Vladimir Carvalho debate cinema e cineclubismo na FCJA

O cineasta Vladimir Carvalho chega nesta quarta-feira (07) a João Pessoa para dois compromissos na Fundação Casa de José Américo.

A Fundação comemora os dois anos do cineclube O Homem de Areia, que é o nome do documentário de Vladimir sobre José Américo de Almeida. O presidente da FCJA, Damião Ramos, disse que a comemoração, mais do que festiva, será cultural e histórica.

Nesta quarta, as sete e meia da noite, será exibido o filme A Juventude, de Paolo Sorrentino. Em seguida, Vladimir Carvalho e o psicanalista Luis Andrade debatem o filme.

Na quinta-feira (08), às nove e meia da manhã, será exibido o curta Diálogo de Vladimir Com Zé Américo e o Cinema. Depois, o documentarista participa de uma mesa redonda sobre cinema e cineclubismo na Paraíba.

Vladimir Carvalho é um artista que orgulha a Paraíba. E uma grande figura humana. Tê-lo por perto é sempre uma alegria!

Maysa, tristezas e desamores

Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel, é uma das mais belas canções do mundo. Tem dezenas de registros em vários idiomas.

A gravação de Maysa é prova inconteste de que a brasileira é uma intérprete extraordinária, que seria reconhecida como grande cantora em qualquer lugar do mundo.

Os olhos? A boca? Os cabelos? Quem é essa mulher?

Alguém tenta desvendá-la a partir dessas perguntas num texto que li.

Sim! Os olhos! A boca! Os cabelos! Certamente! Mas, sobretudo, a voz!

A voz e o que ela traduz: as tristezas, a angústia, os desamores.

Maysa é de uma linhagem à qual pertencem Billie Holiday, Edith Piaf, Janis Joplin, Elis Regina, Amy Winehouse. Cada uma no seu lugar,  no seu tempo e com seus talentos específicos.

Sua carreira, a rigor, não deu certo. Sua vida não deu certo. Maysa foi consumida pela solidão e pelo álcool. Quando morreu, aos 40 anos, tinha uma trajetória de duas décadas e estava em declínio.

Faria aniversário nesta terça-feira (06). Seu canto está acima do bem e do mal!

Elba aposta em delicadeza e elegância com quem não merece

Elba Ramalho divulgou um texto em que se dirige ao prefeito de Campina Grande.

Explicou a entrevista dada em Pernambuco sobre a descaracterização do São João.

O tom é conciliatório. Delicado, elegante.

Combina com as práticas dela. Também com o amor que tem à cidade.

Não me surpreende.

A manifestação da artista me remeteu ao artigo que, ontem (05), o jornalista Marcos Alfredo, coordenador de comunicação da Prefeitura de Campina Grande, postou no Facebook, respondendo à fala de Elba em solo pernambucano. Texto grosseiro e deselegante que mais tarde ele tentou justificar. Depois, o próprio prefeito Romero Rodrigues se manifestou.

Sabem qual é a minha conclusão?

Elba foi delicada e elegante com quem não se mostrou merecedor.

Transcrevo o texto dela:

Campina Grande, você retém uma das mais belas e competentes festas juninas do Brasil. Sou muito feliz em estar todos os anos nesse palco que tantas emoções e alegrias já me trouxe.  
Minha fala em Caruaru não foi para criticar, senão reivindicar a participação de mais artistas regionais nas noites alegres do São João Campinense, uma festa caracterizada pelo forró. O forró que aprendemos com Seu Luis , Jackson do Pandeiro, Marinês, Dominguinhos e trios maravilhosos como o Trio Nordestino, Os 3 do Nordeste…
Essa é minha humilde opinião, pode não ser a sua, e em nada diminui a admiração que tenho pelos meus colegas sertanejos.Um peso para cada medida.
Aprendamos a respeitar as opiniões contrárias, sejamos gentis e educados na discordância. Poderia estar cantando em qualquer cidade do Brasil, mas finquei o pé em Campina e lutei para estar lá no dia 23.
Agradeço o esforço do prefeito Romero Rodrigues por sair em defesa de minha permanência nessa noite gloriosa de São João.
Minha gratidão e admiração! Sei da sua luta para manter a festa de pé em face a grande crise econômica que atravessamos. Não vamos mais polemizar, vamos festejar!

