RETRO2018/Ingmar Bergman

Ingmar Bergman é tão importante que, nos 100 anos do seu nascimento, corre o mundo um documentário sobre o cineasta.

Ingmar é o homem.

Bergman é o artista.

Li em algum lugar e gostei da tentativa de separar o inseparável.

Fui ver Bergman, 100 Anos numa sessão de domingo e fiquei triste com a sala vazia. Só havia nove espectadores. Sinal desses tempos em que críticos e cadernos de cultura preferem os blockbusters e se deslumbram com filmes de super-heróis.

Continuo preferindo Bergman.

O documentário de Jane Magnusson, de 50 anos, traz um retrato de Ingmar e de Bergman.

É centrado em um só ano (já nos assegura o título original), 1957, o ano de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, crucial para o artista e a consolidação do seu trabalho, mas recua e avança no tempo. Vai do nascimento à morte. Passa pela fase da juventude em que nutriu simpatia pelo nazismo, fala dos seus tormentos e da relação destes com os filmes que realizou e as peças que montou.

Não há Bergman sem Ingmar, filho de um pastor luterano. As muitas mulheres, os muitos filhos. As conexões entre a vida real e a arte. O caráter autobiográfico do seu cinema, do extraordinário legado.

O documentário tem presenças desnecessárias e ausências imperdoáveis. Barbra Streisend não faria falta. Max Von Sydow faz uma falta imensa. Liv Ullmann fala pouco.

Mas é um belo filme. Franco quando trata dos defeitos de Ingmar. Justo quando se debruça sobre o trabalho de Bergman.

Que homem atormentado!

Que artista excepcional!

Quando penso naqueles cinco ou seis cineastas que deram ao mundo o melhor dessa arte do século XX, Ingmar Bergman é um deles.

Seus filmes têm crescido ainda mais com a passagem do tempo.

Não são chatos nem difíceis de entender, como muitos dizem.

São apenas os mais contundentes entre os tantos que buscam desnudar o ser humano e suas dores que não têm cura.

Liv Ullmann, musa de Ingmar Bergman, faz 80 anos

Na juventude, ela era assim.

Na velhice, ficou assim.

Liv Ullmann, musa de Ingmar Bergman, faz 80 anos neste domingo (16).

Muita gente pode pensar que ela é sueca, por causa do seu vínculo profundo com Bergman (na tela e fora dela), mas não. Ullmann nasceu no Japão, filha de uma família da Noruega, em 16 de dezembro de 1938.

Migrou do teatro para o cinema em meados da década de 1960.

Sua filmografia não é tão extensa, mas, se não tivesse feito mais nada, os filmes em que atuou sob a direção de Ingmar Bergman seriam suficientes para colocá-la entre as grandes atrizes de todos os tempos.

Caetano Veloso me disse que Bergman não gostava dos homens. Só das mulheres.

O cineasta, cujo centenário de nascimento foi festejado agora em 2018, de fato tinha um especialíssimo cast feminino ao qual sempre recorreu ao longo de sua carreira.

Harriet Andersson (em Monika e o Desejo), lá no começo. Ingrid Thulin (em Morangos Silvestres), logo depois. Bibi Andersson (em Persona), mais tarde. Lena Olin (em Depois do Ensaio), já na velhice. Até Ingrid Bergman (em Sonata de Outono), uma única vez, já marcada pelo câncer que a mataria.

E – claro! – Liv Ullmann. A mais frequente. A que está mais associada a ele. Como se não houvesse Ullmann sem Bergman. Ou – quem sabe? – até Bergman sem Ullmann.

Liv Ullman de muitos filmes com o extraordinário realizador. De Persona a Saraband. Neste, uma sexagenária que tem sua nudez exposta pelo olhar sensível do cineasta.

Há, a um só tempo, fragilidade e fortaleza na Liv Ullmann que vemos nos filmes de Bergman. Fotografada por um outro mestre, Sven Nykvist. Atuando ao lado de Max Von Sydow, Erland Josephson, Elliott Gould ou David Carradine.

No rosto de Liv Ullmann, Ingmar Bergman projetou os tormentos insolúveis da alma humana. Poucos fizeram com tanta propriedade. Poucas captaram com tanta intensidade.

Cinco filmes de Ingmar Bergman voltam aos cinemas em mostra

Um luxo absoluto!

Ver (ou rever) cinco clássicos dirigidos por Ingmar Bergman no cinema.

Nesta quinta-feira (09), começa a mostra Lanterna Mágica, uma homenagem aos 100 anos de nascimento do grande cineasta sueco.

