A lembrança de uma conversa com Cazuza

Lembro aqui porque hoje faz 26 anos que ele morreu.

Estive com Cazuza quando ele cantou em João Pessoa no início de 1989. Fazia o show que a Globo registrou num especial e que foi lançado num disco ao vivo. Estava muito magro, todos sabiam que tinha uma doença grave, mas ainda não assumira que era portador do HIV.

Fui ao Hotel Tambaú entrevistá-lo para o programa “A Palavra É Sua” e assumi com a produção o compromisso de que restringiria a conversa aos temas musicais. É que a insistência de alguns jornalistas em abordá-lo sobre a doença dificultava sua relação com a imprensa.

A entrevista foi muito agradável. Cazuza estava na piscina e gravou comigo numa mesa próxima. Parceiros, rock’n’ roll, Bossa Nova, o êxito das suas canções, poesia e letra de música – estes foram os temas da conversa.

Ele falou da influência que recebera de Caetano Veloso, cujo interesse pelo passado da música popular lhe servira de parâmetro. A menção ao nome de Caetano me remeteu prontamente a algo que Gilberto Gil me dissera três anos antes: que se via, jovem, em Herbert Vianna, e que via o companheiro de Tropicalismo, igualmente jovem, em Cazuza.

Reproduzi o comentário de Gil, provocando uma alegria que Cazuza não disfarçou.

Poucos dias após a entrevista, de passagem por Nova York, Cazuza assumiu que era portador do HIV. Fez a revelação a um repórter da Folha. Sua agonia se estendeu até sete de julho de 1990.

 

Documentário sobre Janis Joplin tem estreia nacional. Filme está em cartaz em João Pessoa

O documentário “Janis: Little Girl Blue” tem estreia nacional nesta quinta-feira (07). João Pessoa está entre as cidades que exibem o filme dirigido por Amy J. Berg.

Janis Joplin é a maior voz feminina do rock, a despeito da carreira meteórica que teve (pouco mais de três anos), dos poucos discos que lançou e de ter vivido apenas 27 anos.

Texana de Port Arthur, Janis era uma branca que fincou os pés na música negra e dela tirou os elementos principais para o seu trabalho. Era uma branca que cantava como os negros, muitos dizem a seu respeito. Uma imprecisão, porque ninguém canta como os negros dos Estados Unidos. Mas digamos que era quase isso!

No primeiro disco, Janis Joplin era apenas integrante da banda Big Brother & The Holding Company. No segundo, já era “Janis e o grupo”. No terceiro, carreira solo. O quarto ficou incompleto. A artista morreu quando estava concluindo as gravações.  A causa: uma dose de heroína. O cenário: um quarto de hotel.

Janis Joplin cantava o country dos brancos, sim. Mas seu negócio era mesmo o blues. E também a soul music. Música negra cantada por brancos. Como Amy Winehouse faria (e muito bem) tantos anos depois. Vê-la na tela grande é um luxo. A última vez foi há 40 anos, quando passou um outro documentário, chamado simplesmente “Janis”.

No vídeo que postamos, Janis Joplin canta “Little Girl Blue”, standard que dá título ao filme.

Em João Pessoa, “Janis: Little Girl Blue” está em cartaz em uma das salas do Mag Shopping, em duas sessões diárias. Na terça feira (12), terá uma única sessão noturna numa das salas do Manaíra Shopping.

 

 

 

A Paraíba tem uma dívida com Sivuca! Quem vai construir o seu memorial?

A Paraíba tem uma dívida com a memória de Sivuca.

Já escrevi sobre o tema, aqui mesmo no JORNAL DA PARAÍBA, mas não ainda na coluna. Por isso, volto a abordá-lo.

Sivuca morreu em dezembro de 2006. Logo mais, faz uma década. Seu acervo ficou com a viúva, a compositora Glória Gadelha, no apartamento onde o casal morava, no bairro de Manaíra, em João Pessoa. São instrumentos musicais, discos, vídeos, partituras, roupas, cartas, documentos, objetos de uso pessoal, etc.

Glorinha pretende colocar todo esse acervo no Memorial Sivuca. A ideia se transformou num projeto que passou pelos gabinetes do Ministério da Cultura e do governo da Paraíba quando José Maranhão era o governador (2009/2010), e Luciano Cartaxo, o vice.

Sabia-se, à época, que o memorial seria construído por Maranhão. Até o local estava escolhido. Ele perdeu a eleição. Ricardo Coutinho não encampou o projeto, que foi parar, mais tarde, na reitoria da UFPb.

Onde está agora?

