Videoclipe de “Proibido o Carnaval!” é dedicado a Jean Wyllys

Daniela Mercury compôs Proibido o Carnaval! e chamou Caetano Veloso para gravar em dueto com ela.

Primeiro foi divulgado o vídeo com os bastidores da gravação em estúdio.

Agora saiu o videoclipe oficial.

No final, Daniela Mercury dedica o clipe ao amigo Jean Wyllys, que abriu mão do mandato de deputado federal por causa das ameaças que vinha sofrendo.

PROIBIDO O CARNAVAL!

Já está nas plataformas digitais a música de Caetano Veloso e Daniela Mercury para o carnaval 2019.

Proibido o Carnaval é o título.

É uma deliciosa provocação a essa onda ultraconservadora que atinge o Brasil.

Vamos ouvir?

IZA grava Divino, Maravilhoso e confirma atualidade da canção

É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE

NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE

Divino, Maravilhoso.

Essa é uma das canções mais fortes e mais políticas do Tropicalismo.

Composta por Caetano Veloso e Gilberto Gil, foi gravada há 50 anos por Gal Costa.

Também deu nome ao programa de televisão dos tropicalistas.

Na época (e depois), não foi bem entendida por uma parcela da esquerda.

A letra era considerada alienada em relação ao quadro político nacional e à necessidade de enfrentamento do governo militar.

Quase uma década mais tarde, Belchior, em Apenas um Rapaz Latino Americano, ainda contestava o conteúdo dessa canção tropicalista.

O tempo passou (meio século!), e Divino, Maravilhoso continua atual.

Tem, aliás, uma incômoda atualidade nesse Brasil de agora, embora tenha sido composta para dar conta do Brasil de 1968.

Em releitura poderosa, com uma pegada contemporânea, a gravação de IZA (em dueto com Caetano Veloso) vem confirmar a permanência da canção.

Atenção para o refrão!

QUAIS SÃO AS CORES QUE SÃO SUAS CORES DE PREDILEÇÃO?

Para a folha: verde
Para o céu: azul
Para a rosa: rosa
Para o mar: azul

Para a cinza: cinza
Para a areia: ouro
Para a terra: pardo
Para a terra: azul

(Quais são as cores que são suas cores de predileção?)

Para a chuva: prata
Para o sol: laranja
Para o carro: negro
Para a pluma: azul

Para a nuvem: branco
Para a duna: branco
Para a espuma: branco
Para o ar: azul

(Quais são as cores que são suas cores de predileção?)

Para o bicho: verde
Para o bicho: branco
Para o bicho: pardo
Para o homem: azul

Para o homem: negro
Para o homem: rosa
Para o homem: ouro
Para o anjo: azul

(Quais são as cores que são suas cores de predileção?)

Para a folha: rubro
Para a rosa: palha
Para o ocaso: verde
Para o mar: cinzento

Para o fogo: azul
Para o fumo: azul
Para a pedra: azul
Para tudo: azul

(Quais são as cores que são suas cores de predileção?)

(RAI DAS CORES – CAETANO VELOSO)

MENINOS VESTEM ROSA

“Menino veste azul, menina veste rosa” – disse a ministra Damares.

Foi uma das coisas mais absurdas que ouvi em muito tempo.

Não combina com o mundo civilizado. Envergonha o Brasil.

Nas redes sociais, Caetano Veloso se manifestou.

Uma foto que vale por muitas palavras.

 

RETRO2018/Ofertório

Republico texto que escrevi no dia 26 de outubro depois de ver o show Ofertório no teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa:

Há uns 30 anos, Gilberto Gil disse que ele e Chico Buarque eram de centro. Roberto Carlos e Maria Bethânia, de direita. E Caetano Veloso, o mais à esquerda de todos.

As pessoas não gostaram porque entenderam mal, mas Gil falava de estética. Não era de política.

Lembro disso agora vendo o engajamento de Caetano nesse momento de tamanha turbulência e tantos riscos que o Brasil atravessa.

Não é mais estética. É política mesmo. Ele é o mais à esquerda porque é o mais incisivo, o mais corajoso, o mais destemido. E essa coragem, esse destemor, Caetano vai buscar na sua liberdade. Uma liberdade notável que permitiu a esse grande artista brasileiro estar sempre à esquerda sem que seu pensamento estivesse preso à macrovisão da esquerda.

Nesta quinta-feira (25/10), em João Pessoa, vi pela terceira vez Ofertório, o show de Caetano com os filhos Moreno, Zeca e Tom.

Foi muito forte ver Caetano de perto a três dias de uma eleição presidencial que pode nos jogar na escuridão.

O “ame-o e deixe-o livre para amar”, da letra da canção de Gil que aparece logo no início do show, é o oposto do “ame-o ou deixe-o” dos tempos de Médici. Muita gente nem percebia, mas como era significativo na época dos Doces Bárbaros, meados dos anos 1970. Volta a ficar agora, em oposição ao discurso insano do candidato Bolsonaro, dirigido aos que estavam domingo na Avenida Paulista. Discurso de exclusão, de ameaça aos diferentes, de gravíssimos e insidiosos ataques à democracia.

