Na reta final, “Velho Chico” é marco da telenovela brasileira

“Velho Chico” entra em sua última semana nesta segunda-feira (26).

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A novela chega ao final marcada por um episódio trágico. A morte do ator Domingos Montagner entristeceu milhões de pessoas e fez pensar na finitude de cada um de nós, como bem lembrou Zélia Duncan num artigo muito sensível em O Globo.

Mas hoje, aqui, quero falar um pouco sobre a novela.

“Velho Chico” é um marco da telenovela brasileira. Uma produção inovadora num gênero que tem dificuldades para se reinventar.

O modo com que a cor foi usada, os enquadramentos incomuns na televisão, o tempo da narrativa, o ritmo da montagem, o tom teatral muitas vezes adotado na encenação, a influência do cinema brasileiro dos anos 1960, a escolha da trilha sonora.

Juntos, esses elementos são mais do que suficientes para fazer de “Velho Chico” um grande feito da televisão brasileira.

E, se pensarmos em conteúdo, a novela trouxe para o horário nobre temas que são o inverso do que dizem os muitos críticos da Rede Globo.

Para nós, paraibanos, “Velho Chico” ainda teve a notável presença dos nossos conterrâneos no elenco.

São tantos! Todos sintam-se representados na menção a duas atrizes: Zezita Matos, grande nome do nosso teatro, impecável na construção da personagem Piedade, e Lucy Alves, que já nos conquistara com seu talento musical, agora também como significativa revelação na teledramaturgia.

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E, por falar em elenco, há o Bento de Irandhir Santos, que vimos nos filmes de Kleber Mendonça Filho. E o padre de Carlos Vereza, sempre excepcional. E a Encarnação de Selma Egrei, que está na memória afetiva de quem viu o cinema de Walter Hugo Khouri. E Fagundes, Pitanga, Serrado. Muitos!

E, claro, o Santo de Montagner. A afeição do público pelo personagem pôde ser dimensionada na morte trágica do ator.

“Velho Chico” vai deixar saudades!

Obama entrega museu afro-americano, mas conflitos raciais persistem

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A pouco mais de 100 dias de deixar a presidência, Barack Obama inaugurou o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana, em Washington. Um projeto centenário, só agora concretizado.

Para além da obra física, tem uma força simbólica. Como marca do primeiro afro-americano na presidência dos Estados Unidos.

Para os que cresceram vendo uma América conflagrada pelos conflitos raciais, a chegada de Obama à Casa Branca tem um significado profundo.

Mas, na saída, apesar de todos os avanços, os conflitos persistem. Como vimos em Tulsa e Charlotte.

O museu inaugurado por Obama conta uma história sem a qual os Estados Unidos não seriam o que são. O jazz, como legado afro-americano, talvez possa resumir tudo!

O museu fala dessa história. Mas, se quisermos, aponta também para o que ainda está muito longe de ser resolvido.

Lista da Billboard tem Caetano no topo. Mas peca por excluir João Gilberto

Lista é um negócio atraente. Top 5 disso, top 10 daquilo. A gente discorda, reclama, mas, no fundo, gosta! De ver e de fazer!

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Muito bem! Essa semana saiu uma lista da Billboard Brasil. Caetano Veloso é o número 1 como o artista mais completo da nossa música popular. Ótima escolha. Ele é grande mesmo e ponto final!

Podia ser Gil (que aparece em segundo lugar), podia ser Chico, podia ser Tom. São todos grandes. Os gigantes da música popular do Brasil!

Os dez primeiros são Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Rita Lee, Elis Regina, Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Tim Maia, Raul Seixas e Maria Bethânia.

A escolha foi feita por 12 pessoas, entre críticos e gente que trabalha diretamente com música. Foram considerados quesitos como voz, presença de palco, capacidade de reinvenção na carreira, carisma, quantidade de hits, versatilidade e relevância da obra.

Como qualquer lista, essa da Billboard tem sua subjetividade, seus erros, seus acertos, não agrada a todo mundo, etc.

Tem também o intuito de conciliar nomes de ontem com nomes de hoje. Em alguns casos, ainda nem há distanciamento suficiente para avaliar um artista e colocá-lo entre os melhores. Mas está tudo OK.

Só quero registrar um pecado da lista. Uma falta imperdoável. Ora, como é que entre 0s 50 artistas mais completos da música popular do Brasil não coube João Gilberto?

Não dá para entender! A exclusão do cara que inventou a batida da Bossa Nova macula a lista da Billboard!

Terry Jones, do Monty Python, está com uma demência senil

Uma notícia triste.

