Gump e Kennedy. Hanks e Obama. A vida a imitar a arte!

O ator Tom Hanks foi condecorado pelo presidente Barack Obama na Casa Branca.

Inevitável a lembrança do que vimos em Forrest Gump. Hanks, no papel de Gump, sendo condecorado pelo presidente John Kennedy na Casa Branca. Os dois aparecem juntos graças a uma trucagem muito convincente.

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Agora, Hanks e Obama, aplaudidos por Bill Gates, que está ao fundo.

Não é preciso saber o diálogo, a foto, por si só, já sugere que Obama está dizendo algo sobre Forrest Gump, não?

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Realidade e ficção. Vida e arte. Tudo misturado!

“Elis” é um bom filme. Bom e necessário

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João Marcello, o filho de Elis Regina com Ronaldo Bôscoli, disse que Elis é um bom filme. Entendi assim a fala dele: é apenas bom, mas não deixe de ver!

Saí do cinema com essa sensação: é correto, bem realizado, não é excepcional, mas como é necessário!

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No passado, as estrelas da música popular viravam estrelas de cinema. Ou, aqui, acolá, apareciam num documentário sobre um grande show ou uma turnê.

Agora, depois que o tempo passou, elas se transformaram em personagens de cinebiografias ou de documentários que olham as coisas de longe.

O cinema brasileiro está cheio desses filmes. Faz uns 15 anos. São importantes para a construção da memória.

Elis, que acaba de chegar aos cinemas, é o mais recente. Quem viu Elis, a Musical, pode achar que há muitas semelhanças entre os dois. E há. Eles, na verdade, se completam.

No teatro, vivemos um pouco a ilusão de que estamos diante de Elis. Isso impressiona contemporâneos e não contemporâneos dela.

No cinema, não. Mas há o impacto de uma atriz (Andreia Horta) que ficou muito parecida com a cinebiografada. Em muitos momentos, ela “recebe” Elis. Não tem nada de caricatural, como andaram dizendo!

E há o impacto da música. Andreia dubla. A voz é de Elis, cantora extraordinária que surgiu e cresceu no Brasil da ditadura e se consolidou pelo singular domínio da voz, entre a técnica e a emoção, e pelo marcante repertório que gravou em seus muitos discos.

O filme de Hugo Prata tem o contexto histórico em que Elis se firmou, seus (grandes) dramas pessoais, que acabaram levando ao desfecho trágico e prematuro, e tem muita música. Números muito bem filmados que impressionam os que admiram a artista.

A música de Elis e o desempenho de Andreia Horta são os destaques desse filme que emociona os que viram Elis em seu tempo e ensina algo aos que não viram!

A morte é um dos temas do filme de Scorsese sobre George Harrison

Nesta terça-feira (29), faz 15 anos da morte de George Harrison. Um retrato fidelíssimo do beatle e da sua música está no documentário Living in the Material World, de Martin Scorsese.

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Minhas impressões sobre o filme:

“Living in the Material World”, de Martin Scorsese, é um documentário com duração de três horas e meia. Conta a história de um homem rico que se voltou para as coisas do espírito. E viveu dividido entre o mundo material e a crença que as religiões oferecem de que o melhor é o que vem depois da morte. Morreu antes dos 60 anos, consumido pelo câncer, e deixou a fortuna para a família (mulher e filho) e os irmãos de fé. O personagem retratado por Scorsese não é um anônimo. É o beatle George Harrison.

Há muitas histórias neste longo filme. Uma delas (a mais óbvia), a dos Beatles. O documentário “Anthology” não a esgotou. Scorsese usa Harrison para contá-la através da sua sensibilidade. E consegue mostrar o que ainda não havíamos visto. A exemplo da sequência em que Astrid diz que fotografou John Lennon e George Harrison no lugar em que Stu trabalhava. Stu, morto prematuramente, fora integrante da primeira formação dos Beatles e namorado de Astrid. Duas ou três fotos desconhecidas ilustram a fala. John está devastado. George segura a barra dele. A alemã, que vimos bela e jovem, é uma senhora de 70 anos cujo envelhecimento não acompanhamos. Scorsese nos reencontra com ela.

No começo, vemos George no jardim. Ele está indo embora. Como se estivesse morrendo. Depois, algumas pessoas falam da ausência dele. Do que diriam se o reencontrassem. A narrativa volta para a década de 1940, quando nasceu. A guerra, a vitória dos aliados. A canção que ouvimos garante: tudo passa. “All Things Must Pass”. Scorsese vai contando várias histórias. A do garoto pobre que conquistou a fama através do talento. A do jovem astro que mergulhou fundo no misticismo. A do músico preterido pelos companheiros de banda, mais talentosos do que ele. A do homem que viu o melhor amigo levar sua mulher. Canções e imagens de uma época ilustram cada uma das histórias.

