Recife adormecia, ficava a sonhar, ao som da triste melodia

Música de carnaval é feita para dançar nas ruas e nos salões.

Dispensa as discussões sobre “qualidade”.

Mas, se quisermos debater, algo me parece claro: entre todos os gêneros musicais carnavalescos, o frevo pernambucano é o mais rico.

O frevo de bloco que prefiro? Evocação No 1, de Nelson Ferreira.

E o frevo de rua? Último Dia, de Levino Ferreira.

Vamos ouvi-los?

“Cabelo ok, sobrancelha ok, maquiagem ok, a unha tá ok”

Leio que Tudo OK será (já é) um dos grandes hits do carnaval 2020.

Acho tão natural que seja assim quanto acho estranho que Jonas Esticado abra o Folia de Rua.

Dá para entender?

“Cabelo ok, marquinha ok, sobrancelha ok, a unha tá ok”

Ou:

“É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez”

Uma coisa é um cantor com o perfil de Jonas Esticado abrir uma festa cujo perfil pede outro tipo de atração.

Outra coisa é fechar os olhos (e os ouvidos) para as transformações da música de carnaval.

Do frevo (tão belo e refinado!) que os pernambucanos inventaram há mais de um século ao funk carioca.

São os caminhos da música popular.

E não adianta reclamar.

Se tiver disposição, é só cair na folia.

*****

Segue a letra:

Tudo Ok
Esse é o arrocha-funk ha ha ha da ex que tu perdeu
É o Thiaguinho MT e a a Mila no controle, vai
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
Cabelo ok, marquinha ok, sobrancelha ok, a unha ‘tá ok
Brota no bailão pro desespero do seu ex
Brota no bailão pro desespero do seu ex
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
É hoje que ele paga todo o mal que ele te fez
Cabelo ok, sobrancelha ok, maquiagem ok, a unha ‘tá ok
Brota no bailão pro desespero do seu ex
Brota no bailão pro desespero do seu ex
(Brota-brota no bailão pro desespero do seu ex)
Brota-brota no bailão pro desespero do seu ex
Se ele te trombar, vai se arrepender
Uma bebê dessa, nunca mais ele vai ter
Uma-uma bebê dessa, nunca mais ele vai ter…

“Ivete é grandiosa, diva, estrela e também uma foliã comum…”

Caetano Veloso usou as redes sociais para escrever sobre Ivete Sangalo.

Caetano diz de onde vem o luminoso resultado artístico e social da atividade pública da cantora.

É oportuno para os que ainda têm restrições a essa grande artista brasileira.

Segue o texto inteiro.

“Ontem foi o último dia de carnaval do 19. Infelizmente não calhou de eu ver @ivetesangalo na rua. Mas vi pela TV. Ivete é incrível. Sua presença sobre um trio em meio à multidão tem tudo o que pode haver de melhor em suas colegas. Em todos os colegas, de @bellmarques a @leosantana. O importante é o que ela tem além disso. Espontaneidade verdadeira, para lá do domínio musical (Ivete canta sentindo e entendendo os riffs, podendo estar tocando todas as tumbadoras da banda, reconstruindo, com a voz e o corpo, os arranjos junto aos músicos): ela vê cada pessoa real em que bate o olho, sua entrega é total. Todos sabem que todo ano ela sai no chão, mascarada. Dá pra ver que é isso que segue com ela até o topo do caminhão do trio. Ivete é grandiosa, diva, estrela e também uma foliã comum o tempo todo. Isso arrebata. Vendo-a na TV, de amarelo pinto ou de azul cobalto, a gente tem certeza de estar diante de uma das maiores personalidade da história da nossa cultura. Toda a economia que ela faz de suas energias, resguardando a privacidade ou evitando racionalizar opiniões é mais do que louvável: depende muito disso o luminoso resultado artístico e social de sua atividade pública.”

“Bolsonaro, vai tomar no…” foi um dos grandes hits do carnaval

Não há dúvida.

“Bolsonaro, vai tomar no…” foi um dos grandes hits do carnaval 2019.

Um grito espontâneo das multidões que brincaram nas ruas.

Houve outros hits, certamente, mas esse se destacou.

É ruim para um presidente eleito há quatro meses com 58 milhões de votos e um governo que tem apenas dois meses. Um presidente que, em tese, ainda deveria estar em lua de mel, como ocorrem nos governos novos.

Em dois meses, houve o vexame em Davos, a trapalhada com a Venezuela, a queda de Bebianno, os excessos dos filhos nas redes sociais, os laranjas do PSL, o episódio do Hino Nacional, a desnomeação ordenada a Moro. É muito para tão pouco tempo.

Em dois meses, não foi assim com Sarney, nem com Fernando Henrique, nem com Lula, nem com Dilma.

