Anchieta Maia ligou para Dom Hélder Câmara, e ele nos recebeu

Dom Hélder Câmara nasceu no dia sete de fevereiro de 1909.

Por isso, lembrei dele hoje.

E quis contar uma pequena história.

O ano era 1978.

Cajá estava preso em Pernambuco.

Quem era Cajá?

Um estudante ligado a Dom Hélder, arcebispo de Olinda e Recife.

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Em João Pessoa, estudante do Colégio e Curso União, eu me preparava para o vestibular.

Perseguido pelo regime militar, o professor (depois deputado estadual) Antônio Augusto Arroxelas, um dos donos do colégio, nos deixava à vontade para fazer coisas que não eram permitidas em outros estabelecimentos.

Uma delas: trazer Dom Hélder para fazer uma palestra.

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Anchieta Maia, muito antes do Moçada que agita, era o responsável pelo Centro Cívico, cuidava dos eventos.

Uma manhã, ele nos surpreendeu: “Liguei para Dom Hélder, e ele nos recebe hoje à tarde”.

E lá fomos nós para o Recife: o professor Ronaldo (um baiano que dizia ser primo de João Gilberto e, deste, tinha o sobrenome Oliveira), Anchieta e três alunos (eu, Dida Fialho e Euni Santos).

Levávamos o convite para que o arcebispo viesse a João Pessoa conversar com os nossos colegas.

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Quando chegamos a Manguinhos, a primeira coisa que chamou minha atenção foi a absoluta simplicidade do lugar onde Dom Hélder trabalhava.

Uma figura com a dimensão dele, de projeção internacional, vivia ali pobremente. Que bom! Vivia como um verdadeiro cristão!

Logo fomos recebidos.

Lá veio o arcebispo de braços abertos a nos acolher: “Meus filhos, o que vocês querem de mim?”.

E fizemos o convite.

Dom Hélder foi claro em sua resposta:

“Eu não vou. Não posso ir. Cajá está preso por minha causa e não quero que isto aconteça com outros estudantes”.

Na recusa de Dom Hélder ao nosso convite havia a confirmação do que muitos diziam: a prisão do estudante era uma represália do regime militar à sua atuação como clérigo progressista.

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Voltamos frustrados porque ouvimos um “não”.

Mas o encontro foi inesquecível.

A voz, o abraço, a franqueza, a simplicidade, a firmeza.

Tudo apontava para a grandeza daquele homem.

Caetano e Gil foram presos há 50 anos. País vivia sob força do AI-5

Nesta quinta-feira (27/12), faz 50 anos que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos pela ditadura militar.

Não havia acusação formal contra eles.

A prisão, por homens da Polícia Federal, ocorreu ao amanhecer, em São Paulo.

Os dois artistas foram levados para o Rio de Janeiro e entregues ao Exército.

Fazia duas semanas que o governo editara o AI-5 e endurecera o jogo.

Era o golpe dentro do golpe.

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

Caetano Veloso e Gilberto Gil conquistaram dimensão nacional um ano antes no festival em que lançaram Alegria, Alegria (Caetano) e Domingo no Parque (Gil). As duas músicas levaram as guitarras elétricas da Jovem Guarda para a MPB e iniciaram o movimento tropicalista.

1968 foi o ano do Tropicalismo. O disco-manifesto do movimento reuniu Caetano e Gil + Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, Torquato Neto e Capinam. Todos sob a batuta do maestro Rogério Duprat. Os Beatles tinham George Martin, os tropicalistas tinham Duprat.

O Tropicalismo propunha a retomada da linha evolutiva da música popular brasileira. É uma boa definição.

Outra: o Tropicalismo juntava a Pipoca Moderna da Banda de Pífanos de Caruaru com a Strawberry Fields Forever dos Beatles.

Na MPB, havia a esquerda resguardada pós-Bossa Nova e, em 1968, passou a haver o conjunto de transgressões estéticas e de comportamento do Tropicalismo.

Os tropicalistas eram muito mais ousados. Mais subversivos – se quisermos usar a palavra da época.

