Industrial do amadorismo é rótulo que crítica colou em Lelouch

un homme et une femme 1966 real : claude lelouch anouck aimee jean louis trintignant

Na estreia, a classificação etária me impedia de ver “Um Homem, Uma Mulher”. O que me impressionava nos cartazes era a expressão de Anouk Aimée nas cenas de sexo. Creio que foi a primeira vez que esse tipo de imagem chamou minha atenção.

Vi o filme de Claude Lelouch anos depois, já numa reprise. Uma decepção que se confirmou nas vezes em que pude revê-lo. Tinha aquele casal maravilhoso (Trintgnant e Aimée), tinha a música de Francis Lai, tinha o nosso “Samba da Bênção”, de Baden e Vinícius. Mas o resto parecia uma novela moderninha vista na tela grande do cinema.

Às vezes, enxergo um pastiche da Nouvelle Vague nos filmes de Lelouch. Quando não, aquele novelão que é “Retratos da Vida”.

Recorro ao dicionário de Jean Tulard para verificar se não estou sendo injusto com o cineasta e eis o que encontro como rótulo colado pela crítica: Claude Lelouch é um industrial do amadorismo.

Neste sábado, o filme volta às salas brasileiras no Festival Varilux. Em João Pessoa, no Cinespaço, do Mag Shopping.

 

No livro de Elio Gaspari, há uma imprecisão sobre Chico e censura

Chico Buarque Doc 3

“Severamente perseguido pela censura, Chico Buarque de Hollanda foi para a Itália em 1969, onde viveu por mais de um ano. Para driblar a censura, compunha com o nome de Julinho da Adelaide”.

O texto está no epílogo de “A Ditadura Acabada”, de Elio Gaspari. O quinto e último volume da obra mais completa sobre a ditadura militar brasileira acaba de chegar às livrarias.

Do jeito que está construído, o texto sugere que Chico (na foto, durante as filmagens de “Artista Brasileiro”) usou com mais frequência o nome de Julinho Adelaide. Mas não é fato. Julinho aparece como autor apenas de “Acorda, Amor” e “Jorge Maravilha”.

“Acorda, Amor” foi incluída no disco “Sinal Fechado”, de 1974. “Jorge Maravilha” foi gravada para o mesmo LP, mas ficou de fora.

Na verdade, o que o compositor usou para driblar a censura foram as muitas armas da palavra escrita, que domina como poucos.

A imprecisão não macula o admirável trabalho de Elio Gaspari.

 

 

 

A propósito de “Curtindo a Vida…”, meus filmes da década de 1980

E.T.

Os 30 anos de “Curtindo a Vida Adoidado” me levam aos filmes da década de 1980. Prefiro a rebeldia dos 60 e o que restou dela nos 70. Os 80 sempre me pareceram excessivamente “industriais”. No cinema, no mundo dos discos, etc.

Mas tenho meus filmes favoritos daquela década. Do Steven Spielberg de “E.T.” ao François Truffaut de “O Último Metrô”; do Ridley Scott de “Blade Runner” ao Ingmar Bergman de “Fanny e Alexander”; do Stanley Kubrick de “O Iluminado” ao Win Wenders de “Paris, Texas”.

Do Martin Scorsese de “Touro Indomável” ao Werner Herzog de “Fitzcarraldo”; do Woody Allen de “A Rosa Púrpura do Cairo” ao Giuseppe Tornatore de “Cinema Paradiso”; do Robert Zemicks de “De Volta Para o Futuro” ao Milos Forman de “Amadeus”; do Spike Lee de “Faça a Coisa Certa” ao Akira Kurosawa de “Ran”.

Tem mais. O John Huston de “Os Vivos e Os Mortos”, o David Lynch de “Veludo Azul”, o Sergio Leone de “Era uma Vez na América”, o Philip Kaufman de “Os Eleitos”, o Samuel Fuller de “Agonia e Glória”, o Brian De Palma de “Os Intocáveis”, o Louis Malle de “Atlantic City”.

E há os brasileiros. O Eduardo Coutinho de “Cabra Marcado para Morrer”, o Hector Babenco de “Pixote”, o Leon Hirszman de “Eles Não Usam Black Tie”, o Nelson Pereira dos Santos de “Memórias do Cárcere”.

Esses aí estão todos no “1001 Filmes para Ver Antes de Morrer”. Tudo anos 1980. Não foi tão ruim!

“Curtindo a Vida Adoidado” já é clássico para a geração dos 1980

Curtindo a Vida

Na semana passada, muitos textos celebraram os 30 anos de “Curtindo a Vida Adoidado”. O filme de John Hughes é considerado um clássico. Dizem que três décadas são suficientes para obter a classificação.

