Saudades do Moleque Gonzaguinha!

Se estivesse vivo, Gonzaguinha faria aniversário neste domingo (22).

Luiz Gonzaga Jr. era como o chamávamos quando se projetou no início dos anos 1970. “Belo é o Recife pegando fogo/na pisada do maracatu” – ouvimos em Festa, na voz de Luiz Gonzaga, o pai, quando poucos conheciam o filho.

Circuito universitário, pequenos festivais, Som Livre Exportação, Gonzaguinha já estava nas imagens de um filme chamado Som Alucinante, no final de 1972. Ao vivo, fomos vê-lo pela primeira vez na caravana Setembro, em 1975.

A caravana era algo inacreditável. Não seria possível nos dias de hoje. Um ônibus, um grupo de artistas, shows de cidade em cidade. E que artistas! Paulinho da Viola, Fagner, Gonzaguinha, Moraes Moreira. Mais Sueli Costa, Copinha e sua flauta, Armandinho, Dadi e Gustavo, que depois formariam A Cor do Som. De dia, uma pelada com um time local, um filme (Chega de Demanda, Cartola), um bate-papo. De noite, o show. Em João Pessoa, no ginásio do Sesc, no centro. Público? Quase nenhum. Gonzaguinha estava lá, à época de Plano de Voo.

Começaria Tudo Outra Vez. Disco e show em 1976. No palco, somente voz e violão. O artista viajava numa Kombi, se hospedava na casa de um amigo. No ano seguinte, Moleque Gonzaguinha. Gonzaguinha e banda. Tinha Fredera na guitarra, Arnaldo Brandão no baixo. Tudo visto bem de perto, no Teatro Santa Roza. Parece mentira! Muita conversa na hora da coletiva, jantar depois do show. O poeta Caixa D’Água no meio. Vivíamos no Brasil da ditadura, sonhando com o Brasil redemocratizado. Estávamos em 1977.

Depois, a explosão. Gonzaguinha da Vida. O sucesso. Explode Coração na voz de Bethânia. “Não dá mais pra segurar…”. O moleque desceu o São Carlos, pegou um sonho e partiu. “Pensava que era um guerreiro/com terras e gentes a conquistar”. Na passagem por aqui, uma noite no Santa Roza, outra no ginásio do Astrea. Uma grande banda. Um grande show. Gonzaguinha estava incorporado ao primeiro time da MPB. Fazia parte das vozes que lutavam contra a ditadura. Como Ivan Lins e João Bosco, seus contemporâneos.

Luiz Gonzaga Jr. virou Gonzaguinha. Sua música tinha o baião do pai e o samba do morro de São Carlos, onde Dina o criou. E muitas outras coisas. Do bolero (Começaria Tudo Outra Vez) ao rock (Petúnia Resedá). Do fado (É Preciso) ao blues (Uma Família Qualquer).

No disco de 1979, o dueto com Luiz Gonzaga, em A Vida do Viajante, parecia o prenúncio do show que fariam juntos. Só quem viu sabe como foi bonito! Gonzaga, o velho, até virou Gonzagão. Saudades de Luiz Gonzaga Jr., saudades daqueles shows inacreditáveis!

Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Sivuca

LUIZ GONZAGA

Um gigante. Um artista autêntico, verdadeiro em sua simplicidade e sua força intuitiva. Gonzaga, seus trajes de Rei do Baião, sua sanfona, suas músicas belas e impregnadas de melancolia. O melhor pop nordestino produzido para atravessar o tempo e inserir-se na memória afetiva de milhares de pessoas, rurais ou urbanas, que cresceram ouvindo aquelas canções em casa e nas nossas festas juninas.

Uma vez, fui convocado a enumerar as músicas que prefiro no extenso repertório de Luiz Gonzaga. Légua Tirana é uma delas. Estrada de Canindé e A Morte do Vaqueiro também estão entre as prediletas. Adoro Noites Brasileiras e Olha pro Céu, uma marchinha junina comovente. O Xote das Meninas é uma delícia. Da parceria com Zé Dantas. Tema universal tratado com olhar regional. Vozes da Seca é precursora da canção de protesto. Assum Preto é Asa Branca em tom menor. A lista não tem fim.

