Fabiana Cozza não é branca! Uma mulher já foi Bob Dylan!

Estamos emburrecendo velozmente?

Claro que sim!

Não tenho dúvidas!

Fabiana Cozza não é negra o suficiente para viver Dona Ivone Lara no palco?

Quando pensamos assim, estamos de fato emburrecendo velozmente!

Apesar de todos os seus méritos e da aprovação da família da grande sambista, Fabiana Cozza, diante das pressões que sofreu e das duras críticas a ela dirigidas, desistiu de atuar no musical sobre Dona Ivone Lara.

Fabiana Cozza não é branca!

Fabiana Cozza é uma cantora absolutamente identificada com o mundo do samba!

Claro que ela poderia viver Dona Ivone Lara num musical!

“Tremenda injustiça, imenso e desagregador tiro no pé de quem persegue assim um irmão ou uma irmã militante da causa afro-brasileira”, disse muito bem Chico César no Instagram.

“São tiros no espelho”, afirmou o rapper Emicida.

De Dona Ivone Lara para Bob Dylan.

Conversando com um amigo sobre esse episódio envolvendo Fabiana Cozza, fomos parar em I’m Not There.

Ou Não Estou Lá.

Muitos fãs detestam, mas gosto imensamente desse filme sobre Dylan.

Em seu delírio narrativo, acaba sendo muito fiel ao universo criativo do artista e às suas esquisitices.

É um retrato dele tirado com muita liberdade.

Pois bem. Entre as seis pessoas que vivem Dylan na tela, confiram na foto: há um garoto negro!

O Zimmerman menino, vagando de trem em busca de raízes profundas da música americana, é um garoto negro!

E mais:

Há uma mulher entre os seis protagonistas!

Uma mulher fazendo Bob Dylan!

E que Bob Dylan!

Cate Blanchett, no papel do bardo judeu romântico de Minnesota, ganha dos demais!

Quase ganha do próprio Dylan!

BOB DYLAN EM CINCO CANÇÕES

Bob Dylan faz 77 anos nesta quinta-feira (24).

Na música popular dos Estados Unidos, é o compositor mais importante da sua geração. Influenciou até os Beatles.

Do folk ao rock, da canção de protesto às dores individuais, do show business ao Nobel, Dylan está inserido no universo pop há pelo menos 55 anos (Blowin’ in the Wind é de 1963), mas ainda parece uma figura estranha a esse mundo.

Vê-lo/ouvi-lo continua necessário.

Segue Dylan em cinco canções essenciais.

BLOWIN’ IN THE WIND

LIKE A ROLLING STONE

JUST LIKE A WOMAN

FOREVER YOUNG

HURRICANE

 

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DO BARDO JUDEU ROMÂNTICO DE MINNESOTA*

Robert Allen Zimmerman é, nos Estados Unidos, o maior compositor popular de sua geração. E o mais influente. Até os Beatles foram influenciados por ele. Quando John Lennon trocou as letras ingênuas da Beatlemania por versos que falavam das suas dores, o fez por causa de Dylan. As marcas principais do que Bob Dylan criou estão nos primeiros anos da sua trajetória. O artista que ouvimos no início da carreira une a tradição folk à canção de protesto. E logo em seguida rompe com essas duas opções. Abandona o acústico e adota o elétrico e abre mão do discurso engajado para falar de si próprio. Se quisermos sintetizar assim a sua produção, já teremos um retrato fidelíssimo do que ele é.

Sete discos nos oferecem o melhor Dylan. De The Freewheelin’ (1963) a John Wesley Harding (1968). Entre os dois, temos Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. As questões cruciais do artista e sua obra estão neles. Mas é claro que há muito o que ouvir nos anos seguintes. De New Morning a Desire, de The Basement Tapes a Blood on the Tracks. E o ao vivo Before the Flood, em que divide o palco com o grupo The Band, que o acompanhou muitas vezes em estúdios e turnês.

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas. Faltam respostas, mas o vento ainda está soprando ao seu lado.

