Retrato de Chico Buarque mostra o grande artista que ele é

No dia em que Chico Buarque faz aniversário, que tal rever o documentário Chico, Artista Brasileiro?

Vinícius e Chico, Artista Brasileiro são muito parecidos na estrutura narrativa. Realizados por Miguel Faria Jr., os documentários fogem um pouco do formato clássico do gênero por causa dos trechos encenados.

Em Vinícius, música e poesia se misturam num pocket show para uma pequena plateia. Em Chico, Artista Brasileiro, dez números são apresentados num galpão/estúdio sem plateia. Nos dois, os números são intercalados por entrevistas produzidas para os filmes e material de arquivo. O segundo repete a fórmula e os méritos do primeiro.

Vinícius é sobre um homem morto. Daí, talvez, o grande número de entrevistas gravadas para o documentário. Em algumas (Chico, Gil, Caetano), há música à base de voz e violão. Os depoimentos montam o retrato do artista.

Chico é sobre um homem vivo e em atividade, dividido entre a música e a literatura. Os depoimentos são em menor número e sem ilustração musical. Quem conta a história é o próprio Chico numa longa entrevista que conduz a narrativa. O filme é, então, um retrato do compositor tirado por Miguel Faria Jr., mas, sobretudo, um autorretrato do artista.

Chico, Artista Brasileiro não é o primeiro documentário sobre o autor de Construção. Há um outro, inferior: Certas Palavras com Chico Buarque, que Maurício Berú realizou em 1980. Faria Jr. utiliza cenas de Berú, como as imagens de Maria Bethânia cantando Olhos nos Olhos em estúdio, com o autor ao seu lado.

Em Certas Palavras, a encenação das canções empobrece o filme. Em Chico, os números gravados o engrandecem.

As dez músicas, mesmo que de épocas distintas, têm a feição do Chico dos últimos anos. Certamente, por causa dos músicos da sua banda (à frente, o guitarrista Luiz Cláudio Ramos), a quem há de se atribuir a sonoridade e a concepção dos arranjos executados em palcos e estúdios.

As escolhas não são óbvias, nem os intérpretes. A versão de Sabiá, com a portuguesa Carminho, é comovente. As imagens de Chico e Tom no palco do FIC são preciosas. Chico reconhece que, no Brasil de 1968, a canção de exílio composta com Jobim era alienada. O tempo a conservou bela.

Chico dá um depoimento corajoso e sem preconceito sobre a diversidade da música popular que se produz no Brasil. A canção popular como representação do que somos. Não deve agradar a uma parcela significativa dos seus fãs, mas eles fingem que não veem. O artista se apresenta como um homem que não sente saudade, não tem medo da solidão e não é tímido. Para ele, o presente é melhor do que o passado.

Vocês gostam da canção italiana? Vamos ouvir Chiara Civello?

Estava lendo o delicioso texto de Martinho Moreira Franco sobre Jerry Adriani. Lembranças da série As 14 Mais e das canções italianas cantadas pelo artista que nos deixou domingo passado.

O texto me fez pensar no cancioneiro da Itália e me levou a um disco que, agora, sugiro aos leitores.

Canzoni, de Chiara Civello. Conhecem?

Vejam a capa.

A foto é uma homenagem à atriz brasileira Florinda Bolkan. Confiram.

Chiara Civello é uma italiana nascida em Roma há 42 anos. É uma cantora moderna de jazz, mas transita pelo pop, pela MPB.

Seu disco Canzoni, de 2014, foi lançado no mercado brasileiro em 2015. É um apanhado de standards da música do seu país. Tem muito a ver com a música brasileira por causa da sonoridade e das soluções harmônicas de alguns arranjos e também pelos convidados: Chico Buarque, Gilberto Gil e Ana Carolina.

Com Chico, Chiara faz Io Che Amo Solo Te. Com Gil, Io Che Non Vivo Senza Te. São verdadeiros clássicos do cancioneiro pop do mundo.

Vamos degustar? Fiquem com o vídeo de Chiara e Gil.

Acho irresistível!

 

Arte de Chico está acima de partidos, da esquerda, da direita!

Conheço pessoas que passaram a ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Conheço pessoas que deixaram de ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Acho parecidas as duas posturas.

