Gil não criticou Moro. Justiça manda tirar do ar links com falsa entrevista

Claro que Gilberto Gil não chamou o juiz Sérgio Moro de terrorista!

Não combina com a sua serenidade, com o seu bom senso, com o homem íntegro que ele é!

Nós só vimos nas redes sociais porque, infelizmente, a mentira está se sobrepondo à verdade.

Vimos muitas vezes.

E teve o cara que chamou o grande artista brasileiro de “macaco filho da puta”.

Gil recorreu à Justiça e obteve uma liminar.

O Facebook e os sites Pensa Brasil e Folha Digital terão que retirar do ar os links com a falsa entrevista de Gil criticando o juiz Moro e defendendo Lula de acusações da Lava Jato.

Gil, simplesmente, não deu a entrevista!

A liminar obriga ainda o Facebook a fornecer informações sobre o autor do comentário racista em publicação que replicava a notícia inverídica.

A vitória de Gil é muito importante!

É a vitória da verdade na era da pós verdade!

Lula mordeu a língua. FHC pareceu inatingível

Volto aos textos que estou publicando a propósito dos 30 anos da TV Cabo Branco. Hoje, venho com breves anotações sobre grandes nomes da cena política nacional que passaram pelo estúdio da emissora, entrevistados quase sempre por Nonato Guedes, Otinaldo Lourenço e Chico Maria.

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Lula esteve conosco mais de uma vez. Numa delas, na campanha de 1989, enquanto não chegava a hora da gravação, assisti ao Jornal Nacional com ele. Havia um problema com a escolha do seu vice (o senador Bisol), e o JN pedira uma sonora de Lula, que gravamos horas antes. Mencionei a entrevista, e Lula me disse:

Esses porras não vão dar!

Mordeu a língua! Segundos depois, a entrevista foi exibida.

Fernando Henrique Cardoso gravou para o Bom Dia Paraíba quando era senador. Ninguém imaginava ainda que seria presidente. Fiquei empolgado para estar com ele, pelo quanto era respeitado como sociólogo e homem de esquerda.

Mas foi frustrante. No contato pessoal, na hora da conversa, me pareceu inatingível. Como se pouco tivesse para dividir com os que o recebiam.

Também foi frustrante o contato com Leonel Brizola. Era meu candidato, e até hoje o admiro, mas, visto de perto, não exibiu nada do carisma dos palanques e entrevistas. Como se tivesse gestos e sorrisos pouco naturais.

Antes da gravação, o entrevistador Otinaldo Lourenço fez um comentário nada conveniente. Ao ver que Brizola calçava botas, lançou mão de sua habitual irreverência e usou uma palavra que o gaúcho não admitia: caudilho.

A frase de Otinaldo, que Brizola ouviu com um riso amarelo:

Botinha de caudilho! 

Ulysses Guimarães chegou à TV Cabo Branco num sábado à noite para gravar uma entrevista. Agenda cheia, estava na correria de uma campanha. Afável, muito bom de conversa.

O historiador José Octávio de Arruda Mello soube da presença de Ulysses e foi à TV cumprimentá-lo. Quando o viu caminhando pelo corredor, saindo do estúdio, bradou:

Viva Dr. Ulysses!

Bem que o Sr. Diretas era merecedor.

Celso Furtado contou muitas histórias na noite em que gravou A Palavra É Sua. Kennedy, Sartre, personagens com quem cruzou. E disse uma frase inesquecível:

As elites brasileiras são tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses!

Eduardo Suplicy me lembrou um freak dos anos 1960 transportado para a política. José Genoíno dava a impressão de ser pouco verdadeiro. A conversa de José Dirceu, sedutora e muito inteligente, sugeria que ele faria qualquer coisa pelo êxito do projeto.

O líder comunista Luiz Carlos Prestes era o que se costuma chamar de lenda viva. Na redação, uma jovem produtora não acreditou que ele estava ali. Pensou que, àquela altura, só fizesse parte dos livros de história.

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Na saída, o militante prestista Alexandre Guedes me fotografou com o Cavaleiro da Esperança. Prestes morreu dois meses depois.

Roberto Carlos não criticou Sérgio Moro. Notícia falsa, diz assessoria

Roberto Carlos não fez críticas ao juiz Sérgio Moro. A notícia é falsa, diz em nota a assessoria do artista.

O episódio ocorreu na mesma semana em que o Dicionário de Oxford escolheu pós-verdade como a palavra de 2016.

Estamos na era da pós-verdade. Post-truth. A pós-verdade ajudou a eleger Donald Trump presidente dos Estados Unidos.

