39 anos da morte de Lennon: Yoko protesta contra as armas

Yoko Ono, neste domingo (08), usou uma rede social para fazer um protesto contra o uso de armas de fogo nos Estados Unidos.

Ela postou:

Caros amigos. Todos os dias, 100 norte-americanos são mortos por armas de fogo. Estamos transformando este lindo país em uma zona de guerra. Juntos, vamos trazer de volta a América, terra verde de paz.

A morte de um ente querido é uma experiência que deixa marcas. Depois de 39 anos, Sean, Julian e eu ainda sentimos falta dele. Imaginem as pessoas vivendo a vida em paz. 

Há um número na postagem de Yoko:

Mais de 1,4 milhão de pessoas foram mortas por armas de fogo desde John Lennon.

Neste domingo, faz 39 anos que Lennon foi assassinado em frente ao Dakota, em Nova York.

Yoko Ono, com quem era casado, está com 86 anos.

Jornal O Norte fez título ridículo no assassinato de John Lennon

Neste domingo (08), faz 39 anos do assassinato de John Lennon.

Era uma segunda-feira, feriado de Nossa Senhora da Conceição, e eu fui ao Recife ver O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima.

Na manhã da terça-feira, logo cedo, passei na Disco 7 e voltei para João Pessoa.

Ao chegar em casa, recebi um telefonema de Carlos Aranha, companheiro de redação em A União:

“Soube da morte?” – perguntou.

“Não” – respondi.

“John Lennon” – ouvi dele.

“Como?” – indaguei.

“Assassinado em Nova York” – afirmou.

Corri para o jornal e me tranquei no Departamento de Pesquisa para redigir o necrológio.

No meio da tarde, Gonzaga Rodrigues, nosso diretor técnico, conversou um pouco comigo. Estava chocado, embora os Beatles não fizessem parte das suas audições.

O mundo estava chocado. A primeira visita, como presidente eleito, de Ronald Reagan a Nova York foi esvaziada por causa do assassinato.

Uma multidão se reunira na frente do Dakota, cenário do crime. O edifício de luxuosos apartamentos, 12 anos antes,  havia sido usado por Roman Polanski em O Bebê de Rosemary. Passava a ser duplamente sombrio.

À noite, a redação e a oficina de A União pararam para assistir ao Jornal Nacional.

Quem “desceu” o material escrito por mim foi Agnaldo Almeida, nosso editor.

O título – uma manchetona – também foi dele:

JOHN LENNON ESTÁ MORTO

O caderno B do Jornal do Brasil, que guardo até hoje, veio com:

ÍDOLO DA CANÇÃO MUNDIAL NÃO PÔDE DIZER AS ÚLTIMAS PALAVRAS

A Folha:

A MORTE DE UM BEATLE

O jornal O Norte saiu com um título no mínimo esquisito:

ESPANTO, RAIVA E PENA NO MUNDO. ASSASSINADO LENNON, DOS BEATLES 

Na redação de A União, rimos incrédulos com o que havia de ridículo no título.

Mas nunca descobrimos o autor da “pérola”.

Eduardo Bolsonaro, Chapman atirou em Lennon pelas costas!

Comprei esse livro em novembro de 1983. Está anotado dentro do exemplar.

A Balada de John & Yoko.

O assassinato de John Lennon ainda era um fato muito recente. Pouco menos de três anos.

O livro, lançado no Brasil pela Abril, foi organizado pelos editores da revista Rolling Stone.

Reúne textos publicados pela revista quando Lennon era vivo, mas também artigos escritos depois da sua morte. Traz ainda entrevistas e dois portfólios assinados por Annie Leibovitz.

Algumas das melhores análises que li sobre a obra dos Beatles e de Lennon estão neste livro, em ensaios críticos e biográficos.

A última entrevista de Lennon à Rolling Stone foi feita três dias antes do seu assassinato. O último ensaio fotográfico de Leibovitz é do dia da tragédia.

