No Dia do Índio, viva o índio do Xingu!

Em 1977, na turnê Refavela, no momento em que ficava sozinho no palco, Gilberto Gil cantava uma música nova. Era Um Sonho.

Uma moda de viola composta como manda o figurino das modas de viola.

Foi gravada, na época, por Marcelo, um cantor que acabou não construindo uma carreira sólida.

Gil só veio a gravá-la em 1991, no disco Parabolicamará.

Quatro décadas se passaram desde a turnê Refavela, e a moda de viola de Gil continua me emocionando com seus versos que atravessam o tempo.

Hoje, Dia do Índio, lembro dela por causa do verso final:

Viva o índio do Xingu!

Ouçam (vejam) nesse vídeo de cinco anos atrás. Dediquem alguns minutos do seu tempo a Um Sonho.

Roberto Carlos é um cara que merece ser chamado de Rei!

Roberto Carlos chega aos 76 anos nesta quarta-feira (19) como o artista mais popular da música brasileira e um dos mais amados pelo público. Se voltarmos a 1965, podemos dizer que, àquela época, quando alcançou o topo das paradas com Quero que Vá Tudo pro Inferno, ninguém imaginava que o cantor que se consolidava como ídolo da juventude se transformaria nesta figura a quem chamamos de Rei – nem seus ouvintes, nem os críticos, muito menos os marqueteiros que criaram a Jovem Guarda, o programa de televisão comandado por Roberto todos os domingos na antiga TV Record.

Nascido em Cachoeiro do Itapemirim, Roberto Carlos Braga cantava desde menino. Começou a atuar profissionalmente no Rio de Janeiro em 1959, como crooner de boate. Suas primeiras gravações confirmam que tentou entrar na turma da Bossa Nova. Não conseguiu. O disco de estreia soava como um pastiche de João Gilberto. O caminho seguinte foi o rock, mas a contenção de sua performance vocal e o perfeccionismo que o acompanha desde cedo mostram que incorporou ao seu canto algo da lição de João, o homem que criou a batida da Bossa Nova ao violão ao gravar Chega de Saudade.

O espírito transgressor e a ingenuidade do rock primitivo estão presentes nas músicas que deram dimensão nacional a Roberto Carlos. E são marcas da Jovem Guarda. Mas os sinais de amadurecimento logo seriam notados. Como no disco Em Ritmo de Aventura, de 1967, que já incorpora ao seu repertório canções menos ingênuas e novos timbres fornecidos pelos arranjos de metais e pelas cordas. Ao se desvencilhar do programa de televisão, Roberto Carlos se curvaria às influências da soul music, adesão difundida nos discos gravados entre o final da década de 1960 e o início da de 1970.

Em 1970, gravou Jesus Cristo, inaugurando a extensa série de canções de inspiração religiosa. Em 1971, compôs (com o parceiro, Erasmo Carlos) Detalhes, que muitos costumam apontar como a melhor das suas canções. O espírito transgressor e a ingenuidade do rock primitivo ficavam para trás. Com a linha melódica toda construída a partir de dois acordes básicos (um maior, outro menor), em Detalhes, Roberto e Erasmo recorrem à fórmula simples, mas eficaz, que já tinham utilizado em Sentado à Beira do Caminho e que voltariam a usar diversas vezes dali por diante.

As imagens do documentário Uma Noite em 67, lançado em 2010, mostram que, aos 26 anos, em plena era dos festivais, Roberto Carlos já era um performer com total domínio do palco e da voz. Muito mais do que seus companheiros de geração. Mas a verdade é que o amadurecimento do grande artista que ele é só se deu plenamente na década de 1970. Tempo também em que consolidou uma relação única com o público, associando seus discos aos natais de milhões de brasileiros e se fazendo de fato merecedor do título de Rei, com o qual todos nós, afetuosamente, o tratamos já há várias décadas.

Curiosamente, Roberto Carlos não é uma unanimidade nacional. Ele ainda tem muitos críticos entre os ouvintes do que se convencionou chamar de MPB. Se pensarmos nas restrições que lhe são feitas, encontraremos desde os que defendem o argumento de que somente o repertório antigo é bom, até os que acreditam que suas canções sempre soam melhor nas vozes de outros intérpretes. Ou os que atribuem a Erasmo os méritos que teimam em não enxergar em Roberto. Parecem esquecer que nenhum artista conseguiu inserir tantas canções na memória afetiva dos brasileiros. E isto não é pouco.

