FHC seria justo com a história de FHC se apoiasse Haddad

Fernando Henrique Cardoso com Lula. Os dois juntos, panfletando.

A velha foto fala sobre o papel que eles desempenharam na construção da democracia brasileira.

As paixões partidárias tentam negar, mas eles desempenharam, sim. Assim como seus partidos, o PSDB e o PT.

Pena que a cegueira de um lado impeça a visão do que há no outro lado. A política feita como se religião fosse impede.

O PT demonizou Fernando Henrique.

O PT errou ao demonizar Fernando Henrique.

Fernando Henrique é um democrata, um pensador do Brasil. Com os erros e os acertos dos homens que fazem política. Orgulho-me de ter votado nos dois. No Fernando Henrique de 1994. No Lula de 2002.

Li com grande interesse a entrevista de Fernando Henrique Cardoso no último final de semana.

Tem as razões dele. As críticas dele. As suas resistências ao PT que hoje disputa o segundo turno da eleição presidencial. Devemos ouvi-lo.

Há uma porta que pode levar Fernando Haddad a Fernando Henrique. Está dito pelo ex-presidente.

O bom era que fosse uma porta que não se abrisse só na hora em que um precisa do apoio eleitoral do outro.

O ideal era que fosse uma porta permanentemente aberta para o fortalecimento da democracia brasileira.

Muitos esperam gestos dos dois nesse momento tão grave da vida nacional.

Não sei o que acontecerá, mas continuo pensando que Fernando Henrique Cardoso faria justiça à história de Fernando Henrique Cardoso se apoiasse Haddad.

Lula é muito grande, mas o Brasil é maior do que ele

O ano era 1993.

Hospedado na casa de um deputado federal do PT de São Paulo, fui caminhar no Parque do Ibirapuera com o meu anfitrião.

A pergunta inevitável: por que o PT ajudou a derrubar o presidente Fernando Collor, mas não quis participar do governo de Itamar Franco, chegando ao ponto de punir Luiza Erundina quando esta aceitou um cargo no governo?

A resposta surpreendente: porque o projeto de poder do PT não é o Brasil, mas Lula, e Itamar atrapalha a sua concretização.

Ouvi com estranhamento, guardei e, de vez em quando, lembro da conversa.

Agora mesmo, em 2018, tenho lembrado bastante.

OK, Lula tem uma história extraordinária e fez um grande governo.

No caso do triplex, ele é inocente e está preso injustamente.

Mas o fato real é que o ex-presidente foi condenado em segunda instância por um colegiado e está inelegível pela lei da ficha limpa.

É aí que me vem a lembrança da conversa com o deputado petista.

A insistência do PT na manutenção da candidatura de Lula parece sugerir que o candidato e o partido se sobrepõem ao processo eleitoral, se colocam acima deste. Como se só a presença de Lula na sucessão presidencial conferisse legitimidade à eleição.

Lula livre? Sim.

Lula candidato? Não teremos.

Tenho ouvido de vozes do PT: Lula conseguirá manter a candidatura, será eleito e a bomba só vai estourar no momento da diplomação.

É isso o que queremos?

É disso que seremos reféns?

Qual será o custo?

A vitória da direita na ausência do campo progressista pragmaticamente organizado para a disputa?

Lula é muito grande, mas o Brasil é maior do que ele.

Lula, Favreto, Noblat, Fidel e o anticomunismo burro ou desonesto

Esta foto apareceu em muitos posts no Facebook neste domingo (08), em meio à repercussão da decisão do desembargador Rogério Favreto, que mandou soltar o ex-presidente Lula.

Coisas assim: aí está o jovem Favreto, treinado por Fidel para trazer o comunismo para o Brasil. É este o homem que quis soltar Lula, etc.

Anticomunismo ora burro, ora intelectualmente desonesto.

Quando vi a foto, reconheci imediatamente. Claro!

Este não é o jovem Favreto coisa nenhuma!

É o jornalista Ricardo Noblat, numa foto – creio – da segunda metade dos anos 1980.

