Danilo Caymmi canta Tom Jobim com total intimidade

Lembram do disco? Em 1964, Dorival Caymmi visitou Tom Jobim e levou os filhos Nana, Dori e Danilo. O LP, histórico, saiu pela Elenco.

Dos três, futuras estrelas, Danilo foi o mais ligado a Tom. Tanto que tocou flauta e cantou na banda que acompanhou o Maestro Soberano nos dez últimos anos de sua vida.

Agora, nos 90 anos de Jobim, é Danilo que o homenageia com um disco.

Danilo Caymmi Canta Tom Jobim (Universal Music) foi lançado no dia em que o compositor, se estivesse vivo, teria feito 90 anos.

Há quem diga que Danilo canta as músicas de Tom como se estivesse cantando as do seu pai.

Faz sentido?

Ou a gente pensa assim somente porque a sua voz (como a de Nana e a de Dori) está muito associada ao cancioneiro do velho Dorival?

Confesso que não tive essa sensação ao ouvir o disco. A voz de Danilo esteve muito presente na Banda Nova, dialogando com Tom nos vocais, às vezes fazendo o solo.

Para mim, então, é Danilo cantando Jobim como Jobim. Ainda mais, os arranjos são totalmente jobinianos.

O caçula dos Caymmi fez suas opções.

A primeira: voz, violão, flauta e violoncelo. Nada mais. É absolutamente intimista.

A segunda: repertório pouco óbvio. Mais lado B do que lado A.

O resultado confirma a intimidade do cantor com o compositor. É delicado, singelo, maduro, fiel aos originais.

Danilo teve muita sorte com seus professores: Dorival e Tom. Quando canta os dois (no ano passado, gravou o pai), simplesmente não consegue errar.

O REPERTÓRIO DO DISCO

Bonita

Ela é Carioca

Por Causa de Você

Estrada do Sol (com Stacey Kent)

Chora Coração

Água de Beber

As Praias Desertas

Tema de Amor de Gabriela

Luiza

Querida

Derradeira Primavera

Qual o melhor disco de Tom Jobim? Fico com “Matita Perê”. Ouça.

Volto a Antônio Carlos Jobim, que, se estivesse vivo, faria 90 anos nesta quarta-feira (25).

Jobim compôs muito, e suas músicas têm dezenas, centenas, creio que milhares de gravações pelo mundo.

Mas sua discografia é pequena, se pensarmos somente nos discos solo e autorais. Pouco mais de 10 títulos, de The Composer of Desafinado Plays a Antônio Brasileiro.

A grande maioria, gravou nos Estados Unidos. Quando Tom morreu, 22 anos atrás, alguém disse que as gravadoras brasileiras não o gravavam, mas depois lançavam o disco por aqui ou – pior – distribuíam o repertório em coletâneas infames.

Tenho toda a discografia de Jobim, e nada me desagrada. Se sairmos dos títulos solo e autorais, aí a lista é extensa: gravações ao vivo, trabalhos com outros artistas, edições póstumas, tributos.

Quando me perguntam qual o disco da minha preferência, não tenho dúvida: Matita Perê, de 1973. É nele que está Águas de Março. É nele que Tom registrou a suíte A Casa Assassinada, escrita a partir de Chora Coração, tema composto em parceria com Vinícius de Moraes. Alternando canções com música instrumental, Jobim vai do popular ao erudito. É disco seminal!

Aí está a capa.

E aí está Matita Perê, o álbum completo.

Vamos ouvir?

90 anos de Tom Jobim. Celebremos o Maestro Soberano!

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é o nome de batismo.

Antônio Carlos Jobim é o nome artístico que gostava de usar.

Tom Jobim é como muitos o chamam.

Antônio Brasileiro é como aparece na capa do seu último disco.

Maestro Soberano é como Chico Buarque o rebatizou.

Se vivo estivesse, o maior compositor popular do Brasil faria 90 anos nesta quarta-feira (25).

Celebremos a memória de Tom e o seu legado!

Estou aqui pensando em Jobim por décadas.

