Paula, sugerindo nudez total, na cama com Chico Buarque

Paula.

O nome dela é Paula Priscila.

Jovem, bela, preocupada com direitos humanos.

Amiga virtual com quem estive duas ou três vezes em dias de show de Chico Buarque.

Paula ama Cauby Peixoto, Maysa, Dick Farney, Tom Jobim, a Bossa Nova.

Paula ama Vinícius e Nelson Rodrigues.

Mas acho que Chico Buarque é que é seu grande amor.

Em isolamento social, nos surpreendeu com essa foto postada no facebook.

Deitada sobre as obras de Chico, sugerindo estar completamente nua, mas coberta pelos CDs do artista.

O que o nosso amado Nelson Rodrigues diria dessa foto? – perguntei pra ela.

A resposta, muito inteligente, guardo comigo.

Chico Buarque diz que o Brasil é um país governado por loucos

“O Brasil é um país governado por loucos”.

Quem disse foi Chico Buarque.

A afirmação está num vídeo de um minuto que o compositor gravou para a campanha de divulgação do filme Democracia em Vertigem, de Petra Costa.

Democracia em Vertigem, que, nos Estados Unidos, é The Edge of Democracy, concorre ao Oscar de Melhor Documentário.

A cerimônia do Oscar 2020 será no dia nove de fevereiro em Los Angeles.

Vejam o vídeo de Chico Buarque.

Direitopatas batem em Chico Buarque seguindo Toni Tornado

Há alguns anos, muito antes dessa polarização que tomou conta do Brasil, ouvi de um jovem músico que Chico Buarque não sabe compor.

O cara questionou as linhas melódicas, as harmonias, etc.

O comentário foi tão absurdo que respondi com o silêncio.

Agora há pouco, no apagar das luzes do ano de 2019, Toni Tornado disse que Chico Buarque não sabe cantar.

O jornal O Globo ouviu especialistas em voz, e eles foram unânimes: Chico, sim, sabe cantar, a despeito da voz anasalada e de um timbre que pode ser considerado feio se comparado a outros padrões vocais.

Há outra questão: Chico é de uma geração que, no Brasil e no mundo, mexeu com o modo de se cantar música popular.

E mais: uma geração de autores que cantam suas próprias músicas. Seja Chico aqui, seja Bob Dylan nos Estados Unidos.

Chico envelheceu cantando bem. Para constatar, basta vê-lo ao vivo.

Dylan envelheceu cantando mal, embora, na juventude, apesar do timbre igualmente nasal, tenha cantado lindamente suas protest songs e outras coisas mais.

Voltemos a Chico. E a Toni Tornado.

Ator e cantor, Tornado foi infeliz no que disse.

Sua opinião bombou nas redes sociais e deu lugar a outros comentários ainda mais infelizes.

O mote é o mesmo – CHICO BUARQUE NÃO SABE CANTAR! -, mas o tom é mais agressivo.

Alguns ressuscitaram até aquele vídeo em que Chico, brincando numa conversa de estúdio, diz que compra as canções que grava.

Curioso: os comentários partem da mesma gente que hoje defende os que, no poder, promovem uma verdadeira cruzada contra a produção cultural brasileira.

CHICO BUARQUE NÃO SABE CANTAR?

Não só sabe como, com uma outra exceção, é o melhor intérprete das canções que compõe.

Enquanto os direitopatas (Sim! Eles existem!) detratam esse grande artista brasileiro, Prêmio Camões de Literatura pelo conjunto da obra, a gente, como naquele samba de Caetano, apenas brada:

SALVE O COMPOSITOR POPULAR!

Assinatura de Bolsonaro macularia o Prêmio Camões de Chico Buarque

O presidente Jair Bolsonaro, entre os muitos defeitos que tem, sofre de incontinência verbal.

As bobagens que diz fazem um mal danado ao seu governo e ao Brasil.

Só os bolsonaristas não querem enxergar.

O comentário sobre sua assinatura no Prêmio Camões concedido a Chico Buarque foi uma dessas bobagens.

Bolsonaro disse que tem até 31 de dezembro de 2026 para assinar, como se tivesse a convicção de que será reeleito.

Quanta arrogância!

Que fala inadequada à liturgia do cargo que ocupa!

O Prêmio Camões é concedido em parceria pelos governos do Brasil e de Portugal.

