Belchior deixa muita qualidade e pouca quantidade

Se pensarmos em quantidade, o legado de Belchior é muito pequeno.

Como autor, o seu período de grande criatividade foi curto. Esteve praticamente restrito aos primeiros anos da carreira fonográfica, ali na segunda metade da década de 1970.

Em quatro ou cinco discos, vamos encontrar o melhor do seu repertório, as canções que de fato ficaram na memória afetiva dos brasileiros e que formam a antologia do autor.

Entre esses discos, está o Alucinação, de 1976. É o segundo título de sua discografia. O LP que o projetou nacionalmente. Um dos grandes discos da música brasileira.

O LP de estreia, pouco conhecido, é um trabalho curioso, mas envelheceu rapidamente, a despeito de se pretender de vanguarda.

Os três discos que se seguiram ao Alucinação, lançados pela Warner, completam o melhor de Belchior.

Se você tem esses cinco títulos, não sentirá falta de nada. Todas as grandes canções de Belchior estão neles.

Isso é ruim? Isso diminui o autor?

Não! Claro que não!

Apenas confirma que, em Belchior, o melhor não veio em grande quantidade. Mas em qualidade.

A essência está em 15 ou 20 canções que atravessam o tempo.

(A caricatura que ilustra a coluna hoje é de William Medeiros, grande artista paraibano)

Belchior foi injusto ao chamar Caetano de antigo compositor

Alucinação, o LP que projetou Belchior nacionalmente em 1976, é um dos grandes discos da música brasileira.

Lá estão, na voz do autor, Como Nossos Pais, Velha Roupa Colorida, A Palo Seco, Apenas um Rapaz Latino-americano. Canções que atravessaram o tempo.

É um daqueles discos que ouvimos do início ao fim porque todas as faixas são muito boas.

Gosto imensamente do disco. Gosto muito de Belchior. Mas sempre, desde que Alucinação foi lançado, acho que a referência aos tropicalistas não é justa.

A crítica de Belchior aos tropicalistas está na letra de Apenas um Rapaz Latino-americano. O “antigo compositor baiano” que ele ouviu no rádio é Caetano Veloso.

A canção que ele menciona é Divino, Maravilhoso (música de Gil, letra de Caetano). Música fortemente engajada do ano de 1968. Tem o verso poderosíssimo que atravessa o tempo tanto quanto as canções de Belchior:

É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE/NÃO TEMOS TEMPO DE TEMER A MORTE

Belchior faz a crítica ao Tropicalismo, mas foi este que abriu as portas por onde passaram os compositores brasileiros projetados ali no anos 1970. Como o próprio Belchior. Em 1976, Caetano Veloso, de antigo compositor, não tinha absolutamente nada.

Toco nesse assunto porque ainda encontro ouvintes que não sabem a quem Belchior se refere na letra da canção.

Mas tenho a convicção de que, ainda que injusta, a crítica aos tropicalistas nunca maculou seu trabalho.

Afinal, Belchior é o cara que fez Como Nossos Pais, Paralelas, Comentário a Respeito de John, Tudo Outra Vez.

A reação à morte do artista confirma a permanência das suas canções. E, sobretudo, a beleza e a força dos seus versos.

Morte de Belchior é o fim de uma história triste e misteriosa

Quero desejar, antes do fim,

Pra mim e os meus amigos,

Muito amor e tudo mais.

Que fiquem sempre jovens

E tenham as mãos limpas

E aprendam o delírio com coisas reais

Foram os versos de Belchior que me ocorreram quando soube da sua morte.

Soube da existência dele no início da década de 1970 quando ouvi Mucuripe, composta em parceria com Fagner. Havia a versão de Fagner, no disquinho de bolso do Pasquim, e a de Elis Regina.

Tinha um verso encantador:

Calça nova de riscado/Paletó de linho branco/Que até o mês passado/Lá no campo ainda era flor

Depois veio A Palo Seco, no disco de Fagner:

Se você me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava

Um pouco mais tarde, o grande impacto: Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, abrindo Falso Brilhante, o disco de Elis:

Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos como nossos pais

Ou:

O que há algum tempo era jovem, novo/Hoje é antigo/E precisamos todos rejuvenescer

Quando o LP Alucinação deu dimensão nacional a Belchior, já tínhamos sentido o impacto do seu talento.

Estávamos diante de mais uma voz que falava por sua geração na noite brasileira.

Não tinha grandes dotes como cantor e era melódica e harmonicamente muito limitado. O negócio dele eram as letras. Escreveu algumas absolutamente antológicas. O seu lugar na história da MPB está essencialmente associado à força da sua poesia.

Parece paradoxal, mas a marca de originalidade das suas letras está na habilidade com que lidou com referências e citações. Belchior sempre demonstrou ter plena consciência disso.

