Imbecis da direita atacam Uip por foto dele com Lula e Dilma

A ultradireita que aplaude o presidente Jair Bolsonaro está usando as redes sociais para postar foto do médico David Uip ao lado de Dilma, Lula e Marisa Letícia.

O infectologista David Uip, agora coordenando o combate à pandemia do novo coronavírus em São Paulo, é um grande médico brasileiro.

A ultradireita não tem limites em sua canalhice.

A foto é do casamento do cardiologista Roberto Kalil, outro dos nossos grandes médicos.

Lula e Dilma, que tiveram câncer, foram atendidos por David Uip.

São imbecis – isso mesmo! imbecis! – os que lançam mão desse tipo de expediente para detratar as pessoas.

Collor, Zélia, Lula, Chico Mendes e Paul McCartney no Maracanã

15 de março de 1990.

Posse de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo povo desde Jânio Quadros.

16 de março de 1990.

Anúncio do Plano Collor, que incluía o traumático confisco da poupança dos brasileiros.

Lá se vão exatos 30 anos nesta segunda-feira 16 de março de 2020.

21 de abril de 1990.

Paul McCartney fazia o último dos seus dois shows no Rio de Janeiro, em sua primeira vez no Brasil.

Havia 180 mil pessoas no Maracanã, número que foi parar no Guinness Book.

Especulava-se que o presidente Collor iria. Não foi.

Quem estava lá era a ministra Zélia Cardoso de Mello, da Fazenda, vaiada ao chegar à tribuna de honra do estádio.

McCartney havia gravado, no seu disco mais recente, uma canção dedicada a Chico Mendes, líder dos seringueiros e ambientalista brasileiro assassinado em dezembro de 1988.

How Many People não estava no set list do Maracanã, mas, no meio do show, McCartney falava um pouco sobre o seu compromisso com a defesa dos animais e do meio ambiente.

A fala terminava com um brado do músico: Chico Mendes!

A plateia reagiu cantando:

Olê, olê, olê, olá! Lula! Lula!

Lula, quatro meses antes, fora derrotado na disputa eleitoral por Collor.

Em 1990, ele ainda não tinha a dimensão internacional que conquistaria depois, e McCartney, muito provavelmente, não entendeu o que a multidão cantava.

Pode ter parecido apenas um desses “gritos de guerra” entoados nos estádios de futebol.

Para mim, foi um sinal claro de que o confisco da poupança já levara parte da popularidade do presidente empossado há pouco mais de um mês.

30 anos se passaram, e cá estamos nós às voltas com mais um impasse brasileiro.

Lula pode falar mal da Globo, mas precisar dizer a verdade

Li na Folha de S. Paulo que o ex-presidente Lula mencionou o nazismo ao comentar o tratamento jornalístico que a Globo deu às mensagens da Lava Jato obtidas pelo site The Intercept Brasil.

“O que a Globo está fazendo com o Intercept, era capaz que o nazismo não fizesse”, disse Lula.

Disse mais, referindo-se à denúncia contra o jornalista Glenn Greenwald:

“A Globo não fez sequer matéria contra a fajutice da denúncia do Ministério Público. Então, isso é censura. ”

A reportagem registra também que Lula considera corretas algumas críticas feitas à Globo pelo presidente Bolsonaro.

O ex-presidente afirmou:

“Acho que tem crítica que ele faz que é correta. Dê a ele o mesmo direito que dá aos outros, direito de falar, abra para ele falar”.

Minhas impressões:

Sobre a Globo

Lula falar mal da Globo? Claro que pode. É legítimo. Só que é preciso dizer a verdade.

Vou citar um detalhe porque os detalhes falam das coisas grandes.

A Globo deu, sim, espaço à denúncia do Ministério Público contra Glenn Greenwald.

Deu longa matéria no Jornal Nacional e chamou o assunto em manchete na escalada.

Digo porque vi. Lula não deve ter visto. Ou acreditou no que alguém disse a ele.

Sobre Bolsonaro

Lula, com a dimensão política que tem, não deveria defender Bolsonaro, sobretudo no que diz respeito à relação do presidente com a imprensa.

Bolsonaro agride e ameaça jornalistas e veículos de comunicação.

Tem, nesse particular, uma postura inaceitável e indefensável num país em que a liberdade de imprensa é assegurada pela Constituição.

Lula não pode, nem remotamente, dizer coisas que o aproximem de Bolsonaro.

Não é justo com a sua passagem pela Presidência da República.

Nem com a sua história.

Bolsonaro e Lula e Bush. Quem muito se abaixa, o fundo aparece

Vi Lula contar essa história numa entrevista, pouco antes da sua prisão, e achei muito interessante.

