“Haiti”, de Caetano e Gil, tem quase 25 anos e continua atual!

A crise nos presídios brasileiros parece surpreender o governo?

É preciso que ocorram episódios como esses dos últimos dias para que o governo volte os olhos para o sistema penitenciário?

Documentos colocam mal o ministro da Justiça! Uma fala desastrada e inaceitável derruba o secretário da Juventude!

Ilhados em Brasília, os políticos não sabem o que todos nós sabemos?

Bem, a coluna é de cultura, e vou ilustrar com música.

Haiti é do início dos anos 1990. Abre o disco que Caetano Veloso e Gilberto Gil fizeram para marcar os 25 anos do Tropicalismo. Já já vamos comemorar os 50!

Haiti continua atual! Era melhor que fosse apenas evocativa de uma época! Mas, infelizmente, não é!

Livro de Nelson Motta tem equívoco sobre música de Caetano

O jornalista, escritor e compositor Nelson Motta cometeu um equívoco em seu novo livro. Nada que comprometa a qualidade do trabalho. Estou lendo 101 Canções que Tocaram o Brasil com a admiração e o respeito que tenho pelo autor e por sua trajetória.

Registro o equívoco movido, sobretudo, pelo interesse que, como filho de astrônomo, tenho pelos temas ligados à conquista do espaço.

Quando eu me encontrava preso

na cela de uma cadeia

foi que eu vi pela primeira vez

as tais fotografias

em que apareces inteira

porém lá não estavas nua

e sim coberta de nuvens

Terra! Terra!

O equívoco está no texto sobre Terra, que começa com esses versos.

No livro, Nelson Motta diz que, quando estava preso, Caetano viu uma foto da Terra no espaço feita por um satélite artificial. Está errado.

As fotos que impressionaram o artista e, mais tarde, inspiraram a canção não foram feitas por um satélite artificial. Publicadas numa revista (a Manchete) que Caetano leu na prisão, as “tais fotografias” foram feitas pela nave Apollo 8. São históricas, belíssimas, impressionantes mesmo, as primeiras que mostram nosso planeta visto de longe, sob a perspectiva de quem está na órbita da Lua.

Pois é! Os três astronautas da Apollo 8 passaram o Natal de 1968 na órbita da Lua, numa missão preparatória para o voo de julho do ano seguinte, da Apollo 11, que levaria os primeiros homens ao solo lunar.

Há uma coincidência. Os astronautas da Apollo 8 voltaram à Terra em 27 de dezembro de 1968, o mesmo dia em que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos em São Paulo e levados para o Rio de Janeiro, onde ficaram até o carnaval de 1969. À prisão, seguiram-se o confinamento em Salvador e, afinal, o exílio em Londres.

A canção, faixa de abertura do LP Muito, veio uma década depois. É uma das grandes canções de Caetano Veloso. Merecidamente, está entre as 101 que, segundo Nelson Motta, tocaram o Brasil.

Quando Terra foi gravada, em 1978, a ditadura que prendera o compositor já começava a entrar em seus estertores.

Roberto Carlos dribla TOC e canta Quero que Vá Tudo pro Inferno

Roberto Carlos quebrou, faz tempo, a tradição do seu disco de final de ano. Gostando ou não do artista, os discos eram essenciais nos natais brasileiros e marcaram milhões de pessoas.

Roberto Carlos, aos 75 anos, mantém a tradição do especial natalino na Rede Globo. São mais de quatro décadas.

O programa exibido nesta sexta-feira (23) foi gravado num ambiente menor, com uma plateia menos numerosa. Ficou mais intimista e, por isso, recebeu o nome de Simplesmente Roberto Carlos.

O momento mais importante do especial foi quando Roberto Carlos cantou Quero que Vá Tudo pro Inferno. A canção, uma das mais icônicas da sua carreira, fora banida do seu repertório por causa do TOC (transtorno obsessivo compulsivo), doença que atormenta o Rei.

Voltar a cantar (e pronunciar a palavra “inferno”) essa música que conquistou o Brasil há mais de 50 anos é uma vitória pessoal do artista e uma alegria para os seus fãs.

Só quem foi contemporâneo de Quero que Vá Tudo pro Inferno conhece a força dessa canção e sabe o quanto ela foi transgressora.

O especial teve outros grandes momentos.

Destaco o encontro de Roberto Carlos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, amigos e companheiros de geração. Comovente ouvir os três cantando Coração Vagabundo e Marina.

Marisa Monte, com Dadi à guitarra, cantou De que Vale Tudo Isso como se fosse sua.