Em seu tempo, Sivuca foi um dos grandes artistas da Paraíba. Com sua arte, nos projetou dentro e fora do Brasil. Morreu há quase uma década, mas sua música permanece entre nós.

O Memorial Sivuca é um equipamento cultural (e turístico) do qual a Paraíba não deveria prescindir.

Quem, afinal, vai construí-lo?

Quem vai agir para que a Paraíba pague essa dívida que tem com a memória de Sivuca?

 

Jota Quest divulga vídeo de “Um dia pra não se esquecer”

O projeto Sony Music Live foi retomado nesta terça-feira (05) com o Jota Quest cantando quatro músicas de “Pancadélico”, seu álbum mais recente.

Entre os quatro números, está “Um Dia Pra Não Se Esquecer (Sunrise)”, a nova música de trabalho da banda.

A gravação foi realizada no estúdio do Jota Quest, em Belo Horizonte, com direção de Bruno Fioravanti.

Lembranças de Dom José (a propósito de Dom Aldo)

A renúncia do arcebispo Dom Aldo Pagotto torna inevitável a lembrança de Dom José Maria Pires. Pela convicção de que um não esteve à altura da cadeira que o outro ocupou por 30 anos.

Dom José, mineiro de Córregos. Dom Pelé, Dom Zumbi. Homem de fala mansa, bela voz, sorriso inesquecível. Posições firmes combinadas com rara capacidade de diálogo e, quando necessário, conciliação.

Se o assunto for a liturgia católica, guardei na minha memória o Sermão das Sete Palavras de uma sexta-feira santa, na Catedral. Conduzida por ele, a celebração ganhava um significado especial, mais denso, mais profundo. Como não vi em nenhum outro pastor.

Se pensarmos no homem do seu tempo, tenho a imagem da missa de Natal na Praça João Pessoa. No acampamento dos camponeses. Muito antes do MST e suas imensas e inaceitáveis distorções. Ou da passeata no centro de João Pessoa, com Dom José ao lado dos estudantes no conflagrado ano de 1968.

E há as doces transgressões. A Cantata Para Alagamar apresentada na Igreja de São Francisco, e a fala do arcebispo: uma obra que unia três homens de nome José.  Ele próprio (um pastor cristão), Waldemar José Solha (um ateu) e José Alberto Kaplan (um judeu). Querem maior lição de tolerância e de convivência harmoniosa com as diferenças?

E a Missa dos Quilombos, celebrada no Recife, com Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga e a música de Milton Nascimento.

Conheci Dom José em 1966, quando ele chegou à Paraíba. A foto a seguir me foi oferecida por ele em maio daquele ano.

DOM JOSÉ

Com Dom Aldo na Arquidiocese, a cadeira de Dom José ficou vazia

Saio das conversas sobre música e cinema para falar um pouco do assunto mais importante do dia aqui na Paraíba: a renúncia do arcebispo Dom Aldo Pagotto.

Em síntese, quero registrar uma percepção que tive ao longo desses 12 anos em que Dom Aldo ficou na Paraíba: com ele à frente da Igreja Católica, a cadeira ocupada durante três décadas por Dom José Maria Pires (e por Dom Marcelo Cavalheira num período mais breve) permaneceu vazia!

O fato é que o mineiro Dom José (nosso Dom Pelé, ou Dom Zumbi) foi um extraordinário pastor no comando do rebanho católico paraibano. Representante do clero progressista, atuando num período de grandes restrições às liberdades, ele não se ateve somente à sua missão evangelizadora. Também se posicionou com firmeza ao lado dos que lutavam pelo fim da ditadura, mas sem perder a singular capacidade que tinha de dialogar com aqueles a quem claramente se opunha.

Dom Aldo chegou à Paraíba no início dos anos 2000. Aquela igreja que, no tempo de Dom José, proclamara a sua opção pelos pobres não existia mais. Mas esse não era o maior problema: o novo arcebispo era acusado de acobertar um caso de pedofilia dentro da Igreja, no Ceará. Dom Aldo, na melhor das hipóteses, estava (incomodamente) muito perto de um dos temas que mais afligem a Igreja Católica: a presença de pedófilos no clero.

Contrário ao envolvimento de padres com a política, cortejou o poder com posturas muitas vezes constrangedoras. Em suas falas, em seus escritos, defendeu posições atrasadas, em oposição aos avanços que o mundo experimenta e que a Igreja do Papa Francisco parece sentir a necessidade de compreender.

Não parecia um pastor. Era um homem cercado por gigantes interrogações!