Na última década do século XX, Roberto Carlos acabou quebrando a tradição do disco anual com canções inéditas. Na primeira do século XXI, fez duas coisas que nunca havia feito: rendeu-se ao formato acústico que a MTV difundiu em todo o mundo e dividiu um disco com outro artista. Em 2008, ao lado de Caetano Veloso, debruçou-se sobre o repertório de Antônio Carlos Jobim no instante em que eram comemorados os cinquenta anos da Bossa Nova. Ali, às vésperas de festejar meio século de carreira, Roberto voltou à bossa, por onde quis começar quando ainda era um cantor de boate.

Em 2012, o EP com Esse Cara Sou Eu vendeu tanto quanto seus velhos LPs. Em 2015, diante de uma plateia de convidados, regravou velhos sucessos com novos arranjos nos lendários estúdios londrinos de Abbey Road.

Da transgressão ingênua de Parei na Contramão ao grito ecológico de As Baleias, do erotismo de Cavalgada à manifestação de fé de Nossa Senhora – citaríamos dezenas de canções que oferecem um retrato de Roberto Carlos tirado a partir do que ele cantou. Mas ficaremos só com quatro momentos emblemáticos: Quero que Vá Tudo pro Inferno, como síntese da sua rebeldia juvenil; Jesus Cristo, como a canção mais marcante do homem religioso; Detalhes, que se destaca entre as baladas maduras que falam de amor; e Emoções, sensível autorretrato que ele e Erasmo compuseram aos 40.

Por isso essa voz tamanha!

Roberto Carlos gravou três músicas compostas por Caetano Veloso: Como 2 e 2, Muito Romântico e Força Estranha.

Na primeira, o Rei foi porta-voz da tristeza de um exilado. Caetano já voltara para o Brasil quando compôs as outras duas.

Em 1979, na turnê Muito, tivemos a oportunidade de ouvir as três na voz do autor.

Retratos de Roberto Carlos tirados por Caetano?

Retratos de Caetano tirados por Roberto Carlos através de Caetano?

As duas coisas juntas?

O autor falava disso antes de cantá-las.

Das três, talvez a mais marcante seja Força Estranha. E a que de fato se incorporou ao repertório permanente do Rei.

Gosto muito dessa versão gravada ao vivo em São Paulo.

Vejam os metais. E a guitarra. E a voz tamanha do artista!

Vamos ouvir?

 

Professora quis denunciar aluno de 14 anos. Os dias eram assim!

João Pessoa, início dos anos 1970.

Um colégio da rede estadual.

Os alunos, todos adolescentes, tinham dificuldades com o aprendizado da matemática e se queixavam da ausência de diálogo com a professora. Havia, certamente, erros e acertos dos dois lados, mas havia um conflito que necessitava de solução.

Sete alunos procuraram o diretor, um ex-padre que não se furtava ao diálogo. Ele recebeu cordialmente os garotos, ouviu as queixas, pareceu compreendê-las e disse que conversaria com a professora.

A conversa não deu resultado. Pelo contrário, ampliou o conflito.

A professora citou os nomes dos sete alunos durante a aula e anunciou que, a partir daquele momento, seria implacável com eles.

A professora de OSPB – provável aliada da colega – fez um contundente discurso sobre coação. Coação moral. Coação física.

Na véspera da prova trimestral de matemática, a professora foi clara:

Não estamos mais em 68! Se vocês insistirem, serão denunciados ao Grupamento de Engenharia!

O conflito fora ideologizado!

O garoto de 14 anos que tivera a ideia de conversar com o diretor voltou assustado para casa.

Horas depois, ouviu dos pais a solução: a partir do dia seguinte, não voltaria mais ao colégio. Perderia o ano, mas não correria o risco de ser entregue à repressão.

Os dias eram assim!

Roberto Carlos tem discografia que desmente quem fala mal dele

Quem faz aniversário nesta quarta-feira (19) é Roberto Carlos. Vai completar 76 anos e ainda não é uma unanimidade nacional. Uma pena. Um grande artista que inseriu dezenas de canções na memória afetiva do povo brasileiro.

Fui fazer um top 10 dos discos de Roberto Carlos. Não deu. Fiz um top 15. E ainda senti falta de alguma coisa.

É Proibido Fumar (1964)

A Jovem Guarda ainda não existia, mas Roberto Carlos já começava a se transformar num nome nacional. Tem O Calhambeque, versão assinada por Erasmo Carlos, e É Proibido Fumar, da dupla Roberto e Erasmo. Nasci para Chorar pode entrar para a lista dos números muito bons, mas pouco lembrados, do repertório de Roberto Carlos.

