“Curtindo a Vida Adoidado” já é clássico para a geração dos 1980

Curtindo a Vida

Na semana passada, muitos textos celebraram os 30 anos de “Curtindo a Vida Adoidado”. O filme de John Hughes é considerado um clássico. Dizem que três décadas são suficientes para obter a classificação.

Muito bem. Tentei, mas nunca consegui terminar. Nem a famosa cena de “Twist and Shout” me agrada. Penso sempre que já vi melhor em “Fame” e nos “Blues Brothers”.

Acredito que, na estreia de “Curtindo a Vida Adoidado, já era crescido o suficiente para gostar, e não tinha ainda a maturidade necessária para ver com um olhar generoso.

O fato é que a geração que viu adolescente o filme de Hughes hoje tem mais de 40 e o festeja não apenas como um marco da década de 1980, mas como verdadeiro clássico do cinema.

Diante das homenagens, fui nos dois volumes de crítica de Roger Ebert ver o que ele dizia de “Curtindo a Vida Adoidado”. Um consolo: o grande crítico americano não inclui o filme na sua lista de 200.

O fato é que a efeméride me motivou a listar meus filmes favoritos dos anos 1980. Fica para o próximo texto.

Autênticos e não autênticos

Forró autêntico versus forró de plástico. As festas juninas sempre trazem o tema de volta.

A lembrança de Dominguinhos é inevitável. Umas duas décadas atrás, na época em que o sucesso era Mastruz com Leite, o grande sanfoneiro e herdeiro do baião de Gonzaga disse que esses grupos que faziam o que depois foi chamado de forró de plástico davam mercado a ele e a outros artistas vinculados à tradição do gênero.

A fala de Dominguinhos apontava para a tolerância e a compreensão de que as coisas mudam. A permanência das manifestações culturais será determinada pelo tempo.

Prefiro o baião de Gonzaga, mas sempre aposto na convivência entre “autênticos” e “não autênticos” nas nossas noites juninas. Como o mestre Dominguinhos parecia apostar.

 

 

Para começar…

Do impresso para a TV. Da TV para o impresso. Do impresso para o online. Caminhos da minha trajetória profissional que já passa das quatro décadas.

Depois de alguns posts experimentais, o blog está começando. Vou escrever sobre música, cinema, cultura de um modo geral. Misturar informação com opinião. Transitar numa área onde comecei e da qual nunca me afastei totalmente.

Ao leitor, peço sugestões e críticas que podem ser enviadas para silviosias@jornaldaparaiba.com.br

 

Musical fala de Elis Regina e dos impasses brasileiros

“Elis, a Musical”, espetáculo apresentado neste sábado (11/06) no Teatro Pedra do Reino, dialoga com dois públicos. Um, formado pelos que não foram contemporâneos de Elis Regina. Outro, pelos que foram. Neste, cabe uma subdivisão: os que não só foram contemporâneos da maior cantora do Brasil, mas tiveram o privilégio de vê-la ao vivo.

Seja qual for o público, objetivamente, é um espetáculo muitíssimo bem realizado. Dirigido por Dennis Carvalho, “Elis, a Musical”, da concepção ao resultado final, tira nota 10 em qualquer um desses itens: texto, escolha de repertório, cenografia, figurino, direção musical, desempenho do elenco. Nada está fora do lugar nos 150 minutos de duração dos dois atos.

Subjetivamente, a minha percepção é a de quem foi contemporâneo de Elis e pôde vê-la ao vivo. Nessa perspectiva, o musical escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade corresponde a tudo o que de melhor foi dito dele. É uma viagem melancólica e nostálgica por um tempo que, a despeito de ser de trevas, ofereceu contrapontos da dimensão de uma Elis Regina.

A tragédia pessoal da artista se funde ao impasse brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Do festival que a revelou com “Arrastão” (1965) à morte aos 36 anos (1982), Elis teve pouco mais de uma década e meia de carreira. Com muita fidelidade, o espetáculo conta a sua história e um pouco da história do país através de canções que são verdadeiros petardos para seus contemporâneos.