Quanta desonestidade!

Quanta burrice!

ENTÃO O FASCISTA SOU EU?

Meu pai era comunista.

Minha mãe era católica, envolvida, nos anos 1970, com comunidades eclesiais de base.

Eu tinha cinco anos quando Jango foi derrubado.

26 quando o último general presidente deixou o poder.

Cresci na ditadura.

E fui criado num ambiente onde se conversava tudo o que na rua era proibido.

Pretos, pobres, gays, cabeludos, maconheiros, ativistas na clandestinidade, artistas, intelectuais.

Todos eram recebidos lá em casa, no bairro de Jaguaribe, com afeto e respeito por meu pai e minha mãe, por mim e meu irmão.

De Rosário Pretinha, que mal tinha o que comer e chegava regularmente para o jantar, a Dom José Maria Pires, nosso grande arcebispo.

De Xangai  a Elomar, que minha mãe chamou de anjos.

De Pedro Osmar a Everaldo Pontes, que se jogou no chão quando viu em cima da mesa a cópia de Houve Uma Vez Um Verão em 16 mm.

Dos jovens estudantes que foram presos e nunca mais voltaram ao ativista Vladimir Dantas.

Do jovem WJ Solha a Jomard Muniz de Britto, guru tropicalista transitando entre a Paraíba e Pernambuco.

De Jurandy Moura a Gerardo Parente, com seu piano e sua imensa sensibilidade.

De Hermano Cananéa a Lúcio Lins, artistas do bairro.

De Carlos Aranha a Walter Galvão, mestres do jornalismo cultural.

Música, cinema, teatro, literatura, política, filosofia, ciência, religião, ausência de religião.

Tudo isso fazia parte do nosso cotidiano, do nosso repertório.

Era incrível!

Essas lembranças me ocorrem agora, nesse Brasil louco em que estamos vivendo.

Ocorrem por causa de um texto que escrevi sobre o ataque à TV Cabo Branco, na última sexta-feira, por manifestantes que foram às ruas protestar contra a prisão do ex-presidente Lula.

Eu estava dentro do prédio e podia ter levado uma pedrada.

Acho o protesto legítimo. Desde que pacífico. O ataque, não! Nem às pessoas, nem às instalações da emissora.

Eis que recebo, no privado, uma resposta de um amigo querido, desses de mais de 40 anos atrás, dos que frequentaram a nossa casa em Jaguaribe.

Dizia mais ou menos assim:

Contra os fascistas, tudo é legítimo!

Em público, outro me chamou de serviçal.

Digo a eles que continuo fiel ao nosso velho repertório.

Mas que não contam comigo para “quebrar essa porra”.

Não!

Votei em Brizola. Depois em Lula.

Com a crença de que eles cuidariam melhor da coisa pública.

Talvez dos nossos sonhos.

Prefiro sempre as conquistas dos nossos marcos civilizatórios.

Da nossa frágil democracia.

Sem elas, iremos para onde?

Contra os fascistas, tudo é legítimo!

O comentário, vindo de quem veio, me fez mal, me entristeceu – mais do que já estamos todos consternados com o impasse no qual fomos mergulhados.

A minha resposta vem, então, em forma de pergunta:

Quer dizer que o fascista sou eu?

O país vive o instante trágico da prisão de um ex-presidente

Em outubro de 1992, assim que Fernando Collor foi afastado pela Câmara dos Deputados, o paraibano Antônio Mariz foi escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment do presidente.

Mariz era contra Collor e, em seu relatório, recomendaria o afastamento definitivo do presidente.

Mas quando, por telefone, o entrevistei sobre a indicação para a relatoria, ele me respondeu assim:

O país vive o instante trágico do afastamento de um presidente.

Lembrei muito da frase de Mariz quando Dilma foi derrubada.

Volto a lembrar agora que foi decretada a prisão do ex-presidente Lula.

Lula é inocente?

Lula é culpado?

Não importa.

