O Irlandês vai para a lista dos melhores filmes de Scorsese

É difícil ver O Irlandês sem pensar nas críticas de Martin Scorsese aos filmes da Marvel.

Vendo O Irlandês, é fácil entender porque Martin Scorsese disse que os filmes da Marvel não são cinema.

Mas não quero me prender a essa questão.

O Irlandês é um grande filme. Não vai esperar décadas para se transformar num clássico. Já nasce assim, como grande cinema.

Martin Scorsese precisou de três horas e meia para contar a história dos seus personagens. É o mais longo dos seus filmes de ficção. Tem o mesmo tempo dos documentários que fez sobre Bob Dylan (No Direction Home) e George Harrison (Living in the Material World).

Mas tempo não é problema. A narrativa flui tão naturalmente que o fato de ser extensa não representará um incômodo para o espectador.

Scorsese é um mestre do seu ofício. Faz cinema e pensa o cinema.

Os gângsters que ele mostrou quando era jovem em Caminhos Perigosos, ou quando era maduro em Os Bons Companheiros, agora são vistos na velhice por um homem igualmente velho.

Somente um homem velho (Scorsese já se aproxima dos 80) faria um filme assim. Ele aborda temas permanentes da vida – não necessariamente da vida de gângsters – com um olhar que só os velhos conseguem ter. E o faz com homens velhos em atuações absolutamente excepcionais: Robert De Niro, Joe Pesci e, sobretudo, Al Pacino, com quem nunca havia trabalhado.

Essa pode ser uma das chaves do filme. A reunião desses homens postos numa trama que mostra a passagem do tempo, em idas e vindas admiráveis como construção narrativa. E há o fato de que, muito provavelmente, nunca mais veremos Scorsese, De Niro, Pesci e Pacino juntos num mesmo filme.

O Irlandês trata do homem inserido no macro – a política, o poder, a corrupção – e mostra esse mesmo homem como indivíduo, com suas ambições, suas culpas, seus arrependimentos tardios. As duas coisas se misturam, se confundem na trama.

Hoffa – como o assassinato de Kennedy – é real. O Hoffa de Pacino mistura realidade com ficção.

O Irlandês dá a sensação de que, nele, há dois filmes.

O primeiro, mais ágil, lembra outros filmes de Scorsese.

O segundo, o do desfecho, é contemplativo.

Na terceira parte de O Poderoso Chefão, o epílogo reservado ao mafioso Michael Corleone é trágico, mas é rápido.

Em O Irlandês, a velhice do personagem de Robert De Niro é melancólica e se arrasta numa incômoda lentidão.

O Irlandês vai direto para a lista dos melhores filmes realizados por Martin Scorsese.

Coringa traz homenagens explícitas a Martin Scorsese

Martin Scorsese é várias vezes homenageado em Coringa, esse filme de Todd Phillips que tem provocado tanto debate desde que entrou em cartaz, depois de conquistar o Leão de Ouro no Festival de Veneza.

A construção do personagem remete ao Robert De Niro de Taxi Driver. Joaquin Phoenix dançando diante do espelho é puro Taxi Driver, grandiosíssimo filme de Scorsese. E é uma grande sequência de Coringa.

Robert De Niro, talvez o ator predileto de Scorsese, está no elenco. Ele faz o papel de Murray Franklin. Murray e seu talk show que Arthur Fleck, o futuro Coringa, vê em casa, sonhando com o dia em que será convidado para uma entrevista.

A relação de Arthur Fleck com Murray Franklin remete a O Rei da Comédia, um dos filmes notáveis de Martin Scorsese. Em O Rei da Comédia, o jovem De Niro é o Phoenix de hoje. O cara que comanda o talk show é ninguém menos do que Jerry Lewis, àquela altura, já uma lenda do cinema.

Alguém disse que Coringa é um filme de época. E é. Vemos na logo da Warner e nos letreiros de apresentação. Ele remete aos filmes americanos da década de 1970, constatamos o tempo todo. Nesse particular, o uso das cores é um dos trunfos de Coringa.

O melhor do filme de Todd Phillips – como todos têm observado – é Joaquin Phoenix. Ele conduz a narrativa em extraordinária atuação, digna de Oscar. Como se o Coringa de Phoenix conseguisse ser melhor do que o Coringa de Phillips.

That’s Life, essa memorável canção de Frank Sinatra, marca fortemente o filme e fala do personagem. Parece feita para ele.

