George Harrison, o mais discreto dos Beatles, morreu há 15 anos

Nesta terça-feira (29), faz 15 anos que morreu o beatle George Harrison.

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Numa banda em que o comando era disputado por John Lennon e Paul McCartney, para George Harrison, o mais discreto e também o mais místico dos quatro Beatles, só havia lugar de coadjuvante. Mesmo que ele fosse o guitarrista solo, como se chamava na época. No começo, quando os Beatles gravavam covers de outros artistas, Harrison fazia o vocal principal de algumas canções. Como “Chains” e “Roll Over Beethoven”. Depois, os discos do quarteto traziam uma música de sua autoria, ou duas. Três no “Revolver”. Quatro no “Álbum Branco” porque era duplo. John e Paul, trabalhando juntos ou separados, escreviam a maior parte das canções, e o maestro e produtor George Martin dava preferência a elas.

Há quem defenda o argumento de que, nos Beatles, George Harrison desempenhou papel semelhante ao de Brian Jones nos Rolling Stones. Com a diferença de que Brian foi aniquilado porque tentou ser o líder. George ficou meio à margem, mas, a despeito disto, o quarteto não pôde prescindir da sua contribuição. Foi ele que apresentou a música indiana aos companheiros de banda e ajudou a difundi-la no Ocidente. Não ouviríamos Ravi Shankar se não fosse George Harrison. Deve-se a ele a presença de um instrumento como o sitar em incontáveis manifestações musicais do mundo ocidental, não só no universo do rock. O mesmo sitar que aparece em algumas gravações dos Beatles.

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George era melhor instrumentista do que John. Sua guitarra é muito marcante na produção do quarteto. No início, fortemente influenciada pelo rock da década de 1950, pelos solos criados por Chuck Berry e Carl Perkins. Depois, com cores próprias. O músico inventou o seu jeito de tocar o instrumento. Um modo choroso de se expressar. “Enquanto minha guitarra chora gentilmente”, diz o título da canção que gravou em 1968, no “Álbum Branco”, com solo não dele, mas do amigo Eric Clapton. Não tinha virtuosismo, mas era um perfeccionista. Um músico aplicado que criou belos solos para as canções dos Beatles.

Se fôssemos escolher uma música, diríamos que o melhor do autor está em “Something”. Foi composta sob inspiração de Ray Charles. A gravação dos Beatles beira a perfeição. O vocal de George, as vozes de John e Paul, o solo de guitarra, as notas graves do piano, o caminho percorrido pelo baixo, as cordas arranjadas e conduzidas por George Martin. Há muitos registros de “Something”. De Joe Cocker, cover branco de Charles. De Elvis Presley, de Frank Sinatra, que, uma vez, atribuíu a autoria a Lennon e McCartney. Nenhum supera o dos Beatles. Foi a única composição de Harrison a ocupar o lado A de um single do grupo.

Longe dos Beatles, George gravou o antológico álbum “All Things Must Pass”, seu maior feito. Reuniu os amigos no concerto para Bangladesh, precursor dos grandes eventos voltados para o combate à fome no mundo. Produziu pouco e se manteve distante do show business. Deixou saudades, além de belas e melancólicas canções.

De Lincoln a Obama: 21 nomes que orgulham os americanos

O mundo está voltado para os Estados Unidos. Numa eleição disputadíssima, os americanos escolhem nesta terça-feira (8) o novo presidente. Hillary ou Trump?

Pensando na presença dos Estados Unidos no mundo, escolhi 21 nomes que falam da contribuição dos americanos.

Claro que é uma escolha subjetiva e incompleta.

O presidente Abraham Lincoln.

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O compositor George Gershwin.

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O músico Louis Armstrong.

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O compositor Duke Ellington.

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O escritor F. Scott Fitzgerald.

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O compositor Cole Porter.

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O cantor Frank Sinatra.

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O cineasta John Ford.

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O presidente Franklin Delano Roosevelt.

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A cantora Billie Holiday.

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O dançarino Fred Astaire.

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O maestro Leonard Bernstein.

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O ator Marlon Brando.

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O cantor Elvis Presley.