A Balada de John & Yoko, através dos seus muitos textos, oferece um retrato do artista, durante e depois dos Beatles, e fala da sua relação com Yoko Ono e do papel que ela desempenhou na vida e na arte dele.

“Entre as muitas coisas que serão por muito tempo lembradas a respeito de John Lennon, uma das mais espantosas é o compromisso inflexível e sem limites de sua vida, seu trabalho e seu corpo franzino com a verdade, a paz e a humanidade” – escreve Jann Wenner logo no começo do livro.

Na época do lançamento do livro, A Fundação Contra a Violência na América (The Foundation on Violence in America) recebeu parte dos direitos da publicação.

Essa organização foi criada para facilitar uma notável, significativa e sustentável redução na violência provocada por armas de mãos nos Estados Unidos.

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No Brasil de 2019, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, sugeriu que tudo teria sido diferente naquele oito de dezembro de 1980 se John Lennon estivesse armado.

Teria sido diferente – ouvi de uma voz sensata – se Mark Chapman estivesse desarmado.

De volta ao Brasil, McCartney já foi tratado como lixo pop

Paul McCartney está de volta ao Brasil.

Na semana que vem, fará shows terça (26) e quarta (27) em São Paulo e sábado (30) em Curitiba, onde esteve pela última vez em dezembro de 1993.

Às vésperas de completar 77 anos, faz tempo que Paul é uma unanimidade no mundo do pop/rock.

Mas nem sempre foi assim.

Ele já foi considerado um verdadeiro lixo pop.

Precisou até de um livro – Many Years From Now – para tentar desfazer essa imagem.

Perrepistas e liberais.

Estados Unidos e União Soviética.

Flamengo e Vasco.

Sabem aquelas forças antagônicas?

Tipo Beatles e Rolling Stones?

Pois é. Um dia houve também John Lennon e Paul McCartney.

No início dos anos 1970, ou você era John Lennon ou era Paul McCartney.

Muito raramente havia espaço para os dois na mesma discoteca.

John Lennon era o gênio politizado.

Paul McCartney era o tolo que fazia muzak.

Uma bobagem sem tamanho que, em alguns, perdurou até a década de 1990!

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Nunca gostei dessa conversa.

Sempre amei imensamente os dois. Compreendendo que um era diferente do outro. Por isso, se completavam enquanto beatles.

John Lennon fez John Lennon/Plastic Ono Band. E Imagine.

Paul McCartney fez Band on the Run. E Venus and Mars.

E ainda teve George Harrison que fez All Things Must Pass. E Living in the Material World.

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Desde 2010, o relançamento dos discos de Paul McCartney, em caprichadas edições, propicia um feliz reencontro com o seu cancioneiro solo.

Já são 12 volumes remasterizados e com material inédito.

Agora mesmo, temos mais dois no mercado: Wild Life e Red Rose Speedway, da época do grupo Wings.

Foram execrados por críticos e ouvintes na primeira metade dos anos 1970.

Padeciam de um comercialismo vulgar – diziam os que detratavam Paul.

Hoje, são adoráveis. Reúnem rocks e baladas com a inconfundível e competentíssima assinatura do autor.

Não têm nada de lixo pop.

É pop/rock de primeira qualidade.

Reouço velho grito de paz quando muitos ainda querem guerra

Encontro um CD raro entre os usados expostos numa loja.

Live Peace in Toronto.

Traz o show de John Lennon, Yoko Ono e a Plastic Ono Band num festival realizado em 1969.

Minha reaudição coincide com a data (20 de março) em que faz 50 anos do casamento de John e Yoko.

Live Peace in Toronto foi gravado e lançado antes da separação dos Beatles.

No lado A, há seis números com Lennon.

No lado B, dois com Yoko.

Os números de Yoko talvez possam ser classificados como rock de vanguarda. Ela grita em cima de uma base de rock.

Falo um pouco sobre as faixas de Lennon.

John e a Plastic Ono Band tocaram praticamente sem ensaio em Toronto.