Há ainda a discussão política que Coringa provoca. Pertinente, mas, talvez, com os excessos e equívocos próprios do tempo em que vivemos.

Ao mexer no universo das histórias em quadrinhos, conferindo uma outra perspectiva a um dos seus maiores vilões, Coringa, de fato, é um filme original.

Filmes da Marvel são desprezíveis. Foi Francis Ford Coppola que disse

Filmes da Marvel não são cinema

Scorsese

 

Filmes da Marvel são desprezíveis

Coppola

Não conheço os filmes da Marvel.

Não dedico meu tempo a eles.

O universo da Marvel não me interessa.

Isso me desautoriza a falar sobre esses filmes? Sim.

Mas não me impede de ter uma desconfiança.

Na minha infância, o lixo do cinema eram aqueles filmes épicos feitos na Itália.

Eu era menino, mas já entendia que aquilo não valia nada.

Maciste no Inferno. Ursus, Prisioneiro do Satanás.

Depois vieram os westerns italianos, hoje cultuados por muita gente.

Ringo, Gringo, Sabata.

Na época, eram lixo tanto quanto os épicos que os antecederam.

OK, havia Leone, mas era um horror aquela invasão semanal da programação dos cinemas pelos westerns que os italianos realizavam.

Mais tarde, foi a vez dos filmes de lutas marciais. Igualmente, lixo.

Aqui em João Pessoa, o Cine Rex era o lançador oficial desses filmes, exibidos depois em continuação nos cinemas de bairro.

Antes de tudo isso, houvera os dramalhões da Pelmex.

Pois bem, chegando ao tempo presente, vou resumir assim:

Desconfio – apenas desconfio! – que os filmes da Marvel são o lixo do cinema de hoje.

Filmes realizados com recursos tecnológicos que não existiam décadas atrás e perfeitamente adequados aos ambientes em que são consumidos pelo público atual.

Mas, como tantos outros modismos da indústria do cinema, lixo.

Lixo cinematográfico.

*****

Dias atrás, Martin Scorsese fez duras críticas aos filmes da Marvel.

Ele disse:

“Eu não vejo. Eu tentei, sabe? Mas aquilo não é cinema. Honestamente, o mais próximo que consigo pensar deles, por mais bem feitos que sejam, com os atores fazendo o melhor que podem sob as circunstâncias, são os parques temáticos”.

E disse mais:

“Não é o cinema de seres humanos tentando transmitir experiências emocionais e psicológicas a outro ser humano”.

Depois de Scorsese, agora é a vez de Francis Ford Coppola.

Ao receber, em Lyon, o Prêmio Lumière, Coppola afirmou:

“Quando Martin Scorsese diz que os filmes da Marvel não são cinema, ele está certo, porque esperamos aprender algo com o cinema, esperamos ganhar algo, alguma iluminação, conhecimento e inspiração. Não sei se alguém tira algo disso vendo o mesmo filme várias vezes”.

E prosseguiu:

“Martin foi gentil quando disse que não é cinema. Ele não disse que é desprezível, o que eu apenas digo que é “.

Scorsese é o cara de Taxi Driver e Touro Indomável.

Coppola é o homem de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now.

Os dois realizaram alguns dos maiores filmes do mundo.

Só não digam que eles não fazem cinema.

Nem que seus filmes são desprezíveis.

Fãs da Marvel fazem comentários hilários sobre Martin Scorsese

Martin Scorsese disse que os filmes da Marvel não são cinema.

Postei a opinião dele aqui na coluna no sábado passado.

Li muitos comentários nas redes sociais. Recebi outros no privado.

Scorsese está equivocado?

Falou bobagem?

Sinceramente, não sei.

Esse universo da Marvel – defeito meu – não me interessa.

Mas Scorsese me interessa. E muito. Desde que vi Caminhos Perigosos, lá no começo dos anos 1970.

A crítica dele é legítima. E necessária por vir dele. Scorsese merece respeito. Muito respeito.

Sobre os comentários que li nas redes sociais, alguns eram hilários.

Um deles era mais ou menos assim: um americano, branco, rico e conservador querendo dizer pra gente o que é cinema.

A um amigo, que gosta de Scorsese e dos filmes da Marvel, perguntei: e aí?

E ele respondeu: “Juntos, todos os filmes da Marvel não valem um Taxi Driver!”.

Sigo, então, com algo que escrevi sobre Marty, esse gigante do cinema contemporâneo:

Martin Scorsese não é somente um diretor de filmes. É um homem que pensa o cinema. Também não está circunscrito à produção dos Estados Unidos, o país onde nasceu. A sua origem italiana o levou logo cedo a ver e amar a cinematografia de outros povos.

