Xangai, que está em “Velho Chico”, lança CD de voz e violão

Elomar não gosta de televisão. Como Xangai está sempre muito associado a Elomar, é fácil imaginar que ele também não gosta.

Surpresa! Xangai aparece em “Velho Chico”. Faz uma ponta como ator. E sua bela voz é ouvida na trilha da novela das nove.

Numa noite dessas, uma sequência de “Velho Chico” foi toda ilustrada por uma música de Elomar na voz de Xangai.

Pois bem, enquanto ouvimos sua voz na novela da Globo, temos o lançamento do seu novo disco. Chama-se apenas “Xangai”, tem a chancela do selo Kuarup e foi gravado à base de voz & violão. No encarte, ele conta os detalhes.

Conheci Xangai no Projeto Pixinguinha de 1979. Ficamos amigos. Produzi seu primeiro show em João Pessoa (1980) e acompanho com admiração sua carreira. Respeito muito suas escolhas, mesmo quando discordo delas.

Xangai é um daqueles artistas que correm por fora. E o faz como opção, por convicção de que deve ser assim. É uma necessária reserva de qualidade e independência.

Os que gostam ficam felizes quando ouvem a voz de Xangai na novela das nove porque, no fundo, torcem para que sua música chegue a um público mais numeroso. Ou porque é importante tê-lo onde parece improvável que isto aconteça.

Mas a praia de Xangai será sempre outra.

O CD traz o Xangai que ouvimos há quase 40 anos. Voz bela e expressiva, adornada por falsetes e por um modo de fazer a divisão que vem de Jackson do Pandeiro e passa por Gilberto Gil.

É a primeira vez que ele faz um disco só com voz e violão. Teve receio porque sabe das suas limitações com o instrumento, mas ficou muito bom.

Tem o Ataulfo Alves de “Meus Tempos de Criança” e o Zé Dantas de “Forró em Caruaru”. O Renato Teixeira de “Pequenina” e o Geraldo Azevedo de “Espiral do Tempo”. Jessier Quirino aparece em “Bolero de Isabel” enquanto Ivanildo Vila Nova é seu parceiro em “Ino no Cangaço”.

Revisitadas, “Estampas Eucalol” e “Água” me trazem a lembrança do Xangai de 35 anos atrás.

Um abraço saudoso pra ti, Eugênio Avelino!

Impeachment de Dilma será tema de documentário. Direção é de Petra Costa

O impeachment da presidente Dilma Rousseff será tema de um documentário de longa metragem. O filme está sendo realizado pela cineasta Petra Costa. As gravações começaram durante as manifestações de 13 de março.

Dilma

Li uma entrevista de Petra na Veja. Ela sente falta de mais documentários políticos no Brasil.

Bem que há. Foi, aliás, um documentário político que deu maior visibilidade aos filmes documentais entre nós. Refiro-me a “Jango”, de Sílvio Tendler.

“Jango” é da mesma época de “Cabra Marcado Para Morrer”, de Eduardo Coutinho, que considero um dos maiores filmes do cinema brasileiro. “Jango” fala da luta política sob a perspectiva da elite. “Cabra Marcado”, sob a perspectiva do povo.

Tem “O Mundo em que Getúlio Viveu”, de Jorge Ileli; “Revolução de 30”, de Sylvio Back; “Getúlio Vargas”, de Ana Carolina; “O Evangelho Segundo Teotônio”, de Vladimir Carvalho”. Tem “Os Anos JK”, de Sílvio Tendler, realizado antes de “Jango”. E “Muda Brasil”, de Oswaldo Caldeira.

Tem o excepcional “Entreatos”, de João Moreira Salles, sobre a campanha que levou Lula à presidência em 2002.

OK, não há nada sobre o impeachment de Collor, como lembra a cineasta. Mas tem muita coisa que vimos no cinema quando o assunto é documentário sobre política.

Sei que Petra Costa é muito jovem. Apenas 33 anos. Mas espero que ela conheça esses filmes. Seriam bons parâmetros para quem quer fazer um documentário sobre política.

Na entrevista à Veja, Petra Costa diz que nunca viu a sociedade brasileira tão polarizada.

Spok encerra turnê em JP. É o frevo na sala de concertos

A Spok Frevo Orquestra se apresentou neste domingo (14) no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural, em João Pessoa. Foi o último dos 30 shows da turnê de lançamento do CD “Frevo Sanfonado”.

