Sexta de Música: Sivuca e as versões multinacionais de Vassourinhas

Como seria o frevo Vassourinhas tocado por um chinês?

Por um árabe?

Por um russo?

Por um argentino?

Por um escocês?

Quem responde é Sivuca.

Ouçam na coluna Sexta de Música, que faço semanalmente na CBN João Pessoa.

Sexta de Música: grandes frevos baianos

Na minha coluna na CBN João Pessoa desta sexta-feira (26), a conversa com a âncora Nelma Figueiredo foi sobre o frevo baiano.

Caetano Veloso, Moraes Moreira, Trio Elétrico Dodô & Osmar, Gal Costa.

Vamos ouvir?

Armandinho é grande nome do carnaval brasileiro

Armando Macedo.

Armandinho.

A primeira lembrança que tenho dele é em A Grande Chance. Ele, adolescente. Eu, menino. Armandinho e seu bandolim.

O compacto com a sua passagem pelo programa de Flávio Cavalcanti me foi apresentado depois pelo professor Rubens de Azevedo, que dirigiu o Observatório Astronômico da Paraíba.

Vi Armandinho ao vivo pela primeira vez acompanhando Moraes Moreira na caravana Setembro, em 1975.

Àquela altura, já conhecia o disco do jubileu de prata do Trio Elétrico Dodô & Osmar.

Armandinho é filho de Osmar. Osmar Macedo, um dos inventores do trio.

Armandinho ficou muito conhecido no grupo A Cor do Som. Mas as minhas audições da sua guitarra (baiana ou não) são principalmente dos discos do trio elétrico. Velhos discos da Continental, hoje não disponíveis em CD.

Faixas instrumentais, faixas cantadas por Moraes Moreira. Frevos e mais frevos. Lindos. Modernos. A reinventar o frevo pernambucano.

Armando Macedo é um virtuose do seu instrumento. Ou dos seus instrumentos. Bandolim, guitarra, guitarra baiana.

Andei reouvindo A Cor do Som. O choro brasileiro revisto. Espírito Infantil. Assanhado, de Jacob, com uma outra “pegada”. Ficou meio rock. Mas a harmonia original já é meio rock, não é?

Também há muito Armandinho para ouvir nos quatro primeiros discos de Moraes Moreira.

Fecho com Armandinho fazendo um medley de frevos num programa da TV Cultura.

O frevo pernambucano é a mais bela música de carnaval

Quando pensamos na tradição da música de carnaval, três gêneros nos ocorrem: a marchinha, o samba-enredo e o frevo.

Há outros, mas esses são os principais.

Qual o que você prefere?

Eu prefiro o frevo.

Musicalmente, é o mais rico, o mais refinado. A despeito de ser música feita para dançar. De preferência, na rua.

E qual é o mais belo de todos os frevos?

Escolhi dois. Um frevo de rua e um frevo-canção.

Vamos ouvi-los? Ambos com Antônio Nóbrega, esse grande artista pernambucano.

Último Dia – de Levino Ferreira. Considero o mais belo dos frevos instrumentais.

Evocação No 1 – de Nelson Ferreira. Na minha opinião, o mais belo frevo-canção.

Com Banzeiro, Daniela Mercury bota Dona Onete no carnaval

Vamos falar um pouco sobre o carnaval 2018?

Um dos grandes hits da festa deve ser Banzeiro, com Daniela Mercury.

A baiana acaba de lançar nas plataformas digitais um EP chamado Trieletro, e a faixa principal, aquela que está destinada ao sucesso, é Banzeiro, que a gente já conhece na voz de Dona Onete.

Dona Onete é root, Daniela é mainstream, e isso está claro quando você ouve as duas gravações.

A versão de Daniela leva Dona Onete para cima do trio elétrico – podemos sintetizar assim. Mas é, ao mesmo tempo, fiel à gravação da artista paraense de 78 anos.

Minha opinião?

Gosto muito das duas, cada uma com suas peculiaridades.

E acho importante que uma cantora como Daniela Mercury leve Dona Onete para o seu repertório.

Vamos ouvir?

Seguem as duas versões de Banzeiro.

Estudiosos dizem que música de carnaval morreu. Será?

