Caetano e Gil encerram turnê com show no Rio

Com um show no Rio de Janeiro, Caetano Veloso e Gilberto Gil encerram neste domingo (30) a turnê Dois Amigos, Um Século de Música. O projeto, iniciado em junho do ano passado, percorreu o Brasil e diversos países durante 16 meses.

O duo acústico de vozes e violões foi registrado em CD duplo e DVD.

caetano-e-gil

Vi o show quando da passagem da turnê pelo Recife, em novembro do ano passado.

Transcrevo aqui um pouco do que escrevi:

Há muitas belezas no show. Uma delas é a obra de cada um revisitada através de músicas que entraram para a antologia do nosso cancioneiro. Seja “Domingo no Parque” ou “Expresso 2222”, de Gil, “Tropicália” ou “Sampa”, de Caetano. Outra beleza é a oportunidade que o set list proporciona de identificarmos a relação dessas canções com o tempo em que foram escritas. Como nos comentários sobre o exílio (em “Nine Out of Ten”, de Caetano, e “Back in Bahia”, de Gil), na lembrança da prisão (em “Terra”, de Caetano) ou, ainda, no retrato do Brasil à época do Tropicalismo (em “Marginália II”, de Gil, letra de Torquato Neto).

Belo também é o modo com que o repertório foi “costurado”. O que pode ser lido pelo público nas entrelinhas. A conversa que vai se construindo ali no palco ornamentado com as nossas bandeiras estaduais. Como se Caetano e Gil dialogassem conosco e não só entre eles. Os artistas permanecem o tempo todo em cena, mesmo quando somente um está tocando e cantando. Um atua, o outro contempla. O silêncio se traduz como reverência, admiração profunda, também como amor e amizade.

Tudo nesse show tem a ver com uma história de grande cumplicidade que começou na Salvador da primeira metade da década de 1960, no dia em que Caetano e Gil se viram pela primeira vez. O encontro foi na Rua Chile, no centro da cidade, perto da loja de calçados “O Adamastor”, que pertencia ao pai de Glauber Rocha. E essa história, contada hoje através de canções, é talvez a maior beleza do duo acústico.

A passagem do tempo é aliada de todos se insistirmos nas belezas do show. E dá significados muito fortes às melodias e às letras de cada canção. O que temos no palco são dois homens que já ultrapassaram o limiar da velhice, revendo o que fizeram em cinco décadas. O “aqui é o fim do mundo”, de Gil, ou o “eu organizo o movimento”, de Caetano, parecem ter outra sonoridade e dizer mais do que diziam há quase meio século. Conseguem juntar o país convulsionado de ontem com o país convulsionado de hoje. E confirmam a opinião, de Caetano, de que o cancioneiro popular do Brasil fala muito profundamente do nosso destino como nação.

Box repõe discos essenciais de Jards Macalé no mercado

Jards Macalé tem três discos essenciais: Jards Macalé (1972), Aprender a Nadar (1974) e Contrastes (1977).

Contrastes foi relançado no ano passado pela Som Livre. Jards Macalé e Aprender a Nadar, lançados originalmente pela Philips, acabam de voltar ao mercado no box de CDs Anos 70, do selo Discobertas, do pesquisador e produtor musical Marcelo Fróes.

Com seu selo, Fróes tem reposto no mercado dezenas de discos muito importantes. Os de Macalé somam-se a esse trabalho.

Conheci Macalé cantado por Gal Costa. Hotel das Estrelas, Mal Secreto, Valor Barato. Depois, com seu violão e arranjos no disco Transa, de Caetano Veloso. Em seguida, no LP Jards Macalé, que reaparece agora no box da Discobertas.

Voz, violão, baixo e bateria. Macalé, Lanny Gordin, Tutty Moreno. Um trio poderoso num disco que tem grande unidade e registra o repertório que projetou o compositor. Um verdadeiro petardo!

jards-macale

Dois anos depois, o segundo disco. Aprender a Nadar é excelente, mas muito diferente do disco anterior. É muito bom na falta de unidade, na diversidade do seu repertório.

Confirma o grande talento que Macalé teve dificuldade de amplificar. Seja por questões da indústria fonográfica, seja por traços da sua personalidade, o fato é que o músico ficou à margem. Merecia maior visibilidade.

aprender-a-nadar

Dois discos de raridades (gravações domésticas + faixas ao vivo) completam o box da Discobertas.

Muito bom reouvir o melhor de Macalé!

Morre Dib Lutfi, um dos fotógrafos do Cinema Novo

Luto no cinema brasileiro.

