No Aniversário de Jobim, o Maestro Soberano década a década

Se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim faria 92 anos nesta sexta-feira (25).

Vamos revisitá-lo década a década?

Anos 1950

O Tom que o Brasil e o mundo conheceram começa quando, em 1956, nasce a parceria com Vinícius de Moraes em Orfeu da Conceição. Uma bela síntese do que fizeram está no disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, lançado em 1958. Em duas faixas, o violão de João Gilberto oferece o esboço da Bossa Nova. Em seguida (1959), Chega de Saudade, o LP de João arranjado por Jobim, reinventa o samba e muda para sempre a música popular brasileira.

Anos 1960

A Bossa Nova projeta internacionalmente a música brasileira. Gravado nos Estados Unidos, o primeiro disco de Jobim (The Composer of Desafinado Plays) parece um greatest hits. O LP Getz/Gilberto divulga Garota de Ipanema, de Tom e Vinícius, em escala planetária. Frank Sinatra grava um disco com Jobim, que, no Brasil, é vaiado porque seu protesto político (dividido com Chico Buarque) não é tão explícito quanto o de Geraldo Vandré.

Anos 1970

Na virada dos 60 para os 70, Tom faz discos nos quais predominam os temas instrumentais. Depois vem o seminal Matita Perê (1973). O maestro grava Águas de Março, verdadeira obra-prima do seu cancioneiro. É um popular que dialoga com o erudito, sob a batuta de Claus Ogerman. Fala em ecologia antes que a palavra fosse moda, chama de Urubu seu novo disco. Passa um ano em cartaz com Vinícius, Toquinho e Miucha, no palco do Canecão.

Anos 1980/90

Mundialmente consagrado, nem sempre reconhecido com justiça no Brasil. Forma a Banda Nova, o grupo que divide palcos e estúdios com Tom em sua última década de vida. Seus shows pelo mundo e seus derradeiros discos (Tom Jobim InéditoPassarim, Antônio Brasileiro) são uma celebração da grande música que criou. Revistos e reouvidos hoje, confirmam o seu extraordinário legado, a infinita beleza e a permanência da sua obra.

*****

Nascido em Nova York, George Gershwin, mestre da música americana, fez do jazz uma de suas fontes. Nascido no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil. Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa. Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Mas há, sobretudo, o amor à música e uma crença singular nos destinos do Brasil!

Viva o Maestro Soberano!

Hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa. Marcos Valle faz 75 anos

Marcos Valle faz 75 anos nesta sexta-feira (14).

Ele é um dos grandes nomes da segunda geração da Bossa Nova.

Hoje a festa é sua

Hoje a festa é nossa

É de quem quiser

De quem vier

Milhões de brasileiros conhecem muito bem essa canção que, há mais de quatro décadas, é usada nas mensagens de Natal e ano novo da Rede Globo. O que muita gente não sabe é que o autor dessa melodia é Marcos Valle.

Esse cara que hoje faz 75 anos é um dos craques da música popular do Brasil. Craque da melodia bem construída, craque da harmonia refinada, Valle, com seu piano cheio de suingue, tem seu nome associado à Bossa Nova, mas ele frequentou outros territórios em sua longa trajetória.

No seu vasto songbook, tem bossa e tem soul, canção de protesto e nova toada, tem jazz, rock, baião e até o pop ultracomercial que tocou nas academias.

Um resumo para ouvir e reouvir Marcos Valle? Vamos lá!

Samba de Verão. Você viu só que amor, nunca vi coisa assim.

Preciso Aprender a Ser Só. Ah, se eu te pudesse fazer entender, sem teu amor eu não posso viver.

Viola Enluarada. A mão que toca um violão, se for preciso faz a guerra.

Terra de Ninguém. Mas o dia vai chegar, que o mundo vai saber, não se vive sem se dar.

Black Is Beautiful. Hoje cedo, na rua do Ouvidor, quantos brancos horríveis eu vi.