Então é esta a juventude que diz que quer tomar o poder? – perguntou Caetano, entre a fúria e a lucidez, no discurso de É Proibido Proibir.

Caetano confessa que não tinha medo. Gil tinha.

No tempo meteórico do movimento tropicalista, Caetano foi movido por um grande destemor. Gil, não.

Quando foram presos, Caetano viveu todos os medos.

Gil conseguiu um violão e compôs, na cadeia, músicas que seriam gravadas no seu LP de 1969. Chegou a fazer um show para a tropa do quartel para onde fora levado.

Presos em dezembro de 1968, soltos em fevereiro de 1969, os dois ficaram confinados em Salvador até julho daquele ano. Fizeram um show de despedida no Teatro Castro Alves e partiram para o exílio. London, London – onde viveram por mais de dois anos.

No livro de memórias Verdade Tropical, há um capítulo no qual Caetano Veloso fala do período em que esteve preso. Narciso em férias é o nome do capítulo. Ele tem vida própria. Parece um livro com começo, meio e fim. É um texto impressionante, além de muitíssimo bem escrito. Devia ser lido pelos jovens de hoje. Serve também de argumento contra os que andam dizendo que não houve ditadura militar no Brasil.

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Em 1992, no show Circuladô, Caetano Veloso revelou que Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos foi feita para ele, depois que recebeu a visita de Roberto Carlos no exílio londrino.

No show, antes de cantar a música, Caetano falava do quanto o entristecia a consciência de que a ditadura vinha de regiões profundas do ser do Brasil. Ao mesmo tempo, dizia que, de regiões não menos profundas, vozes asseguravam que aquilo não era tudo.

Se trouxermos para hoje a leitura ontológica que Caetano fez da ditadura militar, por certo, cabe a pergunta: até que ponto a eleição de Jair Bolsonaro não vem também de regiões profundas do ser do Brasil?

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Na semana passada, Roberto Carlos cantou Como Dois e Dois em seu especial natalino. Em seguida, na Folha de S. Paulo, Caetano escreveu que a canção composta no exílio para o Rei gravar continua tão violentamente atual.

Há três anos, perguntei a Caetano sobre como ele via o Tropicalismo de longe, e ele respondeu:

Para mim, a luta continua sempre. É uma luta contra o mundo, contra nós mesmos, contra o medo de tentar a grandeza. 

Fiz a mesma pergunta a Gil, de quem ouvi a seguinte resposta:

Se o Tropicalismo continha, em seu tempo jovem, um significado de luta, como diz Caetano, para mim também, em quem o Tropicalismo ainda não passou, a luta continua!

Naquele 27 de dezembro de 50 anos atrás, ao prender Caetano Veloso e Gilberto Gil, a ditadura parecia ter posto fim ao Tropicalismo do modo com que o movimento fora colocado ao longo de 1968. Mas – resistência!, resistência! – os tropicalistas ainda estão aí, ajudando a organizar o movimento.

50 anos do AI-5. Para quem diz que não houve ditadura militar

“Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência” 

Jarbas Passarinho

Sexta-feira, 13 de dezembro de 1968.

O governo brasileiro endurece o jogo ao editar o AI-5.

É o golpe dentro do golpe.

Nesta quinta-feira (13), faz 50 anos.

Uma data a ser lembrada.

A leitura do AI-5 é útil aos que teimam em dizer que não houve ditadura no Brasil.

Segue a transcrição:

ATO INSTITUCIONAL

Art 1º – São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições estaduais, com as modificações constantes deste Ato Institucional.

Art 2º – O Presidente da República poderá decretar o recesso do Congresso Nacional, das Assembléias Legislativas e das Câmaras de Vereadores, por Ato Complementar, em estado de sitio ou fora dele, só voltando os mesmos a funcionar quando convocados pelo Presidente da República.

§ 1º – Decretado o recesso parlamentar, o Poder Executivo correspondente fica autorizado a legislar em todas as matérias e exercer as atribuições previstas nas Constituições ou na Lei Orgânica dos Municípios.