Trago a frase de Mariz para o presente por que ela contém lucidez, bom senso, serenidade, equilíbrio.

Ela pode ser um contraponto aos que desde ontem usam as redes sociais para o júbilo, o regozijo, a comemoração exacerbada, a galhofa, o desrespeito.

O país vive, sim, o instante trágico da prisão de um ex-presidente.

E a prisão de um ex-presidente, seja ele inocente ou culpado, é um instante muito grave da vida nacional.

O Brasil não é para principiantes

Nesta quarta-feira (24), lembrei de Antônio Mariz.

Em outubro de 1992, quando foi escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor, ouvi dele a seguinte frase:

O país vive o instante trágico do afastamento de um presidente.

Lembrei de Mariz, ontem, ao ver nas redes sociais manifestações de grande júbilo pela confirmação (com ampliação da pena) da sentença de condenação do ex-presidente Lula.

Atualizada, a frase de Mariz seria assim:

O país vive o instante trágico da condenação de um ex-presidente.

Penso que não há o que comemorar. Mesmo pelos que são contra Lula.

Mas esse post é sobre Tom Jobim (em foto de Evandro Teixeira).

Se vivo fosse, ele faria 91 anos nesta quinta-feira (25).

O nome completo: Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim.

O nome artístico que gostava de usar: Antônio Carlos Jobim.

O nome que todos usam: Tom Jobim.

O que Chico Buarque usou na letra de Paratodos: Antônio Brasileiro.

Novamente Chico: Maestro Soberano.

Tom Jobim é o maior compositor popular do Brasil.

Nascido no Rio de Janeiro, Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil.

Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa.

Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Seu vasto cancioneiro permanece vivo e atual como documento sonoro do país que nunca deixou de ser uma promessa de vida em seu coração.

Tão permanente e atual quanto as suas canções é a frase de Jobim que escolhi para fechar o post:

O Brasil não é para principiantes.

Em tempos estranhos, esquerda recorre até a Reinaldo Azevedo!

De vez em quando, saio da cultura para escrever sobre política.

Ou sobre jornalismo.

Hoje, uno as duas coisas com Reinaldo Azevedo.

O jornalista Reinaldo Azevedo, direitista confesso (um liberal de direita, como costuma dizer), faz críticas à Lava Jato. Ao Ministério Público. A Moro, a Janot. Desde que enxergue neles alguma ruptura com o estado de direito. Não é de hoje.

Não vou julgar se o faz em nome da sua consciência ou por alguma estratégia. Ou pelos dois motivos.

O fato é que, conduzido por uma lógica a que obedece no exercício jornalístico, pode defender (ou atacar) tanto Lula quanto Aécio. Para ele, não faz diferença. Desde que não violente a sua lógica.

Leio Reinaldo Azevedo sabendo quem ele é. Como, no outro extremo, lia Paulo Nogueira, que morreu recentemente. (A diferença é que este não escrevia tão bem quanto aquele!).

Como jornalista, mas também como cidadão, acho tão importante ler gente de esquerda quanto gente de direita.

Ser de esquerda ou de direita não é pré-requisito para pensar bem e saber traduzir, em texto escrito ou falado, o que se está pensando.

Tanto há esquerdistas que escrevem muito mal quanto direitistas que escrevem muito bem.

Essa conversa toda é por causa de algo que chamou minha atenção nos últimos dias.

Não o fato de Reinaldo Azevedo ter criticado a sentença que Moro aplicou a Lula. Já era esperado que o fizesse. Mas de muita gente de esquerda estar compartilhando conteúdos produzidos pelo jornalista. As redes sociais estão cheias desses compartilhamentos, típicos – como disse um amigo meu – de quem mistura política com religião.

O Reinaldo que inventou o termo petralha e agora, eventualmente, defende Lula é o mesmo que, grampeado numa conversa telefônica com a irmã de Aécio, teve que largar o blog que mantinha na Veja.

É razoável, portanto, que provoque algum estranhamento ver gente de esquerda chancelando Reinaldo Azevedo nas redes sociais.