Mustang Cor de Sangue. Amo em ferro e sangue um Mustang cor de sangue.

Marcos Valle com Eumir Deodato ao seu lado. Marcos Valle cantando Something com Sarah Vaughan no disco que a diva dedicou aos Beatles. Marcos Valle chamando de Campina Grande aquele baião irresistível.

Marcos Valle arrebentando nas pistas de dança do mundo com Os Grilos. Bem, eu faço o que quiser, se você for minha até morrer.

Marcos Valle hoje? No reencontro com Edu Lobo e Dori Caymmi, contemporâneos com quem formou um grupo na juventude. Nos arranjos do disco em que Fernanda Takai faz o lado B de Tom Jobim.

Marcos Valle! Moderno! Permanente! Salve!

PAUL McCARTNEY NÃO SABE FAZER MÚSICA BRASILEIRA!

Em 1959, Chuck Berry fez Back in The USA.

Em 1968, Paul McCartney fez Back in The USSR, que abre o Álbum Branco dos Beatles.

O rock de Paul é um pastiche de Berry e também dos Beach Boys.

Foi sugerido ao autor por um dos integrantes dos Beach Boys. Seria (e é) uma versão soviética do rock de Berry.

50 anos se passaram, e Paul McCartney agora fez Back in Brazil.

A música foi composta numa das muitas passagens dele pelo Brasil.

Paul conta que compôs a música num piano que havia no quarto do hotel onde estava hospedado. Era dia de folga, sem show, e ele escreveu a canção.

Back in Brazil tenta parecer música brasileira. Se quisermos, remete a uma entrevista em que McCartney disse que queria tomar uma lições de Bossa Nova. A julgar pela canção, não deve ter tomado.

Paul McCartney é maravilhoso! É um dos meus heróis! Mas, definitivamente, não sabe fazer música brasileira. Do mesmo modo que Mick Jagger e Keith Richards, que, há 50 anos, fizeram Sympathy for the Devil pretendendo que fosse um samba.

O Brasil de Paul McCartney, em Back in Brazil, é o Brasil visto por um turista estrangeiro que está muitíssimo longe de saber quem somos.

O gesto do grande músico é bacana, é simpático, mas o resultado é de uma superficialidade que incomoda. Ainda mais quando a gente assiste ao vídeo da canção.

Back in The USSR virou um clássico dos Beatles.

Duvido que Back in Brazil vire um clássico de Paul McCartney.

ISTO É BOSSA NOVA. ISTO É MUITO NATURAL

Para comemorar os 60 anos da Bossa Nova, escrevi um texto que foi dividido em várias partes para publicação aqui na coluna. 

Hoje, junto cada pedaço e disponibilizo o texto integral. 

A Bossa Nova completa 60 anos agora em 2018.

Há quem defenda o argumento de que seria em 2019, no sexagésimo aniversário do lançamento do LP Chega de Saudade, de João Gilberto.

Fiquemos, no entanto, com 2018 porque foi em 1958 que Elizeth Cardoso lançou Canção do Amor Demais, disco dedicado à parceria de Antônio Carlos Jobim com Vinícius de Moraes.

Neste disco, está registrada pela primeira vez a batida da bossa ao violão: seu criador, João Gilberto, acompanha Elizeth em Chega de Saudade e Outra Vez.

Um pouco depois, em julho de 1958, o próprio João fez o seu registro de Chega de Saudade num 78 rpm da Odeon.

A gravação seria uma espécie de manifesto do movimento que mudou a música popular do Brasil e efetivamente lhe deu dimensão internacional.

Além de ter fornecido inúmeras razões para que nos orgulhássemos dela.

Um cantor e seu violão.

Um compositor quer quis ser arquiteto e estudou piano clássico.

Um poeta que resolveu fazer letra de música popular.

João Gilberto.

Antônio Carlos Jobim.

Vinícius de Moraes.