Rezei muito antes de escrever esse texto, pois costumo semear sempre nas vinhas do Senhor.
Meus sentimentos são sempre de paz e bem, não esqueçam, vocês sabem quem eu sou 
Deus no comando, tudo será como Ele quer que seja. 
QUE SÃO JOÃO ACENDA FOGUEIRAS DE AMOR NO NOSSO CORAÇÃO!
Paz&Bem!

Xuxa seduz garoto dentro do contexto de um filme

Recebi um vídeo com imagens de Amor, Estranho Amor.

Xuxa seduzindo um garoto no bordel de luxo onde se passa o filme de Walter Hugo Khouri.

O vídeo está editado. Sobre as imagens, foi colocada uma voz (de Xuxa?) gravada para uma campanha que alerta sobre a violência sexual praticada contra crianças e adolescentes.

De vez em quando, volto a esse filme do início dos anos 1980.

Sempre lamentei a luta de Xuxa para tirá-lo de circulação.

Melhor seria ter assumido que fez o filme. A então Rainha dos Baixinhos teria sido mais verdadeira. Não foi. Preferiu esconder.

Amor, Estranho Amor, ao mostrar uma adulta seduzindo um garoto, não está fazendo necessariamente a defesa da pedofilia.

O filme deve ser encarado como expressão artística. Foi realizado por um cineasta brasileiro importante que fez seus melhores filmes sobretudo nos anos 1960 e 1970.

Walter Hugo Khouri atuava em São Paulo, realizando filmes sofisticados que geralmente mostravam as angústias de um personagem chamado Marcelo. O personagem apareceu em muitos filmes, vivido por diversos atores. Era o alter ego de Khouri.

A “censura” acabou superdimensionando Amor, Estranho Amor. Virou um atraente fruto proibido.

Os baixinhos de ontem já devem tê-lo visto muitas vezes.

Elba e o São João de Campina. A versão de Marcos Alfredo

Elba Ramalho fez críticas à descaracterização do São João de Campina Grande.

Hoje (05) cedo, fiz uma postagem dizendo que ela está certa.

Mencionei o texto que o jornalista Marcos Alfredo postou no Facebook. Acho que ele foi grosseiro com Elba.

Marcos, que é coordenador de comunicação da prefeitura de Campina Grande, me enviou a posição dele.

Transcrevo:

Respeito demais sua posição, amigo! Mas continuo a achar que ela está mal informada, assim como você. Não se pode medir a dimensão cultural do Maior São João do Mundo a uma eventual grade artística de palco principal. Seria minimizar demais a festa de 30 dias, com as centenas de apresentações dos trios de forró contratados; com a beleza de um Sitio São João, de uma Locomotiva Forrozeira, de duas dezenas de eventos folclóricos, com a cidade cenográfica, com o Palco Parafuso, com a Casa de Cumpade, com a Casa de Gonzaga, com as quadrilhas juninas, com as comidas típicas oferecidas em estabelecimentos nas periferias da cidade, nos hotéis e restaurantes vários da cidade. Enfim, com uma série de opções que engrandecem a festa. Lamentavelmente, aposta-se na miopia de se enxergar apenas o que é conveniente como crítica. Respeito demais Elba como artista. Mas me permito, assim como ela, de ter uma opinião pessoal própria.

Elba está certa! Descaracterizaram o São João de Campina!

Em Pernambuco, Elba Ramalho falou da descaracterização do São João.

Elba está certa!

Descaracterizaram o São João de Campina Grande! Foi isso o que fizeram!

Li por aí, no final de semana, um texto elogiando a estrutura da festa, o palco, etc.

Não estamos falando disso!

Estamos falando de algo que tem a ver com regiões profundas do ser do Nordeste!

Vou tentar traduzir com poesia, já que a festa nasceu sob a inspiração de um poeta:

Como será pois se ardiam fogueiras

Com olhos de areia quem viu

Praias, paixões fevereiras

Não dizem o que junhos de fumaça e frio

É Caetano Veloso.

Depois da poesia, a realidade: o jornalista Marcos Alfredo postou no Facebook um texto defendendo a festa e criticando Elba Ramalho.