O melhor do seu cancioneiro se resume a quatro discos, gravados entre 1976 e 1979. Um na Philips, três na Warner. Neles, estão as suas canções mais importantes. As que de fato ficaram arquivadas na memória afetiva do seu público.

Durante quase 25 anos, a partir do início dos anos 1980, Belchior muito pouco se renovou, mas fez bem a manutenção da carreira, cantando grandes sucessos para uma plateia fiel.

Na segunda metade da década passada, saiu de cena. Abandonou a carreira, afastou-se da família e dos amigos, sumiu dos palcos e dos estúdios. Uma história misteriosa, estranha e triste.

A sua morte, aos 70 anos, é o epílogo dessa história.

“Elis” estreia nos cinemas. Vamos reouvir os discos de Elis?

A estreia nacional de Elis será nesta quinta-feira (24). O filme conta a história de Elis Regina, a maior cantora do Brasil, interpretada pela atriz Andréia Horta (em foto de divulgação).

elis-o-filme

Que tal reouvir os discos de Elis antes de ver o filme? Selecionei dez. É uma escolha pessoal.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.

Em “Alucinação”, agora relançado, Belchior é injusto com tropicalistas

Belchior fez 70 anos em outubro. Seu melhor disco, lançado há 40 anos, voltou às lojas num CD afinal remasterizado (a edição anterior era inaudível). O tempo passou, mas Alucinação permanece um grande disco.

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Em 1976, quando lançou Alucinação, Belchior tinha 30 anos incompletos. Sua Mucuripe (parceria com Fagner) havia sido gravada por Elis Regina e por Roberto Carlos. E seu primeiro disco, numa gravadora pequena, era praticamente desconhecido.

Elis, então, cuidou de projetar Belchior nacionalmente ao gravar Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, duas canções do cearense que, na voz dela, ganharam versões definitivas.

Alucinação saiu pela Philips. Belchior assinou contrato para apenas um LP. Fez um grande disco, entrou para a história da MPB com ele.

Apenas um Rapaz Latino Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, A Palo Seco – algumas das suas canções mais importantes e mais populares estão no breve repertório de dez faixas.

Em letras antológicas, Belchior dialoga com a sua geração na noite brasileira. Está antenadíssimo com o universo pop do Brasil e do mundo, também com as referências que o ajudariam a construir a sua poesia cantada.

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Mas há um equívoco pouco mencionado nesse grande disco: chamar de velhos os tropicalistas.

Está na letra de Apenas um Rapaz Latino Americano. O antigo compositor baiano é Caetano Veloso, autor da letra (a música é de Gilberto Gil) de Divino, Maravilhoso, a canção na qual Belchior diz não acreditar.

Ora, antigo é uma palavra que não cabia em Caetano em 1976, quando ele tinha pouco mais de 30 anos e era um dos responsáveis por parte significativa das transformações operadas na música popular do Brasil daquela época.

Divino, Maravilhoso é uma canção identificada com a turbulência do ano de 1968 e tem um refrão antológico:

É preciso estar atento e forte/não temos tempo de temer a morte.

Se prestarmos atenção, o verso permanece atual!

Quatro discos trazem o essencial de Belchior

Quatro discos, gravados entre 1976 e 1979, trazem o essencial do cancioneiro de Belchior, que está fazendo 70 anos nesta quarta-feira (26).

Apenas um Rapaz Latino Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, Alucinação, A Palo Seco, Coração Selvagem, Paralelas, Todo Sujo de Batom, Galos Noites e Quintais, Divina Comédia Humana, Na Hora do Almoço, Medo de Avião, Tudo Outra Vez, Comentário a Respeito de John. 

Suas canções mais importantes estão nesses discos. A sua melhor antologia.

Alucinação

PolyGram/1976.

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Coração Selvagem

Warner/1977.

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Todos os Sentidos

Warner/1978.

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Belchior (Medo de Avião)

Warner/1979.

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Belchior faz 70 anos, e ninguém tem notícia dele

Belchior faz 70 anos nesta quarta-feira (26).

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Soube da existência dele no início da década de 1970 quando ouvi Mucuripe, composta em parceria com Fagner. Havia a versão de Fagner, no disquinho de bolso do Pasquim, e a de Elis Regina.

Tinha um verso encantador:

Calça nova de riscado/Paletó de linho branco/Que até o mês passado/Lá no campo ainda era flor

Depois veio A Palo Seco, no disco de Fagner:

Se você me perguntar por onde andei/No tempo em que você sonhava

Um pouco mais tarde, o grande impacto: Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, abrindo Falso Brilhante, o disco de Elis:

Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos como nossos pais

Ou:

O que há algum tempo era jovem, novo/Hoje é antigo/E precisamos todos rejuvenescer

Quando o LP Alucinação deu dimensão nacional a Belchior, já tínhamos sentido o impacto do seu talento.

Não tinha grandes dotes como cantor e era melódica e harmonicamente muito limitado. O negócio dele eram as letras. Escreveu algumas absolutamente antológicas. O seu lugar na história da MPB está essencialmente associado à força da sua poesia.

