O John Lennon que o mundo conhece deve muito a Yoko Ono

Os Beatles se separaram há quase cinco décadas, mas milhares de fãs ainda abominam Yoko Ono por atribuir a ela o fim do quarteto. Nunca fiz parte dos que viam a mulher de John Lennon com maus olhos. Sempre achei que ela, como artista de vanguarda, apontou novos caminhos para ele. Alguns, ainda na época do grupo. Outros, depois da separação. Yoko ia para o estúdio com John (as imagens do documentário “Let It Be” registram) e o influenciava em ousadias como “Revolution 9”. A tentativa de fazer música avan-garde que temos no “White Album” certamente não existiria sem Ono, que, embora não creditada, é, de fato, coautora da faixa.

John Lennon era sete anos mais novo do que Yoko Ono. Ele, nascido em outubro de 1940. Ela, em fevereiro de 1933. Os dois, crianças da guerra, conforme assinalava o livro “A Balada de John & Yoko”, editado há uns 35 anos pela revista Rolling Stone. No momento em que Lennon nasceu, Liverpool era bombardeada pelos alemães. Ono cresceu num país devastado pela guerra. Filha de uma família abastada, criada longe do pai, entre um professor que lhe apresentou a Bíblia e um criado que dava aulas de budismo. No meio, havia um piano. Quando os dois se conheceram, em meados dos anos 1960, Yoko não parecia destinada a se aproximar do universo do rock.

John e Yoko se encontraram em novembro de 1966 na Indica Gallery, em Londres. Ele foi à pré-inauguração da exposição dela. Lennon subiu uma escada que havia no meio da sala, olhou por um pequeno telescópio preso a uma tela pendurada no teto e leu a palavra “sim”. Também estava escrito: pregue um prego. Ele perguntou se poderia fazer isto. Ela disse que não. Afinal, a exposição ainda não estava aberta ao público. A história está no livro da Rolling Stone. E em muitos outros. Lenda ou realidade? Se for lenda, que prevaleça sobre a realidade quando aquela é melhor do que esta. Aprendemos com John Ford no clássico “O Homem que Matou o Facínora”.

Antes mesmo que os Beatles acabassem, o casal gravou três discos experimentais. “Two Virgins”, “Life With the Lions” e “Wedding Album” são trabalhos radicalíssimos que se contrapõem ao que John Lennon fazia ao lado de Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Mas que enriquecem a trajetória do artista que ele era e, indiretamente, do grupo ao qual seu nome esteve vinculado durante toda a década de 1960. John não era o melhor músico dos Beatles, mas a personalidade mais importante, inquieta, polêmica e controvertida. Yoko desempenhou papel fundamental na consolidação da sua figura pública e do que o mundo guarda da sua memória.

Yoko conduziu John por caminhos que talvez ele não tivesse trilhado sem ela. Nas exposições, nos filmes experimentais. Mas Lennon também levou Ono para os rocks e baladas do seu universo. O disco duplo “Sometime in New York City”, de 1972, confirma. É panfletário e ingênuo, mas irresistível. Flagra o casal em seu momento de mais intensa militância política em Nova York. Gritando contra as injustiças, a guerra. Sonhando com um mundo melhor. “A guerra acabou, se você quiser”, dizem os versos da canção natalina que ouvimos até hoje. John Lennon foi assassinado em 1980. Yoko envelheceu cuidando da memória dele. Neste sábado (18), ela faz 84 anos.

Zuckerberg faz discurso ideal, mas está longe da realidade!

Mark Zuckerberg publicou nesta quinta-feira (16) uma carta em que dialoga com os usuários do Facebook. Defende o conceito de uma comunidade global.

Fundador e CEO da rede social, Zuckerberg reage às críticas feitas ao Facebook.

O Face promove censura? Estimula discursos de ódio? Difunde notícias falsas? Acabou contribuindo com a eleição de Donald Trump?

Qual pode ser o seu papel no projeto de uma comunidade global?

Para a construção dessa comunidade global, Zuckerberg defende cinco mandamentos:

Comunidades solidárias. Comunidades seguras. Comunidades informadas. Comunidades civicamente engajadas. Comunidades inclusivas. 

Muito bom como lista de propósitos!

Tomemos o exemplo brasileiro. O que nós, usuários do Facebook, temos visto?

