Caetano é o mais à esquerda nessa hora de tanta turbulência

Há uns 30 anos, Gilberto Gil disse que ele e Chico Buarque eram de centro. Roberto Carlos e Maria Bethânia, de direita. E Caetano Veloso, o mais à esquerda de todos.

As pessoas não gostaram porque entenderam mal, mas Gil falava de estética. Não era de política.

Lembro disso agora vendo o engajamento de Caetano nesse momento de tamanha turbulência e tantos riscos que o Brasil atravessa.

Não é mais estética. É política mesmo. Ele é o mais à esquerda porque é o mais incisivo, o mais corajoso, o mais destemido. E essa coragem, esse destemor, Caetano vai buscar na sua liberdade. Uma liberdade notável que permitiu a esse grande artista brasileiro estar sempre à esquerda sem que seu pensamento estivesse preso à macrovisão da esquerda.

Nesta quinta-feira (25), em João Pessoa, vi pela terceira vez Ofertório, o show de Caetano com os filhos Moreno, Zeca e Tom.

Foi muito forte ver Caetano de perto a três dias de uma eleição presidencial que pode nos jogar na escuridão.

O “ame-o e deixe-o livre para amar”, da letra da canção de Gil que aparece logo no início do show, é o oposto do “ame-o ou deixe-o” dos tempos de Médici. Muita gente nem percebia, mas como era significativo na época dos Doces Bárbaros, meados dos anos 1970. Volta a ficar agora, em oposição ao discurso insano do candidato Bolsonaro, dirigido aos que estavam domingo na Avenida Paulista. Discurso de exclusão, de ameaça aos diferentes, de gravíssimos e insidiosos ataques à democracia.

O “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” arranca o aplauso da plateia e faz Caetano chorar no palco, de tão atual que é, de tão permanente que continua sendo.

E tem o “quem cultiva a semente do amor/segue em frente e não se apavora/se na vida encontrar dissabor/vai saber esperar a sua hora”, esse samba bonito do grupo Revelação, que surge no final do show. Agora, dizendo muito mais do que dizia quando vi o show pela primeira vez, em janeiro.

Há um árduo trabalho a ser desenvolvido a partir de segunda-feira. Trabalho de muitos.

No artigo que escreveu para o New York Times, Caetano já disse que fará a parte dele. Vê-lo no palco, em instantes de imensa beleza ao lado dos filhos, é especialmente forte nesses dias que antecedem a eleição presidencial. Provoca júbilo por todo o amor reunido no encontro de família. E também nos toca muito profundamente quando faz pensar que, lá fora, há grandes ameaças às belezas do Brasil.

O que Ricardo Coutinho quer dizer é que o voto é contra Bolsonaro

Vou comentar um vídeo do governador Ricardo Coutinho que vi no Facebook.

Mas, antes, transcrevo algo que escrevi aqui em maio do ano passado, após a vitória de Macron na França:

Testemunhei recentemente uma conversa curiosa entre um petista e um não petista.

Falavam de cenários para 2018.

O petista perguntou ao não petista:

Se for Lula e Bolsonaro, você vota em quem?

E o não petista respondeu:

Em Lula, ora!

Aí foi a vez do não petista perguntar ao petista:

E se for um candidato de centro e Bolsonaro, você vota em quem?

E o petista respondeu:

Claro que voto nulo!

Neste domingo, enquanto acompanhava a eleição na França, lembrei da conversa.

A expressiva vitória de Emmanuel Macron sobre Marine Le Pen é um não categórico à direita mais atrasada que avança pelo mundo.

Seis meses atrás, os americanos, elegendo Donald Trump, não deram a resposta que os franceses deram neste domingo.

Ainda que Macron não seja o melhor, mas o menos ruim, venceu a França da República, da Democracia.

Em 2018, que lição o Brasil poderá tirar da derrota da direita na eleição da França?

A conversa que testemunhei entre um petista e um não petista aponta para a tremenda dificuldade que ainda temos de assimilar lições como a da França.

*****

O vídeo de Ricardo Coutinho é sobre esta questão.

O que o governador quer dizer na fala dele é que, neste momento, o voto deve ser contra Jair Bolsonaro.

O voto deve ser contra o que Jair Bolsonaro representa.

O voto deve ser contra os riscos que há na eleição de Jair Bolsonaro.