O documentário mostra George Harrison vivendo no mundo material, o título nos assegura. Dividido entre a escolha religiosa e a fortuna que fez com sua guitarra e suas canções. Entre o senso de humor e a amargura. Mundano e cheio de luz. Assim os amigos o definem. Assim Martin Scorsese o revela neste retrato que poucos cineastas tirariam com tanta propriedade e delicadeza. Era preciso que um realizador como Scorsese se dispusesse a transformar George em personagem de um filme. Porque o seu cinema, desde o início, está repleto de música. Ele trabalha com as duas formas de expressão artística, o cinema e a música, do mesmo modo que é tão talentoso na ficção quanto no documentário.

A morte é um dos temas principais do filme. Está no prólogo e no epílogo. Na abertura, o filho, Dhani, conta que sonhou com o pai. Perguntou onde ele estivera e ouviu a resposta: nunca saíra de perto. No final, os mais chegados dizem do que sentem falta. Da amizade, do amor. E não parecem bem resolvidos com a ausência física. Ao contrário de George, que, guiado pela religião, lidava melhor com a ideia da morte. O campeão Jackie Stewart perdeu colegas em acidentes nas pistas, mas não conhecia um luto tão severo. Ringo Starr chora ao narrar o último encontro com o amigo. Se acreditarmos na conversão de George, assistiremos ao filme convencidos de que ele não comporta lágrimas.

Manfredo Caldas e o amor ao cinema

A notícia triste chegou na sexta-feria (25) à noite através de uma mensagem de Marcus Villar:

Manfredo fez a viagem dele!

Morreu Manfredo Caldas. O montador, o realizador, o militante comunista. O amigo querido.

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Na minha memória afetiva, Manfredo está associado a muita gente e muita coisa boa. Sobretudo no período em que voltou a morar em João Pessoa, nos anos 1980.

Seu irmão Hugo, amigo de Paulinho da Viola e de Archidy Picado. Vladimir Carvalho, claro!, Erialdo Pereira, com quem dividiu um quarto de pensão no Rio do final dos anos 1960. O Nudoc, a última semana do Rex, as conversas sobre Cuba, a militância. Mas, principalmente, o amor ao cinema, que manifestávamos falando de filmes.

Às vezes, um filme obscuro, pouco lembrado, como Os Visitantes, de Kazan, que adoro. E ele adorava.

Na estreia do seu média sobre a nau catarineta, ao término da sessão, eu disse que havia gostado muito, e ele resumiu:

Assumi o vídeoclipe! 

 

Roberto Correa, dos Golden Boys, morre aos 76 anos

Roberto Correa, um dos integrantes dos Golden Boys, morreu na noite deste sábado (26). Tinha 76 anos. A causa da morte não foi divulgada.

Nos anos 1960, os Golden Boys, inspirados nos conjuntos vocais americanos, foram um dos grupos mais famosos da Jovem Guarda.

O grupo era formado pelos irmãos Roberto, Ronaldo e Renato Correa e Valdir da Anunciação, que morreu em 2004. Com a morte de Valdir, o quarteto virou um trio.

Na foto, Roberto é o segundo da esquerda para a direita.

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Os Golden Boys já como um trio. Roberto Correa é o do meio.

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Para ouvir: Pensando Nela. Versão de Bus Stop, dos Hollies.

É hoje o centenário do samba! Viva o samba!

O samba faz 100 anos neste domingo(27). Toma-se como referência a histórica gravação de Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida, em 27 de novembro de 1916.

Ilustro a coluna com Cartola, um mestre do samba. E sugiro um top 20 do gênero, lembrando que é uma escolha pessoal.

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Feitiço da Vila – Noel Rosa

Camisa Amarela – Ary Barroso

Brasil Pandeiro – Assis Valente

A Primeira Vez – Bide e Marçal

Samba da Minha Terra – Dorival Caymmi

A Voz do Morro – Zé Keti

Desafinado – Tom Jobim e Newton Mendonça

Você e Eu – Carlos Lyra e Vinícius de Moraes

Mas que Nada – Jorge Ben

O Sol Nascerá – Cartola

Juízo Final – Nelson Cavaquinho

Saudosa Maloca – Adoniran Barbosa

Canto de Ossanha – Baden Powell e Vinícius de Moaes

Na Cadência do Samba – Ataulfo Alves

Coisas do Mundo, Minha Nega – Paulinho da Viola

Aquele Abraço – Gilberto Gil

Construção – Chico Buarque

Águas de Março – Tom Jobim

O Bêbado e a Equilibrista – João Bosco e Aldir Blanc

Desde que o Samba É Samba – Caetano Veloso

Sem Zé Ramalho, Grande Encontro não é mais o mesmo

Dois quartetos notáveis formados por artistas nordestinos para shows à base de vozes e violões:

Na década de 1980, Cantoria.