O que, na prática, o Face tem feito entre nós, um país mergulhado numa crise econômica e num impasse político, a não ser contribuir significativamente para acentuar as nossas divisões e a intolerância dos extremos?

Em que medida o Face que nós frequentamos, onde fazemos “amigos”, produz conteúdos que contribuem com a construção dessa comunidade global que possa melhorar o mundo?

O mundo de Zuckerberg, com suas comunidades solidárias, é belo e irreal como a letra de Imagine, essa balada do beatle John, que nós tanto amamos! Mas que nada pode fazer pelo caos do Espírito Santo quando é executada nas ruas por um motorista solitário!

O mundo está doente, disse o Papa Paulo VI. Faz tempo. Foi nos anos 1960, creio.

A frase continua valendo. Ou vale ainda mais!

As redes sociais têm um papel a desempenhar. O discurso de Mark Zuckerberg trata disso. É interessante como documento sobre a contemporaneidade. Inquieta, mas propõe caminhos difíceis nesse mundo convulsionado.

O progresso agora exige que a humanidade se una não como cidades ou nações, mas como uma comunidade global.

A frase de Zuckerberg parece mais com os versos utópicos de Lennon do que com a vida real!

“Strawberry Fields Forever” e “Penny Lane” fazem 50 anos!

O single (no Brasil, compacto simples) dos Beatles com Strawberry Fields Forever e Penny Lane está fazendo 50 anos.

Nos Estados Unidos, foi lançado no dia 13 de fevereiro de 1967. No Reino Unido, no dia 17.

As duas canções (uma de John Lennon, outra de Paul McCartney) eram o prenúncio de algo extraordinário que estava em gestação: o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, lançado em junho daquele ano.

Strawberry Fields Forever e Penny Lane são reminiscências da infância em Liverpool. Os Beatles fazem a música nova do presente falando do passado.

Strawberry Fields Forever, embora assinada por Lennon/McCartney, foi composta por John Lennon a partir das lembranças que ele tinha de um orfanato do Exército da Salvação.

O registro inicial não indicava que a canção pudesse se transformar num dos pontos altos da discografia do grupo e num marco indiscutível do rock psicodélico. Os diversos registros (há até um bootleg com eles) confirmam que a canção cresceu no estúdio, enquanto era gravada. E, aí, temos que somar a melodia enigmática de John ao arranjo deslumbrante de George Martin.

Seguem áudio e vídeo, para reouvir e rever.

Penny Lane, igualmente atribuída à dupla Lennon/McCartney, foi composta por Paul McCartney.

A letra fala de uma rua de Liverpool. É uma balada com as marcas do inspirado melodista que Paul sempre foi, desde muito jovem. O solo de trompete de David Mason remete ao barroco e às influências da música erudita que os Beatles, via George Martin, incorporaram ao trabalho deles.

Vamos rever o vídeo oficial.

Strawberry Fields Forever e Penny Lane se completam em suas diferenças. São tão belas que formam um compacto sem lado B. Na época, a canção de Lennon provocou uma certa estranheza em alguns ouvintes, o que não ocorreu com a de McCartney. A passagem do tempo as fez igualmente poderosas.

Foram gravadas para o Sgt. Pepper, mas acabaram ficando de fora.

Flagram os Beatles num impasse. Depois do LP Revolver, após o fim das turnês, o que restaria a eles?

A resposta veio nesse single agora cinquentenário.

Com todos os significados que encerram, Strawberry Fields Forever e Penny Lane continuam fascinantes!

Mulher é o negro do mundo em canção feminista de Lennon e Yoko

Uma garota da geração Y me fala do feminismo como grande novidade dos dias atuais. Argumentei que ela estava equivocada e que as lutas feministas vêm de longe, marcaram todo o século XX com importantes conquistas.

A conversa me fez lembrar de uma canção feminista muito ouvida no início da década de 1970. É a balada Woman Is the Nigger of the World, de John Lennon e Yoko Ono. Faixa de abertura do disco duplo Some Time in New York City.

Antes, um pouco do disco. Olhem a capa.

Some Time in New York City é de 1972. Tem, portanto, 45 anos. É um dos discos mais panfletários do rock. Traz na capa uma montagem com Nixon e Mao nus, dançando. As letras falam do Vietnã, da Irlanda, de Ática, dos negros, das mulheres, da esquerda americana, de John Sinclair, Angela Davis.

