Bethânia tem extensa discografia. Aqui, apenas oito indicações

Maria Bethânia está fazendo 70 anos neste sábado (18). A seguir, oito indicações pessoais para ouvir (e reouvir) a cantora.

RECITAL NA BOITE BARROCO

De 1968. Segundo disco de Bethânia. Primeiro dos muitos ao vivo. O repertório mistura passado e presente, como a cantora faria sempre. Ela não participou do Tropicalismo, mas gravou “Baby”, que Caetano compôs por sugestão sua.

DRAMA

De 1972. Um dos melhores discos de Bethânia. A produção é de Caetano Veloso, que acabara de voltar do exílio londrino. Em “Volta por Cima”, o passado recriado. Em “Esse Cara” e “Estácio Holly Estácio”, o que era novo em 1972.

A CENA MUDA

De 1974. No palco, Bethânia abriu mão dos textos. Só música. No disco, o resumo de um show excepcional. Grande registro do espetáculo dirigido por Fauzi Arap. Tem Chico Buarque, Paulinho da Viola, Gonzaguinha e Sueli Costa.

PÁSSARO PROIBIDO

De 1976. Marcante porque, com “Olhos nos Olhos”, Bethânia fez muito sucesso nas emissoras de rádio AM. Era Chico compondo no feminino e encantando as mulheres. Tem o Gonzaguinha de “Festa” e o Gil de “Balada do Lado Sem Luz”.

Betha capas

ÁLIBI

De 1978. Bethânia no auge do sucesso comercial, mas também dos méritos artísticos. Provando que uma coisa não inviabiliza a outra. Tem “Sonho Meu”, em dueto com Gal, e “Álibi”, de Djavan. E tem “Explode Coração”, de Gonzaguinha.

MEL

De 1979. Depois de “Álibi”, outro disco comercialmente muito bem sucedido. Na letra da faixa que dá título ao disco, a abelha rainha que virou apelido. “Lábios de Mel” leva a Ângela Maria. “Grito de Alerta” confirma o sucesso de Gonzaguinha.

AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM

De 1993. Bethânia não participou do Tropicalismo, mas mandou que o mano Caetano prestasse atenção na Jovem Guarda. Passados 25 anos, gravou seu tributo à dupla Roberto & Erasmo Carlos. Uma refinadíssima homenagem.

BRASILEIRINHO

De 2003. Gravando num pequeno selo (Biscoito Fino), Bethânia funde a palavra falada com a palavra cantada em comovente mergulho no Brasil profundo. Dos santos populares ao sincretismo religioso, de Luiz Gonzaga e Villa-Lobos.

 

Maria Bethânia completa 70 anos. Ela sempre fez do seu jeito

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O nome, quem sugeriu foi o irmão Caetano Veloso, então com apenas quatro anos. Maria Bethânia (“tu és para mim a senhora do engenho”), como na valsa de Capiba gravada por Nelson Gonçalves. O destino parecia traçado desde cedo: a música.

Maria Bethânia se projetou nacionalmente em 1965, quando substituiu Nara Leão no show “Opinião”. “Carcará”, uma música de protesto, foi seu primeiro sucesso.

Independência é uma palavra que deve, sim, ser associada a ela. Desde o início, quando seguiu seu caminho e não quis se engajar no movimento tropicalista, embora tenha sugerido ao irmão que prestasse atenção na Jovem Guarda. Até agora, quando grava por um selo pequeno (Biscoito Fino) e faz seus muitos discos do jeito que quer.

A força incomum da intérprete e o extraordinário domínio de palco são características dela. O gosto pela poesia que, nos shows, mistura com as canções, é outra marca do seu trabalho.

No repertório, extenso e heterogêneo, o refinado e o popularesco são tratados do mesmo modo, fundidos num todo muito peculiar.

Maria Bethânia chega aos 70 anos neste sábado (18/06) como uma das grandes divas da nossa canção popular.

Na foto, a capa do disco em homenagem a Vinícius de Moraes.

No próximo post, falo dos discos de Bethânia.

Em novo CD, Eric Clapton garante que ainda faz. E é verdade

Eric Clapton

I Still Do”. Eu ainda faço. É o nome do novo disco de Eric Clapton. O lançamento coincide com uma notícia ruim: o guitarrista, que um dia foi chamado de deus, tem neuropatia periférica, uma doença grave que pode impedi-lo de tocar. Consequência dos excessos do passado.

Eric Clapton tem 71 anos. Seu disco novo parece antigo. O produtor é o velho Glynn Johns, que, há muito tempo, já trabalhou com os Rolling Stones, The Who, Led Zeppelin e o próprio Clapton. A capa foi desenhada por Peter Blake, o autor, no remoto 1967, da capa do “Sgt. Pepper”, o disco mais importante dos Beatles.