* Quem chama Dylan de o bardo judeu romântico de Minnesota é Caetano Veloso, na letra de A Bossa Nova É Foda.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE BLOWIN’ IN THE WIND

Blowin’ in the Wind é um clássico da canção de protesto. Em 1963, quando Bob Dylan a gravou no álbum The Freewheelin, ela tinha uma força extraordinária. Atravessou o tempo e hoje evoca uma época. Seria ingenuidade continuar acreditando no poder transformador dos seus versos, mas eles não perderam a beleza nem a força poética. Até se tornaram mais bonitos porque agora remetem ao momento histórico em que foram escritos. É uma canção simples com acordes naturais que qualquer aprendiz conhece. A gravação, de curtíssima duração, tem apenas a voz nasal do autor, seu violão rústico e sua gaita de boca.

Stevie Wonder era um adolescente quando gravou Blowin’ in the Wind, em meados da década de 1960. A voz ainda estava em formação. Não era mais infantil, como quando começou a carreira, mas não tinha atingido os timbres do cantor adulto que o mundo inteiro conheceu mais tarde. Sua versão da canção de Dylan tira dela o sotaque folk e lhe acrescenta alguns adornos. Ela fica menos crua, menos dura. Tem a sonoridade da Motown, vira soul music. O original parece um rascunho que foi aperfeiçoado. Wonder pegou Dylan e o submeteu a uma espécie de caderno de caligrafia. Deu mais forma à canção.

Em 1992, Bob Dylan comemorava três décadas de carreira. 30 anos tinham se passado desde que lançara o primeiro álbum na Columbia. Um show em Nova York marcava a data. Dylan e seus amigos subiram ao palco do Madison Square Garden. E lá estava Stevie Wonder para cantar Blowin’ in the Wind. O ponto de partida não seria mais o original do autor, mas o registro que Wonder produzira na adolescência. Este serviria de base, ofereceria os parâmetros para uma nova releitura. Melhor, mais forte, mais bonita, mais emocionada. Uma performance que trazia a música para o presente e comentava a sua trajetória ao longo de três décadas, desde o seu lançamento.

Antes de cantar, Stevie Wonder fala. Sua fala soa como se fosse música. Os instrumentos o acompanham. O tema é a relevância daquela canção e a relação que pode ser estabelecida entre ela e os movimentos sociais e políticos das décadas que percorreu. Há algo de ingênuo no discurso, mas é comovente. Wonder fala como um pastor num púlpito, pregando ao som de uma banda gospel numa igreja da América. A pregação vai ficando mais alta, os fiéis gritam lá atrás, os instrumentos vão subindo. Até que tudo se transforma em música mesmo: “How many roads”. É Blowin’ in the Wind, a velha canção de protesto do jovem Dylan.

A melodia lembra o original, mas foi reescrita. Está cheia de variações, de improvisações, de inflexões que ninguém imaginaria ao ouvi-la no registro inaugural do autor. A letra é a mesma, mas as palavras parecem ganhar novos significados. Wonder passeia com elas pelos timbres da sua bela voz, dos graves aos agudos. Dialoga com o vocalista da banda, conversa com a plateia. Faz perguntas e ouve respostas. A canção cresce na medida em que é reinterpretada. O original está guardado em nossa memória. A versão de Stevie Wonder o recupera, trazendo-o de longe, daquele disco de 1963. Provoca um novo impacto. Não há como descrevê-lo. Só ouvindo.

PRA NÃO DIZER QUE NÃO SABE TOCAR BLOWIN’ IN THE WIND

BLOWIN’ IN THE WIND

Bob Dylan

Intro:

     C
E|------------------------------------------|
B|-------1--------1---------1--------1------|
G|---0--------0---------0--------0----------|
D|-----2--------2---------2--------2--------|
A|-3------------------3---------------------|
E|----------3------------------3------------|


Primeira Parte:


Parte 1 de 4:
     C
E|------------------------------------------|
B|-------1--------1-------------------------|
G|---0--------0-----------------------------|
D|-----2--------2---------------------------|
A|-3----------------------------------------|
E|----------3-------------------------------|


Parte 2 de 4:

     F
E|------------------------------------------|
B|-------1--------1-------------------------|
G|---2--------2-----------------------------|
D|-----3--------3---------------------------|
A|------------------------------------------|
E|-1--------1-------------------------------|


Parte 3 de 4:

