Parceria de Roberto e Erasmo é um mistério a ser desvendado

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.

Uma première na terra dos Beatles: Eight Days a Week, the touring years

Abro espaço na coluna para um texto exclusivo do professor doutor Lauro Meller, acadêmico da área de letras, nascido em João Pessoa, professor da UFRN. Atualmente, Lauro mora em Liverpool e, nesta quinta-feira (15), assistiu, como convidado, à estreia mundial do novo filme sobre os Beatles.

Eight days cartaz

Uma première na terra dos Beatles: Eight Days a Week, the touring years

Lauro Meller, de Liverpool

Na última quinta-feira, estendeu-se um tapete azul em frente ao FACT Picturehouse, em Liverpool, para a première mundial do filme Eight Days a Week: the touring years, dirigido por Ron Howard. Enquanto o acesso não era liberado, uma pequena multidão de sexagenários, septuagenários e até octogenários, todos muito bem vestidos, começou a se aglomerar em frente ao cinema. O público local, que passava pela Bold Street e observava com curiosidade a presença de câmeras de televisão e da estrutura de isolamento com o nome do filme, não imaginava que, dentre aqueles recatados senhores e senhoras que aguardavam o início do filme, estavam Colin Hanton, Len Garry e Rod Davies, três dos membros originais dos Quarrymen, a primeira banda de John, imortalizados numa foto hoje histórica; Julia Baird, irmã de John Lennon; Joe Flannery, ex-sócio de Brian Esptein e booking agent dos Beatles em seus primórdios; e Allan Williams, primeiro empresário da banda e dono do Jacaranda, um bar a duas quadras dali, na Slater Street, onde os rapazes se apresentaram no início da carreira

Dirigido por Ron Howard, o filme traz o enfoque específico dos Beatles em turnê, desde o indispensável aprendizado nos cabarés de Hamburgo até a roda-viva que os levou a desistir dos palcos, quando a histeria das fãs os transformou numa caricatura de si próprios. Diante de tudo que já se disse, filmou e escreveu sobre os Beatles, é muito raro surgir uma perspectiva nova sobre o tema, e Eight Days a Week nos deixa a impressão de ser “mais do mesmo”, principalmente para quem assistiu aos episódios da série Anthology, lançada em 1995.

Nesse “novo” filme, não há surpresas nem revelações, e repetem-se os relatos das noites estafantes na Alemanha, do papel crucial de Brian Epstein como o empresário que soube criar uma imagem vendável de seus rapazes, da precária estrutura de apoio para “cair na estrada”, da piada que era tocar para 50 mil pessoas utilizando amplificadores de 100 watts, hoje utilizados por qualquer banda de garagem. Repetem-se, também, as mesmas histórias sobre os protestos que os Beatles enfrentaram ao tocarem no Budokan, em Tóquio, um templo de artes marciais, e sobre eles terem, supostamente, ignorado o convite de Imelda Marcos para uma recepção oficial, o que quase lhes custou a vida. A polêmica declaração de John sobre os Beatles serem mais populares que Jesus Cristo é relembrada, bem como a repercussão negativa que isso gerou em solo norte-americano, principalmente nos Estados do Sul. Mas, apesar de as histórias serem as mesmas, há muitas imagens inéditas, o que é impressionante ao lembrarmos que os Beatles pararam de excursionar há exatos 50 anos, no show do Candlestick Park, em São Francisco.

Para a estreia em Liverpool, que começou meia hora antes da de Londres, foi apresentado um vídeo introdutório ao filme – e que poderia perfeitamente fazer parte do corpo principal da obra -, com entrevistas dos ainda residentes na cidade ligados aos Fab Four e à sua história. Sem dúvida, boa parte da “mágica” dessa noite foi saber que as pessoas falando na telona estavam ali, sentadas praticamente ao seu lado.

Ringo Starr e Paul McCartney gravaram um curto recado ao público de Liverpool, exibido durante a sessão; preferiram comparecer à estreia em Londres, talvez por praticidade, talvez pelo glamour da capital. Esse gesto foi recebido com uma ponta de ressentimento por alguns dos presentes, e compreensivelmente. Apesar de serem hoje megaestrelas, e de terem conquistado todo sucesso por seus próprios méritos, Liverpool foi o marco zero da jornada que colocou os Beatles para sempre no mapa da cultura ocidental.

Lauro Meller

Lauro Meller, o autor do texto, também é músico e estuda a obra dos Beatles sob a perspectiva acadêmica. Professor da UFRN com doutorado em Letras pela PUC-Minas, bolsista CAPES em estágio pós-doutoral no Institute of Popular Music – University of Liverpool.