As mentiras disseminadas nas redes sociais se sobrepõem às verdades. As pessoas se deixam guiar pelo que não é verdadeiro.

Os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Em 1989, no debate às vésperas da eleição, Collor disse que não tinha dinheiro para comprar um equipamento de som como o de Lula. Collor mentiu. O eleitor acreditou nele. Se fosse hoje, a afirmação dele se enquadraria no conceito de pós-verdade.

O caso de Roberto Carlos: uma “notícia” no Facebook dizia que o artista estava perdendo seguidores nas redes sociais depois de criticar o juiz Sérgio Moro e apoiar o PT. Não é verdade.

A assessoria do Rei divulgou nota que está em seu perfil no Facebook.

O teor da nota: “Roberto Carlos, como a maioria dos brasileiros, tem orgulho do trabalho do juiz Sérgio Moro e de todos da equipe do Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público envolvidos na operação Lava Jato, exemplos de dignidade e competência. Novamente a internet é usada para divulgar notícias falsas e estamos tomando providências jurídicas para que fatos como este não tornem a acontecer”.

Roberto Carlos tem 75 anos, quase 60 de carreira. Ele não costuma se envolver com política. Direito dele. O que é grande nesse artista que chamamos de Rei é a singularíssima relação da sua música com milhões de brasileiros.

A pós-verdade sempre existiu. O que assusta é sermos dominados por ela.

Freixo, Crivella, Collor e o som de Lula

Partamos do pressuposto de que, por natureza, o jogo político nem sempre é muito verdadeiro. Consideremos que o que há são limites que não deveriam ser ultrapassados.

Vou dar um exemplo.

No debate histórico entre Collor e Lula, na eleição de 89, Collor ultrapassou esse limite quando disse que não tinha condições de possuir um aparelho de som igual ao de Lula.

Que bobagem, dirão alguns. Não! Não era bobagem! Collor, um homem rico. Lula, um homem pobre. Como este tinha um aparelho de som que aquele não poderia ter?

Até hoje, não sei ao certo o que levou Collor a fazer aquela afirmação, mas, para mim, ela teve uma grande força simbólica. Era como se ele fosse capaz de dizer (ou fazer) qualquer coisa, mesmo que fosse a mais descabida das mentiras. Mesmo o que não pode ser feito. Nem no jogo político.

Lembrei dessa história vendo, na Globo, o debate entre os Marcelos que disputam neste domingo (30) a prefeitura do Rio.

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Freixo, o candidato do PSOL, partiu para o ataque. Crivella, do PRB, jogou na defensiva. Freixo parecia estar atuando dentro do que é permitido. Crivella, não.

As falas de Crivella davam a impressão de que, como Collor, ele faria (faz) qualquer coisa. A despeito do seu discurso religioso e do seu vínculo com uma igreja cristã. O episódio envolvendo a viúva de Amarildo é, no mínimo, nebuloso. E – convenhamos – não foi bem explicado pelo candidato.

Como show de televisão, o debate foi mais atraente do que muitos que tenho visto nos últimos tempos. As provocações, as acusações, o cinismo e a ironia como armas de defesa – tudo isso prende o telespectador. Ideias para a cidade, propostas, programa de governo? – não era o mais importante!

Freixo diz coisas nas quais é preciso acreditar nesses tempos de pouca crença no jogo político. Crivella atua num território que faz lembrar a história de Collor e o som de Lula. A julgar pelas pesquisas, é nas mãos dele que a prefeitura do Rio estará nos próximos quatro anos. A não ser que ocorra um milagre.

Ulysses Guimarães, 100 anos. O Sr. Diretas faz falta ao Brasil!

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Não é para roubar, não é para deixar que roubem e é para botar na cadeia quem rouba!

A frase, mais ou menos assim, é de Ulysses Guimarães. Hoje, seis de outubro, é o centenário de nascimento dele.

Vamos usar a objetividade que o online pede para resumir:

Dr. Ulysses, uma das grandes vozes de oposição à ditadura. O Sr. Diretas. O timoneiro da Constituição Cidadã de 1988. Firmeza e conciliação na medida certa. Ética, tolerância, diálogo. Luz na noite escura.

Respeitem o presidente da oposição!

Não foi assim a reação dele, nas ruas de Salvador, diante dos cães usados para tentar impedir a sua caminhada?

A lembrança de Ulysses Guimarães me remete a Celso Furtado, outro grande brasileiro. Durante a campanha de 1989, ouvi dele o seguinte comentário: “As elites brasileiras são tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses”.

