“Dominguinhos é o melhor de nós todos”, disse Sivuca

“O sol nasceu, a lua nasceu/o dia nasceu, o sol nasceu/é tudo mentira/é tudo figura”.

Não são versos conhecidos. Estão na letra de Quem Nasceu, blues de Péricles Cavalcanti que Gal Costa canta na abertura do disco Temporada de Verão, de 1974. O grupo que acompanha a cantora tem o sax de Oberdan e a guitarra de Cláudio Stevenson, que logo ouviríamos na Banda Black Rio. Mas o que sempre me impressionou foi o som da sanfona. Primeiro, na harmonização, enquanto Gal está cantando. Depois, no solo. O senso de improvisação, as soluções jazzísticas de um mestre do forró chamado Dominguinhos.

Em 1976, quando Gilberto Gil esteve em João Pessoa com o show Refazenda, fui ver a passagem de som no Teatro Santa Roza.

Final de tarde, plateia completamente vazia, alguns técnicos espalhados pelo teatro. Lá no palco, Gil num violão plugado, Dominguinhos à sanfona, Moacir Albuquerque no baixo, Chiquinho Azevedo na bateria. Os quatro em improvisações intermináveis. “Fazendo som”, como se dizia na época. Recriando músicas do set list da noite. Os instrumentos dialogando em Essa É Pra Tocar no Rádio, com aquela levada funk à Miles Davis. O Miles de On the Corner. E Dominguinhos no meio. Totalmente à vontade. Um forrozeiro aberto a outras possibilidades. Guiado por Gil, seu parceiro no blues da caatinga Lamento Sertanejo.

Menciono o Dominguinhos que não é do forró porque acho que circunscrevê-lo aos ritmos nordestinos restringe o seu talento. Mas é claro que a essência do que ele produziu está na música da sua região. Desde o dia em que, ainda menino, foi visto e descoberto por Luiz Gonzaga, cuja ajuda foi determinante para que viesse a se tornar um artista.

Tocou com Gonzaga quando este amargava o ostracismo. Percorreu o país com o Rei do Baião. Esteve com ele no momento em que recuperou prestígio e público. O show Luiz Gonzaga Volta Pra Curtir é o retrato da reentrada. E Dominguinhos está lá. Sua sanfona se mistura a uma guitarra elétrica, que não era comum no grupo que acompanhava Gonzaga. Mas que antecipa algo do seu encontro com Gil.

Dominguinhos deu a Gil o xote Só Quero um Xodó. Foi parceiro de Chico Buarque em Tantas Palavras. Colocou notas e acordes de grande melancolia em Cajuína, de Caetano Veloso. Escreveu (com Manduka) e cantou lindamente a toada Quem me Levará Sou Eu. Compôs (com Nando Cordel) De Volta pro Aconchego, para Elba Ramalho imortalizar. Dividiu com Sivuca e Oswaldinho um disco (Cada um Belisca um Pouco) em que os três sanfoneiros prestam tributo a Luiz Gonzaga. Este costumava atribuir ao afilhado a urbanização do forró. E um compromisso muito sério com o Nordeste. Gonzaga estava certíssimo. Sabia que Dominguinhos seria um dos seus herdeiros. Talvez o principal. O que faria mais justiça ao seu legado. O mais fiel na interpretação do seu cancioneiro.

“Dominguinhos não sabe uma nota, mas harmoniza tão bem ou melhor do que nós todos. É pura intuição, mas uma intuição privilegiada. Para mim, é o melhor de nós todos. E ninguém toca forró nordestino melhor do que ele” – me disse Sivuca pouco antes de morrer. E ele não foi generoso com o colega. Apenas verdadeiro.

Luiz Gonzaga? Meninos, eu vi!

Caetano Veloso disse, certa vez, que Roberto Carlos vem de regiões profundas do ser do Brasil. Uma grande definição, fidelíssima à dimensão deste artista a quem chamamos de Rei.