Woman Is the Nigger of the World é a faixa lançada em single na época. Um baladaço! Tipicamente Lennon!

A mulher é o negro do mundo!

Sim, ela é! Pense nisso!

A mulher é o negro do mundo!

Sim, ela é! Faça algo a respeito!

Vamos ouvir?

Primeiro, com Lennon.

Para encerrar, com a nossa Cássia Eller.

Happy Xmas, de Lennon, é linda, mas a melodia não é original!

Sou contemporâneo da canção.

Comecinho dos anos 1970. Entrei numa loja de discos, no centro de João Pessoa, e o vendedor, que era Ivan Cineminha, me mostrou o novo compacto de John Lennon,

Happy Xmas (War Is Over). John e Yoko cantando uma canção de Natal. Que Coisa linda!

Comprei na hora e acompanhei, ao longo dos anos, a inserção da canção no repertório natalino.

Aí está o vídeo oficial.

Mas algo me incomodou quando comecei a ouvir Happy Xmas. Vasculhei a memória, e lá estava a explicação, muito bem arquivada.

A melodia, a rigor, não tem originalidade. Lembra, excessivamente, Stewball, um tema do cancioneiro popular que muita gente gravou.

Ouvi primeiro com Joan Baez.

Mas ouvi muito também com Peter, Paul and Mary.

Claro que isso não diminui meu amor pela Happy Xmas de John. Nem mesmo a sua vulgarização, entre nós, por causa da versão de Simone (então é Natal, etc.)!

É tão singela a canção. E tão atual nesse mundo conflagrado!

John Lennon, um top 5 depois dos Beatles

Se estivesse vivo, John Lennon teria completado 76 anos em nove de outubro. Nesta quinta-feira (08), faz 36 anos que ele foi assassinado.

Ainda ouço muito Lennon, nos Beatles e depois deles.

Segue meu top 5 de John solo.

John Lennon/Plastic Ono Band. Um dos grandes discos do rock. O melhor de Lennon. O dream is over já justificaria sua existência.

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Imagine. Lennon sob cuidadosa produção de Phil Spector. Com a canção que se tornaria um hino em escala planetária.

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Some Time in New York City. John & Yoko soltos em Nova York. Rocks e baladas irresistíveis num dos discos mais panfletários do rock.

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Walls and Bridges. Longe de Yoko, num interminável lost weekend, Lennon produziu intensamente. O melhor está nesse disco.

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Double Fantasy. A volta após uma ausência de cinco anos. A dupla fantasia do casal Lennon. Pouco antes do desfecho trágico.

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O primeiro mérito de John Lennon é ter criado os Beatles. Criou e teve a percepção de que o rock seria o que fizessem dele. John é a maior personalidade do quarteto pelo conjunto do que produziu. E também por sua postura pública. Nele, rock, política e vanguarda se fundiram, e o resultado remete ao que se viu e ouviu de melhor na música popular da segunda metade do século passado.

O instrumentista limitado não impediu o crescimento do autor. Strawberry Fields Forever, uma das mais admiráveis canções dos Beatles, é toda sua, letra e melodia. Roqueiro visceral, Lennon foi a figura que projetou com maior intensidade a música e as atitudes do grupo.

Os Beatles ficaram juntos por apenas sete anos, de 1962 a 1969. A carreira solo de John durou somente cinco anos, de 1970 a 1975. Os cinco que se seguiram foram de reclusão e silêncio. A volta, no disco Double Fantasy, foi interrompida no final da noite de oito de dezembro de 1980, com o assassinato do artista em frente ao edifício Dakota, em Nova York.

Ao reouvi-lo, juntamos os recortes da sua trajetória. Como ele desejava fazer na velhice. Em frente ao mar da Irlanda.

George Harrison, o mais discreto dos Beatles, morreu há 15 anos

Nesta terça-feira (29), faz 15 anos que morreu o beatle George Harrison.

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Numa banda em que o comando era disputado por John Lennon e Paul McCartney, para George Harrison, o mais discreto e também o mais místico dos quatro Beatles, só havia lugar de coadjuvante. Mesmo que ele fosse o guitarrista solo, como se chamava na época. No começo, quando os Beatles gravavam covers de outros artistas, Harrison fazia o vocal principal de algumas canções. Como “Chains” e “Roll Over Beethoven”. Depois, os discos do quarteto traziam uma música de sua autoria, ou duas. Três no “Revolver”. Quatro no “Álbum Branco” porque era duplo. John e Paul, trabalhando juntos ou separados, escreviam a maior parte das canções, e o maestro e produtor George Martin dava preferência a elas.