Muito bem. Tentei, mas nunca consegui terminar. Nem a famosa cena de “Twist and Shout” me agrada. Penso sempre que já vi melhor em “Fame” e nos “Blues Brothers”.

Acredito que, na estreia de “Curtindo a Vida Adoidado, já era crescido o suficiente para gostar, e não tinha ainda a maturidade necessária para ver com um olhar generoso.

O fato é que a geração que viu adolescente o filme de Hughes hoje tem mais de 40 e o festeja não apenas como um marco da década de 1980, mas como verdadeiro clássico do cinema.

Diante das homenagens, fui nos dois volumes de crítica de Roger Ebert ver o que ele dizia de “Curtindo a Vida Adoidado”. Um consolo: o grande crítico americano não inclui o filme na sua lista de 200.

O fato é que a efeméride me motivou a listar meus filmes favoritos dos anos 1980. Fica para o próximo texto.

Autênticos e não autênticos

Forró autêntico versus forró de plástico. As festas juninas sempre trazem o tema de volta.

A lembrança de Dominguinhos é inevitável. Umas duas décadas atrás, na época em que o sucesso era Mastruz com Leite, o grande sanfoneiro e herdeiro do baião de Gonzaga disse que esses grupos que faziam o que depois foi chamado de forró de plástico davam mercado a ele e a outros artistas vinculados à tradição do gênero.

A fala de Dominguinhos apontava para a tolerância e a compreensão de que as coisas mudam. A permanência das manifestações culturais será determinada pelo tempo.

Prefiro o baião de Gonzaga, mas sempre aposto na convivência entre “autênticos” e “não autênticos” nas nossas noites juninas. Como o mestre Dominguinhos parecia apostar.

 

 

Para começar…

Do impresso para a TV. Da TV para o impresso. Do impresso para o online. Caminhos da minha trajetória profissional que já passa das quatro décadas.

Depois de alguns posts experimentais, o blog está começando. Vou escrever sobre música, cinema, cultura de um modo geral. Misturar informação com opinião. Transitar numa área onde comecei e da qual nunca me afastei totalmente.

Ao leitor, peço sugestões e críticas que podem ser enviadas para silviosias@jornaldaparaiba.com.br

 

Musical fala de Elis Regina e dos impasses brasileiros

“Elis, a Musical”, espetáculo apresentado neste sábado (11/06) no Teatro Pedra do Reino, dialoga com dois públicos. Um, formado pelos que não foram contemporâneos de Elis Regina. Outro, pelos que foram. Neste, cabe uma subdivisão: os que não só foram contemporâneos da maior cantora do Brasil, mas tiveram o privilégio de vê-la ao vivo.

Seja qual for o público, objetivamente, é um espetáculo muitíssimo bem realizado. Dirigido por Dennis Carvalho, “Elis, a Musical”, da concepção ao resultado final, tira nota 10 em qualquer um desses itens: texto, escolha de repertório, cenografia, figurino, direção musical, desempenho do elenco. Nada está fora do lugar nos 150 minutos de duração dos dois atos.

Subjetivamente, a minha percepção é a de quem foi contemporâneo de Elis e pôde vê-la ao vivo. Nessa perspectiva, o musical escrito por Nelson Motta e Patrícia Andrade corresponde a tudo o que de melhor foi dito dele. É uma viagem melancólica e nostálgica por um tempo que, a despeito de ser de trevas, ofereceu contrapontos da dimensão de uma Elis Regina.

A tragédia pessoal da artista se funde ao impasse brasileiro das décadas de 1960 e 1970. Do festival que a revelou com “Arrastão” (1965) à morte aos 36 anos (1982), Elis teve pouco mais de uma década e meia de carreira. Com muita fidelidade, o espetáculo conta a sua história e um pouco da história do país através de canções que são verdadeiros petardos para seus contemporâneos.

Viagem nostálgica porque remete à juventude dos que viram e ouviram Elis em sua época. Melancólica porque fala de sonhos desfeitos, de permanentes transversais do tempo. “Elis, a Musical” faz pensar no país convulsionado da ditadura, também no de hoje. A letra comovente de “Aos Nossos Filhos”, escrita num Brasil que não existe mais, soa mais forte ainda quando ouvida agora.

A permanência dos impasses brasileiros impede o que Elis, com a voz embargada, pede na letra da canção. Que se faça a festa por ela.

Dez discos de Elis Regina para ouvir antes de ver “Elis, a Musical”

Capas Elis

“Elis, a Musical” será apresentado neste sábado no Teatro Pedra do Reino, em João Pessoa. Para entrar no clima, escolhi dez discos de Elis Regina para ouvir (e reouvir).