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Terry Jones, um dos fundadores do grupo britânico Monty Python, está com uma demência senil. Por causa da doença, ele não dará mais entrevistas.

Jones, de 74 anos, dirigiu filmes como A Vida de Brian e O Sentido da Vida.

O grupo de humor que conquistou admiradores em todo o mundo e deu grande prestígio ao Reino Unido foi fundado nos anos 1960.

Luiz Gonzaga Jr. virou Gonzaguinha. E fez o pai virar Gonzagão

Se estivesse vivo, Gonzaguinha faria 71 anos nesta quinta-feira (22).

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Luiz Gonzaga Jr. era como o chamávamos quando se projetou no início dos anos 1970. “Belo é o Recife pegando fogo/na pisada do maracatu” – ouvimos em “Festa”, na voz de Luiz Gonzaga, o pai, quando poucos conheciam o filho.

Circuito universitário, pequenos festivais, Som Livre Exportação, Gonzaguinha já estava nas imagens de um filme chamado “Som Alucinante”, no final de 1972. Ao vivo, fomos vê-lo pela primeira vez na caravana “Setembro”, em 1975.

A caravana era algo inacreditável. Não seria possível nos dias de hoje. Um ônibus, um grupo de artistas, shows de cidade em cidade. E que artistas! Paulinho da Viola, Fagner, Gonzaguinha, Moraes Moreira. Mais Sueli Costa, Copinha e sua flauta, Armandinho, Dadi e Gustavo, que depois formariam A Cor do Som. De dia, uma pelada com um time local, um filme (“Chega de Demanda, Cartola”), um bate-papo. De noite, o show. Em João Pessoa, no ginásio do Sesc, no centro. Público? Quase nenhum. Gonzaguinha estava lá, à época de “Plano de Vôo”.

“Começaria Tudo Outra Vez”. Disco e show em 1976. No palco, somente voz e violão. O artista viajava numa Kombi, se hospedava na casa de um amigo. No ano seguinte, “Moleque Gonzaguinha”. Gonzaguinha e banda. Tinha Fredera na guitarra, Arnaldo Brandão no baixo. Tudo visto bem de perto, no Teatro Santa Roza. Parece mentira! Muita conversa na hora da coletiva, jantar depois do show. O poeta Caixa D’Água no meio. Vivíamos no Brasil da ditadura, sonhando com o Brasil redemocratizado. Estávamos em 1977.

Depois, a explosão. “Gonzaguinha da Vida”. O sucesso. “Explode Coração” na voz de Bethânia. “Não dá mais pra segurar…”. O moleque desceu o São Carlos, pegou um sonho e partiu. “Pensava que era um guerreiro/com terras e gentes a conquistar”. Na passagem por aqui, uma noite no Santa Roza, outra no ginásio do Astrea. Uma grande banda. Um grande show. Gonzaguinha estava incorporado ao primeiro time da MPB. Fazia parte das vozes que lutavam contra a ditadura. Como Ivan Lins e João Bosco, seus contemporâneos.

Luiz Gonzaga Jr. virou Gonzaguinha. Sua música tinha o baião do pai e o samba do morro de São Carlos, onde Dina o criou. E muitas outras coisas. Do bolero (“Começaria Tudo Outra Vez”) ao rock (“Petúnia Resedá”). Do fado (“É Preciso”) ao blues (“Uma Família Qualquer”).

No disco de 1979, o dueto com Luiz Gonzaga, em “A Vida do Viajante”, parecia o prenúncio do show que fariam juntos. Só quem viu sabe como foi bonito! Gonzaga, o velho, até virou Gonzagão. Saudades de Luiz Gonzaga Jr., saudades daqueles shows inacreditáveis!

Temendo eleição de Trump, celebridades gravam vídeo contra o candidato republicano

É comum ver artistas envolvidos em campanha eleitoral. O mais usual, no entanto, é vê-los apoiando uma candidatura, pedindo votos para um candidato.

Nos Estados Unidos, ocorreu o contrário.

Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra celebridades se manifestando contra o candidato republicano Donald Trump. Pedindo às pessoas que não votem nele. Alertando para o risco de uma eventual vitória de Trump. Risco para a América. Risco para o mundo.

Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Julianne Moore, Mark Ruffalo estão no vídeo dirigido por Joss Whedon, de Os Vingadores.

Vejam:

 

Num filme, o poder que a música tem de mexer com o homem e fazê-lo melhor

Morreu Charmian Carr, a filha mais velha do capitão Von Trapp em A Noviça Rebelde. Vamos falar um pouco sobre o filme?

