Onde eu possa plantar meus amigos, meus discos e livros…

No começo dos anos 1970, não era fácil ver um filme em casa (a não ser os que passavam na televisão).

Mas havia cópias em 16 mm para alugar nas grandes distribuidoras de cinema, desde que você tivesse dinheiro e acesso a um projetor daquela bitola.

Elis Regina fazia sessões de cinema em casa.

Numa dessas, convidou César Camargo Mariano.

O filme – creio que Morangos Silvestres, de Bergman – era mero pretexto. A cantora queria mesmo conquistar o pianista.

A cantada veio no meio da sessão. Numa ida ao banheiro, Elis jogou um bilhete ousado no bolso de César, e o resto da história todo mundo conhece.

Os dois foram marido e mulher por uma década, e César, arranjador e pianista dos melhores discos que Elis gravou.

*****

Lembrei dessa história na morte de Tavito.

Tavito, do Som Imaginário, do Clube da Esquina, do rock rural.

Tavito compôs a melodia de Casa no Campo, que Elis gravou, já com César, no disco de 1972.

A  letra, quem escreveu foi Zé Rodrix, que também foi do Som Imaginário e do rock rural.

A barra estava muito pesada, e Casa no Campo propunha uma fuga da realidade.

Não era, certamente, a melhor saída, mas – não importa – a música era bonita demais!

Com essa canção, Tavito e Zé Rodrix ganharam um festival em Juiz de Fora.

O prêmio dava acesso ao FIC, no Rio, e, na passagem de som, Rodrix foi surpreendido por uma voz a lhe fazer um pedido:

Eu quero gravar essa música!

Era Elis Regina.

*****

Na morte de Tavito, a gente acabou reouvindo Casa no Campo na televisão.

É o legado dele à MPB.

A letra evoca a versão brasileira do sonho hippie ali em 1971, 1972, 1973.

Na época, o projeto da casa no campo podia ser uma metáfora da esperança.

Hoje, seria um necessário retorno aos nossos interiores.

Onde você estava quando Elis morreu?

Era começo da tarde. 13 horas, talvez. Eu ia para o jornal.

Parei numa banca de revistas, e uma notícia no rádio chamou minha atenção.

Falava da morte de uma cantora de 36 anos.

No primeiro instante, não entendi de quem se tratava. Mas fiquei ligado.

Veio, então, o choque:

Elis Regina já chegou morta ao hospital!

Eu me perguntei:

Elis? Não é possível!

A mistura fatal:

Cinzano com cocaína. (Mas ela não era “careta”?)

19 de janeiro de 1982. Há exatos 37 anos.

Onde você estava no dia em que perdemos Elis?

Elis Regina morreu há 37 anos. Saudade de Elis. Saudade do Brasil

Dezembro, 1979: Elis em João Pessoa. Foto de Bertrand Lira.

Conheço gente jovem que ouve Elis Regina e se emociona.

Será pela qualidade do seu canto?

Será pelo encontro da grande voz com o grande repertório?

Será pela evocação de uma época e de uma luta por dias melhores?

Ou misturamos tudo para perguntarmos se não é pela imensa beleza da sua arte?

Elis Regina resistiu à passagem do tempo. Sua vida foi contada no palco, num musical que provoca a ilusão de que estamos diante dela. Chegou à tela do cinema, num filme que não é excepcional, mas é necessário. Está nas livrarias, numa biografia escrita pelo jornalista Júlio Maria.

Nada será como antes. Diz a canção do Clube da Esquina. Diz o título do livro.

Acho que tudo foi bem diferente dos sonhos de uma geração.

A música de Elis evoca um tempo e faz pensar na distância entre sonho e realidade. Por isso, soa anda mais bela. Porque vem carregada de melancolia.

O “façam a festa por mim” da canção de Ivan Lins e Vítor Martins é dilacerante, ouvido hoje! Não há festa a fazer!

O pedaço do seu cancioneiro dedicado às dores coletivas lembra noites escuras à espera de dias claros. Permanece como retrato de um tempo.

O pedaço que fala das dores individuais não tem tempo.

Elis era singular na mistura das duas dores. Como era singular na mistura de técnica com emoção.

No país de Ângela, Elizeth, Maysa, Gal, num país de grandes vozes femininas, Elis Regina, entre 1965 e 1981, edificou um legado que a gente tenta traduzir assim:

É mais do que uma intérprete excepcional. É uma intérprete excepcional, perfeccionista, posta a serviço da construção de um repertório de altíssima qualidade. A nos mostrar, ontem e hoje, que é possível!

Você vai de Bolsonaro, a Globo vem de Elis

O mundo tem muito mais possibilidades do que essa caretice que está aí

Elis, o filme de Hugo Prata, foi lançado há dois anos nos cinemas.