Não é um voto no PT.

Não é, nem mesmo, um voto em Fernando Haddad, que é um democrata.

É um não ao avanço das forças de extrema direita que estão a um passo da vitória.

Ricardo Coutinho dá uma declaração corajosa, que normalmente desagrada à militância de esquerda. Mas que é muito necessária.

Ele diz que votaria em Geraldo Alckmin, fosse este que estivesse disputando o segundo turno com Jair Bolsonaro. Ou em Álvaro Dias. Ou – até – em João Amoedo, de cujo programa discorda frontalmente.

O governador cita, então, o exemplo da França. Dos 60 por cento de eleitores que se uniram em torno de Macron, um candidato de centro, e derrotaram Le Pen, uma candidata de extrema direita.

A França e suas lições para o mundo.

Viva a República! Viva a Democracia!

O amor aos Beatles não combina com o voto em Bolsonaro

All you need is love
All you need is love
All you need is love, love, love
Love is all you need

Feliz Natal! A guerra acabou! – diziam os cartazes que John Lennon e Yoko Ono mandaram afixar em grandes cidades do mundo.

Um pouco antes, John já cantara: Dê uma chance à paz!

John Lennon foi assassinado aos 40 anos num país onde é muito fácil comprar armas de fogo.

Paul McCartney é vegetariano. Cidadão engajado nas lutas em defesa dos animais.

Pacifista que deu as mãos ao Greenpeace e aos temas ambientais que afligem milhões de pessoas.

O ébano e o marfim – diz a canção – são harmônicos em sua vida tal como nas teclas do seu piano.

Dê-me amor, dê-me paz na Terra – cantava George Harrison, o beatle místico.

Os dedos em “V”, peace and love – é como Ringo Starr é visto até hoje em suas aparições públicas.

Os quatro Beatles são grandes figuras do seu tempo.

Sua música vem de longe – dos anos 1960 – e sobrevive no século XXI.

As melodias que compuseram.

As letras que escreveram.

As ideias que difundiram.

A liberdade de criação que levaram para o universo da canção popular.

A abordagem dos grandes temas de uma geração.

No mundo do pop/rock, há poucos como eles.

Ou melhor: não há ninguém.

A música dos Beatles pertence ao planeta.

A música dos Beatles pertence aos homens humanos.

A música dos Beatles é cheia de generosidade, de amor, de compreensão, de harmonia, de paz, de beleza, de poesia.

A música dos Beatles rejeita a violência, o racismo, os preconceitos, a intolerância.

A música dos Beatles confirma a crença num mundo melhor.

Custo a acreditar – por ser contradição profunda – que fãs ardorosos dos Beatles estejam declarando voto em Bolsonaro.

Mas estão.

Música preferida de Fernando Haddad é de Gilberto Gil. Ouça

Qual a música preferida de Fernando Haddad, o candidato do PT à presidência da República?

Não é Blackbird, dos Beatles, que ele costuma tocar ao violão ou à guitarra.

Ela se chama O Fim da História.

É de Gilberto Gil e está no álbum Parabolicamará, de 1991.

Haddad revelou a preferência no final da entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, nesta segunda-feira (22).

Eis a letra:

O FIM DA HISTÓRIA

Não creio que o tempo
Venha comprovar
Nem negar que a História
Possa se acabar

Basta ver que um povo
Derruba um czar
Derruba de novo
Quem pôs no lugar

É como se o livro dos tempos pudesse
Ser lido trás pra frente, frente pra trás
Vem a História, escreve um capítulo
Cujo título pode ser “Nunca Mais”
Vem o tempo e elege outra história, que escreve
Outra parte, que se chama “Nunca É Demais”
“Nunca Mais”, “Nunca É Demais”, “Nunca Mais”
“Nunca É Demais”, e assim por diante, tanto faz
Indiferente se o livro é lido
De trás pra frente ou lido de frente pra trás

Quantos muros ergam
Como o de Berlim
Por mais que perdurem
Sempre terão fim

E assim por diante
Nunca vai parar
Seja neste mundo
Ou em qualquer lugar

Por isso é que um cangaceiro
Será sempre anjo e capeta, bandido e herói
Deu-se notícia do fim do cangaço
E a notícia foi o estardalhaço que foi
Passaram-se os anos, eis que um plebiscito
Ressuscita o mito que não se destrói
Oi, Lampião sim, Lampião não, Lampião talvez
Lampião faz bem, Lampião dói
Sempre o pirão de farinha da História
E a farinha e o moinho do tempo que mói