Os Paralamas, outra vez um power trio, fazem retrospecto em show vigoroso

Os Paralamas do Sucesso tocaram nesta sexta-feira à noite no teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Estão de volta ao power trio, formato abandonado há três décadas, desde que passaram a subir ao palco acompanhados por outros músicos.

O power trio é uma formação fundamental no rock. Nos anos 1960, em meio aos conjuntos de quatro ou cinco elementos, o conceito se consolidou através daqueles caras que faziam o máximo com o mínimo.

The Jimi Hendrix Experience, o Cream de Eric Clapton. Guitarra, baixo e bateria. Mesmo o Who e o Zeppelin, que eram trios de instrumentistas acrescidos de um cantor, cabem no conceito. E muita coisa mais, quando o assunto é power trio.

Paralamas trio

Nesse show visto em João Pessoa, os Paralamas voltam ao começo para rever o conjunto da obra. O set list é um retrospecto. Momentos autorais importantes somados a influências e a alguma coisa de amigos & contemporâneos.

A fórmula funciona muitíssimo bem.

É bonito de ver. Bom para contemplar. Ainda mais num teatro, longe do desconforto das casas de show.

O conterrâneo Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone formam um grupo longevo. Produzem um som conciso e vigoroso.

Aqui, cada música é um pequeno retrato. Lembra um momento. Óculos na abertura não é uma escolha gratuita. Parece um convite para que o público junte cada retrato e se veja diante de um grande painel.

Nesse painel, há dores individuais em canções que são autorretratos. E dores coletivas em letras fortes que ainda guardam alguma atualidade.

Quando os Paralamas tocam em João Pessoa, Herbert está em casa. Lembra logo da maternidade do Grupamento de Engenharia, onde nasceu. “Na Epitácio”, referindo-se à avenida do jeito que nós, pessoenses, falamos. Tios e primos na plateia. Dessa vez, não foi diferente.

Os Paralamas atravessaram o tempo e as adversidades. Estão envelhecendo juntos. Voltam ao formato do início, apenas um trio, mas com o olhar de quem percorreu uma extensa trajetória. É sempre uma alegria revê-los ao vivo.

(A foto é de Maurício Valladares)

Paul e Ringo vão juntos à estreia de documentário sobre os Beatles

Paul McCartney e Ringo Starr foram à estreia, nesta quinta-feira (15) em Londres, do documentário Eight Days a Week: The Touring Years.

A viúva de John Lennon, Yoko Ono, e a viúva de George Harrison, Olivia, também estavam na sessão, além do guitarrista Eric Clapton.

O filme trata dos anos da Beatlemania e tem direção de Ron Howard, o cineasta de Apollo 13.

João Pessoa terá quarta edição do Festival de Música Clássica

Está confirmado. João Pessoa terá a quarta edição do Festival de Música Clássica.

Hoje (16) no início da tarde, o presidente da Funjope, Maurício Burity, disse que o patrocínio do BNDES assegura a realização do evento internacional em sua edição 2016.

O Festival de Música Clássica será realizado de 27 de novembro a 3 de dezembro com concertos gratuitos em igrejas do centro histórico de João Pessoa.

Músicos do México, Rússia e Holanda já confirmaram presença.

A morte de Santo e outras mortes. Longa é a arte, tão breve a vida!

A morte do ator Domingos Montagner, o Santo de Velho Chico, nos deixa estarrecidos.

A notícia do desaparecimento, durante um mergulho no São Francisco, veio no meio da tarde desta quinta-feira (15). No início da noite, a confirmação do que já parecia inevitável.

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A precocidade, a circunstância trágica, o talento, a beleza física, o sucesso, o reconhecimento, a força do personagem. Tudo se mistura em meio à perplexidade até de quem não acompanhava tão atentamente a novela, mas o suficiente para perceber quantos diferenciais há nela.

A morte de Montagner fala da relação afetiva que construímos com atores e atrizes e seus personagens. E do quanto são dolorosas essas perdas. Como se elas ocorressem bem perto de cada um de nós. Mortes assim assustam porque falam do imprevisível e da brevidade da vida.

Lembro aqui de Jardel Filho, o grande ator de Terra em Transe, levado por um ataque cardíaco durante Sol de Verão. Ou de Sérgio Cardoso, o eterno Antônio Maria, que nos deixou antes de terminar O Primeiro Amor. Ou, ainda, da jovem Daniela Perez, assassinada por um colega de elenco e pela mulher dele quando fazia De Corpo e Alma.

A arte imita a vida é um clichê.

Na trama, Santo desapareceu nas águas do Velho Chico para ressurgir lá na frente.

