Arte de Chico está acima de partidos, da esquerda, da direita!

Conheço pessoas que passaram a ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Conheço pessoas que deixaram de ouvir Chico Buarque só por causa do apoio dele ao PT.

Acho parecidas as duas posturas.

São reducionistas.

Circunscrevem o grande artista e sua arte à intolerância do atual debate político e ideológico travado no Brasil.

Estou tocando no assunto por causa de uma postagem de Chico cantando Tanto Mar que fiz, no 25 de abril, a propósito do aniversário da Revolução dos Cravos. Recebi mensagens muito reveladoras, tanto de amor quanto de ódio.

Tento respondê-las nesse texto.

Começo com o óbvio. Chico Buarque é um artista extraordinário. Um dos maiores da nossa canção popular em qualquer tempo.

Sempre foi um homem de esquerda. Isso é absolutamente legítimo. A rigor, nem engrandece nem diminui sua arte. O que o fez (faz!) um gigante da música produzida pelos brasileiros foi (é!) o absoluto domínio que tem do artesanato da canção. Música e letra, uma nascida para a outra, uma indissociável da outra. Como um segredo que não se revela. Como um mistério que não se desvenda. Só se contempla. Só se admira.

Chico é assim. Muitas, infinitas belezas reunidas num cancioneiro. Quando fala do individual, quando se debruça sobre o coletivo. Desde a juventude, tempo dos clássicos instantâneos. Até a maturidade (agora, a velhice), de canções mais refinadas, de assimilação mais lenta e difícil.

Não é justo que a sua música só seja ouvida por causa de uma circunstância política. Ou que, na outra ponta, por isso seja execrada. Os atuais impasses serão superados, substituídos por outros, mas arte como a de Chico atravessa o tempo. Tem permanência.

Encanta, fascina, alegra, entristece, humaniza.

Fecho, então, com o Caetano de Festa Imodesta, um samba que Chico gravou:

E acima da razão a rima

E acima da rima a nota da canção

Bemol, natural, sustenida no ar

Viva aquele que se presta a esta ocupação

Salve o compositor popular!

Por isso essa voz tamanha!

Roberto Carlos gravou três músicas compostas por Caetano Veloso: Como 2 e 2, Muito Romântico e Força Estranha.

Na primeira, o Rei foi porta-voz da tristeza de um exilado. Caetano já voltara para o Brasil quando compôs as outras duas.

Em 1979, na turnê Muito, tivemos a oportunidade de ouvir as três na voz do autor.

Retratos de Roberto Carlos tirados por Caetano?

Retratos de Caetano tirados por Roberto Carlos através de Caetano?

As duas coisas juntas?

O autor falava disso antes de cantá-las.

Das três, talvez a mais marcante seja Força Estranha. E a que de fato se incorporou ao repertório permanente do Rei.

Gosto muito dessa versão gravada ao vivo em São Paulo.

Vejam os metais. E a guitarra. E a voz tamanha do artista!

Vamos ouvir?

 

Para Caetano, Jomard profetizou o que aconteceu no Mangue Beat

Em 2009, entrevistei Caetano Veloso sobre Jomard Muniz de Britto. A entrevista foi registrada para o filme JMB, o Famigerado.

Teve um momento da conversa em que eu perguntei:

“Para Caetano, afinal, quem é Jomard Muniz de Britto?”

E Caetano assim respondeu:

“Cara, Jomard é muita coisa, muita coisa!

Ele é uma dessas pessoas em constante movimento e uma figura que, pra mim, cataliza no Recife uma série de movimentos da alma entre muitas pessoas. Eu acho que ele profetizou o que veio a acontecer no Mangue Beat com a própria atitude dele. E ele sempre teve uma maneira de ser que era profundamente pernambucana e ao mesmo tempo parecia ter a necessidade e a capacidade de intuir uma maneira de superar as coisas que em Pernambuco pudessem ser travas.