Anos 1950. O Tom que o Brasil e o mundo conheceram começa quando, em 1956, nasce a parceria com Vinícius de Moraes em Orfeu da Conceição. Uma bela síntese do que fizeram está no disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, lançado em 1958. Em duas faixas, o violão de João Gilberto oferece o esboço da Bossa Nova. Em seguida (1959), Chega de Saudade, o LP de João arranjado por Jobim, reinventa o samba e muda para sempre a música popular brasileira.

Anos 1960. A Bossa Nova projeta internacionalmente a música brasileira. Gravado nos Estados Unidos, o primeiro disco de Jobim (The Composer of Desafinado Plays) parece um greatest hits. O LP Getz/Gilberto divulga Garota de Ipanema, de Tom e Vinícius, em escala planetária. Frank Sinatra grava um disco com Jobim, que, no Brasil, é vaiado porque seu protesto político (dividido com Chico Buarque) não é tão explícito quanto o de Geraldo Vandré.

Anos 1970. Na virada dos 60 para os 70, Tom faz discos nos quais predominam os temas instrumentais. Depois vem o seminal Matita Perê (1973). O maestro grava Águas de Março, verdadeira obra-prima do seu cancioneiro. É um popular que dialoga com o erudito, sob a batuta de Claus Ogerman. Fala em ecologia antes que a palavra fosse moda, chama de Urubu seu novo disco. Passa um ano em cartaz com Vinícius, Toquinho e Miucha, no palco do Canecão.

Anos 1980/90. Mundialmente consagrado, nem sempre reconhecido com justiça no Brasil. Forma a Banda Nova, o grupo que divide palcos e estúdios com Tom em sua última década de vida. Seus shows pelo mundo e seus derradeiros discos (Tom Jobim InéditoPassarim, Antônio Brasileiro) são uma celebração da grande música que criou. Revistos e reouvidos hoje, confirmam o seu extraordinário legado, a infinita beleza e a permanência da sua obra.

Nascido em Nova York, George Gershwin, mestre da música americana, fez do jazz uma de suas fontes. Nascido no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil. Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa. Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Mas há, sobretudo, o amor à música e uma crença singular nos destinos do Brasil!

Viva o Maestro Soberano!

Tom Jobim também fez frevo! Vamos ouvir?

Nesta quarta-feira (25), se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim, o maior compositor popular do Brasil, faria 90 anos.

Merece todas as lembranças. Falarei dele algumas vezes aqui na coluna.

Vou começar por algo que muita gente talvez não saiba: Tom Jobim também compôs frevo. Sim! O Frevo de Orfeu. Orfeu da Conceição, o musical, marcou, em 1956, o início da parceria de Tom com Vinícius de Moraes.

Vamos ouvir o Frevo de Orfeu cantado por Chico Buarque, com orquestra regida por Jacques Morelenbaum, num tributo a Jobim em Copacabana.

Gal Costa, mais cool, também gravou o Frevo de Tom.

Carminho, uma fadista moderna, encontra Tom Jobim

Se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim faria 90 anos no dia 25 de janeiro. Um CD que acaba de ser lançado pode dar início à comemoração.

É Carminho Canta Tom Jobim (Biscoito Fino). O disco promove o encontro da jovem fadista portuguesa com remanescentes da Banda Nova, o grupo que acompanhou Tom nos muitos shows dos últimos anos de sua vida.

Três integrantes da Banda Nova acompanham Carminho: Paulo Jobim (violão e direção musical), Jaques Morelenbaum (violoncelo e contrabaixo) e Paulo Braga (bateria). A eles, juntou-se Daniel Jobim, filho de Paulo, neto de Tom, ao piano.

Os arranjos e a banda remetem à sonoridade dos discos e shows do compositor. Poderíamos traduzir assim: é Jobim pelos Jobins. Completo respeito, absoluta fidelidade ao universo musical de Tom. Um pouco mais intimista, um pouco mais camerístico, até porque o grupo é numericamente muito pequeno.

Aí vem o dado novo: Antônio Carlos Jobim, nosso maestro soberano, que já teve suas canções gravadas por gente do mundo inteiro, agora está nas mãos de uma fadista.

Carminho é uma jovem cantora portuguesa de 32 anos. Mais ou menos, a idade da Banda Nova.  Uma fadista moderna que traz para o grande cancioneiro jobiniano as marcas da música mais tradicional e mais representativa de Portugal.