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A atriz Marilyn Monroe.

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O boxeador Mohamed Ali.

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O presidente John Kennedy.

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O compositor Bob Dylan.

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O pastor Martin Luther King.

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O astronauta Neil Armstrong.

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O presidente Barack Obama.

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De Kennedy a Obama. E agora? Hillary ou Trump?

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Eu tinha pouco mais de quatro anos, mas a lembrança ainda é nítida em minha memória. Meu pai ouvindo na Voz da América a notícia do assassinato do presidente Kennedy. Posso dizer que os americanos entraram na minha vida naquela tarde do dia 22 de novembro de 1963. Nas semanas seguintes, vieram as muitas revistas que minha mãe comprava. E, alguns meses mais tarde, também por iniciativa dela, a foto autografada do casal Kennedy ao lado dos dois filhos. Meu pai era comunista, mas admirava JFK. A um só tempo, respeitava a sólida democracia dos americanos e lamentava que eles separassem os homens pela cor da pele.

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Cinco anos depois, mais duas tragédias americanas. Os assassinatos do reverendo Luther King e do senador Bob Kennedy pareciam sugerir que a América teria grandes dificuldades para avançar na luta pelos direitos civis. Estávamos em 1968, o ano em que os estudantes puseram a França de cabeça para baixo, e os militares brasileiros endureceram o regime, promovendo o que Brizola chamava de o golpe dentro do golpe.

Os democratas ficaram oito anos com Kennedy e Johnson, depois veio o republicano Nixon. O desfecho foi o pior possível: o escândalo de Watergate e a renúncia, já no segundo mandato. De Carter, a gente lembra sobretudo da defesa dos direitos humanos. O eleitor não quis que ele ficasse oito anos. Os republicanos voltaram com Reagan, canastrão do cinema que governou a Califórnia e terminou presidente. Em 1980, admirávamos a velocidade da apuração dos votos nos Estados Unidos. A nossa era obsoleta, e os brasileiros estavam enferrujados se o assunto fosse eleição.

Esperávamos o pior de Reagan, um ultraconservador no comando da Casa Branca. Era assustador para nós, que vivíamos sob governos de exceção e sonhávamos com um país redemocratizado. A realidade foi menos sombria. O velho ator ficou oito anos e fez o sucessor, Bush pai, que não se reelegeu. Aí veio Clinton, um cara da geração que se rebelou nos anos 1960. Da Casa Branca ao show dos Rolling Stones – dá para traduzir assim. No ano 2000, seu vice, Al Gore, ganhou no voto popular, mas perdeu no número de delegados para Bush filho. Os oito anos que se seguiram confirmaram que o pesadelo não atendia pelo nome de Ronald Reagan.

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Em 2008, os democratas queriam uma mulher no poder. Quando vi Obama pela primeira vez, não pensei que ele ultrapassaria Hillary para ser o primeiro negro na Casa Branca. Na madrugada em que discursou como presidente eleito, a imagem mais forte, para mim, foi a do reverendo Jackson com lágrimas nos olhos, no meio da multidão. Resumia a longa caminhada. Havia muitos símbolos ali, embora a vida real fosse menor do que o sonho. Em 2012, sem a reeleição de Obama, teria vencido a América que ainda separa os homens pela cor da pele. Assinado, selado, entregue, eu sou de vocês – cantou Stevie Wonder na vitória. The best is yet to come, prometeu o presidente. Como na canção de Sinatra.

Alternância de poder é um negócio que os americanos levam a sério. Se ocorrer agora em 2016, a letra da canção será invertida. O pior estará por vir!

Miles Davis, último gênio do jazz, morreu há 25 anos

Nesta quarta-feira (28), faz 25 anos da morte de Miles Davis.

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Foi o último gênio do jazz. Depois de Miles, não surgiu ninguém com a sua dimensão. Quantas revoluções podem ser atribuídas a ele? A resposta é que ninguém esteve à frente de tantas transformações no universo jazzístico. Três, pelo menos. Talvez quatro. Entre o cool e a fusion, em pouco mais de 20 anos. Alguns discos essenciais marcam estes momentos, mas o melhor é ouvi-lo em sua extensa discografia, com algumas obras-primas, altos e baixos, erros e acertos. No virtuosismo ou na contenção. Do jeito que ele era.