A sonoridade é de disco analógico, e o repertório, pouco autoral, vai do tradicional a Bob Dylan, de Robert Johnson a J.J. Cale. Mas o resultado é um primor para os que admiram o guitarrista. Tocando ou cantando, Clapton continua irresistível.

Na ficha técnica, há um dado intrigante: um músico chamado de anjo misterioso. No final dos anos 1960, num disco do Cream (o power trio de Clapton), o beatle George Harrison assinou como o anjo misterioso, no lugar de colocar seu nome na faixa “Badge”. Quem é, então, o anjo misterioso de 2016?

Industrial do amadorismo é rótulo que crítica colou em Lelouch

un homme et une femme 1966 real : claude lelouch anouck aimee jean louis trintignant

Na estreia, a classificação etária me impedia de ver “Um Homem, Uma Mulher”. O que me impressionava nos cartazes era a expressão de Anouk Aimée nas cenas de sexo. Creio que foi a primeira vez que esse tipo de imagem chamou minha atenção.

Vi o filme de Claude Lelouch anos depois, já numa reprise. Uma decepção que se confirmou nas vezes em que pude revê-lo. Tinha aquele casal maravilhoso (Trintgnant e Aimée), tinha a música de Francis Lai, tinha o nosso “Samba da Bênção”, de Baden e Vinícius. Mas o resto parecia uma novela moderninha vista na tela grande do cinema.

Às vezes, enxergo um pastiche da Nouvelle Vague nos filmes de Lelouch. Quando não, aquele novelão que é “Retratos da Vida”.

Recorro ao dicionário de Jean Tulard para verificar se não estou sendo injusto com o cineasta e eis o que encontro como rótulo colado pela crítica: Claude Lelouch é um industrial do amadorismo.

Neste sábado, o filme volta às salas brasileiras no Festival Varilux. Em João Pessoa, no Cinespaço, do Mag Shopping.

 

No livro de Elio Gaspari, há uma imprecisão sobre Chico e censura

Chico Buarque Doc 3

“Severamente perseguido pela censura, Chico Buarque de Hollanda foi para a Itália em 1969, onde viveu por mais de um ano. Para driblar a censura, compunha com o nome de Julinho da Adelaide”.

O texto está no epílogo de “A Ditadura Acabada”, de Elio Gaspari. O quinto e último volume da obra mais completa sobre a ditadura militar brasileira acaba de chegar às livrarias.

Do jeito que está construído, o texto sugere que Chico (na foto, durante as filmagens de “Artista Brasileiro”) usou com mais frequência o nome de Julinho Adelaide. Mas não é fato. Julinho aparece como autor apenas de “Acorda, Amor” e “Jorge Maravilha”.

“Acorda, Amor” foi incluída no disco “Sinal Fechado”, de 1974. “Jorge Maravilha” foi gravada para o mesmo LP, mas ficou de fora.

Na verdade, o que o compositor usou para driblar a censura foram as muitas armas da palavra escrita, que domina como poucos.

A imprecisão não macula o admirável trabalho de Elio Gaspari.

 

 

 

A propósito de “Curtindo a Vida…”, meus filmes da década de 1980

E.T.

Os 30 anos de “Curtindo a Vida Adoidado” me levam aos filmes da década de 1980. Prefiro a rebeldia dos 60 e o que restou dela nos 70. Os 80 sempre me pareceram excessivamente “industriais”. No cinema, no mundo dos discos, etc.

Mas tenho meus filmes favoritos daquela década. Do Steven Spielberg de “E.T.” ao François Truffaut de “O Último Metrô”; do Ridley Scott de “Blade Runner” ao Ingmar Bergman de “Fanny e Alexander”; do Stanley Kubrick de “O Iluminado” ao Win Wenders de “Paris, Texas”.

Do Martin Scorsese de “Touro Indomável” ao Werner Herzog de “Fitzcarraldo”; do Woody Allen de “A Rosa Púrpura do Cairo” ao Giuseppe Tornatore de “Cinema Paradiso”; do Robert Zemicks de “De Volta Para o Futuro” ao Milos Forman de “Amadeus”; do Spike Lee de “Faça a Coisa Certa” ao Akira Kurosawa de “Ran”.

Tem mais. O John Huston de “Os Vivos e Os Mortos”, o David Lynch de “Veludo Azul”, o Sergio Leone de “Era uma Vez na América”, o Philip Kaufman de “Os Eleitos”, o Samuel Fuller de “Agonia e Glória”, o Brian De Palma de “Os Intocáveis”, o Louis Malle de “Atlantic City”.

E há os brasileiros. O Eduardo Coutinho de “Cabra Marcado para Morrer”, o Hector Babenco de “Pixote”, o Leon Hirszman de “Eles Não Usam Black Tie”, o Nelson Pereira dos Santos de “Memórias do Cárcere”.

Esses aí estão todos no “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. Tudo anos 1980. Não foi tão ruim!

“Curtindo a Vida Adoidado” já é clássico para a geração dos 1980

Curtindo a Vida

Na semana passada, muitos textos celebraram os 30 anos de “Curtindo a Vida Adoidado”. O filme de John Hughes é considerado um clássico. Dizem que três décadas são suficientes para obter a classificação.

Muito bem. Tentei, mas nunca consegui terminar. Nem a famosa cena de “Twist and Shout” me agrada. Penso sempre que já vi melhor em “Fame” e nos “Blues Brothers”.

Acredito que, na estreia de “Curtindo a Vida Adoidado, já era crescido o suficiente para gostar, e não tinha ainda a maturidade necessária para ver com um olhar generoso.

O fato é que a geração que viu adolescente o filme de Hughes hoje tem mais de 40 e o festeja não apenas como um marco da década de 1980, mas como verdadeiro clássico do cinema.

Diante das homenagens, fui nos dois volumes de crítica de Roger Ebert ver o que ele dizia de “Curtindo a Vida Adoidado”. Um consolo: o grande crítico americano não inclui o filme na sua lista de 200.

O fato é que a efeméride me motivou a listar meus filmes favoritos dos anos 1980. Fica para o próximo texto.

Autênticos e não autênticos

Forró autêntico versus forró de plástico. As festas juninas sempre trazem o tema de volta.

A lembrança de Dominguinhos é inevitável. Umas duas décadas atrás, na época em que o sucesso era Mastruz com Leite, o grande sanfoneiro e herdeiro do baião de Gonzaga disse que esses grupos que faziam o que depois foi chamado de forró de plástico davam mercado a ele e a outros artistas vinculados à tradição do gênero.

A fala de Dominguinhos apontava para a tolerância e a compreensão de que as coisas mudam. A permanência das manifestações culturais será determinada pelo tempo.

Prefiro o baião de Gonzaga, mas sempre aposto na convivência entre “autênticos” e “não autênticos” nas nossas noites juninas. Como o mestre Dominguinhos parecia apostar.

 

 

Para começar…

Do impresso para a TV. Da TV para o impresso. Do impresso para o online. Caminhos da minha trajetória profissional que já passa das quatro décadas.

Depois de alguns posts experimentais, o blog está começando. Vou escrever sobre música, cinema, cultura de um modo geral. Misturar informação com opinião. Transitar numa área onde comecei e da qual nunca me afastei totalmente.

Ao leitor, peço sugestões e críticas que podem ser enviadas para silviosias@jornaldaparaiba.com.br

 

Musical fala de Elis Regina e dos impasses brasileiros

“Elis, a Musical”, espetáculo apresentado neste sábado (11/06) no Teatro Pedra do Reino, dialoga com dois públicos. Um, formado pelos que não foram contemporâneos de Elis Regina. Outro, pelos que foram. Neste, cabe uma subdivisão: os que não só foram contemporâneos da maior cantora do Brasil, mas tiveram o privilégio de vê-la ao vivo.

Seja qual for o público, objetivamente, é um espetáculo muitíssimo bem realizado. Dirigido por Dennis Carvalho, “Elis, a Musical”, da concepção ao resultado final, tira nota 10 em qualquer um desses itens: texto, escolha de repertório, cenografia, figurino, direção musical, desempenho do elenco. Nada está fora do lugar nos 150 minutos de duração dos dois atos.

Subjetivamente, a minha percepção é a de quem foi contemporâneo de Elis e pôde vê-la ao vivo. Nessa perspectiva, o musical escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade corresponde a tudo o que de melhor foi dito dele. É uma viagem melancólica e nostálgica por um tempo que, a despeito de ser de trevas, ofereceu contrapontos da dimensão de uma Elis Regina.

A tragédia pessoal da artista se funde ao impasse brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Do festival que a revelou com “Arrastão” (1965) à morte aos 36 anos (1982), Elis teve pouco mais de uma década e meia de carreira. Com muita fidelidade, o espetáculo conta a sua história e um pouco da história do país através de canções que são verdadeiros petardos para seus contemporâneos.

Viagem nostálgica porque remete à juventude dos que viram e ouviram Elis em sua época. Melancólica porque fala de sonhos desfeitos, de permanentes transversais do tempo. “Elis, a Musical” faz pensar no país convulsionado da ditadura, também no de hoje. A letra comovente de “Aos Nossos Filhos”, escrita num Brasil que não existe mais, soa mais forte ainda quando ouvida agora.

A permanência dos impasses brasileiros impede o que Elis, com a voz embargada, pede na letra da canção. Que se faça a festa por ela.