SIVUCA

Acordeon, concertina, sanfona. Um instrumento muito popular no Brasil, não só entre os nordestinos que, a partir do final dos anos 1940, incorporaram as canções de Luiz Gonzaga ao seu repertório. Houve um tempo em que as garotas estudavam acordeon e com ele exibiam seus dotes musicais, tocando e cantando nas reuniões familiares. Artistas que depois ficaram conhecidos com o violão começaram pelo acordeon. É o caso de Gilberto Gil e Milton Nascimento, que só aderiram ao violão depois da Bossa Nova, sob a inspiração da batida criada por João Gilberto. Sivuca também fez a adesão quando morava nos Estados Unidos.

Mas foi com a sanfona que entrou para a história da nossa música popular. E para a história mundial do instrumento. Os sons que produzia eram inconfundíveis. Tinham a sua marca, o seu estilo. Diferente de Gonzaga, fundador, mas rudimentar. Ou de Dominguinhos, virtuoso, mas intuitivo. Era o “modo Sivuca” de tocar, iniciado naquele dia de Santo Antônio de 1939, quando o pai trouxe para casa o fole de dois baixos. Até a sua morte, em dezembro de 2006, foram 67 anos de convivência com o instrumento. Um longo percurso, que começou com o menino procurando as notas da marcha “A Jardineira” e terminou no encontro da sua Scandalli Super VI com a complexidade de uma orquestra sinfônica.

DOMINGUINHOS

Dominguinhos deu a Gil o xote Só Quero um Xodó. Foi parceiro de Chico Buarque em Tantas Palavras. Colocou notas e acordes de grande melancolia em Cajuína, de Caetano Veloso. Escreveu (com Manduka) e cantou lindamente a toada Quem me Levará Sou Eu. Compôs (com Nando Cordel) De Volta pro Aconchego, para Elba Ramalho imortalizar. Dividiu com Sivuca e Oswaldinho um disco (Cada um Belisca um Pouco) em que os três sanfoneiros prestam tributo a Luiz Gonzaga. Este costumava atribuir ao afilhado a urbanização do forró. E um compromisso muito sério com o Nordeste. Gonzaga estava certíssimo. Sabia que Dominguinhos seria um dos seus herdeiros. Talvez o principal. O que faria mais justiça ao seu legado. O mais fiel na interpretação do seu cancioneiro.

“Dominguinhos não sabe uma nota, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. É pura intuição, mas uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que ele” – me disse Sivuca pouco antes de morrer. E ele não foi generoso com o colega. Apenas verdadeiro.

Primeira Coca-Cola da música brasileira não é a de Alegria, Alegria

Eu tomo uma Coca-Cola

Ela pensa em casamento

E uma canção me consola

Eu vou

Durante 50 anos, soubemos que em Alegria, Alegria, de Caetano Veloso, a marca Coca-Cola foi usada pela primeira vez na música popular brasileira.

O próprio Caetano achava que sim.

A canção foi a terceira colocada no histórico festival de MPB de 1967, projetou nacionalmente o seu autor e, junto com Domingo no Parque (de Gilberto Gil), deu início ao movimento tropicalista.

Agora, na edição de vigésimo aniversário de Verdade Tropical, seu livro de memórias, Caetano reescreve a história.

Em texto inédito, escrito para a nova edição, ele encontra a Coca-Cola numa música anterior à sua, Siri Jogando Bola, da dupla Luiz Gonzaga e Zé Dantas.

Diz a letra:

Vi um jumento

Beber vinte Coca-Cola

Ficar cheio que nem bola

E dar um arroto de lascar

O texto Carmen Miranda não sabia sambar começa assim:

Pra começar, a Coca-Cola de Alegria, Alegria não foi a primeira da música popular brasileira: O nome do refrigerante já aparecia numa das estrofes nonsense de Siri Jogando Bola, da dupla Luiz Gonzaga e Zé Dantas. Na verdade, considerando que o jumento desse galope tomava vinte Coca-Colas, a de Alegria Alegria seria, na melhor das hipóteses (isto é, se não tiver havido outra menção à Coca em alguma canção brasileira anterior à de Dantas-Gonzaga), a vigésima primeira.

Durante meio século, fomos todos traídos por nossas memórias porque conhecíamos a música de Luiz Gonzaga e Zé Dantas e, mesmo assim, não atentávamos para a presença da Coca-Cola em sua letra.

“Dominguinhos é o melhor de nós todos”, disse Sivuca

“O sol nasceu, a lua nasceu/o dia nasceu, o sol nasceu/é tudo mentira/é tudo figura”.