Mal gravado, mas antológico

CAETANO E CHICO JUNTOS E AO VIVO

Caetano Veloso e Chico Buarque

Cae e Chico

De 1972. Miseravelmente mal gravado, incompleto, adulterado pela ação da censura, mas absolutamente antológico. O disco registra um encontro que parecia improvável cinco anos antes, na época em que muitos viam no jovem Chico Buarque o inverso do Caetano Veloso tropicalista.

O show foi no Teatro Castro Alves, em Salvador, no dia em que o poeta Torquato Neto, importante nome do Tropicalismo, se matou.

Chico canta Caetano (“Janelas Abertas No 2”), Caetano canta Chico (“Partido Alto”), os dois apresentam novidades (“Esse Cara”, “Bárbara”) e voltam ao começo (“Tropicalia”, “A Rita”).

No ponto alto do disco, fundem “Você Não Entende Nada” com “Cotidiano”. Deu tão certo que ninguém consegue mais separá-las.

O Dia do Rock não devia ser 13 de julho. Devia ser hoje. Entenda o motivo

O Dia Mundial do Rock é 13 de julho. Mas não devia. Devia ser hoje, cinco de julho. Você sabe o motivo?

O 13 de julho foi escolhido por causa do Live Aid, evento realizado em 1985.

O cinco de julho seria escolhido porque é o dia em que Elvis Presley inventou o rock. Não é pouco! É?

Foi assim: no dia cinco de julho de 1954, no estúdio da Sun Records, em Memphis, Elvis (aos 19 anos), o guitarrista Scotty Moore e o contrabaixista Bill Black gravaram “That’s All Right, Mama”. Na gravação, promoveram espontaneamente a fusão do R & B dos negros com o country & western dos brancos.

Essa fusão marca a invenção do gênero. Ela é o próprio rock’n’ roll.

Veja e ouça num registro feito mais tarde, em 1968, no célebre especial de Elvis na NBC.

 

Ainda Wesley Safadão. Contra e a favor

Meu post anterior, sobre Wesley Safadão, foi escrito por causa de um artigo de Jamarri Nogueira. Compartilhei no Facebook, e Jamarri comentou. Transcrevo aqui:

“Quero apenas reforçar que Safadão é emblemático de uma indústria cultural que cultua a superficialidade. E esse universo rasteiro – acredito!!! – faz mal à sociedade. Concordamos em um ponto: o tempo é o senhor… Abraço forte! Em tempo: grato por alertar sobre a inversão. Roberto é mesmo o rei…”

Transcrevo também o comentário de Gustavo Limeira:

“Acho que respeitar Safadão é também respeitar seu público (!) e entender que pessoas diferentes têm memórias musicais e afetivas distintas. Destaco ainda que todo o debate em torno do que é ‘música boa’ geralmente tem um enfoque classista e étnico muito forte. Carece ficarmos atentos”.

E Daniel Sousa:

“Só o tempo dirá quem some e quem entra para a galeria dos imortais. Muito mimimi”.

E Francisco Pinto:

“Nunca o ouvi nem pretendo ouvi-lo jamais, daí porque esse é um artista (?) que não me diz respeito nem nunca haverá de me incomodar”.

 

 

Deixem o Safadão cantar em paz! O tempo diz quem vai e quem fica

Terminou a temporada junina. Wesley Safadão esteve em evidência por causa de cachê. Não vou falar disso porque não entendo do que Chico César chamou de “máfia do mercado”. Quero falar do sucesso que o cara faz.

Li no Facebook um artigo do meu querido Jamarri Nogueira. Jamarri lembra que ninguém tem tanta música inserida em nossa memória afetiva como Luiz Gonzaga e, depois, Roberto Carlos (a ordem é inversa: primeiro Roberto Carlos, depois Gonzaga). E diz que jamais Safadão será um Luiz Gonzaga.

Concordo. Claro que Wesley Safadão jamais será um Luiz Gonzaga. Como Zeca Baleiro jamais será um Caetano Veloso. Mas, e daí?

Criminalizar” Safadão, ou quem quer que seja, não me soa nada bem! Lembro de uma extensa lista: Waldick Soriano, Odair José (que virou cult), Luiz Caldas, Beto Barbosa, as duplas sertanejas, Mastruz com Leite e todo o forró de plástico, É o Tchan, Só pra Contrariar e os pagodeiros, Ivete Sangalo e a turma do axé, Michel Teló, Banda Calypso, Anitta, etc. 

Todos já foram execrados. Wesley Safadão é apenas o da vez. Não ouvi, não me interessa, mas ao público dele, sim! E é o que basta.

O tempo sempre acaba dizendo quem vai e quem fica. Por enquanto, deixem o Safadão cantar em paz!