O presidente brasileiro participava de um desses encontros de chefes de Estado.

Lula estava numa mesa com o chanceler Celso Amorim e Kofi Annan, que era secretário geral da ONU.

De repente, houve uma grande movimentação no local.

Claro! Era Bush, o presidente americano, que estava chegando.

Celso Amorim ficou todo empolgado e propôs a Lula:

Vamos lá cumprimentá-lo!

Ao que Lula respondeu:

Calma, Celso! Ele está chegando e vai cumprimentar todos, do mesmo jeito que eu fiz. Não é porque ele é presidente dos Estados Unidos que será diferente. 

Dito e feito. Bush foi de mesa em mesa cumprimentar os chefes de Estado.

E sabem onde ele sentou? Na mesa de Lula.

Menos por Lula, a quem Bush ainda não conhecia, mais por Kofi Annan, pelo cargo que este ocupava na Organização das Nações Unidas.

Nos oito anos em que foi presidente, com Celso Amorim à frente do Ministério das Relações Exteriores, Lula foi respeitado internacionalmente pelo seu carisma, pelo seu talento político, pela política externa adotada pelo governo brasileiro.

Com Bush, a despeito das posturas ideologicamente muito distintas, soube construir uma relação que acabou ultrapassando os limites formais que há entre os presidentes de duas nações amigas.

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Lula, Bolsonaro, Bush, Nova York, Dallas, Brasil/Estados Unidos.

Nos últimos dias, tenho pensado em algo que o povo diz em sua sabedoria, com maior ou menor sutileza.

Aqui na coluna, vai ficar assim:

Quem muito se abaixa, o fundo aparece!

“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?”

Ou então cada paisano e cada capataz
Com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades
Caatingas e nos gerais

Caetano Veloso – Podres Poderes

Recebo em casa três estudantes de jornalismo.

Duas garotas e um garoto na faixa dos 20 anos.

Vieram conversar sobre Archidy Picado (o pai), avô de uma das meninas. Será personagem de um trabalho acadêmico.

Gosto imensamente dessas conversas. Põem a gente em contato com a garotada, revelam um pouco do que pensam os jovens que estão na universidade, os profissionais de amanhã.

Perguntam sobre Archidy.

Respondo sobre Archidy, com quem convivi muito de perto.

Mas amplio a conversa. Acabo usando o personagem para falar do tempo em que ele viveu e tento puxar o papo para os dias atuais.

Archidy era um intelectual de direita.

Isso parece surpreender as meninas e o menino que me entrevistam.

É bom que surpreenda. É positivo. Traz para o presente a história de um homem que morreu há mais de 30 anos.

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O encontro foi longo.

Passou por Bolsonaro, por Lula.

Passou por Caetano, por Glauber (uma das meninas disse que viu Terra em Transe e Deus e o Diabo na Terra do Sol).

Numa conversa assim, misturo otimismo com pessimismo.

O pessimismo dos 60 anos que completo em junho com o otimismo de jovens que falam em resistência.

Que resistência?

Como será esse resistência?

De algum modo, Lula falou sobre ela na entrevista a Florestan Fernandes e Mônica Bergamo.

Mas Lula falou também de como fazem falta ao Brasil homens como Dr. Ulysses, Brizola e Arraes. De como o nosso parlamento empobreceu. No fundo, falou sobre como é difícil reorganizar o campo democrático – ou progressista, como queiram.

As opiniões de Lula, a despeito dos erros que possa ter cometido, nos fazem, com alguma nostalgia, pensar na política. Não nessa velha política que agora chamam de nova. Mas na política como uma atividade da qual o homem não pode prescindir.

*****

Como as garotas e o garoto que vieram à minha casa se veem nesse cenário?

Que perspectivas profissionais terão daqui a alguns anos?

Que país os espera depois desse furacão de extrema direita que atinge o Brasil?

Essas conversas, a um só tempo, me alegram e me entristecem.

Jovens estudantes passam por mim, vão embora com seus sonhos, e eu fico me perguntando:

Quem, afinal, nos salvará dessas trevas em que fomos atirados?

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“Que tragédia é essa que cai sobre todos nós?” é um verso de Promessas do Sol, canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Está no álbum Geraes, de 1976.

Avôs e avós, netos e netas. A propósito de Lula e Arthur

Meu avô paterno se chamava Onaldo.

Minha avó paterna se chamava Isaura.

Meu avó materno se chamava José Osias.

Minha avó materna se chamava Stella.