Na de 1990, O Grande Encontro.

No primeiro, Elomar, Geraldo Azevedo, Vital Farias e Xangai.

No segundo, Alceu Valença, Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho.

O ano de 2016 marcou o retorno dos dois projetos. Cantoria voltou com seus quatro integrantes. Mas, com a ausência de Zé Ramalho, O Grande Encontro mantém o formato de trio já adotado nos anos 1990, no período em que Alceu Valença deixou o grupo.

Neste sábado (26), o público pessoense vê O Grande Encontro na Domus Hall.

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Confiram o set list do show:

1. Anunciação – Alceu, Elba e Geraldo
2. Caravana – Alceu, Elba e Geraldo
3. Me dá um beijo – Alceu, Elba e Geraldo
4. Sabiá – Alceu, Elba e Geraldo
5. Papagaio do futuro – Alceu e Geraldo
6. Moça bonita – Alceu e Geraldo
7. Sétimo céu – Geraldo
8. Parceiro das delícias – Geraldo
9. Dia branco – Geraldo
10. Só depois de muito amor – Geraldo
11. Bicho de sete cabeças II – Elba e Geraldo
12. Canta coração – Elba e Geraldo
13. Sangrando – Elba
14. Chão de giz – Elba
15. Na base da chinela – Elba
16. Qui nem jiló – Elba
17. Eu só quero um xodó – Elba
18. Candeeiro encantado – Elba
19. Ciranda da rosa vermelha – Alceu e Elba
20. Flor de tangerina – Alceu e Elba
21. Cabelo no pente – Alceu
22. La belle de jour – Alceu
23. Girassol – Alceu
24. Coração bobo – Alceu
25. Morena tropicana – Alceu
26. Ciranda da traição – Alceu, Elba e Geraldo
27. Táxi lunar – Alceu, Elba e Geraldo
28. Pelas ruas que andei – Alceu, Elba e Geraldo
29. Banho de cheiro – Alceu, Elba e Geraldo
30. Frevo mulher – Alceu, Elba e Geraldo

100 anos de “Pelo Telefone”. 100 anos do samba

O samba está fazendo 100 anos.

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A comemoração toma como parâmetro a gravação do primeiro samba, Pelo Telefone. Donga e Mauro de Ameida. Novembro de 1916. Sucesso no carnaval de 1917.

Claro que o samba já existia antes de Pelo Telefone. É uma data. Mas é importante comemorar.

Não precisa teorizar. A poesia traduz o gênero:

O samba é pai do prazer

O samba é filho da dor

O grande poder transformador!

O samba é a mais importante manifestação da música popular do Brasil. E não sejamos ortodoxos. O samba atravessando o tempo, com todas as transformações a que foi submetido e todas as influências que exerceu.

Samba. Samba de roda. Samba enredo. Samba choro. Samba exaltação. Samba de breque. Partido alto. Samba canção. Bossa Nova. Samba jazz. Samba esquema novo. Sambolero. Sambalanço. Sambaião. Samba rock. Samba soul. Samba reggae. Samba funk. Samba paulistano. Pagode. Samba em tom maior. Samba em tom menor.

Essa lista aí, poderíamos chamar de os sambas do samba.

Na minha coluna na CBN João pessoa, fiz uma brincadeira que chamei de o samba nos sambas. São sambas que têm a palavra samba no título. Escolhi alguns:

O samba da minha terra

Samba de Ofeu

Samba de uma nota só

Só danço samba

Samba do avião

Samba do carioca

Samba de verão

Samba triste

Samba em prelúdio

Na cadência do samba

Samba do Arnesto

Samba italiano

Samba erudito

Samba da pergunta

Samba de Orly

Samba de Los Angeles

Samba e amor

Samba do grande amor

Samba dobrado

Samba de gago

O samba de Maria Luíza

Samba do approach

Desde que o samba é samba

E, claro, o Samba da bênção, com seus grandes versos e suas justíssimas homenagens!

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Porque o samba nasceu lá na Bahia

E se hoje ele é branco na poesia

Ele é negro demais no coração!

