São João de Campina Grande é adiado. Devia ter sido cancelado

Nesta segunda-feira (23), a Prefeitura de Campina Grande anunciou o adiamento do São João da cidade.

A festa seria realizada de cinco de junho a cinco de julho.

Foi adiada por causa da pandemia do novo coronavírus.

Uma outra data foi anunciada.

A Prefeitura pretende fazer o São João entre nove de outubro e oito de novembro.

Minha opinião?

Devia ter sido cancelado.

Vou justificar com um verso de Caetano Veloso:

PRAIAS, PAIXÕES FEVEREIRAS

NÃO DIZEM O QUE JUNHOS DE

FUMAÇA E FRIO

Câncer gay, AIDS, Covid-19, gente famosa e anônima infectada

Ando lembrando da AIDS em seus primeiros tempos.

Na imprensa, os registros iniciais davam conta da existência de um câncer gay. Quando o nome AIDS já fora adotado, em alguns havia um entendimento: você só pega se for gay. Se não for, não tem perigo. Depois, compreenderam todos que o problema não era grupo de risco, mas comportamento de risco.

Estar infectado era uma sentença de morte. Mas era possível evitar, pensávamos. Bastava fazer sexo seguro. Ou não compartilhar seringas no uso de drogas injetáveis. Havia, porém, um problema: as transfusões de sangue, sobre as quais ainda não se tinha o necessário controle. O cartunista Henfil e seu irmão músico Chico Mário, hemofílicos, estavam entre os primeiros não anônimos que o Brasil perdeu.

Ali, em meados dos anos 1980, como eu, muitos se perguntavam sobre quando a AIDS nos privaria de gente famosa que admirávamos. Também sobre quando morreriam os anônimos próximos a nós, um parente, um amigo. Na TV Cabo Branco, a repórter Ruth Avelino foi a primeira a entrevistar um paciente. Ele, um jovem ator de teatro, contou tudo, mas não quis mostrar o rosto. Morreu pouco depois, vencido por um severo quadro infeccioso.

Lauro Corona, galã das novelas da Globo, morreu rapidamente. Cazuza, ídolo do rock nacional da década de 1980, ainda travou longa batalha contra o vírus, enquanto gravava discos e fazias turnês. Rock Hudson talvez tenha sido a primeira celebridade mundial a morrer em consequência do HIV. Freddie Mercury, o maravilhoso cantor do Queen, se foi um pouco mais tarde.

Não pretendo estabelecer o que não existe, semelhanças entre as duas doenças – a AIDS e a Covid-19 -, mas, ao menos num aspecto, esta de agora está me remetendo àquela de três décadas e meia atrás: no temor de vermos as pessoas de quem gostamos – famosas ou anônimas – infectadas pelo vírus.

Dias atrás, pensei em escrever algo sobre esse tema, mas fui vencido pela velocidade da pandemia. Horas depois, soube que Tom Hanks estava infectado, junto com a mulher dele. Hanks, celebridade em escala planetária, grande e querido ator, fora contaminado e se colocara em quarentena, à espera da evolução da doença.

*****

Ninguém, com o mínimo de bom senso, pode dizer “bem feito!” ou “eu acho é pouco!”. Ninguém, com o mínimo de bom senso, pode desejar que as pessoas contraiam a Covid-19. Mas a verdade é que, no Brasil, no centro do poder, estamos diante de um caso extremamente didático e profundamente irônico.

Refiro-me ao que ocorreu com os que acompanharam (comitiva e pessoal de apoio) o presidente Jair Bolsonaro em recente viagem aos Estados Unidos para um jantar com Donald Trump. Naquele grupo, já há mais de duas dezenas de infectados a desmentir o presidente que, irresponsavelmente, classificou a pandemia do novo coronavírus como uma fantasia. Também falou em histeria e superdimensionamento.

Os infectados da comitiva presidencial deveriam ter dado a Bolsonaro a real dimensão do problema que o mundo enfrenta. Mas isso não ocorreu. Incapaz de comandar o país, irrecuperável nas bizarrices e na incontinência verbal, incurável no seu ultradireitismo, o presidente continua tratando a Covid-19 como uma gripezinha, enquanto chama o governador João Doria, que parece estar fazendo a coisa certa em São Paulo, de lunático.

Os que creem dirão: Deus tenha piedade de nós!

Sonífera Ilha é um pop bobinho que todos nós adoramos

Foi mais ou menos assim:

Stevie Wonder disse a Gilberto Gil que não gostava muito de I Just Called to Say I Love You.

Achava banal a canção.

Gil, que verteu a música de Wonder para o português, respondeu: Essas é que são as boas.

Lembrei dessa conversa vendo/ouvindo o vídeo oficial da nova versão de Sonífera Ilha, sucesso que lançou os Titãs três décadas e meia atrás.

Em 2020, Sonífera Ilha volta com os Titãs em formato de trio acústico, num vídeo em que o grupo paulistano tem o auxílio luxuoso de amigos e amigas (lá está Fernanda Montenegro!).

