Vocês gostam da canção italiana? Vamos ouvir Chiara Civello?

Estava lendo o delicioso texto de Martinho Moreira Franco sobre Jerry Adriani. Lembranças da série As 14 Mais e das canções italianas cantadas pelo artista que nos deixou domingo passado.

O texto me fez pensar no cancioneiro da Itália e me levou a um disco que, agora, sugiro aos leitores.

Canzoni, de Chiara Civello. Conhecem?

Vejam a capa.

A foto é uma homenagem à atriz brasileira Florinda Bolkan. Confiram.

Chiara Civello é uma italiana nascida em Roma há 42 anos. É uma cantora moderna de jazz, mas transita pelo pop, pela MPB.

Seu disco Canzoni, de 2014, foi lançado no mercado brasileiro em 2015. É um apanhado de standards da música do seu país. Tem muito a ver com a música brasileira por causa da sonoridade e das soluções harmônicas de alguns arranjos e também pelos convidados: Chico Buarque, Gilberto Gil e Ana Carolina.

Com Chico, Chiara faz Io Che Amo Solo Te. Com Gil, Io Che Non Vivo Senza Te. São verdadeiros clássicos do cancioneiro pop do mundo.

Vamos degustar? Fiquem com o vídeo de Chiara e Gil.

Acho irresistível!

 

Show vai comemorar os 40 anos de “Refavela”

Um show vai comemorar os 40 anos do LP Refavela. Lançado em 1977, é um dos melhores discos de Gilberto Gil.

O projeto está sendo preparado por Bem, filho de Gil. O show reunirá músicos da geração de Bem e terá a participação do homenageado.

As apresentações deverão ocorrer no segundo semestre no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador.

 

No Dia do Índio, viva o índio do Xingu!

Em 1977, na turnê Refavela, no momento em que ficava sozinho no palco, Gilberto Gil cantava uma música nova. Era Um Sonho.

Uma moda de viola composta como manda o figurino das modas de viola.

Foi gravada, na época, por Marcelo, um cantor que acabou não construindo uma carreira sólida.

Gil só veio a gravá-la em 1991, no disco Parabolicamará.

Quatro décadas se passaram desde a turnê Refavela, e a moda de viola de Gil continua me emocionando com seus versos que atravessam o tempo.

Hoje, Dia do Índio, lembro dela por causa do verso final:

Viva o índio do Xingu!

Ouçam (vejam) nesse vídeo de cinco anos atrás. Dediquem alguns minutos do seu tempo a Um Sonho.

Chuck Berry fields forever!

O disco de inéditas que Chuck Berry gravou nos meses que antecederam sua morte será lançado em junho.

Desde 1979 que ele não lançava material novo.

Nem precisava!

Chuck Berry é um fundador. O que ele produziu e deixou como extraordinário legado está concentrado nos anos iniciais de sua longa carreira. O resto foi manutenção.

Em Berry, temos uns 20 hits absolutamente imbatíveis e antológicos. Neles, há as letras com os  “comentários sociais” para os quais John Lennon chamava atenção. Na guitarra, foi um inventor e, com ela, compôs uma introdução que se repete em vários números e se confunde com o próprio rock. Ele criou um modo de tocar o instrumento, influenciando grandes músicos que surgiriam nos anos seguintes, sobretudo na década de 1960. E ainda há que se destacar a liberdade e a vitalidade de sua performance no palco.

O resumo de tudo isso é que Chuck Berry foi parte fundamental da invenção do rock.

Beatles?

Rolling Stones?

Não seriam o que foram sem ele!

A cultura pop o reverenciou em dois momentos marcantes do cinema. Nos anos 1980, sua Johnny B. Goode reapareceu numa sequência inesquecível de De Volta Para o Futuro.

Mais tarde, Quentin Tarantino resgatou You Never Can Tell em Pulp Fiction, na cena em que Uma Thurman e John Travolta participam de um concurso de dança.

Antes, na década de 1970, ao difundir sua adesão ao rock, Gilberto Gil foi buscar na Strawberry Fields Forever dos Beatles o título do seu tributo a Berry e ao rock’n’ roll.