Não são versos conhecidos. Estão na letra de Quem Nasceu, blues de Péricles Cavalcanti que Gal Costa canta na abertura do disco Temporada de Verão, de 1974. O grupo que acompanha a cantora tem o sax de Oberdan e a guitarra de Cláudio Stevenson, que logo ouviríamos na Banda Black Rio. Mas o que sempre me impressionou foi o som da sanfona. Primeiro, na harmonização, enquanto Gal está cantando. Depois, no solo. O senso de improvisação, as soluções jazzísticas de um mestre do forró chamado Dominguinhos.

Em 1976, quando Gilberto Gil esteve em João Pessoa com o show Refazenda, fui ver a passagem de som no Teatro Santa Roza.

Final de tarde, plateia completamente vazia, alguns técnicos espalhados pelo teatro. Lá no palco, Gil num violão plugado, Dominguinhos à sanfona, Moacir Albuquerque no baixo, Chiquinho Azevedo na bateria. Os quatro em improvisações intermináveis. “Fazendo som”, como se dizia na época. Recriando músicas do set list da noite. Os instrumentos dialogando em Essa É Pra Tocar no Rádio, com aquela levada funk à Miles Davis. O Miles de On the Corner. E Dominguinhos no meio. Totalmente à vontade. Um forrozeiro aberto a outras possibilidades. Guiado por Gil, seu parceiro no blues da caatinga Lamento Sertanejo.

Menciono o Dominguinhos que não é do forró porque acho que circunscrevê-lo aos ritmos nordestinos restringe o seu talento. Mas é claro que a essência do que ele produziu está na música da sua região. Desde o dia em que, ainda menino, foi visto e descoberto por Luiz Gonzaga, cuja ajuda foi determinante para que viesse a se tornar um artista.

Tocou com Gonzaga quando este amargava o ostracismo. Percorreu o país com o Rei do Baião. Esteve com ele no momento em que recuperou prestígio e público. O show Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir é o retrato da reentrada. E Dominguinhos está lá. Sua sanfona se mistura a uma guitarra elétrica, que não era comum no grupo que acompanhava Gonzaga. Mas que antecipa algo do seu encontro com Gil.

Dominguinhos deu a Gil o xote Só Quero um Xodó. Foi parceiro de Chico Buarque em Tantas Palavras. Colocou notas e acordes de grande melancolia em Cajuína, de Caetano Veloso. Escreveu (com Manduka) e cantou lindamente a toada Quem me Levará Sou Eu. Compôs (com Nando Cordel) De Volta pro Aconchego, para Elba Ramalho imortalizar. Dividiu com Sivuca e Oswaldinho um disco (Cada um Belisca um Pouco) em que os três sanfoneiros prestam tributo a Luiz Gonzaga. Este costumava atribuir ao afilhado a urbanização do forró. E um compromisso muito sério com o Nordeste. Gonzaga estava certíssimo. Sabia que Dominguinhos seria um dos seus herdeiros. Talvez o principal. O que faria mais justiça ao seu legado. O mais fiel na interpretação do seu cancioneiro.

“Dominguinhos não sabe uma nota, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. É pura intuição, mas uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que ele” – me disse Sivuca pouco antes de morrer. E ele não foi generoso com o colega. Apenas verdadeiro.

Luiz Gonzaga? Meninos, eu vi!

Caetano Veloso disse, certa vez, que Roberto Carlos vem de regiões profundas do ser do Brasil. Uma grande definição, fidelíssima à dimensão deste artista a quem chamamos de Rei.

Podemos usar a frase para o Rei do Baião. Luiz Gonzaga vem de regiões profundas do ser do Nordeste. Também dimensiona muito bem o homem que, junto com Humberto Teixeira, transformou o tema regional Asa Branca num dos clássicos da música popular brasileira.

Fui apresentado às suas músicas quando era garoto. O Nordeste na Voz de Luiz Gonzaga era o título do LP que eu ouvia na casa do meu avô paterno. Foi o primeiro de muitos discos.

Mas há uma outra lembrança associada à infância. Na minha rua, a Conceição, em Jaguaribe, havia festa de Santo Antônio, São João e São Pedro. Grandes festas populares organizadas por moradores e compartilhadas com a vizinhança.

Numa delas, e isto nunca saiu da minha memória, o que mais se ouvia era Gonzaga cantando: “A fogueira está queimando em homenagem a São João”. Mesmo que ele amargasse o ostracismo.

Tenho muito orgulho de ter ouvido Luiz Gonzaga em seu tempo. Mais ainda: de tê-lo visto de perto, ao vivo, inúmeras vezes. E com a consciência absoluta de que, sem nenhum exagero e sem qualquer favor, estava diante de um dos fundadores da canção popular brasileira.