Como minucioso mapeamento da música popular que os brasileiros produziram entre 1901 e 1985, os dois volumes de A Canção no Tempo, de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, permitem que a gente acompanhe, ano a ano, a trajetória da música de carnaval. Aliás, o primeiro volume começa logo com Ó Abre Alas, marcha-rancho que Chiquinha Gonzaga compôs em 1899 e que foi sucesso entre 1901 e 1910. Mas a fixação do gênero só se daria a partir de 1917 com a gravação do primeiro samba, Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida. E a partir do final dos anos 1920 é que surgem, em grande quantidade, as músicas de carnaval que conseguiram resistir ao tempo e são lembradas até hoje.

Na extensa lista, entre 1929 e 1940, estão Jura, Tai, Com que Roupa, O Teu Cabelo Não Nega, Linda Morena, Cidade Maravilhosa, Mamãe Eu Quero, Pastorinhas, Touradas em Madri, Yes, Nós Temos Banana e A Jardineira. Consolidam-se os nomes de Lamartine Babo, Braguinha e Noel Rosa, que morreu sem ver o sucesso da marcha Pastorinhas. Entre 1941 e 1950, temos Alá-Lá-Ô, Aurora, Ai que Saudades de Amélia, Nega do Cabelo DuroAtire a Primeira Pedra, Pirata da Perna de Pau, É Com Esse que Eu Vou, Chiquita Bacana e General da Banda. Nos anos 1950, de Lata d’Água, Maria Candelária e Sassaricando, vemos os primeiros sinais de que a música de carnaval está mudando.

O primeiro volume de A Canção no Tempo termina em 1957, ano em que um frevo pernambucano, e não uma marcha ou um samba do Rio de Janeiro, foi o grande sucesso carnavalesco. É Evocação, “em que Nelson Ferreira recorda velhos carnavais recifenses, citando nominalmente agremiações e personagens lendários da história do frevo”. Mas o livro de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello não trata do frevo, uma das grandes expressões do carnaval brasileiro, porque ele é essencialmente instrumental. Apesar dos formatos de frevo-canção e frevo de bloco, nos quais há letra, os maiores clássicos do gênero (Vassourinhas, Último Dia, Duda no Frevo) são mesmo peças para orquestra.

De 1958 a 1970, A Canção no Tempo destaca Madureira Chorou, Índio Quer Apito, Bigorrilho, Cabeleira do Zezé, Os Cinco Bailes da História do Rio, Tristeza, Máscara Negra e Bandeira Branca. Na década de 1960, em meio à Bossa Nova, à Jovem Guarda e os festivais da canção, a música de carnaval, em seu modelo clássico, entrou em declínio, apesar do jovem Chico Buarque ter produzido um sucesso como a marchinha Noite dos Mascarados. Na avaliação de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, a era da canção carnavalesca começa em 1917 com o samba Pelo Telefone e termina em 1970 com a marcha-rancho Bandeira Branca, que foi também o último sucesso de Dalva de Oliveira.

Um ano antes do êxito de Bandeira Branca, Caetano Veloso lançara Atrás do Trio Elétrico, chamando a atenção do Brasil para a invenção de Dodô & Osmar – um caminhão em cima do qual os músicos tocavam frevos com guitarras elétricas. Os primeiros trios surgiram no início da década de 1950, mas só se tornaram nacionalmente conhecidos através dos versos de Caetano. A partir dali, a música produzida para a festa de Momo percorreria novos caminhos e nunca mais seria a mesma. O tempo, porém, haverá de mostrar que, no fim da era da canção carnavalesca (como ela é classificada no livro A Canção no Tempo), não foi necessariamente decretada a morte da música de carnaval.

Nove de fevereiro é data importante para o frevo. Vamos festejar?

Nove de fevereiro (hoje) é uma data muito importante para o frevo pernambucano.

Sabem o motivo?

No dia nove de fevereiro de 1907 (portanto, há 110 anos), a palavra FREVO foi publicada pela primeira vez num jornal do Recife.

Nascia uma das grandes expressões do carnaval brasileiro. Música, dança – uma manifestação genuína do talento do povo.

