Caetano no STF: intolerância de hoje lembra patrulhas ideológicas de ontem

Caetano Veloso cantou o Hino Nacional na posse da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Cármen Lúcia.

Li um monte de comentários contra o artista.

Lembrei de uma história do passado.

Na campanha pela anistia, segunda metade dos anos 1970, o mesmo Caetano Veloso participou de um show coletivo em defesa da volta dos exilados.

Lá estava ele no palco, com seu violão, quando alguém mandou um recado escrito num pedaço de papel: “Não cante O Leãozinho!”. Ou foi pior?: “Se cantar O Leãozinho, apanha!”.

Verdade? Lenda? Não sei, mas é uma história que arquivei na minha memória.

O resumo é o seguinte: não basta você estar aqui apoiando a anistia. Não. Você tem que fazer do jeito que eu quero!

Era o tempo das patrulhas ideológicas. Terríveis patrulhas ideológicas. Os mais jovens talvez nem saibam.

Voltemos ao presente.

Caetano Veloso ficou do lado da presidente Dilma Rousseff. Cantou na ocupação do Ministério da Cultura, no Rio. Assinou manifesto. Apareceu nas redes sociais segurando cartaz com o fora Temer na noite da abertura dos jogos olímpicos. Falou fora Temer no palco em Paris.

Mas não basta. Estar com a esquerda não é suficiente. É preciso ser de esquerda exatamente do jeito que a esquerda quer!

Sobre a ida de Caetano ao STF, li comentários dos dois lados. Gente de direita que criticou o fato de ele estar ali junto de Lula. Gente de esquerda que o chamou de conivente com a direita.

Gente intolerante. Dos dois lados. Nos dois extremos.

Caetano no Supremo (ou no Planalto, ano passado com Dilma na homenagem a Augusto de Campos) confirma as nossas instituições democráticas. A força e o significado delas.

Um grande artista do Brasil cantando o Hino Nacional na suprema corte! Que beleza! Que Maravilha!

Fala de avanços que os americanos parecem ter resolvido há muito tempo. Duke Ellington na Casa Branca, vi quando era menino. Faz uns 50 anos.

Como é triste e (por vezes) pouco inteligente a nossa intolerância!

Retratos de uma época, “Vai Passar” e “Podres Poderes” atravessam o tempo

“Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e “Podres Poderes”, de Caetano Veloso, foram lançadas na mesma semana, em dezembro de 1984.

O Brasil estava às vésperas, com a eleição de Tancredo Neves, de encerrar o ciclo de presidentes militares iniciado em 1964.

Quando ouvi as duas canções, perguntei ao professor Jomard Muniz de Britto o que ele achava delas.

A resposta de Jomard: “enquanto Chico diz que vai passar, Caetano já está nos podres poderes”.

O tempo passou.

Em 2012, ao entrevistar Caetano Veloso por ocasião dos seus 70 anos, mencionei o comentário de Jomard, seu amigo desde os tempos do Tropicalismo, e ouvi do artista a seguinte resposta:

– Não tinha a menor ideia de que “Vai Passar” fosse do mesmo período de “Podres Poderes”. Esta última parece dizer que “não vai passar”, ou, pelo menos, perguntar se dá para sair da “incompetência da América católica”. Mas acho sempre dificílimo comparar canções de Chico com as minhas. As dele são bem feitas, há uma paz, uma coerência, uma sabedoria que as minhas desconhecem.

“Vai Passar” tem o formato de um samba enredo. “Podres Poderes” é um rock. As duas estão na antologia do nosso cancioneiro popular.

Numa semana em que Chico Buarque esteve em evidência por causa da sua ida ao Senado para acompanhar a defesa de Dilma Rousseff, achei oportuno contar essa breve história.

Sai Dilma, entra Temer. Artistas da Paraíba protestam!