Vivemos tempos realmente muito confusos!

Paraíba já teve dois ministros da Cultura. Terá mais um?

Gilberto Gil foi ministro da Cultura durante o primeiro mandato do presidente Lula e parte do segundo.

Deu status ao ministério, pelo grande artista que ele é, e realizou um trabalho reconhecido por sua importância e dimensão.

Lula valorizou a cultura ao levar um homem como Gil para a pasta.

Temer acabou com o ministério. Foi pressionado e recuou.

Errou com Calero, com Freire e com João Batista. Foi largado pelos três.

Agora, vemos o jovem deputado federal paraibano André Amaral cotado para o cargo.

A menção a um paraibano remete aos outros paraibanos que por lá passaram: Celso Furtado, no governo Sarney, e Ipojuca Pontes, no governo Collor.

O professor Celso era um intelectual de peso, um orgulho para nós, paraibanos.

O cineasta Ipojuca Pontes ajudou a destruir o cinema brasileiro.

E André Amaral?

Quem é André Amaral, se pensarmos no ministério da Cultura?

Preciso responder?

O Brasil deve tirar alguma lição da derrota da direita na França

Testemunhei recentemente uma conversa curiosa entre um petista e um não petista.

Falavam de cenários para 2018.

O petista perguntou ao não petista:

Se for Lula e Bolsonaro, você vota em quem?

E o não petista respondeu:

Em Lula, ora!

Aí foi a vez do não petista perguntar ao petista:

E se for um candidato de centro e Bolsonaro, você vota em quem?

E o petista respondeu:

Claro que voto nulo!

Neste domingo (07), enquanto acompanhava a eleição na França, lembrei da conversa.

A expressiva vitória de Emmanuel Macron sobre Marine Le Pen é um não categórico à direita mais atrasada que avança pelo mundo.

Seis meses atrás, os americanos, elegendo Donald Trump, não deram a resposta que os franceses deram neste domingo.

Ainda que Macron não seja o melhor, mas o menos ruim, venceu a França da República, da Democracia.

Em 2018, que lição o Brasil poderá tirar da derrota da direita na eleição da França?

A conversa que testemunhei entre um petista e um não petista aponta para a tremenda dificuldade que ainda temos de assimilar lições como a da França.

Morte de Marisa foi antecipada por redes sociais e parte da mídia

Em setembro de 1995, numa sexta-feira, o jornal que o SBT tinha no fim da noite começou com a notícia da morte do governador da Paraíba, Antônio Mariz. Quem apresentava o jornal era o casal Eliakim Araújo e Leila Cordeiro.

A notícia não era verdadeira. Mariz ainda estava vivo. Seu estado era gravíssimo, mas a morte só ocorreu no início da noite do dia seguinte.

Naquela época, pouco mais de duas décadas atrás, isso era inaceitável. Um veículo de comunicação não podia “matar” uma pessoa que estava viva. Era tão imperdoável o erro que a gente ainda lembra, tantos anos depois.

Agora, não é mais. O erro foi banalizado. A notícia errada (nos veículos de comunicação ou nas redes sociais) é encarada como algo desimportante.

Acabamos de ver na morte de Dona Marisa Letícia.

O estado da mulher de Lula se agravou na tarde/noite da quarta-feira (01).

Na manhã da quinta-feira (02), ela já estava morta nas redes sociais e em alguns veículos de comunicação.

As informações corretas, no entanto, eram: quadro irreversível, ausência de fluxo cerebral, protocolo de morte cerebral não iniciado.

A morte só foi anunciada oficialmente no início da noite da sexta-feira (03). Horas antes, a equipe do Sírio cumpriu todo o protocolo de morte cerebral.

Faço o registro aqui porque sou de uma geração de jornalistas para a qual o tema (noticiar o que não ocorreu) era de suma importância.

Vimos que hoje não é mais.

(Ilustro o post com a bela foto de Ricardo Stuckert)