Participante do The Voice Kids denuncia ofensas racistas

Domingo passado (08), Franciele Fernanda, uma garota de 14 anos, participou do The Voice Kids, programa da Rede Globo, cantando Maria Maria, de Milton Nascimento.

O número emocionou muita gente pela força da interpretação da menina.

Milton Nascimento usou as redes sociais para elogiar a performance: “você emocionou a todos nós”, disse o autor da canção.

Ao mesmo tempo, Franciele foi alvo de ofensas racistas: “essa neguinha não canta porra nenhuma”, alguém postou, comentando o desempenho dela no programa.

Nesta terça-feira (10), com a mãe ao lado, Franciele Fernanda foi à polícia prestar queixa contra quem a ofendeu.

Franciele fez o que deve ser feito. Racismo é crime! É uma prática abominável! E uma das muitas faces da intolerância que vemos crescer a cada dia!

David Bowie, no jazz, ficou parecido com Milton Nascimento

Hoje (10) faz um ano que o mundo da música foi surpreendido pela morte de David Bowie. Dois dias antes, Bowie tinha feito 69 anos e lançado Blackstar, um novo disco. Falou-se até em suicídio assistido. O artista tinha câncer no fígado, mas ninguém sabia que ele estava doente.

Em Blackstar, Bowie é acompanhado por músicos de jazz. Mas não é um disco jazzístico, como se disse inicialmente. Não! São músicos de jazz tocando Bowie!

Jazzística – aí, sim! – é Sue (Or In a Season of Crime), a faixa inédita da coletânea Nothing Has Changed, de 2014.

E com um dado muito curioso e atraente para nós, brasileiros. A melodia sinuosa da canção lembra muito Cais, de Milton Nascimento. E a sonoridade da gravação remete ao jazz e também a um certo experimentalismo que há em Milton.

Vamos, então, ouvir Bowie pensando em Milton? Não é plágio, não! Se não for coincidência, é Milton influenciando um gigante do pop como Bowie!

“Elis” estreia nos cinemas. Vamos reouvir os discos de Elis?

A estreia nacional de Elis será nesta quinta-feira (24). O filme conta a história de Elis Regina, a maior cantora do Brasil, interpretada pela atriz Andréia Horta (em foto de divulgação).

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Que tal reouvir os discos de Elis antes de ver o filme? Selecionei dez. É uma escolha pessoal.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.

Os políticos acabaram com o Rio de Janeiro de tantas canções!

Acredito que poucas cidades do mundo foram exaltadas em tantas canções quanto o Rio de Janeiro.

Do hino Cidade Maravilhosa ao samba Aquele Abraço. Da Valsa de uma Cidade ao Samba do Avião.

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Tom Jobim e Billy Blanco fizeram uma sinfonia para o Rio de Janeiro. Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, o Samba do Carioca. Braguinha, Copacabana. Caymmi, Sábado em Copacabana.

A lista não tem fim.

Penso nessas canções e em tantas mais agora que o Rio, por causa dos seus políticos, está mergulhado numa crise sem precedentes.

Também lembrei de outras que pareciam nos alertar sobre o futuro.

Nossa famosa garota não sabia a que ponto a cidade turvaria/esse Rio de Amor que se perdeu – cantou Vinícius na Carta ao Tom, que já tem mais de 40 anos.

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Flutua no ar um desprezo, desconsiderando a razão/que o homem não sabe se vai encontrar/um jeito de dar um jeito na situação – é Paulinho da Viola em Amor à Natureza. Também tem mais de 40 anos.

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São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande fogueira desvairada – é Chico Buarque em Estação Derradeira. Há quase 30 anos.

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E tem aquela oração que Gil e Milton gravaram no ano 2000:

Sebastian

Sebastião

Diante de tua imagem, tão castigada e tão bela

Penso na tua cidade

Peço que olhes por ela!

O melhor de Milton Nascimento está em sete discos

Hoje (26) cedo, escrevi sobre Milton Nascimento, aniversariante do dia. Falei um poucos dos melhores discos dele, aqueles gravados na velha Odeon entre 1970 e 1978. Seguem as capas, só para dar vontade de ouvir mais uma vez.