O “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome” arranca o aplauso da plateia e faz Caetano chorar no palco, de tão atual que é, de tão permanente que continua sendo.

E tem o “quem cultiva a semente do amor/segue em frente e não se apavora/se na vida encontrar dissabor/vai saber esperar a sua hora”, esse samba bonito do grupo Revelação, que surge no final do show. Agora, dizendo muito mais do que dizia quando vi o show pela primeira vez, em janeiro.

Há um árduo trabalho a ser desenvolvido a partir de segunda-feira. Trabalho de muitos.

No artigo que escreveu para o New York Times, Caetano já disse que fará a parte dele. Vê-lo no palco, em instantes de imensa beleza ao lado dos filhos, é especialmente forte nesses dias que antecedem a eleição presidencial. Provoca júbilo por todo o amor reunido no encontro de família. E também nos toca muito profundamente quando faz pensar que, lá fora, há grandes ameaças às belezas do Brasil.

Caetano e Gil foram presos há 50 anos. País vivia sob força do AI-5

Nesta quinta-feira (27/12), faz 50 anos que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos pela ditadura militar.

Não havia acusação formal contra eles.

A prisão, por homens da Polícia Federal, ocorreu ao amanhecer, em São Paulo.

Os dois artistas foram levados para o Rio de Janeiro e entregues ao Exército.

Fazia duas semanas que o governo editara o AI-5 e endurecera o jogo.

Era o golpe dentro do golpe.

É preciso estar atento e forte

Não temos tempo de temer a morte

Caetano Veloso e Gilberto Gil conquistaram dimensão nacional um ano antes no festival em que lançaram Alegria, Alegria (Caetano) e Domingo no Parque (Gil). As duas músicas levaram as guitarras elétricas da Jovem Guarda para a MPB e iniciaram o movimento tropicalista.

1968 foi o ano do Tropicalismo. O disco-manifesto do movimento reuniu Caetano e Gil + Gal Costa, Os Mutantes, Tom Zé, Nara Leão, Torquato Neto e Capinam. Todos sob a batuta do maestro Rogério Duprat. Os Beatles tinham George Martin, os tropicalistas tinham Duprat.

O Tropicalismo propunha a retomada da linha evolutiva da música popular brasileira. É uma boa definição.

Outra: o Tropicalismo juntava a Pipoca Moderna da Banda de Pífanos de Caruaru com a Strawberry Fields Forever dos Beatles.

Na MPB, havia a esquerda resguardada pós-Bossa Nova e, em 1968, passou a haver o conjunto de transgressões estéticas e de comportamento do Tropicalismo.

Os tropicalistas eram muito mais ousados. Mais subversivos – se quisermos usar a palavra da época.

Então é esta a juventude que diz que quer tomar o poder? – perguntou Caetano, entre a fúria e a lucidez, no discurso de É Proibido Proibir.

Caetano confessa que não tinha medo. Gil tinha.

No tempo meteórico do movimento tropicalista, Caetano foi movido por um grande destemor. Gil, não.

Quando foram presos, Caetano viveu todos os medos.

Gil conseguiu um violão e compôs, na cadeia, músicas que seriam gravadas no seu LP de 1969. Chegou a fazer um show para a tropa do quartel para onde fora levado.

Presos em dezembro de 1968, soltos em fevereiro de 1969, os dois ficaram confinados em Salvador até julho daquele ano. Fizeram um show de despedida no Teatro Castro Alves e partiram para o exílio. London, London – onde viveram por mais de dois anos.

No livro de memórias Verdade Tropical, há um capítulo no qual Caetano Veloso fala do período em que esteve preso. Narciso em férias é o nome do capítulo. Ele tem vida própria. Parece um livro com começo, meio e fim. É um texto impressionante, além de muitíssimo bem escrito. Devia ser lido pelos jovens de hoje. Serve também de argumento contra os que andam dizendo que não houve ditadura militar no Brasil.

*****

Em 1992, no show Circuladô, Caetano Veloso revelou que Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos foi feita para ele, depois que recebeu a visita de Roberto Carlos no exílio londrino.

No show, antes de cantar a música, Caetano falava do quanto o entristecia a consciência de que a ditadura vinha de regiões profundas do ser do Brasil. Ao mesmo tempo, dizia que, de regiões não menos profundas, vozes asseguravam que aquilo não era tudo.

Se trouxermos para hoje a leitura ontológica que Caetano fez da ditadura militar, por certo, cabe a pergunta: até que ponto a eleição de Jair Bolsonaro não vem também de regiões profundas do ser do Brasil?

