Século XX foi o século do jazz, não dos Beatles ou da guitarra

Hoje (30) é o Dia Mundial do Jazz.

Reproduzo o que, certa vez, contou-me um amigo.

Ele estava na casa de um profundo conhecedor de música erudita e ouviu deste o seguinte comentário:

“O século XX foi o século de Herbert Von Karajan”.

Karajan, o fabuloso maestro da Orquestra Filarmônica de Berlim e, até o advento do CD, poderosa marca da indústria do disco.

Meu amigo ousou discordar do anfitrião:

“O século XX foi o século dos Beatles e da guitarra”.

Gostei da história, mas não fiz nenhum comentário.

Depois foi que pensei:

“Que nada! O século XX foi o século do jazz!”

*****

Gilberto Gil me disse, numa conversa sobre Thelonious Monk e Miles Davis, que o jazz é o homem no abismo da improvisação.

Moacir Santos – ouvi dele – preferia o jazz ao rock porque, segundo o maestro, aquele tem células musicais mais desenvolvidas do que este.

Eric Hobsbawm, grande historiador marxista, assim definiu o jazz:

“Não é um gênero autocontido ou imutável, não é uma linha divisória, mas uma vasta zona fronteiriça que o separa da música popular comum”.

Ouço jazz pensando que é a mais rica e importante expressão da música popular do mundo.

Covid-19 mata Ellis, lenda do jazz e patriarca da família Marsalis

A Covid-19 matou Ellis Marsalis Jr (na foto, com o filho Wynton).

Aos 85 anos, o pianista era uma lenda do jazz e patriarca da família Marsalis.

Ellis também foi professor.

Seus filhos, o trompetista Wynton (de 58 anos) e o saxofonista Branford (de 59), são grandes músicos de jazz.

RIP Ellis Marsalis Jr.

Billie Holiday, a maior cantora do jazz, morreu há 60 anos

Billie Holiday ainda não era Billie Holiday.

Era Eleonora, nascida na Filadélfia em 1915.

Eleonora e sua vida miserável na infância e adolescência.

Fugindo da prostituição, tentou emprego como dançarina.

Foi quando ouviu do dono de um bar:

Dançarina, não. Tenho vaga para cantora. Você sabe cantar?

Ao que respondeu:

Cantar? Ora! Todo mundo sabe!

E cantou!

*****

Billie Holiday foi a maior de todas as cantoras do jazz.

A maior e a mais verdadeira.

A voz doce e amarga.

Um pouco rouca.

Ligeiramente infantil.

Levemente perversa.

Ou perversamente infantil.

Querem saber?

É inútil.

As palavras não dirão como era a sua voz!

*****

O melhor de Billie Holiday está nos discos de 78 rotações que gravou na Columbia, entre 1933 e 1942.

São tecnicamente limitados, mas a voz está no auge.

Nos anos 1940, há passagens pela Commodore e pela Decca.

Na década de 1950, sob contrato da Verve, fez discos muito bem gravados, mas com a voz já afetada pelas drogas e pelo álcool. De todo modo, são de uma beleza imensa.

O final – no álbum Lady in Satin – foi novamente na Columbia.

*****

Em março de 1959, Billie enterrou o saxofonista Lester Young, seu querido amigo e grande parceiro musical.

A caminho do cemitério, disse ao crítico de jazz Leonard Feather:

Serei a próxima.

E estava certa.

A cirrose hepática, a insuficiência cardíaca e um edema pulmonar mataram Billie Holiday no dia 17 de julho de 1959.

Faz 60 anos. Tinha 44.

Sua vida foi uma tragédia.

Foto icônica do jazz faz 60 anos

A maior foto da história do jazz está fazendo 60 anos neste domingo (12).

O nome dela: A Great Day in Harlem.

O autor: Art Kane.

Os personagens: alguns dos grandes músicos do jazz.

Count Basie.

Dizzy Gillespie.

Thelonious Monk.

Charles Mingus.

Sonny Rollins.

Coleman Hawkins.

Lester Young.

Art Blakey.

Todos esses (e muitos outros) estão lá.

Kane, o fotógrafo, tinha 33 anos quando, naquela manhã no Harlem, entrou para a história do jazz e da fotografia.

