Ouvindo Paez. Reouvindo Krall

Ouvindo Fito Paez.

Canciones Para Aliens.

O argentino Fito Paez é uma das lacunas da minha discoteca. Aventuro-me com um disco mais de covers do que de autor. São canções do mundo que o roqueiro gravou para audição por alienígenas, o título explica. Do nosso Chico a Brel, de Dylan a Mercury, de Gaye a Jarra, de Verdi a Milanés – o resultado é muito bom. As canções foram recriadas por Paez com sua assinatura e não frustram o ouvinte que pensar nos registros originais. Mesmo que estes sejam – e efetivamente são – muito melhores.

Reouvindo Diana Krall.

The Look of Love.

Fazia tempo que eu não ouvia Diana Krall. Escolhi The Look of Love. Menos por ela, mais por Claus Ogerman, o arranjador. Ogerman, que trabalhou para Tom Jobim e João Gilberto. O disco tem uma “pegada” de Bossa Nova. Ótima pianista, boa cantora, Krall canta standards. Os dois que João Gilberto já havia gravado (S’Wonderful e Besame Mucho) confirmam que a influência da Bossa Nova sobre o jazz é muito maior do que o contrário. E que João – claro! – é infinitamente maior do que Krall.

Memória: Tom, Roberto, Vandré, Caetano e Milton segundo Sivuca

Em novembro de 2006, fiz uma longa entrevista com Sivuca, pouco antes dele morrer.

(A foto é de André Cananéa)

Durante a conversa, gravada no apartamento em que ele morava em João Pessoa, quis ouvir sua opinião sobre Tom Jobim, Roberto Carlos, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Milton Nascimento. Esses jogos rápidos que a gente faz nas entrevistas.

É memória. Um grande músico falando sobre seus colegas de ofício.

Transcrevo:

A Bossa Nova e Antônio Carlos Jobim

Jobim suplantava qualquer rótulo de Bossa Nova. Jobim é um músico sutil. As frases musicais, os arranjos, as harmonias, o que ele fizesse era intocável. Jobim era um dos melhores harmonistas que nós tivemos. Estava entre os primeiros. Sou um admirador incondicional da obra orquestral de Jobim. 

 

A Jovem Guarda e Roberto Carlos

Aquilo foi mais um movimento. Do ponto de vista musical, tenho sérias restrições. Agora, teve o seu valor. Dizer que Roberto Carlos não tem valor é no mínimo uma burrice, porque ele é um excelente profissional. A música dele, eu gostar ou não gostar, é irrelevante, mas o admiro como excelente profissional que ele é. 

 

Os festivais e Geraldo Vandré

Vandré fez o trabalho dele muito bem. Acho que Vandré foi mais um que continuou a fazer música nordestina. Eu me lembro que um dia encontrei Humberto Teixeira e ele disse: “Sivuca, tem um menino aí chamado Geraldo Vandré que está fazendo coisas muito boas, até melhor do que nós”. Aquilo marcou.

 

O Tropicalismo e Caetano Veloso

Caetano é bom, Caetano é matreiro, é inteligente, é tudo. O Tropicalismo é rótulo que rendeu. Teve a sua fase. Inclusive, trouxe muita gente boa de volta, como Gonzagão e Jackson. De todos esses movimentos vem coisa boa, e Caetano, que é um compositor inteligente, nos legou muitas pérolas musicais maravilhosas. 

 

O Clube da Esquina e Milton Nascimento

Milton Nascimento é bom. Outro grande harmonista, gosto dele. Um homem que faz Travessia não pode fazer coisa ruim. O movimento mineiro só não foi mais adiante porque é um pouco sofisticado demais, mas Milton, eu considero um dos grandes compositores do Brasil.

Três discos seminais resumem a arte refinada de João Gilberto

Recluso e longe dos palcos há quase uma década, João Gilberto faz 86 anos neste sábado (10).

A síntese da sua arte está em três discos lançados entre o final dos anos 1950 e o início da década de 1960.

