Temendo eleição de Trump, celebridades gravam vídeo contra o candidato republicano

É comum ver artistas envolvidos em campanha eleitoral. O mais usual, no entanto, é vê-los apoiando uma candidatura, pedindo votos para um candidato.

Nos Estados Unidos, ocorreu o contrário.

Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra celebridades se manifestando contra o candidato republicano Donald Trump. Pedindo às pessoas que não votem nele. Alertando para o risco de uma eventual vitória de Trump. Risco para a América. Risco para o mundo.

Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Julianne Moore, Mark Ruffalo estão no vídeo dirigido por Joss Whedon, de Os Vingadores.

Vejam:

 

Num filme, o poder que a música tem de mexer com o homem e fazê-lo melhor

Morreu Charmian Carr, a filha mais velha do capitão Von Trapp em A Noviça Rebelde. Vamos falar um pouco sobre o filme?

the-sound-of-music

A Noviça Rebelde é um dos grandes musicais do cinema. O último dos clássicos, realizado quando o gênero já não era atraente como fora nas décadas de 1940 e 1950. O filme é de 1965. Um pouco antes, temos os êxitos de My Fair Lady e de West Side Story (do mesmo Robert Wise). Como estes dois, A Noviça Rebelde ganhou o Oscar de melhor filme. Foi um campeão de bilheteria. O nosso amor por este musical não se baseia, contudo, no seu êxito, mas na sua beleza, no seu encanto, na sua imensa alegria. No fascínio exercido por esta história que, movida pela força da música, há décadas está sobrevivendo à passagem do tempo

Robert Wise era um mestre. Montou Cidadão Kane, de Orson Welles. Dirigiu Punhos de Campeão e Marcado pela Sarjeta, ambientados no mundo dos boxeadores, mas não apenas sobre lutas de boxe. Também é dele O Dia em que a Terra Parou, clássico da ficção-científica, realizado numa época em o cinema falava de temas cruciais da guerra fria, contando histórias de seres que vinham de outros planetas. Em West Side Story, com a música extraordinária do maestro Leonard Bernstein, modernizou o musical sem romper totalmente com a tradição. Em A Noviça Rebelde, foi menos ousado, mais ortodoxo. E se deixou guiar pelo cuidado de não ser piegas, de não se exceder no sentimentalismo.

A esquerda detestava A Noviça Rebelde. Mas havia gente que ia escondida ao cinema, sem revelar para os companheiros de luta. E chorava na sala escura. O curioso é que os patrulheiros de plantão não percebiam que, por trás da história de Maria, do capitão Von Trapp e dos seus filhos, havia uma outra história: a de um homem nacionalista, que defendia bravamente a soberania do seu país e que fugiu para não aderir às forças nazistas. Valores que deveriam agradar a quem execrava o musical.

O título em Português nos distancia do original em Inglês: The Sound of Music. No fundo, A Noviça Rebelde é um filme sobre o poder da música, sua força, sua beleza, sua capacidade de mexer com o homem, de redimi-lo, de fazê-lo melhor. O filme conta a história de uma família que se reencontrou quando alguém a reaproximou da música. Este tema me parece mais significativo do que o outro, da resistência do personagem ao Nazismo. A cena em que o capitão canta com os filhos, rompendo o silêncio que os separava, é comovente. E é regida pela ternura da canção que dá título ao musical.

Música para celebrar o Dia Internacional da Paz

Nesta quarta-feira (21), celebra-se o Dia Internacional da Paz. A almejada e utópica paz em um mundo cada vez mais conflagrado.

A data remete aos verdadeiros apóstolos da não violência. O reverendo Martin Luther Kink. E o nosso Dom Hélder Câmara, que vimos de perto tantas vezes, em encontros inesquecíveis.

Aqui na coluna, marco a data com um pouco de música.

Primeiro, A Paz, letra de Gilberto Gil sobre melodia de João Donato.

Por último, Give Peace a Chance, do beatle John Lennon.

 

Filme dos Rolling Stones em Cuba terá exibição mundial no dia seis de outubro

Havana Moon, o filme sobre o show dos Rolling Stones em Cuba, terá uma única exibição mundial nos cinemas no dia seis de outubro. No Brasil, será nas salas das redes Cinemark, Cinépolis e UCI.

João Pessoa está entre as cidades que verão Havana Moon? Na lista que vi, não está!

O documentário tem direção de Paul Dugale. O show, gratuito, foi realizado em Havana no dia 25 de março de 2016, logo após a visita do presidente Obama a Cuba.

