A morte de Paulo Paiva, Jaguaribe e a música de João Pessoa

O domingo (21) me trouxe a triste notícia da morte do músico Paulo Paiva.

Paulo, irmão de outro músico, Babi.

Paulo e Babi, gente de um tempo que não existe mais. Tempo passado de Jaguaribe e da música de João Pessoa.

A casa ficava na avenida Monsenhor Almeida (antiga Minas Gerais), perto da esquina com a Vasco da Gama. Pai, mãe, dois filhos, duas filhas. Os homens – Paulo e Babi – eram músicos.

A gente chegava lá à tarde. Ouvia Thick as a Brick. Ou Never a Dull Moment. Eles pegavam os violões. Tocavam e cantavam While My Guitar Gently Weeps. Na performance, informal mas impecável, exibiam toda a sensibilidade e talento.

O rapaz que estava hospedado na casa simples da família Paiva era Carlinhos. Às vezes se juntava à sessão. Passava uma chuva em João Pessoa. Baterista. Tocava jazz. Muitos anos depois, o vimos na banda de Djavan. Ou Maria Bethânia. Ou Caetano Veloso. Virou Carlos Bala!

Paulo (como Babi) está associado a essas lembranças. A um tempo em que Jaguaribe era um bairro de muitos artistas. A uma João Pessoa com uma cena musical pulsante. Dos conjuntos de baile ao underground.

Vi os dois tocando muitas vezes. Fazendo solo, acompanhando colegas, em bailes, na noite.

Paulo, que agora se foi. E Babi. Não consigo separar um do outro.

Não eram só irmãos biológicos.

Eram irmãos na música.

Cão no velório de Kid Vinil é o oposto do Brasil estarrecedor

Vivemos dias inacreditavelmente estarrecedores!

Tempos de banalização do que não deveria ser banal!

Eis que, neste sábado (20), uma imagem (foto de Reinaldo Canato) nos surpreende e comove em meio ao terremoto da semana.

O cão Golden Retriever de Kid Vinil é levado ao velório do artista, em São Paulo.

O que há na imagem não carece de comentário.

Só de olhares sensíveis.

Roberto Carlos é muito bom na voz de Teresa Cristina!

Estou entre os que defendem a tese de que o melhor intérprete de Roberto Carlos é ele mesmo. Tendo a identificar um certo preconceito quando vejo alguém dizendo que só gosta das canções dele com outras vozes. Parece argumento de quem ouve apenas o que se convencionou chamar de MPB, território no qual, desde os anos 60 do século passado, o Rei não caberia. Bobagem. Com sua voz nasal e pouco extensa, Roberto Carlos é um grande cantor, um dos nossos mais expressivos. E o seu repertório ainda não encontrou intérprete mais adequado do que ele. O que não nos impede de reconhecer que também é bom ouvi-lo com cantores e cantoras que o gravaram.

Na segunda metade da década de 1970, no auge da atuação das patrulhas ideológicas, Nara Leão dedicou um disco inteiro às canções da dupla Roberto & Erasmo Carlos. E o fez como se estivesse gravando um LP de Bossa Nova. Foi muito criticada, mas, guiada certamente por sua elegância, não deu a mínima para o que disseram seus críticos. Na primeira metade da década de 1990, foi a vez de Maria Bethânia, que não surpreendeu ninguém quando lançou o CD “As Canções que Você Fez Pra Mim”. Afinal, foi ela que, antes do Tropicalismo, disse ao mano Caetano Veloso que prestasse atenção na vitalidade da Jovem Guarda, o programa de televisão de Roberto Carlos.

Os intérpretes do Rei me ocorrem agora que estou reouvindo o CD “Teresa Cristina + Os Outros = Roberto Carlos”. Meu primeiro contato com a cantora foi quando ela gravou, ao lado do grupo Semente, um songbook de Paulinho da Viola. Trabalho sensível que a projetou entre as cantoras brasileiras da sua geração. Projetou, mas a manteve presa ao universo do samba, o que não era necessariamente positivo para a sua carreira. Mais tarde, os discos de Teresa Cristina revelavam que ela sentia outras coisas que não eram o samba. Este, leva o desejo às últimas consequências ao trazer a sambista cantando Roberto Carlos acompanhada por uma banda de rock.