Milton (1970)

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Clube da Esquina (1972)

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Milagre dos Peixes (1973)

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Milagre dos Peixes ao Vivo (1974)

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Minas (1975)

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Geraes (1976)

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Clube da Esquina 2 (1978)

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Milton Nascimento, um mistério que não se desvenda por completo

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Recife, março de 1979. Teatro do Parque lotado. Milton Nascimento entra sozinho no palco, vestido de branco, e, acompanhando-se ao violão, canta “Volver a los 17”, de Violeta Parra, que gravara com Mercedes Sosa.

Em seguida, os músicos vão ocupando seus lugares. Wagner Tiso no piano, Robertinho Silva na bateria, Novelli no baixo, Hélio Delmiro na guitarra. Mais Beto Guedes e Flávio Venturini.

O show: “Clube da Esquina 2”. Histórico, antológico, inesquecível. “Canoa, canoa desce/no leito do Rio Araguaia desce” – a voz de Milton ecoa no teatro com os falsetes que encantaram o mundo. Lembranças da primeira vez em que o vi de perto.

Milton Nascimento entrara na nossa casa pelas mãos do meu pai, em 1967. No festival que o revelou com “Travessia”. “Solto a voz nas estradas…” – a voz mágica que vinha de Minas. Como um mistério que nunca desvendaríamos por completo. O rapaz nascido no Rio, adotado por um casal de mineiros, louco pelo François Truffaut de “Jules et Jim”. E pelos mesmos Beatles que vi correndo na quadra em “A Hard Day’s Night”.

Meus melhores contatos com a música de Milton Nascimento são dos anos 1970, o período em que gravou seus discos mais importantes. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978.

Já estava tudo ali, naqueles trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio. “Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. “Para Lennon e McCartney”, “Canto Latino”, “Pai Grande”. “A Felicidade”, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos. Depois, “Clube da Esquina”. Brancos e pretos. Lô e Milton. “Tudo o que Você Podia Ser”, “O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “San Vicente”.

E aí vem “Milagre dos Peixes”. Em estúdio, com as letras censuradas e a voz de Clementina de Jesus. Ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em “Bodas”. “E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

“Minas” e “Geraes” consolidam o artista extraordinário. “Fé Cega, Faca Amolada”, “Saudade dos Aviões da Panair”, “Ponta de Areia”. A voz metálica misturada ao coro infantil. “Mi” de Milton, “nas” de Nascimento. As sílabas iniciais formando “Minas”. Para abrir caminho a “Geraes”, o disco seguinte. “Voltar aos dezessete, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa. Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em “Clube da Esquina 2”. Elis, Chico, todos. Há muita beleza nos anos seguintes. Mas nem precisava. Bituca é o aniversariante desta quarta-feira (26).

Capas que inspiraram outras capas no mundo do disco

No mundo dos discos, capas inspiraram outras capas. Um deleite para os colecionadores.

Vejam Let it Be, dos Beatles, e Qualquer Coisa, de Caetano Veloso.

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Double Fantasy serviu de referência para Milk and Honey, do casal Lennon.

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Abbey Road, dos Beatles, motivou Paul McCartney a fazer Paul is Live.

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Saindo dos Beatles: Tutu, de Miles Davis, e Minas, de Milton Nascimento.

Aí, Milton inspirou Miles.

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A lua como inspiração, dos clássicos aos populares

A lua é cheia nesta quinta-feira (18). Uma leitora sugere uma lista de músicas que tenham a lua como inspiração. Essas escolhas são sempre incompletas e insatisfatórias. Mas faço uma, que amanhã já pode ser outra.

Começando pelos eruditos, há a Sonata ao Luar, de Beethoven, e Clair de Lune, de Debussy. A lua a inspirar um gênio absoluto, que passou pelo clássico e pelo romântico, e um impressionista.