     C
E|------------------------------------------|
B|-------1--------1---------1---------------|
G|---0--------0---------0---------0---0-----|
D|-----2--------2---------2-----------------|
A|-3------------------3---------0---2-------|
E|----------3-------------------------------|


Parte 4 de 4:

     G
E|------------------------------------------|
B|-------0--------0--------0----------------|
G|---0--------0--------0-------0---0--------|
D|-----0--------0--------0------------------|
A|---------------------------0---2----------|
E|-3--------3--------3----------------------|

 C        F
How many roads
        C
Must a man walk down
   C        F          C
Before you call him a man
         C        F
Yes and how many seas
         C
Must a white dove sail
             F            G
Before she sleeps in the sand
         C        F
Yes and how many times
      C
Must cannonballs fly
                F       G
Before they're forever banned


Refrão:


Parte 1 de 4:

     F
E|------------------------------------------|
B|-------1--------1-------------------------|
G|---2--------2-----------------------------|
D|-----3--------3---------------------------|
A|------------------------------------------|
E|-1--------1-------------------------------|


Parte 2 de 4:

     G
E|------------------------------------------|
B|-------0--------0-------------------------|
G|---0--------0-----------------------------|
D|-----0--------0---------------------------|
A|------------------------------------------|
E|-3--------3-------------------------------|


Parte 3 de 4:

     C
E|------------------------------------------|
B|-------1----------------------------------|
G|---0-------0---0--------------------------|
D|-----2------------------------------------|
A|-3-------3---2----------------------------|
E|------------------------------------------|


Parte 4 de 4:

     Am7
E|------------------------------------------|
B|-------1--------1-------------------------|
G|---0--------0-----------------------------|
D|-----2--------2---------------------------|
A|-0--------0-------------------------------|
E|------------------------------------------|



        F        G
The answer, my friend
     C          C/B  Am7
Is blowin' in the   wind
    F           G             C
The answer is blowin' in the wind


F  G  C  C/B

Am7  F  G  C


Repete a Primeira Parte:

      C        F
Yes, how many years
        C
Must a mountain exist
              F             C
Before it is washed to the sea
         C        F
Yes and how many years
          C
Can some people exist
                  F            G
Before they're allowed to be free
         C        F
Yes and how many times
        C
Must a man turn his head
                  F               G
And pretend that he just doesn't see


Repete o Refrão:


        F        G
The answer, my friend
     C          C/B  Am7
Is blowin' in the   wind
    F           G             C
The answer is blowin' in the wind


F  G  C  C/B

Am7  F  G  C


Repete a Primeira Parte:

      C        F
Yes, how many times
        C
Must a man look up
               F               C
Before he can really see the sky
         C       F
Yes and how many ears
     C
Must one person have
               F            G
Before he can hear people cry
         C        F
Yes and how many deaths
         C
Will it take till he knows
               F           G
That too many people have died


Repete o Refrão:

        F        G
The answer, my friend
     C          C/B  Am7
Is blowin' in the   wind
    F           G             C
The answer is blowin' in the wind

Suplicy canta Dylan de novo, e Seu Pereira “apanha” na guitarra!

Já admirei muito o casal Suplicy.

Eduardo e Marta.

Ela, dando aulas de sexo nas manhãs da Rede Globo.

Um dia, ouvi de um homem de grande experiência: não passa de uma perua!

Não acreditei.

Bem, mas Marta – perua ou não – acabou “morrendo” para mim. Naquele episódio de campanha em que houve a insinuação de que o adversário era gay.

E Eduardo?

Sempre me pareceu um freak, daqueles dos anos 60.

Um amigo que sabe tudo de política definiu assim: “freak nada, é a UDN do PT!”

Eduardo Suplicy adora cantar Blowin’ in the Wind.

Se der cabimento, ele canta.

Já o fez até no Senado, quando lá estava.

E – se não estou enganado – no show de Joan Baez, ao lado da musa da protest song.

Sua performance mais recente do clássico de Dylan foi no show do grupo paraibano Seu Pereira, na Avenida Paulista.

Uma voz horrível, a acabar de novo com a canção do jovem Zimmy.

E uma guitarra a acompanhá-lo.