Vou resumir: está no papel dele, mas foi no mínimo deselegante com a artista.

Elba merece respeito!

Um livro para quem chama Fernando Gabeira de coxinha

Estou relendo O Que É Isso, Companheiro?. Edição da Estação Brasil.

No atual transe brasileiro, há coisas que me levam ao tempo em que o livro de Fernando Gabeira foi publicado.

Li pela primeira vez em 1979. Gabeira, que acabara de voltar do exílio, chocou a esquerda e a direita com seu discurso e sua tanga minúscula.

Desde a primeira leitura, quase quatro décadas se vão.

A impressão inicial, agora, é de que, se pensarmos na qualidade do texto e na sua estrutura narrativa, o livro resistiu muito bem à passagem do tempo. O Que É Isso, Companheiro? pode até ter sido escrito no calor da anistia e da volta dos exilados, mas não apenas para ser lido naquele momento. Ele se mantém como um dos livros essenciais para quem quer se debruçar sobre a história da ditadura militar brasileira.

Há qualidade literária no que Gabeira escreveu nesse primeiro volume da trilogia completada depois com O Crepúsculo do Macho e Entradas e Bandeiras. O jornalista de texto primoroso experimenta fazer literatura num livro que conta uma história verdadeira, narrada na primeira pessoa, mas o faz com uma certa “pegada” de obra de ficção. O que talvez explique a permanência do seu relato.

A esquerda que hoje chama Gabeira de coxinha não é diferente da que reprovou a sua tanga naquele verão de 1980. É uma esquerda reacionária, a despeito de ser jovem. Separadas por quase 40 anos, uma e outra, no fundo, não assimilaram as transformações que o autor enxergou ainda no exílio e trouxe na bagagem, na sua volta ao Brasil.

Uma e outra parecem incapazes da crítica e da autocrítica que há no que Fernando Gabeira escreveu. As suas reflexões, por trás da muitíssimo bem narrada história com começo, meio e fim, permanecem úteis e atuais.

Para mencionar somente um exemplo de dois dias atrás, que autocrítica pode haver numa esquerda cujo mais importante partido escolhe como presidente uma senadora ré, e é sob seu comando que marchará para a disputa de 2018?

Reler O Que É Isso, Companheiro? me faz pensar sobretudo nos jovens que chamam Gabeira de coxinha. Quantos já leram o livro?

Estão perdendo uma bela aula de história do Brasil!

Hugo Cabret e os que foram salvos pelo cinema

Revi A Invenção de Hugo Cabret.

Seguem algumas anotações a propósito do filme.

A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, me traz a lembrança de François Truffaut. Principalmente na cena em que o personagem central leva a menina para ver os filmes mudos. A alegria deles é como a da família desajustada de Antoine Doinel depois de uma ida ao cinema em Os Incompreendidos. O cinema salvou Truffaut de uma vida marginal do mesmo modo que tirará o garoto Hugo da miséria em que vive, escondido na estação de trem de Paris. Doinel e Cabret, em tempos diferentes, remetem ao universo de Dickens tanto quanto O Garoto, de Chaplin, que Scorsese mostra rapidamente no filme. Todos foram salvos pelo cinema. François Truffaut, Charles Chaplin, cuja infância em Londres não é diferente da dos personagens de Dickens. E Martin Scorsese, menino pobre em Nova York, vivendo a um passo do mundo do crime.

Hugo Cabret e Antoine Doinel se protegem do frio nas ruas de Paris. Um foge do bedel na estação. O outro, da repressão na escola. A Torre Eiffel é vista de longe. Parcialmente, sobre os telhados, em Os Incompreendidos. Inteira e iluminada, através do mostrador do grande relógio da estação, em A Invenção de Hugo Cabret. Truffaut começou pelo universo infantil e voltou a ele em O Garoto Selvagem e Na Idade da Inocência. Scorsese esperou pela velhice. E o fez estimulado pela filha de 11 anos, que lhe cobrou um filme que ela pudesse ver. Pais e filhos. Era o pai de Marty que o levava ao cinema na infância em Nova York. Era o pai de Hugo Cabret que o apresentava aos filmes em Paris. Quando ele conta isto à menina, quem está falando é Scorsese. Para sua filha pequena. Ou para nós, os espectadores.

