Quinteto da Paraíba e Carlos Malta festejam Pixinguinha em JP

No ano passado, o Quinteto da Paraíba recebeu Xangai para dois concertos em João Pessoa. Foi a abertura da série Quinteto da Paraíba Convida.

O projeto prossegue hoje (13) e amanhã (14) às 21 horas, na Sala de Concertos José Siqueira, no Espaço Cultural, em João Pessoa. Dessa vez, o grupo paraibano recebe o músico Carlos Malta.

Na abertura, o quinteto executará a Suíte Sertaneja, de José Siqueira, escrita originalmente para violoncelo e piano e arranjada para o grupo por Adail Fernandes.

Vamos, então, ouvir o grande (e nem sempre lembrado) Siqueira na sala que tem o seu nome!

Depois, Carlos Malta sobe ao palco, e o concerto segue com Pixinguinha.

No programa, uma suíte chamada Pixinguinha Alma e Corpo, criada por Malta a partir de 10 músicas do mestre:

Naquele Tempo

Dininha

Lamentos

Oscarina

Proezas de Solon

Rosa

A Vida é um Buraco

1 x 0

Segura Ele

Carinhoso 

“Ficou elegante assim, com estilos variando entre choro, valsa, tango, polca”, me disse Malta.

Perguntei por Pixinguinha. E ele respondeu: “mentor espiritual”.

Carlos Malta vai tocar saxofones tenor e soprano, flauta baixo, picolo e flauta soprano.

Serão duas noites de grande música ao vivo.

Morreu Irene Stefânia, uma das musas do cinema brasileiro

Não posso deixar de registrar uma morte que foi mal noticiada.

Morreu Irene Stefânia. A atriz tinha 72 anos e estava hospitalizada desde dezembro, depois de sofrer um acidente vascular cerebral.

Quem viu o cinema brasileiro dos anos 1960 e 1970 sabe. Irene foi uma das musas da geração de Leila Diniz. Fome de Amor, Os Paqueras. Lembram? Ela está lá.

Filmes bons, filmes ruins. Não importa. O cinema possível no Brasil daquele tempo.

Fiquemos com a beleza e a juventude dela.

Teatro de Shakespeare, um tesouro da humanidade em sua casa!

Uma vez, há muitos anos, o professor Tarcísio Burity me convidou para ir à sua casa ouvir música erudita. No meio da audição, ele me mostrou uma caixa semelhante a essa:

Peguei na caixa e pensei:

Puxa, estou diante de um verdadeiro tesouro da humanidade! A obra completa de Mozart!

Sem essa obra, a humanidade seria menos humana, diria Otto Maria Carpeaux.

De Mozart para William Shakespeare.

Não vou escrever sobre Shakespeare. Não acrescentaria coisa alguma a tudo o que já foi dito sobre ele e sua obra.

Mas quero fazer dois ou três registros.

Meu primeiro contato com Shakespeare foi no final da infância, quando vi o Romeu e Julieta de Zeffirelli.

Gosto até hoje. O filme me levou a ler o texto. O livrinho de capa preta das Edições de Ouro trazia ainda Tito Andrônico, um completo lado B do autor, que li na adolescência.

Quem, então, me conduziu a Shakespeare foi o cinema.

O Hamlet de Laurence Olivier.

O Júlio César de Mankiewicz, com o Marco Antônio de Marlon Brando.

Filmes sugerindo leituras. Como deve ter ocorrido com muita gente.

Entre meus livros, edições avulsas. Uma peça aqui, outra ali. Nunca o conjunto.

Agora, me vejo diante desse box editado no Brasil pela Nova Aguilar para marcar os quatro séculos da morte de Shakespeare. O seu Teatro Completo em três volumes. Tradução de Barbara Heliodora, que sabia tudo do autor.

Quando incorporei o box aos meus livros, lembrei do professor Burity e sua coleção de Mozart.

E pensei:

O Teatro Completo de Shakespeare! Puxa! Estou diante de um tesouro da humanidade!

Nove músicas resumem rock brasileiro dos 80. Falta a Blitz!

Em 101 Canções que Marcaram o Brasil, de Nelson Motta, nove músicas resumem o rock brasileiro dos anos 1980. Quase dez por cento do total do livro.

É muito? Pode até ser, mas ainda faltou, pelo menos, Você Não Soube me Amar, da Blitz, que foi o primeiro grande sucesso do rock que os brasileiros produziram naquela década.