É bom conversar com Gilberto Gil sobre Miles Davis. Eles eram amigos. Quando se encontravam, nos Estados Unidos ou na Europa, Miles sempre perguntava pelo albino. Referia-se a Hermeto Pascoal, com quem tocou na época em que fundiu o jazz com o rock. E de quem gravou Igrejinha. No repertório de Gil, tinha uma preferência: o Rock do Segurança. Gostava daquela introdução “esgarçada”. Exilado na Inglaterra, Gil foi levado por Miles para cumprimentar Jimi Hendrix. O maior de todos os guitarristas morreria dias depois. A outro brasileiro, albino como Hermeto, passou um telegrama dizendo que estava reconciliado com a sanfona, instrumento que detestava. O destinatário: Sivuca.

Miles Davis era um sujeito atormentado. Inconformado com o preconceito racial. E vítima dele num episódio de violência que envergonha os Estados Unidos. No intervalo de um show, em frente a uma casa noturna, foi brutalmente espancado, sob o pretexto de que fora confundido com um “desocupado”. Trocou a América pela França, grande reduto do jazz. Lá, recebeu as honras que lhe faltavam no seu país. E gravou a trilha do filme Ascenseur Pour L’Échafaud. Mas foi com os músicos americanos que atingiu os pontos altos de sua trajetória. Com pequenas ou grandes formações, acústico ou elétrico, revolucionando ou degustando a transformação. Multifacetado e genial.

Li algo sobre três “casamentos” na música americana: o de Frank Sinatra com o arranjador Nelson Riddle, o de Duke Ellington com seu parceiro Billy Strayhorn e o de Miles Davis com o maestro Gil Evans. São uniões exemplares que, no século XX, tornaram a música do mundo mais rica e mais bela. Davis e Evans fizeram quatro discos juntos. Foram de George Gershwin à Bossa Nova, mexendo com os conceitos do arranjo jazzístico, explorando timbres que ainda hoje impressionam, embora mais de meio século nos separe daquelas gravações.

Três discos nos apresentam ao que há de mais importante na música de Miles Davis, o que foi mais revolucionário: Birth of the Cool, Kind of Blue e Bitches Brew. Este último promove a fusão do jazz com o rock. Rompe e une a um só tempo. É ousado, radical e definidor do som que Miles produziria dali por diante. A fusão eletrifica o jazz, mas a performance de Davis tem uma contenção que é o oposto do virtuosismo. Como se uma nota valesse por mil.

Portrait of US jazz trumpet player Miles Davis taken 06 July 1991 in Paris. Portrait du trompettiste de jazz Miles Davis pris lors d'un concert le 06 juillet 1991 à la Halle de la Villette à Paris. (Photo credit should read PATRICK HERTZOG/AFP/GettyImages)

No fim da vida, em sua última apresentação no Festival de Montreux, Miles Davis voltou ao passado. Regido por Quincy Jones, tocou o repertório que gravara com Gil Evans. Foi seu concerto de despedida.

Nos 15 anos do 11/09, sons e imagens para homenagear Nova York

Neste domingo (11), são 15 anos do atentado às torres gêmeas.

Filmes e canções ajudaram a construir minha admiração por Nova York.

O maior compositor americano está associadíssimo a ela. George Gershwin é tão novaiorquino quanto Antônio Carlos Jobim é carioca. Teve o jazz como fonte, e as músicas que escreveu foram popularizadas por grandes intérpretes do universo jazzístico. Neste particular, podemos mergulhar no seu cancioneiro, ouvindo o extenso songbook gravado por Ella Fitzgerald ou a versão de Ella e Louis Armstrong da ópera Porgy and Bess.

Outro músico erudito muito associado a Nova York é Leonard Bernstein, que regeu a filarmônica da cidade e compôs as melodias de West Side Story, musical que atualiza a tragédia de Romeu e Julieta, ambientando seus personagens na Nova York da década de 1950.