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A Noviça Rebelde é um dos grandes musicais do cinema. O último dos clássicos, realizado quando o gênero já não era atraente como fora nas décadas de 1940 e 1950. O filme é de 1965. Um pouco antes, temos os êxitos de My Fair Lady e de West Side Story (do mesmo Robert Wise). Como estes dois, A Noviça Rebelde ganhou o Oscar de melhor filme. Foi um campeão de bilheteria. O nosso amor por este musical não se baseia, contudo, no seu êxito, mas na sua beleza, no seu encanto, na sua imensa alegria. No fascínio exercido por esta história que, movida pela força da música, há décadas está sobrevivendo à passagem do tempo

Robert Wise era um mestre. Montou Cidadão Kane, de Orson Welles. Dirigiu Punhos de Campeão e Marcado pela Sarjeta, ambientados no mundo dos boxeadores, mas não apenas sobre lutas de boxe. Também é dele O Dia em que a Terra Parou, clássico da ficção-científica, realizado numa época em o cinema falava de temas cruciais da guerra fria, contando histórias de seres que vinham de outros planetas. Em West Side Story, com a música extraordinária do maestro Leonard Bernstein, modernizou o musical sem romper totalmente com a tradição. Em A Noviça Rebelde, foi menos ousado, mais ortodoxo. E se deixou guiar pelo cuidado de não ser piegas, de não se exceder no sentimentalismo.

A esquerda detestava A Noviça Rebelde. Mas havia gente que ia escondida ao cinema, sem revelar para os companheiros de luta. E chorava na sala escura. O curioso é que os patrulheiros de plantão não percebiam que, por trás da história de Maria, do capitão Von Trapp e dos seus filhos, havia uma outra história: a de um homem nacionalista, que defendia bravamente a soberania do seu país e que fugiu para não aderir às forças nazistas. Valores que deveriam agradar a quem execrava o musical.

O título em Português nos distancia do original em Inglês: The Sound of Music. No fundo, A Noviça Rebelde é um filme sobre o poder da música, sua força, sua beleza, sua capacidade de mexer com o homem, de redimi-lo, de fazê-lo melhor. O filme conta a história de uma família que se reencontrou quando alguém a reaproximou da música. Este tema me parece mais significativo do que o outro, da resistência do personagem ao Nazismo. A cena em que o capitão canta com os filhos, rompendo o silêncio que os separava, é comovente. E é regida pela ternura da canção que dá título ao musical.

Música para celebrar o Dia Internacional da Paz

Nesta quarta-feira (21), celebra-se o Dia Internacional da Paz. A almejada e utópica paz em um mundo cada vez mais conflagrado.

A data remete aos verdadeiros apóstolos da não violência. O reverendo Martin Luther Kink. E o nosso Dom Hélder Câmara, que vimos de perto tantas vezes, em encontros inesquecíveis.

Aqui na coluna, marco a data com um pouco de música.

Primeiro, A Paz, letra de Gilberto Gil sobre melodia de João Donato.

Por último, Give Peace a Chance, do beatle John Lennon.

 

Filme dos Rolling Stones em Cuba terá exibição mundial no dia seis de outubro

Havana Moon, o filme sobre o show dos Rolling Stones em Cuba, terá uma única exibição mundial nos cinemas no dia seis de outubro. No Brasil, será nas salas das redes Cinemark, Cinépolis e UCI.

João Pessoa está entre as cidades que verão Havana Moon? Na lista que vi, não está!

O documentário tem direção de Paul Dugale. O show, gratuito, foi realizado em Havana no dia 25 de março de 2016, logo após a visita do presidente Obama a Cuba.

Selecionei trechos de uma entrevista de Mick Jagger para divulgar o filme e transcrevo aqui:

Liberdade

O mês de março foi maravilhoso em Cuba. Eles tiveram o Papa, o Obama e finalmente os Stones: todos indo lá. Mas você teria que perguntar para os cubanos – eu não sei se eles sentem algo diferente depois de tudo isso ou não. Não é um lugar livre, você ainda não pode dizer o que pensa, você ainda não pode se juntar com pessoas, não é permitido muito acesso à internet, só um pouquinho aqui e ali. Então, para as pessoas de fora parece um lugar livre. Eu não tenho a resposta para isso, eu só estou levantando a questão.

Música burguesa e decadente

Em outro filme que fizemos sobre a América Latina, que se chama “Olé Olé Olé!”, há muito desta história. Havia repressão em muitos dos países latino-americanos, porque eram ditaduras militares de direita. Também sucedeu na Espanha de Franco, eles proibiram o rock ‘n’ roll, e nos países satélites soviéticos e na União Soviética. Então Fidel Castro copiou o método da União Soviética, proibindo a música burguesa e decadente. Isso não durou para sempre.