Freddie Mercury tinha talento musical e era cafona

Nesta quinta-feira (24), faz 25 anos da morte de Freddie Mercury.

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Falar de Mercury é falar do Queen, que permanece na lista das grandes bandas do rock.

Nas audições que fiz nos anos 1970, com a percepção de quem era contemporâneo do fenômeno, fui atraído por algo além do talento musical de Freddie e seus companheiros de banda.

O talento era inquestionável. Mas havia o uso que eles faziam desse talento. A capacidade que tinham de criar uma música cuja beleza estava na sua diversidade e na manipulação de matrizes.

O Queen era uma banda de hard rock. OK. Mas o seu repertório ia do rock primitivo de Elvis aos excessos operísticos que soavam tão cafonas no mundo do pop/rock.

Mercury cantava muito, compôs números irresistíveis e tinha um domínio extraordinário do palco.

Se havia muito de kitsch no que em estúdio o Queen fazia com vários gêneros, no palco, então, tudo era levado ao paroxismo do exagero.

Bendita cafonice!

Mercury é um Little Richard do hard rock. Só que muito mais exagerado e caricatural.

O encontro da sua musicalidade com os excessos da performance ao vivo foi o que o fez grande!

Não gosto dos últimos discos. Foram contaminados pela pasteurização que atingiu a todos na década de 1980. Mas o Queen dos anos 1970, do início até o disco The Game, este já passou no teste do tempo e permanece muito bom de ser ouvido.

Deus salve a Rainha!

“Elis” estreia nos cinemas. Vamos reouvir os discos de Elis?

A estreia nacional de Elis será nesta quinta-feira (24). O filme conta a história de Elis Regina, a maior cantora do Brasil, interpretada pela atriz Andréia Horta (em foto de divulgação).

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Que tal reouvir os discos de Elis antes de ver o filme? Selecionei dez. É uma escolha pessoal.

SAMBA, EU CANTO ASSIM

Elis Regina tinha 20 anos quando venceu o festival de MPB com “Arrastão”. O disco, de 1965, marca sua estreia na Philips. Revela uma jovem, porém já grande cantora. Tem “Reza” e “Menino das Laranjas”.

2 NA BOSSA

Da televisão para o disco. Gravado ao vivo, em 1965, traz para o vinil o sucesso da dupla Elis Regina e Jair Rodrigues na tela da TV Record. Mal gravado, mas até hoje irresistível. Começa com um medley que se tornou antológico.

ELA

De 1971. Elis como seria nos anos 1970, diferente daquela da década de 1960. Mais moderna, aqui produzida por Nelson Motta. O grande sucesso foi o samba “Madalena”, de um jovem compositor chamado Ivan Lins.

ELIS

De 1972. Elis já produzida e arranjada pelo pianista César Camargo Mariano, seu segundo marido. Repertório impecável de grandes autores e (hoje) clássicos do nosso cancioneiro. Tem o primeiro registro de Elis para “Águas de Março”.

ELIS

De 1974. Elis e César Camargo Mariano em mais uma das suas parcerias. Um “casamento” musical que redirecionou a carreira dela e redefiniu a sonoridade do seu trabalho. A cantora brilha interpretando Milton Nascimento.

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ELIS & TOM

De 1974. Gravado nos Estados Unidos, traz o encontro de Elis com Antônio Carlos Jobim. As sessões tensas de gravação se transformaram num disco extraordinário. O dueto de Tom e Elis em “Águas de Março” é soberbo.

FALSO BRILHANTE

De 1976. Sucesso no palco, sucesso no disco. Elis no auge da sua potência vocal e da sua força interpretativa. Tem grandes canções de João Bosco e Aldir Blanc e revela em dois números excepcionais o jovem Belchior.

TRANSVERSAL DO TEMPO

De 1978. Registro incompleto e tecnicamente precário de um grande show de Elis. Mesmo assim, indispensável. O Brasil convulsionado dos anos 1970, a cantora no auge do engajamento. Performances arrebatadoras.

ELIS, ESSA MULHER

De 1979. Elis de casa nova, a Warner. Baden, Bosco, Cartola, Joyce – tudo beira a perfeição nos seus registros. Tem um impressionante dueto com Cauby Peixoto. E o samba “O Bêbado e a Equilibrista”, hino da anistia.

SAUDADE DO BRASIL

De 1980. Penúltimo disco de Elis. Álbum duplo que registra em estúdio o roteiro do show homônimo. Depois que o tempo passou, pode ser ouvido como um inventário da maior cantora do Brasil. Tem “Canção da América”.