Caetano Veloso (por ele mesmo) e seus discos

Nos 75 anos de Caetano Veloso, comemorados nesta segunda-feira (07), escolhi 15 dos muitos discos que ele gravou a partir de 1967. E é o próprio Caetano quem os comenta.

 

Caetano Veloso (1967) – “Meu primeiro disco tropicalista. O Tropicalismo queria fazer misturas. Queríamos, sim, ouvir e curtir Roberto Carlos. Tínhamos acabado de descobrir os Beatles. Esse disco contou com a participação do grupo Os Beat Boys, formado por músicos argentinos que tocaram comigo no festival da canção, em Alegria, Alegria. A canção Tropicália teve arranjos de Júlio Medaglia.”

 

Tropicália ou Panis et Circensis (1968) – “Com arranjos divinos de Rogério Duprat, veio logo depois, tanto do meu disco individual quanto do disco individual do Gil, que são os discos inaugurais do Tropicalismo. Quando fizemos Tropicália, que é um disco meio manifesto e coletivo, estávamos cientes de toda essa efervescência política pós AI-5. É um filme meu esse disco.”

 

Caetano Veloso (1969) – “Esse disco foi feito quando eu já estava preso. Não estava mais na cadeia, mas confinado em Salvador, praticamente preso na cidade, porque dela não podia sair. Boa parte das canções, inclusive Irene, foi composta na prisão. Fiz o disco sozinho, com o Gil tocando violão. Mandamos a fita para São Paulo, e o Rogério Duprat completou o trabalho. Quando esse LP saiu, eu já estava em Londres.”

 

Caetano Veloso (1971) – “Primeiro disco que fiz em Londres. Tem coisas muito interessantes, como a gravação de Asa Branca. Tem London, London, tem a faixa Maria Bethânia, que também acho muito bonita, com arranjos lindos, onde faço improvisações acompanhado por um quarteto de cordas excelente, sugerido pelo produtor e que havia participado das gravações do disco Eleanor Rigby, dos Beatles.”

 

Transa (1972) – “A banda que tocou comigo definia muito a força do disco. Foi gravado em pouco tempo, produzido pelo Morris Hills. Ensaiamos, entramos em estúdio e fomos gravando, com muita espontaneidade. Ensaiamos tanto para as gravações que, quando o disco ficou pronto, o show estava pronto também. As matrizes foram enviadas para a gravadora aqui, que o lançou. Esse disco marca a minha volta ao Brasil.”

 

Caetano e Chico Juntos e ao Vivo (1972) – “Não posso esquecer: foi feito no dia em que Torquato Neto se suicidou, dia do aniversário dele. Eu e Chico estávamos ensaiando quando chegou a notícia do suicídio. O disco traz cortes feitos pela censura como no verso ‘na barriga da miséria/nasci brasileiro’, que o ‘brasileiro’ foi cortado. Depois Chico colocou ‘batuqueiro’ no lugar. O show fez muito sucesso. E o disco também.”

 

Araçá Azul (1973) – “Foi uma retomada dos pensamentos que vinham à minha cabeça antes de ser preso, que de uma certa maneira me aproximavam da poesia concreta, do experimentalismo, das letras de poucas palavras. Eu disse: vou fazer um disco ostensivamente experimental. E assim o fiz. Fiquei uma semana no estúdio Eldorado, em São Paulo. Não compus nenhuma canção antes de entrar em estúdio.”

 

Joia/Qualquer Coisa (1975) – “Gravei como quem grava um disco duplo, mas sentindo que, fazendo uma separação de repertório, daria dois discos. Sendo o Joia um disco de sons mais limpos, espécie de versão mais serenizada dos desejos experimentais, também com canções mais curtas; Qualquer Coisa ficou sendo um disco com canções mais variadas, músicas dos Beatles, canções pop. Qualquer Coisa resultou mais comercial do que Joia.”