Podemos usar a frase para o Rei do Baião. Luiz Gonzaga vem de regiões profundas do ser do Nordeste. Também dimensiona muito bem o homem que, junto com Humberto Teixeira, transformou o tema regional Asa Branca num dos clássicos da música popular brasileira.

Fui apresentado às suas músicas quando era garoto. O Nordeste na Voz de Luiz Gonzaga era o título do LP que eu ouvia na casa do meu avô paterno. Foi o primeiro de muitos discos.

Mas há uma outra lembrança associada à infância. Na minha rua, a Conceição, em Jaguaribe, havia festa de Santo Antônio, São João e São Pedro. Grandes festas populares organizadas por moradores e compartilhadas com a vizinhança.

Numa delas, e isto nunca saiu da minha memória, o que mais se ouvia era Gonzaga cantando: “A fogueira está queimando em homenagem a São João”. Mesmo que ele amargasse o ostracismo.

Tenho muito orgulho de ter ouvido Luiz Gonzaga em seu tempo. Mais ainda: de tê-lo visto de perto, ao vivo, inúmeras vezes. E com a consciência absoluta de que, sem nenhum exagero e sem qualquer favor, estava diante de um dos fundadores da canção popular brasileira.

Um gigante. Um artista autêntico, verdadeiro em sua simplicidade e sua força intuitiva. Gonzaga, seus trajes de Rei do Baião, sua sanfona, suas músicas belas e impregnadas de melancolia. O melhor pop nordestino produzido para atravessar o tempo e inserir-se na memória afetiva de milhares de pessoas, rurais ou urbanas, que cresceram ouvindo aquelas canções em casa e nas nossas festas juninas.

Uma vez, fui convocado a enumerar as músicas que prefiro no extenso repertório de Luiz Gonzaga. Légua Tirana é uma delas. Estrada de Canindé e A Morte do Vaqueiro também estão entre as prediletas. Adoro Noites Brasileiras e Olha pro Céu, uma marchinha junina comovente. O Xote das Meninas é uma delícia. Da parceria com Zé Dantas. Tema universal tratado com olhar regional. Vozes da Seca estava nas audições com meu avô, precursora da canção de protesto. Assum Preto é Asa Branca em tom menor. A lista não tem fim.

Na segunda metade dos anos 1970, fui à Assembleia Legislativa ver Luiz Gonzaga receber o título de cidadão paraibano. O discurso de tom excessivamente regionalista me pareceu ingênuo, mas ele merecia todos os aplausos. A despeito das críticas que lhe eram feitas (a defesa da ditadura, a não autoria das canções). Ele é muito maior do que o que se pode dizer de negativo a seu respeito.

O encontro com o filho Gonzaguinha, na turnê que passou por João Pessoa no início da década de 1980, não sairá da memória de quem o testemunhou. A homenagem permanente a Gonzaga é não deixar de ouvi-lo.

Luiz Gonzaga em quadrinhos e a morte do seu editor

Peço licença ao leitor para contar uma história que tem muito de pessoal.

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Um ano atrás, numa conversa casual, Carlos Roberto de Oliveira, o editor da Patmos, me disse que ia expandir para outros estados a série Primeira Leitura, começando por Pernambuco. Pediu uma sugestão. Respondi prontamente: Luiz Gonzaga. E, mais prontamente ainda, ouvi o desafio: por que você não faz?

Foi assim que nasceu Luiz Gonzaga em quadrinhos.

Escrevi o roteiro já no formato de uma história em quadrinhos, com o texto narrativo e os diálogos prontos para que o ilustrador Megaron Xavier trabalhasse sobre eles.

Escrevi pensando no tempo em que meu avô paterno me apresentou à música de Luiz Gonzaga. Reouvindo os muitos discos do Rei do Baião que tenho em minha discoteca. E, sobretudo, guiado pela convicção do quanto é importante participar de esforços pela preservação da arte de Gonzaga, riquíssima expressão do povo do Nordeste.