É curioso isto, eu acho. Porque, muitas vezes, grandes pernambucanos, ou grandes pessoas que a gente conhece em Pernambuco, são justamente grandes por serem grandemente restritivas.

Lembro de uma história engraçada de Ariano Suassuna que contam na Bahia. Ele foi a Salvador, quando a Escola de Teatro montou O Auto da Compadecida, e, depois, disse que não tinha vontade de voltar a um lugar onde as pessoas estão num bar, um baiano se levanta para ir ao banheiro e os outros baianos falam bem daquela pessoa que se levantou. Então, para o baiano, que é assim, o pernambucano aparece como restritivo.

E, curiosamente, o temperamento do Jomard parece ser o oposto, porque é agregador, embora eu não diga que ele seja uma pessoa que procure ser diplomática, não é isso, é o próprio espírito assim mais absorvente, mais líquido”. 

(A foto, lá em cima, não é do filme JMB, o Famigerado. Mas também é de 2009. Eu e Jomard numa conversa com Caetano no Marco Zero, Recife. Quem fez a foto foi Kubi Pinheiro)

Mulata é racismo? Pois salve a mulatada, como canta Martinho da Vila!

A parlamentar socialista vai num evento de teatro de bonecos e, ao discursar, diz assim:

Teatro de bonecos e bonecas!

Quem me contou foi um amigo, socialista como ela.

Custo a crer! Tento não me convencer de que falta inteligência ao politicamente correto!

Mas falta!

Lembro dessa história por causa da MULATA.

Não pode mais! É racismo!

Querem banir Tropicália de um bloco de carnaval (ou baniram?) por causa do verso “os olhos verdes da mulata”.

Caetano Veloso, autor da música, já falou ao The Economist“Penso em mim como mulato, eu amo a palavra”.

Puxa! Fiquei lembrando das músicas que serão banidas. Vão censurar Elizeth Cardoso cantando Mulata Faceira? E Mulata Assanhada na voz de Elza Soares? E Olhos Verdes com Dalva de Oliveira? E Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira com Moraes Moreira? Ah!, são muitas!

Nas redes sociais, vejo textos e mais textos sobre o assunto. A origem da palavra. É essa. É aquela. É racismo. Não é.

Os que agora censuram o uso da palavra MULATA parecem muito com os que, na ditadura, censuraram o Tiro ao Álvaro, de Adoniran. O contexto é outro, os motivos são outros, mas, no fundo, fazem a mesma coisa.

Fecho com Caetano Veloso:

Sou um mulato nato, no sentido lato, mulato democrático do litoral

E com Martinho da Vila:

José do Patrocínio

Aleijadinho

Machado de Assis que também era mulatinho

Salve a mulatada brasileira!

“Haiti”, de Caetano e Gil, tem quase 25 anos e continua atual!

A crise nos presídios brasileiros parece surpreender o governo?

É preciso que ocorram episódios como esses dos últimos dias para que o governo volte os olhos para o sistema penitenciário?

Documentos colocam mal o ministro da Justiça! Uma fala desastrada e inaceitável derruba o secretário da Juventude!

Ilhados em Brasília, os políticos não sabem o que todos nós sabemos?

Bem, a coluna é de cultura, e vou ilustrar com música.

Haiti é do início dos anos 1990. Abre o disco que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram para marcar os 25 anos do Tropicalismo. Já já vamos comemorar os 50!

Haiti continua atual! Era melhor que fosse apenas evocativa de uma época! Mas, infelizmente, não é!

Livro de Nelson Motta tem equívoco sobre música de Caetano

O jornalista, escritor e compositor Nelson Motta cometeu um equívoco em seu novo livro. Nada que comprometa a qualidade do trabalho. Estou lendo 101 Canções que Tocaram o Brasil com a admiração e o respeito que tenho pelo autor e por sua trajetória.

Registro o equívoco movido, sobretudo, pelo interesse que, como filho de astrônomo, tenho pelos temas ligados à conquista do espaço.