Tantos cangaceiros
Como Lampião
Por mais que se matem
Sempre voltarão

E assim por diante
Nunca vai parar
Inferno de Dante
Céu de Jeová

Eis o que Gilberto Gil diz da canção:

A canção foi composta para responder à colocação do scholar nipo-americano Francis Fukuyama, que num artigo publicado um pouco antes defendeu a tese neo-liberalista de que, com o final do comunismo – que, segundo ele, teria desaparecido -, a história teria também acabado. O artigo se chamou justamente ‘O fim da História’, e foi escrito para provar o término da marcha das utopias. Para lançar minha contestação frontal a isso, eu fiz a advocacia do ‘eterno retorno’, tratando exatamente da questão de que tratava Fukuyama (a derrocada do socialismo enquanto configuração dos conjuntos nacionais do leste europeu), e trazendo à discussão o mito de Lampião (havia então a notícia de que, numa cidadezinha do Nordeste, tinham tentado tirar a sua estátua, o que gerou polêmica, sugerindo-se um plebiscito em que o povo acabou preferindo mantê-la).

Ouça O Fim da História:

FHC seria justo com a história de FHC se apoiasse Haddad

Fernando Henrique Cardoso com Lula. Os dois juntos, panfletando.

A velha foto fala sobre o papel que eles desempenharam na construção da democracia brasileira.

As paixões partidárias tentam negar, mas eles desempenharam, sim. Assim como seus partidos, o PSDB e o PT.

Pena que a cegueira de um lado impeça a visão do que há no outro lado. A política feita como se religião fosse impede.

O PT demonizou Fernando Henrique.

O PT errou ao demonizar Fernando Henrique.

Fernando Henrique é um democrata, um pensador do Brasil. Com os erros e os acertos dos homens que fazem política. Orgulho-me de ter votado nos dois. No Fernando Henrique de 1994. No Lula de 2002.

Li com grande interesse a entrevista de Fernando Henrique Cardoso no último final de semana.

Tem as razões dele. As críticas dele. As suas resistências ao PT que hoje disputa o segundo turno da eleição presidencial. Devemos ouvi-lo.

Há uma porta que pode levar Fernando Haddad a Fernando Henrique. Está dito pelo ex-presidente.

O bom era que fosse uma porta que não se abrisse só na hora em que um precisa do apoio eleitoral do outro.

O ideal era que fosse uma porta permanentemente aberta para o fortalecimento da democracia brasileira.

Muitos esperam gestos dos dois nesse momento tão grave da vida nacional.

Não sei o que acontecerá, mas continuo pensando que Fernando Henrique Cardoso faria justiça à história de Fernando Henrique Cardoso se apoiasse Haddad.

Moa do Catendê foi assassinado

Passei o carnaval de 1980 em Salvador.

Fui atraído principalmente pelo Trio Elétrico Dodô & Osmar, que, naquela época, tinha Moraes Moreira como cantor.

Eu era louco pelo trio e tinha que ver aquilo tudo ao vivo.

Pra libertar meu coração

Eu quero muito mais

Que o som da marcha lenta

Três rapazes e três moças, praticamente sem dinheiro, viajando de ônibus. Era o nosso grupo. Nossas pequenas malas ganharam nomes de filmes. A Volta ao Mundo em 80 Dias, 2001: Uma Odisseia no Espaço, etc. Ficamos hospedados na casa de uma paraibana que morava no Rio Vermelho. Um carnaval maluco e inesquecível.

Em um dos dias, fui de ônibus para o centro. No meio do percurso, as pessoas começaram a cantar alegremente, batendo no teto do veículo, e eu me juntei a elas:

Misteriosamente

O Badauê surgiu

Sua expressão cultural

O povo aplaudiu

Fiquei comovido. Era uma manifestação espontânea, forte e bela. Verdadeira afirmação dos pretos daquela cidade.

A música, de Moa do Catendê, eu conhecera no ano anterior, gravada por Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental. O mesmo disco onde está Beleza Pura.

BELEZA PURA! – que eu assim li na manchete de um dos jornais da Bahia na quarta-feira de cinzas, quando me preparava para voltar pra casa.