A gente olha para Bolsonaro e é natural que enxergue nele um muito provável despreparo para o exercício da presidência. E, junto a isso, uma inapetência para os indispensáveis rituais da liturgia do cargo.

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Parece evidente que o presidente não suportou o “vai tomar no…” que a multidão bradou.

Bolsonaro acusou o golpe na terça-feira de carnaval.

Primeiro, sem citar nomes, usou o Twitter para postar uma marchinha ridícula em resposta ao Proibido o Carnaval de Daniela Mercury e Caetano Veloso. Chamou de “artistas” – assim mesmo, com aspas – artistas que são Artistas – assim mesmo, com letra maiúscula.

Mais tarde, foi além do que se pode esperar de um presidente da República. Postou um vídeo, gravado durante o desfile de um bloco, tentando transformar a exceção em regra.

Obsceno. Escatológico. Pornô. Vi várias classificações. A Folha, em manchete no online, usou obsceno.

Não vou classificar. Prefiro dizer que é absolutamente incompatível com a postura de um presidente.

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Nos Estados Unidos, o deep state funciona muitíssimo bem. É quem controla os excessos de Trump.

No Brasil, sequer há deep state.

Quem, então, vai desarmar o palanque, confiscar o smartphone de Bolsonaro e dizer que ele comece a governar?

Muriçocas começaram a morrer quando se aliaram a jogo político

Vi as Muriçocas do Miramar no nascedouro.

Em fevereiro de 1987, a TV Cabo Branco ainda não tinha dois meses quando, por sugestão do repórter Saulo Moreno, mandei cobrir o desfile de um pequeno bloco que desceria a Epitácio Pessoa em carroças. Era uma turma ligada à professora Vitória Lima, me disse Saulo.

Nos anos seguintes, vi – vimos! – o bloco se transformar num fenômeno extraordinário. Numa manifestação genuinamente popular e absolutamente autêntica, como são outras grandes manifestações do carnaval brasileiro. Sim, o carnaval como êxtase social, talvez dissesse Gilberto Gil.

“João Pessoa sonha com seu verde colorindo o azul do mar…” – não tinha preço ver o trio de Fuba descer a avenida ao som desse frevo lindo que conquistou a cidade e a ela passou a pertencer.

Vi tantas vezes. Como folião no asfalto. Como folião instalado no inesquecível camarote da casa de Dona Creusa Pires. Como chefe de redação a comandar a cobertura da TV Cabo Branco. Era sempre um dia especialíssimo.

Mas vi também os primeiros sinais de decadência. O que é autêntico, espontâneo, logo e inevitavelmente vai virando um negócio. Perde parte da beleza. Sofre contaminações. Começa a cansar o próprio folião, de cuja adesão o bloco depende.

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30 de setembro de 2004. Era uma quarta-feira, a quatro dias da eleição municipal que teria Ricardo Coutinho como vencedor.

À noite, eu estava no restaurante Tábua de Carne, na Ruy Carneiro, jantando com os repórteres Heraldo Pereira e Delis Ortiz, da Rede Globo, que mediariam, no dia seguinte, debates com os candidatos que disputavam as eleições para prefeito de João Pessoa e Campina Grande.

De repente, nossa conversa foi interrompida pelos fogos de artifício que iluminavam o céu do Miramar.

Era um carnaval fora de época. Eram as Muriçocas fora de época. Até o nome fora mudado para Girassoca. O bloco descia a Epitácio Pessoa para dizer que estava apoiando o candidato Ricardo Coutinho.

Eu também votaria nele, mas isso não me impedia de enxergar o erro grosseiro que estava sendo cometido.

Ora, um bloco que pertence a uma cidade não pode se alinhar a uma candidatura. Mesmo que seja – e era! – a melhor entre todas as candidaturas.

Em 2004, foi Ricardo. Em 2010, foi Ricardo com Cássio. E assim por diante.

O político está certo. Está no jogo dele.

O bloco está errado. Está num jogo que não deve ser o de uma agremiação carnavalesca amada pelo povo da cidade onde nasceu e cresceu.

Partidos e políticos representam pedaços. Mesmo que grandes pedaços.

As Muriçocas do Miramar conquistaram muito legitimamente o direito de representar o todo.

O todo é o povo de João Pessoa, que canta (cantava?) com orgulho o hino do bloco e se vê (via?) nos versos escritos por Fuba.

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Agora, às vésperas da quarta-feira de fogo de 2019, o bloco anuncia que não vai mais descer a Epitácio Pessoa.

Vai se concentrar no bairro onde nasceu.

Atingido pela falta de grana e por um formato que já deu o que tinha que dar, tenta uma reinvenção. Uma volta às origens.

Quem quiser que diga o contrário, mas, para mim, e eu já disse isso a Fuba, as Muriçocas do Miramar começaram a morrer quando se aliaram ao jogo político.

De todo modo, ainda torço, sinceramente, por um renascimento.