Muitos desejariam uma banda como aquela: Eric Clapton na guitarra, Klaus Voorman no baixo, Alan White na bateria.

Das seis músicas, três são clássicos do rock’n’ roll: Blue Suede Shoes, Money e Dizzy Miss Lizzy.

As outras três têm a assinatura de Lennon: Yer Blues (gravada pelos Beatles em 1968) e, do início da fase solo, Cold Turkey e Give Peace a Chance.

O som é áspero.

É rock básico sem nenhum adorno nem muita conversa.

Por isso mesmo, é vigoroso. E visceral.

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É de 1995 a edição que ouço agora, oficial da Apple, lançada pela Capitol no mercado americano.

A captação original foi remasterizada e remixada.

A remixagem mudou sem mudar, se é que me faço entender.

Até a nota errada que Clapton dava na introdução de Dizzy Miss Lizzy desapareceu sem ser apagada (!!).

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Live Peace in Toronto 1969 é um estridente grito de paz.

John Lennon e Yoko Ono fizeram sexo num disco experimental

Nesta quarta-feira (20), faz 50 anos do casamento de John Lennon e Yoko Ono.

A cerimônia civil foi em Gibraltar.

Ele passou a se chamar John Ono Lennon. Ela, Yoko Ono Lennon.

Um disco experimental daquele momento traz John e Yoko fazendo sexo.

O disco se chama Wedding Album.

Álbum de Casamento.

Nunca foi lançado no Brasil.

No início dos anos 1970, ouvíamos numa edição importada.

Era sensacional!

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Jimi Hendrix, no palco, usava a guitarra para simular o ato sexual.

Janis Joplin também fazia a simulação no meio de Try.

Push on, hold on, move on – dizia Joplin, entre gemidos.

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Com John e Yoko, era sexo mesmo.

O lado inteiro de um LP.

Batidas de coração que vão ficando mais rápidas.

Ele a dizer “Yoko!”. Ela a dizer “John!”.

Vozes que vão ficando mais intensas até o ponto alto da transa.

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Wedding Album tem 50 anos.

Penso que ouvíamos o disco do casal Lennon num tempo em que as pessoas eram menos caretas.

ENTÃO É NATAL!

Nas últimas décadas, não há nenhuma canção natalina tão forte e marcante quanto Happy Xmas (War Is Over), de John Lennon e Yoko Ono. Pelo menos que tenha se tornado popular.

No Brasil, a música foi banalizada pela versão de Simone, executada à exaustão.

Mas, no original, conserva toda a sua beleza.

A gravação começa com dois sussurros:

Happy Xmas, Yoko – diz Yoko.

Happy Xmas, John – diz John.

Aí entra a voz inconfundível do beatle:

So this is Christmas.

Yoko aparece na segunda parte. Ela e as crianças do Harlem Community Choir.

São as crianças que fazem o contracanto: A guerra acabou/Se você quiser.

Composta há quase meio século e inicialmente associada a uma campanha pacifista de John e Yoko, Happy Xmas permanece atual nesse mundo conflagrado.

As imagens desse vídeo oficial mostram que o casal Lennon não estava brincando de ceia de Natal.

John Lennon está no céu ou no inferno?

Há um vídeo sobre Imagine circulando nas redes sociais.

Recebi também no privado.

Parece mostrar um pastor interpretando a canção de John Lennon. Não o conheço.

O beatle não era um homem religioso. Acho inútil ler suas canções à luz das religiões.

O vídeo e as reações a ele me levaram a um livro que comprei há 35 anos.

A Balada de John e Yoko trata da música e da performance pública do casal Lennon. Foi editado nos Estados Unidos pela revista Rolling Stone e lançado entre nós pela Editora Abril.

Assinado por Stephen Holden, o capítulo Dá-me um pouco de verdade tenta traduzir a música de Lennon.