Quando eu me encontrava preso

na cela de uma cadeia

foi que eu vi pela primeira vez

as tais fotografias

em que apareces inteira

porém lá não estavas nua

e sim coberta de nuvens

Terra! Terra!

O equívoco está no texto sobre Terra, que começa com esses versos.

No livro, Nelson Motta diz que, quando estava preso, Caetano viu uma foto da Terra no espaço feita por um satélite artificial. Está errado.

As fotos que impressionaram o artista e, mais tarde, inspiraram a canção não foram feitas por um satélite artificial. Publicadas numa revista (a Manchete) que Caetano leu na prisão, as “tais fotografias” foram feitas pela nave Apollo 8. São históricas, belíssimas, impressionantes mesmo, as primeiras que mostram nosso planeta visto de longe, sob a perspectiva de quem está na órbita da Lua.

Pois é! Os três astronautas da Apollo 8 passaram o Natal de 1968 na órbita da Lua, numa missão preparatória para o voo de julho do ano seguinte, da Apollo 11, que levaria os primeiros homens ao solo lunar.

Há uma coincidência. Os astronautas da Apollo 8 voltaram à Terra em 27 de dezembro de 1968, o mesmo dia em que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em São Paulo e levados para o Rio de Janeiro, onde ficaram até o carnaval de 1969. À prisão, seguiram-se o confinamento em Salvador e, afinal, o exílio em Londres.

A canção, faixa de abertura do LP Muito, veio uma década depois. É uma das grandes canções de Caetano Veloso. Merecidamente, está entre as 101 que, segundo Nelson Motta, tocaram o Brasil.

Quando Terra foi gravada, em 1978, a ditadura que prendera o compositor já começava a entrar em seus estertores.

Roberto Carlos dribla TOC e canta Quero que Vá Tudo pro Inferno

Roberto Carlos quebrou, faz tempo, a tradição do seu disco de final de ano. Gostando ou não do artista, os discos eram essenciais nos natais brasileiros e marcaram milhões de pessoas.

Roberto Carlos, aos 75 anos, mantém a tradição do especial natalino na Rede Globo. São mais de quatro décadas.

O programa exibido nesta sexta-feira (23) foi gravado num ambiente menor, com uma plateia menos numerosa. Ficou mais intimista e, por isso, recebeu o nome de Simplesmente Roberto Carlos.

O momento mais importante do especial foi quando Roberto Carlos cantou Quero que Vá Tudo pro Inferno. A canção, uma das mais icônicas da sua carreira, fora banida do seu repertório por causa do TOC (transtorno obsessivo compulsivo), doença que atormenta o Rei.

Voltar a cantar (e pronunciar a palavra “inferno”) essa música que conquistou o Brasil há mais de 50 anos é uma vitória pessoal do artista e uma alegria para os seus fãs.

Só quem foi contemporâneo de Quero que Vá Tudo pro Inferno conhece a força dessa canção e sabe o quanto ela foi transgressora.

O especial teve outros grandes momentos.

Destaco o encontro de Roberto Carlos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, amigos e companheiros de geração. Comovente ouvir os três cantando Coração Vagabundo e Marina.

Marisa Monte, com Dadi à guitarra, cantou De que Vale Tudo Isso como se fosse sua.

E Zeca Pagodinho fez o Rei cair no samba. Só assim, ouvimos, na sua voz, Noel, Lupicínio e Cartola!

Roberto Carlos vem de regiões profundas do ser do Brasil, diz Caetano Veloso. Isso, ninguém tira dele. Os seus defeitos são infinitamente menores do que as suas virtudes. Basta vê-lo num programa de televisão!

