“La La Land” venceu sem ter vencido! Digno da pós-verdade!

Não estamos na era da pós-verdade?

Donald Trump não é o presidente dos Estados Unidos?

As redes sociais não são grandes difusoras de mentiras?

O Oscar não poderia, então, ficar de fora!

Confesso que me emocionei quando vi o casal Warren Beatty e Faye Dunaway escalado para anunciar o vencedor do Oscar de Melhor Filme!

Beatty e Dunaway velhos!

Eram jovens e belos no devastador Bonnie e Clyde!

Mas isso foi há meio século! No tempo em que as pessoas iam ao cinema ver o novo filme de Arthur Penn! Sabem o que isso representa? Os garotos da geração Y, entre a arrogância e a ignorância, talvez nem saibam quem é Penn!

Pois bem! Lá estão Beatty e Dunaway no palco a protagonizar a maior gafe da história do Oscar!

O vencedor da estatueta de Melhor Filme é La La Land!

Equipe em festa! Todos ao palco! Começam os discursos de sempre! Ridículos como sempre!

De repente, algo acontece!

É uma brincadeira? Dessas brincadeiras bobas que abundam na festa do Oscar?

É um fake digno da legião de imbecis que Eco viu nas redes sociais?

É o Oscar na era da pós-verdade?

É qualquer coisa! Qualquer coisa que nunca havíamos visto!

Não! O Oscar não é de La La Land, esse filme fofo que, com seu escapismo, muitos acham bem à altura da era Trump!

Sim! O Oscar de Melhor Filme é de Moonlight!

La La Land foi apenas um sonho que durou três, quatro, quantos meses mesmo?

A festa acabou!

As 14 indicações viraram seis estatuetas, mas não a principal!

La La Land vai para o lixo da história?

Ou vai para a antologia de um dos grandes gêneros do cinema?

Quem vai julgar é a passagem do tempo!

Abraço de FHC e Lula é o inverso do lixo das redes sociais!

Um gesto que, como cidadão, reprovo com veemência: o governante renuncia horas antes do término do mandato para não dar posse ao sucessor.

Vimos aqui, mais de uma vez, tão perto de nós.

Um gesto que causa inveja: um ex-presidente, com 92 anos e câncer no cérebro, pega um avião na classe econômica e vai à posse do presidente, mesmo que este seja Donald Trump. O ex é Jimmy Carter, grande defensor dos direitos humanos.

Cenas que falam (mal e bem) das nações em seus processos civilizatórios.

A visita de Fernando Henrique Cardoso a Lula, no hospital onde Dona Marisa Letícia agonizava, reúne muitos significados.

Há a retribuição do que Lula e Dona Marisa fizeram na morte de Dona Ruth Cardoso.

Há (no que dá e no que recebe o abraço) a lembrança dos muitos momentos de convergência, lá atrás, quando os dois talvez nem imaginassem que um dia seriam presidentes.

Há o gesto humano que se sobrepõe às fortes divergências políticas.

E há também o gesto político que aponta para o diálogo, que recusa a intolerância.

O abraço de FHC e Lula é o oposto do lixo que estamos vendo nas redes sociais!

Um muro a separar homens. E um pedaço do Muro de Berlim no bolso

O pianista e professor Gerardo Parente, grande figura que viveu e morreu na Paraíba, passava por Berlim quando soube que o muro estava sendo derrubado. Correu para lá, pegou um diminuto fragmento e colocou no bolso.

Quando voltou para João Pessoa, me ligou, empolgado, para contar a história.

Gerardo amava a liberdade tanto quanto amava a música. E mantinha a crença de que o homem não podia ser separado por um muro.

Ingênuo, não?

Utópico, não?

Mas admirável! Na conversa cheia de emoção ou na execução de uma melodia de Villa-Lobos.

Lembrei de Gerardo Parente quando vi o presidente Trump anunciando a construção do muro na fronteira dos Estados Unidos com o México.

Selecionei duas fotos para ilustrar essa brevíssima conversa.

A primeira, da construção do Muro de Berlim. A segunda, da sua derrubada.

 

De Obama a Trump. Da elegância de um à truculência do outro!

Nesta terça-feira (10) à noite, o mundo assiste ao último discurso do presidente Barack Obama. A pouco mais de uma semana da posse de Donald Trump.

A alternância de poder, tão necessária às democracias que conhecemos, permite que saiamos da elegância de um para a truculência do outro. Mas não sem riscos.

Os oito anos de Obama na Casa Branca deixarão saudades. O casal Obama deixará saudades.

Entre as muitas marcas do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, há a admirável retórica. Algo que ele, mais uma vez, deve exibir na despedida desta noite.

Fecho com música: a imagem comovente de Obama cantando o spiritual Amazing Grace e desejando que os negros assassinados numa igreja encontrem a Graça!

Complemento com Joan Baez e sua versão de Amazing Grace.

“Eu era cego, mas agora eu vejo!”, diz a letra.

