Retrato do artista diante da morte

Mexendo no Youtube, reencontro esse vídeo que muito me comoveu quando o vi pela primeira vez, em 2010, por ocasião da morte do músico Paulo Moura.

Resgato, então, o texto que escrevi na época.

Comovente a imagem de Paulo Moura tocando Doce de Coco dois dias antes de morrer, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Ele se foi na segunda, 12 de julho. A gravação é do sábado, 10. Sentado, com o braço direito ligado ao soro, Moura executa ao clarinete o tema composto por Jacob do Bandolim e é acompanhado por um piano elétrico. Parece estar na varanda de um quarto da clínica onde passou seus últimos dias.

A execução é imprecisa, os improvisos não soam como nos discos que gravou ou nos palcos em que se apresentou, mas não importa. O que procuramos ali não é mais o homem no abismo da improvisação. O que temos naquelas imagens e naqueles sons é um homem diante da morte. E certamente consciente da proximidade dela.

O músico que o acompanha não aparece. A câmera se detém em Paulo Moura, enquadrado sempre em primeiro plano. Às vezes, num big close que nos deixa ver seus olhos claros. O chapéu remete a Tom Jobim, de quem, em seu último disco, gravou algumas composições num formato que chamou de AfroBossaNova. É Moura ao lado do bandolinista Armando Macedo, relendo Tom com uma “pegada” afro-baiana. Dialogando – quem sabe? – com os afro-sambas de Baden e Vinícius. Ou com os precursores destes (Água de Beber, O Morro Não Tem Vez).

Vi Paulo Moura ao vivo pela primeira vez no Teatro Santa Roza, no Projeto Pixinguinha de 1978. Na última vez em que esteve aqui, trouxe o AfroBossaNova para a Praça do Povo do Espaço Cultural, numa noite de chuva torrencial e pouco público. Durante o show, disse a um amigo que estava ao meu lado: “Contemple. É Paulo Moura aos 75 anos, tocando Tom”.

Nos bastidores, conversamos sobre música: os sambas de Jobim que parecem antecipar os afro-sambas de Baden e Vinícius; as lembranças do histórico show da Bossa Nova no Carnegie Hall; a sua presença no palco, a de Oliver Nelson na plateia. Nelson e The Blues and the Abstract Truth, disco extraordinário do jazz.

E lembrei dos discos que gravou. Dos que prefiro: Confusão Urbana, Suburbana e Rural, que tem Espinha de Bacalhau, de Severino Araújo; e Mistura e Manda, que inverte o formato usualmente adotado pelos músicos de jazz, do improviso dando sequência ao tema. Em Chorinho pra Você, também de Severino Araújo, o improviso vem antes do tema.

Volto à Clínica São Vicente. No final da execução de Doce de Coco, os amigos ao redor aplaudem. Wagner Tiso chega perto e lhe dá um abraço. Paulo Moura beija o clarinete. A mulher que está ao seu lado também beija o instrumento. Vejo a imagem pensando que apenas dois dias separavam o artista da morte.

Ouvindo Paez. Reouvindo Krall

Ouvindo Fito Paez.

Canciones Para Aliens.

O argentino Fito Paez é uma das lacunas da minha discoteca. Aventuro-me com um disco mais de covers do que de autor. São canções do mundo que o roqueiro gravou para audição por alienígenas, o título explica. Do nosso Chico a Brel, de Dylan a Mercury, de Gaye a Jarra, de Verdi a Milanés – o resultado é muito bom. As canções foram recriadas por Paez com sua assinatura e não frustram o ouvinte que pensar nos registros originais. Mesmo que estes sejam – e efetivamente são – muito melhores.

Reouvindo Diana Krall.

The Look of Love.

Fazia tempo que eu não ouvia Diana Krall. Escolhi The Look of Love. Menos por ela, mais por Claus Ogerman, o arranjador. Ogerman, que trabalhou para Tom Jobim e João Gilberto. O disco tem uma “pegada” de Bossa Nova. Ótima pianista, boa cantora, Krall canta standards. Os dois que João Gilberto já havia gravado (S’Wonderful e Besame Mucho) confirmam que a influência da Bossa Nova sobre o jazz é muito maior do que o contrário. E que João – claro! – é infinitamente maior do que Krall.

Gênio do jazz, John Coltrane morreu há 50 anos

John Coltrane morreu no dia 17 de julho de 1967.

