, que se chama Clube da Esquina 2, está.

É ela que nos diz que sonhos não envelhecem.

Tomara.

Milton faz Clube da Esquina em João Pessoa. Veja o repertório

Milton Nascimento traz o show Clube da Esquina a João Pessoa.

A única apresentação será nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, às 21 horas.

O repertório reúne canções que Milton gravou nos anos 1970, principalmente nos discos Clube da Esquina e Clube da Esquina 2:

Tudo que você podia ser (Lô Borges e Márcio Borges)

Nada será como antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Clube da esquina (Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges)

Cais (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Nascente (Flávio Venturini e Murilo Antunes)

Mistérios (Joyce Moreno e Maurício Maestro)

Cravo e canela (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Casamiento de negros (Violeta Parra e Polo Cabrera)

Um girassol da cor de seu cabelo (Lô Borges e Márcio Borges)

Os povos (Milton Nascimento e Márcio Borges)

Dos cruces (Camilo Larrea)

Para Lennon & McCartney (Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant)

San Vicente (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Estrelas (Lô Borges e Márcio Borges)

Clube da esquina 2 (Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges)

Nuvem cigana (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

Lilia (Milton Nascimento)

Paixão e fé (Tavinho Moura e Fernando Brant)

Um gosto de sol (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)

Paisagem da janela (Lô Borges e Fernando Brant)

Maria Maria (Milton Nascimento e Fernando Brant)

O que foi feito devera (Milton Nascimento e Fernando Brant) / O que foi feito de Vera (Milton Nascimento e Márcio Borges)

O trem azul (Lô Borges e Ronaldo Bastos)

BIS

Francisco (Milton Nascimento)

Ponta de areia (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso)

Milton: “Nosso lance mesmo era fazer música. Simples assim”

Trago hoje uma breve conversa do colunista com Milton Nascimento, que se apresenta nesta quinta-feira (22) no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa, com o show Clube da Esquina:

O que há de fusion no álbum Clube da Esquina, o primeiro? Se falava que o disco trazia um certo pioneirismo na área.

Sabe que a gente nunca fez nada assim muito pensado? As coisas sempre aconteceram naturalmente. Nosso lance mesmo era fazer música. Simples assim.  

O que dizer da relação do Clube 1 com o cenário político do Brasil daquela época?

Talvez a gente esteja vivendo momentos muito próximos um do outro. 

Qual o papel de Lô Borges na criação do álbum?

Sem Lô Borges não teríamos o Clube da Esquina. Foi da minha união com ele que a gente conseguiu fazer tudo isso que está aí até hoje. 

O Clube 2 é a melhor síntese da sua música e também do encontro desses amigos em torno desse conceito do Clube da Esquina?

Eu sou muito feliz com as coisas que o Clube da Esquina trouxe para a nossa vida. Jamais poderia imaginar que viveria tantas coisas através dele. 

Como é revisitar o Clube da Esquina?

Uma emoção muito grande. A gente acabou de voltar de uma turnê de nove países com o Clube. E isso depois de ter feito esse show em várias cidades do país. A recepção tem sido uma coisa que jamais vamos esquecer. 

Um grande país eu espero do fundo da noite chegar. O verso continua atual?

Eu espero que sim, apesar de tudo o que anda acontecendo, né? 

EPs de Milton só em plataformas digitais. (Mau) sinal dos tempos

Milton Nascimento vai sair em turnê a partir de março.

Seu show se chamará Clube da Esquina.

Aos 76 anos, Bituca vai voltar ao repertório do álbum Clube da Esquina, de 1972. Também do Clube da Esquina 2, de 1978. E ainda a canções de outros discos da década de 1970, a fase mais criativa da sua trajetória.

Nos últimos meses de 2018, em dois EPs, Milton revisitou canções daquela época em versões acústicas. Voz e violão.

O primeiro EP é A Festa. O segundo, Nada Será Como Antes.

Vejam as capas.

