De Obama a Trump. Da elegância de um à truculência do outro!

Nesta terça-feira (10) à noite, o mundo assiste ao último discurso do presidente Barack Obama. A pouco mais de uma semana da posse de Donald Trump.

A alternância de poder, tão necessária às democracias que conhecemos, permite que saiamos da elegância de um para a truculência do outro. Mas não sem riscos.

Os oito anos de Obama na Casa Branca deixarão saudades. O casal Obama deixará saudades.

Entre as muitas marcas do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, há a admirável retórica. Algo que ele, mais uma vez, deve exibir na despedida desta noite.

Fecho com música: a imagem comovente de Obama cantando o spiritual Amazing Grace e desejando que os negros assassinados numa igreja encontrem a Graça!

Complemento com Joan Baez e sua versão de Amazing Grace.

“Eu era cego, mas agora eu vejo!”, diz a letra.

Não é preciso crer. Essa oração comove até os corações ateus!

Cinema americano não seria o que é sem os estrangeiros!

No Globo de Ouro, a grande atriz Meryl Streep foi homenageada pelo conjunto da obra.

Fez um discurso dirigido ao presidente eleito Donald Trump. Exaltou a presença dos estrangeiros em Hollywood.

Meryl sabe, como o resto do mundo, que, sem os estrangeiros, o cinema americano jamais seria o que é.

Em muitas áreas, a América, aliás, tem uma tradição que é o oposto da xenofobia.

Como o assunto aqui é cinema, fecho lembrando cinco cineastas não americanos que atuaram em Hollywood.

Charles Chaplin.

Alfred Hitchcock.

Billy Wilder.

Elia Kazan.

Frank Capra.

Os Rolling Stones são como um luar sobre a noite de Havana

Andam dizendo que 2016 foi um ano surpreendente. Eleição de Donald Trump, saída do Reino Unido da União Europeia, Nobel de Literatura para Bob Dylan.

Acrescento: o presidente americano em Cuba e um show dos Rolling Stones em Havana. Com o comandante Fidel Castro ainda vivo e o irmão Raul no poder.

Nove meses se passaram desde a noite de 25 de março, e o registro está disponível para vermos nos nossos cinemas caseiros.

É o documentário Havana Moon, que a Som Livre acaba de lançar no mercado brasileiro. O título vem de uma música de Chuck Berry.

Não sem alguma ironia, a voz em off de Keith Richards diz no início do filme que a ida de Barack Obama a Cuba foi como uma abertura para o show dos Rolling Stones.

A estreia da banda em Havana tem significado simbólico forte. Marca o reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba e ilustra os extertores do ciclo de poder dos irmãos Castro.

Se quisermos, o filme é sobre esse tema. Mas com abordagem sutil e olhar simpático e respeitoso.

Houve a Revolução e suas conquistas. E houve o declínio com o fim do subsídio soviético. Os ganhos na saúde e na educação sempre se contrapuseram às restrições das liberdades individuais.

Havana Moon toca nessas questões sem precisar entrar nelas. Indiretamente, aparecem nas falas de Mick Jagger e Keith Richards que abrem o documentário. E no que eles dizem no palco, durante o concerto.

Jagger se estende mais, ao mencionar a censura ao rock.

Richards resume: Havana, Cuba e os Rolling Stones. Isto é incrível!

As imagens falam mais alto. Da memória da Revolução estampada no muro à pobreza do povo.

Jagger conta para a multidão em êxtase que viu a rumba de perto na Casa da Música. O diálogo se dá através da arte. É mais fluente do que nas relações políticas.

Buena Vista Social Club tem um anticomunismo que soa mal. Havana Moon não tem.

É como se os Stones repetissem o que Obama disse ao discursar diante de Raul Castro: que o destino de Cuba está nas mãos dos cubanos.

Aquela alegria toda, no palco e na plateia, é, então, para dizer isso: celebremos com música, mas o destino de vocês está nas suas mãos.

A música que os cubanos ouvem ao vivo pela primeira vez tem seu ponto alto numa “blues suite”. É Midnight Rambler, que se estende por muitos minutos e resume o que os Stones são.

Naquela noite de 25 de março de 2016, eles se projetaram como a luz do luar sobre a noite de Havana. Velhos, mas ainda muito intensos.

No Dia da Consciência Negra, Zumbi, um pastor e quatro músicos

No Dia da Consciência Negra, Dom José Maria Pires.

Dom Pelé, Dom Zumbi. Arcebispo da Paraíba por 30 anos. Firme e doce a um só tempo. Pastor cristão que dialogava com os não cristãos. Com os ateus. Que celebrou a Missa dos Quilombos. Que tinha a convicção de que o problema do mundo não estava na divisão entre capitalistas e socialistas, mas entre ricos e pobres.

(Essa foto, ganhei dele quando eu tinha sete anos. O ano está na dedicatória: 1966.)

DOM JOSÉ

No Dia da Consciência Negra, Gilberto Gil.