E Zeca Pagodinho fez o Rei cair no samba. Só assim, ouvimos, na sua voz, Noel, Lupicínio e Cartola!

Roberto Carlos vem de regiões profundas do ser do Brasil, diz Caetano Veloso. Isso, ninguém tira dele. Os seus defeitos são infinitamente menores do que as suas virtudes. Basta vê-lo num programa de televisão!

Roberto Carlos fez música para um exilado pela ditadura

Hoje (23) é dia de ver o especial de Roberto Carlos na Globo. Esse ano, o Rei canta com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Por isso, conto essa história:

Um pouco antes do Tropicalismo, Maria Bethânia sugeriu a Caetano Veloso que prestasse atenção em Roberto Carlos e na Jovem Guarda. Ele conta, no livro de memórias Verdade Tropical, que “Bethânia, cujo não alinhamento com a Bossa Nova a deixava livre para aproximar-se de um repertório variado, me dizia explicitamente que seu interesse pelos programas de Roberto Carlos se devia à vitalidade que exalava deles, ao contrário do que se via no ambiente defensivo da MPB respeitável”. Caetano seguiu o conselho da irmã e incorporou a vitalidade que Bethânia enxergava em Roberto e na Jovem Guarda ao Tropicalismo, o movimento que, em 1968, lideraria ao lado de Gilberto Gil.

Sempre que voltamos aos tropicalistas, identificamos em Gil o interesse pela música nordestina, fruto, sobretudo, da temporada que passou no Recife pouco antes de se transformar num artista de dimensão nacional. O vínculo com Roberto Carlos e a Jovem Guarda deve ser atribuído a Caetano. É ele, afinal, que costuma mencionar a influência que o Rei exerceu no momento em que o Tropicalismo foi esboçado. Foi ele que mais assumiu uma postura de valorização do trabalho de Roberto Carlos, arriscadíssima no universo resguardado da esquerda pós-Bossa Nova. A gratidão de Roberto seria traduzida numa canção.

Preso (junto com Gil) em dezembro de 1968, depois confinado em Salvador e, finalmente, exilado na Inglaterra entre 1969 e 1972, Caetano Veloso, um dia, recebeu a visita de Roberto Carlos na sua casa em Londres. “Roberto veio com Nice, sua primeira mulher, e nós sentimos nele a presença simbólica do Brasil”, relata em Verdade Tropical. Caetano lembra que, “como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a embaixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas que a princípio não nos entenderam e nos queriam agora mitificar: ele era o Brasil profundo”.

Durante a visita, Roberto Carlos levou Caetano às lágrimas quando, ao falar do seu novo disco (o LP que começa com As Flores do Jardim da Nossa Casa, lançado no Natal de 1969), pegou o violão e cantou As Curvas da Estrada de Santos, “dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar”. Caetano recorda que “essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nós nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim”. E diz que usou a barra do vestido preto de Nice para assoar o nariz e enxugar as lágrimas, enquanto, com ternura, o Rei o chamava de bobo. Roberto Carlos voltou para o Brasil pensando em Caetano e o homenageou com uma canção.

A música é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, lançada no final de 1971 no disco que tem Detalhes. Na época, pouca gente sabia que a canção havia sido composta para Caetano Veloso e falava do dia em que ele retornaria ao Brasil. A maioria achava que a letra era sobre uma mulher. A tristeza de um exilado que desejava voltar não fazia parte das conversas dos fãs do Rei. Do mesmo modo que a esquerda não atribuiria a Roberto Carlos a disposição de dedicar uma música a um artista que havia sido preso e mandado para fora do país. O seu distanciamento da MPB engajada parecia assegurar que ele não agiria assim.

“Uma história pra contar de um mundo tão distante” ou “você olha tudo e nada lhe faz ficar contente/você só deseja agora voltar pra sua gente”. Ou ainda: “você anda pela tarde e o seu olhar tristonho/deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho”. Os versos soaram claros quando Caetano, aos 50 anos, revelou a origem da canção. No período mais duro do regime militar, Roberto fez música para um exilado e foi seu porta-voz ao gravar Como Dois e Dois. De um lado, o gesto solidário que vale por muitas canções engajadas. Do outro, o intérprete trazendo para o Brasil profundo o que Caetano sentia no exílio: “tudo vai mal, tudo/tudo é igual quando eu canto e sou mudo”.

Ferreira Gullar foi grande poeta e crítico lúcido da esquerda

Bandeira, Vinícius, Drummond, Leminski, Quintana, João Cabral. Já vi a morte de grandes poetas do Brasil.