O primeiro LP de João Gilberto, Chega de Saudade, de 1959, é o disco mais importante da Bossa Nova. A música popular brasileira era uma e passou a ser outra depois dele. Suas 12 faixas nos apresentam à revolução estética promovida, principalmente, por João Gilberto e Antônio Carlos Jobim. O disco é do primeiro, mas não existiria sem o segundo, suas canções e seus arranjos.

A batida do violão, ouvida antes acompanhando Elizeth Cardoso em Canção do Amor Demais, e o canto contido de João redimensionaram o samba e projetaram a música do Brasil num cenário que seria transformado por ela. O que ouvimos naquele disco está presente em muito do que os artistas brasileiros produziram nas décadas seguintes. Influência que se estendeu pelo mundo, na Europa, Japão e, sobretudo, no jazz americano.

O repertório de Chega de Saudade reúne músicas de Tom Jobim e seus parceiros (Vinícius de Moraes na faixa que dá título ao disco. Newton Mendonça em “Desafinado”), mas também de autores que ficaram conhecidos através da Bossa Nova, como o Carlos Lyra de “Maria Ninguém” e o Roberto Menescal de “Lobo Bobo”. Compositor bissexto, João Gilberto assina “Oba-lalá” e “Bim Bom” e relê duas fontes: o Ary Barroso de “É Luxo Só” e o Dorival Caymmi de “Rosa Morena”.

Ao LP Chega de Saudade, seguiram-se mais dois discos: O Amor, o Sorriso e a Flor e João Gilberto. Os três me parecem suficientes como tradução do que foi a Bossa Nova. Seminais, formam um conjunto de excepcional beleza e grande unidade. São tão indissociáveis quanto a fusão da voz de João Gilberto com a batida do seu violão.

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte e até o músico: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram.

É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista e sua invenção.

Roberto Carlos fez música para um exilado pela ditadura

Hoje (23) é dia de ver o especial de Roberto Carlos na Globo. Esse ano, o Rei canta com Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Por isso, conto essa história:

Um pouco antes do Tropicalismo, Maria Bethânia sugeriu a Caetano Veloso que prestasse atenção em Roberto Carlos e na Jovem Guarda. Ele conta, no livro de memórias Verdade Tropical, que “Bethânia, cujo não alinhamento com a Bossa Nova a deixava livre para aproximar-se de um repertório variado, me dizia explicitamente que seu interesse pelos programas de Roberto Carlos se devia à vitalidade que exalava deles, ao contrário do que se via no ambiente defensivo da MPB respeitável”. Caetano seguiu o conselho da irmã e incorporou a vitalidade que Bethânia enxergava em Roberto e na Jovem Guarda ao Tropicalismo, o movimento que, em 1968, lideraria ao lado de Gilberto Gil.

Sempre que voltamos aos tropicalistas, identificamos em Gil o interesse pela música nordestina, fruto, sobretudo, da temporada que passou no Recife pouco antes de se transformar num artista de dimensão nacional. O vínculo com Roberto Carlos e a Jovem Guarda deve ser atribuído a Caetano. É ele, afinal, que costuma mencionar a influência que o Rei exerceu no momento em que o Tropicalismo foi esboçado. Foi ele que mais assumiu uma postura de valorização do trabalho de Roberto Carlos, arriscadíssima no universo resguardado da esquerda pós-Bossa Nova. A gratidão de Roberto seria traduzida numa canção.

Preso (junto com Gil) em dezembro de 1968, depois confinado em Salvador e, finalmente, exilado na Inglaterra entre 1969 e 1972, Caetano Veloso, um dia, recebeu a visita de Roberto Carlos na sua casa em Londres. “Roberto veio com Nice, sua primeira mulher, e nós sentimos nele a presença simbólica do Brasil”, relata em Verdade Tropical. Caetano lembra que, “como um rei de fato, ele claramente falava e agia em nome do Brasil com mais autoridade (e propriedade) do que os milicos que nos tinham expulsado, do que a embaixada brasileira em Londres e muito mais do que os intelectuais, artistas e jornalistas que a princípio não nos entenderam e nos queriam agora mitificar: ele era o Brasil profundo”.