Há outros. Mas, se quisermos eleger apenas três nomes, são estes os que melhor representam a Bossa Nova.

E há um ano crucial, antes das gravações que servem de referência para que se comemorem as seis décadas do movimento: 1956, o ano de Orfeu da Conceição.

O espetáculo que transportava o mito grego de Orfeu para os morros do Rio promoveu o encontro de Tom e Vinícius e fez nascer uma das grandes parcerias da nossa música popular.

Sem ela e sem os sambas que João cantava acompanhado ao violão, não haveria Bossa Nova, apesar dos outros cantores, compositores e instrumentistas também inseridos no ambiente que permitiu o seu surgimento.

INFLUÊNCIA DO JAZZ

Os críticos da Bossa Nova, muito por causa do sucesso obtido nos Estados Unidos, costumam apontar a influência do jazz como um dos defeitos da bossa.

Alguns identificam nas canções de Tom Jobim características que remetem a compositores eruditos da Europa (de Chopin a Debussy) e as consideram negativas.

Há também os que a rejeitam porque ela teria nascido em reuniões nos apartamentos da Zona Sul do Rio de Janeiro e, por esta razão, seria uma música fútil e distante da realidade brasileira.

Uma série de teses que atentam contra o bom senso, mas que exibem uma impressionante capacidade de sobrevivência num país em que é mais fácil reconhecer os méritos de Garrincha do que os de Pelé.

60 anos já se passaram, e elas continuam vivas. E é a elas que comumente recorrem os que querem detratar algo que figura entre o que o Brasil produziu de melhor.

Pixinguinha, cuja brasilidade ninguém mais questiona, era criticado na década de 1920 por ser jazzista. Antes de ganhar a letra de Braguinha, o tema instrumental Carinhoso foi considerado jazzístico.

No caso da Bossa Nova, existe, sim, influência da música dos negros americanos, menos em Jobim e em João Gilberto do que nos grupos que difundiram entre nós o chamado samba-jazz. Mas é necessário lembrar que a inserção da bossa nos Estados Unidos foi tão marcante que não há como negar que esta também influenciou o jazz.

A presença dos eruditos europeus na obra de Tom é verdadeira, mas não é maior do que a de Villa-Lobos e seu imenso amor pelas coisas do brasil.

A Bossa Nova não pode ser diminuída pela influência do jazz, nem pelos eruditos que Jobim estudou ao piano. Muito menos pelos encontros nos apartamentos da Zona Sul.

SÓ DANÇO SAMBA

O samba tem muitas facetas. Há o samba de roda da Bahia, o samba-enredo das escolas do Rio de Janeiro, o samba-choro, o samba-canção, o samba de breque, o samba-exaltação, o samba paulistano de Adoniran Barbosa. Eles são diferentes, têm características próprias, mas não deixam de ser samba.

A Bossa Nova, antes de qualquer outra coisa, é samba. E de beira de praia, como diz Chico Buarque.

Se tomarmos como parâmetro os três primeiros discos de João Gilberto para a Odeon, o que vamos encontrar neles é o samba acrescido de outros elementos – harmônicos, rítmicos, poéticos. Uma batida absolutamente original ao violão (e isto até José Ramos Tinhorão, crítico rigoroso do movimento, reconheceu), arranjos de orquestra que não eram comuns antes da Bossa, um jeito intimista de cantar.

Dados que se incorporaram ao samba e o redimensionaram, fazendo nascer, então, o samba Bossa Nova.

Os bossanovistas produziram uma versão refinadíssima do samba, o mais popular dos nossos gêneros musicais. A Bossa Nova revelou em João Gilberto um intérprete perfeccionista, que influenciou cantores e violonistas no mundo inteiro e consolidou a carreira de Tom Jobim, que, sem qualquer favor, é frequentemente citado como um dos maiores compositores populares do século XX. Já Vinícius de Moraes escreveu letras que o colocam entre os grandes do nosso cancioneiro.