§ 2º – Durante o período de recesso, os Senadores, os Deputados federais, estaduais e os Vereadores só perceberão a parte fixa de seus subsídios.

§ 3º – Em caso de recesso da Câmara Municipal, a fiscalização financeira e orçamentária dos Municípios que não possuam Tribunal de Contas, será exercida pelo do respectivo Estado, estendendo sua ação às funções de auditoria, julgamento das contas dos administradores e demais responsáveis por bens e valores públicos.

Art 3º – O Presidente da República, no interesse nacional, poderá decretar a intervenção nos Estados e Municípios, sem as limitações previstas na Constituição.

Parágrafo único – Os interventores nos Estados e Municípios serão nomeados pelo Presidente da República e exercerão todas as funções e atribuições que caibam, respectivamente, aos Governadores ou Prefeitos, e gozarão das prerrogativas, vencimentos e vantagens fixados em lei.

Art 4º – No interesse de preservar a Revolução, o Presidente da República, ouvido o Conselho de Segurança Nacional, e sem as limitações previstas na Constituição, poderá suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais.

Parágrafo único – Aos membros dos Legislativos federal, estaduais e municipais, que tiverem seus mandatos cassados, não serão dados substitutos, determinando-se o quorum parlamentar em função dos lugares efetivamente preenchidos.

Art 5º – A suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:

I – cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;

II – suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;

III – proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;

IV – aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:

a) liberdade vigiada;

b) proibição de freqüentar determinados lugares;

c) domicílio determinado,

§ 1º – o ato que decretar a suspensão dos direitos políticos poderá fixar restrições ou proibições relativamente ao exercício de quaisquer outros direitos públicos ou privados.

§ 2º – As medidas de segurança de que trata o item IV deste artigo serão aplicadas pelo Ministro de Estado da Justiça, defesa a apreciação de seu ato pelo Poder Judiciário.

Art 6º – Ficam suspensas as garantias constitucionais ou legais de: vitaliciedade, mamovibilidade e estabilidade, bem como a de exercício em funções por prazo certo.

§ 1º – O Presidente da República poderá mediante decreto, demitir, remover, aposentar ou pôr em disponibilidade quaisquer titulares das garantias referidas neste artigo, assim como empregado de autarquias, empresas públicas ou sociedades de economia mista, e demitir, transferir para a reserva ou reformar militares ou membros das polícias militares, assegurados, quando for o caso, os vencimentos e vantagens proporcionais ao tempo de serviço.

§ 2º – O disposto neste artigo e seu § 1º aplica-se, também, nos Estados, Municípios, Distrito Federal e Territórios.

Art 7º – O Presidente da República, em qualquer dos casos previstos na Constituição, poderá decretar o estado de sítio e prorrogá-lo, fixando o respectivo prazo.

Art 8º – O Presidente da República poderá, após investigação, decretar o confisco de bens de todos quantos tenham enriquecido, ilicitamente, no exercício de cargo ou função pública, inclusive de autarquias, empresas públicas e sociedades de economia mista, sem prejuízo das sanções penais cabíveis.

Parágrafo único – Provada a legitimidade da aquisição dos bens, far-se-á sua restituição.

Art 9º – O Presidente da República poderá baixar Atos Complementares para a execução deste Ato Institucional, bem como adotar, se necessário à defesa da Revolução, as medidas previstas nas alíneas d e e do § 2º do art. 152 da Constituição.

Art 10 – Fica suspensa a garantia de habeas corpus , nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.

Art 11 – Excluem-se de qualquer apreciação judicial todos os atos praticados de acordo com este Ato institucional e seus Atos Complementares, bem como os respectivos efeitos.

Art 12 – O presente Ato Institucional entra em vigor nesta data, revogadas as disposições em contrário.

Brasília, 13 de dezembro de 1968; 147º da Independência e 80º da República.

Golpe militar não merece comemoração!

