RETRO2018/Nelson Pereira dos Santos

O cineasta Nelson Pereira dos Santos morreu neste sábado (21/04).

Ele estava hospitalizado no Rio de Janeiro tratando de um câncer no fígado diagnosticado há poucos dias.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o realizador de Vidas Secas tinha 89 anos.

Não é elogio post mortem.

No cinema brasileiro, poucos homens foram tão importantes quanto Nelson Pereira dos Santos.

Seu cinema começou num tempo de esperança. Nos anos 1950, quando realizou Rio 40 Graus e Rio Zona Norte.

E cresceu na longa noite iniciada com o golpe de 1964.

Vidas Secas acabara de ser realizado.

O que o reacionário John Ford fez com o Steinbeck de Vinhas da Ira, inspirou Nelson, homem de esquerda, a fazer com o Graciliano Ramos de Vidas Secas.

São diálogos (o de Ford e o de Nelson) invulgares do cinema com a literatura.

No caso brasileiro, marcando, junto com o Glauber Rocha de Deus e o Diabo na Terra do Sol, o início do Cinema Novo.

Vidas Secas é tão árido quanto a paisagem percorrida por Fabiano e sua família, mas, em 1964, era um filme que podia ser visto por grandes plateias.

Propunha rupturas, se pensarmos no cinema que se fazia no Brasil, e estava perfeitamente afinado com os cinemas novos do mundo. Daí seu reconhecimento internacional.

Depois de Vidas Secas, Nelson Pereira dos Santos mergulhou seu cinema num experimentalismo e num hermetismo de difícil diálogo com o público.

Assim são, por exemplo, Fome de Amor, Azyllo Muito Louco e Quem É Beta?.

O desejo de fazer um cinema popular, de fácil compreensão, vem com O Amuleto de Ogum, em meados da década de 1970.

E explode com Memórias do Cárcere, novamente levando Graciliano para a tela grande.

Memórias do Cárcere, extraordinário, é lançado nos estertores do regime militar. No instante em que o Brasil se prepara para a redemocratização.

O filme parece trazer Graciliano para o presente e emociona a plateia com a fantasia de Gottschalk sobre o Hino Nacional Brasileiro.

Curioso estar falando dessas coisas num 21 de abril.

O 21 de abril de Tiradentes.

O 21 de abril de Tancredo Neves, um dos artífices da redemocratização.

O 21 de abril, agora, da morte de Nelson Pereira dos Santos.

Quando morrem brasileiros como Nelson, com sua trajetória, com sua dignidade, com sua importância, penso no nosso destino como Nação.

E no impasse gigantesco em que estamos mergulhados.

Nelson Pereira dos Santos, esse gigante?

Vamos celebrá-lo!

O homem e a obra!

Viva o Cinema Novo!

“Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!”

A Versátil acaba de repor no mercado cinco filmes da Coleção Glauber Rocha que haviam sido lançados na década passada.

São eles:

Barravento 

Deus e o Diabo na Terra do Sol

Terra em Transe

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

A Idade da Terra

Os cinco DVDs duplos estão disponíveis para venda avulsa. À exceção de Deus e o Diabo na Terra do Sol, os outros quatro também foram disponibilizados num box.

Se o Brasil fosse um país justo com seus construtores (Glauber é um dos nossos construtores), seria importantíssimo esse relançamento.

Vou me ater um pouco a Terra em Transe, cada vez mais oportuno.

Isto é o povo! Um imbecil! Um analfabeto! Um despolitizado!

A fala do personagem de Jardel Filho ecoa desde 1967.

Para mim, Terra em Transe é o nosso maior e mais instigante filme político.

O Brasil continua muito parecido com o Eldorado de Glauber Rocha.

Unidos em Glauber, o gênio do construtor e o mito do demolidor gestaram um filme que fala das nossas questões cruciais.

Falava em 1967.

Continua falando agora.

Esquerda, direita, populismo, messianismo, o papel dos intelectuais, o povo, a desigualdade, o autoritarismo, o nosso destino enquanto Nação.

Terra em Transe, se tudo isso fosse pouco, ainda é absolutamente devastador como exercício formal, como delírio estético.

Não é à toa que tem a admiração de Martin Scorsese.

A questão é que, para muitos, o filme de Glauber Rocha é tosco.

Hermético.

Incompreensível.

Quase ninguém quer enfrentá-lo.

Mas o problema pode ser o empobrecimento intelectual das nossas plateias.

A ausência de uma crítica como a que se tinha na época em que o filme foi lançado.

A falta de um ambiente propício a esse tipo de cinema.

Vejam o trailer.

 

DVDs com filmes de Glauber voltam ao mercado em setembro

Nesta quarta-feira (22), aniversário da morte de Glauber Rocha (são 37 anos), tenho uma boa notícia para os admiradores do grande cineasta brasileiro.

Em setembro, a Versátil vai repor no mercado cinco DVDs duplos com filmes de Glauber.

Em cópias avulsas, serão relançados Barravento (o primeiro longa), Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (os três mais importantes) e A Idade da Terra (o último trabalho).

Ao mesmo tempo, num box, serão acondicionado todos esses, à exceção de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

São cópias restauradas em edições cheias de material extra.

Já que o assunto é Glauber, fiquem com esse texto primoroso do crítico Antônio Barreto Neto, retirado do livro Cinema por Escrito.

GLAUBER, UM GUERRILHEIRO DE CÂMERA NA MÃO

Por Antônio Barreto Neto

Polêmico, anárquico, violento, delirante, agressivo, o cinema de Glauber Rocha foge radicalmente dos códigos e normas usuais da narrativa cinematográfica. Esta é a primeira dificuldade que o espectador comum, viciado pela linguagem padronizada do cinema importado, enfrenta diante de seus filmes. Infatigável, demolidor de estruturas – como Godard, um de seus modelos – Glauber desarticulou o signo fílmico, libertando a imagem cinematográfica dos liames literários e teatrais, instaurando uma linguagem nova, mais adequada à expressão do universo de pobreza e miséria do chamado Terceiro Mundo, que representa uma das maiores perspectivas de transformação social da História contemporânea.

Essa práxis cinematográfica desmistificou o realismo enquanto reconstituição fiel do real, promovendo a dissociação entre a realidade do Terceiro Mundo e suas aparências institucionais para denunciar as formas de alienação do povo e os mecanismos de opressão do poder – uma coisa se alimentando de outra e vice-versa, no ciclo fechado de miséria social e atraso cultural. Para Glauber, as relações entre a ficção e a realidade que a inspira devem ser dialéticas mais do que imediatas e precisas. Por isso, Corisco, o cangaceiro de Deus e o Diabo na Terra do Sol, embora sendo um personagem real, não se comporta no filme exatamente como seu modelo, mas como um símbolo dinâmico, uma ideia em movimento.

Síntese de antíteses aparentemente inconciliáveis, o cinema de Glauber Rocha compreende duas vertentes básicas: a mitologia popular e a consciência social. Seus filmes mergulham fundo no subsolo das mitologias do Terceiro Mundo, nas quais se integram os arquétipos da realidade brasileira. Glauber seleciona as combinações possíveis desses discursos míticos, erigindo os fragmentos do real captados pela câmera à condição superior de signos representativos do universo cultural terceiromundista, através dos quais denuncia as lei e axiomas sociais de que são corolários aqueles mitos. Daí a torrente de alegorias, metáforas e símbolos em que se articula sua antinarrativa demolidora e tangencial.

Esse cinema fenomenológico, analítico, feito de ideias em movimento constante e dialético, exprime o conflito de uma personalidade inquieta e rebelde com a realidade que o cerca. O sentimento desse conflito é dado, em termos de encenação, pelo comportamento dos personagens, sempre em luta constante com o meio em que se agitam. No cinema de Glauber, a reflexão do autor está no interior do plano, é um elemento substancial de sua arquitetura cênica. E a ação dos personagens torna-se função dessa reflexão. No cinema de Glauber, o temperamento do autor e a personalidade da obra se confundem na mesma força telúrica, no mesmo vigor lírico, no mesmo grito de revolta e inconformismo. Glauber foi um guerrilheiro de câmera em punho. (13/09/1981)

Nelson vê Tom. O Cinema Novo abraça a Bossa Nova

Estive com Nelson Pereira dos Santos em 2008, nos bastidores de um programa de televisão. Perguntei, e o homem que fez Vidas Secas respondeu que Vinhas da Ira, de John Ford, foi o filme que mais o influenciou na adaptação do livro de Graciliano Ramos para o cinema.

A conversa mudou de foco: ele disse que estava trabalhando num projeto sobre Antônio Carlos Jobim. Queria contar a história do maior compositor popular brasileiro na ótica das mulheres com quem se casou, Teresa Hermanny e Ana Lontra, e da irmã, Helena. O documentário se chamaria As Mulheres de Tom, título que não agradava à família. Algum tempo se passou até a estreia de A Música Segundo Tom Jobim.

O filme que Nelson Pereira dos Santos realizou em parceria com Dora Jobim não tem nada a ver com a ideia inicial de dar voz às mulheres que marcaram a vida do músico. Aquele projeto, depois realizado e chamado de A Luz do Tom, deu lugar a um perfil de Tom montado a partir da sua música.

Não há narrador, nem entrevistas, nenhum texto falado. Somente as canções. Elas se sucedem, numa ordem mais ou menos cronológica, e sintetizam a trajetória de Jobim, de Orfeu da Conceição, que inaugurou em 1956 a parceria com Vinícius de Moraes, ao carnaval de 1992, quando foi homenageado pela Mangueira. É um luxo. Um dos maiores cineastas do Brasil debruçado sobre o cancioneiro de Antônio Carlos Jobim.

O tempo passou, e quis o destino que, na velhice, Nelson Pereira dos Santos fizesse um filme sobre Antônio Carlos Jobim. Esta é uma das belezas que A Música Segundo Tom Jobim revela só para alguns. Se buscarmos o olhar da época, veremos que o Rio de Nelson não parecia ser o Rio de Tom. A partir do próprio título, Rio Zona Norte seria o avesso da Bossa Nova, que nasceu na Zona Sul. Mesmo que espectadores de um fossem ouvintes do outro, isto não era tão consensual assim entre o fim dos 50 e o início dos 60 do século passado. Uma questão resolvida a tempo, felizmente, de vermos um grande representante do Cinema Novo realizando um filme sobre Tom Jobim.

Quem passou a vida toda ouvindo Jobim se deleitará com o filme, que ousa ao abdicar da palavra falada. O que vemos e ouvimos nos é muito caro. Até as imagens de Jean Manzon, a quem tanto detestávamos, são redimensionadas e nos levam a um passeio pelo Rio de décadas atrás. São elas que começam a contar a história de Tom.

O encontro com Vinícius, Orfeu da Conceição, a Sinfonia da Alvorada, a Bossa Nova, o Carnegie Hall, o mundo. Nenhum compositor popular brasileiro tem a dimensão de Jobim, nenhum obteve similar reconhecimento internacional. Ninguém escreveu tantas canções tão grandes quanto as dele – nos diz, sem textos e sem falas, o filme de Nelson Pereira dos Santos.

De Elizeth Cardoso a Frank Sinatra, todos cantam Jobim. Gal Costa o introduz com Se Todos Fossem Iguais a Você. Elizeth faz Eu Não Existo Sem Você, e João Gilberto, no lado esquerdo da tela, acompanha a Divina ao violão. Os dedos de Oscar Peterson deslizam sobre o piano em Wave.

Somos levados a um mundo que só existe na nossa memória.

O título é A Música Segundo Tom Jobim. Mas, na verdade, o filme é a música de Tom Jobim segundo Nelson Pereira dos Santos. Ou um retrato do artista tirado pelo cineasta através das canções.

Tom pela luz dos olhos de Nelson.

Quantos jovens de hoje viram os filmes de Nelson Pereira dos Santos?

Rever Nelson Pereira dos Santos me entristece.

Em primeiro lugar, porque tenho a convicção de que sua obra é pouco lembrada.

Entremos, por exemplo, numa sala de um curso de letras, ou de jornalismo, ou de história.

Quantos jovens terão visto algum filme de Nelson Pereira dos Santos?

Ou abordemos os que hoje ocupam as editorias de cultura dos veículos de comunicação.

Quantos conhecem o cinema de Nelson?

Em segundo lugar, porque o reencontro com sua filmografia expõe um grave problema do cinema brasileiro: a falta de conservação dos filmes. Algo que dificulta (quando não impede) os processos de restauração.

Fiquemos com El Justiceiro.

O filme só foi restaurado (precariamente) porque havia uma cópia na Europa. As outras foram destruídas pela ditadura militar.

Mas rever Nelson Pereira dos Santos também me alegra e fascina.

Sim, porque significa estar diante do legado de um grande homem do cinema brasileiro. Um dos maiores.

Rever com distanciamento é bom porque já temos, sobre os filmes, o efeito do tempo que passou.

E já podemos fazer o exercício de reinseri-los num outro Brasil, diferente (melhor?, pior?) do país em que eles foram realizados.

O Brasil que Nelson amou incondicionalmente.

O Brasil retratado pelo seu cinema.

Há no mercado dois boxes dedicados ao cineasta.

O primeiro abre e o segundo fecha com tentativas de Nelson de dialogar com grandes plateias, fazendo um tipo de cinema mais popular.

Enquanto Rio, Zona Norte parece juntar a chanchada da Atlântida com o que viria a ser o Cinema Novo, O Amuleto de Ogum flagra o diretor saindo de um ciclo marcado por trabalhos experimentais e herméticos.

Vidas Secas é um clássico absoluto do cinema de qualquer tempo e de qualquer lugar.

Boca de Ouro é talvez a melhor adaptação cinematográfica de Nelson Rodrigues, além de reunir dois homens chamados Nelson, um comunista e um reacionário.

A fase do autoexílio em Paraty coincide com os momentos mais sombrios do regime militar.

Influenciado pelo cinema underground que conheceu nos Estados Unidos, Nelson rompe com a narrativa linear e, certamente, com os conceitos estéticos de um homem de esquerda.

O próximo boxe com os filmes de Nelson Pereira dos Santos virá com Memórias do Cárcere, um dos pontos altos da sua trajetória.

No fim da vida, o cineasta fez dois filmes sobre Tom Jobim.

Um deles se chama A Música Segundo Tom Jobim.

Mas não é isso.

É a música de Tom Jobim segundo Nelson Pereira dos Santos.

Um filme em que as canções substituem as palavras.

MORREU NELSON PEREIRA DOS SANTOS. VIVA O CINEMA NOVO!

O cineasta Nelson Pereira dos Santos morreu neste sábado (21).

Ele estava hospitalizado no Rio de Janeiro tratando de um câncer no fígado diagnosticado há poucos dias.

Membro da Academia Brasileira de Letras, o realizador de Vidas Secas tinha 89 anos.

Não é elogio post mortem.

No cinema brasileiro, poucos homens foram tão importantes quanto Nelson Pereira dos Santos.

Seu cinema começou num tempo de esperança. Nos anos 1950, quando realizou Rio 40 Graus e Rio Zona Norte.

E cresceu na longa noite iniciada com o golpe de 1964.

Vidas Secas acabara de ser realizado.

O que o reacionário John Ford fez com o Steinbeck de Vinhas da Ira, inspirou Nelson, homem de esquerda, a fazer com o Graciliano Ramos de Vidas Secas.

São diálogos (o de Ford e o de Nelson) invulgares do cinema com a literatura.

No caso brasileiro, marcando, junto com o Glauber Rocha de Deus e o Diabo na Terra do Sol, o início do Cinema Novo.

Vidas Secas é tão árido quanto a paisagem percorrida por Fabiano e sua família, mas, em 1964, era um filme que podia ser visto por grandes plateias.

Propunha rupturas, se pensarmos no cinema que se fazia no Brasil, e estava perfeitamente afinado com os cinemas novos do mundo. Daí seu reconhecimento internacional.

Depois de Vidas Secas, Nelson Pereira dos Santos mergulhou seu cinema num experimentalismo e num hermetismo de difícil diálogo com o público.

Assim são, por exemplo, Fome de Amor, Azyllo Muito Louco e Quem É Beta?.

O desejo de fazer um cinema popular, de fácil compreensão, vem com O Amuleto de Ogum, em meados da década de 1970.

E explode com Memórias do Cárcere, novamente levando Graciliano para a tela grande.

Memórias do Cárcere, extraordinário, é lançado nos estertores do regime militar. No instante em que o Brasil se prepara para a redemocratização.

O filme parece trazer Graciliano para o presente e emociona a plateia com a fantasia de Gottschalk sobre o Hino Nacional Brasileiro.

Curioso estar falando dessas coisas num 21 de abril.

O 21 de abril de Tiradentes.

O 21 de abril de Tancredo Neves, um dos artífices da redemocratização.

O 21 de abril, agora, da morte de Nelson Pereira dos Santos.

Quando morrem brasileiros como Nelson, com sua trajetória, com sua dignidade, com sua importância, penso no nosso destino como Nação.

E no impasse gigantesco em que estamos mergulhados.

Nelson Pereira dos Santos, esse gigante?

Vamos celebrá-lo!

O homem e a obra!

Viva o Cinema Novo!

Precisamos ver (ou rever) os filmes de Nelson Pereira dos Santos

Nelson Pereira dos Santos fará 90 anos em outubro de 2018.

Estive duas vezes com o cineasta.

Na primeira, na redação da TV Cabo Branco, conversamos um pouco sobre os velhos cinemas de São Paulo.

Na segunda, no estúdio da TV O Norte, perguntei, e o homem que fez Vidas Secas respondeu que Vinhas da Ira, de John Ford, foi o filme que mais o influenciou na adaptação do livro de Graciliano Ramos para o cinema.

Lembrei desses breves encontros agora que os dois primeiros boxes da Coleção Nelson Pereira dos Santos me proporcionam uma revisão da obra desse grande realizador brasileiro.

As caixas vão de Rio, Zona Norte a O Amuleto de Ogum.

Reúnem, portanto, dez filmes de longa metragem.

Um outro box, com filmes baseados em Graciliano Ramos, me leva a Memórias do Cárcere.

Vou confessar: rever Nelson Pereira dos Santos me entristece.

Em primeiro lugar, porque tenho a convicção de que sua obra é pouco lembrada.

Entremos, por exemplo, numa sala de um curso de letras, ou de jornalismo, ou de história. Quantos jovens terão visto algum filme de Nelson Pereira dos Santos?

Ou abordemos os que hoje ocupam as editorias de cultura dos veículos de comunicação. Quantos conhecem o cinema de Nelson?

Em segundo lugar, porque o reencontro com sua filmografia expõe um grave problema do cinema brasileiro: a falta de conservação dos filmes. Algo que dificulta (quando não impede) os processos de restauração.

Fiquemos com El Justiceiro. O filme só foi restaurado (precariamente) porque havia uma cópia na Europa. As outras foram destruídas pela ditadura militar.

Mas rever Nelson Pereira dos Santos também me alegra e fascina.

Sim, porque significa estar diante do legado de um grande homem do cinema brasileiro. Um dos maiores.

Rever com distanciamento é bom porque já temos o efeito sobre os filmes do tempo que passou. E já podemos fazer o exercício de reinseri-los num outro Brasil, diferente (melhor?, pior?) do país em que eles foram realizados.

A primeira caixa abre e a segunda fecha com tentativas de Nelson de dialogar com grandes plateias, fazendo um tipo de cinema mais popular. Enquanto Rio, Zona Norte parece juntar a chanchada da Atlântida com o que viria a ser o Cinema Novo, O Amuleto de Ogum flagra o diretor saindo de um ciclo marcado por trabalhos experimentais e herméticos.

Vidas Secas é um clássico absoluto do cinema de qualquer tempo e de qualquer lugar. Boca de Ouro é talvez a melhor adaptação cinematográfica de Nelson Rodrigues, além de reunir dois homens chamados Nelson, um comunista e um reacionário.

A fase do autoexílio em Paraty coincide com os momentos mais sombrios do regime militar. Influenciado pelo cinema underground que conheceu nos Estados Unidos, Nelson rompe com a narrativa linear e, certamente, com os conceitos estéticos de um homem de esquerda.

Para ilustrar esse post, seguem meus seis filmes preferidos de Nelson Pereira dos Santos.

RIO, ZONA NORTE

BOCA DE OURO

VIDAS SECAS

COMO ERA GOSTOSO O MEU FRANCÊS

O AMULETO DE OGUM

MEMÓRIAS DO CÁRCERE

Que tal revê-los agora nos 90 anos desse gigante do cinema brasileiro?

Tom Jobim pela luz dos olhos de Nelson Pereira dos Santos

Revi A Música Segundo Tom Jobim.

Como é bonito esse filme de Nelson Pereira dos Santos!

Vocês já viram?

Comento.

Estive com Nelson Pereira dos Santos em 2008, nos bastidores de um programa de televisão. Perguntei, e o homem que fez Vidas Secas respondeu que Vinhas da Ira, de John Ford, foi o filme que mais o influenciou na adaptação do livro de Graciliano Ramos para o cinema.

A conversa mudou de foco: ele disse que estava trabalhando num projeto sobre Antônio Carlos Jobim. Queria contar a história do maior compositor popular brasileiro na ótica das mulheres com quem se casou, Teresa Hermanny e Ana Lontra, e da irmã, Helena. O documentário se chamaria As Mulheres de Tom, título que não agradava à família. Algum tempo se passou até a estreia de A Música Segundo Tom Jobim.

O filme que Nelson Pereira dos Santos realizou em parceria com Dora Jobim não tem nada a ver com a ideia inicial de dar voz às mulheres que marcaram a vida do músico. Aquele projeto, depois realizado e chamado de A Luz do Tom, deu lugar a um perfil de Tom montado a partir da sua música.

Não há narrador, nem entrevistas, nenhum texto falado. Somente as canções. Elas se sucedem, numa ordem mais ou menos cronológica, e sintetizam a trajetória de Jobim, de Orfeu da Conceição, que inaugurou em 1956 a parceria com Vinícius de Moraes, ao carnaval de 1992, quando foi homenageado pela Mangueira. É um luxo. Um dos maiores cineastas do Brasil debruçado sobre o cancioneiro de Antônio Carlos Jobim.

O tempo passou, e quis o destino que, na velhice, Nelson Pereira dos Santos fizesse um filme sobre Antônio Carlos Jobim. Esta é uma das belezas que A Música Segundo Tom Jobim revela só para alguns. Se buscarmos o olhar da época, veremos que o Rio de Nelson não parecia ser o Rio de Tom. A partir do próprio título, Rio Zona Norte seria o avesso da Bossa Nova, que nasceu na Zona Sul. Mesmo que espectadores de um fossem ouvintes do outro, isto não era tão consensual assim entre o fim dos 50 e o início dos 60 do século passado. Uma questão resolvida a tempo, felizmente, de vermos um grande representante do Cinema Novo realizando um filme sobre Tom Jobim.

Quem passou a vida toda ouvindo Jobim se deleitará com o filme, que ousa ao abdicar da palavra falada. O que vemos e ouvimos nos é muito caro. Até as imagens de Jean Manzon, a quem tanto detestávamos, são redimensionadas e nos levam a um passeio pelo Rio de décadas atrás. São elas que começam a contar a história de Tom.

O encontro com Vinícius, Orfeu da Conceição, a Sinfonia da Alvorada, a Bossa Nova, o Carnegie Hall, o mundo. Nenhum compositor popular brasileiro tem a dimensão de Jobim, nenhum obteve similar reconhecimento internacional. Ninguém escreveu tantas canções tão grandes quanto as dele – nos diz, sem textos e sem falas, o filme de Nelson Pereira dos Santos.

De Elizeth Cardoso a Frank Sinatra, todos cantam Jobim. Gal Costa o introduz com Se Todos Fossem Iguais a Você. Elizeth faz Eu Não Existo Sem Você, e João Gilberto, no lado esquerdo da tela, acompanha a Divina ao violão. Os dedos de Oscar Peterson deslizam sobre o piano em Wave.

Somos levados a um mundo que só existe na nossa memória.

O título é A Música Segundo Tom Jobim. Mas, na verdade, o filme é a música de Tom Jobim segundo Nelson Pereira dos Santos. Ou um retrato do artista tirado pelo cineasta através das canções.

Tom pela luz dos olhos de Nelson.

“Eles Não Usam Black Tie” evoca hoje mais sonho do que realidade

Neste primeiro de maio, vou lembrar de um filme brasileiro de que gosto imensamente:

Eles Não Usam Black Tie.

A peça de Gianfrancesco Guarnieri é do final da década de 1950, alguns anos antes do golpe de 64.

O filme de Leon Hirszman é do início da década de 1980, nos estertores da ditadura iniciada com o golpe.

Os dois – peça e filme – são de momentos de esperança.

Sou contemporâneo do filme. Evocava sonhos interrompidos (porque remetia ao original do paulistano Teatro de Arena), mas falava, sobretudo, de sonhos em construção.

Era comovente vê-lo ali no Brasil de 1981/1982. Por mais universal que seja sua temática, o que nos pegava mesmo era a conexão que fazia com a realidade brasileira de então.

Vindo do Cinema Novo, Hirszman superava as dificuldades que o movimento tivera de dialogar com o público. Em parte, talvez, porque a censura, que tantas vezes levara ao hermetismo, já fora distensionada quando o filme chegou às telas.

Quando vi, na estreia, Eles Não Usam Black Tie, tive a nítida sensação de estar diante de um filme anterior a 1964. Ainda que tudo o que ele mostrava nos lembrasse das greves recentes do ABC, da fundação do PT, do surgimento e ascensão da figura de Lula, etc.

Essa mistura de passado e presente só engrandecia o filme de Hirszman.

Foi com esse encantamento que voltei várias vezes ao cinema para revê-lo (naquele tempo, ainda não tínhamos filmes em casa).

E é assim que ele está muito bem guardado na minha memória afetiva.

Vê-lo outra vez, no Brasil de hoje, certamente confirmaria que Eles Não Usam Black Tie contém mais sonho do que vida real.

Morre Dib Lutfi, um dos fotógrafos do Cinema Novo

Luto no cinema brasileiro.

Morreu nesta quarta-feira (26) no Rio de Janeiro o fotógrafo e diretor de fotografia Dib Lutfi.

Lutfi, de 80 anos, morava no Retiro dos Artistas e sofria do Mal de Alzheimer.

Nascido no interior de São Paulo, filho de uma família de libaneses, Dib Lutfi foi, como fotógrafo e diretor de fotografia, um dos grandes nomes do cinema brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Trabalhou com os cineastas mais importantes daquela época, sobretudo os do Cinema Novo.

dib-lutfi-com-glauber-rocha

Era irmão do compositor e cineasta Sérgio Ricardo, de 84 anos, que hoje pela manhã usou as redes sociais para anunciar a morte de Dib.

dib-lutfi-e-sergio-ricardo

Algumas imagens inesquecíveis do cinema brasileiro, nós vimos através dos olhos de Dib Lutfi!

(Na primeira foto, Dib Lutfi filmando com Glauber Rocha)

(Na segunda foto, Dib Lutfi com o irmão Sérgio Ricardo)