Ainda que muito conhecidas, as melodias de George Gershwin e Leonard Bernstein são menos populares do que New York, New York, que ouvimos no filme homônimo de Martin Scorsese, mas que tem sua versão definitiva na voz de Frank Sinatra. É provável que nenhuma outra canção represente tão bem a cidade como esta.

Se fizermos escolhas menos óbvias, temos Autumn in New York, com Billie Holiday, Manhattan, com Dinah Washington, Lullaby of Birdland, com Sarah Vaughan, e, saindo do jazz, American Tune, com Paul Simon.

Há, também, o olhar dos estrangeiros. De John Lennon (New York City), de Sting (English Man in New York) e do nosso Antônio Carlos Jobim (Chansong).

Woody Allen declarou seu amor a Nova York em Manhattan. As torres gêmeas aparecem na logo do filme. Elas são a letra “h” do título. As melodias de Gershwin acompanham os personagens de Allen.

Perdidos na Noite é outro retrato de Nova York tirado pelo cinema. Solidão, amizade, marginalização – aborda temas que teriam igual significado em muitas cidades do mundo. Mas é nas ruas de Manhattan que os personagens se movem ao som de Everybody’s Talkin’.

Nova York como metáfora do sonho americano é o que temos na Estátua da Liberdade vista pelos que chegam de navio, na segunda parte de O Poderoso Chefão. A música de Nino Rota dá maior dramaticidade às imagens.

Cinco anos atrás, no décimo aniversário do 11 de setembro, Paul Simon fez uma breve aparição na cerimônia de inauguração do memorial às vítimas do atentado. Ele cantou The Sound of Silence.

Com a linha melódica ligeiramente alterada, era como se estivesse conversando. O compositor, que já reuniu multidões no Central Park, deu um sentido especial a esta canção que vem de longe. Parecia que seus versos haviam sido escritos para a ocasião.

The Sound of Silence há muito está incorporada à memória afetiva dos novaiorquinos.

Toots Thielemans, que gravou com Sivuca e Elis Regina, morre aos 94 anos

O mundo da música está de luto. O belga Toots Thielemans, mestre da gaita cromática, morreu nesta segunda-feira (22) aos 94 anos.

Thielemans, em sua longa carreira, tocou com os grandes nomes da música internacional. Gente como Frank Sinatra, Quincy Jones, Ella Fitzgerald, Stevie Wonder e Paul Simon.

Seu instrumento pode ser ouvido também no cinema. A gaita do tema de “Perdidos na Noite”, composto por John Barry, é de Toots, que tocava guitarra e era um grande improvisador.

A sua “Bluesette” entrou para a história do jazz.

Toots Thielemans teve uma ligação profunda com a música brasileira. Gravou discos com Elis Regina e com Sivuca, além dos dois volumes de “The Brasil Project”, nos quais acompanhava estrelas da MPB em números que são verdadeiros clássicos do nosso cancioneiro.

A lua como inspiração, dos clássicos aos populares

A lua é cheia nesta quinta-feira (18). Uma leitora sugere uma lista de músicas que tenham a lua como inspiração. Essas escolhas são sempre incompletas e insatisfatórias. Mas faço uma, que amanhã já pode ser outra.

Começando pelos eruditos, há a Sonata ao Luar, de Beethoven, e Clair de Lune, de Debussy. A lua a inspirar um gênio absoluto, que passou pelo clássico e pelo romântico, e um impressionista.

No grande cancioneiro popular americano do século XX, é imediata a lembrança de Blue Moon e Fly Me To The Moon. A primeira, com Ella Fitzgerald. A segunda, com Frank Sinatra. Embora tenha recebido letra, é como tema instrumental que Moonlight Serenade foi imortalizada pela orquestra de Glenn Miller.

Nos Beatles, George Harrison fez Here Comes The Sun. Sozinho, compôs Here Comes The Moon. Paul McCartney fez C Moon. Os Rolling Stones, Moonlight Mile.

E na música popular do Brasil? A lista é extensa.

Desde o Catulo da Paixão Cearense de Luar do Sertão. Ou a Chiquinha Gonzaga de Lua Branca. Ou o Sílvio Caldas de Noite Cheia de Estrelas. “Lua, manda a tua luz prateada despertar a minha amada”.