A cinebiografia não usou imagens reais, só a voz da cantora.

Andreia Horta brilhou fazendo Elis Regina num filme que não é excepcional, mas é muito necessário.

Agora, nesse início de 2019, Elis chega à Globo transformado numa minissérie de quatro capítulos que está em exibição desde terça-feira (08) e até amanhã (11).

A versão estendida é muito diferente do que vimos no cinema. Até o título foi expandido para Elis, Viver é melhor que sonhar, fazendo uso do verso da canção de Belchior.

Na TV, Elis é um docudrama. Mistura o filme de Hugo Prata com imagens reais de Elis Regina e do seu tempo, além de muitos depoimentos. Também há conteúdo ficcional que não está no cinema, como a entrevista que costura a narrativa.

Ficou melhor?

Ficou pior?

Ficou diferente.

E ainda mais necessário.

Na tela da Globo, depois da novela das nove, esse docudrama fala pra gente sobre coisas que continuam valendo na memória nacional, a despeito dessa estúpida onda ultraconservadora que atingiu o Brasil.

Elis Regina não é ficção. Muito menos a sua música. O tempo em que Elis viveu também não é ficção. A ditadura e a violência do regime de exceção eram muito mais reais do que vemos na tela da TV.

No Brasil real, 2019 começa com Bolsonaro chegando ao poder.

Nesse docudrama sobre Elis, temos um Brasil que foi real anos atrás.

Esse Brasil de ontem permite um contraponto com o Brasil de hoje.

É positivo que seja assim.

Enquanto você vai de Jair Bolsonaro, a Globo vem de Elis Regina!

ELIS REGINA, 1945 – 1982

Nesta sexta-feira (19), faz 36 anos que Elis Regina morreu.

Se estivesse viva, ela faria 73 anos em março.

Conheço gente jovem que ouve Elis Regina e se emociona.

Será pela qualidade do seu canto?

Será pelo encontro da grande voz com o grande repertório?

Será pela evocação de uma época e de uma luta por dias melhores?

Ou misturamos tudo para perguntarmos se não é pela imensa beleza da sua arte?

Elis Regina resistiu à passagem do tempo. Sua vida foi contada no palco, num musical que provoca a ilusão de que estamos diante dela. Chegou à tela do cinema, num filme que não é excepcional, mas é necessário. Está nas livrarias, numa biografia escrita pelo jornalista Júlio Maria.

Nada será como antes. Diz a canção do Clube da Esquina. Diz o título do livro.

Acho que tudo foi bem diferente dos sonhos de uma geração.

A música de Elis evoca um tempo e faz pensar na distância entre sonho e realidade. Por isso, soa anda mais bela. Porque vem carregada de melancolia.

O “façam a festa por mim” da canção de Ivan Lins e Vítor Martins é dilacerante, ouvido hoje! Não há festa a fazer!

O pedaço do seu cancioneiro dedicado às dores coletivas lembra noites escuras à espera de dias claros. Permanece como retrato de um tempo.

O pedaço que fala das dores individuais não tem tempo.

Elis era singular na mistura das duas dores. Como era singular na mistura de técnica com emoção.

No país de Ângela, Elizeth, Maysa, Gal, num país de grandes vozes femininas, Elis Regina, entre 1965 e 1981, edificou um legado que a gente tenta traduzir assim:

É mais do que uma intérprete excepcional. É uma intérprete excepcional, perfeccionista, posta a serviço da construção de um repertório de altíssima qualidade. A nos mostrar, ontem e hoje, que é possível!

AO VIVO

Transversal do Tempo

Um grande momento de Elis ao vivo. O disco é mal gravado e mal editado, o show está incompleto, mas a performance da cantora, o vigor da banda, a força dos arranjos e um repertório primoroso superam qualquer limitação técnica.

Os dias eram assim! O triste é que, hoje, não há festa a fazer!

Os Dias Eram Assim.

É a nova série da Globo. Estreia nesta segunda-feira (17).

O título é um verso da canção Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins e Vítor Martins.

Foi magistralmente gravada por Elis Regina.

Se pensarmos nos compositores que se posicionaram contra a ditadura (Chico Buarque, Gonzaguinha, João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vítor Martins, Milton Nascimento e seus parceiros) e escolhermos as canções engajadas que compuseram sobretudo ao longo da década de 1970, Aos Nossos Filhos é uma das mais fortes.

É uma canção de ninar. Nas três primeiras estrofes, a letra fala do presente (o momento em que foi escrita) como se ele já fosse passado. Perdoem por isso, perdoem por aquilo, os dias eram assim. Quem ouviu na época sabe o efeito que tinha!