E bradou:

Chuck Berry fields forever! 

Música que festeja TVs Cabo Branco e Paraíba lembra sambas de Gil

Um dos pontos positivos do primeiro dos três especiais que marcam os 30 anos das TVs Cabo Branco e Paraíba foi a música cantada por Chico Limeira no encerramento do programa.

Tocar Televisão é o nome da canção. Vejam. Em seguida, comento.

Tocar Televisão foi composta por Chico Limeira e Thyego Lopes. Thyego é o diretor da série Tempo de Trinta.

É um samba que remete às transformações a que o gênero foi submetido a partir dos anos 1960. No centro dessa transformação, há Jorge Ben e Gilberto Gil. Mas, no caso de Tocar Televisão, a matriz é Gil. Chamou minha atenção quando ouvi.

O ponto de partida dos sambas de Gil pode ser Serenata de Teleco Teco, música gravada bem antes da fama, lá na Salvador dos início da década de 1960. Esse velho samba de Gil, que muita gente não conhece, já contém os elementos que iluminariam o seu caminho como compositor de grandes sambas. Caminho que desemboca lá na frente nos sambas de Djavan e João Bosco.

Tudo isso está resumido num samba que Gil compôs por volta do ano 2000: Máquina de Ritmo. Ouçam na versão de 2012.

Máquina de Ritmo é matriz de Tocar Televisão. A influência de Gil faz crescer a música de Chico Limeira e Thyego Lopes. Ela tem um elemento de metalinguagem logo no começo. Comenta a encomenda. Os autores falam, na própria música, da música que estão compondo. E depois entram na homenagem às emissoras aniversariantes. Com uma letra inteligente, que não cede ao elogio fácil.

Perguntei a Chico Limeira por Gil. Em Tocar Televisão, no que diz respeito a ele, me disse que não há nada intencional. Mas, na conversa, me deu uma pista: Thyego é louco por Gil!

Perguntei a Thyego Lopes e ouvi que, sim, há muito dos sambas de Gil. Quando mencionei Máquina de Ritmo, ele confirmou a fonte de inspiração.

O samba de Gil fala de um monte de coisas. Do futuro. Das influências. Das fontes. Das matrizes. Das trocas. Das novas tecnologias. Do diálogo inevitável da música com elas. Tocar Televisão, mesmo que não seja um samba sobre o samba, pode, então, ser reconhecido como filho de Máquina de Ritmo.

O samba cantado por Chico Limeira, jovem compositor que tem a idade das TVs Cabo Branco e Paraíba, enriquece a comemoração.

“Haiti”, de Caetano e Gil, tem quase 25 anos e continua atual!

A crise nos presídios brasileiros parece surpreender o governo?

É preciso que ocorram episódios como esses dos últimos dias para que o governo volte os olhos para o sistema penitenciário?

Documentos colocam mal o ministro da Justiça! Uma fala desastrada e inaceitável derruba o secretário da Juventude!

Ilhados em Brasília, os políticos não sabem o que todos nós sabemos?

Bem, a coluna é de cultura, e vou ilustrar com música.

Haiti é do início dos anos 1990. Abre o disco que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram para marcar os 25 anos do Tropicalismo. Já já vamos comemorar os 50!

Haiti continua atual! Era melhor que fosse apenas evocativa de uma época! Mas, infelizmente, não é!

Livro de Nelson Motta tem equívoco sobre música de Caetano

O jornalista, escritor e compositor Nelson Motta cometeu um equívoco em seu novo livro. Nada que comprometa a qualidade do trabalho. Estou lendo 101 Canções que Tocaram o Brasil com a admiração e o respeito que tenho pelo autor e por sua trajetória.

Registro o equívoco movido, sobretudo, pelo interesse que, como filho de astrônomo, tenho pelos temas ligados à conquista do espaço.

Quando eu me encontrava preso

na cela de uma cadeia

foi que eu vi pela primeira vez

as tais fotografias

em que apareces inteira

porém lá não estavas nua

e sim coberta de nuvens

Terra! Terra!

O equívoco está no texto sobre Terra, que começa com esses versos.