 

Bicho (1977) – “Esse disco, cuja capa foi feita por mim, tem ecos do Joia. Lança a canção Odara, que deu muito o que falar, que talvez já trouxesse uma batida funk e que afirmava todo esse negócio da música de dança e de divertimento. Foi muito criticada, muito combatida como uma espécie de manifesto da alienação. Nessa época, havia uma espécie de raiva de mim pelo fato de eu não ser ‘de esquerda’.”

 

Muito (1978) – “Meu disco mais pichado e o que menos vendeu. No entanto, é o disco que tem as canções Terra e Sampa, que foram tão tocadas e cantadas em todo canto. Li várias críticas dizendo que era péssimo, abaixo da crítica, que o Caetano já era. Muito foi gravado com A Outra Banda da Terra.”

 

Outras Palavras (1981) – “Gosto muito do disco Outras Palavras, que tem tantas músicas bacanas, a canção Outras Palavras entre elas. Era uma gíria que a Mônica Millet, do Gantois, amiga nossa, dizia muito. Maria Bethânia também dizia muito. É como se você dissesse outros quinhentos, mas de outra maneira. Como se você dissesse: agora são outras palavras, o negócio é outro.”

 

Velô (1984) – “Esse disco traz a canção Podres Poderes, cuja letra tem muito a ver com temas ligados ao desejo de que as minhas ações tenham uma função poético-política. Nenhuma ditadura presta. E minhas canções políticas, Podres Poderes entre elas, foram feitas por um homem que jamais perdeu essa perspectiva. Que não está interessado em esconder o sol com uma peneira.”

 

Estrangeiro (1989) – “Esse disco foi feito em Nova York. O Arto Lindsay queria muito produzir um disco meu. Arto conhecia bem a minha música porque tinha vivido muito tempo no Brasil e adora o trabalho dos tropicalistas. Ele queria que aqueles procedimentos tropicalistas fossem conhecidos e reconhecidos internacionalmente. Esse disco contou também com a presença luxuosa de Peter Sherer, que é um grande músico eletrônico.”

 

Circuladô (1991) – “Fiz esse disco também com o Arto Lindsay, e o fiz bem do jeito que eu queria. Adoro. Tem Fora da Ordem, que é curiosa. A canção título, Circuladô de Fulô, é linda. Também adoro Itapuã, que meu filho Moreno canta comigo e é uma canção que fiz para a mãe dele, a Dedé. Tem O Cu do Mundo, letra que foi muito comentada.”

 

(depoimentos a Charles Gavin e Luís Pimentel)

Caetano, aos 75, ainda é o artista mais inquieto da sua geração

Caetano Veloso faz 75 anos nesta segunda-feira (07).

Na música popular brasileira, é o artista mais inquieto da geração que conquistou dimensão nacional na era dos festivais da canção, na segunda metade da década de 1960.

Ele não tem o talento musical de Gilberto Gil, a quem já admirava antes mesmo que se conhecessem. Nem a voz de Milton Nascimento, com os falsetes que considera os mais bonitos do mundo. Também não é um popular clássico como Chico Buarque, em cujas canções identifica uma sabedoria que as suas desconhecem.

Mas nenhum desses ousou tanto, provocou tantas rupturas, exerceu tantas influências. Nenhum esteve tão esteticamente à esquerda. Mais do que qualquer um dos seus contemporâneos, ele entrou em todas as estruturas e saiu ileso. Arrojado, transgressor, desafiador, complexo, brilhante!

Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso nasceu em sete de agosto de 1942 em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. O gosto pelo canto, deve à mãe, Dona Canô, e à irmã mais velha, Nicinha. Aos quatro anos, sugeriu que a irmã se chamasse Maria Bethânia por causa da música de Capiba que fez sucesso na voz de Nelson Gonçalves. Na infância, ouviu os baiões fundadores de Luiz Gonzaga. Aos 17, uma descoberta mudou sua vida: João Gilberto cantando Chega de Saudade. Se tivesse que escolher a música que mais o influenciou, escolheria esta de Tom Jobim e Vinícius de Moraes. Daquele modo: com a voz e o violão de João Gilberto. O ano, 1959. O mesmo em que Jean-Luc Godard realizou Acossado. Godard, o primeiro filtro pop de Caetano, que foi crítico de cinema na juventude e quis ser cineasta.