As três últimas estrofes falam do futuro como se o autor (ou a intérprete) não fosse mais estar vivo. Quando ocorrer isso, quando ocorrer aquilo, façam a festa por mim.

A morte prematura de Elis Regina, intérprete definitiva da canção, acabou conferindo mais beleza e melancolia à letra de Vítor Martins.

Nos últimos tempos, sempre que ouço Aos Nossos Filhos, o “façam a festa por mim” cola nos meus ouvidos.

O verso vem sempre acompanhado por uma pergunta:

Que festa podemos fazer?

Elis Regina morreu há 35 anos. Onde você estava?

Era começo da tarde. 13 horas, talvez. Eu ia para o jornal. Parei numa banca de revistas, e uma notícia no rádio chamou minha atenção. Falava da morte de uma cantora de 36 anos.

No primeiro instante, não entendi de quem se tratava. Mas fiquei ligado.

Veio, então, o choque: Elis Regina já chegou morta ao hospital!

Eu me perguntei: Elis? Não é possível!

A mistura fatal: Cinzano com cocaína. (Mas ela não era “careta”?)

19 de janeiro de 1982. Há exatos 35 anos.

Onde você estava no dia em que perdemos Elis?

Começo com essa foto. Precária, mas importante para quem viu. Foi tirada pelo cineasta Bertrand Lira em dezembro de 1979, na última vez em que Elis cantou em João Pessoa. O show foi no Cine Municipal.

Prossigo com essa seleção de discos de Elis. Que tal para apresentar a cantora aos garotos e garotas que ainda não a ouviram?

Conheço gente de vinte e poucos anos que ouve Elis Regina e se emociona.

Será pela qualidade do seu canto?

Será pelo encontro da grande voz com o grande repertório?

Será pela evocação de uma época e de uma luta por dias melhores?

Ou misturamos tudo para perguntarmos se não é pela imensa beleza da sua arte?

Elis Regina resistiu à passagem do tempo. Sua vida foi contada no palco, num musical que provoca a ilusão de que estamos diante dela. Chegou à tela do cinema, num filme que não é excepcional, mas é necessário. Está nas livrarias, numa biografia escrita pelo jornalista Júlio Maria.

Nada será como antes. Diz a canção do Clube da Esquina. Diz o título do livro.

Acho que tudo foi bem diferente dos sonhos de uma geração.

A música de Elis evoca um tempo e faz pensar na distância entre sonho e realidade. Por isso, soa anda mais bela. Porque vem carregada de melancolia.

O “façam a festa por mim” da canção de Ivan Lins e Vítor Martins é dilacerante, ouvido hoje! Não há festa a fazer!

O pedaço do seu cancioneiro dedicado às dores coletivas lembra noites escuras à espera de dias claros. Permanece como retrato de um tempo.

O pedaço que fala das dores individuais não tem tempo.

Elis era singular na mistura das duas dores. Como era singular na mistura de técnica com emoção.

No país de Ângela, Elizeth, Maysa, Gal, num país de grandes vozes femininas, Elis Regina, entre 1965 e 1981, edificou um legado que a gente tenta traduzir assim:

É mais do que uma intérprete excepcional. É uma intérprete excepcional, perfeccionista, posta a serviço da construção de um repertório de altíssima qualidade. A nos mostrar, ontem e hoje, que é possível!

RETRO2016/Elis Regina no palco e na tela

No ano que está terminando, tivemos dois reencontros com Elis Regina.

João Pessoa viu, afinal, o musical que conta a história da maior cantora brasileira. E chegou aos cinemas a sua cinebiografia.

NO PALCO

Elis, a Musical dialoga com dois públicos. Um, formado pelos que não foram contemporâneos de Elis Regina. Outro, pelos que foram. Neste, cabe uma subdivisão: os que não só foram contemporâneos da maior cantora do Brasil, mas tiveram o privilégio de vê-la ao vivo.

Seja qual for o público, objetivamente, é um espetáculo muitíssimo bem realizado. Dirigido por Dennis Carvalho, Elis, a Musical, da concepção ao resultado final, tira nota 10 em qualquer um desses itens: texto, escolha de repertório, cenografia, figurino, direção musical, desempenho do elenco. Nada está fora do lugar nos 150 minutos de duração dos dois atos.

Subjetivamente, a minha percepção é a de quem foi contemporâneo de Elis e pôde vê-la ao vivo. Nessa perspectiva, o musical escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade corresponde a tudo o que de melhor foi dito dele. É uma viagem melancólica e nostálgica por um tempo que, a despeito de ser de trevas, ofereceu contrapontos da dimensão de uma Elis Regina.