Brasil, São Paulo, SP, 01/08/1979. O músico, cantor e compositor Gilberto Gil, durante entrevista. Pasta: 23.854 Foto: Kenji Honda/AE

Agora que a América elegeu Trump e que a França pode dar uma guinada à direita, lembro da presença de Gil no SOS Racismo, em Paris, e dos versos escritos em francês 30 anos atrás, mas ainda tão atuais.

A tradução é mais ou menos assim:

O que faz Jean-Paul Sartre pensar

Faz Yannik Noah jogar

Faz Charles Aznavour cantar

Faz Jean-Luc Godard filmar

Faz bela Brigitte Bardot

Faz pequeno o maior dos franceses

Faz grande o menor dos chineses

Portanto, não incomode meu chapa!

No Dia da Consciência Negra, Moacir Santos.

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O maestro lembrava que todos os homens são irmãos. E acrescentava algo: que alguns são irmãos duas vezes. Quando somente a verdade prevalece entre eles.

Na hora em que se ajoelhou diante de uma igreja, pedindo para ser merecedor do amor de uma mulher, o autor de Nanã não rogou ao Deus dos católicos, mas à mãe natureza!

No Dia da Consciência Negra, uma imagem que não precisa de palavras. Pixinguinha fotografado por Walter Firmo.

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No Dia da Consciência Negra, Zumbi, de Jorge Ben. África Brasil!

Roberto Carlos não criticou Sérgio Moro. Notícia falsa, diz assessoria

Roberto Carlos não fez críticas ao juiz Sérgio Moro. A notícia é falsa, diz em nota a assessoria do artista.

O episódio ocorreu na mesma semana em que o Dicionário de Oxford escolheu pós-verdade como a palavra de 2016.

Estamos na era da pós-verdade. Post-truth. A pós-verdade ajudou a eleger Donald Trump presidente dos Estados Unidos.

As mentiras disseminadas nas redes sociais se sobrepõem às verdades. As pessoas se deixam guiar pelo que não é verdadeiro.

Os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Em 1989, no debate às vésperas da eleição, Collor disse que não tinha dinheiro para comprar um equipamento de som como o de Lula. Collor mentiu. O eleitor acreditou nele. Se fosse hoje, a afirmação dele se enquadraria no conceito de pós-verdade.

O caso de Roberto Carlos: uma “notícia” no Facebook dizia que o artista estava perdendo seguidores nas redes sociais depois de criticar o juiz Sérgio Moro e apoiar o PT. Não é verdade.

A assessoria do Rei divulgou nota que está em seu perfil no Facebook.

O teor da nota: “Roberto Carlos, como a maioria dos brasileiros, tem orgulho do trabalho do juiz Sérgio Moro e de todos da equipe do Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público envolvidos na operação Lava Jato, exemplos de dignidade e competência. Novamente a internet é usada para divulgar notícias falsas e estamos tomando providências jurídicas para que fatos como este não tornem a acontecer”.

Roberto Carlos tem 75 anos, quase 60 de carreira. Ele não costuma se envolver com política. Direito dele. O que é grande nesse artista que chamamos de Rei é a singularíssima relação da sua música com milhões de brasileiros.

A pós-verdade sempre existiu. O que assusta é sermos dominados por ela.

Paródia de “Águas de Março” desrespeita memória de Jobim!

Águas de Março é o samba mais lindo do mundo!

Creio que quem disse foi Chico Buarque.

Waters of March é uma das grandes canções do século XX!

Quem disse foi o crítico de jazz Leonard Feather.

Letra e música de Antônio Carlos Jobim, Águas de Março é uma das maiores canções de Tom e um momento singularíssimo do vasto cancioneiro do Brasil.

Vejam e ouçam, então, essa paródia de Águas de Março que encontrei no Youtube.

Essa paródia é um absoluto desrespeito não só a uma joia do nosso cancioneiro, mas, sobretudo, à memória de Tom, nosso maior compositor popular.

Para enxergar o que há de simplório e pouco inteligente na paródia não é preciso ser Trump, nem Temer, nem Crivella. Muito menos Bolsonaro, abominável defensor do estupro e da tortura.

Há um verso imperdoável nesse atentado a Águas de Março: “Bolsonaro a caminho”.

O Brasil está num impasse, estamos a dois anos da eleição presidencial e, francamente, devemos acreditar que encontraremos uma saída que não seja essa. Nenhuma saída (nem as piores) pode ser tão indesejável quanto Bolsonaro.

Nenhuma desilusão com o jogo político deve levar à crença de que uma onda conservadora conduzirá o Brasil ao extremo que Bolsonaro representa.

Paródia com esse tipo de verso serve, no fundo, a quem?

Não tem a menor graça!

Aproveitando o que está na letra: isso, sim, é que é o fim da poesia!!

Algo se quebrou, está se quebrando!