Transcrevo um pequeno trecho dedicado à canção Imagine:

“Mas a obra-prima do disco é Imagine, a mais completa declaração artística e filosófica feita por Lennon como artista-solo. Imagine é uma perfeita mistura de aforismo e pop, além de um competente exercício de estratégia artística conceitual. Ao pedir às pessoas que vislumbrem um mundo utópico, sem lutas religiosas, políticas ou materiais, Lennon leva o ouvinte a participar com ele de uma prece comunal. Este convite onírico flutua na mais sedutora composição de Lennon, uma borboleta etérea que a produção ornamentou com cordas e ondulantes frases de teclados. Porém, em última análise, a tristeza subjacente da música implica na dúvida de Lennon quanto à possível realização deste sonho tão antigo”.

Top 5 de John Lennon no dia em que ele faria 78 anos

Se estivesse vivo, John Lennon faria 78 anos neste 09 de outubro.

Meus cinco discos prediletos de Lennon depois dos Beatles?

São esses aí.

John Lennon/Plastic Ono Band. Um dos grandes discos do rock. O melhor de Lennon. O dream is over já justificaria sua existência.

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Imagine. Lennon sob cuidadosa produção de Phil Spector. Com a canção que se tornaria um hino em escala planetária.

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Some Time in New York City. John & Yoko soltos em Nova York. Rocks e baladas irresistíveis num dos discos mais panfletários do rock.

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Walls and Bridges. Longe de Yoko, num interminável lost weekend, Lennon produziu intensamente. O melhor está nesse disco.

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Double Fantasy. A volta após uma ausência de cinco anos. A dupla fantasia do casal Lennon. Pouco antes do desfecho trágico.

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“Somos mais populares do que Jesus” é Lennon, não é Manuela

“O cristianismo vai acabar. Vai desvanecer e encolher. Não preciso discutir isso; sei que estou certo e será provado que estou certo. Somos mais populares do que Jesus agora. Não sei qual dos dois vai acabar primeiro – o rock’n’ roll ou o cristianismo. Jesus foi um cara legal, mas seus discípulos eram obtusos e banais. Foi a distorção deles que arruinou a coisa para mim”. 

A fala de John Lennon estava numa matéria que o Evening Standard publicou na Inglaterra no dia quatro de março de 1966. A transcrição que faço aqui é de John Lennon, a vida, biografia do músico escrita por Philip Norman.

A declaração não obteve qualquer repercussão no Reino Unido. O próprio Evening Standard não deu destaque a ela, não publicou em manchete.

Os Beatles mais populares do que Jesus Cristo? Isso pouco interessou na “cínica e agnóstica Grã-Bretanha”.

A reação ocorreu quatro meses depois e nos Estados Unidos. A Datebook, uma revista para adolescentes, ressuscitou a entrevista de Lennon e destacou a comparação entre rock e cristianismo, Beatles e Jesus Cristo.

Foi um escândalo e uma grave ameaça à turnê americana que o grupo estava prestes a iniciar.

Gente estimulando a garotada a se rebelar contra seus ídolos, discos queimados em praça pública.

Com a Ku Klux Klan no meio, a fatia mais conservadora da sociedade americana versus os Beatles – era o que se tinha da noite para o dia.

O empresário Brian Epstein tentou explicar. John Lennon também.

A coisa ganhou dimensão mundial. O Vaticano protestou.

“Há coisas que não podem ser tratadas de modo profano, nem mesmo no mundo dos beatniks”, disse o papa Paulo VI.

O tempo passou. Os Beatles sobreviveram. A música deles se sobrepôs ao episódio.

E cá estou eu, 52 anos depois, contando essa história por causa das eleições brasileiras.

O que as eleições brasileiras têm a ver com a polêmica entrevista de John Lennon?

Nada, não fosse a ideia, em posts nas redes sociais, de atribuir a Manuela D’ Ávila, vice de Fernando Haddad, o que o beatle disse.

Pode parecer sem importância, mas não é. A difusão desse tipo mentira, por gente intelectualmente desonesta, é um dos tantos retratos possíveis do processo eleitoral brasileiro.

Foi assim no primeiro turno. Imaginem no vale tudo do segundo.