Viagem nostálgica porque remete à juventude dos que viram e ouviram Elis em sua época. Melancólica porque fala de sonhos desfeitos, de permanentes transversais do tempo. “Elis, a Musical” faz pensar no país convulsionado da ditadura, também no de hoje. A letra comovente de “Aos Nossos Filhos”, escrita num Brasil que não existe mais, soa mais forte ainda quando ouvida agora.

A permanência dos impasses brasileiros impede o que Elis, com a voz embargada, pede na letra da canção. Que se faça a festa por ela.

Dez discos de Elis Regina para ouvir antes de ver “Elis, a Musical”

Capas Elis

“Elis, a Musical” será apresentado neste sábado no Teatro Pedra do Reino, em João Pessoa. Para entrar no clima, escolhi dez discos de Elis Regina para ouvir (e reouvir).

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.

João Gilberto faz 85 anos, mas ainda não é uma unanimidade

João caricatura

João Gilberto (em caricatura de William Medeiros) ouviu Orlando Silva, os sambistas do Rio e os sambas de Caymmi. Ouviu Chet Baker, estrela do cool jazz, artista de canto intimista que, para os americanos, está longe de ser tão importante quanto João é para os brasileiros. Antes da Bossa Nova, sua voz era como a dos cantores antigos. Em 1958, na gravação de “Chega de Saudade”, registro inaugural da bossa, já tem a contenção que adotaria dali por diante, junto à originalíssima batida do violão. E tem o diálogo entre os dois elementos. Voz e violão, em avanços e recuos que embutiam uma revolução. A música brasileira pós-João atesta. O mundo reconhece.

Há um intervalo entre o período em que João integrava um grupo vocal de samba e o instante em que participa, em duas faixas, do disco “Canção do Amor Demais”, de Elizeth Cardoso. Naquele intervalo, inventou a batida da bossa e adotou um jeito de cantar diferente de tudo o que se fazia no Brasil. Com Elizeth, acompanha a intérprete, ao violão, mas falta a voz e o casamento dela com o instrumento. É o que se ouve, pouco depois, no 78 rpm que traz “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, arranjada por Tom. A voz e o violão de João, elementos indissociáveis. Uma gravação de dois minutos. Um corte: o antes e o depois daquele disco.

A essência da invenção de João Gilberto está nos três discos que gravou na velha Odeon entre o final da década de 1950 e o início da de 1960. A releitura dos sambas anteriores à bossa, um pouco de Dorival Caymmi, algo de Ary Barroso e muito dos seus contemporâneos, sobretudo Antônio Carlos Jobim.

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Os três primeiros discos na Odeon, o encontro com o saxofonista Stan Getz (em “Getz/Gilberto”), o LP de capa branca e “Amoroso” são os melhores registros da sua arte sofisticada, retratos de um país sonhado e não do Brasil real. Por isso, muitos ainda não compreendem o som e o silêncio produzidos por João Gilberto.

Erasmo é grande nome do rock, mas sempre flertou com a MPB

Erasmo 75

Chamado de Tremendão desde a época da Jovem Guarda, Erasmo Carlos faz 75 anos neste domingo (05). A parceria com Roberto Carlos e o vínculo profundo com o rock são o que há de mais significativo na trajetória desse gigante gentil.

A parceria com Roberto Carlos produziu dezenas e dezenas de canções. É uma das mais importantes da música popular do Brasil, a despeito de todas as críticas que são dirigidas aos dois artistas. Mas é um mistério: ninguém sabe quem fez o que, qual o papel de cada um no cancioneiro dos Carlos.

Desde a juventude, Erasmo sempre se identificou mais com o rock do que Roberto. Identificação que o levou a se consolidar como um dos grandes nomes da versão brasileira do gênero que transformou a música popular e a indústria do disco a partir de meados dos anos 1950.

Paradoxalmente, lutou a vida toda para ser reconhecido fora do rock. No fundo, o que Erasmo sempre quis foi fazer parte da turma da MPB. As pistas estão nos primeiros discos que gravou após a Jovem Guarda. Lá estão o autor de um samba como “Coqueiro Verde” e o intérprete do Caetano Veloso de “Saudosismo”.

A longa estrada percorrida pelo garoto da turma da Tijuca mostra que o bom em Erasmo é juntar o que parece diferente: a parceria com Roberto Carlos, o amor pelo rock, o desejo de ser da MPB. Sua música é tudo isso.

Os melhores momentos de sua discografia são da década de 1970 (“Carlos, Erasmo”, “Sonhos e Memórias”, “Projeto Salva Terra”, “Banda dos Contentes”). Mas, recentemente, entre os 68 e os 73 anos, gravou uma surpreendente trilogia de inéditas. “Rock`n`Roll”, “Sexo” e “Gigante Gentil” são discos irresistíveis. Confirmam o talento e a vitalidade do velho Tremendão.

Repertório de Frank Sinatra é revisitado em dois novos CDs

Sinatra tributos

Dois novos CDs prestam tributo a Frank Sinatra. Um brasileiro, um americano. O brasileiro: “Celebrando Sinatra ao Vivo” (Fina Flor), de João Senise. O americano: “Fallen Angels” (Sony Music), de Bob Dylan.

João Senise é um jovem cantor. Filho do saxofonista Mauro Senise, enteado do pianista Gilson Peranzetta. Nasceu e cresceu com a música dentro de casa. Canta bem, faz boas escolhas. Seu CD anterior, “Abre Alas”, reúne canções de Ivan Lins.

Ao celebrar Sinatra, tem Peranzetta como arranjador e condutor da banda. Os arranjos são jazzísticos. Na verdade, enfatizam o que há de jazzy em Sinatra. A performance vocal é correta, eficiente, mas não aproxima (nem pretende) o ouvinte do canto incomparável do homenageado.

Já “Fallen Angels” é o segundo disco que Bob Dylan dedica a Sinatra. O primeiro, “Shadows in the Night”, saiu no ano passado. Dylan, aqui, seria o avesso de Senise. No lugar de enfatizar um caminho que Sinatra seguiu, ele foge dos caminhos que a Voz percorreu.

Se Senise é um cantor correto, Dylan perdeu sua condição vocal faz tempo. Para ouvi-lo cantando Sinatra, é preciso esquecer Sinatra. É o que “Fallen Angels” parece sugerir. O que se tem é Dylan voltando às fontes, às matrizes do cancioneiro americano. Mas fazendo ao seu modo. Sendo Dylan.

Um dia, Bob Dylan viu nas suas canções o novo songbook americano, que tornaria obsoleto o universo visitado por Frank Sinatra. Agora, na velhice, ele se desmente ao curvar-se sobre esses standards. E o faz indo ao fundo do que essas canções querem dizer. Quem ama os dois (Bob e Frank) entenderá.

 

Documentário sobre Janis Joplin chega aos cinemas brasileiros

Janis

Janis Joplin foi a maior voz feminina do rock. O documentário “Janis: Little Girl Blue” já tem estreia marcada nos cinemas brasileiros. Será no dia sete de julho. João Pessoa está incluída? Vamos torcer que sim.

Texana de Port Arthur, Janis Joplin teve uma carreira meteórica. Apenas quatro anos entre o disco de estreia, ainda como vocalista do Big Brother & The Holding Company, e a morte aos 27 anos, em outubro de 1970, quando estava finalizando a gravação do álbum “Pearl”.

Branca com voz de negra é o clichê largamente usado para definir o canto de Janis Joplin. Não é exatamente isso, mas é quase. Muita música negra (blues, baladas soul), aí sim! E com uma grande expressividade.

Em meados dos anos 1970, o documentário “Janis” foi visto nos cinemas brasileiros. Num tempo em que o acesso àquelas imagens era dificílimo. Quatro décadas mais tarde, quando essas coisas estão ao alcance de todos, vamos novamente ao cinema ver Janis Joplin na tela grande.