O original é italiano, mas foi na voz de Celly Campello que Banho de Lua incorporou-se ao nosso cancioneiro, nos primórdios do rock nacional. E o “eu vou perguntar, se na lua há um broto legal pra me namorar”? É o jovem Roberto Carlos.

Caetano Veloso é logo lembrado por Lua de São Jorge. Mas ele também fez Lua, Lua, Lua, Lua. E Shy Moon. E Canto do Povo de um Lugar. “Quando a noite, a lua mansa, e a gente dança venerando a noite”.

E o Gilberto Gil de Lunik 9? A conquista espacial a ameaçar os poetas, os seresteiros, os sonhos dos namorados. “É chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”. Muito mais tarde, Gil diria que “a gente precisa ver o luar”.

Tem o nosso Cassiano, soul man, com A Lua e Eu. Tem o Milton Nascimento de A Lua Girou. O Chico Buarque de Mar e Lua. “Uma andava tonta, grávida de lua, e outra andava nua, ávida de mar”, verso de beleza infinita.

A lista já passa de 20 títulos. Está bom. Pelo menos para a lua cheia de hoje!

 

 

 

“Garota de Ipanema” é mais procurada no Spotify depois da abertura da Olimpíada

Aumentou 1200% o número de pessoas que recorreram ao Spotify para ouvir “Garota de Ipanema” depois que a música de Tom Jobim & Vinícius de Moraes foi usada na abertura da Olimpíada, durante o desfile de Gisele Bundchen.

A música é uma das mais executadas no mundo e também uma das mais gravadas, com centenas de registros. A gravação que lhe deu dimensão internacional foi a de João Gilberto, Astrud Gilberto e o saxofonista de jazz Stan Getz. Está no disco “Getz/Gilberto”.

Quando cantada em inglês por algumas mulheres, tinha a letra alterada e virava “The Boy From Ipanema”, como nessa performance de Ella Fitzgerald.

Frank Sinatra e Tom Jobim cantaram “Garota de Ipanema” juntos, numa versão em inglês e português.

 

 

 

Repertório de Frank Sinatra é revisitado em dois novos CDs

Sinatra tributos

Dois novos CDs prestam tributo a Frank Sinatra. Um brasileiro, um americano. O brasileiro: “Celebrando Sinatra ao Vivo” (Fina Flor), de João Senise. O americano: “Fallen Angels” (Sony Music), de Bob Dylan.

João Senise é um jovem cantor. Filho do saxofonista Mauro Senise, enteado do pianista Gilson Peranzetta. Nasceu e cresceu com a música dentro de casa. Canta bem, faz boas escolhas. Seu CD anterior, “Abre Alas”, reúne canções de Ivan Lins.

Ao celebrar Sinatra, tem Peranzetta como arranjador e condutor da banda. Os arranjos são jazzísticos. Na verdade, enfatizam o que há de jazzy em Sinatra. A performance vocal é correta, eficiente, mas não aproxima (nem pretende) o ouvinte do canto incomparável do homenageado.

Já “Fallen Angels” é o segundo disco que Bob Dylan dedica a Sinatra. O primeiro, “Shadows in the Night”, saiu no ano passado. Dylan, aqui, seria o avesso de Senise. No lugar de enfatizar um caminho que Sinatra seguiu, ele foge dos caminhos que a Voz percorreu.

Se Senise é um cantor correto, Dylan perdeu sua condição vocal faz tempo. Para ouvi-lo cantando Sinatra, é preciso esquecer Sinatra. É o que “Fallen Angels” parece sugerir. O que se tem é Dylan voltando às fontes, às matrizes do cancioneiro americano. Mas fazendo ao seu modo. Sendo Dylan.

Um dia, Bob Dylan viu nas suas canções o novo songbook americano, que tornaria obsoleto o universo visitado por Frank Sinatra. Agora, na velhice, ele se desmente ao curvar-se sobre esses standards. E o faz indo ao fundo do que essas canções querem dizer. Quem ama os dois (Bob e Frank) entenderá.