A boa notícia: ouvir novas versões dessas grandes canções. Mesmo que inferiores às gravações antológicas, é bonito ver um artista da dimensão de Milton Nascimento voltando ao melhor do seu repertório com o distanciamento que só a passagem do tempo oferece.

A má notícia: ainda que, juntos, com suas 11 faixas, os dois EPs pudessem se transformar num belo CD de Milton, não há edição física desses trabalhos. Por enquanto (?), está tudo apenas nas plataformas digitais.

(Mau) sinal dos tempos.

*****

Repertório do EP A Festa:

O Cio da Terra

A Festa

Maria, Maria

Beco do Mota

Cuitelinho

Canção da América

*****

Repertório do EP Nada Será Como Antes:

Clube da Esquina

Para Lennon e McCartney

Clube da Esquina 2

Nada Será Como Antes

Saudade dos Aviões da Panair 

Ronaldo Bastos, letrista do Clube da Esquina, faz 70 anos

A fé, a fé, paixão e fé, a fé, faca amolada

O chão, o chão, o sal da terra, o chão, faca amolada

 

Eu já estou com o pé nessa estrada

Qualquer dia a gente se vê

Sei que nada será como antes amanhã

 

Você pega o trem azul, o Sol na cabeça

O Sol pega o trem azul, você na cabeça

Um sol na cabeça

 

Eu queria ser feliz

Invento o mar

Invento em mim o sonhador

 

Quando entrar setembro

E a boa nova entrar nos campos

Quero ver brotar o perdão

Onde a gente plantou

Juntos outra vez

 

Quem não conhece esses versos?

São de Fé Cega Faca Amolada, Nada Será Como Antes, O Trem Azul, Cais e Sol de Primavera.

Melodias de Milton Nascimento, Lô Borges, Beto Guedes.

Letras de Ronaldo Bastos.

Ronaldo Bastos faz 70 anos neste domingo (21).

Fernando Brant, Márcio Borges e Ronaldo Bastos! Pois é! Ronaldo está nessa lista dos três parceiros mais importantes de Milton Nascimento. Figura imprescindível no Clube da Esquina, o grupo de artistas (mineiros ou não) formado na década de 1970 em torno da figura de Milton.

Tomemos os discos de Milton Nascimento. Do primeiro (Travessia, 1967) até o Clube da Esquina 2 (1978). Destaquemos as músicas que têm Ronaldo Bastos como letrista. Pronto! É o suficiente para que se perceba a sua dimensão entre os letristas do nosso cancioneiro popular.

A letra de Menino é dele:

Quem cala sobre teu corpo

Consente na tua morte

Talhada a ferro e fogo

Nas profundezas do corte

A de Amor de Índio, também:

Tudo que move é sagrado

E remove as montanhas

Com todo o cuidado

Meu amor

E tem as versões:

Nem o Sol, nem o mar

Nem o brilho das estrelas

Tudo isso não tem valor

Sem ter você

Ou:

Sinto quando alguém te interessa

Mesmo quando finges que não vês

Se desapareces numa festa

Eu já sei

Muita gente ouviu. Muita gente cantou.

Muita gente guardou na memória afetiva os versos de Ronaldo Bastos.

Febre Amarela mata Flávio Henrique, compositor de Casa Aberta

O compositor Flávio Henrique morreu nesta quinta-feira (18) em Belo Horizonte.

Ele estava internado há uma semana com febre amarela.

Flávio Henrique, de 49 anos, era presidente da Empresa Mineira de Comunicação.

O compositor tinha quase 200 músicas gravadas.

Uma delas, Casa Aberta, que está aí nesse vídeo de Milton Nascimento com Marina Machado.

Vai dos tambores de Minas ao jazz, passando por algo dos Beatles.

É linda!

Voz e cello. Milton por Duncan e Morelenbaum. Inusitado!

Inusitado.

A ideia saiu da cabeça de André Midani, um cara que veio para o Brasil fazer História na indústria do disco e da nossa música popular.

Inusitado – uma série de shows para tirar os artistas da zona de conforto.

Erasmo Carlos fez os lados B dele. Virou CD e DVD.