Quebra-cabeça cultural

O rock ‘n’ roll é somente uma parte do quebra-cabeça cultural. Você precisa de todas estas partes, você precisa de trocas culturais e políticas em todos os níveis, e você precisa de pessoas trocando ideias. Cultura popular, filmes, música e televisão são todos parte do diálogo.

Português é difícil

Estive em países hispanos por quase todo o tour, além do tour no Brasil, que é em português e mais difícil. Então eu estive mais ou menos bem. Até minha filha Jade me deu um elogio meio hesitante. O espanhol dela é muito bom e ela disse: “Seu espanhol não foi assim tão ruim.” Eu disse: “Bem, eu venho falando há mais ou menos três meses”.

Frases em Espanhol

Acho que você tem que fazer um esforço para se comunicar com as pessoas na língua deles. Mesmo que seja um desastre, não importa. As pessoas te agradecem por tentar. Muitas pessoas falam inglês, mas não em todas as partes, então é bom saber frases. O que acontece com o espanhol é que é diferente em cada país. Eles têm palavras e gírias diferentes e também pronúncias diferentes. Alguém me disse: “Você não pode pronunciar assim, você soa como um chileno”. E eu disse: “E o que tem de errado nisso?”.

Noite especial

Foi uma noite muito especial para os cubanos e algumas pessoas mais velhas disseram que pensaram que isso nunca iria acontecer, que aquele tipo de mundo já não os alcançaria mais. As pessoas mais jovens não pensam necessariamente assim, eles só querem se divertir e estão felizes que pessoas estão vindo e, quem sabe, outras virão.

Cuba no caminho

Não há necessidade de serem sempre shows grátis ao ar livre, porque isso é bem complicado de fazer. Mas eles gostam de um show grátis ao ar livre! Espero que outras pessoas venham e superem as dificuldades para que Cuba se torne mais uma parada no caminho, porque os cubanos iriam amar. Eles tiveram uma noite especial e foi maravilhoso para nós também.

“Somente gente do século passado ainda compra CD!”

Quem me deu as primeiras notícias sobre o compact-disc foi a revista Som Três. Seria uma revolução. Um disquinho impresso digitalmente com capacidade de armazenamento maior do que a dos velhos LPs. Caberia a Nona Sinfonia de Beethoven na íntegra. E acabaria com os ruídos dos discos analógicos.

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A primeira pessoa que me falou sobre a sensação de ouvir um CD foi Egberto Gismonti. Ele integrava o cast da gravadora norueguesa ECM e ganhara um player e alguns discos no natal de 1982. Os sons altos são altos demais; os baixos, baixos demais – foi como Gismonti resumiu para mim o que sentira ao ser apresentado ao produto que revolucionaria a indústria fonográfica.

No início, dizíamos “disco laser” quando nos referíamos ao objeto que chegara para tomar o lugar dos nossos LPs. Usávamos esta expressão certamente perplexos com o fato de que as problemáticas agulhas seriam substituídas por um facho de raio laser. Parecia coisa de ficção-científica.

Passou algum tempo até que o chamássemos de CD. Mas logo veio a primeira desilusão: os exemplares de procedência alemã que aportaram no Brasil não resistiam ao nosso clima quente e úmido. Oxidavam rapidamente, um problema que foi resolvido na medida em que a indústria aperfeiçoou a fabricação dos CDs.

Para quem ainda conheceu os 78 rpm e cresceu ouvindo LPs, não era possível dispensar a palavra disco. E estava correto. O nome é compact-disc, por mais que os garotos de hoje estranhem quando a gente diz “disco”, referindo-se a um CD.

Cresci numa casa cheia de música e lembro do momento em que os LPs aposentaram os discos de 78 rotações. Foi uma revolução semelhante à do CD. A limpeza do som, a beleza das capas, o conceito de álbum, conquistas da era do disco analógico de longa duração. Sem falar do som stereo, que chegou mais tarde, dividindo a gravação em dois canais.

A anunciada morte do CD remete a estas lembranças. Os números da indústria fonográfica pioram a cada ano. O disco como conceito – um produto com começo, meio e fim, um certo número de faixas, uma capa, letras e ficha técnica num encarte – interessa cada vez menos aos ouvintes jovens. Eles também consomem música intensamente, mas as canções não precisam depender do desejo do artista e do mercado de oferecê-las numa determinada ordem, vinculadas a um título e a uma ideia.

A música que se ouve nos serviços de streaming prescinde do físico. Extingue o amor táctil ao disco.

Continuo comprando CDs. Na definição de um amigo, sou um homem do século passado. Segundo ele, somente gente do século passado ainda compra CD.