O grupo baiano, formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia, começou a atuar em Salvador. Em meados dos anos 1960, Caetano foi para o Rio, acompanhando a irmã. Bethânia substituiria Nara Leão no Opinião. A estreia em disco seria em 1967 no LP Domingo (com Gal), mas o reconhecimento nacional viria um pouco depois, também em 1967. Alegria, Alegria, quarto lugar no festival da Record, o projetou e, junto com Domingo no Parque (de Gil), iniciou o Tropicalismo, movimento que propunha a retomada da linha evolutiva da música popular brasileira. Era um momento de ruptura, com a introdução das guitarras elétricas na chamada MPB, num Brasil convulsionado pelas lutas ideológicas. Os militares governavam o país, e a sociedade civil começava a resistir. O endurecimento do regime se daria no final do ano seguinte.

Em 1968, ano do manifesto tropicalista, Caetano Veloso faria um discurso a um só tempo lúcido e enfurecido, durante o festival em que apresentou a música É Proibido Proibir, o título retirado do slogan usado pelos estudantes que puseram a França de cabeça para baixo. Em sua fala, o compositor batia na esquerda, que não assimilara a virada proposta pelo Tropicalismo, e na direita, que espancara os atores de Roda Viva.

Duas frases falavam do Brasil de muitos anos na frente: “se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos” e “então é esta a juventude que diz que quer tomar o poder?”.

O ano terminou com a prisão dele e de Gil pelos militares que promoveram o que Leonel Brizola chamava de o golpe dentro do golpe. Prisão seguida do confinamento em Salvador e do exílio de três anos em Londres.

Na Inglaterra, Caetano gravou dois discos. O segundo (Transa) é um dos pontos altos da sua discografia. Na volta ao Brasil, dividiu o palco com Chico Buarque, um encontro que a plateia dos festivais consideraria improvável. O sucesso do LP com o registro do show permitiu a ousadia do seu passo seguinte: um disco radicalmente experimental, o Araçá Azul, campeão de devolução nas lojas. Mais tarde, já na segunda metade da década de 1970, seria alvo fácil das chamadas patrulhas ideológicas. Por sua postura crítica em relação ao sectarismo da esquerda e pelas canções que vamos ouvir nos discos Bicho e Muito. De todo modo, são deste período canções como Terra e Sampa, que resistiram ao tempo e figuram entre as mais marcantes do seu repertório.

No início da década de 1980, na letra de uma canção, mencionava os operários do ABC que prometiam mudar o sindicalismo e a política brasileira. Quando a redemocratização se aproximava, defendia a volta de Miguel Arraes ao poder. E, enquanto seu contemporâneo Chico Buarque cantava Vai Passar, ele falava dos Podres Poderes. “E quem vai equacionar as pressões do PT, da UDR e fazer dessa vergonha uma nação?” – perguntava no Brasil dos tempos de Sarney. Não demoraria a defender a tese de que o país se afirmaria internacionalmente por suas diferenças.

Musicalmente, o Caetano dos anos 1980 flertou com a vanguarda que surgia em São Paulo, passou pelos teclados de Lincoln Olivetti, se aproximou do novo rock brasileiro e da música eletrônica que encontrou em Nova York.

(A foto é dos 50 anos de Caetano. Germana Bronzeado registrou o momento em que Chico Pereira e eu conversávamos com ele sobre o Tropicalismo no backstage do show Circuladô.)

Quando completou 50 anos, em 1992, já não precisava provar mais nada. Era um dos grandes artistas da sua geração. Mas permanecia marcado pela inquietação que o acompanhava desde cedo. Neste sentido, seguia o caminho oposto aos demais. No lugar de se dedicar mais a uma espécie de manutenção da carreira, continuava buscando o novo, a provocação, a ousadia.