É bom ver A Invenção de Hugo Cabret pensando nessas coisas, tentando percebê-las por trás da história que o filme narra. Claro que elas não são o essencial, mas constituem aspectos extremamente prazerosos neste tributo de Martin Scorsese ao seu ofício. Tomemos, por exemplo, o Alfred Hitchcock de Janela Indiscreta. O personagem imobilizado na cadeira, a observar a vida dos vizinhos. Pequenas histórias se desenvolvem sob seu olhar. Do mesmo jeito que em Hugo Cabret. O garoto vê através dos relógios. E lá estão as pequenas histórias. A do bedel com seu cachorro. A da florista que ele corteja. A da mulher solitária com seu cãozinho. A do homem que quer conquistá-la. Elas vão se desenvolvendo paralelamente à trama central. Scorsese também repete Hitchcock ao entrar na cena. Ele é o fotógrafo no estúdio de Méliès. Apenas por dois ou três segundos.

Martin Scorsese é um dos maiores cineastas do mundo. E um homem que pensa o cinema. A Invenção de Hugo Cabret é um grande Scorsese, belo e deslumbrante como a fantasia primitiva de Georges Méliès que ele evoca. Sem ela, o cinema não seria o que é. Uma imagem resume o salto, dos rudimentos à alta tecnologia: a que vemos o cenário de teatro ao fundo e o aquário jogado diante dos nossos olhos, graças à fotografia em 3 D. Àquela altura, os segredos do filme estão quase todos revelados. Mas seu encanto irá até o desfecho. Hugo Cabret se passa numa estação de trem. Por isto, faz recordar o cinematógrafo de Lumière. Mas o fantástico e o onírico conduzirão necessariamente à criação de Méliès. Como matriz do que temos quando vemos um filme como A Invenção de Hugo Cabret.

Capa do manifesto tropicalista faz homenagem ao Pepper

Nesta quinta-feira (01/06), faz 50 anos que os Beatles lançaram Sgt. Pepper, o disco mais importante da carreira deles.

Volto ao Pepper com uma lembrança: entre as muitas capas que tiveram o álbum dos Beatles como referência está a de Tropicália – Panis et Circencis.

O manifesto tropicalista foi lançado um ano depois do disco dos Beatles.

Os tropicalistas comandados por Caetano Veloso e Gilberto Gil também tinham o seu George Martin: era o maestro Rogério Duprat.

 

O que restou da crítica de cinema gosta mesmo é de blockbuster!

Andei lendo uns textos sobre a Mulher Maravilha.

Um deles me deu saudades da crítica de cinema.

Do tempo em que havia crítica de cinema.

A sessão de imprensa da Mulher Maravilha tinha até jornalistas, diz o cara que escreveu o texto. O que tinha mesmo era gente do mundo digital fazendo selfie no cartaz do filme.

O crítico de cinema é uma espécie em extinção, diz o texto.

Vejam o exemplo da Paraíba. Atualmente, só há um crítico de cinema em atividade. É João Batista de Brito, um professor aposentado com mais de 70 anos que publica no seu blog (Imagens Amadas) e depois compartilha no Facebook. Não estou exagerando: João escreve de acordo com o cânone da melhor crítica de cinema do mundo. Conhece o objeto da crítica, tem admirável domínio do texto, sabe fundir o olhar afetivo do cinéfilo que é com o saber acadêmico que tem. Sua crítica pode ser lida em qualquer lugar pelo leitor mais exigente.

No passado, tínhamos isso todos os dias nos jornais. Lembram? João Batista é “filho” desse tempo.

Abríamos o Jornal do Brasil e tínhamos a dupla Ely Azeredo e José Carlos Avellar!

Abríamos A União, aqui tão perto de nós, e tínhamos Antônio Barreto Neto!

Abríamos o Diário da Borborema e tínhamos o jovem (e já brilhante) Bráulio Tavares!

Quem leu Paulo Emílio e Truffaut e Moniz Vianna e Kael e Ebert, agora vai ler o quê?

Gente que prioriza o blockbuster, o super herói, a franquia!

É triste, mas foi o que restou!