Agora, mais um. Ferreira Gullar, quase fechando um ano de tantas perdas.

ferreira-gullar

Onde andarás nesta tarde vazia

Tão clara e sem fim

Enquanto o mar bate azul em Ipanema

Em que bar,

Em que cinema te esqueces de mim

Minha primeira lembrança de Ferreira Gullar é essa. Onde Andarás, um bolero meio samba-canção. Música de Caetano Veloso sobre versos dele. Ouvi muito na infância e na passagem para a adolescência, naquele disco de capa vermelha.

“Ferreira Gullar era particularmente querido por sua capacidade de encorajar, seu senso de solidariedade e seu talento para encontrar soluções inventivas mesmo naquela situação tão pobre de possibilidades”, diria Caetano muitos anos mais tarde sobre o poeta que hoje nos deixa, os dois, presos pela ditadura e levados para a mesma unidade militar, no final de 1968.

Senti o impacto do Poema Sujo na época em que foi publicado. É daquelas obras que, se não houvesse mais nada (e há!), justificam a existência de um autor.

O Poema Sujo, se pensarmos em forma e conteúdo, pode sintetizar o artista inquieto que, anos antes, ajudara a redirecionar a poesia brasileira, e o cidadão engajado que lutou firmemente contra o regime de exceção.

Foi, aliás, a sua luta contra a ditadura militar que o credenciou a, na velhice, tornar-se um crítico lúcido e severo dos governos petistas.

Quero terminar com música. O Trenzinho do Caipira, retrato de um Brasil profundo tirado pelo gênio de Heitor Villa-Lobos. Melodia enriquecida pelos versos de Ferreira Gullar. Na voz de Edu Lobo.

Lá vai o trem sem destino

Pro dia novo encontrar

Correndo vai pela terra

Vai pela serra

Vai pelo mar

Mais do que nunca, o trem sem destino segue em busca do dia novo.

Os versos do Poema Sujo eternizam Ferreira Gullar!

No Dia da Bandeira, algo sobre nossos hinos

Hoje é o Dia da Bandeira. A data me remete aos nossos hinos.

O maestro Moacir Santos me disse algumas vezes que o Hino Nacional era muito difícil de ser cantado. Ele próprio pensava em compor um hino que fosse mais simples, como o Star Spangled Banner dos americanos. Ou a Marselhesa dos franceses (para mim, o mais belos de todos!). Um hino com o qual, segundo Moacir, o povo se identificasse mais fortemente.

Eu ouvia e concordava com uma parte da conversa: o hino realmente é difícil, a letra extensa demais. Mas discordava de outra: o povo se identifica fortemente, sim, com o Hino Nacional Brasileiro.

No tempo da ditadura, nós, que éramos contra o regime militar, tivemos uma relação complicada com os hinos. Eles estavam muito associados ao que combatíamos.

Um show em 1978 me ajudou a pensar na questão. Foi de Sérgio Ricardo, homem de esquerda, contestador do regime militar, artista que admiro até hoje. Lá no meio, ele cantava o Hino à Bandeira.

Os versos de Olavo Bilac sobre a melodia de Francisco Braga chancelados, naquele momento, por um cara inequivocamente de esquerda. Ainda que o hino estivesse no set list como contraponto a uma música de protesto de Sérgio Ricardo sobre a bandeira.

Com a redemocratização, toda essa discussão perdeu o sentido. De vez em quando, no entanto, temo que ela seja retomada no Brasil de hoje, de tantos intolerantes e posturas extremadas.

Uma pena, se assim for.

Paulinho da Viola cantou o Hino Nacional na abertura dos Jogos Olímpicos. Caetano Veloso, na posse da presidente do Supremo. Os hinos pertencem ao Brasil. Não a um momento histórico.

Para terminar esse papo, vou confessar: dos nossos hinos, o Hino à Bandeira é o que acho mais bonito. E é muito mais fácil de ser cantado do que o Hino Nacional. Moacir Santos concordaria!

Em “Alucinação”, agora relançado, Belchior é injusto com tropicalistas

Belchior fez 70 anos em outubro. Seu melhor disco, lançado há 40 anos, voltou às lojas num CD afinal remasterizado (a edição anterior era inaudível). O tempo passou, mas Alucinação permanece um grande disco.

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Em 1976, quando lançou Alucinação, Belchior tinha 30 anos incompletos. Sua Mucuripe (parceria com Fagner) havia sido gravada por Elis Regina e por Roberto Carlos. E seu primeiro disco, numa gravadora pequena, era praticamente desconhecido.