Foi assim em Livro, que fundia a percussão da música baiana com a sonoridade dos arranjos que o maestro Gil Evans escrevera para Miles Davis, gênio consumado do jazz. O disco saiu na mesma época de Verdade Tropical, denso volume de memórias em que Caetano, como num romance de formação, se debruça sobre a infância, a juventude, o Tropicalismo, a prisão e o exílio. Em Noites do Norte, trouxe a prosa de Joaquim Nabuco para sua música. E, a partir de , por quase uma década fez rock com um power trio.

Caetano Veloso é um artista que orgulha sua geração e seus ouvintes. Um compositor de música popular no nível dos melhores do mundo, um letrista excepcional.

Tem muitos outros méritos:

Como intérprete do que compôs e do que gravou de inúmeros autores, brasileiros ou não.

Como artista que chamou atenção para o papel da canção popular na construção da nossa identidade.

Como cidadão que pensa o Brasil com espantosa lucidez, a despeito do que dizem seus críticos.

Caetano é diferente e original. Do mesmo modo que são diferentes e originais os caminhos que enxerga para o Brasil em seu destino como Nação.

Caetano Veloso diz que, onde quer que vá e como quer que lá chegue, levará consigo sua versão muito complexa da música popular brasileira – manifestação riquíssima que nunca mais foi a mesma desde que ele apareceu naquele festival de 1967, cantando uma marchinha que anunciava o novo em seus versos e nas guitarras que a acompanhavam.

75 músicas para festejar os 75 anos de Caetano Veloso

Caetano Veloso faz 75 anos nesta segunda-feira (07).

Vamos comemorar ouvindo 75 músicas dele neste domingo?

Não é um ótimo programa?

Eu fiz a minha lista.

Digamos que é um retrato de Caetano tirado por mim através das suas canções.

CORAÇÃO VAGABUNDO

AVARANDADO

DE MANHÃ

TROPICÁLIA

CLARICE

ALEGRIA, ALEGRIA

SUPERBACANA

PAISAGEM ÚTIL

PANIS ET CIRCENSIS

BABY

ENQUANTO SEU LOBO NÃO VEM

MAMÃE CORAGEM

SAUDOSISMO

DIVINO, MARAVILHOSO

É PROIBIDO PROIBIR

IRENE

MARINHEIRO SÓ

ATRÁS DO TRIO ELÉTRICO

OS ARGONAUTADS

NÃO IDENTIFICADO

LONDON, LONDON

MARIA BETHÂNIA

YOU DON’T KNOW ME

NINE OUT OF TEN

TRISTE BAHIA

IT’S A LONG WAY

COMO DOIS E DOIS

CHUVA, SUOR E CERVEJA

DE NOITE NA CAMA

VOCÊ NÃO ENTENDE NADA

ESSE CARA

ARAÇÁ AZUL

DA MAIOR IMPORTÂNCIA

LUA, LUA, LUA, LUA,

QUAL QUER COISA

UM ÍNDIO

ODARA

GENTE

TIGRESA

O LEÃOZINHO

TERRA

SAMPA

MUITO ROMÂNTICO

LUA DE SÃO JORGE

ORAÇÃO AO TEMPO

BELEZA PURA

MENINO DO RIO

TRILHOS URBANOS

CAJUÍNA

FORÇA ESTRANHA

MÃE

OUTRAS PALAVRAS

NU COM A MINHA MÚSICA

RAPTE-ME, CAMALEOA

QUEIXA

ECLIPSE OCULTO

PETER GAST

VOCÊ É LINDA

PODRES PODERES

O HOMEM VELHO

O QUERERES

LÍNGUA

VACA PROFANA

EU SOU NEGUINHA

O CIÚME

O ESTRANGEIRO

OS OUTROS ROMÂNTICOS

FORA DA ORDEM

HAITI

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA

OS PASSISTAS

LIVROS

ZERA A REZA

ODEIO VOCÊ

ABRAÇAÇO

Caetano nu com a sua poesia

Caetano Veloso faz 75 anos na próxima segunda-feira (07).