Além de realizador, é um cinéfilo dividido entre os grandes filmes americanos e os não americanos. Uma paixão não exclui a outra. Seu coração e sua mente têm lugar para os dois amores. Eles enriquecem o seu trabalho, o influenciam, fornecem elementos que vamos identificar nos filmes que realizou. Características que fazem de Scorsese um diretor de cinema diferente dos outros. Talvez o único assim entre todos os seus contemporâneos.

Um pé na América, outro fora dela. Duas viagens transformadas em documentários traduzem o que estou dizendo. Um, sobre o cinema americano. O outro, sobre o italiano. O mesmo artista a contemplar dois países e dois modos distintos de realizar filmes. As diferenças o interessam, vão acabar direcionadas ao que ele faz.

Na prática, aliás, Scorsese é um diretor dividido entre duas linguagens: a da ficção e a do documentário – mais uma das suas marcas de originalidade. O melhor é que domina muito bem as duas formas de expressão cinematográfica. Embora famoso pelos filmes de ficção, nos documentários está livre da pressão dos estúdios. E esta liberdade o conduz a resultados de fato excepcionais.

O amor de Scorsese pela música está presente em seu cinema. Não apenas em documentários como O Último Concerto de Rock ou Shine a Light, No Direction Home ou Living in the Material World. Seus filmes de ficção têm sequências concebidas a partir da música. O compasso define o ritmo da montagem.

As cenas de luta de Touro Indomável tomam como parâmetro os critérios de edição que adotou em O Último Concerto de Rock. O uso de trilhas preexistentes serve como comentários sobre uma determinada cena ou complementa a fala de um personagem. Martin Scorsese cresceu entre o cinema e a música. Aprendeu a amar os dois. E escolheu um para que fosse seu ofício.

Tudo isto está em Conversas com Scorsese, de Richard Schickel. Schickel e Scorsese conversam sobre a infância pobre em Nova York e a formação do cineasta, cada um dos seus filmes e temas ligados à sua produção. Falam da família, das obsessões, da fé, da passagem do tempo, da morte. Vida e arte se confundem, se misturam numa leitura para cinéfilos.

O livro confirmou muito do que eu já sabia de Marty. Robusteceu as razões da minha admiração por ele. E me surpreendeu: o tornou mais homem, menos mito. Como se ele não fosse Martin Scorsese, mas um cara com quem a gente senta para conversar sobre cinema. E acompanha sua luta para fazer o próximo filme.

Fecho com seis sugestões. Para ver o cinema de Martin Scorsese.

CAMINHOS PERIGOSOS

TAXI DRIVER

TOURO INDOMÁVEL

OS BONS COMPANHEIROS

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET

O ÚLTIMO CONCERTO DE ROCK

Filmes da Marvel não são cinema. Quem disse foi Martin Scorsese

Li na Folha de S. Paulo e achei muito interessante.

O cineasta Martin Scorsese disse que os filmes da Marvel não são cinema.

Está aí o que ele disse:

“Eu não vejo. Eu tentei, sabe? Mas aquilo não é cinema. Honestamente, o mais próximo que consigo pensar deles, por mais bem feitos que sejam, com os atores fazendo o melhor que podem sob as circunstâncias, são os parques temáticos”.

Disse mais:

“Não é o cinema de seres humanos tentando transmitir experiências emocionais e psicológicas a outro ser humano”.

Martin Scorsese é um dos maiores cineastas do mundo. E é um homem que pensa o cinema.

Martin Scorsese volta a Bob Dylan num belo documentário fake

O fio condutor era simplesmente verdade e beleza

Bob Dylan, sobre a turnê Rolling Thunder

Martin Scorsese é homem do cinema e da música. Ele estava na equipe de Woodstock e na de Elvis on Tour. Ele próprio dirigiu The Last Waltz, ainda nos anos 1970. Foi quando registrou o Bob Dylan que cantava Forever Young no concerto de despedida do grupo The Band.

No início dos anos 2000, Scorsese tirou seu primeiro (e extenso) retrato de Dylan, o documentário No Direction Home. Tão longo (quatro horas) quanto irresistível. O músico visto nos primeiros anos de carreira, entre o instante em que conquista dimensão nacional e o momento em que rompe com o folk e adota o elétrico. Um recorte que parece percorrer todo o Dylan, posto que toca nas questões cruciais do artista.