Durante a visita, Roberto Carlos levou Caetano às lágrimas quando, ao falar do seu novo disco (o LP que começa com As Flores do Jardim da Nossa Casa, lançado no Natal de 1969), pegou o violão e cantou As Curvas da Estrada de Santos, “dizendo, sem nenhuma insegurança, que iria nos agradar”. Caetano recorda que “essa canção extraordinária, cantada daquele jeito por Roberto, sozinho ao violão, na situação em que todos nós nos encontrávamos, foi algo avassalador para mim”. E diz que usou a barra do vestido preto de Nice para assoar o nariz e enxugar as lágrimas, enquanto, com ternura, o Rei o chamava de bobo. Roberto Carlos voltou para o Brasil pensando em Caetano e o homenageou com uma canção.

A música é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, lançada no final de 1971 no disco que tem Detalhes. Na época, pouca gente sabia que a canção havia sido composta para Caetano Veloso e falava do dia em que ele retornaria ao Brasil. A maioria achava que a letra era sobre uma mulher. A tristeza de um exilado que desejava voltar não fazia parte das conversas dos fãs do Rei. Do mesmo modo que a esquerda não atribuiria a Roberto Carlos a disposição de dedicar uma música a um artista que havia sido preso e mandado para fora do país. O seu distanciamento da MPB engajada parecia assegurar que ele não agiria assim.

“Uma história pra contar de um mundo tão distante” ou “você olha tudo e nada lhe faz ficar contente/você só deseja agora voltar pra sua gente”. Ou ainda: “você anda pela tarde e o seu olhar tristonho/deixa sangrar no peito uma saudade, um sonho”. Os versos soaram claros quando Caetano, aos 50 anos, revelou a origem da canção. No período mais duro do regime militar, Roberto fez música para um exilado e foi seu porta-voz ao gravar Como Dois e Dois. De um lado, o gesto solidário que vale por muitas canções engajadas. Do outro, o intérprete trazendo para o Brasil profundo o que Caetano sentia no exílio: “tudo vai mal, tudo/tudo é igual quando eu canto e sou mudo”.

100 anos de “Pelo Telefone”. 100 anos do samba

O samba está fazendo 100 anos.

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A comemoração toma como parâmetro a gravação do primeiro samba, Pelo Telefone. Donga e Mauro de Ameida. Novembro de 1916. Sucesso no carnaval de 1917.

Claro que o samba já existia antes de Pelo Telefone. É uma data. Mas é importante comemorar.

Não precisa teorizar. A poesia traduz o gênero:

O samba é pai do prazer

O samba é filho da dor

O grande poder transformador!

O samba é a mais importante manifestação da música popular do Brasil. E não sejamos ortodoxos. O samba atravessando o tempo, com todas as transformações a que foi submetido e todas as influências que exerceu.

Samba. Samba de roda. Samba enredo. Samba choro. Samba exaltação. Samba de breque. Partido alto. Samba canção. Bossa Nova. Samba jazz. Samba esquema novo. Sambolero. Sambalanço. Sambaião. Samba rock. Samba soul. Samba reggae. Samba funk. Samba paulistano. Pagode. Samba em tom maior. Samba em tom menor.

Essa lista aí, poderíamos chamar de os sambas do samba.

Na minha coluna na CBN João pessoa, fiz uma brincadeira que chamei de o samba nos sambas. São sambas que têm a palavra samba no título. Escolhi alguns:

O samba da minha terra

Samba de Ofeu

Samba de uma nota só

Só danço samba

Samba do avião

Samba do carioca

Samba de verão

Samba triste

Samba em prelúdio

Na cadência do samba

Samba do Arnesto

Samba italiano

Samba erudito

Samba da pergunta

Samba de Orly

Samba de Los Angeles

Samba e amor

Samba do grande amor

Samba dobrado

Samba de gago

O samba de Maria Luíza

Samba do approach

Desde que o samba é samba

E, claro, o Samba da bênção, com seus grandes versos e suas justíssimas homenagens!