Anitta cantou MPB ao lado de Arlindo Cruz e Arnaldo Antunes.

Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum se juntaram num tributo a Milton Nascimento.

Voz e cello.

É desse encontro que quero falar.

Foi há uns dois anos. Vi ao vivo num desses canais fechados.

Sensacional!

Agora, virou CD gravado em estúdio.

Invento +, lançado há pouco pela Biscoito Fino.

Imprescindível!

Reler Milton Nascimento não é tarefa simples.

Primeiro, há Milton por Milton.

Depois, há Milton por Elis.

Coisas geralmente definitivas.

Mas Zélia Duncan e Jaques Morelenbaum encararam o desafio proposto pelo velho Midani. E acertaram.

Invento + não carece de comparações. Ouço sem pensar em Milton ou em Elis.

Penso apenas na beleza infinita dessas canções e em como elas ficaram bem nesse diálogo da voz de Zélia com o cello de Jaques.

O repertório mistura o que é de autoria de Bituca com o que ele gravou como intérprete.

O duo explora outras possibilidades de cada música e nos oferece um registro irresistível.

O título não é gratuito.

Duncan e Morelenbaum tentam inventar mais.

E conseguem.

Milton Nascimento faz 75 anos

Milton Nascimento faz 75 anos nesta quinta-feira (26).

Travessia, a música que lhe deu projeção nacional, está fazendo 50 anos.

Nascido no Rio, criado em Minas, Bituca é um dos grandes de uma geração de grandes.

Sua bela voz (com seu falsete único) ecoou pelo mundo.

Há muito a ouvir nas suas canções. Dos mistérios de Minas às influências do jazz e do rock.

Os discos mais importantes de Milton Nascimento são dos anos 1970. Uma impressionante sequência de LPs lançados pela velha Odeon. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978. Trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio.

“Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. Para Lennon e McCartney, Canto Latino, Pai Grande. A Felicidade, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos.

Depois, Clube da Esquina. Brancos e pretos. Lô e Milton. Tudo o que Você Podia Ser, O Trem Azul, Cais, Nada Será Como Antes, San Vicente.

E aí vem Milagre dos Peixes. Em estúdio, com a ação da Censura, que transformou canções em temas instrumentais. Disco de resistência e raras belezas.

Segue o Milagre, agora ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em Bodas.

“E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

Minas e Geraes consolidam o artista extraordinário.

Fé Cega, Faca Amolada, Saudade dos Aviões da Panair, Ponta de Areia. A voz metálica misturada ao coro infantil.

Mi de Milton, nas de Nascimento. As sílabas iniciais formando Minas.

Minas abre caminho a Geraes, o disco seguinte. Os dois se completam.

“Voltar aos 17, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa.

Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em Clube da Esquina 2.

Elis, Chico, todos! Fechando um ciclo, anunciando novas belezas.

“Mas é preciso ter força

É preciso ter raça

É preciso ter gana sempre”.

Salve, Bituca!

Milton Nascimento tomou chá com Jeanne Moreau

Morreu Jeanne Moreau. Tinha 89 anos.

Conheci Moreau junto com Bardot. Assim. Em Viva Maria!. Numa inesquecível matinê do Cine Santo Antônio.

Mas quero lembrar dela assim. Em Jules e Jim.

Vou contar uma historinha.

Descobri, há muitos anos, que Milton Nascimento é louco por Truffaut. E por Moreau. Mais do que isso: fez sua primeira música depois de ver Jules e Jim.

Estive com Milton e, no lugar de falar sobre música, falei sobre Truffaut e Moreau.

Ele, então, contou que, certa vez, estava em Nova York e recebeu um convite misterioso de um amigo.

O amigo pegou Milton no hotel e o levou a um apartamento sem dizer quem os esperava.

Era um prédio antigo, com um velho elevador.

Quando tocaram a campainha, eis quem abre a porta:

Jeanne Moreau!

Bituca ficou tão em transe quanto no dia em que viu Jules e Jim pela primeira vez.

Seguiu-se uma tarde de chá e muita conversa.

Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.