Em 14 faixas, há duetos com Chico Buarque (Falando de Amor), Maria Bethânia (Modinha) e Marisa Monte (Estrada do Sol). O repertório tem Tom e seus parceiros (Vinícius, Chico, Dolores Duran, Aloysio de Oliveira, Newton Mendonça) e Tom sozinho, fazendo música e letra. Tem o começo (A Felicidade, Estrada do Sol), o meio (Wave, Triste) e a fase final (Luíza).

Antes de ouvir o disco, qualquer pessoa que tem intimidade com a obra de Jobim perguntará: as canções combinam com uma intérprete de fado?

A resposta vem logo na primeira audição: no caso de Carminho, combinam, sim!

Há um equilíbrio perfeito entre a força dramática da intérprete e a execução cool da banda.

Carminho é uma cantora notável que dialoga há algum tempo com a música brasileira, e, nesse disco, o repertório de Jobim só vem ampliar e enriquecer esse diálogo.

Antônio Carlos Jobim, um top 10 do maestro soberano

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Se estivesse vivo, o maestro soberano faria 90 anos em 25 de janeiro de 2017. Nesta quinta-feira (08), faz 22 anos que ele morreu.

Tom Jobim é o maior compositor popular do Brasil. Suas canções permanecem novas. Parece que foram compostas hoje.

Fiz um top 10 dos seus discos. Vamos reouvi-los?

The Composer of Desafinado Plays. O primeiro disco. Gravado nos Estados Unidos. Só tem clássicos. Parece uma compilação.

the-composer-of-desafinado

The Wonderful World of Antônio Carlos Jobim. As músicas de Tom sob a batuta do grande Nelson Riddle, o maestro de Frank Sinatra.  the-wonderful-world

Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim. Sinatra e Jobim juntos. The Voice se rende à Bossa Nova.

francis-albert-sinatra

Stone Flower. Com Wave Tide, faz parte de uma trilogia de discos dedicados aos temas instrumentais.

stone-flower

Matita Perê. De Águas de Março à suíte Crônica da Casa Assassinada. Meio popular, meio erudito. A capa é da edição americana.

matita-pere

Elis & Tom. Um encontro histórico. Gravações tensas que resultaram num dos grandes discos da nossa música popular.

elis-e-tom

Urubu. Um lado de canções. Um lado de temas instrumentais para grande orquestra. Do Tom ecológico às saudades do Brasil.

urubu

Terra Brasilis. Um disco absolutamente primoroso de clássicos revisitados.

terra-brasilis

Passaram. Tom e a Banda Nova, família e amigos no estúdio e no palco. A última fase do compositor.

passarim

Antônio Brasileiro. A despedida do maestro soberano. Um inventário lançado semanas antes da sua morte.

antonio-brasileiro

Paródia de “Águas de Março” desrespeita memória de Jobim!

Águas de Março é o samba mais lindo do mundo!

Creio que quem disse foi Chico Buarque.

Waters of March é uma das grandes canções do século XX!

Quem disse foi o crítico de jazz Leonard Feather.

Letra e música de Antônio Carlos Jobim, Águas de Março é uma das maiores canções de Tom e um momento singularíssimo do vasto cancioneiro do Brasil.

Vejam e ouçam, então, essa paródia de Águas de Março que encontrei no Youtube.

Essa paródia é um absoluto desrespeito não só a uma joia do nosso cancioneiro, mas, sobretudo, à memória de Tom, nosso maior compositor popular.

Para enxergar o que há de simplório e pouco inteligente na paródia não é preciso ser Trump, nem Temer, nem Crivella. Muito menos Bolsonaro, abominável defensor do estupro e da tortura.

Há um verso imperdoável nesse atentado a Águas de Março: “Bolsonaro a caminho”.

O Brasil está num impasse, estamos a dois anos da eleição presidencial e, francamente, devemos acreditar que encontraremos uma saída que não seja essa. Nenhuma saída (nem as piores) pode ser tão indesejável quanto Bolsonaro.

Nenhuma desilusão com o jogo político deve levar à crença de que uma onda conservadora conduzirá o Brasil ao extremo que Bolsonaro representa.

Paródia com esse tipo de verso serve, no fundo, a quem?

Não tem a menor graça!

