UFPB dá título de Doutor Honoris Causa a Hermeto. Justíssimo!

Hermeto Pascoal vai receber o título de Doutor Honoris Causa concedido pela Universidade Federal da Paraíba.

A homenagem foi aprovada por unanimidade nesta quinta-feira (27), durante reunião do Conselho Universitário.

Hermeto, músico reconhecido internacionalmente, fez 83 anos no último dia 22.

A concessão do título é justíssima.

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Um dos grandes músicos do Brasil, o alagoano Hermeto Pascoal nem sempre é lembrado como deveria por atuar numa faixa muito restrita do mercado. É um virtuose no nível dos melhores instrumentistas do mundo e tem um senso de improvisação que o coloca em pé de igualdade com os maiores nomes do jazz. Em Hermeto, tudo é música. Todos os sons que ele produz, seja em instrumentos como o piano, o sax ou a flauta, seja em chaleiras, bacias ou canos. Até em animais, como os porcos que já levou para estúdios e palcos.

Se quisermos escolher alguns discos para conhecer a música de Hermeto Pascoal, poderemos começar pelo Quarteto Novo, único LP gravado pelo grupo que levou este nome. É primoroso, mas o Hermeto que se ouve ali ainda não é o músico que ficou conhecido, um pouco depois, por suas ousadias.

Há um intervalo entre o disco do Quarteto Novo e A Música Livre de Hermeto Pascoal, gravado na primeira metade da década de 1970. Entre um e outro, o músico foi para os Estados Unidos e, lá, tocou com Miles Davis, um dos gênios do jazz. Melhor: esteve com Miles no momento em que este promoveu a fusão entre o jazz e o rock. Esta fusão não é exatamente o que vamos encontrar nos discos de Hermeto a partir dos anos 1970, mas é certo que ele trouxe para o seu trabalho a liberdade de criação que encontrou no período em que conviveu, tocou e gravou com Miles Davis.

Entre os discos de Hermeto, prefiro os que gravou durante os anos 1970. Primeiro, A Música Livre de Hermeto Pascoal, seguido do americano Slave Mass e do brasileiríssimo Zabumbê Bum-Á. Eles sintetizam o espírito da sua música. Da beleza dos temas que compõe ao virtuosismo revelado nas improvisações, do uso das convenções da música nordestina ao mais arrojado experimentalismo. Há um pouco de tudo isto em cada um daqueles discos. Eles nos põem em contato com um artista que o Brasil conhece pouco, mas que estarrece as plateias mais exigentes que o ouvem pelo mundo.

E há o álbum-duplo de 1979 que traz a sua apresentação no Festival de Jazz de Montreux. Tem alguns temas compostos por ele e muita música feita de improviso, no nível do melhor jazz produzido pelos americanos. Os ritmos nordestinos predominam, mas o formato é totalmente jazzístico – tema e improvisação. E muita experimentação: ruídos, instrumentos quebrados, “letras” feitas na hora, diálogos improváveis entre sax e aplauso. E um samba choro executado numa escaleta que cala qualquer plateia do planeta.

O disco de Montreux sugere que Hermeto é bom mesmo para ser ouvido ao vivo. Como os grandes músicos do jazz. No palco, ele nos arrebata com seu virtuosismo, mas também com suas invenções. Uma delas: transformar uma chaleira com água num instrumento. E usá-la para executar um clássico do repertório jazzístico, Round Midnight. Thelonious Monk e Miles Davis bateriam palmas.

Martin Scorsese volta a Bob Dylan num belo documentário fake

O fio condutor era simplesmente verdade e beleza

Bob Dylan, sobre a turnê Rolling Thunder

Martin Scorsese é homem do cinema e da música. Ele estava na equipe de Woodstock e na de Elvis on Tour. Ele próprio dirigiu The Last Waltz, ainda nos anos 1970. Foi quando registrou o Bob Dylan que cantava Forever Young no concerto de despedida do grupo The Band.

No início dos anos 2000, Scorsese tirou seu primeiro (e extenso) retrato de Dylan, o documentário No Direction Home. Tão longo (quatro horas) quanto irresistível. O músico visto nos primeiros anos de carreira, entre o instante em que conquista dimensão nacional e o momento em que rompe com o folk e adota o elétrico. Um recorte que parece percorrer todo o Dylan, posto que toca nas questões cruciais do artista.

Agora, Martin Scorsese está de volta a Bob Dylan. Seu novo filme, Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan Story, chegou ao público através da Netflix.