Spok JP

A big band liderada pelo maestro e saxofonista Spok inovou ao levar a improvisação do jazz para o frevo pernambucano. Agora, dedica um disco e um show aos frevos sanfonados. A matriz é o “Frevo Sanfonado” de Sivuca, que gravou uma série de discos chamada “Forró e Frevo”.

O frevo é uma das mais refinadas expressões da música popular que os brasileiros produziram. São pequenas peças de dificílima execução, extraordinário virtuosismo e grande riqueza melódica e harmônica. Feito para dançar nas ruas e nos salões, o frevo, por sua beleza, também é muito bom de ouvir.

A Spok Frevo Orquestra é uma big band com 17 músicos (quatro saxofones, quatro trombones, quatro trompetes, guitarra, baixo, bateria e percussão). Formação semelhante à Orquestra Tabajara, de Severino Araújo. Ou às orquestras americanas de jazz.

Vê-la ao vivo, como vimos neste domingo em João Pessoa, é um luxo absoluto! É espetáculo de altíssimo nível musical, que pode ser apresentado em qualquer grande festival de jazz do mundo!

Já vi Spok em praça pública, fazendo carnaval. Já vi acompanhando Antônio Nóbrega ou dividindo o palco com Wynton Marsalis, um dos gigantes do jazz. É sempre uma exibição que impressiona pela qualidade do trabalho.

Dessa vez, não foi diferente. Acrescentaram-se as sanfonas e um belo diálogo com outras expressões da música nordestina (aboios, Luiz Gonzaga, etc.).

Spok levou o frevo para a sala de concertos. É um privilégio ver a sua orquestra ao vivo.

 

 

 

Spok, que fundiu frevo e jazz, agora põe sanfona na sua orquestra

A Spok Frevo Orquestra surgiu no Recife, no início dos anos 2000. Promoveu uma inovação no frevo ao fundir duas coisas antigas: a própria tradição do gênero com a improvisação do jazz. O resultado é fantástico!

Wynton Marsalis, um dos gigantes do jazz, ficou louco pela orquestra pernambucana quando a viu ao vivo num festival de jazz. Procurou o maestro Spok, houve uma aproximação e uma troca.

No ano passado, Marsalis trouxe a orquestra de jazz do Lincoln Center para tocar no Recife, numa noite inesquecível em que a Spok Frevo Orquestra também brilhou no palco.

(Na foto, Spok diz a Marsalis como se improvisa no frevo)

Spok

Agora, a orquestra do maestro Spok está com um novo projeto: frevos sanfonados. A origem, claro, é o “Frevo Sanfonado” do nosso Sivuca.

Neste domingo (14), a Spok Frevo Orquestra se apresenta às 21 horas no Teatro Paulo Pontes, do Espaço Cultural, em João Pessoa.

Pais e filhos também dialogam na música popular

Na minha coluna “Sexta de Música”, na CBN João Pessoa, falei de músicas que tratam da relação entre pais e filhos. Abordo o tema aqui também.

Geralmente, são canções sentimentais, quando não piegas. Mas acabam sendo muito verdadeiras.

“Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim”. Quem não lembra? É Sérgio Bittencourt falando para o pai, o grande Jacob do Bandolim, em “Naquela Mesa”.

Ou: “Você foi meu herói, meu bandido, hoje é mais, muito mais que um amigo”. É Fábio Jr. na letra de  “Pai”.

Ou ainda: “Esses seus cabelos brancos, bonitos, esse seu olhar cansado, profundo”. É Roberto Carlos, claro, em “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo”.

Tem o Rei no divã do analista: “Meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse, mas ele também se esqueceu de me dizer a verdade”. É “Traumas”. Mais dolorida, menos lembrada.

Gosto muito de “Pai e Mãe”, de Gilberto Gil. Um belíssimo choro canção. “Eu passei muito tempo aprendendo a beijar outros homens, como beijo o meu pai”. Fala de afeto, não de homoafetividade, como ainda pensam muitos ouvintes. “Como é, minha mãe, como vão seus temores? Meu pai, como vai?”. É Gil!

Há também “14 Anos”, de Paulinho da Viola. O pai dele, músico, sugerindo ao filho que fosse doutor, não sambista. “Sambista não tem valor nessa terra de doutor, e, seu doutor, o meu pai tinha razão”.

E tem: “Dorme menino levado, dorme que a vida já vem, teu pai está muito cansado de tanta dor ele ele tem”. São versos de Vinícius de Moraes no acalanto “O Filho que Eu Quero Ter”, melodia de Toquinho. Aí já é uma outra modalidade: o pai falando para o filho.