E há uma extensa lista de figuras que se notabilizaram a partir da Bossa. Ou apareceram depois, fazendo um tipo de trabalho que só foi possível por causa da invenção contida em dois sambas de Tom: Chega de Saudade e Desafinado.

UM CANTINHO, UM VIOLÃO

No Brasil, são muitos os artistas que falam do impacto produzido pela primeira audição de Chega de Saudade e Desafinado. De Chico Buarque a Gilberto Gil. De Edu Lobo a Caetano Veloso. De Milton Nascimento a Roberto Carlos.

Todos devem alguma coisa às canções de Jobim, à voz e ao violão de João Gilberto, à sonoridade daquelas gravações. A verdade é que, em algum momento, todos quiseram fazer Bossa Nova. E, mesmo nos que se distanciaram tanto dela, como é o caso de Roberto Carlos, não será difícil identificar lições da bossa, seja no intimismo que há no seu canto, seja no perfeccionismo que o acompanha pelos palcos e estúdios.

Caetano Veloso não faz segredo da sua verdadeira devoção a João Gilberto e escolhe Chega de Saudade como a música que mais o influenciou. Enquanto Chico Buarque diz que deve quase tudo a Jobim, a quem um dia chamou de maestro soberano.

Fora do Brasil, quem popularizou a Bossa Nova foi um disco do saxofonista Stan Getz com o guitarrista Charlie Byrd: Jazz Samba, de 1962. A versão deles para Desafinado conquistou as paradas.

No mesmo ano, o êxito do show coletivo que os brasileiros fizeram em Nova York confirmou que a Bossa Nova não ficaria limitada ao nosso mercado.

Em seguida, João Gilberto e Stan Getz gravaram o LP Getz/Gilberto, que difundiu internacionalmente Garota de Ipanema, e Tom Jobim pôde, afinal, ter um disco solo: The Composer of Desafinado Plays. A revista Down Beat disse que somente este LP justificaria a existência do movimento.

Ouvido hoje por quem não conhece a história, ele soa como uma coletânea porque suas faixas se tornaram muito conhecidas, clássicos populares. Mas The Composer não é uma compilação, um The Best. Apenas revela o talento de Tom Jobim de escrever músicas para a posteridade.

COISA MAIS LINDA

Vinícius de Moraes trocou Tom Jobim por outros parceiros: o inspirado melodista Carlos Lyra e Baden Powell, com quem gravou a série de afro-sambas.

Nara Leão, ao gravar seu primeiro disco, estabeleceu um diálogo com os sambistas tradicionais, como Zé Keti, Cartola e Nelson Cavaquinho.

Sérgio Mendes, antes de produzir, nos Estados Unidos, uma versão ultracomercial da bossa, montou o sexteto Bossa Rio.

Por trás do grupo, em seu extraordinário disco de estreia (Você ainda não ouviu nada!), estão os arranjos de Jobim e do maestro Moacir Santos.

Quando entraram em cena, um pouco mais na frente, os jovens Edu Lobo e Chico Buarque traziam em suas músicas as sugestões que estavam lá atrás – em Tom, João, Vinícius, Lyra, Menescal, Baden.

A Bossa Nova, como movimento, já havia passado, mas a sua influência se faria sentir, nas décadas seguintes, mesmo onde não parece existir qualquer sinal dela.

CANÇÕES E NOMES

Na longa lista das músicas que marcaram a Bossa Nova, estão na frente as de Antônio Carlos Jobim, escritas em parceria com Vinícius de Moraes, Newton Mendonça ou sem parceiros:

Chega de Saudade

Desafinado

Samba de uma Nota Só

Corcovado

Insensatez

Garota de Ipanema

Samba do Avião

O Morro Não Tem Vez

Água de Beber

Só Danço Samba

Meditação

O Amor em Paz

Há as de Carlos Lyra (Coisa Mais Linda, Se É Tarde me Perdoa, Saudade Fez um Samba, Você e Eu, Lobo Bobo, Influência do Jazz), as de Roberto Menescal (O Barquinho, Você), as de Johnny Alf (Rapaz de Bem, Ilusão à Toa), as de Marcos Valle (Samba de Verão, Eu Preciso Aprender a Ser Só).