O livro ficou pronto no final de setembro, há pouco mais de um mês, em meio a muitas conversas com Carlos Roberto. Está em algumas livrarias, mas não chegou a ter um lançamento. Foi uma “viagem” prazerosa contar a história de Luiz Gonzaga em quadrinhos.

No domingo passado (30), fomos surpreendidos pela morte do nosso editor. A série Primeira Leitura, já com 13 livros dedicados a vultos da Paraíba e um primeiro a Pernambuco, fica como o último grande projeto de Carlos Roberto de Oliveira. Uma verdadeira declaração de amor ao público infantojuvenil, tão carente de leitura.

Top 5 das músicas em homenagem a Campina Grande. Parabéns CG!

O forró morou em Campina Grande, dizia um amigo meu com ótimo ouvido musical. Dos grandes nomes do gênero, muitos moraram lá. Ou passaram por lá em momentos importantes. Praticamente todos construíram laços afetivos e profissionais com a cidade que foram determinantes em suas carreiras.

Hoje é aniversário de Campina Grande. E a minha homenagem, naturalmente, é com música: um top 5 das músicas compostas para a Rainha da Borborema.

Começo com Tropeiros da Borborema na voz de Luiz Gonzaga.

Com Jackson do Pandeiro, Alô Campina Grande.

Jackson gravou Bodocongó, mas, no meu top 5, vai a versão de Elba Ramalho.

De Elba para Marinês. Saudade de Campina Grande. Saudades de Marinês!

E para terminar, a Rainha da Borborema vista de longe, por um nome da segunda geração da Bossa Nova. Marcos Valle com o baião Campina Grande.

Parabéns, Campina Grande!

Orquestra Sinfônica faz concerto em igreja no Valentina Figueiredo

A Orquestra Sinfônica da Paraíba leva o projeto OSPB nos Bairros ao Valetina Figueiredo.

O concerto será nesta quinta-feira (06) às 19h00 na igreja de Nossa Senhora Aparecida, com entrada gratuita.

No programa, a Orquestra Sinfônica executará compositores eruditos, como Tchaikowsky e Sibelius, e populares, como Luiz Gonzaga e Felinho. A regência será do maestro Luiz Carlos Durier.

Luiz Carlos Durier

O objetivo do projeto é levar música para os moradores das comunidades. Na semana passada, a OSPB se apresentou em Mangabeira.

Luiz Gonzaga Jr. virou Gonzaguinha. E fez o pai virar Gonzagão

Se estivesse vivo, Gonzaguinha faria 71 anos nesta quinta-feira (22).

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Luiz Gonzaga Jr. era como o chamávamos quando se projetou no início dos anos 1970. “Belo é o Recife pegando fogo/na pisada do maracatu” – ouvimos em “Festa”, na voz de Luiz Gonzaga, o pai, quando poucos conheciam o filho.

Circuito universitário, pequenos festivais, Som Livre Exportação, Gonzaguinha já estava nas imagens de um filme chamado “Som Alucinante”, no final de 1972. Ao vivo, fomos vê-lo pela primeira vez na caravana “Setembro”, em 1975.

A caravana era algo inacreditável. Não seria possível nos dias de hoje. Um ônibus, um grupo de artistas, shows de cidade em cidade. E que artistas! Paulinho da Viola, Fagner, Gonzaguinha, Moraes Moreira. Mais Sueli Costa, Copinha e sua flauta, Armandinho, Dadi e Gustavo, que depois formariam A Cor do Som. De dia, uma pelada com um time local, um filme (“Chega de Demanda, Cartola”), um bate-papo. De noite, o show. Em João Pessoa, no ginásio do Sesc, no centro. Público? Quase nenhum. Gonzaguinha estava lá, à época de “Plano de Vôo”.