Na vida real, Montagner morreu nas águas do São Francisco.

A vida a imitar a arte – não há como fugir da inversão do clichê!

Nem do verso de Tom Jobim, que a gente ouvia na trilha de uma novela, uns 25 anos atrás:

Longa é a arte, tão breve a vida!

Paralamas do Sucesso de volta ao começo. Um vigoroso power trio!

No começo, os Paralamas do Sucesso eram um power trio. Guitarra, baixo e bateria. Muito bons. Vigorosos.

Aí veio a necessidade de ampliar o trabalho. Arranjos mais complexos, outros instrumentos. Teclados, metais. Os Paralamas passaram a se apresentar com músicos que davam apoio ao trio. Foi assim até mesmo quando aderiram ao formato desplugado da MTV.

Paralamas trio

O tempo passou, e lá vem o grupo para o palco como no início. Apenas um power trio. Fazendo um show retrospectivo. E – no caso de João Pessoa – num teatro.

Um luxo para os fãs da banda liderada pelo conterrâneo Herbert Vianna!

Nesta sexta-feira (16) no teatro A Pedra do Reino, do Centro de Convenções.

Aos 80, Wills Leal mantém jovem seu necessário ativismo cultural

Wills Leal

Wills Leal está fazendo 80 anos. São oito dias de festa (um dia para cada década), mas o aniversário é no domingo (18).

Quando penso em Wills, só vejo nele a figura de um grande ativista cultural. Imprescindível à Paraíba há umas seis décadas.

Podemos associar o seu nome a muitas facetas desse ativismo.

Cinema, turismo, carnaval, clubes, academias.

Fico com o cinema por uma questão de afinidade. O cineclubismo, a crítica, a ACCP, os livros, a incrível performance nos debates. A Academia Paraibana de Cinema, que não existiria sem Wills.

E esses dois volumes incríveis sobre o cinema na/da Paraíba!

Mas tem outras coisas. Às vezes menos mencionadas. Como, por exemplo, a aventura do amor atonal.

Ou o diálogo Paraíba/Pernambuco construído com seu amigo Jomard Muniz de Britto.

Até a sua casa, no bairro de Manaíra, demolida há uns poucos anos. Tradição + transgressão: é o resumo que tenho dela.

Lembro de Wills muito jovem na casa de Geraldo Carvalho, em Jaguaribe. Eu, criança, levado pelo meu pai. Mas nossas conversas começaram um pouco depois. Ali pelo início dos anos 1970, quando, adolescente, eu queria ser crítico de cinema.

Wills ainda não tinha 40 anos. Hoje tem 80.

O tempo passou, mas fica a sensação de que seu ativismo, tão necessário, permanece jovem.

Parabéns, Wills!

 

Dom Paulo Evaristo Arns faz 95 anos

Saio do universo da cultura para um registro breve:

Quem faz 95 anos nesta quarta-feira (14) é o arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns.

Acompanhei com grande interesse a atuação dele como uma das figuras centrais do chamado clero progressista brasileiro. Dom Paulo desempenhou papel fundamental nas lutas da sociedade civil contra a ditadura militar.

Na foto, ele aparece ao centro.

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Filme sobre Pedro Osmar não foi financiado pelo Itaú. Edital do Itaú viabilizou finalização

Errei quando disse aqui que o documentário Pedro Osmar, pra liberdade que se conquista foi financiado pelo Itaú. Na verdade, teve apoio de um edital do Itaú Cultural que viabilizou a finalização do filme.

Carina Bordalo, do Itaú Cultural, me explica a diferença num e-mail. Transcrevo:

Querido, só para vc entender melhor, o documentário não foi patrocinado pelo banco Itaú. Ele foi um projeto inscrito pelo Rumos Itaú Cultural, que é um edital, um programa de fomento à cultura. As pessoas inscrevem os seus projetos, que passam por uma comissão de avaliação e são ou não contempladas. São coisas diferentes.

Rodrigo T. Marques, um dos realizadores do filme, registrou o meu equívoco no Facebook. Transcrevo:

Acredito que há um equívoco de sua parte. Esse filme não foi financiado com recursos do Itaú. Ele foi produzido com recursos da minha produtora e teve o apoio do edital RUMOS ITAÚ CULTURAL somente para a finalização do filme. Acredito que vc, como jornalista experiente que é, antes de sair por aí soltando notas sem fundamento, deveria entrar em contato com os realizadores e ter o mínino de respeito pelo trabalho realizado sobre essa importante figura da cultura paraibana. Se quiser entrar em contato para saber mais informações, fico à disposição.