No livro, Nelson Motta diz que, quando estava preso, Caetano viu uma foto da Terra no espaço feita por um satélite artificial. Está errado.

As fotos que impressionaram o artista e, mais tarde, inspiraram a canção não foram feitas por um satélite artificial. Publicadas numa revista (a Manchete) que Caetano leu na prisão, as “tais fotografias” foram feitas pela nave Apollo 8. São históricas, belíssimas, impressionantes mesmo, as primeiras que mostram nosso planeta visto de longe, sob a perspectiva de quem está na órbita da Lua.

Pois é! Os três astronautas da Apollo 8 passaram o Natal de 1968 na órbita da Lua, numa missão preparatória para o voo de julho do ano seguinte, da Apollo 11, que levaria os primeiros homens ao solo lunar.

Há uma coincidência. Os astronautas da Apollo 8 voltaram à Terra em 27 de dezembro de 1968, o mesmo dia em que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em São Paulo e levados para o Rio de Janeiro, onde ficaram até o carnaval de 1969. À prisão, seguiram-se o confinamento em Salvador e, afinal, o exílio em Londres.

A canção, faixa de abertura do LP Muito, veio uma década depois. É uma das grandes canções de Caetano Veloso. Merecidamente, está entre as 101 que, segundo Nelson Motta, tocaram o Brasil.

Quando Terra foi gravada, em 1978, a ditadura que prendera o compositor já começava a entrar em seus estertores.

Gil não criticou Moro. Justiça manda tirar do ar links com falsa entrevista

Claro que Gilberto Gil não chamou o juiz Sérgio Moro de terrorista!

Não combina com a sua serenidade, com o seu bom senso, com o homem íntegro que ele é!

Nós só vimos nas redes sociais porque, infelizmente, a mentira está se sobrepondo à verdade.

Vimos muitas vezes.

E teve o cara que chamou o grande artista brasileiro de “macaco filho da puta”.

Gil recorreu à Justiça e obteve uma liminar.

O Facebook e os sites Pensa Brasil e Folha Digital terão que retirar do ar os links com a falsa entrevista de Gil criticando o juiz Moro e defendendo Lula de acusações da Lava Jato.

Gil, simplesmente, não deu a entrevista!

A liminar obriga ainda o Facebook a fornecer informações sobre o autor do comentário racista em publicação que replicava a notícia inverídica.

A vitória de Gil é muito importante!

É a vitória da verdade na era da pós verdade!

Roberto Carlos dribla TOC e canta Quero que Vá Tudo pro Inferno

Roberto Carlos quebrou, faz tempo, a tradição do seu disco de final de ano. Gostando ou não do artista, os discos eram essenciais nos natais brasileiros e marcaram milhões de pessoas.

Roberto Carlos, aos 75 anos, mantém a tradição do especial natalino na Rede Globo. São mais de quatro décadas.

O programa exibido nesta sexta-feira (23) foi gravado num ambiente menor, com uma plateia menos numerosa. Ficou mais intimista e, por isso, recebeu o nome de Simplesmente Roberto Carlos.

O momento mais importante do especial foi quando Roberto Carlos cantou Quero que Vá Tudo pro Inferno. A canção, uma das mais icônicas da sua carreira, fora banida do seu repertório por causa do TOC (transtorno obsessivo compulsivo), doença que atormenta o Rei.

Voltar a cantar (e pronunciar a palavra “inferno”) essa música que conquistou o Brasil há mais de 50 anos é uma vitória pessoal do artista e uma alegria para os seus fãs.

Só quem foi contemporâneo de Quero que Vá Tudo pro Inferno conhece a força dessa canção e sabe o quanto ela foi transgressora.

O especial teve outros grandes momentos.

Destaco o encontro de Roberto Carlos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, amigos e companheiros de geração. Comovente ouvir os três cantando Coração Vagabundo e Marina.

Marisa Monte, com Dadi à guitarra, cantou De que Vale Tudo Isso como se fosse sua.

E Zeca Pagodinho fez o Rei cair no samba. Só assim, ouvimos, na sua voz, Noel, Lupicínio e Cartola!