Roberto Carlos fez música para um exilado pela ditadura

Hoje (23) é dia de ver o especial de Roberto Carlos na Globo. Esse ano, o Rei canta com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Por isso, conto essa história:

Um pouco antes do Tropicalismo, Maria Bethânia sugeriu a Caetano Veloso que prestasse atenção em Roberto Carlos e na Jovem Guarda. Ele conta, no livro de memórias Verdade Tropical, que “Bethânia, cujo não alinhamento com a Bossa Nova a deixava livre para aproximar-se de um repertório variado, me dizia explicitamente que seu interesse pelos programas de Roberto Carlos se devia à vitalidade que exalava deles, ao contrário do que se via no ambiente defensivo da MPB respeitável”. Caetano seguiu o conselho da irmã e incorporou a vitalidade que Bethânia enxergava em Roberto e na Jovem Guarda ao Tropicalismo, o movimento que, em 1968, lideraria ao lado de Gilberto Gil.

Sempre que voltamos aos tropicalistas, identificamos em Gil o interesse pela música nordestina, fruto, sobretudo, da temporada que passou no Recife pouco antes de se transformar num artista de dimensão nacional. O vínculo com Roberto Carlos e a Jovem Guarda deve ser atribuído a Caetano. É ele, afinal, que costuma mencionar a influência que o Rei exerceu no momento em que o Tropicalismo foi esboçado. Foi ele que mais assumiu uma postura de valorização do trabalho de Roberto Carlos, arriscadíssima no universo resguardado da esquerda pós-Bossa Nova. A gratidão de Roberto seria traduzida numa canção.

Preso (junto com Gil) em dezembro de 1968, depois confinado em Salvador e, finalmente, exilado na Inglaterra entre 1969 e 1972, Caetano Veloso, um dia, recebeu a visita de Roberto Carlos na sua casa em Londres. “Roberto veio com Nice, sua primeira mulher, e nós sentimos nele a presença simbólica do Brasil”, relata em Verdade Tropical. Caetano lembra que, “como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a embaixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas que a princípio não nos entenderam e nos queriam agora mitificar: ele era o Brasil profundo”.

Durante a visita, Roberto Carlos levou Caetano às lágrimas quando, ao falar do seu novo disco (o LP que começa com As Flores do Jardim da Nossa Casa, lançado no Natal de 1969), pegou o violão e cantou As Curvas da Estrada de Santos, “dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar”. Caetano recorda que “essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nós nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim”. E diz que usou a barra do vestido preto de Nice para assoar o nariz e enxugar as lágrimas, enquanto, com ternura, o Rei o chamava de bobo. Roberto Carlos voltou para o Brasil pensando em Caetano e o homenageou com uma canção.

A música é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, lançada no final de 1971 no disco que tem Detalhes. Na época, pouca gente sabia que a canção havia sido composta para Caetano Veloso e falava do dia em que ele retornaria ao Brasil. A maioria achava que a letra era sobre uma mulher. A tristeza de um exilado que desejava voltar não fazia parte das conversas dos fãs do Rei. Do mesmo modo que a esquerda não atribuiria a Roberto Carlos a disposição de dedicar uma música a um artista que havia sido preso e mandado para fora do país. O seu distanciamento da MPB engajada parecia assegurar que ele não agiria assim.

“Uma história pra contar de um mundo tão distante” ou “você olha tudo e nada lhe faz ficar contente/você só deseja agora voltar pra sua gente”. Ou ainda: “você anda pela tarde e o seu olhar tristonho/deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho”. Os versos soaram claros quando Caetano, aos 50 anos, revelou a origem da canção. No período mais duro do regime militar, Roberto fez música para um exilado e foi seu porta-voz ao gravar Como Dois e Dois. De um lado, o gesto solidário que vale por muitas canções engajadas. Do outro, o intérprete trazendo para o Brasil profundo o que Caetano sentia no exílio: “tudo vai mal, tudo/tudo é igual quando eu canto e sou mudo”.

Ferreira Gullar foi grande poeta e crítico lúcido da esquerda

Bandeira, Vinícius, Drummond, Leminski, Quintana, João Cabral. Já vi a morte de grandes poetas do Brasil.