Morreu nesta quarta-feira (26) no Rio de Janeiro o fotógrafo e diretor de fotografia Dib Lutfi.

Lutfi, de 80 anos, morava no Retiro dos Artistas e sofria do Mal de Alzheimer.

Nascido no interior de São Paulo, filho de uma família de libaneses, Dib Lutfi foi, como fotógrafo e diretor de fotografia, um dos grandes nomes do cinema brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Trabalhou com os cineastas mais importantes daquela época, sobretudo os do Cinema Novo.

dib-lutfi-com-glauber-rocha

Era irmão do compositor e cineasta Sérgio Ricardo, de 84 anos, que hoje pela manhã usou as redes sociais para anunciar a morte de Dib.

dib-lutfi-e-sergio-ricardo

Algumas imagens inesquecíveis do cinema brasileiro, nós vimos através dos olhos de Dib Lutfi!

(Na primeira foto, Dib Lutfi filmando com Glauber Rocha)

(Na segunda foto, Dib Lutfi com o irmão Sérgio Ricardo)

Primeiro jornal da TV Cabo Branco foi ao ar há 30 anos

Antes que o mês termine, quero fazer um registro: o primeiro jornal da TV Cabo Branco foi ao ar há 30 anos, em outubro de 1986. Foi apresentado por Geraldo Oliveira (foto) e Bertrand Freire.

Conto um pouco dessa história.

geraldo-oliveira

A TV Cabo Branco, primeira emissora de televisão de João Pessoa, entrou no ar em caráter definitivo, como afiliada da Rede Globo, no primeiro dia de janeiro de 1987. Mas, antes, houve uma fase experimental, que durou pouco menos de três meses, entre outubro e dezembro de 1986.

Nessa fase experimental, a emissora transmitia o sinal da Band. Muitos dos seus profissionais estavam experimentando o veículo pela primeira vez. Eram jornalistas que vinham de outras plataformas e jovens recrutados na Escola Técnica para postos operacionais. Todos haviam passado por um treinamento que durou alguns meses e, de fato, teriam a oportunidade de “treinar” no ar, antes que a TV passasse a operar como afiliada da Globo.

O primeiro telejornal se chamou Câmera 7. O 7 era uma alusão ao horário em que ia ao ar e ao canal da emissora.

Estávamos no Brasil do Plano Cruzado, do governo Sarney, e às vésperas de uma eleição. O deputado federal Tarcísio Burity seria eleito governador pelo PMDB.

As primeiras edições do Câmera 7 falavam das eleições, das ações da Sunab para garantir o êxito do Plano Cruzado, cobriam os eventos esportivos, a agenda cultural da cidade. Dava ao pessoense a oportunidade de se ver todas as noites num telejornal.

Campina Grande, com a TV Borborema, teve uma emissora de televisão em 1963. João Pessoa demorou muito para ter o seu primeiro canal. Vivíamos do que as repetidoras nos ofereciam. Basicamente, do que era produzido no Recife. A chegada da TV Cabo Branco foi, portanto, um marco na vida da cidade.

O Câmera 7 era, por certo, um telejornal cheio de limitações. Mas era o resultado do esforço de uma equipe consciente de que desempenharia o papel histórico de por no ar a primeira emissora de televisão de João Pessoa.

Não posso mencionar todos os envolvidos, mas há alguns nomes que quero registrar:

Dos repórteres Joanildo Mendes, Saulo Moreno, Gisa Veiga, Karla Almeida, Naná Garcez e Ruth Avelino. Outros, que chegaram logo depois, ainda não estavam nesses primeiros dias.

Dos editores de imagens Carlos Alberto e Bernadete de Oliveira, que editaram comigo o Câmera 7.

Do editor geral, Erialdo Pereira, e do chefe de reportagem, Rubens de Abreu. Do gerente operacional, Cacá Martins.

Não havia computadores, muito menos internet. Usávamos máquinas de datilografia e um tele-prompter doméstico. Além de grandes fitas U-matic. As equipes que acompanhavam os repórteres tinham um cinegrafista, um operador de VT e um iluminador.

Muitos dos garotos e garotas da geração Y, que hoje dividem conosco os espaços de uma redação, ainda nem eram nascidos.

O melhor de Milton Nascimento está em sete discos

Hoje (26) cedo, escrevi sobre Milton Nascimento, aniversariante do dia. Falei um poucos dos melhores discos dele, aqueles gravados na velha Odeon entre 1970 e 1978. Seguem as capas, só para dar vontade de ouvir mais uma vez.