Como Chico Buarque em “Acalanto”: “Dorme (mi)nha  pequena, não vale a pena despertar”. Ou Dorival Caymmi, em outro “Acalanto”: “É tão tarde, a manhã já vem, todos dormem, a noite também, só eu velo por você, meu bem”.

Temos exemplos menos densos, mais divertidos, do baião ao rock. O Luiz Gonzaga de “Respeita Januário”. Ou a Rita Lee de “Papai Me Empresta o Carro”.

E as canções internacionais. “Father and Son”, de Cat Stevens, que Nara Leão cantou em português. E a dolorida “Mother”, de John Lennon, que, apesar do título, também fala do pai (“Você me deixou, mas eu nunca deixei você”).

Há muito mais de pais e filhos no cancioneiro popular. Com suas dores e seus amores.

 

 

 

 

 

Imagine Scorsese como um cara com quem a gente senta para falar de cinema

Andei relendo trechos de “Conversas com Scorsese”.

Martin Scorsese não é somente um diretor de filmes. É um homem que pensa o cinema. Também não está circunscrito à produção dos Estados Unidos, o país onde nasceu. A sua origem italiana o levou logo cedo a ver e amar a cinematografia de outros povos.

Além de realizador, é um cinéfilo dividido entre os grandes filmes americanos e os não americanos. Uma paixão não exclui a outra. Seu coração e sua mente têm lugar para os dois amores. Eles enriquecem o seu trabalho, o influenciam, fornecem elementos que vamos identificar nos filmes que realizou. Características que fazem de Scorsese um diretor de cinema diferente dos outros. Talvez o único assim entre todos os seus contemporâneos.

Um pé na América, outro fora dela. Duas viagens transformadas em documentários traduzem o que estou dizendo. Um, sobre o cinema americano. O outro, sobre o italiano. O mesmo artista a contemplar dois países e dois modos distintos de realizar filmes. As diferenças o interessam, vão acabar direcionadas ao que ele faz.

Na prática, aliás, Scorsese é um diretor dividido entre duas linguagens: a da ficção e a do documentário – mais uma das suas marcas de originalidade. O melhor é que domina muito bem as duas formas de expressão cinematográfica. Embora famoso pelos filmes de ficção, nos documentários está livre da pressão dos estúdios. E esta liberdade o conduz a resultados de fato excepcionais.

O amor de Scorsese pela música está presente em seu cinema. Não apenas em documentários como “O Último Concerto de Rock” ou “Shine a Light”, “No Direction Home” ou “Living in the Material World”. Seus filmes de ficção têm sequências concebidas a partir da música. O compasso define o ritmo da montagem.

As cenas de luta de “Touro Indomável” tomam como parâmetro os critérios de edição que adotou em “O Último Concerto de Rock”. O uso de trilhas preexistentes serve como comentários sobre uma determinada cena ou complementa a fala de um personagem. Martin Scorsese cresceu entre o cinema e a música. Aprendeu a amar os dois. E escolheu um para que fosse seu ofício.

Tudo isto está em “Conversas com Scorsese”, de Richard Schickel. Schickel e Scorsese conversam sobre a infância pobre em Nova York e a formação do cineasta, cada um dos seus filmes e temas ligados à sua produção. Falam da família, das obsessões, da fé, da passagem do tempo, da morte. Vida e arte se confundem, se misturam numa leitura para cinéfilos.

O livro confirmou muito do que eu já sabia de Marty. Robusteceu as razões da minha admiração por ele. E me surpreendeu: o tornou mais homem, menos mito. Como se ele não fosse Martin Scorsese, mas um cara com quem a gente senta para conversar sobre cinema. E acompanha sua luta para fazer o próximo filme.

Ao dizer em quem não acredita, Pedro Osmar repete o John Lennon de 1970

No documentário “Jaguaribe Carne, Alimento da Guerrilha Cultural”, tem uma cena em que Pedro Osmar, diante da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, diz em quem não acredita.

Pedro Osmar

Transcrevo Pedro Osmar:

Eu não creio em Deus

Eu não creio em Jesus Cristo

Eu não creio em demônio

Eu não creio em satã

Eu não creio em política

Eu não creio em George Bush

Eu não creio em Tony Blair

Eu não creio em ninguém

Eu creio em mim 

Na letra da canção “God”, John Lennon diz em quem não acredita.