Vou confessar: Suplicy cantando Bob Dylan não me surpreende mais.

Já vi tantas vezes que deixei de sentir vergonha alheia.

O que chamou minha atenção, agora, foi a guitarra do grupo paraibano.

Caramba!

O cara não sabe os quatro ou cinco acordes da canção.

Aí, sim, senti vergonha alheia.

Essa música é tão rudimentar, do ponto de vista harmônico, que a gente aprende nos primeiros contatos com o instrumento.

Para mim, o cara “apanhando” na guitarra foi mais engraçado e divertido do que a canja de Suplicy.

Pobre Dylan!

Stevie Wonder reescreveu clássico da canção de protesto

Blowin’ in the Wind é um clássico da canção de protesto. Em 1963, quando Bob Dylan a gravou no álbum The Freewheelin, ela tinha uma força extraordinária. Atravessou o tempo e hoje evoca uma época. Seria ingenuidade continuar acreditando no poder transformador dos seus versos, mas eles não perderam a beleza nem a força poética. Até se tornaram mais bonitos porque agora remetem ao momento histórico em que foram escritos. É uma canção simples com acordes naturais que qualquer aprendiz conhece. A gravação, de curtíssima duração, tem apenas a voz nasal do autor, seu violão rústico e sua gaita de boca.

Stevie Wonder era um adolescente quando gravou Blowin’ in the Wind, em meados da década de 1960. A voz ainda estava em formação. Não era mais infantil, como quando começou a carreira, mas não tinha atingido os timbres do cantor adulto que o mundo inteiro conheceu mais tarde. Sua versão da canção de Dylan tira dela o sotaque folk e lhe acrescenta alguns adornos. Ela fica menos crua, menos dura. Tem a sonoridade da Motown, vira soul music. O original parece um rascunho que foi aperfeiçoado. Wonder pegou Dylan e o submeteu a uma espécie de caderno de caligrafia. Deu mais forma à canção. E a preparou para o futuro.

Em 1992, Bob Dylan comemorava três décadas de carreira. 30 anos tinham se passado desde que lançara o primeiro álbum na Columbia. Um show em Nova York marcava a data. Dylan e seus amigos subiram ao palco do Madison Square Garden. E lá estava Stevie Wonder para cantar Blowin’ in the Wind. O ponto de partida não seria mais o original do autor, mas o registro que Wonder produzira na adolescência. Este serviria de base, ofereceria os parâmetros para uma nova releitura. Melhor, mais forte, mais bonita, mais emocionada. Uma performance que trazia a música para o presente e comentava a sua trajetória ao longo de três décadas, desde o seu lançamento.

Antes de cantar, Stevie Wonder fala. Sua fala soa como se fosse música. Os instrumentos o acompanham. O tema é a relevância daquela canção e a relação que pode ser estabelecida entre ela e os movimentos sociais e políticos das décadas que percorreu. Há algo de ingênuo no discurso, mas é comovente. Wonder fala como um pastor num púlpito, pregando ao som de uma banda gospel numa igreja da América. A pregação vai ficando mais alta, os fiéis gritam lá atrás, os instrumentos vão subindo. Até que tudo se transforma em música mesmo: “How many roads”. É Blowin’ in the Wind, a velha canção de protesto do jovem Dylan.

A melodia lembra o original, mas foi reescrita. Está cheia de variações, de improvisações, de inflexões que ninguém imaginaria ao ouvi-la no registro inaugural do autor. A letra é a mesma, mas as palavras parecem ganhar novos significados. Wonder passeia com elas pelos timbres da sua bela voz, dos graves aos agudos. Dialoga com o vocalista da banda, conversa com a plateia. Faz perguntas e ouve respostas. A canção cresce na medida em que é reinterpretada. O original está guardado em nossa memória. A versão de Stevie Wonder o recupera, trazendo-o de longe, daquele disco de 1963. Provoca um novo impacto. Não há como descrevê-lo. Só ouvindo.

“Sgt. Pepper”, o “Cidadão Kane” do rock, chega aos 50 anos!

Estamos a poucos dias dos 50 anos do Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Dizer que é o disco mais importante dos Beatles é pouco.