Aproveitando o que está na letra: isso, sim, é que é o fim da poesia!!

Dia de Finados: mortos que fazem muita falta

Finados. Dia de lembrar os mortos.

Na redação, uma colega sugere: lembre-se de pessoas famosas que você admira muito, mortos que você queria que estivessem vivos.

A lista é imensa, mas escolhi oito nomes.

Antônio Carlos Jobim. O maior compositor popular do Brasil, o que melhor nos projetou internacionalmente com uma versão refinada do samba. Morreu em 1994.

tom-jobim

John Lennon. Musicalmente, não era o melhor dos Beatles. Mas era o mais inquieto, a maior personalidade do quarteto. Foi assassinado em 1980.

john-lennon

Billie Holiday. A mais verdadeira das vozes do jazz. Na juventude, nem sabia que seria cantora, de tão natural que para ela era cantar. Morreu em 1959.

billie-holiday

Federico Fellini. Um verdadeiro poeta do cinema. Em seus filmes, deu universalidade à pequena Rimini onde nasceu. Morreu em 1993.

federico-fellini

François Truffaut. Mestre do cinema francês e da Nouvelle Vague. O que teorizou na juventude, como crítico, levou para a tela em seus filmes. Morreu em 1984.

Francois Truffaut, realisateur francais, posant au debut des annees 80, lieu inconnu.

Nelson Rodrigues. No jornalismo, na literatura, no teatro, escreveu sobre o Brasil e, principalmente, sobre o homem. Como nos faz falta! Morreu em 1980.

nelson-rodrigues

Martin Luther King. Pastor da não violência, do pacifismo, das ideias generosas. Deveria ter vivido para ver Barack Obama na Casa Branca. Foi assassinado em 1968.

luther-king

Nelson Mandela. Sua história diz que há outros modos de fazer política. Morreu em 2013.

mandela

Geraldo Vandré, aniversariante do dia, está “morto” há mais de 40 anos!

O compositor Geraldo Vandré faz 81 anos nesta segunda-feira (12). Resgato aqui parte de um texto que escrevi nos 80 anos dele. É um pouco do que penso sobre o autor de “Caminhando”.

Geraldo-Vandr---8

O advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias vive em São Paulo, longe do ambiente em que se projetou nacionalmente na década de 1960. Por trás do advogado, há um artista: o compositor Geraldo Vandré. Este, está “morto” desde o lançamento de “Das Terras do Benvirá”, de 1973.

Ou desde aquela noite em 1968, quando conquistou o segundo lugar da etapa nacional do Festival Internacional da Canção com “Caminhando (Pra Não Dizer que Não Falei de Flores)”. Ali, a poucas semanas da edição do AI-5 e do endurecimento do regime militar, Vandré viveu o ponto alto de sua carreira. E a sua despedida.

O episódio que mais marcou o festival foi a disputa entre “Caminhando”, de Geraldo Vandré, e “Sabiá”, de Antônio Carlos Jobim e Chico Buarque. Tom e Chico compuseram uma bela canção de exílio, mas o público queria a urgência dos versos de Vandré: “Vem vamos embora, que esperar não é saber/quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

O “pra não dizer que não falei de flores” do título remete aos versos que chamam de “indecisos” os cordões da não violência. A crítica a eles é tão inequívoca quanto a descrença (do autor) na vitória das flores sobre o canhão. Alguns ouvintes podem até se enganar, mas a letra não comporta dúvidas.

“Sabiá” foi defendida pelas irmãs Cynara e Cybele, do Quarteto em Cy. “Caminhando”, pelo próprio autor.

Voz e violão, dois acordes (um menor, outro maior) que se repetiam e uma letra que fazia a conclamação à luta armada. O suficiente para arrebatar a plateia, que não aceitou o segundo lugar conquistado por Vandré, muito menos o primeiro conferido a “Sabiá”. Ele tentou conter os que receberam a vencedora com uma vaia monumental. Disse que Tom e Chico mereciam respeito e pronunciou uma frase de efeito: “a vida não se resume em festivais”.

Era Geraldo Vandré, compositor notabilizado na era dos festivais, em sua última performance pública em terras brasileiras.