Dessa vez, vai para Chico Buarque e será entregue em Portugal, no ano que vem.

Aos presidentes dos dois países, cabe apenas assinar, gostando ou não do homenageado.

O presidente de Portugal já o fez, vimos nesta quarta-feira (09) a entrevista dele no Jornal Nacional.

E é o que Bolsonaro deveria fazer. Sem qualquer mimimi.

Mas, convenhamos, é melhor que não o faça.

Bolsonaro é um político de extrema direita.

Chico – um dos grandes artistas do Brasil – é um homem de esquerda.

A assinatura de Jair Bolsonaro macularia o Prêmio Camões de Chico Buarque.

Chico Buarque chega aos 75 anos como um gigante da MPB

Chico Buarque faz 75 anos nesta quarta-feira (19).

A música dele entrou lá em casa em 1966, quando eu tinha sete anos. A Banda. Nara Leão naquele festival de MPB. Tinha o disco ao vivo (miseravelmente mal gravado) e o compacto em estúdio. Faz tempo!

Em 1967, mais um festival, e o impacto de Roda Viva. Chico e o MPB4. Roda Viva era muito melhor do que A Banda. O arranjo vocal do Magro era arrebatador.

Em 1968, outro festival. Sabiá, lindíssima canção de exílio. Chico junto com Jobim. Sabiá versus Caminhando. Vaias e mais vaias. Sempre preferi Sabiá.

No meio desses festivais, há três discos sem títulos. Apenas o nome do artista e os volumes 1, 2 e 3. E um monte de clássicos instantâneos do nosso cancioneiro. Nem vou listar. São tantos!

Em 1970, o primeiro disco na Philips traz um Chico mais maduro. Agora, falando sério. Tem Samba e Amor e Rosa dos Ventos.

Em 1971, Construção. Não há mais Chico Buarque de Hollanda. É só Chico Buarque. O bigode tira o ar de bom moço do artista. O Duprat do Tropicalismo arranja Construção, obra-prima com versos que terminam sempre em proparoxítonas. E tem Cotidiano e Olha Maria e Desalento e Valsinha.

A década de 1970 é a mais criativa. Nas canções de protesto contra a ditadura, nas experiências com teatro e cinema, nos versos escritos no feminino, no encontro com Caetano em Salvador, na temporada com Bethânia no Canecão. Quando o Carnaval Chegar, Calabar, Meus Caros Amigos, o Chico Buarque de 1978, Ópera do Malandro.

A década de 1980 tem Vai Passar nos estertores da ditadura militar. Monumental samba-enredo da parceria com Francis Hime. Tem o início da parceria com Edu Lobo em O Grande Circo Místico. Chico “entorta” seu jeito de compor, há menos clássicos instantâneos. O frescor da juventude dá lugar ao homem com mais de 40.

A sensibilíssima homenagem aos artistas que, como ele, fazem grande a música popular brasileira, vem na primeira metade dos anos 1990. Paratodos. “Meu mastro soberano foi Antônio Brasileiro”.

Nos últimos 25 anos, Chico escreve um livro, grava um disco e faz uma turnê. Sempre nessa ordem. No palco, seu reencontro com o público é intenso. Vimos no ano passado.

Chico Buarque está na estrada há mais de 50 anos. Ele é um gigante do MPB.

O Nobel de Bob Dylan caberia muito bem em Chico Buarque

Chico Buarque venceu a edição 2019 do Prêmio Camões.

O anúncio foi feito nesta terça-feira (21).

O prêmio, um dos mais importantes da língua portuguesa, foi pelo conjunto da obra (literatura, teatro, poesia, canção popular, etc.).

O artista vai receber 100 mil euros.

Premiação justíssima para um dos grandes artistas do Brasil.

Um cara que nos orgulha imensamente, sobretudo com o seu cancioneiro.

Chico é um gigante no seu ofício.

O Nobel de Literatura concedido a Bob Dylan caberia muito bem nele.

Fecho a coluna com uma letra de Chico.

Mas qual? São tantas letras absolutamente extraordinárias que fica difícil escolher uma.

Mexendo na memória, fico com Rosa-dos-Ventos. É de 1970.

A letra traz palavras proparoxítonas fechando os versos (não todos).

Logo depois, em Construção, uma das suas obras-primas, Chico constrói uma letra genial em que todos os versos terminam com proparoxítonas.