Frevo de rua, frevo de bloco, frevo canção – há várias modalidades e subdivisões que os mestres explicam didaticamente. Como nesse vídeo do maestro Spok e sua orquestra.

Para quem tiver paciência, vale a pena!

Hoje, em homenagem ao nove de fevereiro, faço um top 10 do frevo.

Gosto imensamente, mas deixei de fora os frevos baianos (Caetano Veloso, Moraes Moreira, Trio Elétrico Dodô e Osmar) e os que foram compostos pela geração que se consolidou a partir dos anos 1970 em Pernambuco (Carlos Fernando, Alceu Valença, Geraldo Azevedo).

Aqui, optei pelo frevo pernambucano tradicional.

Último Dia – de Levino Ferreira. Considero o mais belo dos frevos instrumentais.

Evocação No 1 – de Nelson Ferreira. Na minha opinião, o mais belo frevo canção.

Relembrando o Norte – de Severino Araújo. Composto por um homem dividido entre a música brasileira e as influências do jazz.

Vassourinhas – de Matias da Rocha e Joana Batista. Clássico absoluto do gênero.

Valores do Passado – de Edgar Morais.

Gostosão – de Nelson Ferreira.

Duda no Frevo – de Senô.

Frevo No 1 – de Antônio Maria. Composto no Rio por um homem morrendo de saudade do Recife.

Madeira que Cupim Não Rói – de Capiba.

Luzia no Frevo – de Antônio Sapateiro.

Frevo pernambucano é para dançar na rua e ouvir em casa!

O frevo de rua, nascido e criado em Pernambuco, é provavelmente a mais refinada expressão da nossa música carnavalesca. São pequenas peças, às vezes de difícil execução, escritas para orquestras em cuja formação predominam os instrumentos de sopro. Feito para dançar nas ruas e nos salões, o frevo também é muito bom de ouvir. Pela beleza de suas melodias, pela riqueza dos seus arranjos, pelo virtuosismo dos seus executantes, por sua admirável força rítmica. Ainda porque funde a alegria do carnaval com uma indisfarçável melancolia, certamente relacionada ao espírito fugaz da festa e à saudade que ela deixa nos foliões.

Na adolescência, dois discos de frevo me encantaram. Os dois com a orquestra do maestro José Menezes. Um deles se chamava “O Frevo Vivo de Levino Ferreira”. O repertório era todo dedicado a um dos maiores compositores do gênero. A faixa de abertura, “Último Dia”, é um clássico absoluto dos nossos carnavais. “Último Dia” entrará em qualquer lista dos melhores e mais inspirados frevos de todos os tempos. Mais do que isto: acredito que não é possível lembrar de cinco frevos sem que este de Levino Ferreira seja mencionado. Melodia original, orquestração, soluções harmônicas – é tudo perfeito nesta peça que parece anunciar o fim da festa de Momo.

O outro disco era a “Antologia do Frevo” lançada pela velha PolyGram. Não se prendia ao repertório essencial de frevos de rua. Tinha também o frevo de bloco e o frevo canção. E, além da orquestra de Zé Menezes, um coral participara das gravações. O formato de medley foi utilizado para ampliar o número de faixas. Foi naquela antologia que ouvi à exaustão a batida irresistível de “Três da Tarde” e os versos comoventes de “Valores do Passado”. Estes dois discos me ensinaram que a gente pode ouvir frevo o ano todo, independente do período carnavalesco, e que o gênero se sobrepõe à festa como expressão legítima do nosso imenso talento musical.

Quando penso em frevos antológicos, um dos primeiros que me ocorrem é “Relembrando o Norte”. Este sempre me pareceu um frevo que só poderia ter sido composto por um homem que teve o jazz como influência determinante em sua trajetória. E foi. Seu autor é Severino Araújo, o maestro da Orquestra Tabajara. Não era para dançar no salão, mas para ver e ouvir: Severino diante da sua big band executando “Relembrando o Norte”. Os avanços e recuos da melodia, suas soluções pouco convencionais, a alegria esfuziante da última parte – um exemplo irretocável do gênero. E uma das contribuições do maestro Severino à nossa música instrumental.