Nesta segunda-feira (08), leio com tristeza que Moa do Catendê foi assassinado a facadas depois de dizer a um bolsonarista que votara em Haddad.

“Somos mais populares do que Jesus” é Lennon, não é Manuela

“O cristianismo vai acabar. Vai desvanecer e encolher. Não preciso discutir isso; sei que estou certo e será provado que estou certo. Somos mais populares do que Jesus agora. Não sei qual dos dois vai acabar primeiro – o rock’n’ roll ou o cristianismo. Jesus foi um cara legal, mas seus discípulos eram obtusos e banais. Foi a distorção deles que arruinou a coisa para mim”. 

A fala de John Lennon estava numa matéria que o Evening Standard publicou na Inglaterra no dia quatro de março de 1966. A transcrição que faço aqui é de John Lennon, a vida, biografia do músico escrita por Philip Norman.

A declaração não obteve qualquer repercussão no Reino Unido. O próprio Evening Standard não deu destaque a ela, não publicou em manchete.

Os Beatles mais populares do que Jesus Cristo? Isso pouco interessou na “cínica e agnóstica Grã-Bretanha”.

A reação ocorreu quatro meses depois e nos Estados Unidos. A Datebook, uma revista para adolescentes, ressuscitou a entrevista de Lennon e destacou a comparação entre rock e cristianismo, Beatles e Jesus Cristo.

Foi um escândalo e uma grave ameaça à turnê americana que o grupo estava prestes a iniciar.

Gente estimulando a garotada a se rebelar contra seus ídolos, discos queimados em praça pública.

Com a Ku Klux Klan no meio, a fatia mais conservadora da sociedade americana versus os Beatles – era o que se tinha da noite para o dia.

O empresário Brian Epstein tentou explicar. John Lennon também.

A coisa ganhou dimensão mundial. O Vaticano protestou.

“Há coisas que não podem ser tratadas de modo profano, nem mesmo no mundo dos beatniks”, disse o papa Paulo VI.

O tempo passou. Os Beatles sobreviveram. A música deles se sobrepôs ao episódio.

E cá estou eu, 52 anos depois, contando essa história por causa das eleições brasileiras.

O que as eleições brasileiras têm a ver com a polêmica entrevista de John Lennon?

Nada, não fosse a ideia, em posts nas redes sociais, de atribuir a Manuela D’ Ávila, vice de Fernando Haddad, o que o beatle disse.

Pode parecer sem importância, mas não é. A difusão desse tipo mentira, por gente intelectualmente desonesta, é um dos tantos retratos possíveis do processo eleitoral brasileiro.

Foi assim no primeiro turno. Imaginem no vale tudo do segundo.

Celso Furtado disse que as elites brasileiras são muito atrasadas

Entrevistei (junto com Otinaldo Lourenço) Celso Furtado para um programa da TV Cabo Branco. Foi numa noite qualquer do ano de 1989. Perto da primeira eleição presidencial depois do golpe de 64.

Fui buscá-lo numa livraria no centro de João Pessoa. Ele estava numa sessão de autógrafos. Fui com a consciência de que estava diante de um grande brasileiro.

Cresci ouvindo falar de Celso Furtado dentro de casa. O economista, o pensador, o primeiro superintendente da Sudene, o ministro de Jango, o professor no exílio. Celso estava sempre presente nas conversas e nas leituras do meu pai.

Os impasses brasileiros conduziram a entrevista. Os descaminhos da economia, as saídas que ele enxergava. E um pouco de memória: o encontro com o presidente Kennedy, a visita de Sartre ao Recife.

Celso Furtado dirigiu uma pick up da Sudene para mostrar o Recife a Sartre.

Depois da gravação, um tema inevitável: as eleições presidenciais que se aproximavam. Eu disse que votava em Brizola. Ele, em Ulysses Guimarães. Mas temia que Collor fosse o vitorioso. Temíamos.

Foi aí que veio a frase:

“As elites brasileiras são muito atrasadas. São tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses”.

Mas, depois de Collor, tivemos o sociólogo Fernando Henrique, o operário Lula, a guerrilheira Dilma.

Celso Furtado estava equivocado em sua observação?

Vez ou outra penso que sim.

Quase sempre, penso que não.

Os que votaram no PT estavam certos ou errados?

