10 verdades do jazz para festejar o Dia Internacional do Jazz

Gilberto Gil me disse, numa conversa sobre Thelonious Monk e Miles Davis, que o jazz é o homem no abismo da improvisação.

Moacir Santos – ouvi dele – preferia o jazz ao rock porque, segundo o maestro, aquele tem células musicais mais desenvolvidas do que este.

Eric Hobsbawm, grande historiador marxista, assim definiu o jazz:

“Não é um gênero autocontido ou imutável, não é uma linha divisória, mas uma vasta zona fronteiriça que o separa da música popular comum”.

Ouço jazz pensando que é a mais rica e importante expressão da música popular do mundo.

Neste domingo (30), comemora-se o Dia Internacional do Jazz, data instituída pela Unesco em 2011.

Aqui na coluna, marco o 30 de abril com 10 verdades do jazz. Nenhuma mentira.

E essas 10 verdades não são fatos, nem conceitos.

São pessoas. Homens e mulheres absolutamente imprescindíveis. Que nos fizeram mais ricos e mais humanos com a arte extraordinária que produziram.

LOUIS ARMSTRONG

DUKE ELLINGTON

COUNT BASIE

BILLIE HOLIDAY

ELLA FITZGERALD

DIZZY GILLESPIE

CHARLIE PARKER

SARAH VAUGHAN

MILES DAVIS

JOHN COLTRANE

Vocês gostam da canção italiana? Vamos ouvir Chiara Civello?

Estava lendo o delicioso texto de Martinho Moreira Franco sobre Jerry Adriani. Lembranças da série As 14 Mais e das canções italianas cantadas pelo artista que nos deixou domingo passado.

O texto me fez pensar no cancioneiro da Itália e me levou a um disco que, agora, sugiro aos leitores.

Canzoni, de Chiara Civello. Conhecem?

Vejam a capa.

A foto é uma homenagem à atriz brasileira Florinda Bolkan. Confiram.

Chiara Civello é uma italiana nascida em Roma há 42 anos. É uma cantora moderna de jazz, mas transita pelo pop, pela MPB.

Seu disco Canzoni, de 2014, foi lançado no mercado brasileiro em 2015. É um apanhado de standards da música do seu país. Tem muito a ver com a música brasileira por causa da sonoridade e das soluções harmônicas de alguns arranjos e também pelos convidados: Chico Buarque, Gilberto Gil e Ana Carolina.

Com Chico, Chiara faz Io Che Amo Solo Te. Com Gil, Io Che Non Vivo Senza Te. São verdadeiros clássicos do cancioneiro pop do mundo.

Vamos degustar? Fiquem com o vídeo de Chiara e Gil.

Acho irresistível!

 

Ella e Sinatra num dueto incrível!

Música para homenagear o centenário de Ella Fitzgerald!

The Lady Is a Tramp.

Ella e Frank Sinatra num dueto incrível!

Vamos ouvir? São apenas quatro minutos!

 

Ella Fitzgerald nasceu há 100 anos

Nesta terça-feira (25), faz 100 anos que nasceu Ella Fitzgerald.

Quando penso em cantoras de jazz, sempre me ocorrem dois nomes: Billie Holiday e Ella Fitzgerald. São as maiores. Às vezes, fico com Billie. Às vezes, fico com Ella. É um dilema sem solução.

Mas o assunto de hoje é Ella.

Superb! Como dizem os americanos.

Técnica absurda! Emoção à flor da pele! A voz como um instrumento! Raro domínio do scat e, naturalmente, da improvisação jazzística!

Grandes discos de estúdio! Grandes discos ao vivo! Memoráveis parcerias com outros gigantes do jazz (Ellington, Armstrong, Peterson)!

E, como se não bastasse, ainda tem a série de songbooks gerada pela sensibilidade do produtor Norman Granz. Os maiores compositores americanos (Gershwin, Porter, Ellington, etc.) na voz de Ella, com orquestrações impecáveis!