O CD remete a uma coincidência muito feliz. Em seus últimos últimos discos de carreira, Erasmo Carlos teve ao seu lado jovens músicos da cena indie do Rio de Janeiro. Como ocorre com Teresa Cristina, que se junta ao grupo Os Outros para esta releitura de Roberto Carlos. As razões dela para debruçar-se sobre este repertório devem ser as mesmas dos demais (e não são poucos) que já gravaram o Rei: todos, no fundo, o adoram. Como milhões de brasileiros que há décadas ouvem seus discos e veem seus shows. O resultado é bom até para quem prefere RC com RC.

O repertório de 14 faixas não é óbvio. Mescla lado A e lado B em quase 60 minutos de pura satisfação. Tem Roberto & Erasmo várias vezes, tem Roberto sozinho (“Quando”) e também músicas de outros autores que se incorporaram ao cancioneiro do artista (“Como 2 e 2”, “O Moço Velho”, “Não Serve Pra Mim”). Os arranjos são fortes e vibrantes e têm uma permanente “pegada” roqueira. O disco atualiza Roberto Carlos sem perder de vista a fidelidade aos originais. Nem o que existe de melancólico nas suas canções.

Com Brasília sob terremoto, lembrei de Vladimir Carvalho

Coisa de cinéfilo! O terremoto político em Brasília me trouxe a lembrança de Vladimir Carvalho. O sonho de JK, da construção ao rock dos anos 1980, reconstituído sob a ótica do grande documentarista paraibano.

Fui rever Rock Brasília. Resgato anotações que havia feito sobre o filme:

O título do documentário de Vladimir Carvalho é moderno. Rock Brasília. O subtítulo, Era de Ouro, parece antigo. Talvez porque o filme tem as duas coisas. Fala de roqueiros rebeldes, de suas letras contestatórias, de punks, de jovens que desafiaram a polícia. Só que o faz de uma maneira que o diferencia do jeito contemporâneo de filmar o rock. Por isto disseram, como crítica negativa, que a montagem é lenta. Não é um defeito, mas uma virtude.

Reza a lenda que, na juventude, quando foi estudar filosofia na Bahia, Vladimir insistia para que os amigos fossem ver Raul Seixas (ainda Raulzito) tocar. O comunismo não o impedia de ter antenas direcionadas ao rock. E contribuía para que misturasse Roberto Carlos e Lênin quando comentava a origem da expressão Jovem Guarda. Era a época dos primeiros documentários sobre rock. As matrizes do que temos em Rock Brasília – Era de Ouro.

Há pouca música em Rock Brasília. Como nos hoje clássicos Don’t Look Back e Gimme Shelter. Este é citado por Vladimir na longa e admirável sequência em que reconstituiu o tumultuado show do Legião Urbana no Estádio Mané Garrincha. A música ilustra o filme. Mas o que realmente importa são as histórias que o cineasta vai reconstruindo através dos depoimentos captados e conduzidos por ele. Guiados por seu afeto e sua sensibilidade.

Vladimir passou mais de duas décadas pensando em realizar Rock Brasília. O tempo foi seu aliado. Possibilitou que ele enxergasse as coisas de longe, depois que elas aconteceram. E também deu distanciamento aos protagonistas. Os roqueiros rebeldes se transformaram em homens maduros. E a velhice permite que o pai de dois deles reconheça que aprendeu com os filhos. E tenha a fala embargada pelas lágrimas.

Jornalista William Costa lança livro de crônicas em JP

O jornalista William Costa lança o livro Para Tocar Tuas Mãos (Chronesis) nesta quinta-feira em João Pessoa.

O lançamento do primeiro livro de William, experiente jornalista com muitos anos de atuação no jornalismo cultural, será às sete da noite na Fundação Casa de José Américo.