Roberto Carlos vem de regiões profundas do ser do Brasil, diz Caetano Veloso. Isso, ninguém tira dele. Os seus defeitos são infinitamente menores do que as suas virtudes. Basta vê-lo num programa de televisão!

Roberto Carlos fez música para um exilado pela ditadura

Hoje (23) é dia de ver o especial de Roberto Carlos na Globo. Esse ano, o Rei canta com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Por isso, conto essa história:

Um pouco antes do Tropicalismo, Maria Bethânia sugeriu a Caetano Veloso que prestasse atenção em Roberto Carlos e na Jovem Guarda. Ele conta, no livro de memórias Verdade Tropical, que “Bethânia, cujo não alinhamento com a Bossa Nova a deixava livre para aproximar-se de um repertório variado, me dizia explicitamente que seu interesse pelos programas de Roberto Carlos se devia à vitalidade que exalava deles, ao contrário do que se via no ambiente defensivo da MPB respeitável”. Caetano seguiu o conselho da irmã e incorporou a vitalidade que Bethânia enxergava em Roberto e na Jovem Guarda ao Tropicalismo, o movimento que, em 1968, lideraria ao lado de Gilberto Gil.

Sempre que voltamos aos tropicalistas, identificamos em Gil o interesse pela música nordestina, fruto, sobretudo, da temporada que passou no Recife pouco antes de se transformar num artista de dimensão nacional. O vínculo com Roberto Carlos e a Jovem Guarda deve ser atribuído a Caetano. É ele, afinal, que costuma mencionar a influência que o Rei exerceu no momento em que o Tropicalismo foi esboçado. Foi ele que mais assumiu uma postura de valorização do trabalho de Roberto Carlos, arriscadíssima no universo resguardado da esquerda pós-Bossa Nova. A gratidão de Roberto seria traduzida numa canção.

Preso (junto com Gil) em dezembro de 1968, depois confinado em Salvador e, finalmente, exilado na Inglaterra entre 1969 e 1972, Caetano Veloso, um dia, recebeu a visita de Roberto Carlos na sua casa em Londres. “Roberto veio com Nice, sua primeira mulher, e nós sentimos nele a presença simbólica do Brasil”, relata em Verdade Tropical. Caetano lembra que, “como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a embaixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas que a princípio não nos entenderam e nos queriam agora mitificar: ele era o Brasil profundo”.

Durante a visita, Roberto Carlos levou Caetano às lágrimas quando, ao falar do seu novo disco (o LP que começa com As Flores do Jardim da Nossa Casa, lançado no Natal de 1969), pegou o violão e cantou As Curvas da Estrada de Santos, “dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar”. Caetano recorda que “essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nós nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim”. E diz que usou a barra do vestido preto de Nice para assoar o nariz e enxugar as lágrimas, enquanto, com ternura, o Rei o chamava de bobo. Roberto Carlos voltou para o Brasil pensando em Caetano e o homenageou com uma canção.

A música é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, lançada no final de 1971 no disco que tem Detalhes. Na época, pouca gente sabia que a canção havia sido composta para Caetano Veloso e falava do dia em que ele retornaria ao Brasil. A maioria achava que a letra era sobre uma mulher. A tristeza de um exilado que desejava voltar não fazia parte das conversas dos fãs do Rei. Do mesmo modo que a esquerda não atribuiria a Roberto Carlos a disposição de dedicar uma música a um artista que havia sido preso e mandado para fora do país. O seu distanciamento da MPB engajada parecia assegurar que ele não agiria assim.

“Uma história pra contar de um mundo tão distante” ou “você olha tudo e nada lhe faz ficar contente/você só deseja agora voltar pra sua gente”. Ou ainda: “você anda pela tarde e o seu olhar tristonho/deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho”. Os versos soaram claros quando Caetano, aos 50 anos, revelou a origem da canção. No período mais duro do regime militar, Roberto fez música para um exilado e foi seu porta-voz ao gravar Como Dois e Dois. De um lado, o gesto solidário que vale por muitas canções engajadas. Do outro, o intérprete trazendo para o Brasil profundo o que Caetano sentia no exílio: “tudo vai mal, tudo/tudo é igual quando eu canto e sou mudo”.