E muitas outras, dezenas e dezenas que poderíamos mencionar, além dos grandes temas instrumentais e dos desdobramentos da bossa.

Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes abrem a lista dos nomes da Bossa Nova.

E nela estão: Carlos Lyra, Roberto Menescal, Johnny Alf, Ronaldo Bôscoli, João Donato, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Baden Powell, Astrud Gilberto, Nara Leão, Sílvia Telles, Maysa, Agostinho dos Santos, Oscar Castro Neves, Luiz Bonfá, Dick Farney, Zimbo Trio, Tamba Trio, Aloysio de Oliveira.

No Brasil, depois nos Estados Unidos, mais tarde na Europa e no Japão, eles espalharam os sons da Bossa Nova pelo planeta, as melodias que representam o Brasil internacionalmente e que são ouvidas até hoje, passadas seis décadas desde que João Gilberto gravou Chega de Saudade.

É PROMESSA DE VIDA NO TEU CORAÇÃO

Nos anos 1950, Ella Fitzgerald gravou os songbooks dos grandes compositores americanos do século XX. Naqueles discos, está uma parte significativa do melhor cancioneiro popular do mundo.

No início da década de 1980, como se algo estivesse incompleto, a dama do jazz fez o songbook de Antônio Carlos Jobim. Ella Abraça Jobim.

Antes, na segunda metade dos anos 1960, Tom dividira um disco com Frank Sinatra, o maior cantor popular do século passado. Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim.

Os dois discos – o de Ella e o de Sinatra – podem ser tomados como síntese da dimensão internacional da Bossa Nova.

Em 2000, quando se apresentou em Londres, João Gilberto foi visto por Eric Clapton. O guitarrista, um dia chamado de “Deus”, ficou tão impressionado que resolveu compor uma bossa (Reptile). Fez mais: na sua turnê mundial do ano seguinte, abria o show num banquinho, tocando um blues e seu samba Bossa Nova.

A despeito do êxito internacional, a Bossa Nova está identificada com um projeto de Brasil, independente do que pensam seus críticos e até mesmo à revelia de muitos dos seus protagonistas.

Não é por acaso que o destino do Brasil e dos brasileiros está presente de forma tão nítida na obra a um só tempo exuberante e profunda de Antônio Carlos Jobim.

Tom foi um grande brasileiro, e o movimento do qual participou como fundador fala do que somos capazes com o nosso talento e as nossas singularidades.

Fecho com um texto do jornalista Luiz Fernando Vianna:

A Bossa Nova espelha um Brasil ideal. Nacional e cosmopolita, silencioso e capaz de mexer no som do mundo. Leve e profundo. Temos ou devíamos ter a Bossa Nova como um espelho do que devíamos ser. 

 

BOSSA NOVA 60: É promessa de vida no teu coração

Nos anos 1950, Ella Fitzgerald gravou os songbooks dos grandes compositores americanos do século XX. Naqueles discos, está uma parte significativa do melhor cancioneiro popular do mundo.

No início da década de 1980, como se algo estivesse incompleto, a dama do jazz fez o songbook de Antônio Carlos Jobim. Ella Abraça Jobim.

Antes, na segunda metade dos anos 1960, Tom dividira um disco com Frank Sinatra, o maior cantor popular do século passado. Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim.

Os dois discos – o de Ella e o de Sinatra – podem ser tomados como síntese da dimensão internacional da Bossa Nova.