Parece paradoxal, mas a marca de originalidade das suas letras está na habilidade com que lidou com referências e citações. Belchior sempre demonstrou ter plena consciência disso.

O melhor do seu cancioneiro se resume a quatro discos, gravados entre 1976 e 1979. Um na Philips, três na Warner. Neles, estão as suas canções mais importantes. As que ficaram arquivadas na memória afetiva do seu público.

Durante quase 25 anos, a partir do início dos anos 1980, Belchior pouco se renovou, mas fez bem a manutenção da carreira, cantando grandes sucessos para uma plateia fiel.

Na segunda metade da década passada, saiu de cena. Abandonou a carreira, afastou-se da família e dos amigos, sumiu dos palcos e dos estúdios. Uma história misteriosa, estranha e triste.

Belchior chega aos 70 anos nesta quarta-feira, e ninguém sabe ao certo onde ele está.   

Belchior vai fazer 70 anos em outubro, e ninguém sabe onde ele está

O compositor cearense Belchior vai completar 70 anos agora em outubro. Ele está sumido há alguns anos, desde que se retirou estranhamente da cena musical.

Belchior se destacou entre os nordestinos que conquistaram dimensão nacional na década de 1970. Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida causaram grande impacto quando foram gravadas por Elis Regina, em 1976.

Em seguida, ouvimos a voz do autor no disco Alucinação, seu trabalho mais importante.

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Voz nasal, canções harmonicamente simples, melodicamente muito agradáveis, grandes letras. Assim era o Belchior que ouvimos há 40 anos. Seu songbook é composto sobretudo pelo material que gravou entre a metade dos anos 1970 e o início dos 1980.

Depois, compôs poucas canções de fato relevantes, mas manteve um público fiel que ia aos shows ouvir o melhor do seu repertório.

Sua saída de cena nunca foi bem explicada. Permanece um mistério para os fãs. Um triste episódio.

Em outubro, nos 70 anos de Belchior, o disco Alucinação volta ao mercado em edição resmasterizada. Mantém sua integridade como um dos grandes discos da MPB.

Arte de fotografar inspira canções. Às vezes, a música é uma fotografia

Mais uma homenagem ao Dia Mundial da Fotografia.

Agora, misturo a música com a arte de fotografar.

A primeira lembrança é de Desafinado, espécie de manifesto da Bossa Nova. Parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto. A famosa máquina alemã aparece no verso:

“Fotografei você na minha Rolleiflex, revelou-se a sua enorme ingratidão”

Quem imaginaria uma música com Rolleiflex na letra?

Paul Simon fez isso mais na frente em Kodachrome:

“Mamãe, não leve minha Kodachrome embora!”

Mas há também a música como fotografia. Música e letra, juntas, oferecendo ao ouvinte uma espécie de fotografia. O retrato de um instante. É esse o conceito. Como em Fotografia, de Tom Jobim:

“Eu, você, nós dois, aqui nesse terraço à beira-mar/o sol já vai caindo e o seu olhar/parece acompanhar a cor do mar”

Há muitas outras. Photograph (Ringo Starr), Retrato em Branco e Preto (Tom e Chico Buarque), Fotografia 3 x 4 (Belchior). Mas fico com essas duas, cada uma a sintetizar um caminho: a fotografia como inspiração (em Paul Simon) e a música como uma fotografia (em Tom Jobim).

Parabéns aos fotógrafos! 

 

 

 

 

 

Som Livre relança Geraldo Azevedo com música de “Velho Chico”. Ouça

A gravadora Som Livre relançou o primeiro disco solo de Geraldo Azevedo, que estava fora de catálogo há muitos anos. É nesse disco que está a música “Barcarola do São Francisco”, um dos temas da trilha sonora da novela “Velho Chico”.

O CD se chama “Geraldo Azevedo” e foi lançado originalmente em 1977. Faz parte do conjunto de discos da geração de artistas nordestinos que despontou na década de 1970 (além de Geraldo, Alceu Valença, Zé e Elba Ramalho, Fagner, Belchior e Ednardo).

A reaudição, quase 40 anos mais tarde, confirma que o pernambucano Geraldo Azevedo fez sua estreia em altíssimo nível. Antes, dividira um disco com Alceu Valença e participara do LP com a trilha sonora do filme “A Noite do Espantalho”, de Sérgio Ricardo.

A destacar: as belas e sensíveis melodias compostas por Geraldinho, as letras de Carlos Fernando, a guitarra inconfundível de Robertinho de Recife e a presença, como arranjador, do maestro Radamés Gnatalli.

O ponto alto do disco é a suíte “Correnteza”, composta por três músicas. É nela que está “Barcarola do São Francisco”, que ouvimos com frequência na novela “Velho Chico”. As outras duas são “Caravana” e “Talismã”.