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Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais no coração!

Box “Convite Para Ouvir Maysa” traz voz acima do bem e do mal

Sabem Ne Me Quitte Pas? É uma das mais belas canções do mundo. Foi gravada pelo autor, o belga Jacques Brel, por Nina Simone e Ray Charles. Tem dezenas de registros em vários idiomas.

Conhecem a gravação de Maysa? Quem conhece, sabe muito bem: é prova inconteste de que a cantora brasileira é uma intérprete extraordinária, que seria reconhecida como grande cantora em qualquer lugar do mundo.

Maysa teria feito 80 anos agora em 2016. Quando morreu, num acidente de carro, tinha 40.

Em homenagem aos seus 80 anos, um box de quatro CDs, com a série completa “Convite Para Ouvir Maysa”, acaba de ser lançado pela Som Livre.

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Os olhos? A boca? Os cabelos? Quem é essa mulher? Alguém segue esse caminho para tentar explicá-la num dos encartes.

Sim! Os olhos! A boca! Os cabelos! Certamente! Mas, sobretudo, a voz!

A voz e o que ela traduz: as tristezas, a angústia, os desamores.

Não quero estabelecer comparações. Essa é mais, essa é menos. Não. Mas Maysa é de uma linhagem à qual pertencem Billie Holiday, Edith Piaf, Janis Joplin, Elis Regina, Amy Winehouse. Cada uma no seu lugar,  no seu tempo e com seus talentos específicos.

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Os quatro discos da série “Convite Para Ouvir Maysa” foram gravados entre 1956 e 1959. Flagram o início da carreira de Maysa. Têm músicas dela, canções de Tom Jobim que depois se tornariam verdadeiros clássicos do nosso cancioneiro e o repertório romântico, de fossa, do Brasil pré Bossa Nova.

Os arranjos envelheceram. Claro. Algumas canções, também. Outras cresceram na medida em que atravessaram o tempo. Mas o conjunto é muito bom. Traz a jovem Maysa (entre os 20 e os 23 anos), dividida entre o casamento e a carreira, cantando feito gente grande!

Sua carreira, a rigor, não deu certo. Sua vida não deu certo. Maysa foi consumida pela solidão e pelo álcool. Quando morreu, tinha uma trajetória de duas décadas e estava em declínio.

Uma pena! Mas a reaudição desse box confirma o que sabemos há muito tempo: que seu canto está acima do bem e do mal!

Paulinho da Viola, a nobreza carioca, guardião do samba e do choro

“Olá, como vai?” é a pergunta.

“Eu vou indo, e você? Tudo bem?” é a resposta.

E começa o diálogo breve de frases curtas. Duas pessoas conversando, paradas num sinal vermelho.

Na verdade, uma letra de música. Sim, uma obra-prima da canção popular brasileira.

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É “Sinal Fechado”, que o carioca Paulinho da Viola compôs em 1969, quando estava iniciando a sua carreira fonográfica. Um sambista ligado à tradição do gênero surpreendia a todos ao escrever algo como “Sinal Fechado”.

Originalíssima, ousada, moderna. Digna da turbulência e da criatividade da época em que foi composta. Metáfora da noite em que vivíamos. Comentário sobre a incomunicabilidade humana. A música de Paulinho venceu um festival, provocou polêmica e confirmou que, ao seu modo, ele também estava antenado com as novidades da música popular de então.

Garoto ligado no rock e nos tropicalistas, tive uma certa resistência quando ouvi Paulinho da Viola pela primeira vez, entre o final da década de 1960 e o começo da de 1970. Os sambas que eu consumia eram os da Bossa Nova, os de Chico Buarque e os de Jorge Ben. Paulinho soou duro demais. Faltava entender muitas outras coisas da complexidade da nossa música popular para incorporá-lo aos meus discos.