Vejam o título. É story, não é history. Ou: mentiras que se sobrepõem a verdades. Ou: pode parecer, mas nem tudo é verdade. Rolling Thunder Revue é um documentário? Rolling Thunder Revue (como Zelig, de Woody Allen) tem feição, mas não é um documentário? Rolling Thunder Revue é fake? Nada disso. Ou tudo isso. Rolling Thunder Revue é uma grande e alucinante experiência de cinema e música!

O filme começa com Richard Nixon e termina com Jimmy Carter. A América do Watergate e a América dos direitos humanos. Dois lados da América ali em torno dos 200 anos da independência. Dylan, entre um e outro, sai em turnê num ônibus. Ele e um bando de músicos, encontrando outros artistas nas cidades por onde passam. Pequenas plateias, apesar do tamanho de Dylan. Um show que remete a circos e ciganos.

Assim foi a Rolling Thunder. O Dylan de hoje, registrado por Scorsese, não lembra direito. Ou finge que não lembra, não dá importância. Inventa histórias. Conta mentiras, provavelmente. Faz insinuações, fala mal de Joan Baez, que fora sua musa e está com ele no palco.

Rolling Thunder Revue: a Bob Dylan Story foi construído a partir de riquíssimo material de arquivo. Os registros feitos para um filme que nunca existiu. Registros incríveis de bastidores e palcos. Bob Dylan (inspirado no Kiss!) com o rosto todo pintado, cantando como nunca cantou. Nem voltaria a cantar. E tem, incorporado à turnê, o poeta Allen Ginsberg, símbolo da contracultura, que conduz uma parte da narrativa. E, ainda, o violino mimético (assim definido na época) de Scarlet Rivera.

O filme de Scorsese é meio louco. Fala de música, claro. Dialoga com o cinema, também. É um road movie. Parece um daqueles documentários dos anos 1970 (Mad Dogs and Englishman), mas não é. Comenta o hoje revendo o ontem. Encanta olhos e ouvidos. Ao menos dos que seguem Dylan de perto.

Bob Dylan tinha 30 e poucos anos na época da turnê Rolling Thunder. Tem 78 agora, quando Rolling Thunder Revue chega ao público via Netflix. O bardo continua buscando o que nunca encontrará. No final, sobre um fundo vermelho, Martin Scorsese passa rapidamente por todas (todas mesmo!) as turnês que o artista fez desde então. Ao mostrar datas e locais, ano a ano,o filme se aproxima fortemente do espectador que já teve a experiência de ver Dylan ao vivo.

Eu estou lá: São Paulo, pista de atletismo do Ibirapuera, 13 de abril de 1998.

Democracia em Vertigem é forte retrato de um Brasil dividido

O documentário político tem tradição no cinema brasileiro.

Vou destacar um ano em especial: 1984, o ano da campanha pelas eleições diretas para presidente. Em 1984, Jango, de Sílvio Tendler, e Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, chegaram aos cinemas. Eram visões distintas do Brasil da ditadura militar. Jango, sob a perspectiva da elite. Cabra Marcado Para Morrer, do povo.

A cineasta mineira Petra Costa é de julho de 1983. Tinha, portanto, menos de um ano quando esses filmes foram apresentados ao público com êxito superior ao que os documentários costumavam ter. Podemos dizer também que ela tem quase a mesma idade do ciclo democrático iniciado, em 1985, com o fim do regime militar e a volta dos civis à presidência.

Hoje, aos 36 anos, ao realizar Democracia em Vertigem (disponível na Netflix), Petra não só se insere no grupo dos que lançaram mão da linguagem documental para levar a política brasileira ao cinema, como exibe admirável domínio do formato.

Que ninguém cobre imparcialidade de Petra Costa. Não havia no Tendler de Jango nem no Coutinho de Cabra Marcado Para Morrer (ou, para sairmos daqui, muito menos no Michael Moore de Fahrenheit 9/11). Democracia em Vertigem é um filme de esquerda, um documentário que toma partido e precisa ser visto como tal.

O avô de Petra foi fundador da construtora Andrade Gutierrez. Já o pai e a mãe enfrentaram a clandestinidade na luta contra a ditadura. O Petra do seu nome é uma homenagem ao Pedro do líder comunista Pedro Pomar, executado em 1976. A cineasta tem os dois olhares e elementos que outros não têm para se colocar dentro da história.