Há 50 anos.

Com seu sax, Coltrane não era só um músico extraordinário como tantos outros do seu instrumento no mundo do jazz.

Muito mais: ele era um daqueles que fundam, transformam, revolucionam.

Sim! O jazz e suas revoluções! Nos 50, nos 60. Coltrane estava lá. Junto de Miles Davis. Sozinho, comandando sua banda.

O jazz desconstruído e reconstruído por um homem de grandes inquietações e tormentos. Com a música, com a existência, com as religiões.

Coltrane tinha 40 anos quando morreu.

O melhor da sua arte está nesse disco: A Love Supreme.

Quincy Jones e seus caminhos. Jazz e pop. Música e indústria

Ontem (13), no Festival de Montreux, o guitarrista paraibano Washington Espínola cumprimentou um gigante da música popular do mundo: Quincy Jones. Na foto, o maestro aparece com o CD de Washington nas mãos.

Aproveito para falar um pouco sobre Quincy Jones.

No final da década de 1980, Quincy Jones levou alguns rappers para um jantar em sua casa. Era o presente de aniversário do filho, um garoto apaixonado pelo rap. Durante a recepção, o maestro contemplou um pouco da relação fã/ídolo e lembrou da juventude, do tempo em que tinha o mesmo tipo de vínculo com as estrelas do jazz que admirava. Naquele jantar, começou a pensar num disco em que homenagearia a música negra americana num passeio que ia do jazz ao rap. O resultado se chama o conceitual Back on the Block, trabalho admirável que reúne grandes cantores e instrumentistas.

Back on the Block nos conduz por uma extraordinária viagem musical do Quincy Jones que já tinha experimentado tudo nos estúdios e nos palcos. Os puristas do jazz não tolerarão ouvir Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Dizzy Gillespie ao lado de cantores de rap. O disco é muito posterior à fusão de jazz e rock promovida por Miles Davis (que também está entre os convidados). Mais do que isto: é do Quincy pós Michael Jackson. É, portanto, do homem que nasceu no jazz, mas saiu deste para outras expressões da música negra americana. E também consolidou-se não só como instrumentista, autor e arranjador. Ainda como homem da indústria do disco.

No filme Ray, Quincy Jones aparece como amigo da juventude de Ray Charles. Ray nascido em 1930. Quincy em 1933. Lá na frente, os dois estão juntos num dos melhores discos de Charles: Genius + Soul = Jazz. O cantor já havia rompido com a Atlantic e cedido às tentações da indústria num contrato milionário com a ABC. O maestro ainda não se afastara tanto do jazz que cultivou no início da carreira. E que voltaria a abraçar, muitos anos depois, no último concerto de Miles Davis em Montreux. Ali, os dois visitam o repertório soberbo e impecável que Miles gravou sob os arranjos e a batuta de Gil Evans. Davis e Evans, um casamento perfeito.

Se quisermos o Quincy Jones que seduziu os amantes do jazz na década de 1950, ouçamos This Is How I Feel About Jazz. Aos 23 anos, em 1956, ele conduz uma big band a executar os números que arranjou. Apenas seis. E não é preciso mais. Em 1962, foi um dos primeiros a perceber, tão velozmente quanto Stan Getz e Charlie Byrd, a revolução contida na nossa Bossa Nova ao gravar Big Band Bossa Nova. Os puristas daqui talvez não gostem. Dirão, não sem razão, que a bossa não é daquele jeito que Quincy imaginou. Mas não há como ignorar a importância do gesto de músicos como Jones diante do fenômeno brasileiro.

Quincy no jazz em This Is How I Feel About Jazz. Quincy pós tudo em Back on the Block. Opostos que podem se atrair. Depende do ouvinte. Quincy relendo um mestre do cinema em Explores the Music of Henry Mancini. Já é muito pop, afirmarão seus críticos, mas como é bem resolvido. Quincy Jones produzindo Michael Jackson em Thriller, pérola do universo pop. E da indústria do disco. Da música como negócio, não há como negar. Que tal, então, Jones e Davis em Montreux? É o retorno a um encontro essencial da música popular do século XX. O de Davis com Evans. Quincy Jones e seus caminhos.

10 verdades do jazz para festejar o Dia Internacional do Jazz

Gilberto Gil me disse, numa conversa sobre Thelonious Monk e Miles Davis, que o jazz é o homem no abismo da improvisação.

