Mal gravado, mas antológico

CAETANO E CHICO JUNTOS E AO VIVO

Caetano Veloso e Chico Buarque

Cae e Chico

De 1972. Miseravelmente mal gravado, incompleto, adulterado pela ação da censura, mas absolutamente antológico. O disco registra um encontro que parecia improvável cinco anos antes, na época em que muitos viam no jovem Chico Buarque o inverso do Caetano Veloso tropicalista.

O show foi no Teatro Castro Alves, em Salvador, no dia em que o poeta Torquato Neto, importante nome do Tropicalismo, se matou.

Chico canta Caetano (“Janelas Abertas No 2”), Caetano canta Chico (“Partido Alto”), os dois apresentam novidades (“Esse Cara”, “Bárbara”) e voltam ao começo (“Tropicalia”, “A Rita”).

No ponto alto do disco, fundem “Você Não Entende Nada” com “Cotidiano”. Deu tão certo que ninguém consegue mais separá-las.

O Dia do Rock não devia ser 13 de julho. Devia ser hoje. Entenda o motivo

O Dia Mundial do Rock é 13 de julho. Mas não devia. Devia ser hoje, cinco de julho. Você sabe o motivo?

O 13 de julho foi escolhido por causa do Live Aid, evento realizado em 1985.

O cinco de julho seria escolhido porque é o dia em que Elvis Presley inventou o rock. Não é pouco! É?

Foi assim: no dia cinco de julho de 1954, no estúdio da Sun Records, em Memphis, Elvis (aos 19 anos), o guitarrista Scotty Moore e o contrabaixista Bill Black gravaram “That’s All Right, Mama”. Na gravação, promoveram espontaneamente a fusão do R & B dos negros com o country & western dos brancos.

Essa fusão marca a invenção do gênero. Ela é o próprio rock’n’ roll.

Veja e ouça num registro feito mais tarde, em 1968, no célebre especial de Elvis na NBC.

 

Ainda Wesley Safadão. Contra e a favor

Meu post anterior, sobre Wesley Safadão, foi escrito por causa de um artigo de Jamarri Nogueira. Compartilhei no Facebook, e Jamarri comentou. Transcrevo aqui:

“Quero apenas reforçar que Safadão é emblemático de uma indústria cultural que cultua a superficialidade. E esse universo rasteiro – acredito!!! – faz mal à sociedade. Concordamos em um ponto: o tempo é o senhor… Abraço forte! Em tempo: grato por alertar sobre a inversão. Roberto é mesmo o rei…”

Transcrevo também o comentário de Gustavo Limeira:

“Acho que respeitar Safadão é também respeitar seu público (!) e entender que pessoas diferentes têm memórias musicais e afetivas distintas. Destaco ainda que todo o debate em torno do que é ‘música boa’ geralmente tem um enfoque classista e étnico muito forte. Carece ficarmos atentos”.

E Daniel Sousa:

“Só o tempo dirá quem some e quem entra para a galeria dos imortais. Muito mimimi”.

E Francisco Pinto:

“Nunca o ouvi nem pretendo ouvi-lo jamais, daí porque esse é um artista (?) que não me diz respeito nem nunca haverá de me incomodar”.

 

 

Deixem o Safadão cantar em paz! O tempo diz quem vai e quem fica

Terminou a temporada junina. Wesley Safadão esteve em evidência por causa de cachê. Não vou falar disso porque não entendo do que Chico César chamou de “máfia do mercado”. Quero falar do sucesso que o cara faz.

Li no Facebook um artigo do meu querido Jamarri Nogueira. Jamarri lembra que ninguém tem tanta música inserida em nossa memória afetiva como Luiz Gonzaga e, depois, Roberto Carlos (a ordem é inversa: primeiro Roberto Carlos, depois Gonzaga). E diz que jamais Safadão será um Luiz Gonzaga.

Concordo. Claro que Wesley Safadão jamais será um Luiz Gonzaga. Como Zeca Baleiro jamais será um Caetano Veloso. Mas, e daí?

Criminalizar” Safadão, ou quem quer que seja, não me soa nada bem! Lembro de uma extensa lista: Waldick Soriano, Odair José (que virou cult), Luiz Caldas, Beto Barbosa, as duplas sertanejas, Mastruz com Leite e todo o forró de plástico, É o Tchan, Só pra Contrariar e os pagodeiros, Ivete Sangalo e a turma do axé, Michel Teló, Banda Calypso, Anitta, etc. 

Todos já foram execrados. Wesley Safadão é apenas o da vez. Não ouvi, não me interessa, mas ao público dele, sim! E é o que basta.

O tempo sempre acaba dizendo quem vai e quem fica. Por enquanto, deixem o Safadão cantar em paz!