É um pop bobinho, bem bobinho, talvez mais banal do que a canção de Stevie Wonder. Mas está colado aos nossos ouvidos desde meados dos anos 1980.

Está bem guardado na nossa memória afetiva.

E todos nós adoramos.

Kenny Rogers morreu. Fez muito sucesso com country estilizado

Morreu o cantor americano Kenny Rogers.

Tinha 81 anos e estava doente há algum tempo.

Sua turnê de despedida, iniciada em 2016, foi interrompida por causa dos problemas de saúde.

Kenny Rogers fez muito sucesso.

Sua música era classificada como country.

Mas, convenhamos, era um country pra lá de estilizado.

Fiquemos como um pouco de Rogers.

Eduardo Bananinha é pura ironia do general Hamilton Mourão

Foda-se a China!

Foi o que li na noite desta quinta-feira (19) nas redes sociais.

O autor do post pode ser um bolsonarista surtado.

Li também que a China vai ter que pagar pelo que fez com o mundo.

Aí já não está muito longe do que disse Eduardo Bolsonaro, o Zero Três do presidente Jair Bolsonaro.

O embaixador da China no Brasil jogou duro, mas reagiu à altura.

Disse o que era preciso ser dito.

Disse o que Eduardo Bolsonaro merecia ouvir.

O filho “intelectual” do presidente não pode atacar a China, um país amigo e grande parceiro comercial do Brasil, do jeito que ele fez.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, agiu certo. Desculpou-se em nome da casa legislativa que preside.

O chanceler Ernesto Araújo, como de costume, agiu errado. Sugeriu que o diplomata chinês precisa pedir desculpas a Eduardo.

Mas nada se compara ao comentário feito em rede social pelo general Hamilton Mourão, o vice:

O problema é que Eduardo é Bolsonaro.

Se fosse Bananinha, não haveria problema algum.

Tá certo, Mourão.

Eduardo Bananinha.

Danado é que isso pega!

Desculpem, mas acho uma graça arrependido de voto em Bolsonaro

Juca Kfouri disse que os arrependidos são bem-vindos.

Falava dos que votaram em Jair Bolsonaro e agora acham que não deveriam ter votado.

É um comportamento nitidamente cristão o do jornalista, e às vezes não é fácil ser cristão.

Ou, então, é politicamente estratégico o que Kfouri escreveu.

Não sei.

Tenho dificuldade de assimilar certos arrependimentos.

O de Lobão, por exemplo.

Lobão pode ser louco, mas burro ele não é.

E é o cara que fez Me Chama.

Na noite da vitória de Bolsonaro (28 de outubro de 2018), o roqueiro apareceu num vídeo diante de um caixão.

Comia mortadela e ridicularizava a Lei Rouanet.

Era o velório do PT.

Ou da esquerda brasileira.

Era uma comemoração pela vitória de Bolsonaro.

Uma cena absurda, imperdoável, somente compatível com o pior do ultradireitismo nacional e com os mais mesquinhos sentimentos de ódio.

Agora, Lobão anda dizendo que está arrependido de ter votado em Bolsonaro.

Não devia.

Devia ter usado a sua inteligência para não ter votado.

Lembro disso agora por causa de outros arrependimentos, mais recentes.

O do governador João Doria.

O da deputada Janaína Paschoal.

Gente como Lobão, Doria, Janaína – essa gente elegeu Bolsonaro, colocando o Brasil num impasse cuja saída ainda não vislumbramos.

Desculpem, mas acho uma graça que estejam arrependidos!

Elis Regina 75 anos. Quem ainda ouve a maior cantora do Brasil?

Se estivesse viva, Elis Regina faria 75 anos nesta terça-feira (17).

Ela morreu em janeiro de 1982, pouco antes de completar 37.

É quase uma unanimidade: foi a maior cantora popular do Brasil.

Será que a voz de Elis resistiu a esses quase 40 anos que nos separam da sua morte?

Será que seus discos resistiram bem à ação do tempo?

Qual o legado de Elis Regina?

Um retrato datado do Brasil em que ela viveu?

Ou um cancioneiro que continua vivo por sua própria qualidade e pela força da intérprete?

Quantos dos seus contemporâneos ainda ouvem os discos de Elis?

E aos jovens, o que é que ela diz?

No dia em que Elis faria 75 anos, vamos reouvir seus discos?

Selecionei 10.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com Arrastão. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem Reza e Menino das Laranjas.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba Madalena, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para Águas de Março.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em Águas de Março é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba O Bêbado e a Equilibrista, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem Canção da América.

Globo News dá aula de jornalismo. Bolsonaro, de irresponsabilidade

Neste domingo (15), a Globo News dedicou sua programação noturna a um especial sobre o coronavírus.

Foram seis horas com sinal aberto.

Uma aula de jornalismo ministrada pela equipe do canal de notícias da Rede Globo.

Guiados pelas paixões ideológicas, muitos reclamam, mas os que fazem a Globo News têm se mostrado imbatíveis.

Não é coincidência.

O especial foi produzido para ir ao ar no momento em que a CNN chegou ao Brasil.