Moacir Santos – ouvi dele – preferia o jazz ao rock porque, segundo o maestro, aquele tem células musicais mais desenvolvidas do que este.

Eric Hobsbawm, grande historiador marxista, assim definiu o jazz:

“Não é um gênero autocontido ou imutável, não é uma linha divisória, mas uma vasta zona fronteiriça que o separa da música popular comum”.

Ouço jazz pensando que é a mais rica e importante expressão da música popular do mundo.

Neste domingo (30), comemora-se o Dia Internacional do Jazz, data instituída pela Unesco em 2011.

Aqui na coluna, marco o 30 de abril com 10 verdades do jazz. Nenhuma mentira.

E essas 10 verdades não são fatos, nem conceitos.

São pessoas. Homens e mulheres absolutamente imprescindíveis. Que nos fizeram mais ricos e mais humanos com a arte extraordinária que produziram.

LOUIS ARMSTRONG

DUKE ELLINGTON

COUNT BASIE

BILLIE HOLIDAY

ELLA FITZGERALD

DIZZY GILLESPIE

CHARLIE PARKER

SARAH VAUGHAN

MILES DAVIS

JOHN COLTRANE

Vocês gostam da canção italiana? Vamos ouvir Chiara Civello?

Estava lendo o delicioso texto de Martinho Moreira Franco sobre Jerry Adriani. Lembranças da série As 14 Mais e das canções italianas cantadas pelo artista que nos deixou domingo passado.

O texto me fez pensar no cancioneiro da Itália e me levou a um disco que, agora, sugiro aos leitores.

Canzoni, de Chiara Civello. Conhecem?

Vejam a capa.

A foto é uma homenagem à atriz brasileira Florinda Bolkan. Confiram.

Chiara Civello é uma italiana nascida em Roma há 42 anos. É uma cantora moderna de jazz, mas transita pelo pop, pela MPB.

Seu disco Canzoni, de 2014, foi lançado no mercado brasileiro em 2015. É um apanhado de standards da música do seu país. Tem muito a ver com a música brasileira por causa da sonoridade e das soluções harmônicas de alguns arranjos e também pelos convidados: Chico Buarque, Gilberto Gil e Ana Carolina.

Com Chico, Chiara faz Io Che Amo Solo Te. Com Gil, Io Che Non Vivo Senza Te. São verdadeiros clássicos do cancioneiro pop do mundo.

Vamos degustar? Fiquem com o vídeo de Chiara e Gil.

Acho irresistível!

 

Ella e Sinatra num dueto incrível!

Música para homenagear o centenário de Ella Fitzgerald!

The Lady Is a Tramp.

Ella e Frank Sinatra num dueto incrível!

Vamos ouvir? São apenas quatro minutos!

 

Ella Fitzgerald nasceu há 100 anos

Nesta terça-feira (25), faz 100 anos que nasceu Ella Fitzgerald.

Quando penso em cantoras de jazz, sempre me ocorrem dois nomes: Billie Holiday e Ella Fitzgerald. São as maiores. Às vezes, fico com Billie. Às vezes, fico com Ella. É um dilema sem solução.

Mas o assunto de hoje é Ella.

Superb! Como dizem os americanos.

Técnica absurda! Emoção à flor da pele! A voz como um instrumento! Raro domínio do scat e, naturalmente, da improvisação jazzística!

Grandes discos de estúdio! Grandes discos ao vivo! Memoráveis parcerias com outros gigantes do jazz (Ellington, Armstrong, Peterson)!

E, como se não bastasse, ainda tem a série de songbooks gerada pela sensibilidade do produtor Norman Granz. Os maiores compositores americanos (Gershwin, Porter, Ellington, etc.) na voz de Ella, com orquestrações impecáveis!

Ella Fitzgerald fazendo o songbook de Cole Porter! É como um limite de qualidade para a música popular! Difícil ultrapassá-lo!

Seguem cinco indicações para ouvir Ella.

Começo por Ella Fitzgerald Sings The Cole Porter Songbook.

Ella & Louis. Afeto, emoção, rara beleza no encontro com Armstrong.

Porgy & Bess. A ópera de George Gershwin transportada para o universo do jazz. Novamente, Ella e Louis.