Nesse livro, William Costa (em foto de Antônio David) reúne crônicas inéditas e outras publicadas em jornais.

Telespectador não tem informação sobre a ditadura

Considero importante, por motivos óbvios, que obras de ficção, no cinema e na televisão, falem sobre a ditadura militar brasileira.

No caso da televisão, Anos Rebeldes, de 1992, foi um marco.

Agora, temos Os Dias Eram Assim, super série que a Globo exibe no horário das 23 horas.

Leio que a super série, ambientada entre 1970 e 1984, enfrenta problemas com a audiência. Está mais baixa do que a média do horário.

Serão feitas mudanças na trama, provavelmente a partir da próxima semana. Entre elas, a entrada de novos personagens e uma contextualização histórica mais clara.

Chamada de super série, Os Dias Eram Assim tem características de uma novela. Mas, até aqui, tem um traço que a diferencia das tramas que costumamos ver nos demais horários que a Globo dedica à sua teledramaturgia: a história se desenvolve com um número menor de personagens.

É atraente como obra de ficção sobre a ditadura brasileira e tem na trilha sonora um forte elemento de conexão com a memória afetiva de quem viveu a época.

Um dos textos que li sobre a super série traz um dado que chamou minha atenção: os problemas com a audiência estariam relacionados ao fato de que, de um modo geral, o telespectador não tem informações sobre a ditadura militar brasileira.

Essa desinformação é tão grande que o impede de entender a trama.

Faço uma ilustração: certa vez, levei uma sobrinha adolescente ao cinema. Vimos um desses filmes sobre a ditadura. Após a sessão, ela confessou que não entendera nada e perguntou qual era o tema do filme.

Educação e memória estão juntas nesse debate.

Os dias (de hoje) SÃO assim!

“Vermelho Russo” tem sessão com presença do diretor

O filme Vermelho Russo tem uma sessão especial nesta quinta-feira (18) em João Pessoa.

Será às sete da noite numa das salas do MAG Shopping.

O diretor Charly Braun vai estar presente e conversará com o público depois da edibição.

O filme conta a história de duas atrizes em crise com a profissão. Elas vão para a Rússia estudar o método de Stanislavski. Lá, suas personagens acabam por extrapolar os limites da cena e da amizade.

Vermelho Russo nasceu da experiência real das atrizes Martha Nowill e Maria Manoella. O roteiro foi inspirado no diário de viagem que Martha publicou na revista Piauí.

Impeachment, Nixon, Collor, Dilma, Trump e um filme

Há alguns filmes que todos os jornalistas deveriam ver.

Cidadão Kane, A Montanha dos Sete Abutres, Rede de Intrigas.

Imprensa, política, poder, notícia, audiência, sensacionalismo, investigação, verdades e mentiras. Podem até não interessar à geração Y, mas não estão superados, embora tantos anos nos separem do tempo em que foram realizados. Tratam de questões que o furacão digital (ainda) não varreu do mapa!

Kane, o mais velho e o melhor, logo terá 80 anos!

Todos os Homens do Presidente é um desses filmes para jornalistas.

Gosto de revê-lo sempre que se fala em impeachment.

Trata de um episódio ainda muito recente (pouco mais de 40 anos), se pensarmos na perspectiva da História: o processo que, em 1974, levou o presidente americano Richard Nixon à renúncia.

Não é um filme importante, transformador, como Cidadão Kane, mas é muito bom cinema assinado pelo veterano Alan Pakula. E uma verdadeira aula de jornalismo investigativo.

“O herói do filme é o repórter, essa mistura de curiosidade, timidez, modéstia, agressividade, coragem, paciência, obstinação e (por que não) sadomasoquismo”, escreveu o crítico Antônio Barreto Neto quando o filme passou por aqui na década de 1970.

Vamos ver (ou rever) Todos os Homens do Presidente?

Penso nele agora porque a palavra impeachment está de volta ao noticiário.

Trump, os russos, o FBI.

Vimos Nixon, de cuja queda o filme trata. Vimos Collor. E Dilma.

Veremos Trump?