Quando penso que tivemos na presidência o sociólogo FHC, o metalúrgico Lula e a guerrilheira Dilma, penso que Celso Furtado estava equivocado. Mas, quando vejo o recrudescimento das ideias mais conservadoras, constato que o professor Celso estava certo.

Dr. Ulysses faz muita falta ao Brasil!

Caetano no STF: intolerância de hoje lembra patrulhas ideológicas de ontem

Caetano Veloso cantou o Hino Nacional na posse da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia.

Li um monte de comentários contra o artista.

Lembrei de uma história do passado.

Na campanha pela anistia, segunda metade dos anos 1970, o mesmo Caetano Veloso participou de um show coletivo em defesa da volta dos exilados.

Lá estava ele no palco, com seu violão, quando alguém mandou um recado escrito num pedaço de papel: “Não cante O Leãozinho!”. Ou foi pior?: “Se cantar O Leãozinho, apanha!”.

Verdade? Lenda? Não sei, mas é uma história que arquivei na minha memória.

O resumo é o seguinte: não basta você estar aqui apoiando a anistia. Não. Você tem que fazer do jeito que eu quero!

Era o tempo das patrulhas ideológicas. Terríveis patrulhas ideológicas. Os mais jovens talvez nem saibam.

Voltemos ao presente.

Caetano Veloso ficou do lado da presidente Dilma Rousseff. Cantou na ocupação do Ministério da Cultura, no Rio. Assinou manifesto. Apareceu nas redes sociais segurando cartaz com o fora Temer na noite da abertura dos jogos olímpicos. Falou fora Temer no palco em Paris.

Mas não basta. Estar com a esquerda não é suficiente. É preciso ser de esquerda exatamente do jeito que a esquerda quer!

Sobre a ida de Caetano ao STF, li comentários dos dois lados. Gente de direita que criticou o fato de ele estar ali junto de Lula. Gente de esquerda que o chamou de conivente com a direita.

Gente intolerante. Dos dois lados. Nos dois extremos.

Caetano no Supremo (ou no Planalto, ano passado com Dilma na homenagem a Augusto de Campos) confirma as nossas instituições democráticas. A força e o significado delas.

Um grande artista do Brasil cantando o Hino Nacional na suprema corte! Que beleza! Que Maravilha!

Fala de avanços que os americanos parecem ter resolvido há muito tempo. Duke Ellington na Casa Branca, vi quando era menino. Faz uns 50 anos.

Como é triste e (por vezes) pouco inteligente a nossa intolerância!

Engajamento de Chico Buarque não deve interferir no julgamento da sua arte

O jornalista Reinaldo Azevedo, blogueiro da Veja, disse que a figura mais patética da sessão desta segunda-feira (29) no Senado não era a presidente Dilma, nem o ex-presidente Lula. Era Chico Buarque. O artigo desrespeita o direito do artista ao engajamento político.

A presença de Chico no Senado faz pensar na figura do artista engajado que ele sempre foi.

Quem acompanha de perto a sua trajetória sabe muito bem que o tempo todo ele esteve alinhado às lutas da esquerda brasileira. Chico se comporta como um homem de partido (não me refiro ao PT), fiel a escolhas ideológicas e a projetos.

A ida ao Senado, no momento em que a presidente Dilma se defende das acusações que lhe são feitas, é expressão legítima do seu engajamento. Não traz nenhuma surpresa. E merece todo o respeito.

Chico Buarque no Senado me faz pensar não só no quanto é legítimo o engajamento dos artistas. Mas também no quanto essa postura não deve interferir no julgamento que se faz da sua arte.

Chico é um dos grandes compositores populares do Brasil. Seu cancioneiro, maior do que as atitudes do artista engajado que ele tem o direito de ser, sobreviverá ao nosso tempo.

Chico é grande pelas canções que compõe. Não importa se você aprova o apoio dele a Dilma.

Arte é arte. Engajamento de artista é outro negócio. É direito do cidadão livre. Não misturo as duas coisas.

“O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”

Dilma

A frase do título não é minha.

Foi o que, numa entrevista à TV Cabo Branco, o senador paraibano Antônio Mariz me disse, ao telefone, quando escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor. Era início de outubro de 1992, Collor acabara de ser afastado após a votação na Câmara e, antes do final daquele ano, não seria mais presidente.

Lembro das palavras de Mariz nesta segunda-feira (29), o dia em que a presidente afastada Dilma Rousseff vai ao Senado, a um ou dois dias da votação que deverá retirá-la, em definitivo, da presidência da república.