Confirmado o afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff, fui ao Facebook em busca das reações de artistas paraibanos. Selecionei algumas. Todas contra o novo governo:

Estou de volta. Foi um momento de revolta! Passei mal! Agora estou aos poucos aprendendo a conviver com o pesadelo do golpe! Flávio Tavares, artista plástico

Os parlamentares que deram o GOLPE DE ESTADO no Brasil em 31 de agosto de 2016, afastando Dilma Rousseff, eleita por 54.500.000 (cinquenta e quatro milhões e meio de votos), definitivamente do cargo de Presidenta da República, são continuidade dos mesmos que assassinaram muitos dos nossos, que torturaram muitos dos nossos, que entregaram riquezas brasileiras em troca de benefícios próprios, que achincalharam com as instituições mais importantes do país. Esses parlamentares são capazes das mesmas atrocidades e as cometerão para limpar o caminho que traçaram junto com todos os interesses econômicos. Estamos por um fio, assim como eles, não devemos tolerar absolutamente nada que não seja de interesse da maioria do povo brasileiro. Milton Dornellas, compositor

Os idiotas vão tomar conta do Brasil. Nosso povo não merece tanta canalhice. Pedro Osmar, compositor

Chico César

Por isso o golpe de estado. Não é contra Dilma, é contra a República. É contra o povo. Chico César, compositor

Tchau querida/choremos a dor/da pátria em carne viva/e seus tapurus. Seu Pereira

É muito difícil aceitar de forma passiva esse golpe! Não reconheço e não reconhecerei esse governo golpista e a todo lixo político envolvido. Ilsom Barros (Zefirina Bomba)

Às vezes dá um orgulho danado de não estar do lado vencedor. Lau Siqueira, poeta

Um Senado de maioria delinquente, com o poder de juiz. Só não é piada porque é matéria séria! Escurinho, músico

 

De Collor a Dilma: 24 anos é muito pouco para um novo impeachment!

Para os da minha geração (sou de 1959), o impeachment entrou em nossas vidas durante o caso Watergate, no segundo mandato do presidente americano Richard Nixon, na primeira metade da década de 1970. O desfecho, todos conhecem: Nixon renunciou para não sofrer o impedimento.

Está tudo muito bem contado no filme “Todos os Homens do Presidente”, de Alan Pakula. Boa aula de história contemporânea. Obrigatório para nós, jornalistas.

O impeachment do presidente Fernando Collor, em 1992, trouxe o tema para o nosso lado. O primeiro presidente eleito pela via direta depois do golpe de 64 perdeu as condições de governar e foi retirado do poder numa articulação que ia da esquerda (José Genoíno) à direita (Roberto Campos).

Tudo foi mais rápido e mais simples do que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Collor ficou só, com uma diminuta tropa de choque. Entre a votação na Câmara e o afastamento, se passaram três ou quatro dias. Três meses depois, veio o julgamento final. Na abertura da sessão do Senado, foi lida a carta renúncia do presidente, mas esta não impediu a condenação.

No dia 29 de dezembro de 1992, antes de saber da renúncia de Collor, o Brasil soube do assassinato da jovem atriz Daniella Perez, ocorrido na noite anterior. O crime dividiu os espaços da mídia com o impeachment.

Na noite de 29 de dezembro, enquanto o Senado julgava o presidente, a Rede Globo exibiu o especial com o reencontro de Antônio Carlos Jobim e João Gilberto, que não tocavam juntos desde a Bossa Nova,

Somente 24 anos se passaram e estamos outra vez às voltas com um impeachment.

O intervalo de tempo entre Collor e Dilma, do ponto de vista da História, é muito curto. Mesmo que tenhamos maturidade democrática para o que está ocorrendo, e ainda que se concorde com a saída dela, não é saudável banalizar um instrumento como o que está sendo utilizado para tirar Dilma do poder.

Em 1992, eu tinha 33 anos. Hoje, tenho 57. Nunca pensei que viveria para testemunhar outro impeachment no Brasil.

Engajamento de Chico Buarque não deve interferir no julgamento da sua arte

O jornalista Reinaldo Azevedo, blogueiro da Veja, disse que a figura mais patética da sessão desta segunda-feira (29) no Senado não era a presidente Dilma, nem o ex-presidente Lula. Era Chico Buarque. O artigo desrespeita o direito do artista ao engajamento político.

A presença de Chico no Senado faz pensar na figura do artista engajado que ele sempre foi.