Não é preciso crer. Essa oração comove até os corações ateus!

Cinema americano não seria o que é sem os estrangeiros!

No Globo de Ouro, a grande atriz Meryl Streep foi homenageada pelo conjunto da obra.

Fez um discurso dirigido ao presidente eleito Donald Trump. Exaltou a presença dos estrangeiros em Hollywood.

Meryl sabe, como o resto do mundo, que, sem os estrangeiros, o cinema americano jamais seria o que é.

Em muitas áreas, a América, aliás, tem uma tradição que é o oposto da xenofobia.

Como o assunto aqui é cinema, fecho lembrando cinco cineastas não americanos que atuaram em Hollywood.

Charles Chaplin.

Alfred Hitchcock.

Billy Wilder.

Elia Kazan.

Frank Capra.

Os Rolling Stones são como um luar sobre a noite de Havana

Andam dizendo que 2016 foi um ano surpreendente. Eleição de Donald Trump, saída do Reino Unido da União Europeia, Nobel de Literatura para Bob Dylan.

Acrescento: o presidente americano em Cuba e um show dos Rolling Stones em Havana. Com o comandante Fidel Castro ainda vivo e o irmão Raul no poder.

Nove meses se passaram desde a noite de 25 de março, e o registro está disponível para vermos nos nossos cinemas caseiros.

É o documentário Havana Moon, que a Som Livre acaba de lançar no mercado brasileiro. O título vem de uma música de Chuck Berry.

Não sem alguma ironia, a voz em off de Keith Richards diz no início do filme que a ida de Barack Obama a Cuba foi como uma abertura para o show dos Rolling Stones.

A estreia da banda em Havana tem significado simbólico forte. Marca o reatamento das relações entre Estados Unidos e Cuba e ilustra os extertores do ciclo de poder dos irmãos Castro.

Se quisermos, o filme é sobre esse tema. Mas com abordagem sutil e olhar simpático e respeitoso.

Houve a Revolução e suas conquistas. E houve o declínio com o fim do subsídio soviético. Os ganhos na saúde e na educação sempre se contrapuseram às restrições das liberdades individuais.

Havana Moon toca nessas questões sem precisar entrar nelas. Indiretamente, aparecem nas falas de Mick Jagger e Keith Richards que abrem o documentário. E no que eles dizem no palco, durante o concerto.

Jagger se estende mais, ao mencionar a censura ao rock.

Richards resume: Havana, Cuba e os Rolling Stones. Isto é incrível!

As imagens falam mais alto. Da memória da Revolução estampada no muro à pobreza do povo.

Jagger conta para a multidão em êxtase que viu a rumba de perto na Casa da Música. O diálogo se dá através da arte. É mais fluente do que nas relações políticas.

Buena Vista Social Club tem um anticomunismo que soa mal. Havana Moon não tem.

É como se os Stones repetissem o que Obama disse ao discursar diante de Raul Castro: que o destino de Cuba está nas mãos dos cubanos.

Aquela alegria toda, no palco e na plateia, é, então, para dizer isso: celebremos com música, mas o destino de vocês está nas suas mãos.

A música que os cubanos ouvem ao vivo pela primeira vez tem seu ponto alto numa “blues suite”. É Midnight Rambler, que se estende por muitos minutos e resume o que os Stones são.

Naquela noite de 25 de março de 2016, eles se projetaram como a luz do luar sobre a noite de Havana. Velhos, mas ainda muito intensos.

No Dia da Consciência Negra, Zumbi, um pastor e quatro músicos

No Dia da Consciência Negra, Dom José Maria Pires.

Dom Pelé, Dom Zumbi. Arcebispo da Paraíba por 30 anos. Firme e doce a um só tempo. Pastor cristão que dialogava com os não cristãos. Com os ateus. Que celebrou a Missa dos Quilombos. Que tinha a convicção de que o problema do mundo não estava na divisão entre capitalistas e socialistas, mas entre ricos e pobres.

(Essa foto, ganhei dele quando eu tinha sete anos. O ano está na dedicatória: 1966.)

DOM JOSÉ

No Dia da Consciência Negra, Gilberto Gil.

Brasil, São Paulo, SP, 01/08/1979. O músico, cantor e compositor Gilberto Gil, durante entrevista. Pasta: 23.854 Foto: Kenji Honda/AE

Agora que a América elegeu Trump e que a França pode dar uma guinada à direita, lembro da presença de Gil no SOS Racismo, em Paris, e dos versos escritos em francês 30 anos atrás, mas ainda tão atuais.

A tradução é mais ou menos assim:

O que faz Jean-Paul Sartre pensar

Faz Yannik Noah jogar

Faz Charles Aznavour cantar

Faz Jean-Luc Godard filmar

Faz bela Brigitte Bardot

Faz pequeno o maior dos franceses

Faz grande o menor dos chineses

Portanto, não incomode meu chapa!