Lembro como reflexão sobre o instante grave que o Brasil vive.

As palavras de Mariz soam, aos meus ouvidos, como uma espécie de antídoto à banalização de todas as coisas.

Sim! “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”. Não importa se você é contra ou a favor.

Para mim, o fim do atual ciclo petista é o retrato do fracasso de um projeto da esquerda brasileira. E isso é melancólico.

Filho de comunista, cresci sob governos de exceção num ambiente em que se sonhava com ideias generosas. Mais tarde, a chegada de Lula ao poder era um acontecimento extraordinário. Com ele, vieram as conquistas sociais que testemunhamos, num país que já passou da hora de reequacionar a questão da distribuição de renda.

A constatação de que, nos piores quesitos, o PT acabou por se revelar igual ao demais, põe por terra os sonhos de muitos de nós que crescemos sob a ditadura iniciada no golpe de 64.

Volto ao senador Antônio Mariz: “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”.

Tanto faz se você é contra ou a favor. Não há o que comemorar!

Impeachment de Dilma será tema de documentário. Direção é de Petra Costa

O impeachment da presidente Dilma Rousseff será tema de um documentário de longa metragem. O filme está sendo realizado pela cineasta Petra Costa. As gravações começaram durante as manifestações de 13 de março.

Dilma

Li uma entrevista de Petra na Veja. Ela sente falta de mais documentários políticos no Brasil.

Bem que há. Foi, aliás, um documentário político que deu maior visibilidade aos filmes documentais entre nós. Refiro-me a “Jango”, de Sílvio Tendler.

“Jango” é da mesma época de “Cabra Marcado Para Morrer”, de Eduardo Coutinho, que considero um dos maiores filmes do cinema brasileiro. “Jango” fala da luta política sob a perspectiva da elite. “Cabra Marcado”, sob a perspectiva do povo.

Tem “O Mundo em que Getúlio Viveu”, de Jorge Ileli; “Revolução de 30”, de Sylvio Back; “Getúlio Vargas”, de Ana Carolina; “O Evangelho Segundo Teotônio”, de Vladimir Carvalho”. Tem “Os Anos JK”, de Sílvio Tendler, realizado antes de “Jango”. E “Muda Brasil”, de Oswaldo Caldeira.

Tem o excepcional “Entreatos”, de João Moreira Salles, sobre a campanha que levou Lula à presidência em 2002.

OK, não há nada sobre o impeachment de Collor, como lembra a cineasta. Mas tem muita coisa que vimos no cinema quando o assunto é documentário sobre política.

Sei que Petra Costa é muito jovem. Apenas 33 anos. Mas espero que ela conheça esses filmes. Seriam bons parâmetros para quem quer fazer um documentário sobre política.

Na entrevista à Veja, Petra Costa diz que nunca viu a sociedade brasileira tão polarizada.

Celso Furtado dirigiu a pick up da Sudene para mostrar o Recife a Sartre

Celso Furtado e Kennedy

Entrevistei (junto com Otinaldo Lourenço) Celso Furtado para um programa da TV Cabo Branco. Foi numa noite qualquer do ano de 1989. Perto da primeira eleição presidencial depois do golpe de 64.

Fui buscar o professor numa livraria no centro de João Pessoa. Ele estava numa sessão de autógrafos. Fui com a consciência de que estava diante de um grande brasileiro.

Cresci ouvindo falar de Celso Furtado dentro de casa. O economista, o pensador, o primeiro superintendente da Sudene, o ministro de Jango, o professor no exílio. Celso estava sempre presente nas conversas e nas leituras do meu pai.

Os impasses brasileiros conduziram a entrevista. Os descaminhos da economia, as saídas que ele enxergava. E um pouco de memória: o encontro com o presidente Kennedy e a visita de Sartre ao Recife.

Celso Furtado dirigiu uma pick up da Sudene para mostrar o Recife a Sartre!

Depois da gravação, um tema inevitável: as eleições presidenciais que se aproximavam. Eu disse que votava em Brizola. Ele em Ulysses Guimarães. Mas temia que Collor fosse o vitorioso. Temíamos!

Foi aí que veio a frase inesquecível: “as elites brasileiras são muito atrasadas. Elas são tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses”.

Depois de Collor, tivemos o sociólogo Fernando Henrique, o operário Lula, a guerrilheira Dilma.

Celso Furtado estava equivocado em sua observação? Às vezes penso que sim. Muitas vezes, penso que não!

Na foto, Celso Furtado com o presidente Kennedy na Casa Branca.