Nesta sexta-feira (23), logo cedo, li na Folha que o futuro ministro da Educação, o colombiano Ricardo Vélez Rodriguez, disse que o golpe de 64 deve ser comemorado.

Um presidente civil, eleito pelo povo (Jango era o vice que assumiu na renúncia de Jânio), é deposto por militares que, por 21 longos anos, submetem o país a governos de exceção.

O que há para comemorar nisso?

A propósito, conto uma historinha que está bem guardada na minha memória:

Cresci durante a ditadura militar iniciada em abril de 1964 com a deposição do presidente João Goulart.

Logo cedo, aprendi com meu pai que a expressão “Revolução de 31 de Março” estava errada.

O certo era chamar de golpe militar o movimento que depusera Jango.

Na Semana da Pátria, nas escolas onde estudei, recebíamos como tarefa trabalhos sobre o que, oficialmente, era chamado de “Revolução”.

Na hora de fazer o dever de casa, uma vez perguntei ao meu pai que expressão deveria usar, e ele foi taxativo:

“Não use revolução porque está errado. Mas não use golpe militar porque não é permitido”.

E me ensinou um eufemismo: movimento militar de 31 de março.

Segui a lição do meu pai até o dia em que tive a liberdade de escrever e pronunciar golpe militar.

As fotos são do mestre Evandro Teixeira.

Pastor Estevam, Jair Bolsonaro, Jesus Cristo e a tortura

Conheço o pastor Estevam Fernandes há muitos anos.

Acompanho e tenho respeito pelo trabalho dele à frente da Primeira Igreja Batista.

Leio agora a notícia de que o pastor está recomendando o voto em Jair Bolsonaro.

A opção de Estevam – durante um encontro com mais de 100 pastores evangélicos – é tão legítima quanto a crítica dura que a ele pode ser feita.

Não quero ir muito longe. Não é necessário.

Jesus Cristo está sempre presente nas conversas com o pastor da Igreja Batista. O Evangelho de Jesus Cristo. Os ensinamentos de Jesus Cristo. Não precisa ser no culto. É assim até numa conversa informal. E não poderia ser diferente.

Jair Bolsonaro defende a tortura. Defende que o próximo, por ser considerado inimigo, seja torturado. Enaltece a figura de Ustra, reconhecidamente um torturador dos tempos da ditadura militar.

Não vou falar de outras coisas do discurso de Bolsonaro. Machismo, racismo, homofobia, armas para que todos possam matar, etc. Não estou inventando. Tudo isso está nas falas e nas atitudes do candidato.

Mas vou ficar só com a defesa da tortura. Há vídeos em que ele faz isso. A tortura – uma prática absolutamente abominável, completamente indefensável.

A minha pergunta:

A tortura é compatível com o que nos ensinam os quatro Evangelhos?

A resposta é uma só:

Não!

Jesus Cristo defendendo a tortura, os torturadores? Nunca!

O pastor, que difunde ao seu rebanho os ensinamentos do Evangelho, recomendando o voto em Bolsonaro? Combina com o cristianismo?

Essa escolha de Estevam, definitivamente, não cabe no que aprendi na minha formação cristã nem no que continuo a depreender quando faço leituras dos textos evangélicos.

7 de setembro, Hino Nacional, um papo com Moacir Santos

O maestro Moacir Santos considerava o Hino Nacional Brasileiro muito longo e difícil de ser cantado.

Em suas complexas conversas sobre música, chegava a defender que o Brasil tivesse um outro hino.

Como ele morava há muitos anos nos Estados Unidos, penso que tinha como parâmetro o Star Spangled Banner, que é breve.

O Hino Nacional Brasileiro é tão longo que costumamos cantar somente a primeira parte. Mas isso não o torna menos belo. Nem mexe com a relação afetiva que temos com ele.

Os hinos nacionais estão associados a um conjunto de emoções que é construído ao longo dos anos.

Muitos dos que cresceram sob a ditadura militar e eram contra o regime de exceção tiveram dificuldades com os chamados símbolos da Pátria.