BOSSA NOVA 60: Influência do jazz

Os críticos da Bossa Nova, muito por causa do sucesso obtido nos Estados Unidos, costumam apontar a influência do jazz como um dos defeitos da bossa.

Alguns identificam nas canções de Tom Jobim características que remetem a compositores eruditos da Europa (de Chopin a Debussy) e as consideram negativas.

Há também os que a rejeitam porque ela teria nascido em reuniões nos apartamentos da Zona Sul do Rio de Janeiro e, por esta razão, seria uma música fútil e distante da realidade brasileira.

Uma série de teses que atentam contra o bom senso, mas que exibem uma impressionante capacidade de sobrevivência num país em que é mais fácil reconhecer os méritos de Garrincha do que os de Pelé.

60 anos já se passaram, e elas continuam vivas. E é a elas que comumente recorrem os que querem detratar algo que figura entre o que o Brasil produziu de melhor.

Pixinguinha, cuja brasilidade ninguém mais questiona, era criticado na década de 1920 por ser jazzista. Antes de ganhar a letra de Braguinha, o tema instrumental Carinhoso foi considerado jazzístico.

No caso da Bossa Nova, existe, sim, influência da música dos negros americanos, menos em Jobim e em João Gilberto do que nos grupos que difundiram entre nós o chamado samba-jazz. Mas é necessário lembrar que a inserção da bossa nos Estados Unidos foi tão marcante que não há como negar que esta também influenciou o jazz.

A presença dos eruditos europeus na obra de Tom é verdadeira, mas não é maior do que a de Villa-Lobos e seu imenso amor pelas coisas do brasil.

A Bossa Nova não pode ser diminuída pela influência do jazz, nem pelos eruditos que Jobim estudou ao piano. Muito menos pelos encontros nos apartamentos da Zona Sul.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

Quer ouvir JAZZ? Veja esta lista

Trago hoje uma lista com discos essenciais do jazz, a mais importante manifestação da música popular do século XX. Misturo o que é consenso com o meu gosto pessoal. Antes, algumas definições.

Moacir Santos preferia o jazz ao rock porque suas células musicais são mais desenvolvidas. Numa conversa sobre Miles Davis e Thelonious Monk, Gilberto Gil me disse que o jazz é o homem no abismo da improvisação. Recorro, por fim, a Eric Hobsbawn, grande historiador: “não é um gênero autocontido ou imutável, não é uma linha divisória, mas uma vasta zona fronteiriça que o separa da música popular comum”.

Neste tipo de lista, não cabem coletâneas. Se coubessem, começaria com The Best of The Hot 5 & Hot 7 Recordings. Traz Louis Armstrong no início, nos apresentando aos fundamentos da improvisação e do canto jazzístico. Mas vou começar com um disco dele, numa escolha muito pessoal: Louis and the Good Book. É Satchmo maduro voltando a uma das suas fontes: os cânticos religiosos dos negros americanos.

De Armstrong para dois band-leaders: Duke Ellington e Count Basie. Do primeiro, compositor extraordinário, sugiro At Newport 1956. Do segundo, com seu piano econômico, April in Paris. Mas há muitos outros discos que nos ajudam a desvendar os timbres das suas orquestras.

Agora, as cantoras. Billie Holiday, a melhor de todas. Ella Fitzgerald, a mais clássica. Sarah Vaughan surge depois, já marcada por transformações pelas quais o jazz passaria a partir da década de 1940. Voltamos às coletâneas. Se elas estivessem valendo aqui, ficaríamos com The Master Takes and Singles, síntese generosa do que Billie gravou na Columbia em sua melhor fase. Mas vamos a um disco de carreira: Lady Sings the Blues. Ou Songs for Distingué Lovers. De Ella, fiquemos com The Cole Porter Song Book, a cantora em seu apogeu debruçada sobre Porter e suas canções. De Sarah, Sarah Vaughan with Clifford Brown. É superb, como dizem os americanos.

De Charlie Parker e Dizzy Gillespie, que revolucionaram o jazz com o bebop, ouçamos Bird and Diz. Ou o concerto histórico Jazz at Massey Hall. De Art Blakey, Moanin. De Cannonball Adderley, Somethin’ Else. De Charles Mingus, Pithecanthropus Erectus. De Dave Brubeck, Time Out. De Errol Garner, Concert by the Sea. De Gerry Mulligan, What Is There to Say?. 