Meu avô Onaldo era militar. Lutou em 32 pelas forças getulistas e levou um tiro na nuca. Sobreviveu e foi reformado. Militou na UDN, foi gráfico em A União, fez poesia, escreveu dois livros, era espírita. Com ele, ouvi Orlando Silva & Pixinguinha & Luiz Gonzaga. No Natal de 1967, me deu de presente o disco com as músicas do festival de Alegria Alegria e Domingo no Parque.

Minha avó Isaura era uma mulher melancólica. Parecia estar sempre triste. Uma foto que guardo cuidadosamente revela que fora muito bonita na juventude. Foi quem me mostrou Quem Sabe, de Carlos Gomes, dizendo o quanto aquela música era bonita. Ficou para sempre associada a ela. Morreu quando eu tinha quinze anos. Foi meu primeiro contato muito próximo com a morte.

Meu avô Osias dizia que era nobre. Pertencia à família do Barão de Lucena. O barão faliu e ficou conhecido como “barão do nada tem”. Meu avô veio de Olinda, conheceu minha avó no carnaval de 1920, em Bananeiras. Foi ele que me ensinou a andar de bicicleta e a jogar xadrez. Dizem que era durão, mas conheci seu lado terno. Lia compulsivamente e adorava As Mil e Uma Noites. Não gostava de música.

Minha avó Stella tinha liderança na paróquia do bairro. Comandava as Mães Cristãs. Era irresistivelmente eloquente. Conquistava pela fala. Juntos, ouvimos muita música, os clássicos e os populares, os antigos e os novos. Foi ela que me levou para ver A Noviça Rebelde na estreia. Na velhice, descobriu a música de Egberto Gismonti. Ficaram amigos – uma experiência humana riquíssima da qual fui testemunha.

Avôs e avós.

Figuras especialíssimas na vida da gente.

Um amor diferente do amor de pai e mãe, mas de uma força incomum.

Netos e netas.

Também muito especiais na vida dos avôs e avós.

Amores essenciais na travessia dos verdadeiros homens humanos.

FHC seria justo com a história de FHC se apoiasse Haddad

Fernando Henrique Cardoso com Lula. Os dois juntos, panfletando.

A velha foto fala sobre o papel que eles desempenharam na construção da democracia brasileira.

As paixões partidárias tentam negar, mas eles desempenharam, sim. Assim como seus partidos, o PSDB e o PT.

Pena que a cegueira de um lado impeça a visão do que há no outro lado. A política feita como se religião fosse impede.

O PT demonizou Fernando Henrique.

O PT errou ao demonizar Fernando Henrique.

Fernando Henrique é um democrata, um pensador do Brasil. Com os erros e os acertos dos homens que fazem política. Orgulho-me de ter votado nos dois. No Fernando Henrique de 1994. No Lula de 2002.

Li com grande interesse a entrevista de Fernando Henrique Cardoso no último final de semana.

Tem as razões dele. As críticas dele. As suas resistências ao PT que hoje disputa o segundo turno da eleição presidencial. Devemos ouvi-lo.

Há uma porta que pode levar Fernando Haddad a Fernando Henrique. Está dito pelo ex-presidente.

O bom era que fosse uma porta que não se abrisse só na hora em que um precisa do apoio eleitoral do outro.

O ideal era que fosse uma porta permanentemente aberta para o fortalecimento da democracia brasileira.

Muitos esperam gestos dos dois nesse momento tão grave da vida nacional.

Não sei o que acontecerá, mas continuo pensando que Fernando Henrique Cardoso faria justiça à história de Fernando Henrique Cardoso se apoiasse Haddad.

Lula é muito grande, mas o Brasil é maior do que ele

O ano era 1993.

Hospedado na casa de um deputado federal do PT de São Paulo, fui caminhar no Parque do Ibirapuera com o meu anfitrião.

A pergunta inevitável: por que o PT ajudou a derrubar o presidente Fernando Collor, mas não quis participar do governo de Itamar Franco, chegando ao ponto de punir Luiza Erundina quando esta aceitou um cargo no governo?

A resposta surpreendente: porque o projeto de poder do PT não é o Brasil, mas Lula, e Itamar atrapalha a sua concretização.

Ouvi com estranhamento, guardei e, de vez em quando, lembro da conversa.

Agora mesmo, em 2018, tenho lembrado bastante.

OK, Lula tem uma história extraordinária e fez um grande governo.

No caso do triplex, ele é inocente e está preso injustamente.

Mas o fato real é que o ex-presidente foi condenado em segunda instância por um colegiado e está inelegível pela lei da ficha limpa.

É aí que me vem a lembrança da conversa com o deputado petista.