Agora, mais um. Ferreira Gullar, quase fechando um ano de tantas perdas.

ferreira-gullar

Onde andarás nesta tarde vazia

Tão clara e sem fim

Enquanto o mar bate azul em Ipanema

Em que bar,

Em que cinema te esqueces de mim

Minha primeira lembrança de Ferreira Gullar é essa. Onde Andarás, um bolero meio samba-canção. Música de Caetano Veloso sobre versos dele. Ouvi muito na infância e na passagem para a adolescência, naquele disco de capa vermelha.

“Ferreira Gullar era particularmente querido por sua capacidade de encorajar, seu senso de solidariedade e seu talento para encontrar soluções inventivas mesmo naquela situação tão pobre de possibilidades”, diria Caetano muitos anos mais tarde sobre o poeta que hoje nos deixa, os dois, presos pela ditadura e levados para a mesma unidade militar, no final de 1968.

Senti o impacto do Poema Sujo na época em que foi publicado. É daquelas obras que, se não houvesse mais nada (e há!), justificam a existência de um autor.

O Poema Sujo, se pensarmos em forma e conteúdo, pode sintetizar o artista inquieto que, anos antes, ajudara a redirecionar a poesia brasileira, e o cidadão engajado que lutou firmemente contra o regime de exceção.

Foi, aliás, a sua luta contra a ditadura militar que o credenciou a, na velhice, tornar-se um crítico lúcido e severo dos governos petistas.

Quero terminar com música. O Trenzinho do Caipira, retrato de um Brasil profundo tirado pelo gênio de Heitor Villa-Lobos. Melodia enriquecida pelos versos de Ferreira Gullar. Na voz de Edu Lobo.

Lá vai o trem sem destino

Pro dia novo encontrar

Correndo vai pela terra

Vai pela serra

Vai pelo mar

Mais do que nunca, o trem sem destino segue em busca do dia novo.

Os versos do Poema Sujo eternizam Ferreira Gullar!

No Dia da Bandeira, algo sobre nossos hinos

Hoje é o Dia da Bandeira. A data me remete aos nossos hinos.

O maestro Moacir Santos me disse algumas vezes que o Hino Nacional era muito difícil de ser cantado. Ele próprio pensava em compor um hino que fosse mais simples, como o Star Spangled Banner dos americanos. Ou a Marselhesa dos franceses (para mim, o mais belos de todos!). Um hino com o qual, segundo Moacir, o povo se identificasse mais fortemente.

Eu ouvia e concordava com uma parte da conversa: o hino realmente é difícil, a letra extensa demais. Mas discordava de outra: o povo se identifica fortemente, sim, com o Hino Nacional Brasileiro.

No tempo da ditadura, nós, que éramos contra o regime militar, tivemos uma relação complicada com os hinos. Eles estavam muito associados ao que combatíamos.

Um show em 1978 me ajudou a pensar na questão. Foi de Sérgio Ricardo, homem de esquerda, contestador do regime militar, artista que admiro até hoje. Lá no meio, ele cantava o Hino à Bandeira.

Os versos de Olavo Bilac sobre a melodia de Francisco Braga chancelados, naquele momento, por um cara inequivocamente de esquerda. Ainda que o hino estivesse no set list como contraponto a uma música de protesto de Sérgio Ricardo sobre a bandeira.

Com a redemocratização, toda essa discussão perdeu o sentido. De vez em quando, no entanto, temo que ela seja retomada no Brasil de hoje, de tantos intolerantes e posturas extremadas.

Uma pena, se assim for.

Paulinho da Viola cantou o Hino Nacional na abertura dos Jogos Olímpicos. Caetano Veloso, na posse da presidente do Supremo. Os hinos pertencem ao Brasil. Não a um momento histórico.

Para terminar esse papo, vou confessar: dos nossos hinos, o Hino à Bandeira é o que acho mais bonito. E é muito mais fácil de ser cantado do que o Hino Nacional. Moacir Santos concordaria!