De Gil Evans, Out of the Cool. De Herbie Hancock, Maiden Voyage. De John Coltrane,  A Love Supreme. De Keith Jarrett, The Köln Concert. De Oliver Nelson, The Blues and the Abstract Truth. De Oscar Peterson, Night Train. De Stan Getz e João Gilberto, Getz/Gilberto. De Thelonious Monk, Brilliant Corners.

Comecei com Louis Armstrong, o primeiro grande nome do jazz e talvez o seu maior símbolo. Termino com Miles Davis, o último dos seus gênios, autor de várias revoluções dentro do universo jazzístico.

Dele, três momentos distintos: Birth of the Cool, Kind of Blue e Bitches Brew. Os ortodoxos não aceitam Bitches Brew, que marca a fusão do jazz com o rock. Quem ouviu o rock antes do jazz geralmente não tem nenhuma dificuldade com a fusion capitaneada por Miles. Gosto de ouvi-lo por inteiro, com erros e acertos. Os discos ao vivo gravados com o quinteto dos anos 1960 são excepcionais. Falam com profundidade daquilo que Gil disse. Do homem no abismo da improvisação.

Moacir Santos e os Beatles: I Want To Hold Your Hand tem o grito!

De vez em quando, Moacir Santos me telefonava.

Ele, em Pasadena, onde morava, na Califórnia.

Eu, aqui em João Pessoa.

Eram conversas intermináveis no tempo dos telefones fixos.

Que bom que eram!

Duravam horas.

A dificuldade de cantar o Hino Nacional.

Os modos litúrgicos em Luiz Gonzaga.

O prato que ele tocou num show dos Rolling Stones.

A sociedade teosófica.

Os afro-sambas: “Baden me incendiou!”.

Uma dessas conversas foi sobre músicas muito populares, canções, temas instrumentais.

A música que vai atravesando o tempo.

Os motivos que permitem que isso aconteça.

Perguntei sobre Sophisticated Lady, tema de Duke Ellington que depois ganhou letra.

Tenho grande admiração por esse standard.

Melodia, harmonia, letra, o encontro dos três elementos.

O maestro me disse que era uma canção perfeita. Simples assim. E cantarolou um pouco.

Smoking, drinking, never thinking of tomorrow, nonchalant.

E In The Mood?

Qual o segredo de In The Mood?

Parece sempre tão irresistível quando executada por uma big band.

A força extraordinária do ritmo, me disse Moacir sobre a música eternizada pela orquestra de Glenn Miller.

Já ouvira dele que o jazz era muito melhor do que o rock porque tinha células musicais mais desenvolvidas. E que, por esta razão, preferia o jazz.

Mesmo assim, perguntei pelo Beatles.

Afinal, ele também me dissera que alguma verdade mantinha o rock vivo por tanto tempo.

E I Want To Hold Your Hand?

Tão simples, quase tosca, se formos comparar com alguns standards da canção americana da primeira metade do século XX.

Qual o segredo de I Want To Hold Your Hand?

E lá vem Moacir:

O grito!

Ora, o grito!

A amizade de Moacir Santos foi um dos grandes presentes que a vida me deu.

No Dia da Consciência Negra, nomes!

 

B.B. King, Bob Marley, Chuck Berry, James Brown, Jimi Hendrix, Michael Jackson, Muddy Waters, Ray Charles, Robert Johnson, Stevie Wonder.   

Alberta Hunter, Aretha Franklin, Bessie Smith, Billie Holiday, Dinah Washington, Ella Fitzgerald, Etta James, Mahalia Jackson, Nina Simone, Sarah Vaughan. 

Charles Mingus, Charlie Parker, Count Basie, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, John Coltrane, Louis Armstrong, Miles Davis, Quincy Jones, Thelonious Monk.   

Baden Powell, Cartola, Clementina de Jesus, Djavan, Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Elza Soares, Gilberto Gil, Jackson do Pandeiro, Jamelão, Johnny Alf, Jorge Ben, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Moacir Santos, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Pixinguinha, Tim Maia, Wilson Simonal.  