A tragédia pessoal da artista se funde ao impasse brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Do festival que a revelou com “Arrastão” (1965) à morte aos 36 anos (1982), Elis teve pouco mais de uma década e meia de carreira. Com muita fidelidade, o espetáculo conta a sua história e um pouco da história do país através de canções que são verdadeiros petardos para seus contemporâneos.

Viagem nostálgica porque remete à juventude dos que viram e ouviram Elis em sua época. Melancólica porque fala de sonhos desfeitos, de permanentes transversais do tempo. Elis, a Musical faz pensar no país convulsionado da ditadura, também no de hoje. A letra comovente de “Aos Nossos Filhos”, escrita num Brasil que não existe mais, soa mais forte ainda quando ouvida agora.

A permanência dos impasses brasileiros impede o que Elis, com a voz embargada, pede na letra da canção. Que se faça a festa por ela.

NA TELA

João Marcello, o filho de Elis Regina com Ronaldo Bôscoli, disse que Elis é um bom filme. Entendi assim a fala dele: é apenas bom, mas não deixe de ver!

Saí do cinema com essa sensação: é correto, bem realizado, não é excepcional, mas como é necessário!

No passado, as estrelas da música popular viravam estrelas de cinema. Ou, aqui, acolá, apareciam num documentário sobre um grande show ou uma turnê.

Agora, depois que o tempo passou, elas se transformaram em personagens de cinebiografias ou de documentários que olham as coisas de longe.

O cinema brasileiro está cheio desses filmes. Faz uns 15 anos. São importantes para a construção da memória.

Elis é o mais recente. Quem viu Elis, a Musical, pode achar que há muitas semelhanças entre os dois. E há. Eles, na verdade, se completam.

No teatro, vivemos um pouco a ilusão de que estamos diante de Elis. Isso impressiona contemporâneos e não contemporâneos dela.

No cinema, não. Mas há o impacto de uma atriz (Andreia Horta) que ficou muito parecida com a cinebiografada. Em muitos momentos, ela “recebe” Elis. Não tem nada de caricatural, como andaram dizendo!

E há o impacto da música. Andreia dubla. A voz é de Elis, cantora extraordinária que surgiu e cresceu no Brasil da ditadura e se consolidou pelo singular domínio da voz, entre a técnica e a emoção, e pelo marcante repertório que gravou em seus muitos discos.

O filme de Hugo Prata tem o contexto histórico em que Elis se firmou, seus (grandes) dramas pessoais, que acabaram levando ao desfecho trágico e prematuro, e tem muita música. Números muito bem filmados que impressionam os que admiram a artista.

A música de Elis e o desempenho de Andreia Horta são os destaques desse filme que emociona os que viram Elis em seu tempo e ensina algo aos que não viram!

“Elis” é um bom filme. Bom e necessário

elis-regina-filme

João Marcello, o filho de Elis Regina com Ronaldo Bôscoli, disse que Elis é um bom filme. Entendi assim a fala dele: é apenas bom, mas não deixe de ver!

Saí do cinema com essa sensação: é correto, bem realizado, não é excepcional, mas como é necessário!

elis-o-filme

No passado, as estrelas da música popular viravam estrelas de cinema. Ou, aqui, acolá, apareciam num documentário sobre um grande show ou uma turnê.

Agora, depois que o tempo passou, elas se transformaram em personagens de cinebiografias ou de documentários que olham as coisas de longe.

O cinema brasileiro está cheio desses filmes. Faz uns 15 anos. São importantes para a construção da memória.

Elis, que acaba de chegar aos cinemas, é o mais recente. Quem viu Elis, a Musical, pode achar que há muitas semelhanças entre os dois. E há. Eles, na verdade, se completam.

No teatro, vivemos um pouco a ilusão de que estamos diante de Elis. Isso impressiona contemporâneos e não contemporâneos dela.

No cinema, não. Mas há o impacto de uma atriz (Andreia Horta) que ficou muito parecida com a cinebiografada. Em muitos momentos, ela “recebe” Elis. Não tem nada de caricatural, como andaram dizendo!

E há o impacto da música. Andreia dubla. A voz é de Elis, cantora extraordinária que surgiu e cresceu no Brasil da ditadura e se consolidou pelo singular domínio da voz, entre a técnica e a emoção, e pelo marcante repertório que gravou em seus muitos discos.

O filme de Hugo Prata tem o contexto histórico em que Elis se firmou, seus (grandes) dramas pessoais, que acabaram levando ao desfecho trágico e prematuro, e tem muita música. Números muito bem filmados que impressionam os que admiram a artista.

A música de Elis e o desempenho de Andreia Horta são os destaques desse filme que emociona os que viram Elis em seu tempo e ensina algo aos que não viram!