Agora, Martin Scorsese está de volta a Bob Dylan. Seu novo filme, Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan Story, chegou ao público através da Netflix.

Vejam o título. É story, não é history. Ou: mentiras que se sobrepõem a verdades. Ou: pode parecer, mas nem tudo é verdade. Rolling Thunder Revue é um documentário? Rolling Thunder Revue (como Zelig, de Woody Allen) tem feição, mas não é um documentário? Rolling Thunder Revue é fake? Nada disso. Ou tudo isso. Rolling Thunder Revue é uma grande e alucinante experiência de cinema e música!

O filme começa com Richard Nixon e termina com Jimmy Carter. A América do Watergate e a América dos direitos humanos. Dois lados da América ali em torno dos 200 anos da independência. Dylan, entre um e outro, sai em turnê num ônibus. Ele e um bando de músicos, encontrando outros artistas nas cidades por onde passam. Pequenas plateias, apesar do tamanho de Dylan. Um show que remete a circos e ciganos.

Assim foi a Rolling Thunder. O Dylan de hoje, registrado por Scorsese, não lembra direito. Ou finge que não lembra, não dá importância. Inventa histórias. Conta mentiras, provavelmente. Faz insinuações, fala mal de Joan Baez, que fora sua musa e está com ele no palco.

Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan Story foi construído a partir de riquíssimo material de arquivo. Os registros feitos para um filme que nunca existiu. Registros incríveis de bastidores e palcos. Bob Dylan (inspirado no Kiss!) com o rosto todo pintado, cantando como nunca cantou. Nem voltaria a cantar. E tem, incorporado à turnê, o poeta Allen Ginsberg, símbolo da contracultura, que conduz uma parte da narrativa. E, ainda, o violino mimético (assim definido na época) de Scarlet Rivera.

O filme de Scorsese é meio louco. Fala de música, claro. Dialoga com o cinema, também. É um road movie. Parece um daqueles documentários dos anos 1970 (Mad Dogs and Englishman), mas não é. Comenta o hoje revendo o ontem. Encanta olhos e ouvidos. Ao menos dos que seguem Dylan de perto.

Bob Dylan tinha 30 e poucos anos na época da turnê Rolling Thunder. Tem 78 agora, quando Rolling Thunder Revue chega ao público via Netflix. O bardo continua buscando o que nunca encontrará. No final, sobre um fundo vermelho, Martin Scorsese passa rapidamente por todas (todas mesmo!) as turnês que o artista fez desde então. Ao mostrar datas e locais, ano a ano,o filme se aproxima fortemente do espectador que já teve a experiência de ver Dylan ao vivo.

Eu estou lá: São Paulo, pista de atletismo do Ibirapuera, 13 de abril de 1998.

Filme sobre George Harrison é aula de cinema documental

Living in the Material World, de Martin Scorsese, é um documentário com duração de três horas e meia. Conta a história de um homem rico que se voltou para as coisas do espírito. E viveu dividido entre o mundo material e a crença que as religiões oferecem de que o melhor é o que vem depois da morte. Morreu antes dos 60 anos, consumido pelo câncer, e deixou a fortuna para a família (mulher e filho) e os irmãos de fé. O personagem retratado por Scorsese não é um anônimo. É o beatle George Harrison.

Há muitas histórias neste longo filme. Uma delas, a dos Beatles. O documentário Anthology não a esgotou. Scorsese usa Harrison para contá-la através da sua sensibilidade. E consegue mostrar o que ainda não havíamos visto. A exemplo da sequência em que Astrid diz que fotografou John Lennon e George Harrison no lugar em que Stu trabalhava. Stu, morto prematuramente, fora integrante da primeira formação dos Beatles e namorado de Astrid. Duas ou três fotos desconhecidas ilustram a fala. John está devastado. George segura a barra dele. A alemã, que vimos bela e jovem, é uma senhora de 70 anos cujo envelhecimento não acompanhamos. Scorsese nos reencontra com ela.

No começo, vemos George no jardim. Ele está indo embora. Como se estivesse morrendo. Depois, algumas pessoas falam da ausência dele. Do que diriam se o reencontrassem. A narrativa volta para a década de 1940, quando nasceu. A guerra, a vitória dos aliados. A canção que ouvimos garante: tudo passa. All Things Must Pass. Scorsese vai contando várias histórias. A do garoto pobre que conquistou a fama através do talento. A do jovem astro que mergulhou fundo no misticismo. A do músico preterido pelos companheiros de banda, mais talentosos do que ele. A do homem que viu o melhor amigo levar sua mulher. Canções e imagens de uma época ilustram cada uma das histórias.