Outro título digno das antologias é “Duda no Frevo”. Indiretamente, está relacionado a Severino Araújo. O autor da música, Senô, tocava na Orquestra Tabajara, e o maestro foi o primeiro a ver a partitura original. Viu, leu e percebeu que tinha em suas mãos uma peça que logo se transformaria num clássico. No título, a homenagem a um jovem que se tornaria uma lenda, o maestro Duda. No fim da vida, Senô tocou nos Paralamas do Sucesso. No meio dos shows, quando Herbert Vianna apresentava os músicos, ele era citado como autor de “Duda no Frevo”. E acabava tocando um pequeno trecho da melodia que ouvimos todos os anos quando chega o carnaval.

O carnaval deve ser politicamente incorreto!

Há pouco mais de um ano, fui ver o duo acústico de Caetano Veloso e Gilberto Gil (Dois Amigos, Um Século de Música) e senti o impacto de reouvir a canção Tropicália ao vivo.

Um retrato do Brasil de 1967/68 a atravessar o tempo e ainda surpreender a plateia com a força dos seus versos e – nas palavras de Caetano – a sua estranha atualidade.

Pois bem, agora, que entramos nessas semanas que antecedem o carnaval, vejo que, no Rio de Janeiro, querem banir Tropicália do repertório de um bloco por causa da palavra mulata.

O monumento é de papel crepom e prata

Os olhos verdes da mulata

Mulata é uma palavra de cunho racista, dizem os que querem que a música não seja cantada pelos foliões.

Voltamos às trevas!

Como falta inteligência a tantas dessas atitudes guiadas pelo politicamente correto!

A censura não se restringe a Tropicália, que não é uma canção carnavalesca. Se estende a várias marchinhas dos carnavais do passado, hoje, clássicos do nosso cancioneiro popular.

Uma delas é a Cabeleira do Zezé. Homofóbica? Claro!

A outra é O Teu Cabelo Não Nega. Racista? claro!

Óbvio que não tenho dúvida do racismo de uma e da homofobia da outra. Mas são de uma inocência que as torna absolutamente inofensivas.

Ninguém está pensando em racismo quando canta “e como a cor não pega, mulata, mulata quero o teu amor”!

Ninguém está pensando em homofobia quando canta “será que ele é, será que ele é”!

É apenas carnaval!

Festa da carne, dos excessos, da alegria, da melancolia! Da música, da dança, da irreverência, da liberdade!

Não cabe essa patrulha sobre os blocos e seus foliões!

Não tem cabimento que invoquem o politicamente correto no carnaval. Não combina, definitivamente, com o espírito da festa.

Então, viva o carnaval!

E, ao menos nos dias de folia, sejamos politicamente incorretíssimos!

Aos 80, Wills Leal mantém jovem seu necessário ativismo cultural

Wills Leal

Wills Leal está fazendo 80 anos. São oito dias de festa (um dia para cada década), mas o aniversário é no domingo (18).

Quando penso em Wills, só vejo nele a figura de um grande ativista cultural. Imprescindível à Paraíba há umas seis décadas.

Podemos associar o seu nome a muitas facetas desse ativismo.

Cinema, turismo, carnaval, clubes, academias.

Fico com o cinema por uma questão de afinidade. O cineclubismo, a crítica, a ACCP, os livros, a incrível performance nos debates. A Academia Paraibana de Cinema, que não existiria sem Wills.

E esses dois volumes incríveis sobre o cinema na/da Paraíba!

Mas tem outras coisas. Às vezes menos mencionadas. Como, por exemplo, a aventura do amor atonal.

Ou o diálogo Paraíba/Pernambuco construído com seu amigo Jomard Muniz de Britto.

Até a sua casa, no bairro de Manaíra, demolida há uns poucos anos. Tradição + transgressão: é o resumo que tenho dela.

Lembro de Wills muito jovem na casa de Geraldo Carvalho, em Jaguaribe. Eu, criança, levado pelo meu pai. Mas nossas conversas começaram um pouco depois. Ali pelo início dos anos 1970, quando, adolescente, eu queria ser crítico de cinema.

Wills ainda não tinha 40 anos. Hoje tem 80.

O tempo passou, mas fica a sensação de que seu ativismo, tão necessário, permanece jovem.

Parabéns, Wills!