São reducionistas.

Circunscrevem o grande artista e sua arte à intolerância do atual debate político e ideológico travado no Brasil.

Estou tocando no assunto por causa de uma postagem de Chico cantando Tanto Mar que fiz, no 25 de abril, a propósito do aniversário da Revolução dos Cravos. Recebi mensagens muito reveladoras, tanto de amor quanto de ódio.

Tento respondê-las nesse texto.

Começo com o óbvio. Chico Buarque é um artista extraordinário. Um dos maiores da nossa canção popular em qualquer tempo.

Sempre foi um homem de esquerda. Isso é absolutamente legítimo. A rigor, nem engrandece nem diminui sua arte. O que o fez (faz!) um gigante da música produzida pelos brasileiros foi (é!) o absoluto domínio que tem do artesanato da canção. Música e letra, uma nascida para a outra, uma indissociável da outra. Como um segredo que não se revela. Como um mistério que não se desvenda. Só se contempla. Só se admira.

Chico é assim. Muitas, infinitas belezas reunidas num cancioneiro. Quando fala do individual, quando se debruça sobre o coletivo. Desde a juventude, tempo dos clássicos instantâneos. Até a maturidade (agora, a velhice), de canções mais refinadas, de assimilação mais lenta e difícil.

Não é justo que a sua música só seja ouvida por causa de uma circunstância política. Ou que, na outra ponta, por isso seja execrada. Os atuais impasses serão superados, substituídos por outros, mas arte como a de Chico atravessa o tempo. Tem permanência.

Encanta, fascina, alegra, entristece, humaniza.

Fecho, então, com o Caetano de Festa Imodesta, um samba que Chico gravou:

E acima da razão a rima

E acima da rima a nota da canção

Bemol, natural, sustenida no ar

Viva aquele que se presta a esta ocupação

Salve o compositor popular!

Chico, Tanto Mar, Revolução dos Cravos

Nesta terça-feira (25), 43 anos da Revolução dos Cravos.

Aquele 25 de abril de 1974 marcou o fim do Salazarismo em Portugal.

E encheu de esperança muitos brasileiros.

Tanto Mar, de Chico Buarque, ficou como evocação musical e eco da Revolução dos Cravos no Brasil.

 

Chico Buarque também fez rock! Vamos (ver) ouvir?

No post anterior, falei do Frevo de Orfeu, de Tom Jobim. Quis falar porque muita gente não conhece.

O frevo de Tom me remeteu ao rock de Chico Buarque. Esse, muita gente conhece. Mas lembrei que, em 1972, ao compor Baioque, uma mistura de baião com rock (como explica o título), Chico produziu algo inusitado porque estava atuando numa área que não era a sua.

A música entrou no (delicioso) filme Quando o Carnaval Chegar, de Cacá Diegues.

O registro que escolhi é do próprio Chico no evento Phono 73. O MPB4 acompanha o autor, que cai no rock!

Reparem que ele, perfeccionista com o uso das palavras, rima “sol” com “roll”,  com o “ól” aberto!

Vale a pena ver (ou rever)!

Lenine se sente traído pela esquerda! É um direito dele!

Uma garota me disse que passou a amar Chico Buarque quando descobriu que ele defende Lula, Dilma e o PT. Não parou mais de ouvi-lo.

Está perdidamente apaixonada! Ama Lula, Dilma, o PT e, agora, Chico e suas músicas!

Eu respondi que amo Chico Buarque desde 1966, quando, aos sete anos, vi A Banda no festival de MPB. Acompanho toda a carreira, tenho todos os discos.

Amo incondicionalmente a sua música. Convergindo ou divergindo dele. Temos poucos artistas tão importantes quanto Chico.

É uma das belezas do Brasil!

Falo isso por causa de Lenine.

Gente que gostava dele, agora o crucifica. Ou diz que devia ficar calado e apenas cantar. Vi muitas manifestações nas redes sociais.

Quanto autoritarismo!

Quanta intransigência!

Quanta patrulha ideológica!

Chico Buarque pode cantar e falar! Lenine só pode cantar! No mais, fica calado!

É isso mesmo?!