Vem na estrada há mais de 50.

É um (grande) artista brasileiro!

Na canção popular, o Brasil é um país de letristas extraordinários. No nível dos melhores do mundo. Caetano é um deles.

Hoje, vou me debruçar um pouco sobre os seus versos. Mexendo na memória e postando alguns que me são caríssimos.

Eu organizo o movimento

Eu oriento o carnaval

Eu inauguro o monumento no planalto central

Do país

 

Minha paixão há de brilhar na noite

No céu de uma cidade do interior

Como um objeto não identificado

 

Eu, você, depois

Quarta-feira de cinzas no país

E as notas dissonantes se integraram

Ao som dos imbecis

 

Tudo o que eu quero é um acorde perfeito maior

Com todo mundo podendo brilhar num cântico

Canto somente o que não pode mais se calar

Noutras palavras, sou muito romântico

 

Vejo uma trilha clara pro meu Brasil, apesar da dor

Vertigem visionária que não carece de seguidor

Nu com a minha música, afora isso somente amor

Vislumbro certas coisas de onde estou

 

O samba é pai do prazer

O samba é filho da dor

O grande poder transformador

 

Gente é pra brilhar

Não pra morrer de fome

 

Você é linda

E sabe viver

Você é linda, sim

Essa canção é só pra dizer

E diz

 

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio

 

O Brasil tem ouvido musical

Que não é normal

 

Será que nunca faremos senão confirmar

A incompetência da América católica

Que sempre precisará de ridículos tiranos?

 

Aqui tudo parece que é ainda construção é já é ruína

Tudo é menino e menina no olho da rua

O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua

Nada continua

 

A mais triste nação

Na época mais podre

Compõe-se de possíveis

Grupos de linchadores

 

Americanos não são americanos

São os velhos homens humanos

Chegando, passando, atravessando

São tipicamente americanos

 

Terra, Terra

Por mais distante o errante navegante

Quem jamais te esqueceria?

 

E deixa os Portugais morrerem à míngua

Minha pátria é minha língua

Fala Mangueira! Fala!

 

Mas eu também sei ser careta

De perto ninguém é normal

Às vezes segue em linha reta

A vida que é meu bem, meu mal

Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.

Quereres de Caetano Veloso: Brasil sem Temer e com Lava Jato

Caetano Veloso sempre falou sobre política.

A direita nunca gostou dele. Tanto que o prendeu e exilou.

Um pedaço da esquerda também não gosta. Mas o quer por perto quando julga necessário.

Esteticamente, Caetano sempre esteve à esquerda da esquerda. Politicamente, também. Sonhando com o país utópico trans-histórico que temos o dever de construir.

Ilustro com algo que ouvi dele há um ano e meio:

“Os impasses brasileiros de sempre estão na superfície hoje, sem que isso indique que estamos mais perto de solucioná-los. Sinto agora, como em alguns outros momentos ao longo das décadas, que persistiremos no atraso. O país utópico trans-histórico parece apagado dentro de nós. Em mim, nunca de todo”.

O motivo desse post de hoje (15) é a entrevista que Caetano deu ao Tenho Mais Discos Que Amigos.

Foi feita a propósito da regravação de O Quereres para a abertura da novela das nove da Globo. Na conversa, quando é chamado a sair da música para a política, o artista também fala de quereres:

“A hora é das gerações mais novas, claro. O que não quer dizer que eu deva me calar. A cada dia se tem uma sensação diferente do que vai acontecer. Fernando Henrique ainda não sabe (hoje, 5 de junho de 2017) se faz tudo pra Temer ficar ou não. Eu não quero. Quero que haja paz suficiente para elegermos um presidente democraticamente em 2018. Sem Temer. Com Lava Jato e sem foro privilegiado. Mas essa turma que derrubou Dilma (de quem, politicamente, não tenho saudade nenhuma) quer emperrar o caminho do Brasil. Botaram aquele de cabeça raspada no Supremo e ele já embarreirou o lance do foro. Quero outra coisa”. 