Mack the Knife – Ella in Berlin. Ella ao vivo em Berlim. Uma voz, um quarteto, uma performance avassaladora!

Ella Abraça Jobim. Muita gente não gosta. Há quem diga que o próprio homenageado não gostava. Mas é Ella cantando Tom!

Nomes dão vida à bandinha de jazz

Para Márcio Roberto

Meu irmão tinha uma bandinha de jazz em cima da estante. Cinco figuras esculpidas provavelmente na China, algo impensável nos tempos do velho Mao. Um quarteto a acompanhar uma cantora. Piano, contrabaixo, bateria e sax. O jeito de caricatura dos músicos era nítido. O caráter kitsch, indisfarçável. Mas havia algo charmoso. Sempre os quis para colocar junto dos meus discos.

Quando vi a bandinha pela primeira vez, imaginei que a cantora era Ella Fitzgerald. Olhei para aquela figura com uns quinze centímetros de altura, vestido cor de goiaba, anel luminoso no dedo, e pensei em Ella numa arrebatadora performance ao vivo. Como no disco gravado em Berlim. A voz que tinha um traço infantil, a extraordinária capacidade de improvisar sobre a melodia das canções, um domínio raro do canto. Gosto dela incondicionalmente. Seja nos clássicos songbooks, nos discos de estúdio com as mais diversas formações ou nos registros ao vivo. Tudo na sua trajetória a coloca no topo, junto das melhores cantoras do mundo.

Para mim, o pianista da bandinha não poderia ser outro. Era Oscar Peterson. Os dedos mágicos correndo sobre as teclas do piano em velozes e inacreditáveis improvisações. Piano, contrabaixo e bateria. Um trio, nada mais. Do jeito que ouvi na adolescência, nas sessões dominicais na Praça da Pedra, quando fui apresentado ao jazz. Ou na casa de Fernando Aranha, que se inspirava em Peterson para tocar na noite pessoense, na primeira metade da década de 1970. Estrela de primeiríssima grandeza, o canadense Oscar Peterson também atuava como acompanhante. E é assim que vamos encontrá-lo em inúmeros discos, antológicos e indispensáveis, que Norman Granz produziu na Verve.

Se, na minha imaginação, era Oscar Peterson que acompanhava Ella Fitzgerald na bandinha, pensei que o contrabaixista e o baterista poderiam ser os músicos com os quais formou o trio que ouvimos em discos como “Night Train” ou “We Get Requests”. Ou, ainda, “West Side Story”, com a recriação das melodias fantásticas escritas por Leonard Bernstein. Ray Brown no contrabaixo e Ed Thigpen na bateria. Soberbos, precisos, parceiros perfeitos para o pianista. Também é incondicional meu amor por Peterson. Na Verve, mais tarde na Pablo, em carreira solo ou como acompanhante (mas não mero) de grandes estrelas do jazz. Até a despedida, numa noite inesquecível em Viena.

Faltou o saxofonista. Me vieram à cabeça dois nomes: Coleman Hawkins e Ben Webster. Achei que caberiam bem na bandinha. E que estariam à vontade ao lado de Peterson, Brown e Thigpen na tarefa de acompanhar Ella. Engraçado. Não quis escolher músicos revolucionários. Nem Charlie Parker, muito menos John Coltrane. Hawkins ou Webster – não cheguei a definir. Os dois produziriam sons que não nos privariam de ouvir os ruídos do próprio sopro.

Jairo morreu em setembro de 2007. Em junho, no dia do meu aniversário, fui visitá-lo no hospital. Ele me disse que tinha um presente: a bandinha de jazz. Fiquei embaraçado, tentei convencê-lo de que não era o caso, mas cedi à sua insistência. Aceitei o presente certo de que meu irmão já tinha a consciência da morte.

Grande voz do jazz, Al Jarreau morre aos 76 anos

Luto na música popular do mundo. O jazz perdeu uma das suas grandes vozes.

O cantor Al Jarreau morreu neste domingo (12) aos 76 anos. Quatro dias atrás, ele foi internado em estado de total exaustão.

A causa da morte ainda não foi divulgada.

Em 2015, ele esteve no Brasil para um show com Marcos Valle no Rock in Rio. A apresentação foi memorável, mas era visível a fragilidade do artista.

Fiquemos com um pouco de Al Jarreau num show da sua juventude.

A canção é Your Song, de Elton John e Bernie Taupin.