Há quem defenda o argumento de que, nos Beatles, George Harrison desempenhou papel semelhante ao de Brian Jones nos Rolling Stones. Com a diferença de que Brian foi aniquilado porque tentou ser o líder. George ficou meio à margem, mas, a despeito disto, o quarteto não pôde prescindir da sua contribuição. Foi ele que apresentou a música indiana aos companheiros de banda e ajudou a difundi-la no Ocidente. Não ouviríamos Ravi Shankar se não fosse George Harrison. Deve-se a ele a presença de um instrumento como o sitar em incontáveis manifestações musicais do mundo ocidental, não só no universo do rock. O mesmo sitar que aparece em algumas gravações dos Beatles.

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George era melhor instrumentista do que John. Sua guitarra é muito marcante na produção do quarteto. No início, fortemente influenciada pelo rock da década de 1950, pelos solos criados por Chuck Berry e Carl Perkins. Depois, com cores próprias. O músico inventou o seu jeito de tocar o instrumento. Um modo choroso de se expressar. “Enquanto minha guitarra chora gentilmente”, diz o título da canção que gravou em 1968, no “Álbum Branco”, com solo não dele, mas do amigo Eric Clapton. Não tinha virtuosismo, mas era um perfeccionista. Um músico aplicado que criou belos solos para as canções dos Beatles.

Se fôssemos escolher uma música, diríamos que o melhor do autor está em “Something”. Foi composta sob inspiração de Ray Charles. A gravação dos Beatles beira a perfeição. O vocal de George, as vozes de John e Paul, o solo de guitarra, as notas graves do piano, o caminho percorrido pelo baixo, as cordas arranjadas e conduzidas por George Martin. Há muitos registros de “Something”. De Joe Cocker, cover branco de Charles. De Elvis Presley, de Frank Sinatra, que, uma vez, atribuíu a autoria a Lennon e McCartney. Nenhum supera o dos Beatles. Foi a única composição de Harrison a ocupar o lado A de um single do grupo.

Longe dos Beatles, George gravou o antológico álbum “All Things Must Pass”, seu maior feito. Reuniu os amigos no concerto para Bangladesh, precursor dos grandes eventos voltados para o combate à fome no mundo. Produziu pouco e se manteve distante do show business. Deixou saudades, além de belas e melancólicas canções.

Influência dos Beatles é marcante na música de Washington Espínola

Estou ouvindo The King’s Dream, o novo CD de Washington Espínola, músico paraibano radicado na Suíça desde a segunda metade dos anos 1990.

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Antes de falar do disco, um pouco de memória.

Conheci Washington e sua guitarra no comecinho dos anos 1980. No tempo em que ele, sem saber, deu uma contribuição ao rock brasileiro daquela década.

Conto essa história:

Herbert Vianna não sabia o que fazer no futuro. Seria músico?

De férias em João Pessoa, encontrou um rapaz tocando Beatles em Manaíra. Puxou conversa. Era Washington. Ficaram amigos. Mais do que isso: aquele encontro, segundo o que Herbert mesmo conta, foi decisivo na sua vida. Ajudou a definir o seu vínculo com a música.

Em resumo: sem ele, talvez não tivéssemos Paralamas do Sucesso.

A formação musical de Washington vem do dedicado ouvinte de rock que ele sempre foi.

Na década de 1980, formou um power trio, o Washington Espínola Trio. Ao lado do baixista Sérgio Galo e do bateria Glauco Andreza, fazia shows e tocava na noite pessoense.

Seu trabalho autoral era mais voltado para os temas instrumentais. Fusion, jazz rock, guitar heroes. Solos velozes, improvisação jazzística.

As canções foram chegando aos poucos. O desejo de cantar em estúdio também veio mais tarde.

The King’s Dream parece ser, até agora, o ponto alto desse caminho que Washington construiu depois que foi morar em Genebra.

O rock permanece como principal matriz do seu trabalho.

No novo CD, toca todos os instrumentos e se sai muito bem.

Se quisermos, identificaremos diversas influências. Fico com os Beatles, a mais nítida. Uns acordes que remetem a John Lennon, uma melodia que lembra Paul McCartney, mas, sobretudo, soluções harmônicas e melódicas que confirmam o amor de Washington pela música de George Harrison.

Até algo da melancolia do mais discreto dos quatro beatles se pode identificar nas canções de Washington Espínola.

Em alguns momentos, há solos de guitarra que lembram o Washington de anos atrás. Mas o predomínio é das canções. Compostas e executadas por um músico maduro.

Ouço The King’s Dream com alegria, pelo resultado obtido, e saudade do amigo!

Santana e Washington

(Na foto, no Festival de Montreux, Washington encontra Carlos Santana, um dos seus heróis)

Dia de Finados: mortos que fazem muita falta

Finados. Dia de lembrar os mortos.

Na redação, uma colega sugere: lembre-se de pessoas famosas que você admira muito, mortos que você queria que estivessem vivos.

A lista é imensa, mas escolhi oito nomes.

Antônio Carlos Jobim. O maior compositor popular do Brasil, o que melhor nos projetou internacionalmente com uma versão refinada do samba. Morreu em 1994.

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John Lennon. Musicalmente, não era o melhor dos Beatles. Mas era o mais inquieto, a maior personalidade do quarteto. Foi assassinado em 1980.

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Billie Holiday. A mais verdadeira das vozes do jazz. Na juventude, nem sabia que seria cantora, de tão natural que para ela era cantar. Morreu em 1959.

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Federico Fellini. Um verdadeiro poeta do cinema. Em seus filmes, deu universalidade à pequena Rimini onde nasceu. Morreu em 1993.

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François Truffaut. Mestre do cinema francês e da Nouvelle Vague. O que teorizou na juventude, como crítico, levou para a tela em seus filmes. Morreu em 1984.

Francois Truffaut, realisateur francais, posant au debut des annees 80, lieu inconnu.

Nelson Rodrigues. No jornalismo, na literatura, no teatro, escreveu sobre o Brasil e, principalmente, sobre o homem. Como nos faz falta! Morreu em 1980.

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Martin Luther King. Pastor da não violência, do pacifismo, das ideias generosas. Deveria ter vivido para ver Barack Obama na Casa Branca. Foi assassinado em 1968.

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Nelson Mandela. Sua história diz que há outros modos de fazer política. Morreu em 2013.

mandela

Drummond traduziu Beatles para o Português! Vocês sabiam?

O Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan remete, claro, ao debate sobre poesia e letra de música.

Poesia é uma coisa, letra de música é outra?

Poesia tem um status que letra de música não tem?

Letrista de música popular não é poeta?

As respostas ficam para os acadêmicos. Não sou um deles.

Mas lembro que o Brasil tem um caso muito interessante. Vinícius de Moraes! Sim! Vinícius era um poeta, no sentido acadêmico, que migrou para a música popular. Fez as duas coisas. E como fez bem!

Isso tudo é introdução para a razão de ser desse post.

carlos-drummond

Em 1969, eu era um menino de 10 anos apaixonado pelos Beatles. Um dia, meu pai pegou a revista Realidade (lembram dela?) e me disse:

Carlos Drummond de Andrade, um dos grandes poetas da nossa língua, verteu letras dos Beatles para o Português! 

E lá estavam elas. Várias letras do Álbum Branco, que eu acabara de comprar, traduzidas por Drummond.

Sempre lembro delas. Drummond traduzindo Beatles enriquece o debate sobre poesia e letra de música.

Transcrevo A Felicidade É um Revólver Quente. É Happiness Is a Warm Gun, de John Lennon.

A FELICIDADE É UM REVÓLVER QUENTE

Até que essa garota não erra muito

oi oi oi oi oi oi oi oi

Acostumou-se ao roçar da mão-de-veludo

como lagartixa na vidraça

O cara da multidão, com espelhos multicores
sobre seus sapatões ferrados
descansa os olhos enquanto as mãos se ocupam
no trabalho de horas extraordinárias
com a saponácea impressão de sua mulher
que ele papou e doou ao Depósito Público.

Preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo
para baixo, para os pedaços que deixei na cidade-alta,
preciso de justa-causa porque vou rolando para baixo

Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver
Madre Superiora dispara o revólver

A felicidade é um revólver quente
A felicidade é um revólver quente
Quando te pego nos braços
e meus dedos sinto em teu gatilho,
ninguém mais pode com a gente,
pois a felicidade é um revólver quente
lá isso é.