O compositor Sérgio Ricardo tratou do tema ao cantar o Hino à Bandeira num show em plena ditadura. Emocionava a plateia. Sugeria que havia algo maior do que o momento histórico em que vivíamos.

Conheço pessoas que se reconciliaram com o Hino Nacional nos estertores da ditadura militar. O marco foi o filme Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, em que se ouve a fantasia que o compositor Gottschalk escreveu sobre o Hino Nacional Brasileiro.

Louis Moreau Gottschalk era um americano que viveu no Brasil do Império. Sua fantasia foi usada também na cobertura do funeral do presidente Tancredo Neves.

Em 2016, Paulinho da Viola encantou a todos com uma versão minimalista do Hino Nacional na cerimônia de abertura dos jogos olímpicos.

O mestre do samba só não foi tão minimalista quanto João Gilberto, que, algumas vezes, surpreendeu a plateia ao incluir o hino no set list do seu show.

PRISÃO DE EDUARDO JORGE ABALOU JOÃO PESSOA EM 69

Eduardo Jorge será o vice de Marina Silva.

Muita gente só o conheceu em 2014, quando disputou a presidência pelo PV.

Como sei de Eduardo há quase 50 anos, vou contar um pouco da sua história.

O pai dele, Guilhardo Martins, era um médico do Exército. Foi reitor da UFPB a partir de 1964, até o início dos anos 1970. Era o reitor da ditadura, representante dos militares na universidade, personagem de tristes episódios no ambiente acadêmico.

Baiano de Salvador, Eduardo Jorge cresceu em João Pessoa. Estudante de medicina na universidade que tinha seu pai como reitor. No campus, arrancava suspiros das colegas de curso. Era, digamos, o sonho de conquista de muitas delas.

Em 1969, Eduardo, aos 20 anos, foi personagem de um episódio que abalou João Pessoa. Foi quando tive notícia da existência dele.

Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, filho do reitor Guilhardo Martins Alves, Capitão-Médico do Exército Brasileiro, foi preso numa ação da guerrilha urbana montada para enfrentar a ditadura militar.

Parecia impossível!

Eduardo, o filho do reitor Guilhardo, era muito mais do que um cara envolvido com o movimento estudantil do seu tempo!

Eduardo, o filho do reitor Guilhardo, era um guerrilheiro urbano!

Enquanto o pai perseguia dentro da comunidade acadêmica, o filho atuava no outro extremo.

Eduardo foi para Guilhardo o que Nelson Rodrigues, o filho, foi para Nelson Rodrigues, o pai.

Defensores da ditadura com filhos pegando em armas para enfrentá-la.

Eduardo Jorge foi processado com base na Lei de Segurança Nacional. No episódio ocorrido na Paraíba, em 1969. E numa segunda prisão, na década de 1970, já em São Paulo.

Médico sanitarista, passou pelo Chile de Allende, caminhou ao lado dos movimentos sociais, foi fundador do PT, deputado estadual por São Paulo em 1982, deputado constituinte em 1986, voltando para a Câmara por mais três mandatos.

No parlamento brasileiro, seu nome esteve associado a temas importantes, cruciais, da área de saúde. No tempo em que Lula presidente era mais sonho do que realidade, Eduardo era sempre cotadíssimo para o Ministério da Saúde. Quando Lula, afinal, chegou ao Planalto, já estava longe dos projetos políticos do PT.

Conheci Eduardo Jorge de perto. Testemunhei o início do seu desencanto com a esquerda que o teve como firme militante.

Tenho respeito por ele. Quero ver como será sua performance ao lado de Marina Silva.

Há 50 anos, 100 mil marcharam contra a ditadura militar no Rio

(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das bombas, das bandeiras
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das botas
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo das rosas, dos jardins
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo da lama
(Os clarins da banda militar…)
Debaixo da cama

Caetano Veloso/”Enquanto seu lobo não vem”

26 de junho de 1968.

Exatamente há meio século.

Era uma quarta-feira.

Naquele dia, Gilberto Gil estava fazendo 26 anos.