Ella Fitzgerald fazendo o songbook de Cole Porter! É como um limite de qualidade para a música popular! Difícil ultrapassá-lo!

Seguem cinco indicações para ouvir Ella.

Começo por Ella Fitzgerald Sings The Cole Porter Songbook.

Ella & Louis. Afeto, emoção, rara beleza no encontro com Armstrong.

Porgy & Bess. A ópera de George Gershwin transportada para o universo do jazz. Novamente, Ella e Louis.

Mack the Knife – Ella in Berlin. Ella ao vivo em Berlim. Uma voz, um quarteto, uma performance avassaladora!

Ella Abraça Jobim. Muita gente não gosta. Há quem diga que o próprio homenageado não gostava. Mas é Ella cantando Tom!

Nomes dão vida à bandinha de jazz

Para Márcio Roberto

Meu irmão tinha uma bandinha de jazz em cima da estante. Cinco figuras esculpidas provavelmente na China, algo impensável nos tempos do velho Mao. Um quarteto a acompanhar uma cantora. Piano, contrabaixo, bateria e sax. O jeito de caricatura dos músicos era nítido. O caráter kitsch, indisfarçável. Mas havia algo charmoso. Sempre os quis para colocar junto dos meus discos.

Quando vi a bandinha pela primeira vez, imaginei que a cantora era Ella Fitzgerald. Olhei para aquela figura com uns quinze centímetros de altura, vestido cor de goiaba, anel luminoso no dedo, e pensei em Ella numa arrebatadora performance ao vivo. Como no disco gravado em Berlim. A voz que tinha um traço infantil, a extraordinária capacidade de improvisar sobre a melodia das canções, um domínio raro do canto. Gosto dela incondicionalmente. Seja nos clássicos songbooks, nos discos de estúdio com as mais diversas formações ou nos registros ao vivo. Tudo na sua trajetória a coloca no topo, junto das melhores cantoras do mundo.

Para mim, o pianista da bandinha não poderia ser outro. Era Oscar Peterson. Os dedos mágicos correndo sobre as teclas do piano em velozes e inacreditáveis improvisações. Piano, contrabaixo e bateria. Um trio, nada mais. Do jeito que ouvi na adolescência, nas sessões dominicais na Praça da Pedra, quando fui apresentado ao jazz. Ou na casa de Fernando Aranha, que se inspirava em Peterson para tocar na noite pessoense, na primeira metade da década de 1970. Estrela de primeiríssima grandeza, o canadense Oscar Peterson também atuava como acompanhante. E é assim que vamos encontrá-lo em inúmeros discos, antológicos e indispensáveis, que Norman Granz produziu na Verve.

Se, na minha imaginação, era Oscar Peterson que acompanhava Ella Fitzgerald na bandinha, pensei que o contrabaixista e o baterista poderiam ser os músicos com os quais formou o trio que ouvimos em discos como “Night Train” ou “We Get Requests”. Ou, ainda, “West Side Story”, com a recriação das melodias fantásticas escritas por Leonard Bernstein. Ray Brown no contrabaixo e Ed Thigpen na bateria. Soberbos, precisos, parceiros perfeitos para o pianista. Também é incondicional meu amor por Peterson. Na Verve, mais tarde na Pablo, em carreira solo ou como acompanhante (mas não mero) de grandes estrelas do jazz. Até a despedida, numa noite inesquecível em Viena.

Faltou o saxofonista. Me vieram à cabeça dois nomes: Coleman Hawkins e Ben Webster. Achei que caberiam bem na bandinha. E que estariam à vontade ao lado de Peterson, Brown e Thigpen na tarefa de acompanhar Ella. Engraçado. Não quis escolher músicos revolucionários. Nem Charlie Parker, muito menos John Coltrane. Hawkins ou Webster – não cheguei a definir. Os dois produziriam sons que não nos privariam de ouvir os ruídos do próprio sopro.