Chamá-lo de o disco mais importante do rock lhe faz justiça.

Por isso, a comparação com o filme de Orson Welles aí no título. Cidadão Kane é o filme mais importante do cinema. É quase uma unanimidade.

Quando o Sgt. Pepper foi lançado, eu tinha oito anos e acabara de ver os Beatles no cinema em A Hard Day’s Night e Help!.

Nos dois filmes de Richard Lester, a imagem deles era aquela ainda ingênua que conquistara o mundo em 1964 como irresistível fenômeno pop.

No Pepper, tínhamos coisas que eu não conseguia entender aos oito anos. Daí, tenho a lembrança de que o disco me soava estranho e enigmático quando o conheci.

Sgt. Pepper remete ao status que a segunda geração do rock deu ao gênero. Esse status começa com Bob Dylan, em 1962, um pouco antes do surgimento dos Beatles.

Nos primeiros tempos, os Beatles parecem ingênuos demais para dar continuidade à linha evolutiva do rock.

Mas amadureceram rapidamente, guiados (ou traduzidos, se quisermos enfatizar o talento dos rapazes) pelo maestro George Martin.

O Sgt. Pepper – após os passos dados no Rubber Soul e, sobretudo, no Revolver – é a confirmação desse amadurecimento do quarteto. E do amadurecimento do próprio rock.

O rock será o que fizermos dele – disse John Lennon.

O disco agora cinquentenário assegura que sim!

(Voltarei ao Pepper em outros textos aqui na coluna)

Quando o cover é melhor do que o original?

Vi em algum lugar. Como um desafio. Quando o cover consegue ser melhor do que o original?

Muitas vezes! Depende de tantos fatores. Entre eles, a força do intérprete.

Quem ouve jazz não tem problemas com releituras. O jazz faz isso o tempo todo e abre caminho para que a gente goste em qualquer gênero.

Cover melhor do que o original?

O primeiro que me ocorre é With a Little Help From My Friends, dos Beatles, com Joe Cocker, na versão de Woodstock. É um negócio devastador!

Fico somente com mais um exemplo. Esse, vi ao vivo. Caetano Veloso cantando Jokerman, de Bob Dylan. A canção de Dylan ganha uma poderosa batida de samba, o violoncelo de Morelenbaum e, claro, a beleza da voz de Caetano.

Dylan, um homem velho e sem voz em áreas profundas da América

Estou ouvindo Triplicate, o novo trabalho de Bob Dylan.

São três discos dedicados aos standards da música americana.

Cada um tem um título: ‘Til the Sun Goes DownDevil Dolls e Comin’ Home Late.

Antes, reproduzo algo que há algum tempo escrevi sobre o artista e suas mudanças:

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas.

Triplicate é belamente estranho! Ou estranhamente belo!

Alguém disse que é uma esquisitice de Dylan! É muito mais!

Traduzo assim: um homem velho, com a voz devastada, num mergulho no cancioneiro tradicional do seu país. Em busca das matrizes, das fontes, das origens, da juventude, do tempo perdido. Da tradição como contraponto ao novo que ele representou e que o fez, agora, merecer o Nobel de literatura.

No começo, há mais de meio século, Dylan sabia que sua música rompia com essa tradição que ele deixou para, ao seu modo, resgatar na velhice. Já o fez nos dois discos anteriores (Shadows in the Night e Fallen Angels) e ampliou o projeto nesse Triplicate, primeiro álbum triplo de sua carreira, acrescentando instrumentos de sopro à sua banda.

São discos de grandes canções que ouvimos com grandes vozes (Sinatra, etc.). Dylan perdeu sua condição vocal há muitos anos, mas confere uma nova beleza a esse repertório. A sua releitura é densa, melancólica, verdadeira. E remete a deep areas da América.

Triplicate (melhor do que Shadows in the Night e Fallen Angels) contém ruptura e reconciliação. Ruptura com o autor em sua permanente inquietação. Reconciliação com o velho, com o american songbook.

Por si só, a imensa importância de Bob Dylan já tornaria esse projeto imensamente importante. Ao negar a figura do grande crooner, ele nos oferece um irresistível crooner pelo avesso!

Como dizem por aí, é Dylan sendo Dylan!