Ora, pensei que os dois podiam cantar e falar! Melhor assim, não?

No caso de Lenine, o problema é uma entrevista que ele deu.

Disse que não se sente traído pela direita porque não esperava nada da direita. E que se sente traído pela esquerda porque esperava muito mais da esquerda.

Muita gente se sente traída pela esquerda. Muita gente séria, lúcida, honesta, que tinha outras expectativas com a chegada do PT ao poder e que se decepcionou com uma série de coisas que aconteceram. A fala do artista é sobre isso. É serena, é equilibrada. Merece respeito.

Mas vamos além: e se você discorda de Lenine? Vai pretender que ele não tenha o direito de dizer o que disse? O cara só pode falar o que nos agrada?

Agora, voltando ao começo, à garota que passou a amar Chico Buarque quando descobriu que ele defende Lula, Dilma e o PT, vou confessar:

Não gosto da música de Lenine. Nunca gostei. Vi ao vivo e também não gostei. Não tenho seus discos em meu acervo.

E vou seguir assim. Mesmo que concorde com as opiniões dele!

Carminho, uma fadista moderna, encontra Tom Jobim

Se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim faria 90 anos no dia 25 de janeiro. Um CD que acaba de ser lançado pode dar início à comemoração.

É Carminho Canta Tom Jobim (Biscoito Fino). O disco promove o encontro da jovem fadista portuguesa com remanescentes da Banda Nova, o grupo que acompanhou Tom nos muitos shows dos últimos anos de sua vida.

Três integrantes da Banda Nova acompanham Carminho: Paulo Jobim (violão e direção musical), Jaques Morelenbaum (violoncelo e contrabaixo) e Paulo Braga (bateria). A eles, juntou-se Daniel Jobim, filho de Paulo, neto de Tom, ao piano.

Os arranjos e a banda remetem à sonoridade dos discos e shows do compositor. Poderíamos traduzir assim: é Jobim pelos Jobins. Completo respeito, absoluta fidelidade ao universo musical de Tom. Um pouco mais intimista, um pouco mais camerístico, até porque o grupo é numericamente muito pequeno.

Aí vem o dado novo: Antônio Carlos Jobim, nosso maestro soberano, que já teve suas canções gravadas por gente do mundo inteiro, agora está nas mãos de uma fadista.

Carminho é uma jovem cantora portuguesa de 32 anos. Mais ou menos, a idade da Banda Nova.  Uma fadista moderna que traz para o grande cancioneiro jobiniano as marcas da música mais tradicional e mais representativa de Portugal.

Em 14 faixas, há duetos com Chico Buarque (Falando de Amor), Maria Bethânia (Modinha) e Marisa Monte (Estrada do Sol). O repertório tem Tom e seus parceiros (Vinícius, Chico, Dolores Duran, Aloysio de Oliveira, Newton Mendonça) e Tom sozinho, fazendo música e letra. Tem o começo (A Felicidade, Estrada do Sol), o meio (Wave, Triste) e a fase final (Luíza).

Antes de ouvir o disco, qualquer pessoa que tem intimidade com a obra de Jobim perguntará: as canções combinam com uma intérprete de fado?

A resposta vem logo na primeira audição: no caso de Carminho, combinam, sim!

Há um equilíbrio perfeito entre a força dramática da intérprete e a execução cool da banda.

Carminho é uma cantora notável que dialoga há algum tempo com a música brasileira, e, nesse disco, o repertório de Jobim só vem ampliar e enriquecer esse diálogo.

Atenção, Paraíba sem memória! Paulo Pontes morreu há 40 anos!

Nesta terça-feira, 27 de dezembro, faz 40 anos que Paulo Pontes morreu.

Naquele remoto 27 de dezembro de 1976, vi a notícia na Globo. E, no dia seguinte, li o necrológio do Jornal do Brasil sentado num batente, em frente ao Cine Municipal.

(Bons tempos aqueles em que a gente comprava o JB todos os dias nas bancas! Aula permanente de jornalismo!)

Paulo Pontes morreu aos 36 anos, devastado pelo câncer. Vinha do êxito de Gota D’Água, parceria com Chico Buarque.

Deixe em paz meu coração,

Que ele é um pote até aqui de mágoa!