Confiram as escolhas:

Pro Dia Nascer Feliz – Barão Vermelho

Inútil – Ultraje a Rigor

Fullgás – Marina 

Me Chama – Lobão

Será – Legião Urbana

Alagados – Paralamas do Sucesso

Comida – Titãs

Brasil – Cazuza

Lanterna dos Afogados – Paralamas do Sucesso

Essas escolhas são pessoais e muito subjetivas. Nunca satisfazem. Mas a lista é boa.

Claro que podia ter a Blitz no lugar de duas músicas dos Paralamas. E a banda de Herbert Vianna poderia estar representada por Óculos e não por Alagados e Lanterna dos Afogados.

Mas, aí, a lista não seria de Nelson Motta! Seria minha!

Roque Santeiro – O Rock, uma música de Gilberto Gil, resume e homenageia o rock brasileiro da década de 1980.

Vamos ouvir?

Participante do The Voice Kids denuncia ofensas racistas

Domingo passado (08), Franciele Fernanda, uma garota de 14 anos, participou do The Voice Kids, programa da Rede Globo, cantando Maria Maria, de Milton Nascimento.

O número emocionou muita gente pela força da interpretação da menina.

Milton Nascimento usou as redes sociais para elogiar a performance: “você emocionou a todos nós”, disse o autor da canção.

Ao mesmo tempo, Franciele foi alvo de ofensas racistas: “essa neguinha não canta porra nenhuma”, alguém postou, comentando o desempenho dela no programa.

Nesta terça-feira (10), com a mãe ao lado, Franciele Fernanda foi à polícia prestar queixa contra quem a ofendeu.

Franciele fez o que deve ser feito. Racismo é crime! É uma prática abominável! E uma das muitas faces da intolerância que vemos crescer a cada dia!

De Obama a Trump. Da elegância de um à truculência do outro!

Nesta terça-feira (10) à noite, o mundo assiste ao último discurso do presidente Barack Obama. A pouco mais de uma semana da posse de Donald Trump.

A alternância de poder, tão necessária às democracias que conhecemos, permite que saiamos da elegância de um para a truculência do outro. Mas não sem riscos.

Os oito anos de Obama na Casa Branca deixarão saudades. O casal Obama deixará saudades.

Entre as muitas marcas do primeiro presidente negro dos Estados Unidos, há a admirável retórica. Algo que ele, mais uma vez, deve exibir na despedida desta noite.

Fecho com música: a imagem comovente de Obama cantando o spiritual Amazing Grace e desejando que os negros assassinados numa igreja encontrem a Graça!

Complemento com Joan Baez e sua versão de Amazing Grace.

“Eu era cego, mas agora eu vejo!”, diz a letra.

Não é preciso crer. Essa oração comove até os corações ateus!

Zé Américo nasceu há 130 anos!

Quando eu era criança, uma figura de dimensão nacional estava ali ao nosso alcance, bem perto de nós, no terraço da sua casa, no Cabo Branco.

Era José Américo de Almeida, o político, o escritor.

Eu ia à praia aos domingos, meu tio estacionava o Jeep em frente à casa dele e mostrava: lá está o homem que escreveu A Bagaceira!

Meu pai era dos comunistas que não gostavam de Zé Américo. Mas ele costumava dizer que havia os comunistas que gostavam. E citava sempre o amigo Vladimir Carvalho (na foto, com o irmão, Walter, filmando O Homem de Areia). Era bom. Eu ficava entre as virtudes e os defeitos do homem. Provocava meu senso crítico.

Vendo, agora, Zé Américo de longe, penso no quanto A Bagaceira é indispensável! E penso em A Paraíba e Seus Problemas. Tinha um na estante do meu pai. Os garotos de hoje, ricos de informação e pobres de conhecimento, certamente nem ouviram falar!

José Américo de Almeida! Tem a entrevista que derrubou a ditadura de Vargas! Tem o discurso a Prestes! Tem o enfrentamento da seca – as imagens, impressionantes, tive o privilégio de vê-las exibidas por quem as fez, o fotógrafo João Cordula! No tempo em que a Paraíba tinha um Cinema Educativo!

O Homem de Areia, o documentário de Vladimir Carvalho, está aí e pode apresentar Zé Américo a muita gente.

Nesta terça (10), faz 130 anos do nascimento de José Américo de Almeida.