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Americanos são muito estatísticos. Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos. Olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham, mas não no próprio fundo. Os americanos representam boa parte da alegria existente neste mundo. Para os americanos, branco é branco, preto é preto (e a mulata não é a tal). Bicha é bicha, macho é macho, mulher é mulher e dinheiro é dinheiro. E, assim, ganham-se, barganham-se, perdem-se. Concedem-se, conquistam-se direitos. Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime. E dançamos com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei. Entre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o sublime. Americanos não são americanos. São velhos homens humanos, chegando, passando, atravessando. São tipicamente americanos. Americanos sentem que algo se perdeu. Algo se quebrou, está se quebrando.
Postei como se fosse prosa. Não é. É poesia. Caetano Veloso, 1992. Continua valendo. Tem algo que fala desse 09/11 em que Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos.

De Lincoln a Obama: 21 nomes que orgulham os americanos

O mundo está voltado para os Estados Unidos. Numa eleição disputadíssima, os americanos escolhem nesta terça-feira (8) o novo presidente. Hillary ou Trump?

Pensando na presença dos Estados Unidos no mundo, escolhi 21 nomes que falam da contribuição dos americanos.

Claro que é uma escolha subjetiva e incompleta.

O presidente Abraham Lincoln.

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O compositor George Gershwin.

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O músico Louis Armstrong.

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O compositor Duke Ellington.

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O escritor F. Scott Fitzgerald.

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O compositor Cole Porter.

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O cantor Frank Sinatra.

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O cineasta John Ford.

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O presidente Franklin Delano Roosevelt.

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A cantora Billie Holiday.

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O dançarino Fred Astaire.

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O maestro Leonard Bernstein.

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O ator Marlon Brando.

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O cantor Elvis Presley.

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A atriz Marilyn Monroe.

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O boxeador Mohamed Ali.

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O presidente John Kennedy.

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O compositor Bob Dylan.

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O pastor Martin Luther King.

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O astronauta Neil Armstrong.

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O presidente Barack Obama.

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De Kennedy a Obama. E agora? Hillary ou Trump?

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Eu tinha pouco mais de quatro anos, mas a lembrança ainda é nítida em minha memória. Meu pai ouvindo na Voz da América a notícia do assassinato do presidente Kennedy. Posso dizer que os americanos entraram na minha vida naquela tarde do dia 22 de novembro de 1963. Nas semanas seguintes, vieram as muitas revistas que minha mãe comprava. E, alguns meses mais tarde, também por iniciativa dela, a foto autografada do casal Kennedy ao lado dos dois filhos. Meu pai era comunista, mas admirava JFK. A um só tempo, respeitava a sólida democracia dos americanos e lamentava que eles separassem os homens pela cor da pele.

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Cinco anos depois, mais duas tragédias americanas. Os assassinatos do reverendo Luther King e do senador Bob Kennedy pareciam sugerir que a América teria grandes dificuldades para avançar na luta pelos direitos civis. Estávamos em 1968, o ano em que os estudantes puseram a França de cabeça para baixo, e os militares brasileiros endureceram o regime, promovendo o que Brizola chamava de o golpe dentro do golpe.

Os democratas ficaram oito anos com Kennedy e Johnson, depois veio o republicano Nixon. O desfecho foi o pior possível: o escândalo de Watergate e a renúncia, já no segundo mandato. De Carter, a gente lembra sobretudo da defesa dos direitos humanos. O eleitor não quis que ele ficasse oito anos. Os republicanos voltaram com Reagan, canastrão do cinema que governou a Califórnia e terminou presidente. Em 1980, admirávamos a velocidade da apuração dos votos nos Estados Unidos. A nossa era obsoleta, e os brasileiros estavam enferrujados se o assunto fosse eleição.

Esperávamos o pior de Reagan, um ultraconservador no comando da Casa Branca. Era assustador para nós, que vivíamos sob governos de exceção e sonhávamos com um país redemocratizado. A realidade foi menos sombria. O velho ator ficou oito anos e fez o sucessor, Bush pai, que não se reelegeu. Aí veio Clinton, um cara da geração que se rebelou nos anos 1960. Da Casa Branca ao show dos Rolling Stones – dá para traduzir assim. No ano 2000, seu vice, Al Gore, ganhou no voto popular, mas perdeu no número de delegados para Bush filho. Os oito anos que se seguiram confirmaram que o pesadelo não atendia pelo nome de Ronald Reagan.

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Em 2008, os democratas queriam uma mulher no poder. Quando vi Obama pela primeira vez, não pensei que ele ultrapassaria Hillary para ser o primeiro negro na Casa Branca. Na madrugada em que discursou como presidente eleito, a imagem mais forte, para mim, foi a do reverendo Jackson com lágrimas nos olhos, no meio da multidão. Resumia a longa caminhada. Havia muitos símbolos ali, embora a vida real fosse menor do que o sonho. Em 2012, sem a reeleição de Obama, teria vencido a América que ainda separa os homens pela cor da pele. Assinado, selado, entregue, eu sou de vocês – cantou Stevie Wonder na vitória. The best is yet to come, prometeu o presidente. Como na canção de Sinatra.

Alternância de poder é um negócio que os americanos levam a sério. Se ocorrer agora em 2016, a letra da canção será invertida. O pior estará por vir!