Cineasta que filmou Beatles e Stones é filho de Orson Welles

Michael Lindsay-Hogg.

Pouca gente sabe quem é ele.

Menos ainda que é filho de Orson Welles com uma atriz com quem o diretor de Cidadão Kane teve um relacionamento.

O cineasta Michael Lindsay-Hogg não tem uma obra relevante, mas colocou seu nome junto de gente muito importante do mundo da música popular.

Beatles e Rolling Stones. Simplesmente.

Lindsay-Hogg dirigiu Let It Be, documentário que registrou o fim dos Beatles.

As filmagens, em janeiro de 1969, incluíram o último show que o grupo realizou.

Um pouco antes, em dezembro de 1968, Michael Lindsay-Hogg dirigiu Rock and Roll Circus, uma maratona de shows comandada pelos Rolling Stones.

A filmagem não agradou à banda e ficou inédita até 1996.

Tem indiscutível valor histórico por reunir, além dos Stones, John Lennon, Eric Clapton e The Who.

Mais tarde, em 1981, já na era do VHS, vamos encontrá-lo dirigindo The Concert in Central Park, que documentou o reencontro da dupla Simon & Garfunkel num fabuloso show em Nova York.

Michael Lindsay-Hogg, quando fez televisão, foi pioneiro do promo, espécie de “pai” do videoclipe.

O cineasta dirigiu os Beatles e os Rolling Stones em vídeos promocionais tais como os de Revolution (Beatles) e Jumping Jack Flash (Stones).

Quem vê esses dois vídeos reconhece a assinatura do diretor.

Se não bastasse, o cara, hoje com 78 anos, ainda é filho de Orson Welles!

Morre Sérgio de Carvalho, produtor de grandes discos da MPB

Morreu Sérgio de Carvalho.

Produtor de grandes discos da MPB, ele tinha 68 anos.

A causa da morte não foi divulgada pela família.

Sérgio de Carvalho queria ser músico.

Na década de 1960, tocou bateria em grupos amadores, mas não seguiu o caminho dos irmãos Dadi e Mu, que se tornaram instrumentistas profissionais.

A música, no entanto, ficou na vida de Sérgio.

A partir da década de 1970, ele se transformou num requisitado produtor de discos.

Primeiro, na velha PolyGram.

A produção dos álbuns Meus Caros Amigos e Chico Buarque 1978 tem a assinatura dele.

Da PolyGram, Sérgio de Carvalho foi para a Sony, depois para a BMG.

Em 1986, dirigiu, na TV Globo, a série de programas Chico & Caetano, que reuniu o primeiríssimo time da música popular brasileira em especiais exibidos uma vez por mês.

Atualmente, estava na Universal Music.

Djavan chega aos 70 anos como um dos grandes nomes da MPB

Em meados dos anos 1970, a Globo exibia a publicidade do disco de estreia de Djavan, que era contratado da Som Livre. Muita gente identificava nele algo dos sambas de Gilberto Gil.

O disco não aconteceu. O compositor alagoano esperou alguns anos até conquistar de fato dimensão nacional.

As coisas foram ocorrendo aos poucos.

Em 1978, Maria Bethânia gravou Álibi. A canção deu título a um dos discos mais populares dela.

Djavan trocou a Som Livre pela EMI e lá gravou três álbuns. No terceiro, Seduzir, já era reconhecido como um novo talento pelo público e pela crítica.

Nova troca de gravadora. Na Sony, começou com o LP Luz, gravado nos Estados Unidos com a participação de Stevie Wonder na faixa Samurai.

Àquela altura, início dos anos 1980, começava a figurar entre os grandes da MPB e lotava os lugares por onde passava em turnê.

Seus sambas realmente tinham muito dos sambas de Gil.

Sua música era melódica e harmonicamente sofisticada e trazia as marcas de um letrista inspirado.

Havia mais: a intimidade com o violão, a beleza da voz e o domínio do scat.

Djavan tinha o perfil do artista que fazia sucesso em seu país e chamava a atenção de músicos americanos, sobretudo os do jazz e áreas afins.

Ao longo dos anos, fazendo mais ou menos sucesso, ele construiu um repertório sólido que o inseriu no primeiro time da música popular brasileira.

Aos 70 anos, completados neste domingo (27), Djavan oferece ao seu público um disco primoroso (Vesúvio). As novas canções trazem toda a beleza da sua assinatura.

CD com Natalie Dessay é belo songbook de Michel Legrand

Michel Legrand morreu aos 86 anos.

Era um dos maiores compositores de música popular do mundo, sem qualquer exagero.

Um leitor me pede uma sugestão: Legrand em um disco.