Transcrevo John Lennon:

Eu não acredito em mágica

Eu não acredito em I-ching

Eu não acredito em bíblia

Eu não acredito em tarô

Eu não acredito em Hitler

Eu não acredito em Jesus

Eu não acredito em Kennedy

Eu não acredito em Buda

Eu não acredito em mantra

Eu não acredito em Gita

Eu não acredito em yoga

Eu não acredito em reis

Eu não acredito em Elvis

Eu não acredito em Zimmerman

Eu não acredito em Beatles

Eu só acredito em mim

Ao dizer em quem não acredita, Pedro Osmar não é original. Apenas repete o John Lennon de 1970.

Neste sábado (13), o grupo Jaguaribe Carne (Pedro Osmar e Paulo Ró) abre o show de Tom Zé no Espaço Cultural, em João Pessoa. Depois de muito experimentalismo, o grupo criado nos anos 1970 está de volta às canções.

 

Chico Pereira imortal. Outro tropicalista na Academia Paraibana de Letras

O artista plástico e escritor Chico Pereira toma posse nesta sexta-feira (12) na Academia Paraibana de Letras. É mais um tropicalista na APL. O primeiro foi o jornalista e compositor Carlos Aranha.

A  militância de Chico Pereira na cena cultural paraibana (entre Campina Grande e João Pessoa) vem de longe. Lá dos anos 1960. Nas artes plásticas, nos livros que escreveu, na sala de aula, nos bastidores da política. No debate permanente, na capacidade de dialogar.

Bom que ele tenha chegado à Academia Paraibana de Letras!

Caetano 50 anos

Na foto de Germana Bronzeado, Chico Pereira e eu conversando sobre o Tropicalismo nos 50 anos de Caetano Veloso.

 

Ipojuca Pontes matou Fidel num artigo há 10 anos. E Fidel continua vivo!

Fidel Castro, Prime Minister of Cuba, smokes a cigar during his meeting with two U.S. senators, the first to visit Castro's Cuba, in Havana, Cuba, Sept. 29, 1974. (AP Photo)

Neste sábado (13), Fidel Castro faz 90 anos. Lembrei de Ipojuca Pontes. Explico o motivo.

Os problemas de saúde tiraram Fidel Castro do poder uma década atrás. Raul, o irmão, assumiu o governo e está lá até hoje. Fidel, de vez em quando, é fotografado recebendo alguma visita ou com o jornal do dia nas mãos. Continua vivo.

Pois bem. Em dezembro de 2006, o cineasta paraibano e ex-ministro da Cultura Ipojuca Pontes escreveu num artigo que Fidel estava morto e que faltava o governo cubano escolher o momento certo de fazer o anúncio.

Transcrevo Ipojuca:

“Por que a camarilha do PC cubano esconde a morte clínica de Castro? Por dois motivos: primeiro, por não saber precisamente o que fazer, visto que facções dentro do governo se dividem entre abrir um pouco ou fechar ainda mais o regime policial vigente. Na prática, a ilha nunca esteve tão controlada com exército, agentes da DGI e a polícia fechando o cerco sobre a população que, há décadas, mantém culto obrigatório ao Deus-tirano. Como agirá o povo de Cuba depois de anunciada oficialmente a morte de Castro? Ficará inerte? Irá se insurgir? A ilha-cárcere vai tolerar mais décadas de fome e miséria? (Em particular, desconfio que sim).”  

Quando li esse artigo, entendi que o problema de Ipojuca Pontes não eram só as posições de um deplorável reacionarismo que defendia. Nem ter ajudado a dizimar a produção cinematográfica brasileira quando foi ministro de Collor. O maior problema de Ipojuca Pontes era não ser crível.

No quesito Fidel Castro, ao longo de uma década, Ipojuca já foi desmentido muitas vezes. Deve ser novamente neste sábado, quando Fidel chegar vivo aos 90 anos!

Livro com texto atual acompanha estreia do remake de “Ben-Hur”

O remake de “Ben-Hur está chegando aos cinemas brasileiros, e o livro será colocado no mercado junto com o filme.

Só que não é o original de Lew Wallace, publicado em 1880, mas uma adaptação para uma linguagem contemporânea escrita por Carol Wallace, trineta do autor.

“Ben-Hur” conta a história de um príncipe judeu contemporâneo de Jesus Cristo e sua relação conflituosa com o melhor amigo. A edição brasileira tem tradução de Antônio Carlos Reis.

Carol Wallace, que atualizou o texto original, tem mais de 20 livros publicados.

“Ben-Hur” sai no Brasil pela editora Gutenberg.

No cinema, a versão 2016 de “Ben-Hur” tem Rodrigo Santoro no papel de Jesus Cristo.