Quem acompanha de perto a sua trajetória sabe muito bem que o tempo todo ele esteve alinhado às lutas da esquerda brasileira. Chico se comporta como um homem de partido (não me refiro ao PT), fiel a escolhas ideológicas e a projetos.

A ida ao Senado, no momento em que a presidente Dilma se defende das acusações que lhe são feitas, é expressão legítima do seu engajamento. Não traz nenhuma surpresa. E merece todo o respeito.

Chico Buarque no Senado me faz pensar não só no quanto é legítimo o engajamento dos artistas. Mas também no quanto essa postura não deve interferir no julgamento que se faz da sua arte.

Chico é um dos grandes compositores populares do Brasil. Seu cancioneiro, maior do que as atitudes do artista engajado que ele tem o direito de ser, sobreviverá ao nosso tempo.

Chico é grande pelas canções que compõe. Não importa se você aprova o apoio dele a Dilma.

Arte é arte. Engajamento de artista é outro negócio. É direito do cidadão livre. Não misturo as duas coisas.

“O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”

Dilma

A frase do título não é minha.

Foi o que, numa entrevista à TV Cabo Branco, o senador paraibano Antônio Mariz me disse, ao telefone, quando escolhido relator, no Senado, do processo de impeachment de Fernando Collor. Era início de outubro de 1992, Collor acabara de ser afastado após a votação na Câmara e, antes do final daquele ano, não seria mais presidente.

Lembro das palavras de Mariz nesta segunda-feira (29), o dia em que a presidente afastada Dilma Rousseff vai ao Senado, a um ou dois dias da votação que deverá retirá-la, em definitivo, da presidência da república.

Lembro como reflexão sobre o instante grave que o Brasil vive.

As palavras de Mariz soam, aos meus ouvidos, como uma espécie de antídoto à banalização de todas as coisas.

Sim! “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”. Não importa se você é contra ou a favor.

Para mim, o fim do atual ciclo petista é o retrato do fracasso de um projeto da esquerda brasileira. E isso é melancólico.

Filho de comunista, cresci sob governos de exceção num ambiente em que se sonhava com ideias generosas. Mais tarde, a chegada de Lula ao poder era um acontecimento extraordinário. Com ele, vieram as conquistas sociais que testemunhamos, num país que já passou da hora de reequacionar a questão da distribuição de renda.

A constatação de que, nos piores quesitos, o PT acabou por se revelar igual ao demais, põe por terra os sonhos de muitos de nós que crescemos sob a ditadura iniciada no golpe de 64.

Volto ao senador Antônio Mariz: “O Brasil vive o momento trágico do afastamento de um presidente!”.

Tanto faz se você é contra ou a favor. Não há o que comemorar!

Impeachment de Dilma será tema de documentário. Direção é de Petra Costa

O impeachment da presidente Dilma Rousseff será tema de um documentário de longa metragem. O filme está sendo realizado pela cineasta Petra Costa. As gravações começaram durante as manifestações de 13 de março.

Dilma

Li uma entrevista de Petra na Veja. Ela sente falta de mais documentários políticos no Brasil.

Bem que há. Foi, aliás, um documentário político que deu maior visibilidade aos filmes documentais entre nós. Refiro-me a “Jango”, de Sílvio Tendler.

“Jango” é da mesma época de “Cabra Marcado Para Morrer”, de Eduardo Coutinho, que considero um dos maiores filmes do cinema brasileiro. “Jango” fala da luta política sob a perspectiva da elite. “Cabra Marcado”, sob a perspectiva do povo.

Tem “O Mundo em que Getúlio Viveu”, de Jorge Ileli; “Revolução de 30”, de Sylvio Back; “Getúlio Vargas”, de Ana Carolina; “O Evangelho Segundo Teotônio”, de Vladimir Carvalho”. Tem “Os Anos JK”, de Sílvio Tendler, realizado antes de “Jango”. E “Muda Brasil”, de Oswaldo Caldeira.

Tem o excepcional “Entreatos”, de João Moreira Salles, sobre a campanha que levou Lula à presidência em 2002.