Elis, então, cuidou de projetar Belchior nacionalmente ao gravar Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, duas canções do cearense que, na voz dela, ganharam versões definitivas.

Alucinação saiu pela Philips. Belchior assinou contrato para apenas um LP. Fez um grande disco, entrou para a história da MPB com ele.

Apenas um Rapaz Latino Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, A Palo Seco – algumas das suas canções mais importantes e mais populares estão no breve repertório de dez faixas.

Em letras antológicas, Belchior dialoga com a sua geração na noite brasileira. Está antenadíssimo com o universo pop do Brasil e do mundo, também com as referências que o ajudariam a construir a sua poesia cantada.

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Mas há um equívoco pouco mencionado nesse grande disco: chamar de velhos os tropicalistas.

Está na letra de Apenas um Rapaz Latino Americano. O antigo compositor baiano é Caetano Veloso, autor da letra (a música é de Gilberto Gil) de Divino, Maravilhoso, a canção na qual Belchior diz não acreditar.

Ora, antigo é uma palavra que não cabia em Caetano em 1976, quando ele tinha pouco mais de 30 anos e era um dos responsáveis por parte significativa das transformações operadas na música popular do Brasil daquela época.

Divino, Maravilhoso é uma canção identificada com a turbulência do ano de 1968 e tem um refrão antológico:

É preciso estar atento e forte/não temos tempo de temer a morte.

Se prestarmos atenção, o verso permanece atual!

“Teresa Cristina Canta Cartola” é um dos melhores discos do ano

Uma voz feminina, um violão de sete cordas a acompanhá-la, o repertório de um compositor. Juntos, os três elementos falam da grandeza do samba do Brasil. “Teresa Cristina Canta Cartola” (CD e DVD) é um dos melhores lançamentos do ano.

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Teresa Cristina surgiu na cena carioca, em plena Lapa, há uns 15 anos ou um pouco mais. Com o grupo Semente, gravou um songbook duplo de Paulinho da Viola que marcou o início da sua carreira e a projetou nacionalmente.

Desde cedo, foi identificada como cantora de samba. Mas Teresa gosta de black music americana, de rock pesado e de Roberto Carlos.

O disco Melhor Assim, de 2010, indicava que ela seguiria outros caminhos além do samba. A confirmação viria em 2012: com o grupo indie Os Outros, fez um disco de rock todo dedicado ao repertório de Roberto Carlos. Saudável ousadia para uma sambista tradicional.

Agora, volta à tradição do samba num registro ao vivo lançado primeiro no mercado americano.

A portelense se debruça sobre o repertório do mangueirense Cartola com uma doçura e uma sensibilidade singulares. O violão de Carlinhos Sete Cordas mistura a tradição à modernidade do violão brasileiro e oferece a parceria perfeita para a voz da cantora.

Teresa Cristina (agora em turnê com Caetano Veloso) traz para os nossos dias a música de Cartola. O compositor, que morreu em 1980, já estava em cena nos anos 1930. Seus sambas atravessam o tempo com um frescor invejável. A extraordinária beleza da sua música encontra na voz da nova intérprete algo que não é passado, nem precisa ser presente. É permanência.

Quem disse que Teresa Cristina é uma princesa do samba? Deve ter sido Caetano Veloso. Acertou. É isso mesmo o que ela é!

Algo se quebrou, está se quebrando!

trump
Americanos são muito estatísticos. Têm gestos nítidos e sorrisos límpidos. Olhos de brilho penetrante que vão fundo no que olham, mas não no próprio fundo. Os americanos representam boa parte da alegria existente neste mundo. Para os americanos, branco é branco, preto é preto (e a mulata não é a tal). Bicha é bicha, macho é macho, mulher é mulher e dinheiro é dinheiro. E, assim, ganham-se, barganham-se, perdem-se. Concedem-se, conquistam-se direitos. Enquanto aqui embaixo a indefinição é o regime. E dançamos com uma graça cujo segredo nem eu mesmo sei. Entre a delícia e a desgraça, entre o monstruoso e o sublime. Americanos não são americanos. São velhos homens humanos, chegando, passando, atravessando. São tipicamente americanos. Americanos sentem que algo se perdeu. Algo se quebrou, está se quebrando.
Postei como se fosse prosa. Não é. É poesia. Caetano Veloso, 1992. Continua valendo. Tem algo que fala desse 09/11 em que Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos.