Políticos choram a morte de Biuzinha. Há sinceridade nisso?

Tenho algo a dizer sobre a morte do ator Adeílton Pereira, que ficou conhecido em João Pessoa com o personagem Biuzinha. Ficou conhecido na TV Correio, no tempo em que o programa de Tony Show era um sucesso, e nos palcos, participando do Pastoril Profano.

Pois bem. No verão de 2013, estive com Adeílton durante uma transmissão ao vivo, lá mesmo na TV Correio, onde fui editor geral. Por trás da alegria do personagem, tive a sensação de estar diante de um homem triste, talvez amargurado pela luta que, creio, travava pela sobrevivência.

Estou equivocado?

Morreu Adeílton.

Na mídia e, sobretudo, nas redes sociais, vejo dezenas, talvez centenas de manifestações sobre o ator, o talento dele, o papel que desempenhou na nossa cena cultural, a falta que fará, etc.

Muitas são absolutamente sinceras, e é até fácil identificar as que são.

Outras incomodam. As de quem mistura a política (temos uma eleição daqui a pouco mais de 40 dias) com a morte do ator.

Essas, principalmente essas, incomodam, sim!

São manifestações verdadeiras ou tão somente busca de votos? Vêm de pessoas que fizeram algo por Biuzinha? Que reconheceram o seu talento de ator? Que tomaram alguma iniciativa concreta para que ele não parecesse o homem triste que vi naquela transmissão de TV?

Não sei.

Como não sei, não vou mencionar nomes, nem fazer afirmações. Estou apenas fazendo perguntas. Porque tenho, cá, as minhas dúvidas!

 

 

Arte de fotografar inspira canções. Às vezes, a música é uma fotografia

Mais uma homenagem ao Dia Mundial da Fotografia.

Agora, misturo a música com a arte de fotografar.

A primeira lembrança é de Desafinado, espécie de manifesto da Bossa Nova. Parceria de Tom Jobim com Newton Mendonça, imortalizada por João Gilberto. A famosa máquina alemã aparece no verso:

“Fotografei você na minha Rolleiflex, revelou-se a sua enorme ingratidão”

Quem imaginaria uma música com Rolleiflex na letra?

Paul Simon fez isso mais na frente em Kodachrome:

“Mamãe, não leve minha Kodachrome embora!”

Mas há também a música como fotografia. Música e letra, juntas, oferecendo ao ouvinte uma espécie de fotografia. O retrato de um instante. É esse o conceito. Como em Fotografia, de Tom Jobim:

“Eu, você, nós dois, aqui nesse terraço à beira-mar/o sol já vai caindo e o seu olhar/parece acompanhar a cor do mar”

Há muitas outras. Photograph (Ringo Starr), Retrato em Branco e Preto (Tom e Chico Buarque), Fotografia 3 x 4 (Belchior). Mas fico com essas duas, cada uma a sintetizar um caminho: a fotografia como inspiração (em Paul Simon) e a música como uma fotografia (em Tom Jobim).

Parabéns aos fotógrafos! 

 

 

 

 

 

Hoje é dia de homenagear os artistas da fotografia

Hoje (19/08) é o Dia Mundial da Fotografia.

Posto imagens que sempre me impressionaram, por razões distintas, como homenagem da coluna a todos os fotógrafos do mundo. Vivos ou mortos, próximos ou distantes. Verdadeiros artistas.

Esta foto, de 1958, ficou conhecida como A Great Day in Harlem. Nela, Art Kane reuniu 57 grandes nomes do jazz.

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Em 1963, Jack Ruby mata Lee Harvey Oswald, o suposto assassino do presidente Kennedy. A foto é de Robert Hill Jackson.,

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Em 1972, a garota vietnamita Kim Phuc, de nove anos, corre nua, queimada pelo napalm que os americanos usaram no bombardeio à sua aldeia. A foto é de Nick Ut.

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No registro de Kane, os músicos de jazz sabiam que estavam sendo fotografados. O de Jackson é um flagrante. O de Ut, também. Os três entraram para a história. E são dignos da lembrança no Dia Mundial da Fotografia.

Morreu Arthur Hiller. “Love Story” não é tão ruim quanto se dizia!

Morreu aos 92 anos o cineasta canadense Arthur Hiller. Não deixa uma filmografia importante, mas um filme o colocou na história do cinema. Mais pelo êxito comercial e pelas lágrimas que provocou do que por qualquer outra virtude.

Sim! Arthur Hiller é o diretor de “Love Story”.

A história, todos sabem. O rapaz rico se apaixona pela moça pobre, na universidade, e ela morre de leucemia. Tem a frase famosa (amar é jamais ter que pedir perdão), além dos temas musicais de Francis Lai. E tem os atores, jovens e belos, Ryan O’Neal e Ali MacGraw.

Baseado no livro de Erich Segal, “Love Story” levou multidões aos cinemas. Nas grandes salas daquele tempo, a última meia hora do filme era de um silêncio compungido. Um fenômeno que mereceu uma provocativa crônica de Nelson Rodrigues.

Lembro de um único crítico que elogiou “Love Story”. Paulo Perdigão, provavelmente. Enxergou aspectos além da história de amor. Uma crônica sobre a aristocracia em Harvard – algo assim.

De todo modo, vendo de longe, fica a impressão de que o filme não é tão ruim, nem tão piegas, como diziam na época os seus detratores.

A lua como inspiração, dos clássicos aos populares

A lua é cheia nesta quinta-feira (18). Uma leitora sugere uma lista de músicas que tenham a lua como inspiração. Essas escolhas são sempre incompletas e insatisfatórias. Mas faço uma, que amanhã já pode ser outra.

Começando pelos eruditos, há a Sonata ao Luar, de Beethoven, e Clair de Lune, de Debussy. A lua a inspirar um gênio absoluto, que passou pelo clássico e pelo romântico, e um impressionista.

No grande cancioneiro popular americano do século XX, é imediata a lembrança de Blue Moon e Fly Me To The Moon. A primeira, com Ella Fitzgerald. A segunda, com Frank Sinatra. Embora tenha recebido letra, é como tema instrumental que Moonlight Serenade foi imortalizada pela orquestra de Glenn Miller.

Nos Beatles, George Harrison fez Here Comes The Sun. Sozinho, compôs Here Comes The Moon. Paul McCartney fez C Moon. Os Rolling Stones, Moonlight Mile.

E na música popular do Brasil? A lista é extensa.

Desde o Catulo da Paixão Cearense de Luar do Sertão. Ou a Chiquinha Gonzaga de Lua Branca. Ou o Sílvio Caldas de Noite Cheia de Estrelas. “Lua, manda a tua luz prateada despertar a minha amada”.

O original é italiano, mas foi na voz de Celly Campello que Banho de Lua incorporou-se ao nosso cancioneiro, nos primórdios do rock nacional. E o “eu vou perguntar, se na lua há um broto legal pra me namorar”? É o jovem Roberto Carlos.

Caetano Veloso é logo lembrado por Lua de São Jorge. Mas ele também fez Lua, Lua, Lua, Lua. E Shy Moon. E Canto do Povo de um Lugar. “Quando a noite, a lua mansa, e a gente dança venerando a noite”.

E o Gilberto Gil de Lunik 9? A conquista espacial a ameaçar os poetas, os seresteiros, os sonhos dos namorados. “É chegada a hora de escrever e cantar, talvez as derradeiras noites de luar”. Muito mais tarde, Gil diria que “a gente precisa ver o luar”.

Tem o nosso Cassiano, soul man, com A Lua e Eu. Tem o Milton Nascimento de A Lua Girou. O Chico Buarque de Mar e Lua. “Uma andava tonta, grávida de lua, e outra andava nua, ávida de mar”, verso de beleza infinita.

A lista já passa de 20 títulos. Está bom. Pelo menos para a lua cheia de hoje!

 

 

 

Ligia Amadio rege Sinfônica da Paraíba nesta quinta

A Orquestra Sinfônica da Paraíba se apresenta nesta quinta-feira (18), às 20h30, na Sala de Concertos Maestro José Siqueira, do Espaço Cultural, em João Pessoa. A regência será da maestrina paulista Ligia Amadio.

Ligia Amadio

Neste concerto, que faz parte do projeto “Mulheres Regentes”, a OSPB executará a abertura da ópera “Fosca”, de Carlos Gomes, o Concerto Para Flauta e Orquestra, Op. 238, de Carl Reinecke, e a Sinfonia No 1 em Dó Menor, de Brahms.

O flautista Vítor Diniz será o solista do concerto.

Os ingressos custam R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia).

 

O dia em que Gilberto Gil comparou Campina Grande com Nova York

Nesta quarta-feira (17), o Jornal da Paraíba online está sendo apresentado em Campina Grande, durante um café da manhã.

O meu afeto pela cidade nasceu na infância. Cresci ouvindo as histórias contadas por minha mãe, que foi professora do Colégio das Damas no início dos anos 1950.

Mas quero, eu mesmo, contar uma história que envolve Campina Grande, da qual fui testemunha.

Maio de 1988.

Gilberto Gil estava em João Pessoa para fazer uma conferência sobre racismo no campus da UFPb. Depois do evento, foi à TV Cabo Branco gravar o programa “A Palavra É Sua”. Eu e Rômulo Azevedo atuamos como entrevistadores.

Gil conversou sobre música, política, respondeu às perguntas que gravamos com alguns telespectadores. Naquele ano, pretendia ser candidato a prefeito de Salvador, projeto que acabou não dando certo.

Terminada a gravação, Rômulo Azevedo disse a Gil que estava preparando um especial sobre Jackson do Pandeiro para a série “A Paraíba e Seus Artistas” e que gostaria de ter um depoimento dele.

Gil, sempre muito solícito, disse que sim e começou a falar sobre Jackson, por quem tem grande admiração. Foi aí que, ao lembrar de Jackson, lembrou de Campina e do seu espírito cosmopolita.

E fez a comparação que tanto envaidece os campinenses:

 

Um Corpo que Cai, de Hitchcock, é um filme contemplativo. E para ser contemplado

No Facebook, sou convocado a escolher um filme que me marcou. Trago o desafio do Face aqui para a coluna.

Eis o cartaz criado por Saul Bass:

vertigo

Um pequeno texto sobre o filme:

“Um Corpo que Cai” (Vertigo) é obra de um artista maduro. Alfred Hitchcock estava perto dos 60 anos quando o realizou e já tinha feito quase todos os seus grandes filmes. Na Inglaterra e na América.

Mas era detestado por uma parcela considerável da crítica americana, que só enxergava seus méritos comerciais, e ainda não havia sido recuperado pelos críticos franceses da geração de François Truffaut.

“Vertigo” não tem nada de revolucionário. Não veio para reescrever gramática nenhuma, nem para transformar nada. Mas, a despeito de não ter provocado rupturas, exerceu uma gigantesca influência sobre muito do que se viu no cinema depois dele. Para o bem e para o mal.

“Vertigo” tem a assinatura de um realizador com total domínio do seu ofício. Hitchcock conhecia há muito todos os segredos do cinema e fez um filme para ser contemplado. Em sua narrativa que se desenvolve lentamente, enquanto James Stewart segue Kim Novak pelas ruas de São Francisco. No tom onírico que justifica o que na trama atenta contra a verossimilhança.

Hitchcock pode ter feito dois ou três filmes tão bons quanto “Vertigo” em sua longa trajetória. Não mais.

Quando “Vertigo” bateu “Cidadão Kane”, de Orson Welles, numa dessas escolhas dos melhores filmes de todos os tempos, fiz a seguinte comparação:

“Kane” rompe. “Vertigo” consolida. Welles sacode. Hitchcock entorpece.

E o trailer oficial:

 

 

 

 

Xangai, que está em “Velho Chico”, lança CD de voz e violão

Elomar não gosta de televisão. Como Xangai está sempre muito associado a Elomar, é fácil imaginar que ele também não gosta.

Surpresa! Xangai aparece em “Velho Chico”. Faz uma ponta como ator. E sua bela voz é ouvida na trilha da novela das nove.

Numa noite dessas, uma sequência de “Velho Chico” foi toda ilustrada por uma música de Elomar na voz de Xangai.

Pois bem, enquanto ouvimos sua voz na novela da Globo, temos o lançamento do seu novo disco. Chama-se apenas “Xangai”, tem a chancela do selo Kuarup e foi gravado à base de voz & violão. No encarte, ele conta os detalhes.

Conheci Xangai no Projeto Pixinguinha de 1979. Ficamos amigos. Produzi seu primeiro show em João Pessoa (1980) e acompanho com admiração sua carreira. Respeito muito suas escolhas, mesmo quando discordo delas.

Xangai é um daqueles artistas que correm por fora. E o faz como opção, por convicção de que deve ser assim. É uma necessária reserva de qualidade e independência.

Os que gostam ficam felizes quando ouvem a voz de Xangai na novela das nove porque, no fundo, torcem para que sua música chegue a um público mais numeroso. Ou porque é importante tê-lo onde parece improvável que isto aconteça.

Mas a praia de Xangai será sempre outra.

O CD traz o Xangai que ouvimos há quase 40 anos. Voz bela e expressiva, adornada por falsetes e por um modo de fazer a divisão que vem de Jackson do Pandeiro e passa por Gilberto Gil.

É a primeira vez que ele faz um disco só com voz e violão. Teve receio porque sabe das suas limitações com o instrumento, mas ficou muito bom.

Tem o Ataulfo Alves de “Meus Tempos de Criança” e o Zé Dantas de “Forró em Caruaru”. O Renato Teixeira de “Pequenina” e o Geraldo Azevedo de “Espiral do Tempo”. Jessier Quirino aparece em “Bolero de Isabel” enquanto Ivanildo Vila Nova é seu parceiro em “Ino no Cangaço”.

Revisitadas, “Estampas Eucalol” e “Água” me trazem a lembrança do Xangai de 35 anos atrás.

Um abraço saudoso pra ti, Eugênio Avelino!

Impeachment de Dilma será tema de documentário. Direção é de Petra Costa

O impeachment da presidente Dilma Rousseff será tema de um documentário de longa metragem. O filme está sendo realizado pela cineasta Petra Costa. As gravações começaram durante as manifestações de 13 de março.

Dilma

Li uma entrevista de Petra na Veja. Ela sente falta de mais documentários políticos no Brasil.

Bem que há. Foi, aliás, um documentário político que deu maior visibilidade aos filmes documentais entre nós. Refiro-me a “Jango”, de Sílvio Tendler.

“Jango” é da mesma época de “Cabra Marcado Para Morrer”, de Eduardo Coutinho, que considero um dos maiores filmes do cinema brasileiro. “Jango” fala da luta política sob a perspectiva da elite. “Cabra Marcado”, sob a perspectiva do povo.

Tem “O Mundo em que Getúlio Viveu”, de Jorge Ileli; “Revolução de 30”, de Sylvio Back; “Getúlio Vargas”, de Ana Carolina; “O Evangelho Segundo Teotônio”, de Vladimir Carvalho”. Tem “Os Anos JK”, de Sílvio Tendler, realizado antes de “Jango”. E “Muda Brasil”, de Oswaldo Caldeira.

Tem o excepcional “Entreatos”, de João Moreira Salles, sobre a campanha que levou Lula à presidência em 2002.

OK, não há nada sobre o impeachment de Collor, como lembra a cineasta. Mas tem muita coisa que vimos no cinema quando o assunto é documentário sobre política.

Sei que Petra Costa é muito jovem. Apenas 33 anos. Mas espero que ela conheça esses filmes. Seriam bons parâmetros para quem quer fazer um documentário sobre política.

Na entrevista à Veja, Petra Costa diz que nunca viu a sociedade brasileira tão polarizada.