Dia do Rock: Chuck Berry Fields Forever!

Chuck Berry, um dos fundadores do rock. Com sua guitarra e os riffs que criou.

Strawberry Fields Forever, a canção deslumbrante que John Lennon compôs no tempo dos Beatles.

Em 1978, ao difundir sua adesão ao rock, Gilberto Gil prestou atenção nas sonoridades semelhantes (Chuck Berry, Strawberry) e fez “Chuck Berry Fields Forever”. É assim:

E assim gerados

a rumba, o mambo, o samba, o rhythms and blues

tornaram-se os ancestrais, os pais

do rock’n’ roll

Rock é nosso tempo, baby

rock’n’ roll é isso

Chuck Berry fields forever

os quatro cavaleiros do após calipso

o após calipso

rock’n’ roll, capítulo um

versículo vinte

sículo vinte

século vinte e um!

Hoje cedo, falei das bandas. Posto agora a canção de Gil como homenagem a Chuck Berry. E a tantos artistas (Elvis, Dylan, Hendrix) que não mencionei.

Para Alceu, Jackson do Pandeiro era uma verdadeira escola de canto

“Na minha opinião, existem duas escolas de canto no Brasil: a de João Gilberto e a de Jackson do Pandeiro”.

A frase é atribuída ao pernambucano Alceu Valença. Lembro dela porque, neste domingo (10), faz 34 anos da morte de Jackson.

Jackson do Pandeiro, o paraibano de Alagoa Grande, e sua originalíssima maneira de fazer a divisão rítmica. Há influência dele no canto de grandes artistas populares do Brasil, como Gilberto Gil, Alceu Valença, João Bosco, Lenine e Xangai.

Jackson, agora mais fácil de ser ouvido, graças à caixa O Rei do Ritmo, com 15 CDs, que acaba de chegar às lojas físicas e virtuais.

Salve Jackson!

O bom é que Phelipe Caldas vai além do futebol

Entre os meus defeitos está não gostar de futebol. Sei pouquíssimo de craques, times, jogos, campeonatos. Mas, como gosto de arte, às vezes me sinto atraído por “artistas” da bola.

Alguns me comovem. Como o maior deles, o nosso Pelé. O cara deu status de arte a um esporte popular, disse Gilberto Gil.

Tudo isso para dizer que, a despeito de não ter interesse por futebol, gosto muito de crônicas sobre futebol. Sobretudo quando elas vão além do esporte e falam da vida. Nelson Rodrigues no topo!

Pois bem, em 2014, na época da copa, as crônicas de um colega de redação chamaram minha atenção. Primeiro, porque eram sobre futebol, mas não somente. Depois, e sobretudo, porque ele cultua o bom texto jornalístico. Algo que anda em falta nesses tempos em que se escreve tudo nas redes sociais.

Falo de Phelipe Caldas, que às vezes parece um menino. Outras, se comporta como se tivesse bem mais do que seus 30 e poucos anos.

Terça-feira à noite, Phelipe lança, na Usina Cultural da Energisa, seu livro com crônicas sobre futebol.  “Além do Futebol”. O título diz tudo. O prefácio é do professor, poeta e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho.

Fiquem com um pouco do cronista Phelipe Caldas:

“A bola corre. Livre. Serena. Radiante. Feliz, acima de tudo. Porque, afinal, é uma privilegiada. De milhões de bolas do planeta que nunca deixarão seus mundinhos em campos de várzea, servindo aos pernas-de-pau, no barro feito grama, ela, a bola das bolas, já nasceu para brilhar. Feita sob encomenda. Gestada para ser protagonista. Para brilhar em final de campeonato. Ser contemplada nos melhores dos campos, diante de multidões, de craques, de famosos. A bola desliza com uma maestria que só as predestinadas são capazes de deslizar. E como que ciente de que vai ser invejada por gerações de bolas futuras, desejosas por serem elas as cortejadas naquele cenário mítico, a bola inicia um suntuoso desfile. Em perfeita sintonia com o gramado.”

É só o primeiro parágrafo da crônica “A bola”.

A lembrança de uma conversa com Cazuza

Lembro aqui porque hoje faz 26 anos que ele morreu.

Estive com Cazuza quando ele cantou em João Pessoa no início de 1989. Fazia o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado num disco ao vivo. Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira que era portador do HIV.