Mas o aniversário não o impediu de juntar-se aos companheiros num protesto que parou o Rio de Janeiro e ficou conhecido como a passeata dos 100 mil.

Foi uma das mais importantes manifestações da sociedade civil contra a ditadura militar brasileira.

Entre as motivações, estava o assassinato do estudante Edson Luís, ocorrido três meses antes durante a invasão do restaurante Calabouço.

O endurecimento do regime viria menos de seis meses depois, em dezembro, com a decretação do AI-5.

Nos 50 anos da passeata dos 100 mil, nesse Brasil de tantas incertezas, posto aqui essas fotografias.

Inesquecíveis registros jornalísticos daquele 26 de junho de 68 no Rio.

Fecho com uma menção a Evandro Teixeira.

Muitos fotógrafos registraram a passeata dos cem mil para a História.

O mais importante, Evandro Teixeira, do Jornal do Brasil.

É dele o melhor registro visual daquele momento.

Mestre absoluto do fotojornalismo!

 

Nem a ditadura tirou a beleza da marcha Pra Frente Brasil

Claro que a Copa do Mundo de 1970 está associada, para nós brasileiros, à ditadura militar.

Claro que o governo do general Médici usou o futebol para promover o Brasil do ame-o ou deixe-o.

Mas, à medida em que o tempo passa, o que de fato permanece fortemente retido em nossa memória afetiva é o desempenho extraordinário da seleção do tri, a equipe formada por Saldanha e comandada por Zagallo.

A maior lembrança daquele mundial no México obviamente são as imagens do time em campo.

A seleção de Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Carlos Alberto, etc.

Esses craques e seus lances geniais.

Há também a recordação de como era ver pela primeira vez uma Copa do Mundo ao vivo pela televisão, ainda em preto e branco.

Poucas coisas, no entanto, nos remetem tanto àqueles dias quanto a marcha Pra Frente Brasil, composta por Miguel Gustavo originalmente para ser um jingle.

Gravada pelo Coral do Joab, Pra Frente Brasil se transformou num verdadeiro hino da Seleção Brasileira.

Nem a ditadura militar conseguiu tirar a sua beleza!

 

A ditadura militar vem de regiões profundas do ser do Brasil

Creio que a frase – mais ou menos assim – é de Caetano Veloso.

Era pronunciada no início dos anos 1990 durante os shows da turnê Circuladô.

A ditadura militar vem de regiões profundas do ser do Brasil.

Uma definição ontológica para a ditadura, me disse Jomard Muniz de Britto depois de ouvi-la.

A ditadura militar vem de regiões profundas do ser do Brasil.

Não sei se, cientificamente, ela se sustenta, mas gosto muito da frase.

O compartimento da minha memória onde ela está arquivada foi reaberto nos últimos dias.

A ditadura militar vem de regiões profundas do ser do Brasil.

Foi o que vimos nas rodovias bloqueadas, nas conversas com gente de esquerda e de direita e, sobretudo, nas redes sociais.

Uns defendem explicitamente a volta dos militares.

Outros temem, embora não queiram. Mas temem tanto que creem.

Alguns são psicopatas. Basta ver os vídeos e as mensagens de áudio. Não passariam num teste de sanidade mental.

Muitos estabelecem prazos e revelam estratégias. São expostos ao ridículo quando chega a hora da ação, e nada acontece. Felizmente.

No fundo, todos esses parecem confirmar a frase que não sai da minha memória.

A ditadura militar vem de regiões profundas do ser do Brasil.

Fiquemos com a democracia possível.

Frágil, precária. Mas a que temos.

Um governo impopular vive seus estertores.

Haverá eleições daqui a quatro meses.

Os eleitos nos representarão. Bem ou mal, nos representarão. Somos nós que vamos escolhê-los.

Os militares têm um papel constitucional a cumprir.

A ditadura militar vem de regiões profundas do ser do Brasil?

Pode ser que sim.

Que fique bem guardada. Como um desejo que não se tornará realidade outra vez.