Influência dos Beatles é marcante na música de Washington Espínola

Estou ouvindo The King’s Dream, o novo CD de Washington Espínola, músico paraibano radicado na Suíça desde a segunda metade dos anos 1990.

washington-espinola

Antes de falar do disco, um pouco de memória.

Conheci Washington e sua guitarra no comecinho dos anos 1980. No tempo em que ele, sem saber, deu uma contribuição ao rock brasileiro daquela década.

Conto essa história:

Herbert Vianna não sabia o que fazer no futuro. Seria músico?

De férias em João Pessoa, encontrou um rapaz tocando Beatles em Manaíra. Puxou conversa. Era Washington. Ficaram amigos. Mais do que isso: aquele encontro, segundo o que Herbert mesmo conta, foi decisivo na sua vida. Ajudou a definir o seu vínculo com a música.

Em resumo: sem ele, talvez não tivéssemos Paralamas do Sucesso.

A formação musical de Washington vem do dedicado ouvinte de rock que ele sempre foi.

Na década de 1980, formou um power trio, o Washington Espínola Trio. Ao lado do baixista Sérgio Galo e do bateria Glauco Andreza, fazia shows e tocava na noite pessoense.

Seu trabalho autoral era mais voltado para os temas instrumentais. Fusion, jazz rock, guitar heroes. Solos velozes, improvisação jazzística.

As canções foram chegando aos poucos. O desejo de cantar em estúdio também veio mais tarde.

The King’s Dream parece ser, até agora, o ponto alto desse caminho que Washington construiu depois que foi morar em Genebra.

O rock permanece como principal matriz do seu trabalho.

No novo CD, toca todos os instrumentos e se sai muito bem.

Se quisermos, identificaremos diversas influências. Fico com os Beatles, a mais nítida. Uns acordes que remetem a John Lennon, uma melodia que lembra Paul McCartney, mas, sobretudo, soluções harmônicas e melódicas que confirmam o amor de Washington pela música de George Harrison.

Até algo da melancolia do mais discreto dos quatro beatles se pode identificar nas canções de Washington Espínola.

Em alguns momentos, há solos de guitarra que lembram o Washington de anos atrás. Mas o predomínio é das canções. Compostas e executadas por um músico maduro.

Ouço The King’s Dream com alegria, pelo resultado obtido, e saudade do amigo!

Santana e Washington

(Na foto, no Festival de Montreux, Washington encontra Carlos Santana, um dos seus heróis)

Dia de Finados: mortos que fazem muita falta

Finados. Dia de lembrar os mortos.

Na redação, uma colega sugere: lembre-se de pessoas famosas que você admira muito, mortos que você queria que estivessem vivos.

A lista é imensa, mas escolhi oito nomes.

Antônio Carlos Jobim. O maior compositor popular do Brasil, o que melhor nos projetou internacionalmente com uma versão refinada do samba. Morreu em 1994.

tom-jobim

John Lennon. Musicalmente, não era o melhor dos Beatles. Mas era o mais inquieto, a maior personalidade do quarteto. Foi assassinado em 1980.

john-lennon

Billie Holiday. A mais verdadeira das vozes do jazz. Na juventude, nem sabia que seria cantora, de tão natural que para ela era cantar. Morreu em 1959.

billie-holiday

Federico Fellini. Um verdadeiro poeta do cinema. Em seus filmes, deu universalidade à pequena Rimini onde nasceu. Morreu em 1993.

federico-fellini

François Truffaut. Mestre do cinema francês e da Nouvelle Vague. O que teorizou na juventude, como crítico, levou para a tela em seus filmes. Morreu em 1984.

Francois Truffaut, realisateur francais, posant au debut des annees 80, lieu inconnu.

Nelson Rodrigues. No jornalismo, na literatura, no teatro, escreveu sobre o Brasil e, principalmente, sobre o homem. Como nos faz falta! Morreu em 1980.

nelson-rodrigues

Martin Luther King. Pastor da não violência, do pacifismo, das ideias generosas. Deveria ter vivido para ver Barack Obama na Casa Branca. Foi assassinado em 1968.

luther-king

Nelson Mandela. Sua história diz que há outros modos de fazer política. Morreu em 2013.

mandela

Drummond traduziu Beatles para o Português! Vocês sabiam?

O Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan remete, claro, ao debate sobre poesia e letra de música.

Poesia é uma coisa, letra de música é outra?

Poesia tem um status que letra de música não tem?

Letrista de música popular não é poeta?

As respostas ficam para os acadêmicos. Não sou um deles.

Mas lembro que o Brasil tem um caso muito interessante. Vinícius de Moraes! Sim! Vinícius era um poeta, no sentido acadêmico, que migrou para a música popular. Fez as duas coisas. E como fez bem!

Isso tudo é introdução para a razão de ser desse post.

carlos-drummond

Em 1969, eu era um menino de 10 anos apaixonado pelos Beatles. Um dia, meu pai pegou a revista Realidade (lembram dela?) e me disse:

Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes poetas da nossa língua, verteu letras dos Beatles para o Português! 

E lá estavam elas. Várias letras do Álbum Branco, que eu acabara de comprar, traduzidas por Drummond.

Sempre lembro delas. Drummond traduzindo Beatles enriquece o debate sobre poesia e letra de música.

Transcrevo A Felicidade É um Revólver Quente. É Happiness Is a Warm Gun, de John Lennon.

A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE

Até que essa garota não erra muito

oi oi oi oi oi oi oi oi

Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo

como lagartixa na vidraça

O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.

Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver

A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente
lá isso é.

Chuck Berry faz 90 anos. Chuck Berry Fields Forever!

Chuck Berry faz 90 anos nesta terça-feira (18).

chuck-berry-old

Há quatro décadas, quando quis difundir sua adesão ao rock, Gilberto Gil foi buscar inspiração na Strawberry Fields Forever de John Lennon e compôs Chuck Berry Fields Forever!

E cantou:

Rock é nosso tempo, baby

Rock’n’n  roll é isso

Chuck Berry Fields Forever! 

Claro! Se o assunto é rock’n’roll, Chuck Berry aparece logo na frente.

Lennon, quando o viu de perto num programa da televisão americana, gritou:

Chuck Berry! Meu herói!

E falou sobre o seu senso rítmico, a sua métrica, os comentários sociais das letras. Se o rock’n’roll tivesse outro nome, seria Chuck Berry! Quem disse foi o beatle.

chuck-berry

Eric Clapton? Keith Richards? George Harrison? Beatles? Rolling Stones? Todos foram influenciados pela guitarra de Berry.

Se pensarmos num fenômeno poderoso como o rock, esse artista extraordinário que faz 90 anos hoje é um fundador. Se pensarmos num instrumento icônico como a guitarra, é um inventor. Seus riffs e suas soluções soam pelo mundo há 60 anos!

Há muitos anos, escrevi sobre ele e publiquei no meu livro Meio Bossa Nova, Meio Rock’n’ Roll:

Nascido em St. Louis, Chuck Berry é um músico simples, primitivo, mas, a despeito disso, carrega consigo uma força criadora que o transformou num grande artista popular. O que fez com a guitarra se insere no terreno da invenção. Ele ajudou a criar uma linguagem, a estabelecer os fundamentos de um gênero. Seus riffs se confundem com o próprio rock. A introdução que repete, com ligeiras alterações, em várias músicas, é uma marca registrada não apenas do seu estilo, mas do rock’n’ roll. 

E tem os rocks e blues absolutamente antológicos que compôs. Johnny B. Goode, o maior de todos.

No filme De Volta Para o Futuro, quando, sem saber, “inventa” o rock, o garoto que viajou no tempo toca Johnny B. Goode! E deixa a plateia estarrecida. Sim, porque ele vem de uma época em que a gramática do instrumento já está escrita, com todas as suas possibilidades. Associada também à presença cênica dos artistas do rock. Coisas que não existiam antes de Berry.

Portanto:

Hail! Hail! Rock’n’ Roll!

Chuck Berry Fields Forever!

Bob Dylan, o bardo judeu romântico de Minnesota, é Nobel de Literatura!

dylan-nos-1960

Começamos esta quinta-feira (13) com uma grande e surpreendente notícia. Bob Dylan é Nobel de Literatura!

Surpreendente porque a regra é que o prêmio da Academia Sueca vá para um nome da literatura. Não para um músico. Um músico de rock, um letrista de música popular, e não um poeta no sentido clássico da palavra.

Grande notícia porque tem uma extraordinária força simbólica. Dar o Nobel a Dylan é conferir aos letristas da música popular um status acadêmico nem sempre admitido. É reconhecer as inovações literárias processadas no seu campo de criação. É também premiar uma geração brilhante que, meio século atrás, enriqueceu o mundo com suas melodias, seus versos, suas ideias generosas.

O Dylan premiado com o Nobel representa todos. Os Beatles, os Rolling Stones, a musa Joan Baez, Paul Simon, que hoje faz 75 anos. Os daqui também. Caetano, Chico, Gil, grandes letristas, no nível dos melhores do mundo. O nosso Zé Ramalho, em cuja música há tantos traços de Dylan, a quem já dedicou um disco inteiro.

Júbilo para os ouvintes de Mr. Zimmerman! Principalmente os da geração dele, os que puderam ouvi-lo desde o início, há mais de 50 anos. Também para os da minha faixa etária, os que estão beirando os 60. Os que alcançaram Dylan num momento de grande criatividade, ainda com o frescor da juventude por perto.

Em maio, quando Dylan fez 75 anos, escrevi algo sobre ele. Transcrevo parte aqui:

Judeu, Robert Allen Zimmerman é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com essas duas opções. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.   

Sete discos nos oferecem o melhor Dylan. De The Freewheelin’ (1963) a John Wesley Harding (1968). Entre os dois, temos Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. As questões cruciais do artista e sua obra estão neles. Mas é claro que há muito o que ouvir nos anos seguintes. De New Morning a Desire, de The Basement Tapes a Blood on the Tracks. E o ao vivo Before the Flood, em que divide o palco com o grupo The Band, que o acompanhou muitas vezes em estúdios e turnês. 

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.      

Quem chama Dylan de o bardo judeu romântico de Minnesota é Caetano Veloso, na letra de A Bossa Nova É Foda.

O sonho acabou de Lennon inspirou o sonho acabou de Gilberto Gil

Ainda John Lennon, aniversariante do dia.

The dream is over. O sonho acabou.

A frase de John Lennon está na letra de God. A canção foi gravada em 1970, pouco após a dissolução dos Beatles.

Há outro verso muito forte na letra: Deus é um conceito através do qual medimos a nossa dor. Mas foi o dream is over que marcou uma geração.

Lennon decreta o fim do sonho e convoca os amigos queridos para uma outra caminhada.

gil-e-gal

Em 1970, Gilberto Gil estava exilado em Londres, depois de ter sido preso pelo governo brasileiro. No amanhecer da última madrugada do festival de Glastonbury, ele foi buscar inspiração para compor a sua O Sonho Acabou.

Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou.

Foi pesado o sono pra quem não sonhou.

O próprio Gil explica:

A frase de John Lennon estava no ar. O Sonho Acabou diz respeito à minha identificação com ele em seu novo momento de reciclagem do lixo aquariano e arquivamento de um certo deslumbramento do psicodelismo. 

Gil de novo:

Aquilo reorganizou nossas hostes de anjos e demônios internos. Aquilo reordenou o diálogo interno e falou fundo nos nossos corações e me fez meditar, ajudando a trabalhar minha volta ao Brasil. Voltar para casa e retomar a função pastoral.

Top 10 de John Lennon sem “Imagine”

Se estivesse vivo, John Lennon faria 76 anos neste domingo (09).

Um leitor me propôs um top 10 de Lennon solo. Mas impôs uma condição: sem Imagine! 

Pergunto o motivo, ele responde: foi banalizada demais!

OK! Eis a lista. É pessoal. E não satisfaz. Melhor se fosse top 20.

God

Mother

Working Class Hero

Gimme Some Truth

Woman Is the Nigger of the World

New York City

The Luck of the Irish

Mind Games

Aisumasen

Nobody Loves You

Vídeo de “Imagine”, do Unicef, tem Neymar e Daniela Mercury. Veja

Fazia apenas um ano da separação dos Beatles, em 1971, quando John Lennon lançou o LP Imagine.

A música que nos impactou mais na primeira audição foi Gimme Some Truth. Dê-me alguma verdade!, bradava Lennon.

Àquela altura, ninguém tinha a dimensão de que Imagine se transformaria num hino. Os sonhos expressos na letra eram impossíveis, mas isso não impediu que a balada se consolidasse como um cântico de paz, de harmonia, de entendimento entre os povos.

Dentro desse espírito, Imagine aparece agora num vídeo do Unicef em que a gravação original de Lennon se mistura às vozes de famosos de hoje. Entre eles, Neymar e Daniela Mercury.

O vídeo chama a atenção para crianças refugiadas e imagina um mundo melhor para elas. O projeto tem o aval de Yoko Ono, viúva de John Lennon.

Paul McCartney está morto! Paul McCartney está vivo!

Os Beatles lançaram Abbey Road em 26 de setembro de 1969.

Quando o disco  chegou às lojas, a notícia da “morte” de Paul McCartney, difundida por um DJ americano, tomou conta da imprensa mundial. O beatle teria morrido num acidente. Um sósia assumira o seu lugar.

O DJ apresentava as “provas”. Elas estavam nas canções e nas capas dos discos dos Beatles.

Na capa de Abbey Road, o quarteto encenava o cortejo fúnebre. John Lennon, à frente, de branco, é o padre. Ringo Starr, de preto, é o agente funerário. Paul McCartney, com os pés descalços e o passo trocado em relação aos outros, é o morto. George Harrison, de jeans, é o coveiro. As mãos de Ringo e de George seguram as alças do caixão.

abbey-road-cover

Em 1993, o próprio Paul McCartney brincou com a lenda. O beatle apareceu atravessando a mesma faixa de pedestres, em frente ao estúdio da EMI, na capa de um disco gravado ao vivo. E o título garantia: Paul is Live!

paul_is_live_cover

Música para celebrar o Dia Internacional da Paz

Nesta quarta-feira (21), celebra-se o Dia Internacional da Paz. A almejada e utópica paz em um mundo cada vez mais conflagrado.

A data remete aos verdadeiros apóstolos da não violência. O reverendo Martin Luther Kink. E o nosso Dom Hélder Câmara, que vimos de perto tantas vezes, em encontros inesquecíveis.

Aqui na coluna, marco a data com um pouco de música.

Primeiro, A Paz, letra de Gilberto Gil sobre melodia de João Donato.

Por último, Give Peace a Chance, do beatle John Lennon.