O documentário mostra George Harrison vivendo no mundo material, o título nos assegura. Dividido entre a escolha religiosa e a fortuna que fez com sua guitarra e suas canções. Entre o senso de humor e a amargura. Mundano e cheio de luz. Assim os amigos o definem. Assim Martin Scorsese o revela neste retrato que poucos cineastas tirariam com tanta propriedade e delicadeza. Era preciso que um realizador como Scorsese se dispusesse a transformar George em personagem de um filme. Porque o seu cinema, desde o início, está repleto de música. Ele trabalha com as duas formas de expressão artística, o cinema e a música, do mesmo modo que é tão talentoso na ficção quanto no documentário.

A morte é um dos temas principais do filme. Está no prólogo e no epílogo. Na abertura, o filho, Dhani, conta que sonhou com o pai. Perguntou onde ele estivera e ouviu a resposta: nunca saíra de perto. No final, os mais chegados dizem do que sentem falta. Da amizade, do amor. E não parecem bem resolvidos com a ausência física. Ao contrário de George, que, guiado pela religião, lidava melhor com a ideia da morte. O campeão Jackie Stewart perdeu colegas em acidentes nas pistas, mas não conhecia um luto tão severo. Ringo Starr chora ao narrar o último encontro com o amigo. Se acreditarmos na conversão de George, assistiremos ao filme convencidos de que ele não comporta lágrimas.

Martin Scorsese é homem que pensa o cinema e realiza filmes

Martin Scorsese não é somente um diretor de filmes. É um homem que pensa o cinema. Também não está circunscrito à produção dos Estados Unidos, o país onde nasceu. A sua origem italiana o levou logo cedo a ver e amar a cinematografia de outros povos.

Além de realizador, é um cinéfilo dividido entre os grandes filmes americanos e os não americanos. Uma paixão não exclui a outra. Seu coração e sua mente têm lugar para os dois amores. Eles enriquecem o seu trabalho, o influenciam, fornecem elementos que vamos identificar nos filmes que realizou. Características que fazem de Scorsese um diretor de cinema diferente dos outros. Talvez o único assim entre todos os seus contemporâneos.

Um pé na América, outro fora dela. Duas viagens transformadas em documentários traduzem o que estou dizendo. Um, sobre o cinema americano. O outro, sobre o italiano. O mesmo artista a contemplar dois países e dois modos distintos de realizar filmes. As diferenças o interessam, vão acabar direcionadas ao que ele faz.

Na prática, aliás, Scorsese é um diretor dividido entre duas linguagens: a da ficção e a do documentário – mais uma das suas marcas de originalidade. O melhor é que domina muito bem as duas formas de expressão cinematográfica. Embora famoso pelos filmes de ficção, nos documentários está livre da pressão dos estúdios. E esta liberdade o conduz a resultados de fato excepcionais.

O amor de Scorsese pela música está presente em seu cinema. Não apenas em documentários como O Último Concerto de Rock ou Shine a Light, No Direction Home ou Living in the Material World. Seus filmes de ficção têm sequências concebidas a partir da música. O compasso define o ritmo da montagem.

As cenas de luta de Touro Indomável tomam como parâmetro os critérios de edição que adotou em O Último Concerto de Rock. O uso de trilhas preexistentes serve como comentários sobre uma determinada cena ou complementa a fala de um personagem. Martin Scorsese cresceu entre o cinema e a música. Aprendeu a amar os dois. E escolheu um para que fosse seu ofício.

Tudo isto está em Conversas com Scorsese, de Richard Schickel. Schickel e Scorsese conversam sobre a infância pobre em Nova York e a formação do cineasta, cada um dos seus filmes e temas ligados à sua produção. Falam da família, das obsessões, da fé, da passagem do tempo, da morte. Vida e arte se confundem, se misturam numa leitura para cinéfilos.

O livro, que andei relendo, confirmou muito do que eu já sabia de Marty. Robusteceu as razões da minha admiração por ele. E me surpreendeu: o tornou mais homem, menos mito. Como se ele não fosse Martin Scorsese, mas um cara com quem a gente senta para conversar sobre cinema. E acompanha sua luta para fazer o próximo filme.

O que De Niro tem com Scorsese é um casamento perfeito

O ator Robert De Niro faz 75 anos nesta sexta-feira (17).

É um gigante numa geração de gigantes.