Vandré foi parceiro de Carlos Lyra, Gilberto Gil, Théo de Barros, Geraldo Azevedo, e tem, entre suas canções mais conhecidas, “Quem Quiser Encontrar o Amor”, “Fica Mal com Deus” e “Porta Estandarte”.

No festival da MPB de 1966, numa interpretação arrebatadora de Jair Rodrigues, sua “Disparada” (parceria com Théo) dividiu o primeiro lugar com “A Banda”, de Chico Buarque.

Em “A Canção no Tempo”, Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello comentam apenas duas músicas de Vandré: “Disparada” e “Caminhando”, o que sugere, talvez, que, nele, o mito se sobrepõe mesmo aos méritos.

Com o endurecimento do regime, Vandré deixou o Brasil. Quando voltou, muitos diziam que fora preso e que a tortura o deixara louco – uma lenda que convinha a setores da esquerda. Mas não era verdade. Ele não foi preso, nem torturado.

No retorno, negou o mito ao ponto de não querer ser reconhecido pelo nome que lhe deu dimensão nacional. E foi ainda mais longe ao compor “Fabiana” em homenagem à Força Aérea Brasileira. Mas seguiu cultuado pela esquerda.

Em 2014, subiu ao palco no show de Joan Baez em São Paulo, mas não cantou “Caminhando” com a musa da canção de protesto dos anos 1960. O silêncio de Vandré confirmava a “morte” do artista e a vida do advogado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias.

Nos 15 anos do 11/09, sons e imagens para homenagear Nova York

Neste domingo (11), são 15 anos do atentado às torres gêmeas.

Filmes e canções ajudaram a construir minha admiração por Nova York.

O maior compositor americano está associadíssimo a ela. George Gershwin é tão novaiorquino quanto Antônio Carlos Jobim é carioca. Teve o jazz como fonte, e as músicas que escreveu foram popularizadas por grandes intérpretes do universo jazzístico. Neste particular, podemos mergulhar no seu cancioneiro, ouvindo o extenso songbook gravado por Ella Fitzgerald ou a versão de Ella e Louis Armstrong da ópera Porgy and Bess.

Outro músico erudito muito associado a Nova York é Leonard Bernstein, que regeu a filarmônica da cidade e compôs as melodias de West Side Story, musical que atualiza a tragédia de Romeu e Julieta, ambientando seus personagens na Nova York da década de 1950.

Ainda que muito conhecidas, as melodias de George Gershwin e Leonard Bernstein são menos populares do que New York, New York, que ouvimos no filme homônimo de Martin Scorsese, mas que tem sua versão definitiva na voz de Frank Sinatra. É provável que nenhuma outra canção represente tão bem a cidade como esta.

Se fizermos escolhas menos óbvias, temos Autumn in New York, com Billie Holiday, Manhattan, com Dinah Washington, Lullaby of Birdland, com Sarah Vaughan, e, saindo do jazz, American Tune, com Paul Simon.

Há, também, o olhar dos estrangeiros. De John Lennon (New York City), de Sting (English Man in New York) e do nosso Antônio Carlos Jobim (Chansong).

Woody Allen declarou seu amor a Nova York em Manhattan. As torres gêmeas aparecem na logo do filme. Elas são a letra “h” do título. As melodias de Gershwin acompanham os personagens de Allen.

Perdidos na Noite é outro retrato de Nova York tirado pelo cinema. Solidão, amizade, marginalização – aborda temas que teriam igual significado em muitas cidades do mundo. Mas é nas ruas de Manhattan que os personagens se movem ao som de Everybody’s Talkin’.

Nova York como metáfora do sonho americano é o que temos na Estátua da Liberdade vista pelos que chegam de navio, na segunda parte de O Poderoso Chefão. A música de Nino Rota dá maior dramaticidade às imagens.

Cinco anos atrás, no décimo aniversário do 11 de setembro, Paul Simon fez uma breve aparição na cerimônia de inauguração do memorial às vítimas do atentado. Ele cantou The Sound of Silence.

Com a linha melódica ligeiramente alterada, era como se estivesse conversando. O compositor, que já reuniu multidões no Central Park, deu um sentido especial a esta canção que vem de longe. Parecia que seus versos haviam sido escritos para a ocasião.

The Sound of Silence há muito está incorporada à memória afetiva dos novaiorquinos.