Jairo morreu em setembro de 2007. Em junho, no dia do meu aniversário, fui visitá-lo no hospital. Ele me disse que tinha um presente: a bandinha de jazz. Fiquei embaraçado, tentei convencê-lo de que não era o caso, mas cedi à sua insistência. Aceitei o presente certo de que meu irmão já tinha a consciência da morte.

Grande voz do jazz, Al Jarreau morre aos 76 anos

Luto na música popular do mundo. O jazz perdeu uma das suas grandes vozes.

O cantor Al Jarreau morreu neste domingo (12) aos 76 anos. Quatro dias atrás, ele foi internado em estado de total exaustão.

A causa da morte ainda não foi divulgada.

Em 2015, ele esteve no Brasil para um show com Marcos Valle no Rock in Rio. A apresentação foi memorável, mas era visível a fragilidade do artista.

Fiquemos com um pouco de Al Jarreau num show da sua juventude.

A canção é Your Song, de Elton John e Bernie Taupin.

David Bowie, no jazz, ficou parecido com Milton Nascimento

Hoje (10) faz um ano que o mundo da música foi surpreendido pela morte de David Bowie. Dois dias antes, Bowie tinha feito 69 anos e lançado Blackstar, um novo disco. Falou-se até em suicídio assistido. O artista tinha câncer no fígado, mas ninguém sabia que ele estava doente.

Em Blackstar, Bowie é acompanhado por músicos de jazz. Mas não é um disco jazzístico, como se disse inicialmente. Não! São músicos de jazz tocando Bowie!

Jazzística – aí, sim! – é Sue (Or In a Season of Crime), a faixa inédita da coletânea Nothing Has Changed, de 2014.

E com um dado muito curioso e atraente para nós, brasileiros. A melodia sinuosa da canção lembra muito Cais, de Milton Nascimento. E a sonoridade da gravação remete ao jazz e também a um certo experimentalismo que há em Milton.

Vamos, então, ouvir Bowie pensando em Milton? Não é plágio, não! Se não for coincidência, é Milton influenciando um gigante do pop como Bowie!

Paródia de “Águas de Março” desrespeita memória de Jobim!

Águas de Março é o samba mais lindo do mundo!

Creio que quem disse foi Chico Buarque.

Waters of March é uma das grandes canções do século XX!

Quem disse foi o crítico de jazz Leonard Feather.

Letra e música de Antônio Carlos Jobim, Águas de Março é uma das maiores canções de Tom e um momento singularíssimo do vasto cancioneiro do Brasil.

Vejam e ouçam, então, essa paródia de Águas de Março que encontrei no Youtube.

Essa paródia é um absoluto desrespeito não só a uma joia do nosso cancioneiro, mas, sobretudo, à memória de Tom, nosso maior compositor popular.

Para enxergar o que há de simplório e pouco inteligente na paródia não é preciso ser Trump, nem Temer, nem Crivella. Muito menos Bolsonaro, abominável defensor do estupro e da tortura.

Há um verso imperdoável nesse atentado a Águas de Março: “Bolsonaro a caminho”.

O Brasil está num impasse, estamos a dois anos da eleição presidencial e, francamente, devemos acreditar que encontraremos uma saída que não seja essa. Nenhuma saída (nem as piores) pode ser tão indesejável quanto Bolsonaro.

Nenhuma desilusão com o jogo político deve levar à crença de que uma onda conservadora conduzirá o Brasil ao extremo que Bolsonaro representa.

Paródia com esse tipo de verso serve, no fundo, a quem?

Não tem a menor graça!

Aproveitando o que está na letra: isso, sim, é que é o fim da poesia!!

Miles Davis, último gênio do jazz, morreu há 25 anos

Nesta quarta-feira (28), faz 25 anos da morte de Miles Davis.

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Foi o último gênio do jazz. Depois de Miles, não surgiu ninguém com a sua dimensão. Quantas revoluções podem ser atribuídas a ele? A resposta é que ninguém esteve à frente de tantas transformações no universo jazzístico. Três, pelo menos. Talvez quatro. Entre o cool e a fusion, em pouco mais de 20 anos. Alguns discos essenciais marcam estes momentos, mas o melhor é ouvi-lo em sua extensa discografia, com algumas obras-primas, altos e baixos, erros e acertos. No virtuosismo ou na contenção. Do jeito que ele era.