Selecionei trechos de uma entrevista de Mick Jagger para divulgar o filme e transcrevo aqui:

Liberdade

O mês de março foi maravilhoso em Cuba. Eles tiveram o Papa, o Obama e finalmente os Stones: todos indo lá. Mas você teria que perguntar para os cubanos – eu não sei se eles sentem algo diferente depois de tudo isso ou não. Não é um lugar livre, você ainda não pode dizer o que pensa, você ainda não pode se juntar com pessoas, não é permitido muito acesso à internet, só um pouquinho aqui e ali. Então, para as pessoas de fora parece um lugar livre. Eu não tenho a resposta para isso, eu só estou levantando a questão.

Música burguesa e decadente

Em outro filme que fizemos sobre a América Latina, que se chama “Olé Olé Olé!”, há muito desta história. Havia repressão em muitos dos países latino-americanos, porque eram ditaduras militares de direita. Também sucedeu na Espanha de Franco, eles proibiram o rock ‘n’ roll, e nos países satélites soviéticos e na União Soviética. Então Fidel Castro copiou o método da União Soviética, proibindo a música burguesa e decadente. Isso não durou para sempre.

Quebra-cabeça cultural

O rock ‘n’ roll é somente uma parte do quebra-cabeça cultural. Você precisa de todas estas partes, você precisa de trocas culturais e políticas em todos os níveis, e você precisa de pessoas trocando ideias. Cultura popular, filmes, música e televisão são todos parte do diálogo.

Português é difícil

Estive em países hispanos por quase todo o tour, além do tour no Brasil, que é em português e mais difícil. Então eu estive mais ou menos bem. Até minha filha Jade me deu um elogio meio hesitante. O espanhol dela é muito bom e ela disse: “Seu espanhol não foi assim tão ruim.” Eu disse: “Bem, eu venho falando há mais ou menos três meses”.

Frases em Espanhol

Acho que você tem que fazer um esforço para se comunicar com as pessoas na língua deles. Mesmo que seja um desastre, não importa. As pessoas te agradecem por tentar. Muitas pessoas falam inglês, mas não em todas as partes, então é bom saber frases. O que acontece com o espanhol é que é diferente em cada país. Eles têm palavras e gírias diferentes e também pronúncias diferentes. Alguém me disse: “Você não pode pronunciar assim, você soa como um chileno”. E eu disse: “E o que tem de errado nisso?”.

Noite especial

Foi uma noite muito especial para os cubanos e algumas pessoas mais velhas disseram que pensaram que isso nunca iria acontecer, que aquele tipo de mundo já não os alcançaria mais. As pessoas mais jovens não pensam necessariamente assim, eles só querem se divertir e estão felizes que pessoas estão vindo e, quem sabe, outras virão.

Cuba no caminho

Não há necessidade de serem sempre shows grátis ao ar livre, porque isso é bem complicado de fazer. Mas eles gostam de um show grátis ao ar livre! Espero que outras pessoas venham e superem as dificuldades para que Cuba se torne mais uma parada no caminho, porque os cubanos iriam amar. Eles tiveram uma noite especial e foi maravilhoso para nós também.

“Somente gente do século passado ainda compra CD!”

Quem me deu as primeiras notícias sobre o compact-disc foi a revista Som Três. Seria uma revolução. Um disquinho impresso digitalmente com capacidade de armazenamento maior do que a dos velhos LPs. Caberia a Nona Sinfonia de Beethoven na íntegra. E acabaria com os ruídos dos discos analógicos.

cd-miles

A primeira pessoa que me falou sobre a sensação de ouvir um CD foi Egberto Gismonti. Ele integrava o cast da gravadora norueguesa ECM e ganhara um player e alguns discos no natal de 1982. Os sons altos são altos demais; os baixos, baixos demais – foi como Gismonti resumiu para mim o que sentira ao ser apresentado ao produto que revolucionaria a indústria fonográfica.

No início, dizíamos “disco laser” quando nos referíamos ao objeto que chegara para tomar o lugar dos nossos LPs. Usávamos esta expressão certamente perplexos com o fato de que as problemáticas agulhas seriam substituídas por um facho de raio laser. Parecia coisa de ficção-científica.

Passou algum tempo até que o chamássemos de CD. Mas logo veio a primeira desilusão: os exemplares de procedência alemã que aportaram no Brasil não resistiam ao nosso clima quente e úmido. Oxidavam rapidamente, um problema que foi resolvido na medida em que a indústria aperfeiçoou a fabricação dos CDs.

Para quem ainda conheceu os 78 rpm e cresceu ouvindo LPs, não era possível dispensar a palavra disco. E estava correto. O nome é compact-disc, por mais que os garotos de hoje estranhem quando a gente diz “disco”, referindo-se a um CD.

Cresci numa casa cheia de música e lembro do momento em que os LPs aposentaram os discos de 78 rotações. Foi uma revolução semelhante à do CD. A limpeza do som, a beleza das capas, o conceito de álbum, conquistas da era do disco analógico de longa duração. Sem falar do som stereo, que chegou mais tarde, dividindo a gravação em dois canais.

A anunciada morte do CD remete a estas lembranças. Os números da indústria fonográfica pioram a cada ano. O disco como conceito – um produto com começo, meio e fim, um certo número de faixas, uma capa, letras e ficha técnica num encarte – interessa cada vez menos aos ouvintes jovens. Eles também consomem música intensamente, mas as canções não precisam depender do desejo do artista e do mercado de oferecê-las numa determinada ordem, vinculadas a um título e a uma ideia.

A música que se ouve nos serviços de streaming prescinde do físico. Extingue o amor táctil ao disco.

Continuo comprando CDs. Na definição de um amigo, sou um homem do século passado. Segundo ele, somente gente do século passado ainda compra CD.

Charmian Carr, de A Noviça Rebelde, morre aos 73 anos

A atriz Charmian Carr morreu aos 73 anos. Ela tinha uma demência senil rara e morreu em consequência da doença.

Charmian ficou conhecida ao interpretar o papel de Liesl, a filha mais velha do capitão Von Trapp em A Noviça Rebelde.

Na época do filme, Charmian tinha pouco mais de 20 anos, mas fazia uma adolescente de 16.

No vídeo, o dueto dela com Julie Andrews na canção Sixteen going on Seventeen.

Inesquecível, Charmian! Inesquecível, A Noviça Rebelde!

 

Ofensas a Camila Pitanga vêm da legião de imbecis citada por Umberto Eco

Dias atrás, escrevi um texto sobre ofensas a Gilberto Gil nas redes sociais. Internado no Sírio Libanês, o compositor postou foto com um dos netos, a postagem virou notícia, e seguiram-se os comentários absurdos.

Agora, é com a atriz Camila Pitanga.

Camila Pitanga no Fantastico

Hoje (19) cedo, Camila aparecia como matéria principal do G1: a entrevista que deu ao Fantástico sobre o afogamento do ator Domingos Montagner.

Acessei e lá estava o vídeo de 12 minutos com a entrevista dela à repórter Sônia Bridi.

Vou resumir: um depoimento digno e tocante de quem testemunhou a morte trágica de uma pessoa querida. A atriz busca forças para falar de um episódio que entristeceu milhões de pessoas.

Abaixo do vídeo, estão os comentários. Alguns, sérios e respeitosos. Inclusive com explicações médicas sobre como se dá um afogamento em água doce. Outros, absolutamente inaceitáveis. E tristemente reveladores do lado mais abjeto da alma humana.

Não devem ser transcritos. Não podem ser difundidos. E me fazem pensar em Umberto Eco.

A importância da Internet e, por consequência, das mídias sociais, me leva sempre a não recorrer à fala do grande escritor e pensador italiano. Porque é melancólico verificar que ele estava certo.

As falas de Eco, essas sim, devem ser transcritas:

As mídias sociais deram voz a uma legião de imbecis

A Internet promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade

Notas da guitarra de Hendrix são como cores que um gênio da pintura joga na tela

Neste domingo (18), são 46 anos da morte de Jimi Hendrix.

Jimi Hendrix

Quando pensamos em guitarristas, há nomes que não podem ser esquecidos. Falamos em jazz, e lá vêm Wes Montgomery e Django Reinhardt. Se formos para os primórdios do rock, Chuck Berry aparecerá entre os fundadores. No blues, temos as notas econômicas e essenciais de B.B. King. Claro, estamos antes dos anos 1960 do século passado, década em que os conjuntos de guitarras tomaram conta do mundo da música popular. É aí que chegamos à Londres que, em 1966, viu nascer o trio The Jimi Hendrix Experience. Um guitarrista americano, mestiço de negro com índio; um baixista e um baterista ingleses, brancos. Eles logo fariam história.

Jimi Hendrix é o maior guitarrista de todos os tempos. Um lugar comum. Mas está certo. Os garotos que hoje estudam o instrumento e têm às mãos todos os recursos tecnológicos, farão coisas inacreditáveis com uma Fender semelhante à de Hendrix. Mas não inventarão nada. Não escreverão a gramática, nem a história, como Jimi fez numa carreira tão intensa quanto meteórica, entre 1966 e 1970. Ele foi descoberto em Londres, na época em que os Beatles e os Rolling Stones comandavam a cena roqueira da cidade, e impressionou todos os que puderam vê-lo ao vivo. Os melhores guitarristas – gente como Clapton e Page – ficaram perplexos. E quiseram desistir.