Um gigante. Um artista autêntico, verdadeiro em sua simplicidade e sua força intuitiva. Gonzaga, seus trajes de Rei do Baião, sua sanfona, suas músicas belas e impregnadas de melancolia. O melhor pop nordestino produzido para atravessar o tempo e inserir-se na memória afetiva de milhares de pessoas, rurais ou urbanas, que cresceram ouvindo aquelas canções em casa e nas nossas festas juninas.

Uma vez, fui convocado a enumerar as músicas que prefiro no extenso repertório de Luiz Gonzaga. Légua Tirana é uma delas. Estrada de Canindé e A Morte do Vaqueiro também estão entre as prediletas. Adoro Noites Brasileiras e Olha pro Céu, uma marchinha junina comovente. O Xote das Meninas é uma delícia. Da parceria com Zé Dantas. Tema universal tratado com olhar regional. Vozes da Seca estava nas audições com meu avô, precursora da canção de protesto. Assum Preto é Asa Branca em tom menor. A lista não tem fim.

Na segunda metade dos anos 1970, fui à Assembleia Legislativa ver Luiz Gonzaga receber o título de cidadão paraibano. O discurso de tom excessivamente regionalista me pareceu ingênuo, mas ele merecia todos os aplausos. A despeito das críticas que lhe eram feitas (a defesa da ditadura, a não autoria das canções). Ele é muito maior do que o que se pode dizer de negativo a seu respeito.

O encontro com o filho Gonzaguinha, na turnê que passou por João Pessoa no início da década de 1980, não sairá da memória de quem o testemunhou. A homenagem permanente a Gonzaga é não deixar de ouvi-lo.

Luiz Gonzaga em quadrinhos e a morte do seu editor

Peço licença ao leitor para contar uma história que tem muito de pessoal.

hq-luiz-gonzaga

Um ano atrás, numa conversa casual, Carlos Roberto de Oliveira, o editor da Patmos, me disse que ia expandir para outros estados a série Primeira Leitura, começando por Pernambuco. Pediu uma sugestão. Respondi prontamente: Luiz Gonzaga. E, mais prontamente ainda, ouvi o desafio: por que você não faz?

Foi assim que nasceu Luiz Gonzaga em quadrinhos.

Escrevi o roteiro já no formato de uma história em quadrinhos, com o texto narrativo e os diálogos prontos para que o ilustrador Megaron Xavier trabalhasse sobre eles.

Escrevi pensando no tempo em que meu avô paterno me apresentou à música de Luiz Gonzaga. Reouvindo os muitos discos do Rei do Baião que tenho em minha discoteca. E, sobretudo, guiado pela convicção do quanto é importante participar de esforços pela preservação da arte de Gonzaga, riquíssima expressão do povo do Nordeste.

O livro ficou pronto no final de setembro, há pouco mais de um mês, em meio a muitas conversas com Carlos Roberto. Está em algumas livrarias, mas não chegou a ter um lançamento. Foi uma “viagem” prazerosa contar a história de Luiz Gonzaga em quadrinhos.

No domingo passado (30), fomos surpreendidos pela morte do nosso editor. A série Primeira Leitura, já com 13 livros dedicados a vultos da Paraíba e um primeiro a Pernambuco, fica como o último grande projeto de Carlos Roberto de Oliveira. Uma verdadeira declaração de amor ao público infantojuvenil, tão carente de leitura.

Top 5 das músicas em homenagem a Campina Grande. Parabéns CG!

O forró morou em Campina Grande, dizia um amigo meu com ótimo ouvido musical. Dos grandes nomes do gênero, muitos moraram lá. Ou passaram por lá em momentos importantes. Praticamente todos construíram laços afetivos e profissionais com a cidade que foram determinantes em suas carreiras.

Hoje é aniversário de Campina Grande. E a minha homenagem, naturalmente, é com música: um top 5 das músicas compostas para a Rainha da Borborema.

Começo com Tropeiros da Borborema na voz de Luiz Gonzaga.

Com Jackson do Pandeiro, Alô Campina Grande.

Jackson gravou Bodocongó, mas, no meu top 5, vai a versão de Elba Ramalho.

De Elba para Marinês. Saudade de Campina Grande. Saudades de Marinês!

E para terminar, a Rainha da Borborema vista de longe, por um nome da segunda geração da Bossa Nova. Marcos Valle com o baião Campina Grande.

Parabéns, Campina Grande!