“Sinal Fechado” ajudou. Como o viva de Caetano a ele, na letra de “A Voz do Morto”. Talvez pela percepção de que aquele cara que fazia sambas tradicionais também era moderno. Também se deixara influenciar, ainda que remotamente, por seus contemporâneos. Sei hoje que não era preciso tanta complicação para ouvi-lo. Bastava render-se ao seu talento e à sua elegância. O que, felizmente, fiz a tempo.

Na discografia de Paulinho da Viola, prefiro a fase da velha Odeon. Os 11 discos gravados durante cerca de 10 anos, a partir do final da década de 1960. A essência do seu trabalho está naquela fase, bem como suas melhores músicas.

“Nervos de Aço” se destaca na comparação com os outros. Também os dois volumes intitulados “Memórias”. Um é “Cantando”. O outro, “Chorando”. Paulinho nos leva a ouvir velhos sambas que conheceu quando era garoto e choros que seu pai – violonista do conjunto de Jacob do Bandolim, o Época de Ouro – executava com os amigos.

Este é, com certeza, um dos papéis desempenhados por ele em sua trajetória: chamar nossa atenção para a tradição do samba carioca e para o choro, grande expressão da música instrumental produzida pelos brasileiros.

Vi Paulinho da Viola ao vivo muitas vezes. Quando a turnê do projeto “Memórias” passou por João Pessoa, em meados dos anos 1970, ele contou à plateia que lotava o Teatro Santa Roza a história da chegada de Canhoto da Paraíba ao Rio, no final da década de 1950. Nunca esqueci o seu depoimento sobre o impacto que Canhoto provocou entre os chorões cariocas.

Naquela noite, como em muitas outras, quem estava na sua banda era o flautista Nicolino Cópia, o Copinha, figura lendária do mundo do choro, o músico que fez o solo da introdução de “Chega de Saudade” na gravação de João Gilberto.

Era o show em que ouvíamos sua versão de “Pra que Mentir”, de Noel e Vadico. E um novo arranjo para “Coisas do Mundo, Minha Nega”, um dos seus grandes sambas.

Sábado (22) que vem, Paulinho da Viola traz ao teatro A Pedra do Reino o show comemorativo dos seus 50 anos de carreira.

Top 5 das músicas em homenagem a Campina Grande. Parabéns CG!

O forró morou em Campina Grande, dizia um amigo meu com ótimo ouvido musical. Dos grandes nomes do gênero, muitos moraram lá. Ou passaram por lá em momentos importantes. Praticamente todos construíram laços afetivos e profissionais com a cidade que foram determinantes em suas carreiras.

Hoje é aniversário de Campina Grande. E a minha homenagem, naturalmente, é com música: um top 5 das músicas compostas para a Rainha da Borborema.

Começo com Tropeiros da Borborema na voz de Luiz Gonzaga.

Com Jackson do Pandeiro, Alô Campina Grande.

Jackson gravou Bodocongó, mas, no meu top 5, vai a versão de Elba Ramalho.

De Elba para Marinês. Saudade de Campina Grande. Saudades de Marinês!

E para terminar, a Rainha da Borborema vista de longe, por um nome da segunda geração da Bossa Nova. Marcos Valle com o baião Campina Grande.

Parabéns, Campina Grande!

Miles Davis, último gênio do jazz, morreu há 25 anos

Nesta quarta-feira (28), faz 25 anos da morte de Miles Davis.

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Foi o último gênio do jazz. Depois de Miles, não surgiu ninguém com a sua dimensão. Quantas revoluções podem ser atribuídas a ele? A resposta é que ninguém esteve à frente de tantas transformações no universo jazzístico. Três, pelo menos. Talvez quatro. Entre o cool e a fusion, em pouco mais de 20 anos. Alguns discos essenciais marcam estes momentos, mas o melhor é ouvi-lo em sua extensa discografia, com algumas obras-primas, altos e baixos, erros e acertos. No virtuosismo ou na contenção. Do jeito que ele era.