Dois shows disponíveis em Blu-ray oferecem um grande retrato de Jimi Hendrix. No primeiro, ele debuta para o público americano. Em 1967, sua apresentação no Festival de Monterey provocou um impacto extraordinário sobre os músicos e os espectadores do evento. No segundo, o guitarrista está no auge. Em 1969, sua performance no Festival de Woodstock, mais extensa do que a de Monterey, figura entre os mais impressionantes momentos do rock produzido ao vivo. Os dois registros trazem o melhor de Hendrix no palco e também eternizam festivais que marcaram a cultura pop.

Dizer que a guitarra é extensão do corpo de Jimi Hendrix é outro lugar comum. Tanto quanto classificá-lo como o maior de todos os guitarristas. Mas também é verdade. Com o instrumento colado ao seu corpo, ou dando voltas ao redor deste, às vezes tocando com a boca, Hendrix ultrapassa os limites das convenções musicais. Produz ruídos que se misturam ao que não é ruído. Notas certas no lugar certo fundidas a notas que poderiam ser consideradas incorretas. Acordes que não estão nos manuais, dedos pressionando cordas e trastes como ninguém ousaria fazer. Invenção pura. Resultado excepcional. Como as cores que um gênio da pintura joga numa tela.

Hendrix lançou três discos gravados em estúdio antes de morrer aos 27 anos, em setembro de 1970. Mas a discografia é extensa. Os muitos discos póstumos estão à altura da sua importância. Há fabulosos registros ao vivo. Também em estúdio. Todo o material foi recuperado, restaurado à luz dos mais avançados recursos tecnológicos disponíveis nos estúdios da era digital. A família cuida bem da memória e do legado musical. Os sons que produziu na guitarra Fender já atravessaram quase cinco décadas desde que morreu. E permanecem ousados e modernos. Os garotos de hoje facilmente confirmarão.

Parceria de Roberto e Erasmo é um mistério a ser desvendado

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc. Há muitas parcerias famosas na música popular brasileira. Roberto e Erasmo Carlos é uma delas. Pouco se sabe, no entanto, da intimidade do trabalho dos dois. Até onde eles compuseram juntos? Um é mais melodista do que o outro? Um é mais letrista? Um faz tudo sozinho e coloca o nome do outro? Um é mais roqueiro em oposição ao que é mais romântico? Quem faz o quê? As perguntas são inúmeras quando os parceiros não revelam os métodos de trabalho, muito menos fornecem a real autoria de cada canção.

O livro de memórias Minha Fama de Mau não é revelador, embora Erasmo dedique um capítulo ao parceiro. Lá estão algumas histórias já conhecidas. Sentado à Beira do Caminho foi feita a quatro mãos. Exaustos, os parceiros não conseguiam terminá-la. Roberto adormeceu. Quando acordou, disse duas frases que completaram a canção: preciso acabar logo com isso/preciso lembrar que eu existo. Outro exemplo: Erasmo fez uma melodia, Roberto escreveu uma letra em segredo para homenagear o parceiro. O resultado é Amigo. Na primeira audição, apanhado de surpresa, Erasmo não conteve as lágrimas.

Podemos especular ouvindo a discografia de Roberto e a de Erasmo. O primeiro arrisca menos. O segundo transgride mais. O primeiro é um baladeiro. O segundo, um roqueiro incorrigível. Em Roberto, tudo sugere que o intérprete supera o autor. Em Erasmo, o que temos é um autor que interpreta suas canções. Roberto está sempre perto dos limites que estabeleceu para seu trabalho. Erasmo sai deles e flerta mais livremente com a turma da chamada MPB. Chega a ser um homem do rock’n’ roll que faz sambas, como no antológico Coqueiro Verde. Ou em Cachaça Mecânica, nitidamente inspirado em Chico Buarque.

Os dois se completam nas diferenças? Pode ser que sim. Com John Lennon e Paul McCartney, a parceria funcionava deste modo. Seja como for, o fato é que Roberto e Erasmo Carlos assinaram dezenas de canções que os brasileiros guardam cuidadosamente na memória e as associam às suas vidas. Nelas, enxergam seus amores, suas famílias, suas alegrias e tristezas. Passa por esta identificação a força incomum de Roberto Carlos. E não há quem possa negar que Erasmo Esteves, o garoto pobre do subúrbio carioca apaixonado por Elvis Presley, desempenhou um papel relevante na construção deste mito.