Seria Rosa-dos-Ventos um ensaio para Construção?

Rosa-dos-Ventos

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima para socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão

Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito do rio fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar

Morre Sérgio de Carvalho, produtor de grandes discos da MPB

Morreu Sérgio de Carvalho.

Produtor de grandes discos da MPB, ele tinha 68 anos.

A causa da morte não foi divulgada pela família.

Sérgio de Carvalho queria ser músico.

Na década de 1960, tocou bateria em grupos amadores, mas não seguiu o caminho dos irmãos Dadi e Mu, que se tornaram instrumentistas profissionais.

A música, no entanto, ficou na vida de Sérgio.

A partir da década de 1970, ele se transformou num requisitado produtor de discos.

Primeiro, na velha PolyGram.

A produção dos álbuns Meus Caros Amigos e Chico Buarque 1978 tem a assinatura dele.

Da PolyGram, Sérgio de Carvalho foi para a Sony, depois para a BMG.

Em 1986, dirigiu, na TV Globo, a série de programas Chico & Caetano, que reuniu o primeiríssimo time da música popular brasileira em especiais exibidos uma vez por mês.

Atualmente, estava na Universal Music.

RETRO2018/Chico Buarque

Vou na estrada há muitos anos.

Sou um artista brasileiro

Backstage do teatro A Pedra do Reino. Sete da noite.

Os músicos entram primeiro.

O maestro Luiz Cláudio Ramos. O contrabaixista Jorge Helder. O percussionista Chico Batera. Todos eles. Os músicos que há muitos anos (uns 30) formam a grande banda de Chico Buarque.

Dessa vez, não tem mais Wilson das Neves, baterista lendário. Das Neves, que morreu no ano passado.

Em seguida, lá vem ele.

Um cumprimento rápido, uma foto.

Uma breve declaração de amor:

Chico, em 1966, eu tinha sete anos quando sua música entrou lá em casa para não sair mais.

Ao que ele responde, sorrindo:

Eu também era jovem.   

E completo:

Agora, vou fazer 60.

Ele está com 74.

O momento do diálogo, brevíssimo, está registrado na foto.

O artista – esse artista imenso – segue pelo corredor, por trás do palco. É hora de trabalhar.

Sete músicas fazem a passagem de som.

Uma sequência inteira do show, de Massarandupió até A Bela e a Fera.

Blues Pra Bia, A História de Lily Braun e A Bela e a Fera – o set bluesy/jazzy mostra o quão afiada é a banda.

A abertura do show também entra na passagem de som:

Minha Embaixada Chegou, velho samba de Assis Valente, e Mambembe. Ambas remetem a Quando o Carnaval Chegar, o filme e o disco de 1972.

Eu agradeço a licença que o povo me deu pra desacatar – é o que, duas horas mais tarde, quando as cortinas se abrem, Chico diz cantando, tornando seus os versos de Valente.

O show?

Vi embevecido.

Viram – creio – embevecidos todos os que foram nesta terça-feira (18/09) ao teatro A Pedra do Reino.

O set list percorre um longo caminho de 50 anos (do artista e do seu público), dá conta desse tempo e dialoga com o Brasil de hoje. Da remota parceria do jovem Chico com Tom, o Maestro Soberano, em Retrato em Branco e Preto, até As Caravanas, essa música porrada sobre o nosso apartheid social. De Sabiá (outra com Jobim) à valsa Massarandupió, composta com o mais novo parceiro, o neto Chico Brown. De Partido Alto a Tua Cantiga. Ao todo, 30 canções.

Chico Buarque no palco é um dos muitos retratos possíveis das belezas do Brasil.

O show é um recorte pouco linear do seu vastíssimo cancioneiro.

Paratodos, na despedida, resume tudo.

“Vou na estrada há muitos anos. Sou um artista brasileiro”. 

Quem reclama do repertório de Chico Buarque não ouve Chico Buarque!

Ouço Chico Buarque desde o festival de A Banda (na voz de Nara), em 1966. Eu tinha sete anos.

Acompanho sua carreira, portanto, há mais de 50 anos.

Tenho todos os discos. Conheço todas as músicas.

Quando vou vê-lo ao vivo, nada no set list me causa qualquer estranhamento.

Ontem, depois do primeiro show dele em João Pessoa, ouvi algumas queixas sobre o repertório. Não tem aqueles grandes sucessos do passado, tem um monte de músicas chatas e desconhecidas, etc., etc., etc.