Na minha opinião, para além da importância do seu conteúdo e do serviço que prestou, o programa da Globo News fez eloquente contraponto ao que vimos no início da tarde do domingo.

Sim. Refiro-me ao presidente Jair Bolsonaro, que saiu do isolamento a que estava recolhido no Palácio da Alvorada para um encontro com apoiadores/manifestantes reunidos em frente ao Palácio do Planalto.

Tive a paciência jornalística de acompanhar a sua live. Pouco mais de 70 minutos.

Não posso dizer que foi inacreditável porque nada que vem de Bolsonaro pode ser considerado inacreditável.

O presidente testa os seus limites e os da democracia brasileira e avança, a cada dia, rumo ao desconhecido.

Ontem, colocou em risco a sua saúde e a saúde das pessoas de quem se aproximou.

Ao minimizar a pandemia do coronavírus, desautorizou Henrique Mandetta, que, por enquanto, à frente do Ministério da Saúde, parece estar conseguindo fazer um trabalho sério de enfrentamento à doença.

Para onde Bolsonaro está indo?

Para onde ele está nos levando?

Quem vai contê-lo?

Neste domingo, se a Globo News deu aula de jornalismo em seu especial sobre o coronavírus, o presidente Jair Bolsonaro deu aula de irresponsabilidade.

Collor, Zélia, Lula, Chico Mendes e Paul McCartney no Maracanã

15 de março de 1990.

Posse de Fernando Collor, o primeiro presidente eleito pelo povo desde Jânio Quadros.

16 de março de 1990.

Anúncio do Plano Collor, que incluía o traumático confisco da poupança dos brasileiros.

Lá se vão exatos 30 anos nesta segunda-feira 16 de março de 2020.

21 de abril de 1990.

Paul McCartney fazia o último dos seus dois shows no Rio de Janeiro, em sua primeira vez no Brasil.

Havia 180 mil pessoas no Maracanã, número que foi parar no Guinness Book.

Especulava-se que o presidente Collor iria. Não foi.

Quem estava lá era a ministra Zélia Cardoso de Mello, da Fazenda, vaiada ao chegar à tribuna de honra do estádio.

McCartney havia gravado, no seu disco mais recente, uma canção dedicada a Chico Mendes, líder dos seringueiros e ambientalista brasileiro assassinado em dezembro de 1988.

How Many People não estava no set list do Maracanã, mas, no meio do show, McCartney falava um pouco sobre o seu compromisso com a defesa dos animais e do meio ambiente.

A fala terminava com um brado do músico: Chico Mendes!

A plateia reagiu cantando:

Olê, olê, olê, olá! Lula! Lula!

Lula, quatro meses antes, fora derrotado na disputa eleitoral por Collor.

Em 1990, ele ainda não tinha a dimensão internacional que conquistaria depois, e McCartney, muito provavelmente, não entendeu o que a multidão cantava.

Pode ter parecido apenas um desses “gritos de guerra” entoados nos estádios de futebol.

Para mim, foi um sinal claro de que o confisco da poupança já levara parte da popularidade do presidente empossado há pouco mais de um mês.

30 anos se passaram, e cá estamos nós às voltas com mais um impasse brasileiro.

Globo também quer saber quem mandou matar Marielle Franco

Neste sábado (14), faz dois anos dos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

A partir desta sexta-feira (13), o Globoplay disponibiliza para seus assinantes a íntegra da produção jornalística Marielle, O Documentário.

São seis episódios. O primeiro foi exibido pelo canal aberto da Globo na noite desta quinta-feira (12).

Quem matou Marielle?

Quem mandou matar Marielle?

Quais os motivos que levaram à execução de Marielle?

São as perguntas básicas feitas a partir de 15 de março de 2018, o dia seguinte ao crime, quando a notícia alcançou dimensão nacional e internacional.

Estamos entre a civilização e a barbárie.

Ao realizar esse documentário, a Globo fica com a civilização – afirmam os realizadores da série.

Dias atrás, quando foi feito o anúncio de Marielle, O Documentário, uma polêmica invadiu as redes sociais.

É que, simultaneamente, a Globo revelou que, em 2021, abrirá espaço em sua teledramaturgia para contar a história de Marielle Franco.

A escolha do cineasta José Padilha, de Tropa de Elite e O Mecanismo, para dirigir a série foi muito questionada pela esquerda.

Padilha é branco, Padilha é fascista – foi o que mais se ouviu.

Gritaram muito contra Padilha, mas deixaram de fora (uns por ignorância, outros por má fé) a informação de que a série será escrita por Antonia Pellegrino.

Quem é Antonia Pellegrino?

É a companheira do deputado federal Marcelo Freixo, do PSOL do Rio.

É preciso dizer algo mais?

Nesse Brasil polarizado de hoje, os dois extremos são contra a Globo.

A ultradireita está no poder, e o seu lado não é o da civilização.

E a esquerda parece não entender o quanto é importante que a Globo, com suas virtudes e seus defeitos, se debruce sobre a história de Marielle Franco.