Retrato do artista diante da morte

Mexendo no Youtube, reencontro esse vídeo que muito me comoveu quando o vi pela primeira vez, em 2010, por ocasião da morte do músico Paulo Moura.

Resgato, então, o texto que escrevi na época.

Comovente a imagem de Paulo Moura tocando Doce de Coco dois dias antes de morrer, na Clínica São Vicente, no Rio de Janeiro. Ele se foi na segunda, 12 de julho. A gravação é do sábado, 10. Sentado, com o braço direito ligado ao soro, Moura executa ao clarinete o tema composto por Jacob do Bandolim e é acompanhado por um piano elétrico. Parece estar na varanda de um quarto da clínica onde passou seus últimos dias.

A execução é imprecisa, os improvisos não soam como nos discos que gravou ou nos palcos em que se apresentou, mas não importa. O que procuramos ali não é mais o homem no abismo da improvisação. O que temos naquelas imagens e naqueles sons é um homem diante da morte. E certamente consciente da proximidade dela.

O músico que o acompanha não aparece. A câmera se detém em Paulo Moura, enquadrado sempre em primeiro plano. Às vezes, num big close que nos deixa ver seus olhos claros. O chapéu remete a Tom Jobim, de quem, em seu último disco, gravou algumas composições num formato que chamou de AfroBossaNova. É Moura ao lado do bandolinista Armando Macedo, relendo Tom com uma “pegada” afro-baiana. Dialogando – quem sabe? – com os afro-sambas de Baden e Vinícius. Ou com os precursores destes (Água de Beber, O Morro Não Tem Vez).

Vi Paulo Moura ao vivo pela primeira vez no Teatro Santa Roza, no Projeto Pixinguinha de 1978. Na última vez em que esteve aqui, trouxe o AfroBossaNova para a Praça do Povo do Espaço Cultural, numa noite de chuva torrencial e pouco público. Durante o show, disse a um amigo que estava ao meu lado: “Contemple. É Paulo Moura aos 75 anos, tocando Tom”.

Nos bastidores, conversamos sobre música: os sambas de Jobim que parecem antecipar os afro-sambas de Baden e Vinícius; as lembranças do histórico show da Bossa Nova no Carnegie Hall; a sua presença no palco, a de Oliver Nelson na plateia. Nelson e The Blues and the Abstract Truth, disco extraordinário do jazz.

E lembrei dos discos que gravou. Dos que prefiro: Confusão Urbana, Suburbana e Rural, que tem Espinha de Bacalhau, de Severino Araújo; e Mistura e Manda, que inverte o formato usualmente adotado pelos músicos de jazz, do improviso dando sequência ao tema. Em Chorinho pra Você, também de Severino Araújo, o improviso vem antes do tema.

Volto à Clínica São Vicente. No final da execução de Doce de Coco, os amigos ao redor aplaudem. Wagner Tiso chega perto e lhe dá um abraço. Paulo Moura beija o clarinete. A mulher que está ao seu lado também beija o instrumento. Vejo a imagem pensando que apenas dois dias separavam o artista da morte.

Ouvindo Paez. Reouvindo Krall

Ouvindo Fito Paez.

Canciones Para Aliens.

O argentino Fito Paez é uma das lacunas da minha discoteca. Aventuro-me com um disco mais de covers do que de autor. São canções do mundo que o roqueiro gravou para audição por alienígenas, o título explica. Do nosso Chico a Brel, de Dylan a Mercury, de Gaye a Jarra, de Verdi a Milanés – o resultado é muito bom. As canções foram recriadas por Paez com sua assinatura e não frustram o ouvinte que pensar nos registros originais. Mesmo que estes sejam – e efetivamente são – muito melhores.

Reouvindo Diana Krall.

The Look of Love.

Fazia tempo que eu não ouvia Diana Krall. Escolhi The Look of Love. Menos por ela, mais por Claus Ogerman, o arranjador. Ogerman, que trabalhou para Tom Jobim e João Gilberto. O disco tem uma “pegada” de Bossa Nova. Ótima pianista, boa cantora, Krall canta standards. Os dois que João Gilberto já havia gravado (S’Wonderful e Besame Mucho) confirmam que a influência da Bossa Nova sobre o jazz é muito maior do que o contrário. E que João – claro! – é infinitamente maior do que Krall.