É bom conversar com Gilberto Gil sobre Miles Davis. Eles eram amigos. Quando se encontravam, nos Estados Unidos ou na Europa, Miles sempre perguntava pelo albino. Referia-se a Hermeto Pascoal, com quem tocou na época em que fundiu o jazz com o rock. E de quem gravou Igrejinha. No repertório de Gil, tinha uma preferência: o Rock do Segurança. Gostava daquela introdução “esgarçada”. Exilado na Inglaterra, Gil foi levado por Miles para cumprimentar Jimi Hendrix. O maior de todos os guitarristas morreria dias depois. A outro brasileiro, albino como Hermeto, passou um telegrama dizendo que estava reconciliado com a sanfona, instrumento que detestava. O destinatário: Sivuca.

Miles Davis era um sujeito atormentado. Inconformado com o preconceito racial. E vítima dele num episódio de violência que envergonha os Estados Unidos. No intervalo de um show, em frente a uma casa noturna, foi brutalmente espancado, sob o pretexto de que fora confundido com um “desocupado”. Trocou a América pela França, grande reduto do jazz. Lá, recebeu as honras que lhe faltavam no seu país. E gravou a trilha do filme Ascenseur Pour L’Échafaud. Mas foi com os músicos americanos que atingiu os pontos altos de sua trajetória. Com pequenas ou grandes formações, acústico ou elétrico, revolucionando ou degustando a transformação. Multifacetado e genial.

Li algo sobre três “casamentos” na música americana: o de Frank Sinatra com o arranjador Nelson Riddle, o de Duke Ellington com seu parceiro Billy Strayhorn e o de Miles Davis com o maestro Gil Evans. São uniões exemplares que, no século XX, tornaram a música do mundo mais rica e mais bela. Davis e Evans fizeram quatro discos juntos. Foram de George Gershwin à Bossa Nova, mexendo com os conceitos do arranjo jazzístico, explorando timbres que ainda hoje impressionam, embora mais de meio século nos separe daquelas gravações.

Três discos nos apresentam ao que há de mais importante na música de Miles Davis, o que foi mais revolucionário: Birth of the Cool, Kind of Blue e Bitches Brew. Este último promove a fusão do jazz com o rock. Rompe e une a um só tempo. É ousado, radical e definidor do som que Miles produziria dali por diante. A fusão eletrifica o jazz, mas a performance de Davis tem uma contenção que é o oposto do virtuosismo. Como se uma nota valesse por mil.

Portrait of US jazz trumpet player Miles Davis taken 06 July 1991 in Paris. Portrait du trompettiste de jazz Miles Davis pris lors d'un concert le 06 juillet 1991 à la Halle de la Villette à Paris. (Photo credit should read PATRICK HERTZOG/AFP/GettyImages)

No fim da vida, em sua última apresentação no Festival de Montreux, Miles Davis voltou ao passado. Regido por Quincy Jones, tocou o repertório que gravara com Gil Evans. Foi seu concerto de despedida.

Obama entrega museu afro-americano, mas conflitos raciais persistem

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A pouco mais de 100 dias de deixar a presidência, Barack Obama inaugurou o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington. Um projeto centenário, só agora concretizado.

Para além da obra física, tem uma força simbólica. Como marca do primeiro afro-americano na presidência dos Estados Unidos.

Para os que cresceram vendo uma América conflagrada pelos conflitos raciais, a chegada de Obama à Casa Branca tem um significado profundo.

Mas, na saída, apesar de todos os avanços, os conflitos persistem. Como vimos em Tulsa e Charlotte.

O museu inaugurado por Obama conta uma história sem a qual os Estados Unidos não seriam o que são. O jazz, como legado afro-americano, talvez possa resumir tudo!

O museu fala dessa história. Mas, se quisermos, aponta também para o que ainda está muito longe de ser resolvido.