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a Gota d’água!

Nunca gostei de Ipojuca Pontes, o irmão. Nem do seu cinema. Seria – para inverter uma expressão atual – a direita não transante. Pouco inteligente, muito pouco crível!

Paulo Pontes era diferente. Está entre os nomes essenciais da cena cultural brasileira da sua geração.

Pelo teatro, sim! Mas, também, pelo artista que pensava bem o seu tempo e a necessidade da arte.

Vou resumir assim: Campina Grande, Rádio Tabajara, Hermilo Borba Filho, CPC da UNE, Oduvaldo Vianna Filho, Opinião, Para-i-bê-a-bá, TV Tupi, Bibi Ferreira, Brasileiro: Profissão Esperança, Um Edifício Chamado 200, Dr. Fausto da Silva, O Homem de La Mancha, A Grande Família, Chico Buarque, Gota D’Água.

Sonhar mais um sonho impossível

Lutar quando a regra é ceder

Vencer o inimigo invencível

Negar quando a regra é vender

A letra da canção vertida para o Português acaba falando de Paulo Pontes e seus sonhos. Pena que ele não viveu para vê-los plenamente realizados.

Falar mal de Ferreira Gullar é como falar mal de Chico Buarque!

O Brasil está confuso!

Falam tão mal de Ferreira Gullar (até na hora da morte) porque ele era crítico da esquerda.

gullar

Falam tão mal de Chico Buarque porque ele defende a esquerda.

Chico Buarque Doc 3

Falam mal dos dois com argumentos por vezes pouco inteligentes e que desconsideram a arte que um produziu e o outro produz.

Abandonam a leitura de um. Abandonam a audição do outro.

Deixar de ler Gullar porque o comunista de ontem reviu suas posições nos fará muita falta. Deixar de ouvir Chico porque ele mantém suas posturas também nos fará muita falta.

A autocrítica de um é tão legítima quanto a manutenção, pelo outro, daquilo em que ele crê.

Ferreira Gullar e Chico Buarque são dois grandes artistas do Brasil. A produção deles é infinitamente maior do que os equívocos por acaso cometidos.

Sobre Ferreira Gullar, que morreu neste domingo (04), vale lembrar que o grande poeta maranhense lutou firmemente contra os governos de exceção, foi preso mais de uma vez pelos militares e viveu no exílio. Experimentou um sofrimento que os que hoje, depreciando sua poesia e sua inteligência, facilmente o chamam de “reaça” nunca conheceram!

Sigamos lendo Gullar! Sigamos ouvindo Chico! Não vamos confirmar que ficamos menos inteligentes!

Os políticos acabaram com o Rio de Janeiro de tantas canções!

Acredito que poucas cidades do mundo foram exaltadas em tantas canções quanto o Rio de Janeiro.

Do hino Cidade Maravilhosa ao samba Aquele Abraço. Da Valsa de uma Cidade ao Samba do Avião.

tom-jobim

Tom Jobim e Billy Blanco fizeram uma sinfonia para o Rio de Janeiro. Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, o Samba do Carioca. Braguinha, Copacabana. Caymmi, Sábado em Copacabana.

A lista não tem fim.

Penso nessas canções e em tantas mais agora que o Rio, por causa dos seus políticos, está mergulhado numa crise sem precedentes.

Também lembrei de outras que pareciam nos alertar sobre o futuro.

Nossa famosa garota não sabia a que ponto a cidade turvaria/esse Rio de Amor que se perdeu – cantou Vinícius na Carta ao Tom, que já tem mais de 40 anos.

vinicius

Flutua no ar um desprezo, desconsiderando a razão/que o homem não sabe se vai encontrar/um jeito de dar um jeito na situação – é Paulinho da Viola em Amor à Natureza. Também tem mais de 40 anos.

paulinho-da-viola

São Sebastião crivado/nublai minha visão/na noite da grande fogueira desvairada – é Chico Buarque em Estação Derradeira. Há quase 30 anos.

Chico Buarque Doc 3

E tem aquela oração que Gil e Milton gravaram no ano 2000:

Sebastian

Sebastião

Diante de tua imagem, tão castigada e tão bela

Penso na tua cidade

Peço que olhes por ela!