1982.

O Brasil voltava a ter eleições diretas para os governos estaduais.

Na Paraíba, a disputa era entre Wilson Braga, do PDS, e Antônio Mariz, do PMDB.

Wilson, deputado federal, vinha da Arena, o partido da ditadura.

Mariz, deputado federal, também vinha, mas rompera com a Arena por não ter sido escolhido governador biônico em 1978.

Na Paraíba, um grupo de artistas, jornalistas e intelectuais não votava em Wilson nem em Mariz.

Essas pessoas apostavam num partido de esquerda, novo, pequeno, que estava sendo construído e que tinha em seu comando um cara que poderia se transformar numa grande liderança nacional.

O partido, o PT.

O cara, Lula.

O grupo de paraibanos quis se manifestar publicamente. Redigiu um manifesto, fez uma modestíssima cota e publicou o texto como matéria paga nos jornais do estado.

O que guiava aquele grupo – acertando ou errando – era a ideia de que nem tudo, no jogo político e no campo democrático, deveria estar circunscrito ao PMDB, o partido do Dr. Ulysses Guimarães. De que era válido buscar outros caminhos. De que não seria em vão votar em candidatos simbólicos de tão pequenos que eram porque, neles, havia algo que apontava para o futuro.

Veio a eleição, que tinha um só turno e era realizada em 15 de novembro, o feriado da proclamação da República.

A oposição venceu em São Paulo com Franco Montoro (PMDB), no Rio de Janeiro com Leonel Brizola (PDT) e em Minas Gerais com Tancredo Neves (PMDB).

O PDS foi o grande vitorioso no Nordeste. Até mesmo em Pernambuco, de tantas lutas da esquerda, onde o candidato Marcos Freire, do PMDB, parecia imbatível.

Na Paraíba, Wilson Braga derrotou Antônio Mariz.

O candidato do PT era Derly Pereira.

Essas histórias de eleições que a gente retém na memória guardam pequenas lições.

O candidato do PT, pasmem!, não sabia o valor do salário mínimo

Foi mais ou menos assim o diálogo.

O candidato do PRN (o partido de Collor) perguntou:

Qual o valor do salário mínimo?

O candidato do PT respondeu:

Deveria ser de 100 dólares. 

Ao mencionar um valor razoável para aquela época, revelou que não sabia. Claro, era um tempo de inflação alta, o salário era corrigido frequentemente, mas era inadmissível que o candidato do PT não soubesse.

Lembrei disso porque, para mim, está na antologia dos grandes momentos dos debates eleitorais realizados na Paraíba. E hoje (02) é o dia do debate da TV Cabo Branco com os candidatos que disputam o governo estadual. Mediação de Ernesto Paglia.

Outro momento antológico, no fim de uma campanha muito disputada.

O ano era 1990.

Ronaldo Cunha Lima X Wilson Braga. Mediação de Nonato Guedes.

O Ibope apontava para uma vitória de Wilson no primeiro turno. Não aconteceu. No segundo turno, com o apoio de João Agripino (que teve uns 150 mil votos), Ronaldo venceu.

Wilson não foi ao debate do primeiro turno. No do segundo, através de sorteio, foi Ronaldo que fechou o debate. A frase certeira do poeta acabou como manchete do jornal do dia seguinte:

A Paraíba quer paz! Braga nunca mais!

Se ver o debate pela televisão é bom, realizá-lo é ainda melhor. Há grandes emoções reservadas para a equipe envolvida.

Nos meus 20 anos de TV Cabo Branco, o debate mais marcante foi o de 2002.

Cássio Cunha Lima X Roberto Paulino. Mediação de André Luiz Azevedo.

No dia do debate, pela manhã, Paulino, governador que disputava a reeleição, anunciou que não iria. Passamos a viver horas de grande ansiedade. E frustração. Telefonemas pra lá. Telefonemas pra cá. Conversas com assessores. Tentativas e mais tentativas de convencer o governador a participar do debate.

Paulino foi. Acredito que todos estavam sob forte pressão.

A mim, coube dirigir o debate. No final, quando procurei Erialdo Pereira, nosso editor chefe, ele chorava convulsivamente debaixo de uma árvore, lá nos fundos da emissora. A tensão acabara.

Pois bem. Que tenhamos hoje um grande debate. Como merece a democracia.