Em 2000, quando se apresentou em Londres, João Gilberto foi visto por Eric Clapton. O guitarrista, um dia chamado de “Deus”, ficou tão impressionado que resolveu compor uma bossa (Reptile). Fez mais: na sua turnê mundial do ano seguinte, abria o show num banquinho, tocando um blues e seu samba Bossa Nova.

A despeito do êxito internacional, a Bossa Nova está identificada com um projeto de Brasil, independente do que pensam seus críticos e até mesmo à revelia de muitos dos seus protagonistas.

Não é por acaso que o destino do Brasil e dos brasileiros está presente de forma tão nítida na obra a um só tempo exuberante e profunda de Antônio Carlos Jobim.

Tom foi um grande brasileiro, e o movimento do qual participou como fundador fala do que somos capazes com o nosso talento e as nossas singularidades.

Fecho com um texto do jornalista Luiz Fernando Vianna:

A Bossa Nova espelha um Brasil ideal. Nacional e cosmopolita, silencioso e capaz de mexer no som do mundo. Leve e profundo. Temos ou devíamos ter a Bossa Nova como um espelho do que devíamos ser. 

ESTE TEXTO ENCERRA UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Canções e nomes

Na longa lista das músicas que marcaram a Bossa Nova, estão na frente as de Antônio Carlos Jobim, escritas em parceria com Vinícius de Moraes, Newton Mendonça ou sem parceiros:

Chega de Saudade

Desafinado

Samba de uma Nota Só

Corcovado

Insensatez

Garota de Ipanema

Samba do Avião

O Morro Não Tem Vez

Água de Beber

Só Danço Samba

Meditação

O Amor em Paz

Há as de Carlos Lyra (Coisa Mais Linda, Se É Tarde me Perdoa, Saudade Fez um Samba, Você e Eu, Lobo Bobo, Influência do Jazz), as de Roberto Menescal (O Barquinho, Você), as de Johnny Alf (Rapaz de Bem, Ilusão à Toa), as de Marcos Valle (Samba de Verão, Eu Preciso Aprender a Ser Só).

E muitas outras, dezenas e dezenas que poderíamos mencionar, além dos grandes temas instrumentais e dos desdobramentos da bossa.

Tom Jobim, João Gilberto e Vinícius de Moraes abrem a lista dos nomes da Bossa Nova.

E nela estão: Carlos Lyra, Roberto Menescal, Johnny Alf, Ronaldo Bôscoli, João Donato, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Baden Powell, Astrud Gilberto, Nara Leão, Sílvia Telles, Maysa, Agostinho dos Santos, Oscar Castro Neves, Luiz Bonfá, Dick Farney, Zimbo Trio, Tamba Trio, Aloysio de Oliveira.

No Brasil, depois nos Estados Unidos, mais tarde na Europa e no Japão, eles espalharam os sons da Bossa Nova pelo planeta, as melodias que representam o Brasil internacionalmente e que são ouvidas até hoje, passadas seis décadas desde que João Gilberto gravou Chega de Saudade.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Coisa mais linda

Vinícius de Moraes trocou Tom Jobim por outros parceiros: o inspirado melodista Carlos Lyra e Baden Powell, com quem gravou a série de afro-sambas.

Nara Leão, ao gravar seu primeiro disco, estabeleceu um diálogo com os sambistas tradicionais, como Zé Keti, Cartola e Nelson Cavaquinho.

Sérgio Mendes, antes de produzir, nos Estados Unidos, uma versão ultracomercial da bossa, montou o sexteto Bossa Rio.

Por trás do grupo, em seu extraordinário disco de estreia (Você ainda não ouviu nada!), estão os arranjos de Jobim e do maestro Moacir Santos.

Quando entraram em cena, um pouco mais na frente, os jovens Edu Lobo e Chico Buarque traziam em suas músicas as sugestões que estavam lá atrás – em Tom, João, Vinícius, Lyra, Menescal, Baden.