Vamos lá.

Há dois grandes modelos de set list adotados no mundo dos shows.

No primeiro, o artista prioriza os hits, oferecendo ao vivo uma espécie de The Best, e insere duas ou três músicas novas. É o que fazem Paul McCartney e os Rolling Stones, por exemplo.

No segundo, o artista apresenta todas, ou quase todas, as músicas do disco novo misturadas com canções de momentos diversos da sua trajetória. Como costumam fazer Caetano Veloso e Chico Buarque.

No caso específico da turnê Caravanas, o disco homônimo tem apenas nove faixas. Elas representam menos de um terço de um set list que tem 30 músicas.

As 21 músicas que não são do disco novo vêm de muitos momentos da carreira de Chico.

Da época dos festivais (Sabiá), do firme engajamento contra a ditadura nos anos 1970 (Partido Alto, Gota D’Água, Homenagem ao Malandro, Geni e o Zepelim), da trilha do filme A Ópera do Malandro (A Volta do Malandro, Palavra de Mulher), do Grande Circo Místico (A História de Lily Braun, A Bela e a Fera), do Chico da maturidade, que produziu joias já incorporadas aos seus clássicos (Paratodos, Futuros Amantes, Estação Derradeira).

O conceito de Caravanas é muito claro. É um recorte pouco linear do vastíssimo cancioneiro de Chico, como defini ontem aqui na coluna.

Só posso entender que quem reclama do repertório do show de Chico Buarque não ouve Chico Buarque!

Chico Buarque é um dos retratos possíveis das belezas do Brasil

Vou na estrada há muitos anos.

Sou um artista brasileiro

Backstage do teatro A Pedra do Reino. Sete da noite.

Os músicos entram primeiro.

O maestro Luiz Cláudio Ramos. O contrabaixista Jorge Helder. O percussionista Chico Batera. Todos eles. Os músicos que há muitos anos (uns 30) formam a grande banda de Chico Buarque.

Dessa vez, não tem mais Wilson das Neves, baterista lendário. Das Neves, que morreu no ano passado.

Em seguida, lá vem ele.

Um cumprimento rápido, uma foto.

Uma breve declaração de amor:

Chico, em 1966, eu tinha sete anos quando sua música entrou lá em casa para não sair mais.

Ao que ele responde, sorrindo:

Eu também tinha.   

E completo:

Agora, vou fazer 60.

Ele está com 74.

O momento do diálogo, brevíssimo, está registrado na foto.

O artista – esse artista imenso – segue pelo corredor, por trás do palco. É hora de trabalhar.

Sete músicas fazem a passagem de som.

Uma sequência inteira do show, de Massarandupió até A Bela e a Fera.

Blues Pra Bia, A História de Lily Braun e A Bela e a Fera – o set bluesy/jazzy mostra o quão afiada é a banda.

A abertura do show também entra na passagem de som:

Minha Embaixada Chegou, velho samba de Assis Valente, e Mambembe. Ambas remetem a Quando o Carnaval Chegar, o filme e o disco de 1972.

Eu agradeço a licença que o povo me deu pra desacatar – é o que, duas horas mais tarde, quando as cortinas se abrem, Chico diz cantando, tornando seus os versos de Valente.

O show?

Vi embevecido.

Viram – creio – embevecidos todos os que foram nesta terça-feira (18) ao teatro A Pedra do Reino.

Verão – certamente – os que forem nesta quarta-feira (19), última noite em João Pessoa.

O set list percorre um longo caminho de 50 anos (do artista e do seu público), dá conta desse tempo e dialoga com o Brasil de hoje. Da remota parceria do jovem Chico com Tom, o Maestro Soberano, em Retrato em Branco e Preto, até As Caravanas, essa música porrada sobre o nosso apartheid social. De Sabiá (outra com Jobim) à valsa Massarandupió, composta com o mais novo parceiro, o neto Chico Brown. De Partido Alto a Tua Cantiga. Ao todo, 30 canções.

Chico Buarque no palco é um dos muitos retratos possíveis das belezas do Brasil.

O show é um recorte pouco linear do seu vastíssimo cancioneiro.

Paratodos, na despedida, resume tudo.

“Vou na estrada há muitos anos. Sou um artista brasileiro”.