PROIBIDO O CARNAVAL!

Já está nas plataformas digitais a música de Caetano Veloso e Daniela Mercury para o carnaval 2019.

Proibido o Carnaval é o título.

É uma deliciosa provocação a essa onda ultraconservadora que atinge o Brasil.

Vamos ouvir?

O frevo segundo Antônio Nóbrega

Alguns amigos tropicalistas de Pernambuco detestam.

Claro, por causa do vínculo de Antônio Nóbrega com Ariano Suassuna e o Armorial.

Acho bobagem.

Não custa reconhecer que Nóbrega é um grande artista.

Tocando, cantando, dançando.

Em tudo o que faz.

Como é carnaval, o folião que há em mim ouve frevo pernambucano no sossego do lar.

E é aí que entram dois discos absolutamente antológicos feitos para celebrar o centenário do frevo, uma década atrás.

Nove de Frevereiro e Nove de Frevereiro 2. Não é FEvereiro. É FREvereiro.

Os dois compõem um retrato do frevo tirado por Antônio Nóbrega. Um retrato muito particular. O passado, o presente, os temas instrumentais, os frevos cantados, o popular, o erudito, a alegria esfuziante, a melancolia, o espírito fugaz do carnaval. Está tudo no repertório que Nóbrega nos oferece nesse trabalho primoroso que só um grande artista como ele produziria.

Seguem as capas.

Nove de fevereiro é o Dia do Frevo. Viva o frevo pernambucano!

Hoje é nove de fevereiro.

Dia do Frevo.

Viva o frevo!

O frevo de rua, nascido e criado em Pernambuco, é provavelmente a mais refinada expressão da nossa música carnavalesca. São pequenas peças, às vezes de difícil execução, escritas para orquestras em cuja formação predominam os instrumentos de sopro. Feito para dançar nas ruas e nos salões, o frevo também é muito bom de ouvir. Pela beleza de suas melodias, pela riqueza dos seus arranjos, pelo virtuosismo dos seus executantes, por sua admirável força rítmica. Ainda porque funde a alegria do carnaval com uma indisfarçável melancolia, certamente relacionada ao espírito fugaz da festa e à saudade que ela deixa nos foliões.

Na adolescência, dois discos de frevo me encantaram. Os dois com a orquestra do maestro José Menezes. Um deles se chamava “O Frevo Vivo de Levino Ferreira”. O repertório era todo dedicado a um dos maiores compositores do gênero. A faixa de abertura, “Último Dia”, é um clássico absoluto dos nossos carnavais. “Último Dia” entrará em qualquer lista dos melhores e mais inspirados frevos de todos os tempos. Mais do que isto: acredito que não é possível lembrar de cinco frevos sem que este de Levino Ferreira seja mencionado. Melodia original, orquestração, soluções harmônicas – é tudo perfeito nesta peça que parece anunciar o fim da festa de Momo.

O outro disco era a “Antologia do Frevo” lançada pela velha PolyGram. Não se prendia ao repertório essencial de frevos de rua. Tinha também o frevo de bloco e o frevo canção. E, além da orquestra de Zé Menezes, um coral participara das gravações. O formato de medley foi utilizado para ampliar o número de faixas. Foi naquela antologia que ouvi à exaustão a batida irresistível de “Três da Tarde” e os versos comoventes de “Valores do Passado”. Estes dois discos me ensinaram que a gente pode ouvir frevo o ano todo, independente do período carnavalesco, e que o gênero se sobrepõe à festa como expressão legítima do nosso imenso talento musical.

Quando penso em frevos antológicos, um dos primeiros que me ocorrem é “Relembrando o Norte”. Este sempre me pareceu um frevo que só poderia ter sido composto por um homem que teve o jazz como influência determinante em sua trajetória. E foi. Seu autor é Severino Araújo, o maestro da Orquestra Tabajara. Não era para dançar no salão, mas para ver e ouvir: Severino diante da sua big band executando “Relembrando o Norte”. Os avanços e recuos da melodia, suas soluções pouco convencionais, a alegria esfuziante da última parte – um exemplo irretocável do gênero. E uma das contribuições do maestro Severino à nossa música instrumental.

Outro título digno das antologias é “Duda no Frevo”. Indiretamente, está relacionado a Severino Araújo. O autor da música, Senô, tocava na Orquestra Tabajara, e o maestro foi o primeiro a ver a partitura original. Viu, leu e percebeu que tinha em suas mãos uma peça que logo se transformaria num clássico. No título, a homenagem a um jovem que se tornaria uma lenda, o maestro Duda. No fim da vida, Senô tocou nos Paralamas do Sucesso. No meio dos shows, quando Herbert Vianna apresentava os músicos, ele era citado como autor de “Duda no Frevo”. E acabava tocando um pequeno trecho da melodia que ouvimos todos os anos quando chega o carnaval.