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa “A Palavra É Sua” e assumi com a produção o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável. Cazuza estava na piscina e gravou comigo numa mesa próxima. Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, poesia e letra de música – estes foram os temas da conversa.

Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo passado da música popular lhe servira de parâmetro. A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza assumiu que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha. Sua agonia se estendeu até sete de julho de 1990.

 

Box com 15 CDs faz justiça à arte de Jackson do Pandeiro

Em crise, a indústria fonográfica há muito investe nos seus acervos para atingir o público que ainda tem o hábito de comprar CD. Nessa aposta, lança caixas que parecem inacreditáveis num tempo de poucas vendas. A mais recente é “Jackson do Pandeiro, O Rei do Ritmo”.

O box da Universal Music foi recebido como um dos grandes lançamentos do ano. E é. São 15 discos que reúnem, não a íntegra, mas boa parte das gravações feitas por esse paraibano de Alagoa Grande entre a década de 1950 e o início da de 1980.

Não é à toa que Jackson ficou conhecido como o rei do ritmo. Ele de fato se notabilizou por uma muito peculiar divisão rítmica que marcava o seu jeito de cantar e tocar o instrumento que incorporou ao seu nome artístico.

Foi grande cantando forró e também muita música de carnaval (frevos e sambas). E exerceu notável influência sobre artistas como Gilberto Gil, Alceu Valença, João Bosco, Lenine e Xangai. Era urbano, enquanto Luiz Gonzaga era rural.

Os dois – Gonzaga e Jackson – se completam para orgulho da nação nordestina.

Questões autorais impediram que os discos fossem relançados em seus formatos originais. Apenas dois estão no box da Universal. Os demais (13 CDs) estão distribuídos em seis coletâneas duplas e uma simples. Os registros da fase Philips estavam bem preservados e permitiram uma remasterização muito boa.

O nome do produtor e pesquisador musical Rodrigo Faour não pode ser esquecido. Sem ele, não haveria a preciosa caixa de Jackson do Pandeiro.

“Jackson do Pandeiro, O Rei do Ritmo” é um lançamento cinco estrelas!

O poeta quer beber vento, Gilberto Gil e Caixa D’ Água

Gil Super 8

O ano, 1977. Gilberto Gil chega a João Pessoa com o show “Refavela”. É apresentado a Manoel de Lima, que, nas ruas da cidade, era conhecido como o poeta Mané Caixa D’Água.

Caixa D’Água diz, e Gil repete no palco do velho Teatro Santa Roza: ”os homens mais populares do Brasil são o presidente Geisel, Caixa D’Água e Gilberto Gil”.

Acho que só quem conheceu Caixa D’Água, figura popular da capital da Paraíba, entende direito o significado dessa história.

Gil entende. E, até hoje, imita o nosso Caixa: “o poeta quer beber vento!”.

Na foto, por sugestão de Jomard Muniz de Britto, Gilberto Gil é filmado em Super 8 imitando o poeta. Pedro Nunes operou a câmera. Eu seguro o microfone. Flora aparece de costas.

A foto, de 1982, é de Olga Costa e está nos meus arquivos. Posto aqui para homenagear Gil, aniversariante do dia.

Caetano, Gil e Elba entre os vencedores do Prêmio da MPB

Cae e Gil

Caetano Veloso e Gilberto Gil ganharam o prêmio de Melhor Álbum de MPB na 27ª edição do Prêmio da Música Brasileira. Eles venceram com o álbum duplo ao vivo “Dois Amigos, um Século de Música”. Elba Ramalho, com o CD “Cordas, Gonzagas e Afins”, levou os prêmios de Melhor Álbum e Melhor Cantora na categoria regional. O evento, que este ano homenageou Gonzaguinha, foi realizado nesta quarta-feira (22) no Rio de Janeiro. 

O CD duplo de Caetano e Gil (também lançado em DVD) foi gravado em São Paulo em um dos muitos shows da turnê que os dois artistas realizam há um ano. O show – um duo acústico de voz e violão – percorreu diversos países da Europa e América do Sul. Também passou pelos Estados Unidos e Israel. No Brasil, foi apresentado nas principais capitais. O CD de Elba (também editado em DVD) traz a cantora interpretando um repertório que mistura Luiz Gonzaga com outros autores. 

Outros premiados ontem à noite no Prêmio da Música Brasileira: Roberto Carlos, melhor cantor na categoria popular; Cauby Peixoto, melhor álbum em língua estrangeira (“Cauby Sings Nat King Cole”); Adriana Calcanhoto, melhor DVD (“Loucura”); Xangai, melhor cantor, categoria regional; Caetano Veloso, melhor cantor categoria MPB.

Chico Buarque, discos e canções

Em 1968, aos 24 anos, Chico Buarque gravou uma música chamada “O Velho”. “O que é que tem de novo pra deixar/nada/só a caminhada longa/pra nenhum lugar”. Ou: “eu vejo a triste estrada/onde um dia eu vou parar”. Um jovem escrevendo sobre a velhice. Versos belos e surpreendentes que nos ocorrem agora.  Junto a lembrança a uma outra do jovem Chico: a quantidade de grandes músicas que ele gravou entre os 22 e os 24 anos, em apenas três discos. Naquela época, era muito comum o disco ter o nome do artista. “Chico Buarque de Hollanda volume 1” (1966), “Chico Buarque de Hollanda volume 2” (1967) e “Chico Buarque de Hollanda volume 3” (1968). Os três, lançados pela RGE em plena era dos festivais, a partir do sucesso que alcançou ao vencer um deles com “A Banda”.

Vale a pena enumerar, recorrendo exclusivamente ao que está arquivado na memória afetiva, sem qualquer consulta: “A Banda”, “Tem Mais Samba”, “A Rita”, “Madalena Foi pro Mar”, “Pedro Pedreiro”, “Olê, Olá”, “Meu Refrão”, “Sonho de um Carnaval”, “Noite dos Mascarados”, “Com Açucar, com Afeto”, “Quem te Viu, Quem te Vê”, “Morena dos Olhos D’Água”, “Ela Desatinou”, “Retrato em Branco e Preto”, “Januária”, “Carolina”, “Roda Viva”, “Até Pensei”, “Sem Fantasia”, “Até Segunda-Feira”, “Funeral de um Lavrador”. Somemos a estas “Sabiá”, que é de 1968, mas não está no disco daquele ano. São 22 músicas. Todas gravadas entre os 22 e os 24 anos. Se Chico Buarque tivesse se aposentado em 1968, seu legado seria um songbook extraordinário. À altura dos maiores clássicos do nosso cancioneiro popular.

Se estendermos a lista até 1970, quando troca a RGE pela Philips e grava o último disco usando o “Hollanda” no nome artístico (“Chico Buarque de Hollanda volume 4”), acrescentaremos, então, “Essa Moça Tá Diferente”, “Agora Falando Sério”, “Gente Humilde”, “Rosa dos Ventos”, “Samba e Amor”, “Pois É”. E, claro, há o single de 1969, ainda pela RGE, com “Umas e Outras”. Entre 1966 e 1970, dos 22 aos 26 anos, em quatro discos, 29 músicas absolutamente antológicas. Um gigante este artista.

Em 1971, passa a assinar apenas “Chico Buarque”. O bigode na capa do disco tira um pouco o ar de bom moço. Os sons o aproximam da linha evolutiva proposta pelos tropicalistas. Ao seu modo. Sobretudo na faixa “Construção”, arranjada pelo mesmo Duprat dos discos de Caetano, Gil, Gal e Mutantes. “Construção” é uma obra-prima. Um samba lento que vai crescendo até o desfecho. Os versos finalizados sempre com proparoxítonas que, na segunda e na última parte, são trocadas de lugar, gerando imagens absurdas, delirantes, inacreditáveis. O disco “Construção” pode ser o melhor de Chico. “Deus lhe Pague”, “Cotidiano”, “Desalento”, “Cordão”, “Olha Maria”, “Samba de Orly”, “Valsinha”, “Minha História”. Parece uma coletânea.

Os anos 1970 foram os mais produtivos. Apesar da censura. “Construção” (1971), “Quando o Carnaval Chegar” (1972), “Calabar” (1973), “Sinal Fechado” (1974), “Meus Caros Amigos” (1976), “Chico Buarque” (1978), “Ópera do Malandro” (1979), “Vida” (1980). Mais dois discos ao vivo. Um com Caetano Veloso, outro com Maria Bethânia.

Os anos 1980 não são tão produtivos. O artista compõe e grava menos. Trabalha muito com Edu Lobo, o novo parceiro. Fica mais sofisticado. As canções continuam belas. “O Grande Circo Místico” é uma estupenda coleção de canções. Anos 1990 e além. Um livro, um disco, uma turnê. Nesta ordem. A morte da canção? Tese dele.

Na maturidade e no limiar da velhice, Chico faz discos refinadíssimos, de assimilação mais lenta. E não compõe tantos clássicos instantâneos, como os da juventude. Mas seu último disco, de 2011, tem ao menos um: “Sinhá”, parceria com João Bosco.

Chico Buarque é um compositor popular clássico. Não é de ruptura, como seu contemporâneo Caetano. É difícil comparar as canções dos dois. “As dele são bem feitas, há uma paz, uma coerência, uma sabedoria que as minhas desconhecem”, me disse Caetano Veloso. Esteticamente, Caetano é de esquerda, Chico é de centro, como classificou Gilberto Gil, muitos anos atrás.

A lista de dez canções que os críticos fazem é injusta com Chico. É uma impossibilidade. Não há dez. Há dezenas. Os sambas perfeitos de quem ouviu Noel, mas sentiu o impacto da reinvenção do gênero promovida por João Gilberto. E tem as incursões por outros gêneros, outros ritmos. Toada, baião, frevo, marcha, valsa, blues, rock. E tem o letrista de qualidade excepcional, como os melhores do mundo. E o trabalho com grandes parceiros. Tom, Vinícius, Francis, Edu, Milton, Caetano, Gil, Ruy. E o teatro, a literatura, o engajamento na luta contra a ditadura.

“Eu vejo a estrada/onde um dia eu vou parar”. Chico se aproxima do homem velho da canção escrita na juventude? A obra por certo desmente o verso que diz que não há nada para deixar. “Além da caminhada longa/pra nenhum lugar”.

Bethânia tem extensa discografia. Aqui, apenas oito indicações

Maria Bethânia está fazendo 70 anos neste sábado (18). A seguir, oito indicações pessoais para ouvir (e reouvir) a cantora.

RECITAL NA BOITE BARROCO

De 1968. Segundo disco de Bethânia. Primeiro dos muitos ao vivo. O repertório mistura passado e presente, como a cantora faria sempre. Ela não participou do Tropicalismo, mas gravou “Baby”, que Caetano compôs por sugestão sua.

DRAMA

De 1972. Um dos melhores discos de Bethânia. A produção é de Caetano Veloso, que acabara de voltar do exílio londrino. Em “Volta por Cima”, o passado recriado. Em “Esse Cara” e “Estácio Holly Estácio”, o que era novo em 1972.

A CENA MUDA

De 1974. No palco, Bethânia abriu mão dos textos. Só música. No disco, o resumo de um show excepcional. Grande registro do espetáculo dirigido por Fauzi Arap. Tem Chico Buarque, Paulinho da Viola, Gonzaguinha e Sueli Costa.

PÁSSARO PROIBIDO

De 1976. Marcante porque, com “Olhos nos Olhos”, Bethânia fez muito sucesso nas emissoras de rádio AM. Era Chico compondo no feminino e encantando as mulheres. Tem o Gonzaguinha de “Festa” e o Gil de “Balada do Lado Sem Luz”.

Betha capas

ÁLIBI

De 1978. Bethânia no auge do sucesso comercial, mas também dos méritos artísticos. Provando que uma coisa não inviabiliza a outra. Tem “Sonho Meu”, em dueto com Gal, e “Álibi”, de Djavan. E tem “Explode Coração”, de Gonzaguinha.

MEL

De 1979. Depois de “Álibi”, outro disco comercialmente muito bem sucedido. Na letra da faixa que dá título ao disco, a abelha rainha que virou apelido. “Lábios de Mel” leva a Ângela Maria. “Grito de Alerta” confirma o sucesso de Gonzaguinha.

AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM

De 1993. Bethânia não participou do Tropicalismo, mas mandou que o mano Caetano prestasse atenção na Jovem Guarda. Passados 25 anos, gravou seu tributo à dupla Roberto & Erasmo Carlos. Uma refinadíssima homenagem.

BRASILEIRINHO

De 2003. Gravando num pequeno selo (Biscoito Fino), Bethânia funde a palavra falada com a palavra cantada em comovente mergulho no Brasil profundo. Dos santos populares ao sincretismo religioso, de Luiz Gonzaga e Villa-Lobos.