A Bossa Nova, como movimento, já havia passado, mas a sua influência se faria sentir, nas décadas seguintes, mesmo onde não parece existir qualquer sinal dela.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Um cantinho, um violão

No Brasil, são muitos os artistas que falam do impacto produzido pela primeira audição de Chega de Saudade e Desafinado. De Chico Buarque a Gilberto Gil. De Edu Lobo a Caetano Veloso. De Milton Nascimento a Roberto Carlos.

Todos devem alguma coisa às canções de Jobim, à voz e ao violão de João Gilberto, à sonoridade daquelas gravações. A verdade é que, em algum momento, todos quiseram fazer Bossa Nova. E, mesmo nos que se distanciaram tanto dela, como é o caso de Roberto Carlos, não será difícil identificar lições da bossa, seja no intimismo que há no seu canto, seja no perfeccionismo que o acompanha pelos palcos e estúdios.

Caetano Veloso não faz segredo da sua verdadeira devoção a João Gilberto e escolhe Chega de Saudade como a música que mais o influenciou. Enquanto Chico Buarque diz que deve quase tudo a Jobim, a quem um dia chamou de maestro soberano.

Fora do Brasil, quem popularizou a Bossa Nova foi um disco do saxofonista Stan Getz com o guitarrista Charlie Byrd: Jazz Samba, de 1962. A versão deles para Desafinado conquistou as paradas.

No mesmo ano, o êxito do show coletivo que os brasileiros fizeram em Nova York confirmou que a Bossa Nova não ficaria limitada ao nosso mercado.

Em seguida, João Gilberto e Stan Getz gravaram o LP Getz/Gilberto, que difundiu internacionalmente Garota de Ipanema, e Tom Jobim pôde, afinal, ter um disco solo: The Composer of Desafinado Plays. A revista Down Beat disse que somente este LP justificaria a existência do movimento.

Ouvido hoje por quem não conhece a história, ele soa como uma coletânea porque suas faixas se tornaram muito conhecidas, clássicos populares. Mas The Composer não é uma compilação, um The Best. Apenas revela o talento de Tom Jobim de escrever músicas para a posteridade.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA. 

BOSSA NOVA 60: Só danço samba

O samba tem muitas facetas. Há o samba de roda da Bahia, o samba-enredo das escolas do Rio de Janeiro, o samba-choro, o samba-canção, o samba de breque, o samba-exaltação, o samba paulistano de Adoniran Barbosa. Eles são diferentes, têm características próprias, mas não deixam de ser samba.

A Bossa Nova, antes de qualquer outra coisa, é samba. E de beira de praia, como diz Chico Buarque.

Se tomarmos como parâmetro os três primeiros discos de João Gilberto para a Odeon, o que vamos encontrar neles é o samba acrescido de outros elementos – harmônicos, rítmicos, poéticos. Uma batida absolutamente original ao violão (e isto até José Ramos Tinhorão, crítico rigoroso do movimento, reconheceu), arranjos de orquestra que não eram comuns antes da Bossa, um jeito intimista de cantar.

Dados que se incorporaram ao samba e o redimensionaram, fazendo nascer, então, o samba Bossa Nova.

Os bossanovistas produziram uma versão refinadíssima do samba, o mais popular dos nossos gêneros musicais. A Bossa Nova revelou em João Gilberto um intérprete perfeccionista, que influenciou cantores e violonistas no mundo inteiro e consolidou a carreira de Tom Jobim, que, sem qualquer favor, é frequentemente citado como um dos maiores compositores populares do século XX. Já Vinícius de Moraes escreveu letras que o colocam entre os grandes do nosso cancioneiro.

E há uma extensa lista de figuras que se notabilizaram a partir da Bossa. Ou apareceram depois, fazendo um tipo de trabalho que só foi possível por causa da invenção contida em dois sambas de Tom: Chega de Saudade e Desafinado.

ESTE TEXTO FAZ PARTE DE UMA SÉRIE SOBRE OS 60 ANOS DA BOSSA NOVA.