Uma première na terra dos Beatles: Eight Days a Week, the touring years

Abro espaço na coluna para um texto exclusivo do professor doutor Lauro Meller, acadêmico da área de letras, nascido em João Pessoa, professor da UFRN. Atualmente, Lauro mora em Liverpool e, nesta quinta-feira (15), assistiu, como convidado, à estreia mundial do novo filme sobre os Beatles.

Eight days cartaz

Uma première na terra dos Beatles: Eight Days a Week, the touring years

Lauro Meller, de Liverpool

Na última quinta-feira, estendeu-se um tapete azul em frente ao FACT Picturehouse, em Liverpool, para a première mundial do filme Eight Days a Week: the touring years, dirigido por Ron Howard. Enquanto o acesso não era liberado, uma pequena multidão de sexagenários, septuagenários e até octogenários, todos muito bem vestidos, começou a se aglomerar em frente ao cinema. O público local, que passava pela Bold Street e observava com curiosidade a presença de câmeras de televisão e da estrutura de isolamento com o nome do filme, não imaginava que, dentre aqueles recatados senhores e senhoras que aguardavam o início do filme, estavam Colin Hanton, Len Garry e Rod Davies, três dos membros originais dos Quarrymen, a primeira banda de John, imortalizados numa foto hoje histórica; Julia Baird, irmã de John Lennon; Joe Flannery, ex-sócio de Brian Esptein e booking agent dos Beatles em seus primórdios; e Allan Williams, primeiro empresário da banda e dono do Jacaranda, um bar a duas quadras dali, na Slater Street, onde os rapazes se apresentaram no início da carreira

Dirigido por Ron Howard, o filme traz o enfoque específico dos Beatles em turnê, desde o indispensável aprendizado nos cabarés de Hamburgo até a roda-viva que os levou a desistir dos palcos, quando a histeria das fãs os transformou numa caricatura de si próprios. Diante de tudo que já se disse, filmou e escreveu sobre os Beatles, é muito raro surgir uma perspectiva nova sobre o tema, e Eight Days a Week nos deixa a impressão de ser “mais do mesmo”, principalmente para quem assistiu aos episódios da série Anthology, lançada em 1995.

Nesse “novo” filme, não há surpresas nem revelações, e repetem-se os relatos das noites estafantes na Alemanha, do papel crucial de Brian Epstein como o empresário que soube criar uma imagem vendável de seus rapazes, da precária estrutura de apoio para “cair na estrada”, da piada que era tocar para 50 mil pessoas utilizando amplificadores de 100 watts, hoje utilizados por qualquer banda de garagem. Repetem-se, também, as mesmas histórias sobre os protestos que os Beatles enfrentaram ao tocarem no Budokan, em Tóquio, um templo de artes marciais, e sobre eles terem, supostamente, ignorado o convite de Imelda Marcos para uma recepção oficial, o que quase lhes custou a vida. A polêmica declaração de John sobre os Beatles serem mais populares que Jesus Cristo é relembrada, bem como a repercussão negativa que isso gerou em solo norte-americano, principalmente nos Estados do Sul. Mas, apesar de as histórias serem as mesmas, há muitas imagens inéditas, o que é impressionante ao lembrarmos que os Beatles pararam de excursionar há exatos 50 anos, no show do Candlestick Park, em São Francisco.

Para a estreia em Liverpool, que começou meia hora antes da de Londres, foi apresentado um vídeo introdutório ao filme – e que poderia perfeitamente fazer parte do corpo principal da obra -, com entrevistas dos ainda residentes na cidade ligados aos Fab Four e à sua história. Sem dúvida, boa parte da “mágica” dessa noite foi saber que as pessoas falando na telona estavam ali, sentadas praticamente ao seu lado.

Ringo Starr e Paul McCartney gravaram um curto recado ao público de Liverpool, exibido durante a sessão; preferiram comparecer à estreia em Londres, talvez por praticidade, talvez pelo glamour da capital. Esse gesto foi recebido com uma ponta de ressentimento por alguns dos presentes, e compreensivelmente. Apesar de serem hoje megaestrelas, e de terem conquistado todo sucesso por seus próprios méritos, Liverpool foi o marco zero da jornada que colocou os Beatles para sempre no mapa da cultura ocidental.

Lauro Meller

Lauro Meller, o autor do texto, também é músico e estuda a obra dos Beatles sob a perspectiva acadêmica. Professor da UFRN com doutorado em Letras pela PUC-Minas, bolsista CAPES em estágio pós-doutoral no Institute of Popular Music – University of Liverpool.