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Na semana passada, Roberto Carlos cantou Como Dois e Dois em seu especial natalino. Em seguida, na Folha de S. Paulo, Caetano escreveu que a canção composta no exílio para o Rei gravar continua tão violentamente atual.

Há três anos, perguntei a Caetano sobre como ele via o Tropicalismo de longe, e ele respondeu:

Para mim, a luta continua sempre. É uma luta contra o mundo, contra nós mesmos, contra o medo de tentar a grandeza. 

Fiz a mesma pergunta a Gil, de quem ouvi a seguinte resposta:

Se o Tropicalismo continha, em seu tempo jovem, um significado de luta, como diz Caetano, para mim também, em quem o Tropicalismo ainda não passou, a luta continua!

Naquele 27 de dezembro de 50 anos atrás, ao prender Caetano Veloso e Gilberto Gil, a ditadura parecia ter posto fim ao Tropicalismo do modo com que o movimento fora colocado ao longo de 1968. Mas – resistência!, resistência! – os tropicalistas ainda estão aí, ajudando a organizar o movimento.

BOAS FESTAS!

Boas Festas é a mais tradicional de todas as canções natalinas compostas no Brasil.

O autor, Assis Valente, estava sozinho num quarto de pensão, numa noite de Natal, quando escreveu a música.

Era um homem triste que acabou se matando.

A letra remete à tristeza do autor, mas a canção fez sucesso, e muita gente canta Boas Festas no Natal sem se dar conta do desencanto que há nos seus versos.

Aqui, Boas Festas com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

A LUTA CONTINUA!

Em 2015, Caetano Veloso e Gilberto Gil saíram juntos em turnê.

Quando o show passou pelo Recife, entrevistei os dois para a edição impressa do Jornal da Paraíba.

O título da matéria era A luta continua.

Hoje, reproduzo aqui duas falas de Caetano.

Em Verdade Tropical, você menciona o país utópico trans-histórico que temos o dever de construir e que vive em nós. Lembro como mote para uma reflexão de hoje sobre os impasses brasileiros. Mas não sobre o impasse brasileiro de hoje.

Numa passagem sobre Jorge Ben, não é? Os impasses brasileiros de sempre estão na superfície hoje, sem que isso indique que estamos mais perto de solucioná-los. Sinto agora, como em alguns outros momentos ao longo das décadas, que persistiremos no atraso. O país utópico trans-histórico parece apagado dentro de nós. Em mim, nunca de todo.

“Quando grito, cada vez que se arma uma celebração retrospectiva do Tropicalismo, ‘a luta continua’, é isso que estou querendo dizer”. É frase sua num artigo publicado na Folha. A luta continua? Como é que você vê o Tropicalismo de longe?

Ali eu estava respondendo a um autor que tinha acusado o Tropicalismo de pecados que ele não cometera. Para mim, a luta continua sempre. É uma luta contra o mundo, contra nós mesmos, contra o medo de tentar a grandeza. Quando canto Tropicália e Gil canta Marginália II, reaprendo a canção que deu nome ao movimento, observo sua estranha atualidade. O pessimismo da letra de Marginália II produz expressões de interrogação no rosto de espectadores, interrogação sobre o presente, sobre o tempo que vai do Tropicalismo a nossos dias. “Em suas veias corre muito pouco sangue”, “E no joelho uma criança sorridente, feia e morta estende a mão”, “Aqui é o fim do mundo”, “Aqui o Terceiro Mundo pede a bênção e vai dormir” são frases que contam o Brasil de 1967 e fazem pensar sobre como agora parece que a realidade mal roça a possibilidade de superá-las.

Eu queria que Caetano Veloso me recebesse de cueca!

Acho que faz uns três anos.

No camarim, se não me engano em Montreux, Caetano Veloso recebeu de cueca o casal Xandy e Carla Perez.

Eu estava na redação do Jornal da Paraíba quando vi a foto pela primeira vez.

Em seguida, ouvi comentários preconceituosos e depreciativos.

Adorei a foto e respondi assim aos comentários:

São amigos queridos de Caetano.

Na semana passada, no Rio, depois de mais uma apresentação do show Ofertório, Caetano recebeu de cueca o ator João Vicente de Castro, protagonista da novela das seis da Globo.

A foto, postada por Paula Lavigne, bombou nas redes sociais.

“Caetano recebe galã global de cueca”, etc.

João Vicente é filho do jornalista Tarso de Castro e, quando o pai morreu, ele, ainda garoto, morou com Caetano e Paula durante um ano.

Caetano é padrinho de João Vicente.

João Vicente é quase como um filho.

Conheço Caetano há muitos anos.

Ele já me recebeu incontáveis vezes em camarins e quartos de hotel.

Uma vez, estava de pijama e com cara de quem acordara há pouco.

Mas vou dizer: eu queria mesmo era que Caetano Veloso me recebesse de cueca!

Esse gesto dele fala muito fundo sobre amizade e confiança.