Caetano é um homem de esquerda sem necessariamente estar alinhado à macrovisão da esquerda.

Admiro a liberdade que há no seu pensamento, nas suas escolhas políticas e na capacidade que tem de revê-las (votou em Dilma e politicamente não tem saudade dela). Tantas vezes guiado pela solidão dos poetas.

Caetano Veloso tem uma música chamada A Bossa Nova É Foda.

Ele é que é!

Caetano Veloso, a amizade e o comunismo de Vladimir Carvalho

Caetano Veloso.

Vladimir Carvalho.

Comunismo.

Aproveito a presença de Vladimir em João Pessoa para contar a história de uma amizade iniciada 55 anos atrás.

Muitos talvez não a conheçam.

1962. Aos 27 anos, Vladimir Carvalho largou tudo na Paraíba (o cinema que começava a realizar, a crítica de cinema que fazia) e se mandou para a Bahia.

Foi cursar Filosofia em Salvador. A Universidade da Bahia ainda tinha as marcas do grande reitorado de Edgar Santos.

Na sala de aula, conheceu um rapaz franzino que tinha 20 anos e estava dividido entre o cinema e a música. Publicava críticas nos jornais, queria ser cineasta ou compositor popular.

Vira em Godard seu primeiro filtro pop, e João Gilberto mudara a sua cabeça.

Vinha de Santo Amaro, no Recôncavo. Chamava-se Caetano Veloso.

O pai lhe ensinou que pior do que um comunista era um anticomunista.

Vladimir era comunista, mas convidava os colegas para os shows de rock de um garoto chamado Raulzito. Mais tarde, misturava Lênin com Roberto Carlos quando falava da Jovem Guarda.

A amizade entre os dois nasceu guiada pelo amor ao cinema. E atravessou o tempo, apesar das distâncias.

Vladimir sempre se refere a Caetano de maneira muito afetuosa quando conta histórias da sua passagem pela Bahia no início dos anos 1960:

Me lembro que ainda nos bancos da universidade ele recitava de memória todo o texto do Hiroshima, Mon Amour, sorvendo com prazer as palavras. 

Uma lembrança de Caetano:

Eu o adoro. Eu o adorava na faculdade e continuei adorando na memória e nos raros encontros posteriores. 

Vladimir nunca se afastou da militância comunista.

Caetano, que compôs uma canção corajosa sobre Marighella, sempre esteve à esquerda da esquerda.

Nos 70 anos de Vladimir, Caetano prestou uma bela homenagem ao amigo documentarista.

Transcrevo:

Vladimir Carvalho é um amigo que eu via muito no tempo da universidade e vejo pouco hoje em dia. No entanto, quando penso nele penso num amigo constante. Há pessoas que parecem engrandecer-se por aderirem à luta pela justiça social. Vladimir é o tipo do sujeito que engrandece esses ideais, com sua adesão. E isso pode-se sentir em sua convivência, em sua conversa e em seus filmes. 

Belchior foi injusto ao chamar Caetano de antigo compositor

Alucinação, o LP que projetou Belchior nacionalmente em 1976, é um dos grandes discos da música brasileira.

Lá estão, na voz do autor, Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, A Palo Seco, Apenas um Rapaz Latino-americano. Canções que atravessaram o tempo.

É um daqueles discos que ouvimos do início ao fim porque todas as faixas são muito boas.

Gosto imensamente do disco. Gosto muito de Belchior. Mas sempre, desde que Alucinação foi lançado, acho que a referência aos tropicalistas não é justa.