Milton (1970)

capa-milton

Clube da Esquina (1972)

capa-clube-1

Milagre dos Peixes (1973)

capa-milagre-dos-peixes

Milagre dos Peixes ao Vivo (1974)

capa-milagre-vivo

Minas (1975)

milton-capa

Geraes (1976)

capa-geraes

Clube da Esquina 2 (1978)

capa-clube-2

Milton Nascimento, um mistério que não se desvenda por completo

milton-nascimento

Recife, março de 1979. Teatro do Parque lotado. Milton Nascimento entra sozinho no palco, vestido de branco, e, acompanhando-se ao violão, canta “Volver a los 17”, de Violeta Parra, que gravara com Mercedes Sosa.

Em seguida, os músicos vão ocupando seus lugares. Wagner Tiso no piano, Robertinho Silva na bateria, Novelli no baixo, Hélio Delmiro na guitarra. Mais Beto Guedes e Flávio Venturini.

O show: “Clube da Esquina 2”. Histórico, antológico, inesquecível. “Canoa, canoa desce/no leito do Rio Araguaia desce” – a voz de Milton ecoa no teatro com os falsetes que encantaram o mundo. Lembranças da primeira vez em que o vi de perto.

Milton Nascimento entrara na nossa casa pelas mãos do meu pai, em 1967. No festival que o revelou com “Travessia”. “Solto a voz nas estradas…” – a voz mágica que vinha de Minas. Como um mistério que nunca desvendaríamos por completo. O rapaz nascido no Rio, adotado por um casal de mineiros, louco pelo François Truffaut de “Jules et Jim”. E pelos mesmos Beatles que vi correndo na quadra em “A Hard Day’s Night”.

Meus melhores contatos com a música de Milton Nascimento são dos anos 1970, o período em que gravou seus discos mais importantes. Sete discos que o colocaram no topo da nossa música popular, entre 1970 e 1978.

Já estava tudo ali, naqueles trabalhos realizados ao lado dos músicos que formaram o Clube da Esquina. Gente que veio de Minas. Gente que foi se agrupando mais tarde no Rio. “Noite chegou outra vez/de novo na esquina os homens estão” – Milton e os irmãos Borges, seus parceiros. Milton e Brant – seu principal parceiro de jornada.

Primeiro, o disco com o Som Imaginário. “Para Lennon e McCartney”, “Canto Latino”, “Pai Grande”. “A Felicidade”, de Tom e Vinícius, evocando Agostinho dos Santos. Depois, “Clube da Esquina”. Brancos e pretos. Lô e Milton. “Tudo o que Você Podia Ser”, “O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “San Vicente”.

E aí vem “Milagre dos Peixes”. Em estúdio, com as letras censuradas e a voz de Clementina de Jesus. Ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, regência de Paulo Moura. As cordas que remetem ao barroco mineiro antecedem as palavras que se repetem em “Bodas”. “E a muitos outros que a mão de Deus levou” – a dedicatória irônica na noite brasileira.

“Minas” e “Geraes” consolidam o artista extraordinário. “Fé Cega, Faca Amolada”, “Saudade dos Aviões da Panair”, “Ponta de Areia”. A voz metálica misturada ao coro infantil. “Mi” de Milton, “nas” de Nascimento. As sílabas iniciais formando “Minas”. Para abrir caminho a “Geraes”, o disco seguinte. “Voltar aos dezessete, depois de viver um século” – os versos de Violeta Parra gravados com Mercedes Sosa. Ou “quem cala sobre teu corpo/consente na tua morte”.

No próximo passo, os amigos juntos em “Clube da Esquina 2”. Elis, Chico, todos. Há muita beleza nos anos seguintes. Mas nem precisava. Bituca é o aniversariante desta quarta-feira (26).

Quatro discos trazem o essencial de Belchior

Quatro discos, gravados entre 1976 e 1979, trazem o essencial do cancioneiro de Belchior, que está fazendo 70 anos nesta quarta-feira (26).

Apenas um Rapaz Latino Americano, Velha Roupa Colorida, Como Nossos Pais, Alucinação, A Palo Seco, Coração Selvagem, Paralelas, Todo Sujo de Batom, Galos Noites e Quintais, Divina Comédia Humana, Na Hora do Almoço, Medo de Avião, Tudo Outra Vez, Comentário a Respeito de John. 

Suas canções mais importantes estão nesses discos. A sua melhor antologia.

Alucinação

PolyGram/1976.

capa-alucinacao

Coração Selvagem

Warner/1977.

capa-coracao-selvagem

Todos os Sentidos

Warner/1978.

capa-todos-os-sentidos

Belchior (Medo de Avião)

Warner/1979.

capa-belchior-79