No grande cancioneiro popular americano do século XX, é imediata a lembrança de Blue Moon e Fly Me To The Moon. A primeira, com Ella Fitzgerald. A segunda, com Frank Sinatra. Embora tenha recebido letra, é como tema instrumental que Moonlight Serenade foi imortalizada pela orquestra de Glenn Miller.

Nos Beatles, George Harrison fez Here Comes The Sun. Sozinho, compôs Here Comes The Moon. Paul McCartney fez C Moon. Os Rolling Stones, Moonlight Mile.

E na música popular do Brasil? A lista é extensa.

Desde o Catulo da Paixão Cearense de Luar do Sertão. Ou a Chiquinha Gonzaga de Lua Branca. Ou o Sílvio Caldas de Noite Cheia de Estrelas. “Lua, manda a tua luz prateada despertar a minha amada”.

O original é italiano, mas foi na voz de Celly Campello que Banho de Lua incorporou-se ao nosso cancioneiro, nos primórdios do rock nacional. E o “eu vou perguntar, se na lua há um broto legal pra me namorar”? É o jovem Roberto Carlos.

Caetano Veloso é logo lembrado por Lua de São Jorge. Mas ele também fez Lua, Lua, Lua, Lua. E Shy Moon. E Canto do Povo de um Lugar. “Quando a noite, a lua mansa, e a gente dança venerando a noite”.

E o Gilberto Gil de Lunik 9? A conquista espacial a ameaçar os poetas, os seresteiros, os sonhos dos namorados. “É chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”. Muito mais tarde, Gil diria que “a gente precisa ver o luar”.

Tem o nosso Cassiano, soul man, com A Lua e Eu. Tem o Milton Nascimento de A Lua Girou. O Chico Buarque de Mar e Lua. “Uma andava tonta, grávida de lua, e outra andava nua, ávida de mar”, verso de beleza infinita.

A lista já passa de 20 títulos. Está bom. Pelo menos para a lua cheia de hoje!

 

 

 

No Dia do Amigo, músicas sobre amigos e amizades

Hoje é o Dia do Amigo. Num tempo em que os amigos são cada vez menos presenciais e mais virtuais. E deixam de ser amigos movidos por cores partidárias, diferenças ideológicas, intolerância religiosa.

Mas o que desejo, aqui, é apenas lembrar de músicas que falam de amigos e amizades. São muitas. O cancioneiro do mundo está cheio delas.

Dos Beatles (“In My Life”) aos Rolling Stones (“Waiting on a Friend”), de James Taylor (“You’ve Got a Friend”) a Simon & Garfunkel (“Bridge Over Troubled Water”). De Milton Nascimento (“Canção da América”) ao MPB4 (“Amigo É Pra Essas Coisas”), de Roberto Carlos (“Amigo”) a Gilberto Gil (“Meu Amigo, Meu Herói”).

Os versos estão na nossa memória afetiva.

“Amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito”, do Milton cantado por Elis Regina.

“Meu amigo, meu herói, como dói saber que a ti também corrói a dor da solidão”, do Gil cantado por Zizi Possi.

E as imagens: como uma ponte sobre águas turvas que protege o amigo, na letra da canção de Paul Simon que ele gravou com Art Garfunkel.

Ou, simplesmente, a garantia: “você tem um amigo”. Com a doçura da autora (Carole King) ou a delicadeza do intérprete (James Taylor).

 

No Dia do Futebol, Gil e Dominguinhos em “Meio de Campo”

Não gosto de futebol. Costumo dizer que é um dos meus defeitos. Mas presto atenção naqueles craques que são verdadeiros “artistas” da bola. E presto mais atenção ainda na relação da música com o futebol.

Os hinos que Lamartine Babo compôs, a marcha do tri (que nem o ufanismo da Era Médici conseguiu tirar da nossa memória afetiva) e o que compuseram Jorge Ben, Chico Buarque, Milton Nascimento, Os Novos Baianos. Tantos e tantos mais.

Escolhi Gilberto Gil e sua “Meio de Campo”, com Dominguinhos à sanfona, para marcar o Dia Nacional do Futebol (18) aqui na coluna: