Paraíba já teve dois ministros da Cultura. Terá mais um?

Gilberto Gil foi ministro da Cultura durante o primeiro mandato do presidente Lula e parte do segundo.

Deu status ao ministério, pelo grande artista que ele é, e realizou um trabalho reconhecido por sua importância e dimensão.

Lula valorizou a cultura ao levar um homem como Gil para a pasta.

Temer acabou com o ministério. Foi pressionado e recuou.

Errou com Calero, com Freire e com João Batista. Foi largado pelos três.

Agora, vemos o jovem deputado federal paraibano André Amaral cotado para o cargo.

A menção a um paraibano remete aos outros paraibanos que por lá passaram: Celso Furtado, no governo Sarney, e Ipojuca Pontes, no governo Collor.

O professor Celso era um intelectual de peso, um orgulho para nós, paraibanos.

O cineasta Ipojuca Pontes ajudou a destruir o cinema brasileiro.

E André Amaral?

Quem é André Amaral, se pensarmos no ministério da Cultura?

Preciso responder?

Gilberto Gil diz que é para pensar na morte todos os dias

Admirável a entrevista de Gilberto Gil no programa de Pedro Bial.

A morte como tema.

O tema tratado por um homem que fará 75 anos em junho e que, no ano passado, passou mais de 80 dias hospitalizado para tratar um quadro de insuficiência renal e hipertensão.

Um homem que orgulha o Brasil com sua música e suas atitudes.

Uma vez, num reencontro com Gil, no backstage de um show, disse a ele que havíamos perdido um amigo comum, o psiquiatra a quem chamávamos de Kali. E falei de outras mortes. Do meu único irmão. De Caixa D’Água, poeta das ruas de João Pessoa.

Ouvi como resposta:

Smetak me ensinou que devemos refletir todos os dias sobre a inevitabilidade da morte.

Lição transmitida. Lição que tento assimilar. Não é fácil.

Lição associada a outro tema: o envelhecimento.

Você é um menino!

Disse Gil a Bial, que está beirando os 60. Eu também estou. Faço 58 no dia em que Gil faz 75.

Outra de Gil, da época em que chegou aos 60 anos, 15 anos atrás:

É o limiar da velhice. 

Deve ser o momento em que se faz ainda mais necessária a reflexão diária sugerida por Smetak.

Gil é filho de um médico. Cresceu numa cidade pequena, vendo a morte de perto. As urgências que seu pai atendia, os pacientes que não conseguia salvar, os mortos velados nas casas.

Gil é luminoso. Luminoso na sabedoria acumulada. Luminoso na simplicidade. Nos gestos generosos. No afeto.

Falando da vida e da morte nas letras das suas canções.

Não Tenho Medo da Morte. Talvez a mais impactante. Não Tenho Medo da Vida. Essa foi pedida por Rogério Duarte, já com o câncer que lhe tiraria a vida.

Gosto muito de um samba de Gil dos anos 1970. Então Vale a Pena. Tão pouco lembrado! Simone gravou.

Fecho com ele:

Se a morte faz parte da vida

E se vale a pena viver

Então morrer vale a pena

Se a gente teve o tempo para crescer

Vocês gostam da canção italiana? Vamos ouvir Chiara Civello?

Estava lendo o delicioso texto de Martinho Moreira Franco sobre Jerry Adriani. Lembranças da série As 14 Mais e das canções italianas cantadas pelo artista que nos deixou domingo passado.

O texto me fez pensar no cancioneiro da Itália e me levou a um disco que, agora, sugiro aos leitores.

Canzoni, de Chiara Civello. Conhecem?

Vejam a capa.

A foto é uma homenagem à atriz brasileira Florinda Bolkan. Confiram.

Chiara Civello é uma italiana nascida em Roma há 42 anos. É uma cantora moderna de jazz, mas transita pelo pop, pela MPB.

Seu disco Canzoni, de 2014, foi lançado no mercado brasileiro em 2015. É um apanhado de standards da música do seu país. Tem muito a ver com a música brasileira por causa da sonoridade e das soluções harmônicas de alguns arranjos e também pelos convidados: Chico Buarque, Gilberto Gil e Ana Carolina.

Com Chico, Chiara faz Io Che Amo Solo Te. Com Gil, Io Che Non Vivo Senza Te. São verdadeiros clássicos do cancioneiro pop do mundo.

Vamos degustar? Fiquem com o vídeo de Chiara e Gil.

Acho irresistível!

 

Show vai comemorar os 40 anos de “Refavela”

Um show vai comemorar os 40 anos do LP Refavela. Lançado em 1977, é um dos melhores discos de Gilberto Gil.

O projeto está sendo preparado por Bem, filho de Gil. O show reunirá músicos da geração de Bem e terá a participação do homenageado.

As apresentações deverão ocorrer no segundo semestre no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

 

No Dia do Índio, viva o índio do Xingu!

Em 1977, na turnê Refavela, no momento em que ficava sozinho no palco, Gilberto Gil cantava uma música nova. Era Um Sonho.

Uma moda de viola composta como manda o figurino das modas de viola.

Foi gravada, na época, por Marcelo, um cantor que acabou não construindo uma carreira sólida.

Gil só veio a gravá-la em 1991, no disco Parabolicamará.

Quatro décadas se passaram desde a turnê Refavela, e a moda de viola de Gil continua me emocionando com seus versos que atravessam o tempo.

Hoje, Dia do Índio, lembro dela por causa do verso final:

Viva o índio do Xingu!

Ouçam (vejam) nesse vídeo de cinco anos atrás. Dediquem alguns minutos do seu tempo a Um Sonho.

Chuck Berry fields forever!

O disco de inéditas que Chuck Berry gravou nos meses que antecederam sua morte será lançado em junho.

Desde 1979 que ele não lançava material novo.

Nem precisava!

Chuck Berry é um fundador. O que ele produziu e deixou como extraordinário legado está concentrado nos anos iniciais de sua longa carreira. O resto foi manutenção.

Em Berry, temos uns 20 hits absolutamente imbatíveis e antológicos. Neles, há as letras com os  “comentários sociais” para os quais John Lennon chamava atenção. Na guitarra, foi um inventor e, com ela, compôs uma introdução que se repete em vários números e se confunde com o próprio rock. Ele criou um modo de tocar o instrumento, influenciando grandes músicos que surgiriam nos anos seguintes, sobretudo na década de 1960. E ainda há que se destacar a liberdade e a vitalidade de sua performance no palco.

O resumo de tudo isso é que Chuck Berry foi parte fundamental da invenção do rock.

Beatles?

Rolling Stones?

Não seriam o que foram sem ele!

A cultura pop o reverenciou em dois momentos marcantes do cinema. Nos anos 1980, sua Johnny B. Goode reapareceu numa sequência inesquecível de De Volta Para o Futuro.

Mais tarde, Quentin Tarantino resgatou You Never Can Tell em Pulp Fiction, na cena em que Uma Thurman e John Travolta participam de um concurso de dança.

Antes, na década de 1970, ao difundir sua adesão ao rock, Gilberto Gil foi buscar na Strawberry Fields Forever dos Beatles o título do seu tributo a Berry e ao rock’n’ roll.

E bradou:

Chuck Berry fields forever! 

Música que festeja TVs Cabo Branco e Paraíba lembra sambas de Gil

Um dos pontos positivos do primeiro dos três especiais que marcam os 30 anos das TVs Cabo Branco e Paraíba foi a música cantada por Chico Limeira no encerramento do programa.

Tocar Televisão é o nome da canção. Vejam. Em seguida, comento.

Tocar Televisão foi composta por Chico Limeira e Thyego Lopes. Thyego é o diretor da série Tempo de Trinta.

É um samba que remete às transformações a que o gênero foi submetido a partir dos anos 1960. No centro dessa transformação, há Jorge Ben e Gilberto Gil. Mas, no caso de Tocar Televisão, a matriz é Gil. Chamou minha atenção quando ouvi.

O ponto de partida dos sambas de Gil pode ser Serenata de Teleco Teco, música gravada bem antes da fama, lá na Salvador dos início da década de 1960. Esse velho samba de Gil, que muita gente não conhece, já contém os elementos que iluminariam o seu caminho como compositor de grandes sambas. Caminho que desemboca lá na frente nos sambas de Djavan e João Bosco.

Tudo isso está resumido num samba que Gil compôs por volta do ano 2000: Máquina de Ritmo. Ouçam na versão de 2012.

Máquina de Ritmo é matriz de Tocar Televisão. A influência de Gil faz crescer a música de Chico Limeira e Thyego Lopes. Ela tem um elemento de metalinguagem logo no começo. Comenta a encomenda. Os autores falam, na própria música, da música que estão compondo. E depois entram na homenagem às emissoras aniversariantes. Com uma letra inteligente, que não cede ao elogio fácil.

Perguntei a Chico Limeira por Gil. Em Tocar Televisão, no que diz respeito a ele, me disse que não há nada intencional. Mas, na conversa, me deu uma pista: Thyego é louco por Gil!

Perguntei a Thyego Lopes e ouvi que, sim, há muito dos sambas de Gil. Quando mencionei Máquina de Ritmo, ele confirmou a fonte de inspiração.

O samba de Gil fala de um monte de coisas. Do futuro. Das influências. Das fontes. Das matrizes. Das trocas. Das novas tecnologias. Do diálogo inevitável da música com elas. Tocar Televisão, mesmo que não seja um samba sobre o samba, pode, então, ser reconhecido como filho de Máquina de Ritmo.

O samba cantado por Chico Limeira, jovem compositor que tem a idade das TVs Cabo Branco e Paraíba, enriquece a comemoração.

“Haiti”, de Caetano e Gil, tem quase 25 anos e continua atual!

A crise nos presídios brasileiros parece surpreender o governo?

É preciso que ocorram episódios como esses dos últimos dias para que o governo volte os olhos para o sistema penitenciário?

Documentos colocam mal o ministro da Justiça! Uma fala desastrada e inaceitável derruba o secretário da Juventude!

Ilhados em Brasília, os políticos não sabem o que todos nós sabemos?

Bem, a coluna é de cultura, e vou ilustrar com música.

Haiti é do início dos anos 1990. Abre o disco que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram para marcar os 25 anos do Tropicalismo. Já já vamos comemorar os 50!

Haiti continua atual! Era melhor que fosse apenas evocativa de uma época! Mas, infelizmente, não é!

Livro de Nelson Motta tem equívoco sobre música de Caetano

O jornalista, escritor e compositor Nelson Motta cometeu um equívoco em seu novo livro. Nada que comprometa a qualidade do trabalho. Estou lendo 101 Canções que Tocaram o Brasil com a admiração e o respeito que tenho pelo autor e por sua trajetória.

Registro o equívoco movido, sobretudo, pelo interesse que, como filho de astrônomo, tenho pelos temas ligados à conquista do espaço.

Quando eu me encontrava preso

na cela de uma cadeia

foi que eu vi pela primeira vez

as tais fotografias

em que apareces inteira

porém lá não estavas nua

e sim coberta de nuvens

Terra! Terra!

O equívoco está no texto sobre Terra, que começa com esses versos.

No livro, Nelson Motta diz que, quando estava preso, Caetano viu uma foto da Terra no espaço feita por um satélite artificial. Está errado.

As fotos que impressionaram o artista e, mais tarde, inspiraram a canção não foram feitas por um satélite artificial. Publicadas numa revista (a Manchete) que Caetano leu na prisão, as “tais fotografias” foram feitas pela nave Apollo 8. São históricas, belíssimas, impressionantes mesmo, as primeiras que mostram nosso planeta visto de longe, sob a perspectiva de quem está na órbita da Lua.

Pois é! Os três astronautas da Apollo 8 passaram o Natal de 1968 na órbita da Lua, numa missão preparatória para o voo de julho do ano seguinte, da Apollo 11, que levaria os primeiros homens ao solo lunar.

Há uma coincidência. Os astronautas da Apollo 8 voltaram à Terra em 27 de dezembro de 1968, o mesmo dia em que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em São Paulo e levados para o Rio de Janeiro, onde ficaram até o carnaval de 1969. À prisão, seguiram-se o confinamento em Salvador e, afinal, o exílio em Londres.

A canção, faixa de abertura do LP Muito, veio uma década depois. É uma das grandes canções de Caetano Veloso. Merecidamente, está entre as 101 que, segundo Nelson Motta, tocaram o Brasil.

Quando Terra foi gravada, em 1978, a ditadura que prendera o compositor já começava a entrar em seus estertores.

Gil não criticou Moro. Justiça manda tirar do ar links com falsa entrevista

Claro que Gilberto Gil não chamou o juiz Sérgio Moro de terrorista!

Não combina com a sua serenidade, com o seu bom senso, com o homem íntegro que ele é!

Nós só vimos nas redes sociais porque, infelizmente, a mentira está se sobrepondo à verdade.

Vimos muitas vezes.

E teve o cara que chamou o grande artista brasileiro de “macaco filho da puta”.

Gil recorreu à Justiça e obteve uma liminar.

O Facebook e os sites Pensa Brasil e Folha Digital terão que retirar do ar os links com a falsa entrevista de Gil criticando o juiz Moro e defendendo Lula de acusações da Lava Jato.

Gil, simplesmente, não deu a entrevista!

A liminar obriga ainda o Facebook a fornecer informações sobre o autor do comentário racista em publicação que replicava a notícia inverídica.

A vitória de Gil é muito importante!

É a vitória da verdade na era da pós verdade!