A insistência do PT na manutenção da candidatura de Lula parece sugerir que o candidato e o partido se sobrepõem ao processo eleitoral, se colocam acima deste. Como se só a presença de Lula na sucessão presidencial conferisse legitimidade à eleição.

Lula livre? Sim.

Lula candidato? Não teremos.

Tenho ouvido de vozes do PT: Lula conseguirá manter a candidatura, será eleito e a bomba só vai estourar no momento da diplomação.

É isso o que queremos?

É disso que seremos reféns?

Qual será o custo?

A vitória da direita na ausência do campo progressista pragmaticamente organizado para a disputa?

Lula é muito grande, mas o Brasil é maior do que ele.

Lula, Favreto, Noblat, Fidel e o anticomunismo burro ou desonesto

Esta foto apareceu em muitos posts no Facebook neste domingo (08), em meio à repercussão da decisão do desembargador Rogério Favreto, que mandou soltar o ex-presidente Lula.

Coisas assim: aí está o jovem Favreto, treinado por Fidel para trazer o comunismo para o Brasil. É este o homem que quis soltar Lula, etc.

Anticomunismo ora burro, ora intelectualmente desonesto.

Quando vi a foto, reconheci imediatamente. Claro!

Este não é o jovem Favreto coisa nenhuma!

É o jornalista Ricardo Noblat, numa foto – creio – da segunda metade dos anos 1980.

Quanta desonestidade!

Quanta burrice!

ENTÃO O FASCISTA SOU EU?

Meu pai era comunista.

Minha mãe era católica, envolvida, nos anos 1970, com comunidades eclesiais de base.

Eu tinha cinco anos quando Jango foi derrubado.

26 quando o último general presidente deixou o poder.

Cresci na ditadura.

E fui criado num ambiente onde se conversava tudo o que na rua era proibido.

Pretos, pobres, gays, cabeludos, maconheiros, ativistas na clandestinidade, artistas, intelectuais.

Todos eram recebidos lá em casa, no bairro de Jaguaribe, com afeto e respeito por meu pai e minha mãe, por mim e meu irmão.

De Rosário Pretinha, que mal tinha o que comer e chegava regularmente para o jantar, a Dom José Maria Pires, nosso grande arcebispo.

De Xangai  a Elomar, que minha mãe chamou de anjos.

De Pedro Osmar a Everaldo Pontes, que se jogou no chão quando viu em cima da mesa a cópia de Houve Uma Vez Um Verão em 16 mm.

Dos jovens estudantes que foram presos e nunca mais voltaram ao ativista Vladimir Dantas.

Do jovem WJ Solha a Jomard Muniz de Britto, guru tropicalista transitando entre a Paraíba e Pernambuco.

De Jurandy Moura a Gerardo Parente, com seu piano e sua imensa sensibilidade.

De Hermano Cananéa a Lúcio Lins, artistas do bairro.

De Carlos Aranha a Walter Galvão, mestres do jornalismo cultural.

Música, cinema, teatro, literatura, política, filosofia, ciência, religião, ausência de religião.

Tudo isso fazia parte do nosso cotidiano, do nosso repertório.

Era incrível!

Essas lembranças me ocorrem agora, nesse Brasil louco em que estamos vivendo.

Ocorrem por causa de um texto que escrevi sobre o ataque à TV Cabo Branco, na última sexta-feira, por manifestantes que foram às ruas protestar contra a prisão do ex-presidente Lula.

Eu estava dentro do prédio e podia ter levado uma pedrada.

Acho o protesto legítimo. Desde que pacífico. O ataque, não! Nem às pessoas, nem às instalações da emissora.

Eis que recebo, no privado, uma resposta de um amigo querido, desses de mais de 40 anos atrás, dos que frequentaram a nossa casa em Jaguaribe.

Dizia mais ou menos assim:

Contra os fascistas, tudo é legítimo!

Em público, outro me chamou de serviçal.

Digo a eles que continuo fiel ao nosso velho repertório.

Mas que não contam comigo para “quebrar essa porra”.

Não!

Votei em Brizola. Depois em Lula.

Com a crença de que eles cuidariam melhor da coisa pública.

Talvez dos nossos sonhos.

Prefiro sempre as conquistas dos nossos marcos civilizatórios.

Da nossa frágil democracia.

Sem elas, iremos para onde?

Contra os fascistas, tudo é legítimo!

O comentário, vindo de quem veio, me fez mal, me entristeceu – mais do que já estamos todos consternados com o impasse no qual fomos mergulhados.

A minha resposta vem, então, em forma de pergunta:

Quer dizer que o fascista sou eu?