No Dia da Consciência Negra, Moacir Santos.

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O maestro lembrava que todos os homens são irmãos. E acrescentava algo: que alguns são irmãos duas vezes. Quando somente a verdade prevalece entre eles.

Na hora em que se ajoelhou diante de uma igreja, pedindo para ser merecedor do amor de uma mulher, o autor de Nanã não rogou ao Deus dos católicos, mas à mãe natureza!

No Dia da Consciência Negra, uma imagem que não precisa de palavras. Pixinguinha fotografado por Walter Firmo.

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No Dia da Consciência Negra, Zumbi, de Jorge Ben. África Brasil!

Roberto Carlos não criticou Sérgio Moro. Notícia falsa, diz assessoria

Roberto Carlos não fez críticas ao juiz Sérgio Moro. A notícia é falsa, diz em nota a assessoria do artista.

O episódio ocorreu na mesma semana em que o Dicionário de Oxford escolheu pós-verdade como a palavra de 2016.

Estamos na era da pós-verdade. Post-truth. A pós-verdade ajudou a eleger Donald Trump presidente dos Estados Unidos.

As mentiras disseminadas nas redes sociais se sobrepõem às verdades. As pessoas se deixam guiar pelo que não é verdadeiro.

Os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos às emoções e às crenças pessoais.

Em 1989, no debate às vésperas da eleição, Collor disse que não tinha dinheiro para comprar um equipamento de som como o de Lula. Collor mentiu. O eleitor acreditou nele. Se fosse hoje, a afirmação dele se enquadraria no conceito de pós-verdade.

O caso de Roberto Carlos: uma “notícia” no Facebook dizia que o artista estava perdendo seguidores nas redes sociais depois de criticar o juiz Sérgio Moro e apoiar o PT. Não é verdade.

A assessoria do Rei divulgou nota que está em seu perfil no Facebook.

O teor da nota: “Roberto Carlos, como a maioria dos brasileiros, tem orgulho do trabalho do juiz Sérgio Moro e de todos da equipe do Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público envolvidos na operação Lava Jato, exemplos de dignidade e competência. Novamente a internet é usada para divulgar notícias falsas e estamos tomando providências jurídicas para que fatos como este não tornem a acontecer”.

Roberto Carlos tem 75 anos, quase 60 de carreira. Ele não costuma se envolver com política. Direito dele. O que é grande nesse artista que chamamos de Rei é a singularíssima relação da sua música com milhões de brasileiros.

A pós-verdade sempre existiu. O que assusta é sermos dominados por ela.

Paródia de “Águas de Março” desrespeita memória de Jobim!

Águas de Março é o samba mais lindo do mundo!

Creio que quem disse foi Chico Buarque.

Waters of March é uma das grandes canções do século XX!

Quem disse foi o crítico de jazz Leonard Feather.

Letra e música de Antônio Carlos Jobim, Águas de Março é uma das maiores canções de Tom e um momento singularíssimo do vasto cancioneiro do Brasil.

Vejam e ouçam, então, essa paródia de Águas de Março que encontrei no Youtube.

Essa paródia é um absoluto desrespeito não só a uma joia do nosso cancioneiro, mas, sobretudo, à memória de Tom, nosso maior compositor popular.

Para enxergar o que há de simplório e pouco inteligente na paródia não é preciso ser Trump, nem Temer, nem Crivella. Muito menos Bolsonaro, abominável defensor do estupro e da tortura.

Há um verso imperdoável nesse atentado a Águas de Março: “Bolsonaro a caminho”.

O Brasil está num impasse, estamos a dois anos da eleição presidencial e, francamente, devemos acreditar que encontraremos uma saída que não seja essa. Nenhuma saída (nem as piores) pode ser tão indesejável quanto Bolsonaro.

Nenhuma desilusão com o jogo político deve levar à crença de que uma onda conservadora conduzirá o Brasil ao extremo que Bolsonaro representa.

Paródia com esse tipo de verso serve, no fundo, a quem?

Não tem a menor graça!

Aproveitando o que está na letra: isso, sim, é que é o fim da poesia!!

Algo se quebrou, está se quebrando!

trump
Americanos são muito estatísticos. Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos. Olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham, mas não no próprio fundo. Os americanos representam boa parte da alegria existente neste mundo. Para os americanos, branco é branco, preto é preto (e a mulata não é a tal). Bicha é bicha, macho é macho, mulher é mulher e dinheiro é dinheiro. E, assim, ganham-se, barganham-se, perdem-se. Concedem-se, conquistam-se direitos. Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime. E dançamos com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei. Entre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o sublime. Americanos não são americanos. São velhos homens humanos, chegando, passando, atravessando. São tipicamente americanos. Americanos sentem que algo se perdeu. Algo se quebrou, está se quebrando.
Postei como se fosse prosa. Não é. É poesia. Caetano Veloso, 1992. Continua valendo. Tem algo que fala desse 09/11 em que Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos.