Chico Buarque também fez rock! Vamos (ver) ouvir?

No post anterior, falei do Frevo de Orfeu, de Tom Jobim. Quis falar porque muita gente não conhece.

O frevo de Tom me remeteu ao rock de Chico Buarque. Esse, muita gente conhece. Mas lembrei que, em 1972, ao compor Baioque, uma mistura de baião com rock (como explica o título), Chico produziu algo inusitado porque estava atuando numa área que não era a sua.

A música entrou no (delicioso) filme Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues.

O registro que escolhi é do próprio Chico no evento Phono 73. O MPB4 acompanha o autor, que cai no rock!

Reparem que ele, perfeccionista com o uso das palavras, rima “sol” com “roll”,  com o “ól” aberto!

Vale a pena ver (ou rever)!

Lenine se sente traído pela esquerda! É um direito dele!

Uma garota me disse que passou a amar Chico Buarque quando descobriu que ele defende Lula, Dilma e o PT. Não parou mais de ouvi-lo.

Está perdidamente apaixonada! Ama Lula, Dilma, o PT e, agora, Chico e suas músicas!

Eu respondi que amo Chico Buarque desde 1966, quando, aos sete anos, vi A Banda no festival de MPB. Acompanho toda a carreira, tenho todos os discos.

Amo incondicionalmente a sua música. Convergindo ou divergindo dele. Temos poucos artistas tão importantes quanto Chico.

É uma das belezas do Brasil!

Falo isso por causa de Lenine.

Gente que gostava dele, agora o crucifica. Ou diz que devia ficar calado e apenas cantar. Vi muitas manifestações nas redes sociais.

Quanto autoritarismo!

Quanta intransigência!

Quanta patrulha ideológica!

Chico Buarque pode cantar e falar! Lenine só pode cantar! No mais, fica calado!

É isso mesmo?!

Ora, pensei que os dois podiam cantar e falar! Melhor assim, não?

No caso de Lenine, o problema é uma entrevista que ele deu.

Disse que não se sente traído pela direita porque não esperava nada da direita. E que se sente traído pela esquerda porque esperava muito mais da esquerda.

Muita gente se sente traída pela esquerda. Muita gente séria, lúcida, honesta, que tinha outras expectativas com a chegada do PT ao poder e que se decepcionou com uma série de coisas que aconteceram. A fala do artista é sobre isso. É serena, é equilibrada. Merece respeito.

Mas vamos além: e se você discorda de Lenine? Vai pretender que ele não tenha o direito de dizer o que disse? O cara só pode falar o que nos agrada?

Agora, voltando ao começo, à garota que passou a amar Chico Buarque quando descobriu que ele defende Lula, Dilma e o PT, vou confessar:

Não gosto da música de Lenine. Nunca gostei. Vi ao vivo e também não gostei. Não tenho seus discos em meu acervo.

E vou seguir assim. Mesmo que concorde com as opiniões dele!

Carminho, uma fadista moderna, encontra Tom Jobim

Se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim faria 90 anos no dia 25 de janeiro. Um CD que acaba de ser lançado pode dar início à comemoração.

É Carminho Canta Tom Jobim (Biscoito Fino). O disco promove o encontro da jovem fadista portuguesa com remanescentes da Banda Nova, o grupo que acompanhou Tom nos muitos shows dos últimos anos de sua vida.

Três integrantes da Banda Nova acompanham Carminho: Paulo Jobim (violão e direção musical), Jaques Morelenbaum (violoncelo e contrabaixo) e Paulo Braga (bateria). A eles, juntou-se Daniel Jobim, filho de Paulo, neto de Tom, ao piano.

Os arranjos e a banda remetem à sonoridade dos discos e shows do compositor. Poderíamos traduzir assim: é Jobim pelos Jobins. Completo respeito, absoluta fidelidade ao universo musical de Tom. Um pouco mais intimista, um pouco mais camerístico, até porque o grupo é numericamente muito pequeno.

Aí vem o dado novo: Antônio Carlos Jobim, nosso maestro soberano, que já teve suas canções gravadas por gente do mundo inteiro, agora está nas mãos de uma fadista.

Carminho é uma jovem cantora portuguesa de 32 anos. Mais ou menos, a idade da Banda Nova.  Uma fadista moderna que traz para o grande cancioneiro jobiniano as marcas da música mais tradicional e mais representativa de Portugal.

Em 14 faixas, há duetos com Chico Buarque (Falando de Amor), Maria Bethânia (Modinha) e Marisa Monte (Estrada do Sol). O repertório tem Tom e seus parceiros (Vinícius, Chico, Dolores Duran, Aloysio de Oliveira, Newton Mendonça) e Tom sozinho, fazendo música e letra. Tem o começo (A Felicidade, Estrada do Sol), o meio (Wave, Triste) e a fase final (Luíza).

Antes de ouvir o disco, qualquer pessoa que tem intimidade com a obra de Jobim perguntará: as canções combinam com uma intérprete de fado?

A resposta vem logo na primeira audição: no caso de Carminho, combinam, sim!

Há um equilíbrio perfeito entre a força dramática da intérprete e a execução cool da banda.

Carminho é uma cantora notável que dialoga há algum tempo com a música brasileira, e, nesse disco, o repertório de Jobim só vem ampliar e enriquecer esse diálogo.

Atenção, Paraíba sem memória! Paulo Pontes morreu há 40 anos!

Nesta terça-feira, 27 de dezembro, faz 40 anos que Paulo Pontes morreu.

Naquele remoto 27 de dezembro de 1976, vi a notícia na Globo. E, no dia seguinte, li o necrológio do Jornal do Brasil sentado num batente, em frente ao Cine Municipal.

(Bons tempos aqueles em que a gente comprava o JB todos os dias nas bancas! Aula permanente de jornalismo!)

Paulo Pontes morreu aos 36 anos, devastado pelo câncer. Vinha do êxito de Gota D’Água, parceria com Chico Buarque.

Deixe em paz meu coração,

Que ele é um pote até aqui de mágoa!

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a Gota d’água!

Nunca gostei de Ipojuca Pontes, o irmão. Nem do seu cinema. Seria – para inverter uma expressão atual – a direita não transante. Pouco inteligente, muito pouco crível!

Paulo Pontes era diferente. Está entre os nomes essenciais da cena cultural brasileira da sua geração.

Pelo teatro, sim! Mas, também, pelo artista que pensava bem o seu tempo e a necessidade da arte.

Vou resumir assim: Campina Grande, Rádio Tabajara, Hermilo Borba Filho, CPC da UNE, Oduvaldo Vianna Filho, Opinião, Para-i-bê-a-bá, TV Tupi, Bibi Ferreira, Brasileiro: Profissão Esperança, Um Edifício Chamado 200, Dr. Fausto da Silva, O Homem de La Mancha, A Grande Família, Chico Buarque, Gota D’Água.

Sonhar mais um sonho impossível

Lutar quando a regra é ceder

Vencer o inimigo invencível

Negar quando a regra é vender

A letra da canção vertida para o Português acaba falando de Paulo Pontes e seus sonhos. Pena que ele não viveu para vê-los plenamente realizados.

Falar mal de Ferreira Gullar é como falar mal de Chico Buarque!

O Brasil está confuso!

Falam tão mal de Ferreira Gullar (até na hora da morte) porque ele era crítico da esquerda.

gullar

Falam tão mal de Chico Buarque porque ele defende a esquerda.

Chico Buarque Doc 3

Falam mal dos dois com argumentos por vezes pouco inteligentes e que desconsideram a arte que um produziu e o outro produz.

Abandonam a leitura de um. Abandonam a audição do outro.

Deixar de ler Gullar porque o comunista de ontem reviu suas posições nos fará muita falta. Deixar de ouvir Chico porque ele mantém suas posturas também nos fará muita falta.

A autocrítica de um é tão legítima quanto a manutenção, pelo outro, daquilo em que ele crê.

Ferreira Gullar e Chico Buarque são dois grandes artistas do Brasil. A produção deles é infinitamente maior do que os equívocos por acaso cometidos.

Sobre Ferreira Gullar, que morreu neste domingo (04), vale lembrar que o grande poeta maranhense lutou firmemente contra os governos de exceção, foi preso mais de uma vez pelos militares e viveu no exílio. Experimentou um sofrimento que os que hoje, depreciando sua poesia e sua inteligência, facilmente o chamam de “reaça” nunca conheceram!

Sigamos lendo Gullar! Sigamos ouvindo Chico! Não vamos confirmar que ficamos menos inteligentes!

Os políticos acabaram com o Rio de Janeiro de tantas canções!

Acredito que poucas cidades do mundo foram exaltadas em tantas canções quanto o Rio de Janeiro.

Do hino Cidade Maravilhosa ao samba Aquele Abraço. Da Valsa de uma Cidade ao Samba do Avião.

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Tom Jobim e Billy Blanco fizeram uma sinfonia para o Rio de Janeiro. Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, o Samba do Carioca. Braguinha, Copacabana. Caymmi, Sábado em Copacabana.

A lista não tem fim.

Penso nessas canções e em tantas mais agora que o Rio, por causa dos seus políticos, está mergulhado numa crise sem precedentes.

Também lembrei de outras que pareciam nos alertar sobre o futuro.

Nossa famosa garota não sabia a que ponto a cidade turvaria/esse Rio de Amor que se perdeu – cantou Vinícius na Carta ao Tom, que já tem mais de 40 anos.

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Flutua no ar um desprezo, desconsiderando a razão/que o homem não sabe se vai encontrar/um jeito de dar um jeito na situação – é Paulinho da Viola em Amor à Natureza. Também tem mais de 40 anos.

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São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande fogueira desvairada – é Chico Buarque em Estação Derradeira. Há quase 30 anos.

Chico Buarque Doc 3

E tem aquela oração que Gil e Milton gravaram no ano 2000:

Sebastian

Sebastião

Diante de tua imagem, tão castigada e tão bela

Penso na tua cidade

Peço que olhes por ela!

Paródia de “Águas de Março” desrespeita memória de Jobim!

Águas de Março é o samba mais lindo do mundo!

Creio que quem disse foi Chico Buarque.

Waters of March é uma das grandes canções do século XX!

Quem disse foi o crítico de jazz Leonard Feather.

Letra e música de Antônio Carlos Jobim, Águas de Março é uma das maiores canções de Tom e um momento singularíssimo do vasto cancioneiro do Brasil.

Vejam e ouçam, então, essa paródia de Águas de Março que encontrei no Youtube.

Essa paródia é um absoluto desrespeito não só a uma joia do nosso cancioneiro, mas, sobretudo, à memória de Tom, nosso maior compositor popular.

Para enxergar o que há de simplório e pouco inteligente na paródia não é preciso ser Trump, nem Temer, nem Crivella. Muito menos Bolsonaro, abominável defensor do estupro e da tortura.

Há um verso imperdoável nesse atentado a Águas de Março: “Bolsonaro a caminho”.

O Brasil está num impasse, estamos a dois anos da eleição presidencial e, francamente, devemos acreditar que encontraremos uma saída que não seja essa. Nenhuma saída (nem as piores) pode ser tão indesejável quanto Bolsonaro.

Nenhuma desilusão com o jogo político deve levar à crença de que uma onda conservadora conduzirá o Brasil ao extremo que Bolsonaro representa.

Paródia com esse tipo de verso serve, no fundo, a quem?

Não tem a menor graça!

Aproveitando o que está na letra: isso, sim, é que é o fim da poesia!!

Milton Nascimento, um mistério que não se desvenda por completo

milton-nascimento

Recife, março de 1979. Teatro do Parque lotado. Milton Nascimento entra sozinho no palco, vestido de branco, e, acompanhando-se ao violão, canta “Volver a los 17”, de Violeta Parra, que gravara com Mercedes Sosa.

Em seguida, os músicos vão ocupando seus lugares. Wagner Tiso no piano, Robertinho Silva na bateria, Novelli no baixo, Hélio Delmiro na guitarra. Mais Beto Guedes e Flávio Venturini.

O show: “Clube da Esquina 2”. Histórico, antológico, inesquecível. “Canoa, canoa desce/no leito do Rio Araguaia desce” – a voz de Milton ecoa no teatro com os falsetes que encantaram o mundo. Lembranças da primeira vez em que o vi de perto.

Milton Nascimento entrara na nossa casa pelas mãos do meu pai, em 1967. No festival que o revelou com “Travessia”. “Solto a voz nas estradas…” – a voz mágica que vinha de Minas. Como um mistério que nunca desvendaríamos por completo. O rapaz nascido no Rio, adotado por um casal de mineiros, louco pelo François Truffaut de “Jules et Jim”. E pelos mesmos Beatles que vi correndo na quadra em “A Hard Day’s Night”.

Meus melhores contatos com a música de Milton Nascimento são dos anos 1970, o período em que gravou seus discos mais importantes. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978.

Já estava tudo ali, naqueles trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio. “Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. “Para Lennon e McCartney”, “Canto Latino”, “Pai Grande”. “A Felicidade”, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos. Depois, “Clube da Esquina”. Brancos e pretos. Lô e Milton. “Tudo o que Você Podia Ser”, “O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “San Vicente”.

E aí vem “Milagre dos Peixes”. Em estúdio, com as letras censuradas e a voz de Clementina de Jesus. Ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em “Bodas”. “E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

“Minas” e “Geraes” consolidam o artista extraordinário. “Fé Cega, Faca Amolada”, “Saudade dos Aviões da Panair”, “Ponta de Areia”. A voz metálica misturada ao coro infantil. “Mi” de Milton, “nas” de Nascimento. As sílabas iniciais formando “Minas”. Para abrir caminho a “Geraes”, o disco seguinte. “Voltar aos dezessete, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa. Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em “Clube da Esquina 2”. Elis, Chico, todos. Há muita beleza nos anos seguintes. Mas nem precisava. Bituca é o aniversariante desta quarta-feira (26).

No Dia do Poeta, uma lista dos grandes letristas da nossa música popular

No Dia do Poeta (20), quero lembrar que o Brasil é um país de grandes letristas de música popular.

Podem até não ser poetas, dizem alguns acadêmicos, mas a música deles está, sim, cheia de poesia!

vinicius

Tem o caso de Vinícius de Moraes, que, antes de fazer letra de música, fez poesia seguindo o cânone. E tem os demais que quero citar aqui.

Tudo, ainda, por causa do Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan.

Que tal, então, uma lista dos nossos maiores letristas, começando pelos mais velhos?

Cartola

Noel Rosa

Vinícius de Moraes

Dorival Caymmi

Lupicínio Rodrigues

Caetano Veloso

Gilberto Gil

Chico Buarque

Aldir Blanc

Fernando Brant

 

Erick Von Sohsten faz Chico Buarque no café da Usina Cultural

Vejo que Erick Von Sohsten vai cantar Chico Buarque neste sábado em João Pessoa.

Achei bacana algo que ele escreveu no Facebook.

Vejam:

Sempre adorei interpretar as canções de Chico Buarque, sem dúvida uma das obras que me fazem sentir orgulho de ser um compositor brasileiro. 

erick-von-sohsten

Erick mal saíra da infância quando o conheci. Já dava para enxergar o grande talento musical revelado em seguida. Compositor, violonista, cantor do repertório autoral, intérprete sensível do repertório de outros compositores. Muito bom!

O show com músicas de Chico Buarque será neste sábado (15) no café da Usina Cultural, às 21h00. Participações confirmadas do violinista André Correia e das cantoras Bia Angelina e Helba Corrêa.