É bom conversar com Gilberto Gil sobre Miles Davis. Eles eram amigos. Quando se encontravam, nos Estados Unidos ou na Europa, Miles sempre perguntava pelo albino. Referia-se a Hermeto Pascoal, com quem tocou na época em que fundiu o jazz com o rock. E de quem gravou Igrejinha. No repertório de Gil, tinha uma preferência: o Rock do Segurança. Gostava daquela introdução “esgarçada”. Exilado na Inglaterra, Gil foi levado por Miles para cumprimentar Jimi Hendrix. O maior de todos os guitarristas morreria dias depois. A outro brasileiro, albino como Hermeto, passou um telegrama dizendo que estava reconciliado com a sanfona, instrumento que detestava. O destinatário: Sivuca.

Miles Davis era um sujeito atormentado. Inconformado com o preconceito racial. E vítima dele num episódio de violência que envergonha os Estados Unidos. No intervalo de um show, em frente a uma casa noturna, foi brutalmente espancado, sob o pretexto de que fora confundido com um “desocupado”. Trocou a América pela França, grande reduto do jazz. Lá, recebeu as honras que lhe faltavam no seu país. E gravou a trilha do filme Ascenseur Pour L’Échafaud. Mas foi com os músicos americanos que atingiu os pontos altos de sua trajetória. Com pequenas ou grandes formações, acústico ou elétrico, revolucionando ou degustando a transformação. Multifacetado e genial.

Li algo sobre três “casamentos” na música americana: o de Frank Sinatra com o arranjador Nelson Riddle, o de Duke Ellington com seu parceiro Billy Strayhorn e o de Miles Davis com o maestro Gil Evans. São uniões exemplares que, no século XX, tornaram a música do mundo mais rica e mais bela. Davis e Evans fizeram quatro discos juntos. Foram de George Gershwin à Bossa Nova, mexendo com os conceitos do arranjo jazzístico, explorando timbres que ainda hoje impressionam, embora mais de meio século nos separe daquelas gravações.

Três discos nos apresentam ao que há de mais importante na música de Miles Davis, o que foi mais revolucionário: Birth of the Cool, Kind of Blue e Bitches Brew. Este último promove a fusão do jazz com o rock. Rompe e une a um só tempo. É ousado, radical e definidor do som que Miles produziria dali por diante. A fusão eletrifica o jazz, mas a performance de Davis tem uma contenção que é o oposto do virtuosismo. Como se uma nota valesse por mil.

Portrait of US jazz trumpet player Miles Davis taken 06 July 1991 in Paris. Portrait du trompettiste de jazz Miles Davis pris lors d'un concert le 06 juillet 1991 à la Halle de la Villette à Paris. (Photo credit should read PATRICK HERTZOG/AFP/GettyImages)

No fim da vida, em sua última apresentação no Festival de Montreux, Miles Davis voltou ao passado. Regido por Quincy Jones, tocou o repertório que gravara com Gil Evans. Foi seu concerto de despedida.

Nelson Motta vai receber prêmio especial no Grammy Latino. Justíssima homenagem!

Nelson Motta vai receber um prêmio especial na cerimônia do Grammy Latino que será realizada em novembro nos Estados Unidos. A homenagem, anunciada nesta quinta-feira (08), é por sua contribuição à indústria do disco.

Nelson Motta, de 71 anos, é jornalista, escritor, produtor musical e compositor. Veio da Bossa Nova, passou pela MPB, pelo rock. Teve presença marcante em tudo o que fez, revelou grandes talentos, ajudou a consolidar outros, fez crítica de música, escreveu livros.

Amigo dos artistas, querido e respeitado, é uma figura importante da cena cultural brasileira. Justíssima a homenagem que vai receber do Grammy latino.

Na foto que escolhi para postar, histórica, temos o jovem Nelson Motta ao centro, junto de duas ou três gerações da música popular do Brasil. Braguinha, Vinícius, Tom, Chico, Caetano.

Nelson Motta e a turma toda