Faço uma escolha pouco óbvia:

Entre elle et lui – Natalie Dessay sings Michel Legrand.

Esse disco foi lançado há cinco anos.

Legrand ao piano (e cantando um pouco), + contrabaixo e bateria, recebe Dessay para um reencontro com seu repertório.

É uma espécie de songbook que, em 18 faixas, reúne, basicamente, música composta para cinema.

Les Demoseilles de Rochefort, Les Parapluies de Cherbourg, Peau d’Ane, The Thomas Crown Affair, Summer of 42, Yentl. Está tudo no CD, que foi lançado no Brasil pela Warner Classics.

Entre Elle et lui é um disco de belíssimos clássicos do popular revisitados com uma pegada jazzística.

Superb!

Legrand foi um dos maiores nomes da música popular do mundo

Morreu o compositor francês Michel Legrand, um dos mestres da música escrita para cinema.

Ia fazer 87 anos em fevereiro.

A causa da morte não foi revelada.

No anos 1960, quando quis dizer que Antônio Carlos Jobim era o maior compositor popular do mundo, Vinícius de Moraes perguntou:

Quem são os outros?

Henry Mancini?

Michel Legrand?

Havia mais (Ellington, Rota), porém, ao juntar Jobim, Mancini e Legrand, Vinícius não só confirmou o tamanho do parceiro, como falou da dimensão extraordinária dos outros dois.

Lembro disso agora que leio a notícia da morte de Michel Legrand.

Foi um gigante, onde quer que tenha posto o seu talento.

O maior legado é, certamente, a música que compôs para o cinema, o território que também lhe deu mais reconhecimento.

Era, a rigor, um maestro, um músico de formação erudita a serviço de temas populares. Peças instrumentais, canções – não importa, as pequenas joias que escreveu para os filmes estão na memória de milhões de pessoas pelo mundo. Gente que nem sabe quem é o autor daquelas músicas.

Legrand trabalhou com os homens do jazz, flertou com a música que os brasileiros produziram a partir da Bossa Nova. Tocava piano, cantava lindamente.

Sabia ser complexo e simples ao mesmo tempo. Era refinado e pop.

Michel Legrand foi um dos maiores compositores de música popular do mundo.

Zé Ramalho sintetiza no palco quatro décadas de sucesso

O CD (duplo) e o DVD (simples) se chamam Zé Ramalho na Paraíba.

O título dialoga com Zé Ramalho da Paraíba, como Zé foi chamado há mais de quatro décadas, no período em que batalhava para conquistar dimensão nacional.

O registro de áudio e vídeo foi feito em maio do ano passado no Teatro A Pedra do Reino, em João Pessoa.

Nesta sábado (26), às 21 horas, Zé Ramalho e sua banda voltam ao Pedra do Reino para lançar o CD e o DVD com este show que celebra 40 anos de carreira do artista.

Confira o set list (provável) do show:

O que é, o que é?
Tá tudo mudado
Kryptônia
Beira-mar
Entre a serpente e a estrela
Táxi lunar
A terceira lâmina / Banquete de signos
Eternas ondas 

Avôhai
Vila do sossego
Chão de giz
Garoto de aluguel
Admirável gado novo
Frevo mulher
Sinônimos
A vida do viajante

No Aniversário de Jobim, o Maestro Soberano década a década

Se estivesse vivo, Antônio Carlos Jobim faria 92 anos nesta sexta-feira (25).

Vamos revisitá-lo década a década?

Anos 1950

O Tom que o Brasil e o mundo conheceram começa quando, em 1956, nasce a parceria com Vinícius de Moraes em Orfeu da Conceição. Uma bela síntese do que fizeram está no disco Canção do Amor Demais, de Elizeth Cardoso, lançado em 1958. Em duas faixas, o violão de João Gilberto oferece o esboço da Bossa Nova. Em seguida (1959), Chega de Saudade, o LP de João arranjado por Jobim, reinventa o samba e muda para sempre a música popular brasileira.

Anos 1960

A Bossa Nova projeta internacionalmente a música brasileira. Gravado nos Estados Unidos, o primeiro disco de Jobim (The Composer of Desafinado Plays) parece um greatest hits. O LP Getz/Gilberto divulga Garota de Ipanema, de Tom e Vinícius, em escala planetária. Frank Sinatra grava um disco com Jobim, que, no Brasil, é vaiado porque seu protesto político (dividido com Chico Buarque) não é tão explícito quanto o de Geraldo Vandré.

Anos 1970

Na virada dos 60 para os 70, Tom faz discos nos quais predominam os temas instrumentais. Depois vem o seminal Matita Perê (1973). O maestro grava Águas de Março, verdadeira obra-prima do seu cancioneiro. É um popular que dialoga com o erudito, sob a batuta de Claus Ogerman. Fala em ecologia antes que a palavra fosse moda, chama de Urubu seu novo disco. Passa um ano em cartaz com Vinícius, Toquinho e Miucha, no palco do Canecão.

Anos 1980/90

Mundialmente consagrado, nem sempre reconhecido com justiça no Brasil. Forma a Banda Nova, o grupo que divide palcos e estúdios com Tom em sua última década de vida. Seus shows pelo mundo e seus derradeiros discos (Tom Jobim InéditoPassarim, Antônio Brasileiro) são uma celebração da grande música que criou. Revistos e reouvidos hoje, confirmam o seu extraordinário legado, a infinita beleza e a permanência da sua obra.

*****

Nascido em Nova York, George Gershwin, mestre da música americana, fez do jazz uma de suas fontes. Nascido no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Jobim se debruçou sobre o samba, grande expressão da música popular do Brasil. Sua versão do samba carioca é, a um só tempo, popularíssima e (harmônica e melodicamente) complexa. Como nas outras “praias” que visitou. Modinha, valsa, toada, baião, frevo – há uma marca de excepcional qualidade em tudo o que fez.

Mas há, sobretudo, o amor à música e uma crença singular nos destinos do Brasil!

Viva o Maestro Soberano!

PROIBIDO O CARNAVAL!

Já está nas plataformas digitais a música de Caetano Veloso e Daniela Mercury para o carnaval 2019.

Proibido o Carnaval é o título.

É uma deliciosa provocação a essa onda ultraconservadora que atinge o Brasil.

Vamos ouvir?

A bela música de um belo filme sobre cinema. Vamos ouvir?

O título:

Grand Choral de La Nuit Americaine.

O autor:

Georges Delerue.

Essa música é bonita demais!

Está guardada na minha memória afetiva há 45 anos.

Parece uma peça barroca, mas é música contemporânea.

Vamos ouvi-la?

Dura pouco mais de dois minutos.

O filme em que a música é ouvida:

A Noite Americana. La Nuit Americaine. Day for Night.

É sobre cinema. Conta a história de uma filmagem num estúdio na França.

François Truffaut é o diretor do filme de verdade e do filme dentro do filme.

O diretor da ficção sonha com o dia em que, garoto, roubou as fotos de Cidadão Kane de um cartaz de cinema.

O diretor da vida real veio da crítica e foi um dos artífices da Nouvelle Vague.

A Noite Americana é uma declaração de amor de um homem pelo seu ofício.

Totonho vai da matriz centenária do samba até o funk carioca

A alma anda roubando o alimento do corpo

Tem mais igreja do que supermercado

As primeiras notas do cavaquinho e as batidas iniciais da percussão sugerem que vamos ouvir uma marcha-rancho.

Mas não é isso. Logo, o violão de sete cordas revela que estamos diante de um samba bem carioca.

Parece um samba de sempre com uma letra de hoje – se é que me faço entender.

“Ela é a rainha do sistema/Ela é ninja e a vibe é arengar” – canta Totonho na faixa de abertura do seu novo CD.

Samba Luzia Gorda é um disco de sambas? Sim e não.

Seria, então, um disco de transambas? Quem sabe?

Prefiro dizer que é um trabalho de muitas conexões.

Vem do vínculo estabelecido por esse cara que saiu da Paraíba e foi morar no Rio. Do diálogo dele com a música e os músicos de lá e da relação que estabeleceu com a cidade.

Samba Luzia Gorda flagra Totonho percorrendo um longo caminho que vai da matriz centenária do samba até o funk carioca.

Seu disco é sobretudo muito (muitíssimo!) contemporâneo.

O CD, que começa com um samba e termina com um funk, confirma mais uma vez o talento que Totonho exibe desde que apareceu, há uns 30 anos, naqueles festivais que o Sesc realizava em João Pessoa.

Ele é muito bom de música e de letra e sabe juntar os dois elementos.

Samba Luzia Gorda é um disco inteiro num tempo de poucos discos inteiros.

Você ouve todo. E gosta do todo. Das músicas, das letras incríveis, da concepção dos arranjos, de como os gêneros são abordados.

De Judialva. De O Samba. De A Carioca. De Minha Gatinha Não. De Tem Mais Igreja do que Supermercado. De Amassar a Lataria.

Totonho e Os Cabra.

Totonho e seus convidados (André Abujamra, Quinteto da Paraíba, Moreno Veloso, Otto, etc.).

Totonho no samba.

Totonho no funk.

Totonho onde ele quiser.

Ele diz o que é preciso dizer a quem ouve o que é bom de se ouvir.