Um grande ator que atuou em grandes filmes.

Tem o jovem De Niro regido por Francis Ford Coppola na segunda parte de O Poderoso Chefão. Ou por Sergio Leone em Era uma Vez na América. Ou por Brian de Palma em Os Intocáveis.

Mas, quando penso nele, o que vem em primeiro lugar é o resultado do seu encontro com Martin Scorsese. Está na lista dos “casamentos” mais notáveis do cinema. Como o de John Wayne com John Ford. Ou (mais breve, mas muito marcante) o de James Stewart com Alfred Hitchcock.

Na América “fotografada” por Scorsese, De Niro tem lugar de destaque.

Vamos a eles? Escolhi cinco filmes.

CAMINHOS PERIGOSOS

TAXI DRIVER

TOURO INDOMÁVEL

CABO DO MEDO

OS BONS COMPANHEIROS

Scorsese e o beatle George num filme que fala de música e morte

Volto a Martin Scorsese, que faz 75 anos nesta sexta-feira (17).

Agora, num texto sobre o documentário Living in the Material World, no qual o cineasta se debruça sobre a vida do beatle George Harrison.

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MARTY TRATA DA MORTE EM FILME SOBRE O BEATLE GEORGE

Para Thelma Ramalho

Living in the Material World, de Martin Scorsese, é um documentário com duração de três horas e meia. Conta a história de um homem rico que se voltou para as coisas do espírito. E viveu dividido entre o mundo material e a crença que as religiões oferecem de que o melhor é o que vem depois da morte. Morreu antes dos 60 anos, consumido pelo câncer, e deixou a fortuna para a família (mulher e filho) e os irmãos de fé. O personagem retratado por Scorsese não é um anônimo. É o beatle George Harrison.

Há muitas histórias neste longo filme. Uma delas, a dos Beatles. O documentário Anthology não a esgotou. Scorsese usa Harrison para contá-la através da sua sensibilidade. E consegue mostrar o que ainda não havíamos visto. A exemplo da sequência em que Astrid diz que fotografou John Lennon e George Harrison no lugar em que Stu trabalhava. Stu, morto prematuramente, fora integrante da primeira formação dos Beatles e namorado de Astrid. Duas ou três fotos desconhecidas ilustram a fala. John está devastado. George segura a barra dele. A alemã, que vimos bela e jovem, é uma senhora de 70 anos cujo envelhecimento não acompanhamos. Scorsese nos reencontra com ela.

No começo, vemos George no jardim. Ele está indo embora. Como se estivesse morrendo. Depois, algumas pessoas falam da ausência dele. Do que diriam se o reencontrassem. A narrativa volta para a década de 1940, quando nasceu. A guerra, a vitória dos aliados. A canção que ouvimos garante: tudo passa. All Things Must Pass. Scorsese vai contando várias histórias. A do garoto pobre que conquistou a fama através do talento. A do jovem astro que mergulhou fundo no misticismo. A do músico preterido pelos companheiros de banda, mais talentosos do que ele. A do homem que viu o melhor amigo levar sua mulher. Canções e imagens de uma época ilustram cada uma das histórias.

O documentário mostra George Harrison vivendo no mundo material, o título nos assegura. Dividido entre a escolha religiosa e a fortuna que fez com sua guitarra e suas canções. Entre o senso de humor e a amargura. Mundano e cheio de luz. Assim os amigos o definem. Assim Martin Scorsese o revela neste retrato que poucos cineastas tirariam com tanta propriedade e delicadeza. Era preciso que um realizador como Scorsese se dispusesse a transformar George em personagem de um filme. Porque o seu cinema, desde o início, está repleto de música. Ele trabalha com as duas formas de expressão artística, o cinema e a música, do mesmo modo que é tão talentoso na ficção quanto no documentário.

A morte é um dos temas principais do filme. Está no prólogo e no epílogo. Na abertura, o filho, Dhani, conta que sonhou com o pai. Perguntou onde ele estivera e ouviu a resposta: nunca saíra de perto. No final, os mais chegados dizem do que sentem falta. Da amizade, do amor. E não parecem bem resolvidos com a ausência física. Ao contrário de George, que, guiado pela religião, lidava melhor com a ideia da morte. O campeão Jackie Stewart perdeu colegas em acidentes nas pistas, mas não conhecia um luto tão severo. Ringo Starr chora ao narrar o último encontro com o amigo. Se acreditarmos na conversão de George, assistiremos ao filme convencidos de que ele não comporta lágrimas.