David Bowie, no jazz, ficou parecido com Milton Nascimento

Hoje (10) faz um ano que o mundo da música foi surpreendido pela morte de David Bowie. Dois dias antes, Bowie tinha feito 69 anos e lançado Blackstar, um novo disco. Falou-se até em suicídio assistido. O artista tinha câncer no fígado, mas ninguém sabia que ele estava doente.

Em Blackstar, Bowie é acompanhado por músicos de jazz. Mas não é um disco jazzístico, como se disse inicialmente. Não! São músicos de jazz tocando Bowie!

Jazzística – aí, sim! – é Sue (Or In a Season of Crime), a faixa inédita da coletânea Nothing Has Changed, de 2014.

E com um dado muito curioso e atraente para nós, brasileiros. A melodia sinuosa da canção lembra muito Cais, de Milton Nascimento. E a sonoridade da gravação remete ao jazz e também a um certo experimentalismo que há em Milton.

Vamos, então, ouvir Bowie pensando em Milton? Não é plágio, não! Se não for coincidência, é Milton influenciando um gigante do pop como Bowie!

Meninos, eu vi Joan Baez de perto, e ela apertou minhas mãos!

Hoje (09) é aniversário de Joan Baez. 76 anos. Aproveito a data para contar como foi a noite inesquecível em que vi a musa da canção de protesto ao vivo.

“Cantei essa música em Woodstock, cantei para Martin Luther King, cantei ao redor do mundo. Agora, canto para vocês”. Foi o que Joan Baez disse antes de fazer “Swing Low, Sweet Chariot” para a plateia que lotou o Teatro Riomar, no Recife.

A fala traz a cantora e sua história para junto de nós numa noite mágica e inesquecível. Não mais a capela, como em Woodstock, agora com voz e violão, o spiritual pode resumir o que é ver Baez de perto. Grandeza e absoluta simplicidade. A sua dimensão projetada ali num concerto que dura pouco mais de uma hora. A voz de soprano, já com registros menos agudos, mas igualmente bela. O violão com suas cordas de aço e uma sonoridade muito familiar. A mesma que ouvimos através das décadas do nosso tempo. E continuamos a ouvir. Depois de todos esses anos.

Vi Joan Baez a três dias da data em que o golpe de 64 completa meio século. A coincidência tem uma força simbólica. Aos 73 anos, ela é parte dos sonhos e das ideias generosas de uma geração. A impossibilidade de realizá-los torna ainda mais bonito o seu recital. É uma evocação. Nostálgica, sim. Melancólica, por que não?

Baez, sua voz, seu violão, dois músicos, 21 canções. Dos spirituals ao Vandré de “Caminhando” ou ao nosso “Cálice”, que os censores impediram Chico e Gil de cantar em 1973. De Dylan a Lennon. Do folk de lá ao folk de cá, em “Muié Rendeira”. Mais a latinidade de “Gracias a la Vida”, que remete a Violeta Parra, Mercedes Sosa e Elis.

Fiz com Joan Baez o que nunca havia feito em tantos anos de amor à música e de muitos shows ao vivo. Na reta final do programa, corri para a beira do palco e me pus a fotografá-la com o celular. Olhei nos olhos dela, contemplei as expressões do seu rosto e os movimentos da sua boca em “Imagine” e “Blowin’ in the Wind”. Também no spiritual “Amazing Grace”, feito a capela com as vozes de uma plateia emocionada.

Fui recompensado. Depois de abraçar um rapaz ao meu lado e de ouvir um “quero também” no meu Inglês precário, ela estendeu as duas mãos e apertou as minhas com força. Quando as soltou, olhou para mim, sorriu e repetiu o gesto. Entre um aperto e outro, a foto sem qualidade tenta eternizar o momento.

Mãos quentes e firmes. As dela. As minhas estavam geladas.

“I don’t believe it!”, foi tudo o que consegui dizer.

Cinema americano não seria o que é sem os estrangeiros!

No Globo de Ouro, a grande atriz Meryl Streep foi homenageada pelo conjunto da obra.

Fez um discurso dirigido ao presidente eleito Donald Trump. Exaltou a presença dos estrangeiros em Hollywood.

Meryl sabe, como o resto do mundo, que, sem os estrangeiros, o cinema americano jamais seria o que é.

Em muitas áreas, a América, aliás, tem uma tradição que é o oposto da xenofobia.

Como o assunto aqui é cinema, fecho lembrando cinco cineastas não americanos que atuaram em Hollywood.

Charles Chaplin.

Alfred Hitchcock.

Billy Wilder.

Elia Kazan.

Frank Capra.