A crítica de Belchior aos tropicalistas está na letra de Apenas um Rapaz Latino-americano. O “antigo compositor baiano” que ele ouviu no rádio é Caetano Veloso.

A canção que ele menciona é Divino, Maravilhoso (música de Gil, letra de Caetano). Música fortemente engajada do ano de 1968. Tem o verso poderosíssimo que atravessa o tempo tanto quanto as canções de Belchior:

É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE/NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE

Belchior faz a crítica ao Tropicalismo, mas foi este que abriu as portas por onde passaram os compositores brasileiros projetados ali no anos 1970. Como o próprio Belchior. Em 1976, Caetano Veloso, de antigo compositor, não tinha absolutamente nada.

Toco nesse assunto porque ainda encontro ouvintes que não sabem a quem Belchior se refere na letra da canção.

Mas tenho a convicção de que, ainda que injusta, a crítica aos tropicalistas nunca maculou seu trabalho.

Afinal, Belchior é o cara que fez Como Nossos Pais, Paralelas, Comentário a Respeito de John, Tudo Outra Vez.

A reação à morte do artista confirma a permanência das suas canções. E, sobretudo, a beleza e a força dos seus versos.

Quando o cover é melhor do que o original?

Vi em algum lugar. Como um desafio. Quando o cover consegue ser melhor do que o original?

Muitas vezes! Depende de tantos fatores. Entre eles, a força do intérprete.

Quem ouve jazz não tem problemas com releituras. O jazz faz isso o tempo todo e abre caminho para que a gente goste em qualquer gênero.

Cover melhor do que o original?

O primeiro que me ocorre é With a Little Help From My Friends, dos Beatles, com Joe Cocker, na versão de Woodstock. É um negócio devastador!

Fico somente com mais um exemplo. Esse, vi ao vivo. Caetano Veloso cantando Jokerman, de Bob Dylan. A canção de Dylan ganha uma poderosa batida de samba, o violoncelo de Morelenbaum e, claro, a beleza da voz de Caetano.

Arte de Chico está acima de partidos, da esquerda, da direita!

Conheço pessoas que passaram a ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Conheço pessoas que deixaram de ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Acho parecidas as duas posturas.

São reducionistas.

Circunscrevem o grande artista e sua arte à intolerância do atual debate político e ideológico travado no Brasil.

Estou tocando no assunto por causa de uma postagem de Chico cantando Tanto Mar que fiz, no 25 de abril, a propósito do aniversário da Revolução dos Cravos. Recebi mensagens muito reveladoras, tanto de amor quanto de ódio.

Tento respondê-las nesse texto.

Começo com o óbvio. Chico Buarque é um artista extraordinário. Um dos maiores da nossa canção popular em qualquer tempo.

Sempre foi um homem de esquerda. Isso é absolutamente legítimo. A rigor, nem engrandece nem diminui sua arte. O que o fez (faz!) um gigante da música produzida pelos brasileiros foi (é!) o absoluto domínio que tem do artesanato da canção. Música e letra, uma nascida para a outra, uma indissociável da outra. Como um segredo que não se revela. Como um mistério que não se desvenda. Só se contempla. Só se admira.

Chico é assim. Muitas, infinitas belezas reunidas num cancioneiro. Quando fala do individual, quando se debruça sobre o coletivo. Desde a juventude, tempo dos clássicos instantâneos. Até a maturidade (agora, a velhice), de canções mais refinadas, de assimilação mais lenta e difícil.

Não é justo que a sua música só seja ouvida por causa de uma circunstância política. Ou que, na outra ponta, por isso seja execrada. Os atuais impasses serão superados, substituídos por outros, mas arte como a de Chico atravessa o tempo. Tem permanência.

Encanta, fascina, alegra, entristece, humaniza.

Fecho, então, com o Caetano de Festa Imodesta, um samba que Chico gravou:

E acima da razão a rima

E acima da rima a nota da canção

Bemol, natural, sustenida no ar

Viva aquele que se presta a esta ocupação

Salve o compositor popular!