Democracia em Vertigem é narrado na primeira pessoa. Começa e termina naquele sete de abril de 2018 em que Lula foi preso, depois de passar quase 24 horas dentro da sede do Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo, com o prédio cercado por centenas de militantes.

O filme reconstrói essa história recentíssima do Brasil. De vez em quando, revisita o passado. JK e Brasília. A deposição de Jango. As greves do ABC. Mas se debruça mesmo sobre os últimos anos. Lula, Dilma, Temer, as manifestações de 2013, a Lava Jato, Moro, o impeachment, os escândalos, os vazamentos, as prisões.

Reúne grandes imagens e preciosos depoimentos numa narrativa irresistivelmente ágil, no estilo do melhor cinema documental . Emociona quando vemos Brasília do alto ao som da Bachiana de Villa-Lobos ou quando Lula se movimenta entre os políticos no dia da posse, e a música que se ouve é um pequeno trecho da protofonia de O Guarani, de Carlos Gomes. Sons que vão fundo nas raízes do Brasil e no seu destino como Nação.

O PT decepcionou Petra Costa. Isso está no filme. Gilberto Carvalho faz a autocrítica que o PT não fez. Isso também está no filme. Bolsonaro entra em cena com a narrativa já adiantada. Bolsonaro sendo Bolsonaro, defendendo o torturador Ustra, um fenômeno subestimado pela esquerda, pelas forças progressistas, pelo campo democrático.

Jair Bolsonaro foi eleito seis meses depois da prisão de Lula. Sérgio Moro é o ministro da Justiça de Bolsonaro. Lula permanece preso. É o que temos ao final de Democracia em Vertigem. O que o futuro reserva para a democracia brasileira? Esse filme de Petra Costa é muito necessário.

Michael Jackson morreu há 10 anos. Legado resiste à ação do tempo

Nesta terça-feira, 25 de junho, faz 10 anos que Michael Jackson morreu.

Ele tinha 50 anos e se preparava para voltar aos palcos com ingressos esgotados para muitas apresentações numa arena em Londres.

O Rei do Pop, como era chamado, teve uma parada cardiorrespiratória depois de tomar um anestésico para dormir, administrado por seu médico particular.

Nessa década que nos separa da sua morte, a vida privada do artista foi ainda mais exposta do que já era em seus últimos anos, mas a sua música tem resistido à ação do tempo, assim como os negócios dos que administram o seu legado.

“Tudo em Michael Jackson é feito de matéria pop: sua grande música, sua grande dança, sua vida mínima”.

Quem disse, em 1993, foi Caetano Veloso. Na época, Michael Jackson ainda não enfrentava as dificuldades com que conviveu nos seus últimos anos. Dangerous não fora tão bem sucedido quanto Thriller ou Bad, mas mantinha o artista em evidência com sua música e não com a exposição da sua intimidade.

Se tomarmos como parâmetros a dimensão dos artistas, a surpresa e a repercussão na mídia, a morte de Michael Jackson é comparável a duas outras mortes das quais fui contemporâneo. A de Elvis Presley e a de John Lennon.

Parecido com Michael, Elvis foi encontrado morto em sua mansão depois de uma parada cardiorrespiratória. Diferente dos dois, Lennon foi morto a tiros por um fã quando voltava para casa.

A morte de Elvis Presley, em agosto de 1977, ocupou os principais espaços da mídia. O impacto inicial, o velório em Memphis, a descoberta de que o cantor usava drogas – tudo era notícia naqueles dias em que acompanhamos a cobertura pela televisão, jornais e revistas.

A morte de John Lennon, em dezembro de 1980, surpreendeu o mundo e transformou em fato sem importância a primeira visita do presidente eleito Ronald Reagan a Nova York. Todas as atenções se voltaram para o edifício Dakota, cenário do assassinato e, em seguida, da vigília dos fãs.

A morte de Michael Jackson, em junho de 2009, chegou pela Internet. Enquanto, na noite do dia 25, o Jornal Nacional dizia, em sua escalada, que o astro pop sofrera uma parada e estava num hospital em Los Angeles, um site americano dedicado a celebridades já dera a notícia.

A repercussão da sua morte foi ainda maior do que a de Elvis ou a de Lennon por causa da rede mundial de computadores cuja existência era coisa de ficção-científica tanto em 1977 quanto em 1980.

A música, síntese de elementos riquíssimos criados pelos negros americanos, e a dança fizeram de Michael Jackson o maior astro pop depois da geração de Elvis e da dos Beatles.

O menino que esbanjava talento nos tempos do Jackson 5, o adolescente que cantava baladas como Ben, o adulto recordista de vendas com Thriller – Michael Jackson arrebatou milhões de fãs, mas o sucesso não devolveu a felicidade que lhe foi roubada na infância.

Meryl Streep faz 70 anos. É uma das grandes atrizes do cinema

Vi Meryl Streep em cena pela primeira vez nos primeiros dias de janeiro de 1979. Ela fazia um pequeno papel em Julia, belo filme em que Fred Zinnemann dirigia Vanessa Redgrave e Jane Fonda.

Julia era de 1977. Ninguém imaginava ainda que, ali, estava nascendo uma das grandes atrizes do cinema.

Meryl Streep encenou Shakespeare no teatro antes de ir para o cinema. Era casada com John Cazale, que fez Fredo em O Poderoso Chefão e contracenou com Al Pacino em Um Dia de Cão. Streep e Cazale estiveram juntos em O Franco Atirador, e ele morreu em seguida, vencido por um câncer muito agressivo.

Em Manhattan, de Woody Allen, ela era coadjuvante, mas já brilhava como protagonista em Kramer Vs. Kramer.

Meryl Streep me encantou atuando com Robert De Niro em Amor à Primeira Vista. É um filme menor, nunca duvidei. Um remake do extraordinário Desencanto, do David Lean dos anos 1940. Mas como é completa a sua presença em cena, no papel de uma mulher casada que encontra um desconhecido num trem e vive com ele uma história de infidelidade. Há uma delicadeza, uma ausência de esforço, uma naturalidade – aquelas marcas dos que conseguem ser grandes sendo tão simples.

Streep coleciona indicações ao Oscar. Ganhou mais de uma vez a estatueta de melhor atriz. Fez A Escolha de Sofia e Entre Dois Amores. Foi até Margaret Thatcher em A Dama de Ferro.

Mas a “minha” Meryl Streep é a de As Pontes de Madison, sensibilíssimo drama em que aparece ao lado do ator e diretor Clint Eastwood.

Neste sábado (22), ela faz 70 anos.

Samuel me ensinou a amar os cães

Vamos embora, companheiro. Vamos.
Eles estão por fora do que eu sinto por você.
Me dê sua pata peluda. Vamos passear
Sentindo o cheiro da rua.
Os Mutantes

Samuel chegou pouco antes do Natal de 2007.

Travesso e mordedor. Como os filhotes costumam ser.

Meu medo de cachorros e meu pouco interesse por eles foram vencidos em poucos dias. Afinal, aquele bichinho – um beagle tricolor – era mesmo irresistível!

Um cão em minha casa? Nem pensar!

Ou: só se for criado no quintal.

Ou: só se não entrar no quarto.

Ou: só se não subir na cama.

Samuel venceu todos esses limites.

E ainda abriu as portas para Oona e Rafa e Rocco e Laika e Zimmy e Aladim.

Passou a dormir aconchegado junto aos meus pés.

Virou um companheiro que parecia entender minhas alegrias e também minhas tristezas.

Era manhoso, mas muito mal-humorado.

Ameaçava morder sempre que contrariado.

Dava trabalho para comer.

Pedia desculpas, cabisbaixo, quando fazia algo errado.

Era Samuel. Ou Sami. Ou Muel. Ou Samão. Ou – até – Blambla. Além do nome, tinha muitos apelidos.

Dizer que ele me fez perder o medo dos cachorros é pouco.

Melhor dizer que ele me ensinou a amar os cachorros.

Samuel nos deixou nesta quinta-feira (20).

Tinha 11 anos e mais oito meses.

Era um cão idoso. Teve uma vida plena.

A sua morte trouxe de volta as lágrimas que o antidepressivo me roubara.

Rubens Ewald Filho popularizou a figura do crítico de cinema

Rubens Ewald Filho morreu nesta quarta-feira (19) em São Paulo.

Tinha 74 anos e estava hospitalizado há quase um mês, depois de sofrer uma queda numa escada rolante.

Li que ele não era um crítico de cinema, mas um comentarista. É verdade. Se formos rigorosos, Rubens Ewald Filho não pertencia à escola de crítica que se consolidou nos jornais brasileiros dos anos 1950, 1960 e 1970.

A despeito disso, no entanto, um dos seus méritos foi popularizar a figura do crítico de cinema no Brasil, sobretudo a partir dos anos 1980.

Rubens atuava desde o final da década de 1960, mas só se tornou muito conhecido quando foi para a televisão, justamente no advento do VHS, o momento em que as pessoas começaram a locar filmes para ver em casa.

Suas aparições no Jornal Hoje, da Rede Globo, e nas transmissões da cerimônia do Oscar estão, necessariamente, associadas ao surgimento desse tipo de cinefilia que testemunhamos nos últimos 40 anos.

Seus livros – mais de consulta do que de leitura – completam a persona pública de Rubens Ewald Filho.

Chico Buarque chega aos 75 anos como um gigante da MPB

Chico Buarque faz 75 anos nesta quarta-feira (19).

A música dele entrou lá em casa em 1966, quando eu tinha sete anos. A Banda. Nara Leão naquele festival de MPB. Tinha o disco ao vivo (miseravelmente mal gravado) e o compacto em estúdio. Faz tempo!

Em 1967, mais um festival, e o impacto de Roda Viva. Chico e o MPB4. Roda Viva era muito melhor do que A Banda. O arranjo vocal do Magro era arrebatador.

Em 1968, outro festival. Sabiá, lindíssima canção de exílio. Chico junto com Jobim. Sabiá versus Caminhando. Vaias e mais vaias. Sempre preferi Sabiá.

No meio desses festivais, há três discos sem títulos. Apenas o nome do artista e os volumes 1, 2 e 3. E um monte de clássicos instantâneos do nosso cancioneiro. Nem vou listar. São tantos!

Em 1970, o primeiro disco na Philips traz um Chico mais maduro. Agora, falando sério. Tem Samba e Amor e Rosa dos Ventos.

Em 1971, Construção. Não há mais Chico Buarque de Hollanda. É só Chico Buarque. O bigode tira o ar de bom moço do artista. O Duprat do Tropicalismo arranja Construção, obra-prima com versos que terminam sempre em proparoxítonas. E tem Cotidiano e Olha Maria e Desalento e Valsinha.

A década de 1970 é a mais criativa. Nas canções de protesto contra a ditadura, nas experiências com teatro e cinema, nos versos escritos no feminino, no encontro com Caetano em Salvador, na temporada com Bethânia no Canecão. Quando o Carnaval Chegar, Calabar, Meus Caros Amigos, o Chico Buarque de 1978, Ópera do Malandro.

A década de 1980 tem Vai Passar nos estertores da ditadura militar. Monumental samba-enredo da parceria com Francis Hime. Tem o início da parceria com Edu Lobo em O Grande Circo Místico. Chico “entorta” seu jeito de compor, há menos clássicos instantâneos. O frescor da juventude dá lugar ao homem com mais de 40.

A sensibilíssima homenagem aos artistas que, como ele, fazem grande a música popular brasileira, vem na primeira metade dos anos 1990. Paratodos. “Meu mastro soberano foi Antônio Brasileiro”.

Nos últimos 25 anos, Chico escreve um livro, grava um disco e faz uma turnê. Sempre nessa ordem. No palco, seu reencontro com o público é intenso. Vimos no ano passado.

Chico Buarque está na estrada há mais de 50 anos. Ele é um gigante do MPB.

Paul McCartney faz 77 anos. Vamos ouvir Pure McCartney?

Paul McCartney faz 77 anos nesta terça-feira (18).

Vamos ouvir Paul?

Sugiro a compilação Pure McCartney.

O mercado de discos está repleto de coletâneas. A qualidade delas muitas vezes depende de um conceito. “O melhor de…” não é o suficiente para tornar atraente uma compilação.

Vejamos o caso de Paul McCartney.

Pure McCartney (caixa com quatro discos, versão simplificada no Brasil com dois CDs) teve o próprio Paul como curador. O conceito é dele: uma seleção para ouvir no carro durante uma longa viagem, em casa num final de tarde ou numa festa com os amigos.

O conceito é banal. Poderia ser outro: um extenso painel do cancioneiro solo de Paul McCartney montado por ele.

Mas o fato é que Pure McCartney desmente um pouco essa tese de conceito. As canções são tão boas que a coletânea se torna irresistível.

Uma das virtudes é que Sir Paul misturou lado A com lado B. Fora da ordem cronológica, canções menos óbvias se fundem aos grandes sucessos numa sequência de 39 números (na edição brasileira). Eles confirmam McCartney como um dos melhores do seu tempo quando o assunto é o artesanato da canção.

E fazem de Pure McCartney um excelente songbook.