“Começaria Tudo Outra Vez”. Disco e show em 1976. No palco, somente voz e violão. O artista viajava numa Kombi, se hospedava na casa de um amigo. No ano seguinte, “Moleque Gonzaguinha”. Gonzaguinha e banda. Tinha Fredera na guitarra, Arnaldo Brandão no baixo. Tudo visto bem de perto, no Teatro Santa Roza. Parece mentira! Muita conversa na hora da coletiva, jantar depois do show. O poeta Caixa D’Água no meio. Vivíamos no Brasil da ditadura, sonhando com o Brasil redemocratizado. Estávamos em 1977.

Depois, a explosão. “Gonzaguinha da Vida”. O sucesso. “Explode Coração” na voz de Bethânia. “Não dá mais pra segurar…”. O moleque desceu o São Carlos, pegou um sonho e partiu. “Pensava que era um guerreiro/com terras e gentes a conquistar”. Na passagem por aqui, uma noite no Santa Roza, outra no ginásio do Astrea. Uma grande banda. Um grande show. Gonzaguinha estava incorporado ao primeiro time da MPB. Fazia parte das vozes que lutavam contra a ditadura. Como Ivan Lins e João Bosco, seus contemporâneos.

Luiz Gonzaga Jr. virou Gonzaguinha. Sua música tinha o baião do pai e o samba do morro de São Carlos, onde Dina o criou. E muitas outras coisas. Do bolero (“Começaria Tudo Outra Vez”) ao rock (“Petúnia Resedá”). Do fado (“É Preciso”) ao blues (“Uma Família Qualquer”).

No disco de 1979, o dueto com Luiz Gonzaga, em “A Vida do Viajante”, parecia o prenúncio do show que fariam juntos. Só quem viu sabe como foi bonito! Gonzaga, o velho, até virou Gonzagão. Saudades de Luiz Gonzaga Jr., saudades daqueles shows inacreditáveis!

Parceria de Roberto e Erasmo é um mistério a ser desvendado

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.

Spok encerra turnê em JP. É o frevo na sala de concertos

A Spok Frevo Orquestra se apresentou neste domingo (14) no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural, em João Pessoa. Foi o último dos 30 shows da turnê de lançamento do CD “Frevo Sanfonado”.

Spok JP

A big band liderada pelo maestro e saxofonista Spok inovou ao levar a improvisação do jazz para o frevo pernambucano. Agora, dedica um disco e um show aos frevos sanfonados. A matriz é o “Frevo Sanfonado” de Sivuca, que gravou uma série de discos chamada “Forró e Frevo”.

O frevo é uma das mais refinadas expressões da música popular que os brasileiros produziram. São pequenas peças de dificílima execução, extraordinário virtuosismo e grande riqueza melódica e harmônica. Feito para dançar nas ruas e nos salões, o frevo, por sua beleza, também é muito bom de ouvir.

A Spok Frevo Orquestra é uma big band com 17 músicos (quatro saxofones, quatro trombones, quatro trompetes, guitarra, baixo, bateria e percussão). Formação semelhante à Orquestra Tabajara, de Severino Araújo. Ou às orquestras americanas de jazz.

Vê-la ao vivo, como vimos neste domingo em João Pessoa, é um luxo absoluto! É espetáculo de altíssimo nível musical, que pode ser apresentado em qualquer grande festival de jazz do mundo!

Já vi Spok em praça pública, fazendo carnaval. Já vi acompanhando Antônio Nóbrega ou dividindo o palco com Wynton Marsalis, um dos gigantes do jazz. É sempre uma exibição que impressiona pela qualidade do trabalho.

Dessa vez, não foi diferente. Acrescentaram-se as sanfonas e um belo diálogo com outras expressões da música nordestina (aboios, Luiz Gonzaga, etc.).

Spok levou o frevo para a sala de concertos. É um privilégio ver a sua orquestra ao vivo.