OK, não há nada sobre o impeachment de Collor, como lembra a cineasta. Mas tem muita coisa que vimos no cinema quando o assunto é documentário sobre política.

Sei que Petra Costa é muito jovem. Apenas 33 anos. Mas espero que ela conheça esses filmes. Seriam bons parâmetros para quem quer fazer um documentário sobre política.

Na entrevista à Veja, Petra Costa diz que nunca viu a sociedade brasileira tão polarizada.

Celso Furtado dirigiu a pick up da Sudene para mostrar o Recife a Sartre

Celso Furtado e Kennedy

Entrevistei (junto com Otinaldo Lourenço) Celso Furtado para um programa da TV Cabo Branco. Foi numa noite qualquer do ano de 1989. Perto da primeira eleição presidencial depois do golpe de 64.

Fui buscar o professor numa livraria no centro de João Pessoa. Ele estava numa sessão de autógrafos. Fui com a consciência de que estava diante de um grande brasileiro.

Cresci ouvindo falar de Celso Furtado dentro de casa. O economista, o pensador, o primeiro superintendente da Sudene, o ministro de Jango, o professor no exílio. Celso estava sempre presente nas conversas e nas leituras do meu pai.

Os impasses brasileiros conduziram a entrevista. Os descaminhos da economia, as saídas que ele enxergava. E um pouco de memória: o encontro com o presidente Kennedy e a visita de Sartre ao Recife.

Celso Furtado dirigiu uma pick up da Sudene para mostrar o Recife a Sartre!

Depois da gravação, um tema inevitável: as eleições presidenciais que se aproximavam. Eu disse que votava em Brizola. Ele em Ulysses Guimarães. Mas temia que Collor fosse o vitorioso. Temíamos!

Foi aí que veio a frase inesquecível: “as elites brasileiras são muito atrasadas. Elas são tão atrasadas que não admitem nem Dr. Ulysses”.

Depois de Collor, tivemos o sociólogo Fernando Henrique, o operário Lula, a guerrilheira Dilma.

Celso Furtado estava equivocado em sua observação? Às vezes penso que sim. Muitas vezes, penso que não!

Na foto, Celso Furtado com o presidente Kennedy na Casa Branca.

W.J. Solha diz que política tem muito de religião. E que não adianta discutir

Começo, hoje, transcrevendo texto que o escritor W.J. Solha postou no Facebook. Faz parte da série “Cenas Indeléveis”.

Com a palavra, W.J. Solha:

QUANDO SUA OPINIÃO DIFERE DA DE TANTA GENTE QUE VOCÊ ADMIRA

Chico Buarque é o gênio criador – entre muitas outras coisas – da Ópera do Malandro e da música de Morte e Vida Severina. Kleber Mendonça Filho foi o roteirista e o diretor – entre outros filmes – de O Som ao Redor, de que tive a honra de participar: também gênio. Bastam-me esses dois exemplos.

Porque abomino Lula e Dilma, que os dois veneram, e ao me perguntar por que não me sinto desconfortável com isso, respondo-me que política tem muito, muito de religião, inclusive com seus relapsos, adeptos e fanáticos, e não adianta discutir nenhuma das duas.

O fato de T.S. Eliot – imenso poeta, e Tólstoi – romancista maior – terem alardeado suas conversões ao cristianismo, não me fez retroceder um passo do que escrevi a respeito do evangelho, nem de minha enorme admiração pelos dois.

Velhos exemplos: Pound, grande poeta, grande teórico da poesia: fascista. Heidegger, o filósofo: nazista. Coisas do ser humano.

Saliento o que digo em meu último livro publicado – DeuS e outros quarenta PrOblEMAS:
 -
 um bilhão e duzentos milhões de muçulmanos têm fé absoluta de que os quinze milhões de judeus – contra os quais são irados – estão errados,
 e de que também estão errados os dois bilhões e cem milhões de cristãos 
e os ateus e os pagãos, 
além dos trezentos e trinta milhões de budistas, novecentos milhões de hinduístas.

Assim como os dois bilhões e cem milhões de cristãos têm fé em que os outros é que estão errados, e isso vale pra todos os lados.