Jovem Guarda (1965)

Quero que Vá Tudo pro Inferno, faixa que abre o disco, colocou Roberto Carlos no topo de todas as paradas brasileiras. Aos 24 anos, ele começava, como ídolo da juventude, a conquistar um espaço que o transformaria num dos maiores nomes da nossa música popular. O repertório traz ainda Lobo Mau, Coimbra e Mexerico da Candinha.

Roberto Carlos (1966)

A capa preta com a foto do artista lembra a de With The Beatles. O repertório é cheio de sucessos: Eu Te Darei o Céu, Nossa Canção, Querem Acabar Comigo, Esqueça, Negro Gato, Namoradinha de um Amigo Meu, É Papo Firme. Roberto iniciava uma série de discos com vários hits, algo que não existe mais no mercado fonográfico.

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967)

O disco com as músicas do filme dirigido por Roberto Farias. Roberto Carlos ainda é um artista jovem, mas dá os primeiros sinais de amadurecimento, como na canção Como É Grande o Meu Amor por Você. Os metais mexem com a sonoridade da banda. Entre os hits, Eu Sou Terrível, Por Isso Corro Demais, Quando e Por Isso Estou Aqui.

O Inimitável Roberto Carlos (1968)

O êxito de um novo cantor, Paulo Sérgio, cuja voz lembrava remotamente a de Roberto Carlos, foi responsável pelo inimitável do título. Bobagem. Àquela altura, não havia mais volta na relação profunda de Roberto Carlos com o público brasileiro. As Canções que Você Fez pra Mim é destaque no repertório. A influência da soul music é nítida.

Roberto Carlos (1969)

Quando o disco foi lançado, no fim de 1969, Roberto Carlos já estava associado aos nossos natais. Novamente voltado para o soul, ele canta As Flores do Jardim da Nossa Casa, As Curvas da Estrada de Santos e Sua Estupidez. Não Vou Ficar é de Tim Maia e está no filme O Diamante Cor de Rosa, o segundo que tem RC como protagonista.

Roberto Carlos (1970)

O maior sucesso do disco foi Jesus Cristo, que inaugurou a longa série de canções de inspiração religiosa de Roberto Carlos. Uma Palavra Amiga e O Astronauta estão na lista das grandes canções pouco lembradas do repertório do Rei. Meu Pequeno Cachoeiro, de Raul Sampaio, é um emocionado tributo à cidade onde RC nasceu.

Roberto Carlos (1971)

Para muita gente, o melhor disco de Roberto Carlos. Marca o ingresso na maturidade. Detalhes, a faixa que abre o repertório, é, talvez, a sua melhor canção. Em Como Dois e Dois, ele é intérprete do Caetano Veloso exilado. Em Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, homenageia Caetano, mas o público não sabe. Tem ainda Amada Amante.

Roberto Carlos (1972)

O disco traz A Montanha, da série de canções religiosas, e Como Vai Você, até hoje um grande sucesso do repertório de Roberto Carlos. À Distância apareceria, pouco depois, no filme Violência e Paixão, de Luchino Visconti. Em Acalanto, temos a única vez em que o Rei interpretou Dorival Caymmi. O Divã é do grupo de canções confessionais.

Roberto Carlos (1973)

Jesus Cristo é a canção religiosa mais popular de Roberto Carlos, mas O Homem talvez seja a mais bonita. O arranjo lembra as gravações de George Harrison logo após o fim dos Beatles. O disco traz também Proposta, uma das melhores entre as baladas erótico-sentimentais da década de 1970. Em Atitudes, Roberto ainda é soul.

Roberto Carlos (1975)

Dez anos depois, Roberto Carlos regrava Quero que Vá Tudo pro Inferno, que acabou banida do seu repertório. O disco traz os sucessos Olha e Além do Horizonte. O intérprete brilha em Mucuripe, de Fagner e Belchior, gravada antes por Elis Regina. Em El Humahuaqueño, Roberto dialoga com a música latino-americana.

Roberto Carlos (1977)

A homenagem surpresa ao parceiro, Erasmo Carlos, em Amigo abre o disco que está entre os mais vendidos e os melhores que gravou. Um repertório cheio de grandes sucessos: Falando Sério, Muito Romântico, Cavalgada, Jovens Tardes de Domingo, Outra Vez. Solamente una Vez mostra Roberto interpretando Agustín Lara.

Roberto Carlos (1981)

O disco tem o Roberto Carlos religioso (no rock Ele Está pra Chegar) e o engajado nas causas ecológicas (na balada As Baleias). Tem também o erótico que marcou tanto a década de 1970 (Tudo Para, Cama e Mesa). Mas o melhor do repertório é o autorretrato que nos oferece em Emoções. Há muitos anos, a música que usa para abrir seus shows.

Acústico (2001)

Como seu ídolo, Tony Bennett, Roberto Carlos também se rendeu aos especiais acústicos da MTV. E fez um programa primoroso, nunca exibido por causa do seu contrato de exclusividade com a Globo, mas transformado em CD e DVD. As canções ganharam arranjos modernos num repertório que percorre toda a carreira do Rei.

A Música de Tom Jobim (2008)

Ninguém acreditava que fosse possível. Nem o empresário de Roberto Carlos. O Rei e Caetano Veloso juntos, interpretando Tom nos 50 anos da Bossa Nova. O show virou CD e DVD. Foi a primeira vez em que RC dividiu um disco com outro artista. Bom que tenha sido com Caetano, que enxerga nele regiões profundas do ser do Brasil.

Inteligência de Roberto Campos faz muita falta ao Brasil

Um breve registro:

Nesta segunda-feira (17), faz 100 anos que Roberto Campos nasceu.

Em seu tempo, o liberal apelidado de Bob Fields era odiado pela esquerda. Mas era uma das grandes inteligências brasileiras, um intelectual brilhante, desses que nos fazem muita falta.

Em sua coluna no G1, Hélio Gurovitz lembra que Campos soube enxergar as ameaças do totalitarismo, fosse de esquerda, fosse de direita.

“Sua formação econômica o mantinha distante das ideologias utópicas”, diz o articulista.

Ainda Gurovitz: os cinco “ismos” contra o quais Roberto Campos lutou – nacionalismo, protecionismo, estatismo, corporativismo, patrimonialismo.

Os dias eram assim! O triste é que, hoje, não há festa a fazer!

Os Dias Eram Assim.

É a nova série da Globo. Estreia nesta segunda-feira (17).

O título é um verso da canção Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins e Vítor Martins.

Foi magistralmente gravada por Elis Regina.

Se pensarmos nos compositores que se posicionaram contra a ditadura (Chico Buarque, Gonzaguinha, João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vítor Martins, Milton Nascimento e seus parceiros) e escolhermos as canções engajadas que compuseram sobretudo ao longo da década de 1970, Aos Nossos Filhos é uma das mais fortes.

É uma canção de ninar. Nas três primeiras estrofes, a letra fala do presente (o momento em que foi escrita) como se ele já fosse passado. Perdoem por isso, perdoem por aquilo, os dias eram assim. Quem ouviu na época sabe o efeito que tinha!

As três últimas estrofes falam do futuro como se o autor (ou a intérprete) não fosse mais estar vivo. Quando ocorrer isso, quando ocorrer aquilo, façam a festa por mim.

A morte prematura de Elis Regina, intérprete definitiva da canção, acabou conferindo mais beleza e melancolia à letra de Vítor Martins.

Nos últimos tempos, sempre que ouço Aos Nossos Filhos, o “façam a festa por mim” cola nos meus ouvidos.

O verso vem sempre acompanhado por uma pergunta:

Que festa podemos fazer?

Dylan, um homem velho e sem voz em áreas profundas da América

Estou ouvindo Triplicate, o novo trabalho de Bob Dylan.

São três discos dedicados aos standards da música americana.

Cada um tem um título: ‘Til the Sun Goes DownDevil Dolls e Comin’ Home Late.

Antes, reproduzo algo que há algum tempo escrevi sobre o artista e suas mudanças:

Bob Dylan correu muitos riscos. Os primeiros, quando rompeu com a tradição folk e o engajamento político na América da primeira metade da década de 1960. Mas houve outros. De um, ao menos, ninguém esquece: o judeu convertido ao cristianismo na segunda metade dos anos 1970. Na década seguinte, voltou às origens e nunca mais cantou para Jesus. Assim é Bob Dylan. De cara limpa ou com o rosto todo pintado. Acústico ou elétrico. Engajado ou recolhido aos seus tormentos. Judeu ou cristão. Não importa. O que temos nele é um grande trovador do seu tempo. Com a beleza da voz nasal, da guitarra imprecisa e das imagens poéticas.

Triplicate é belamente estranho! Ou estranhamente belo!

Alguém disse que é uma esquisitice de Dylan! É muito mais!

Traduzo assim: um homem velho, com a voz devastada, num mergulho no cancioneiro tradicional do seu país. Em busca das matrizes, das fontes, das origens, da juventude, do tempo perdido. Da tradição como contraponto ao novo que ele representou e que o fez, agora, merecer o Nobel de literatura.

No começo, há mais de meio século, Dylan sabia que sua música rompia com essa tradição que ele deixou para, ao seu modo, resgatar na velhice. Já o fez nos dois discos anteriores (Shadows in the Night e Fallen Angels) e ampliou o projeto nesse Triplicate, primeiro álbum triplo de sua carreira, acrescentando instrumentos de sopro à sua banda.

São discos de grandes canções que ouvimos com grandes vozes (Sinatra, etc.). Dylan perdeu sua condição vocal há muitos anos, mas confere uma nova beleza a esse repertório. A sua releitura é densa, melancólica, verdadeira. E remete a deep areas da América.

Triplicate (melhor do que Shadows in the Night e Fallen Angels) contém ruptura e reconciliação. Ruptura com o autor em sua permanente inquietação. Reconciliação com o velho, com o american songbook.

Por si só, a imensa importância de Bob Dylan já tornaria esse projeto imensamente importante. Ao negar a figura do grande crooner, ele nos oferece um irresistível crooner pelo avesso!

Como dizem por aí, é Dylan sendo Dylan!

Nome de John Lennon é uma homenagem a Winston Churchill

Na quinta-feira (13), assisti a uma palestra do professor Felipe Negreiros sobre Winston Churchill. Aula de história sobre o homem que conduziu o Reino Unido durante a II Guerra. Churchill (e seu tempo) traduzido por um estudioso.

Tomo a palestra de Felipe Negreiros como “gancho” para falar duas ou três coisas sobre Churchill, Orson Welles, Peter Lorre e John Lennon! Mas o que há de comum entre eles?

Orson Welles. Pode não ter sido um gênio, mas realizou um dos maiores filmes do mundo. Para tanta gente, o maior! O diretor de Cidadão Kane lembra Churchill! Ou não?

Peter Lorre. O grande ator que vimos em M, Relíquia Macabra e Casablanca, também tem alguma semelhança fisionômica com Churchill.

Quando vejo Churchill, sempre lembro de Welles e Lorre. Mas, sobretudo, de John Lennon. Não por causa do dedo em V, que o político inglês usava, mas por causa do nome. O beatle foi batizado como John Winston Lennon. A guerra mal começara quando ele nasceu, em outubro de 1940, mas Churchill já conquistara a admiração dos britânicos de tal modo que muitas crianças nascidas naquela época tiveram o seu Winston no nome.

Muitos anos mais tarde, no casamento com Yoko Ono, Lennon mudou o nome. Passou a se chamar John Ono Lennon. E ela, Yoko Ono Lennon.

Odebrecht bancou disco de Tom Jobim, mas não era segredo!

Vocês sabiam que a Odebrecht pagou para Tom Jobim gravar um dos seus melhores discos?

O álbum duplo foi distribuído como brinde no Natal de 1987 e só chegou ao público em 1995, após a morte do artista, com o título de Tom Jobim Inédito.

Vejam a capa. Em seguida, falo do disco.

No final dos anos 1980 e início dos 1990, os fãs incondicionais de Antônio Carlos Jobim sofriam porque não podiam ter em sua discoteca esse álbum duplo. A distribuição, gratuita, ficara restrita aos amigos e clientes da Odebrecht. O disco virou uma raridade até 1995, ano seguinte à morte de Tom, quando, afinal, foi comercializado. Primeiro, em CD duplo da BMG Ariola. Depois, numa edição simples (mas integral), até hoje disponível no catálogo da gravadora Biscoito Fino.

O jornalista Sérgio Cabral (pai do ex-governador) conta na sua biografia de Tom Jobim que a iniciativa partiu da museóloga Vera Alencar, que fizera algo semelhante com Dorival Caymmi em 1985. O brinde era da CBPO (Companhia Brasileira de Projetos e Obras), subsidiária da Odebrecht.

“O disco, produzido por Jairo Severiano, ficou tão bom que não estará muito longe da verdade quem disser que é o melhor disco de Tom Jobim”, afirma Sérgio Cabral.

As gravações de Tom ao piano e da sua voz foram feitas num estúdio improvisado na casa do compositor.

Em 24 músicas, todas antigas, temos um irretocável retrato do maior compositor popular do Brasil. Com exceção de uma seresta de Villa-Lobos, todas são de sua autoria.

Tom Jobim Inédito, que celebrou os 60 anos do artista, é de um tempo em que ninguém imaginava a Odebrecht e a classe política como protagonistas desse espetáculo de promiscuidade do Brasil de 2017.