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.

João Gilberto faz 85 anos, mas ainda não é uma unanimidade

João caricatura

João Gilberto (em caricatura de William Medeiros) ouviu Orlando Silva, os sambistas do Rio e os sambas de Caymmi. Ouviu Chet Baker, estrela do cool jazz, artista de canto intimista que, para os americanos, está longe de ser tão importante quanto João é para os brasileiros. Antes da Bossa Nova, sua voz era como a dos cantores antigos. Em 1958, na gravação de “Chega de Saudade”, registro inaugural da bossa, já tem a contenção que adotaria dali por diante, junto à originalíssima batida do violão. E tem o diálogo entre os dois elementos. Voz e violão, em avanços e recuos que embutiam uma revolução. A música brasileira pós-João atesta. O mundo reconhece.

Há um intervalo entre o período em que João integrava um grupo vocal de samba e o instante em que participa, em duas faixas, do disco “Canção do Amor Demais”, de Elizeth Cardoso. Naquele intervalo, inventou a batida da bossa e adotou um jeito de cantar diferente de tudo o que se fazia no Brasil. Com Elizeth, acompanha a intérprete, ao violão, mas falta a voz e o casamento dela com o instrumento. É o que se ouve, pouco depois, no 78 rpm que traz “Chega de Saudade”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, arranjada por Tom. A voz e o violão de João, elementos indissociáveis. Uma gravação de dois minutos. Um corte: o antes e o depois daquele disco.

A essência da invenção de João Gilberto está nos três discos que gravou na velha Odeon entre o final da década de 1950 e o início da de 1960. A releitura dos sambas anteriores à bossa, um pouco de Dorival Caymmi, algo de Ary Barroso e muito dos seus contemporâneos, sobretudo Antônio Carlos Jobim.

A batida que João criou é a síntese do samba e a sua reinvenção. A utilização dos baixos desaparece para dar lugar a uma mão direita que percute o ritmo, enquanto a esquerda oferece acordes dissonantes num refinado desenho harmônico. A execução ilude o ouvinte: ela parece simples, mas é muito complexa. A voz nem sempre se deixa guiar pelo instrumento que a acompanha. Ora está adiantada, ora atrasada, às vezes os dois se encontram. É misterioso, preciso, perfeito. É necessário entender este diálogo para que não se incorra no erro de diminuir o artista.

Os três primeiros discos na Odeon, o encontro com o saxofonista Stan Getz (em “Getz/Gilberto”), o LP de capa branca e “Amoroso” são os melhores registros da sua arte sofisticada, retratos de um país sonhado e não do Brasil real. Por isso, muitos ainda não compreendem o som e o silêncio produzidos por João Gilberto.

Erasmo é grande nome do rock, mas sempre flertou com a MPB

Erasmo 75

Chamado de Tremendão desde a época da Jovem Guarda, Erasmo Carlos faz 75 anos neste domingo (05). A parceria com Roberto Carlos e o vínculo profundo com o rock são o que há de mais significativo na trajetória desse gigante gentil.

A parceria com Roberto Carlos produziu dezenas e dezenas de canções. É uma das mais importantes da música popular do Brasil, a despeito de todas as críticas que são dirigidas aos dois artistas. Mas é um mistério: ninguém sabe quem fez o que, qual o papel de cada um no cancioneiro dos Carlos.

Desde a juventude, Erasmo sempre se identificou mais com o rock do que Roberto. Identificação que o levou a se consolidar como um dos grandes nomes da versão brasileira do gênero que transformou a música popular e a indústria do disco a partir de meados dos anos 1950.

Paradoxalmente, lutou a vida toda para ser reconhecido fora do rock. No fundo, o que Erasmo sempre quis foi fazer parte da turma da MPB. As pistas estão nos primeiros discos que gravou após a Jovem Guarda. Lá estão o autor de um samba como “Coqueiro Verde” e o intérprete do Caetano Veloso de “Saudosismo”.

A longa estrada percorrida pelo garoto da turma da Tijuca mostra que o bom em Erasmo é juntar o que parece diferente: a parceria com Roberto Carlos, o amor pelo rock, o desejo de ser da MPB. Sua música é tudo isso.

Os melhores momentos de sua discografia são da década de 1970 (“Carlos, Erasmo”, “Sonhos e Memórias”, “Projeto Salva Terra”, “Banda dos Contentes”). Mas, recentemente, entre os 68 e os 73 anos, gravou uma surpreendente trilogia de inéditas. “Rock`n`Roll”, “Sexo” e “Gigante Gentil” são discos irresistíveis. Confirmam o talento e a vitalidade do velho Tremendão.