Em João Pessoa, as exibições serão no Box Manaíra (detalhes no final do post).

Hoje (09) e na quarta-feira (15), será exibido o documentário Bergman – 100 Anos.

De sexta (10) a terça (14), um filme por dia na seguinte ordem:

O SÉTIMO SELO

“A imagem da dança da morte sob a nuvem escura foi feita às pressas , pois naquela altura a maioria dos atores já deveria ter voltado para casa. Assistentes, eletricistas, um maquiador e dois hóspedes que não tinham ideia do que fariam tiveram de vestir-se com as roupas dos condenados à morte. Uma câmera muda foi montada e as imagens feitas antes que a nuvem desaparecesse” (in Lanterna Mágica, autobiografia de Bergman).

MORANGOS SILVESTRES

“Convenci o veterano diretor e ator Victor Sjostrom a aceitar o papel principal em Morangos Silvestres. Victor estava cansado e enfermiço, seu trabalho tinha de ser cercado de muitos cuidados. Entre outras coisas, tive de prometer que todos os dias ele estaria em casa pontualmente às quatro e meia, diante de sua dose de uísque” (in Lanterna Mágica).

PERSONA

“Quando o diretor da empresa gentilmente perguntou do que se tratava, respondi, sem ir direto ao assunto, que seriam duas mulheres jovens sentadas numa praia usando enormes chapéus, mergulhadas na comparação mútua de suas mãos. O diretor não deixou cair a máscara e disse, com entusiasmo, que era uma ideia brilhante” (in Lanterna Mágica).

GRITOS E SUSSURROS

“Fizemos o filme numa atmosfera de animada confiança. O lugar era uma arruinada propriedade senhorial nos arredores de Mariefred. O parque estava suficientemente coberto pela vegetação e os belos cômodos em tão mau estado que pudemos arranjá-los como desejávamos. Durante oito semanas, vivemos e trabalhamos na fazenda” (in Lanterna Mágica).

SONATA DE OUTONO

“Nossa arriscada filmagem começou sob auspícios inquietantes. A seguradora se negou a incluir Ingrid Bergman no contrato, pois ela tinha sido operada de câncer. Uma semana depois do começo da filmagem, comunicou-se de Londres, para onde Ingrid viajara para controle de rotina, que haviam encontrado outras metástases e que ela deveria apresentar-se imediatamente para nova operação e radioterapia. Ela explicou que terminaria o filme e perguntou se podíamos comprimir suas contribuições em alguns dias. Se fosse impossível, ela ficaria o tempo combinado” (in Lanterna Mágica).

Sobre o documentário Bergman – 100 Anos, escrevi:

O documentário de Jane Magnusson é centrado em um só ano (já nos assegura o título original), 1957, o ano de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, crucial para o artista e a consolidação do seu trabalho, mas recua e avança no tempo. Vai do nascimento à morte. Passa pela fase da juventude em que nutriu simpatia pelo nazismo, fala dos seus tormentos e da relação destes com os filmes que realizou e as peças que montou.

E sobre Bergman:

O que temos em Bergman é uma obra voltada para as questões cruciais da existência. Todos já disseram isso dele. Mas é isso mesmo. Vi aos 15, aos 30, aos 45. Vejo agora, beirando os 60. Cada vez é mais belo e doloroso. Cada vez é mais parecido com a vida real. Cada vez é menos chato e menos difícil de se entender. E mais perfeito como realização fílmica.

Bergman – sua contundente assinatura, suas obsessões. Seus textos. Sua experiência de palco transposta para a película. Seus atores e atrizes extraordinários. A vida, a morte, a religião (ou a ausência dela), o sexo, as dores do ser humano, a alma completamente desnudada. Penso que, fazendo cinema, ninguém foi tão longe quanto ele.

*****

MOSTRA LANTERNA MÁGICA

Em João Pessoa: Sala 01 do Box Manaíra.

Sessões às 19 e às 21 horas.

De quinta (09) a quarta (15).

Ingmar, o homem, e Bergman, o artista, em um documentário

Ingmar Bergman é tão importante que, nos 100 anos do seu nascimento, corre o mundo um documentário sobre o cineasta.

Ingmar é o homem.

Bergman é o artista.

Li em algum lugar e gostei da tentativa de separar o inseparável.

Fui ver Bergman, 100 Anos numa sessão de domingo e fiquei triste com a sala vazia. Só havia nove espectadores. Sinal desses tempos em que críticos e cadernos de cultura preferem os blockbusters e se deslumbram com filmes de super-heróis.

Continuo preferindo Bergman.

O documentário de Jane Magnusson, de 50 anos, traz um retrato de Ingmar e de Bergman.

É centrado em um só ano (já nos assegura o título original), 1957, o ano de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres, crucial para o artista e a consolidação do seu trabalho, mas recua e avança no tempo. Vai do nascimento à morte. Passa pela fase da juventude em que nutriu simpatia pelo nazismo, fala dos seus tormentos e da relação destes com os filmes que realizou e as peças que montou.

Não há Bergman sem Ingmar, filho de um pastor luterano. As muitas mulheres, os muitos filhos. As conexões entre a vida real e a arte. O caráter autobiográfico do seu cinema, do extraordinário legado.

O documentário tem presenças desnecessárias e ausências imperdoáveis. Barbra Streisend não faria falta. Max Von Sydow faz uma falta imensa. Liv Ullmann fala pouco.

Mas é um belo filme. Franco quando trata dos defeitos de Ingmar. Justo quando se debruça sobre o trabalho de Bergman.

Que homem atormentado!

Que artista excepcional!

Quando penso naqueles cinco ou seis cineastas que deram ao mundo o melhor dessa arte do século XX, Ingmar Bergman é um deles.

Seus filmes têm crescido ainda mais com a passagem do tempo.

Não são chatos nem difíceis de entender, como muitos dizem.

São apenas os mais contundentes entre os tantos que buscam desnudar o ser humano e suas dores que não têm cura.

Fanny e Alexander é meu Bergman de hoje

FANNY E ALEXANDER

Ingmar Bergman, 1982

“A decisão de pôr de lado a câmera cinematográfica não foi nada dramática, e surgiu durante a filmagem de Fanny e Alexander. Se foi meu corpo que decidiu sobre a minha alma ou a alma que influenciou o corpo, não sei, mas o desconforto físico cada vez mais se mostrava difícil de administrar” (in Lanterna Mágica, autobiografia de Bergman).

Neste sábado (14), celebrou-se o centenário de nascimento de Ingmar Bergman.

Sonata de Outono é meu Bergman de hoje

SONATA DE OUTONO

Ingmar Bergman, 1978

“Nossa arriscada filmagem começou sob auspícios inquietantes. A seguradora se negou a incluir Ingrid Bergman no contrato, pois ela tinha sido operada de câncer. Uma semana depois do começo da filmagem, comunicou-se de Londres, para onde Ingrid viajara para controle de rotina, que haviam encontrado outras metástases e que ela deveria apresentar-se imediatamente para nova operação e radioterapia. Ela explicou que terminaria o filme e perguntou se podíamos comprimir suas contribuições em alguns dias. Se fosse impossível, ela ficaria o tempo combinado” (in Lanterna Mágica, autobiografia de Bergman).

Neste sábado (14), celebra-se o centenário de nascimento de Ingmar Bergman.

Cenas de um Casamento é meu Bergman de hoje

CENAS DE UMA CASAMENTO

Ingmar Bergman, 1973

“Foi quase como uma brincadeira. No meio da filmagem, meu advogado telefonou e explicou que o dinheiro acabaria dentro de um mês. Vendi à TV os direitos de transmissão para a Escandinávia e pude levar a bom termo nosso filme de seis horas, feito quase sem recursos” (in Lanterna Mágica, autobiografia de Bergman).

Neste sábado (14), celebra-se o centenário de nascimento de Ingmar Bergman.

Gritos e Sussurros é meu Bergman de hoje

GRITOS E SUSSURROS

Ingmar Bergman, 1972

“Fizemos o filme numa atmosfera de animada confiança. O lugar era uma arruinada propriedade senhorial nos arredores de Mariefred. O parque estava suficientemente coberto pela vegetação e os belos cômodos em tão mau estado que pudemos arranjá-los como desejávamos. Durante oito semanas, vivemos e trabalhamos na fazenda” (in Lanterna Mágica, autobiografia de Bergman).

Neste sábado (14), celebra-se o centenário de nascimento de Ingmar Bergman.

Persona é meu Bergman de hoje

PERSONA

Ingmar Bergman, 1966

“Quando o diretor da empresa gentilmente perguntou do que se tratava, respondi, sem ir direto ao assunto, que seriam duas mulheres jovens sentadas numa praia usando enormes chapéus, mergulhadas na comparação mútua de suas mãos. O diretor não deixou cair a máscara e disse, com entusiasmo, que era uma ideia brilhante” (in Lanterna Mágica, autobiografia de Bergman).

No Brasil, Persona recebeu o inadequado e apelativo título de Quando Duas Mulheres Pecam.

Neste sábado (14), celebra-se o centenário de nascimento de Ingmar Bergman.