O presidente americano está no poder há pouco mais de 100 dias e quase metade da população já quer que ele saia da Casa Branca!

Piratas do Caribe é “prova” de que Paul morreu? Segue a lenda!

No post anterior, contei a história da “morte” de Paul McCartney. Foi criada por um DJ americano e já tem quase 50 anos.

As “provas” da morte do músico estariam nas capas dos discos e nas canções dos Beatles.

Milhares e milhares de pessoas já trataram do assunto desde que este se tornou público em 1969.

E eis que, agora, surge mais uma “prova”!

Estaria no cartaz do novo Piratas do Caribe, que tem Paul McCartney no elenco.

Vejam o cartaz do filme e prestem atenção nas palavras e letras circuladas em vermelho.

Elas formam que frase?

Ora, PAUL IS DEAD!

Paul McCartney morreu! Você acredita nessa história?

O Sgt. Pepper, o disco mais importante dos Beatles, está prestes a fazer 50 anos. Aproveito para contar uma pequena história. Lembranças do tempo em que Paul McCartney “morreu”.

17 de dezembro de 1969. A principal notícia daquela quarta-feira foi a morte de Arthur da Costa da Silva, afastado da presidência da República desde que sofrera um AVC. Eu tinha apenas dez anos, e, na minha memória, a data está associada também a uma morte que não ocorreu. Foi criada por um DJ americano.

Ouvi a notícia dias antes no programa de rádio “Diário Íntimo da Cidade”. O jornalista Carlos Aranha contou todos os detalhes. O DJ Russ Gibb assegurava que o beatle Paul McCartney morrera num acidente de carro em 1966 e que um sósia assumira o lugar dele. As “provas”, segundo o DJ, estavam nas capas dos discos e nas canções dos Beatles. E eram fartas. A canção “A Day in the Life”, ouvida do final para o começo, reproduzia os sons do acidente, enquanto a depois célebre capa do LP “Abbey Road” encenava o cortejo fúnebre.

No programa radiofônico, Carlos Aranha tocou “A Day in the Life” do final para o começo. Como o fez manualmente, a rotação ficou instável. Meu pai fez tecnicamente melhor e levou a gravação para a emissora. Fui junto. Passei a noite na discoteca da rádio, maravilhado com o acervo, enquanto Aranha e meu pai falavam de política. No estúdio, ouvi o programa ao vivo. De um lado, a notícia da morte de Costa e Silva. Do outro, os sons da canção dos Beatles.

“Eu enterrei Paul” – diz John Lennon no meio dos ruídos de “Strawberry Fields Forever”. Só que o que parece “I buried Paul” é, na realidade, “cranberry sauce”. As “pistas” são muitas. Da decisão pelo fim das turnês à capa de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Da letra de “A Day in the Life” (“He didn’t notice that the light had changed”) à capa de “Abbey Road”. Sim, a capa de “Abbey Road”.

Os Beatles cruzando a faixa de pedestres em frente ao estúdio londrino da EMI.

Na foto, John Lennon, vestido de branco, é o pastor. Ringo Starr, de preto, o agente funerário. A posição da mão direita sugere que ele está segurando o caixão. Paul McCartney tem os pés descalços e o passo trocado em relação aos outros. É o morto. E George Harrison, de jeans, o coveiro. Como a de Ringo, sua mão direita também segura o caixão. A placa do Fusca estacionado na calçada é IF 28. “If” é “se”, e 28, a idade que Paul teria se estivesse vivo. Mas, aí, o DJ errou: McCartney tinha 27 anos quando o disco foi lançado, no segundo semestre de 1969.

O próprio Paul, em 1993, brincou com a lenda.

A capa de um CD gravado ao vivo traz uma foto dele atravessando a faixa de pedestres de Abbey Road. E o título garante: “Paul Is Live”. Ninguém, com um mínimo de bom senso, pode acreditar nesta história da “morte” de McCartney”, mas ela continua associada ao fenômeno Beatles. E, na nossa memória, está tão viva quanto Paul, que em junho vai fazer 75 anos.