Som Livre relança Geraldo Azevedo com música de “Velho Chico”. Ouça

A gravadora Som Livre relançou o primeiro disco solo de Geraldo Azevedo, que estava fora de catálogo há muitos anos. É nesse disco que está a música “Barcarola do São Francisco”, um dos temas da trilha sonora da novela “Velho Chico”.

O CD se chama “Geraldo Azevedo” e foi lançado originalmente em 1977. Faz parte do conjunto de discos da geração de artistas nordestinos que despontou na década de 1970 (além de Geraldo, Alceu Valença, Zé e Elba Ramalho, Fagner, Belchior e Ednardo).

A reaudição, quase 40 anos mais tarde, confirma que o pernambucano Geraldo Azevedo fez sua estreia em altíssimo nível. Antes, dividira um disco com Alceu Valença e participara do LP com a trilha sonora do filme “A Noite do Espantalho”, de Sérgio Ricardo.

A destacar: as belas e sensíveis melodias compostas por Geraldinho, as letras de Carlos Fernando, a guitarra inconfundível de Robertinho de Recife e a presença, como arranjador, do maestro Radamés Gnatalli.

O ponto alto do disco é a suíte “Correnteza”, composta por três músicas. É nela que está “Barcarola do São Francisco”, que ouvimos com frequência na novela “Velho Chico”. As outras duas são “Caravana” e “Talismã”.

Morte de Cimino faz lembrar dos filmes sobre o Vietnã

A morte, neste sábado (02), do cineasta Michael Cimino, diretor de “O Franco Atirador”, remete aos filmes sobre a guerra do Vietnã. O dele é um dos mais importantes, sem nenhuma dúvida, mas há outros a lembrar.

“Amargo Regresso”, como diz o título, fala dos que voltam da guerra. É um drama muito sensível. Conta a história de um militar (Jon Voight) que volta para casa sem os movimentos da cintura para baixo. Ele se envolve com uma bela mulher (Jane Fonda). A cena de sexo entre os dois está entre os momentos mais fortes do filme de Hal Ashby.

“Apocalypse Now” é um longo e admirável delírio filmado por Francis Ford Coppola. Os soldados americanos são vistos ao som dos Doors e da “Cavalgada das Valquírias”, de Wagner. Um impressionante Marlon Brando, filmado entre sombras, entra em cena no desfecho.

Stanley Kubrick filmou o Vietnã quando o tema já estava fora de moda. Mas “Nascido Para Matar” é um grande filme. Dá a sensação de que são dois filmes. No primeiro, os preparativos para a guerra. No segundo, o front. Escolha o melhor!

Fecho com a lembrança de um documentário: “Corações e Mentes”, de Peter Davis. Foi visto nos cinemas quando a guerra ainda era muito recente. Questiona duramente o papel intervencionista desempenhado pelos Estados Unidos.

 

Hermeto Pascoal é melhor mesmo ao vivo!

MONTREUX JAZZ FESTIVAL

Hermeto Pascoal

Hermeto Mont.

De 1979. Hermeto Pascoal tem ótimos discos de estúdio, mas, como os grandes músicos de jazz, ele é melhor mesmo quando flagrado ao vivo. O álbum duplo com o registro do seu show no Festival de Jazz de Montreux é excepcional.

Hermeto e banda improvisam sobre temas tão nordestinos quanto o seu autor (que nasceu em Alagoas há 80 anos) e criam outros na hora, numa exibição que está à altura dos melhores músicos de jazz do mundo.

No sax, na flauta, nos teclados, o bruxo de Alagoas faz coisas inacreditáveis. Numa escaleta, toca um samba-choro endiabrado, cheio de virtuosismo.

A performance de Hermeto Pascoal na edição de 1979 do Festival de Montreux produziu um dos maiores discos da nossa música instrumental.

Michael Cimino, diretor de “O Franco Atirador”, morre aos 77 anos

O cineasta Michael Cimino morreu neste sábado aos 77 anos. A causa da morte ainda não foi divulgada. Quem deu a notícia foi o diretor do Festival de Cannes, Thierry Fremaux, através do Twitter.

Cimino se projetou internacionalmente em 1978 quando dirigiu “O Franco Atirador”, que ganhou o Oscar de Melhor Filme naquele ano. Seu projeto seguinte, “O Portal do Paraíso” foi um fracasso que praticamente arruinou sua carreira.

“O Franco Atirador” é considerado um dos grandes filmes sobre a guerra do Vietnã. Polêmico, expõe o contraste entre a vida numa cidade americana e a dura realidade da guerra.

Em seu dicionário de cineastas, Jean Tulard diz que “O Franco Atirador” marcou uma etapa na evolução do cinema americano, “um depoimento atulhado de símbolos sobre uma guerra que traumatizou a América”.

 

Coletânea de Paul McCartney (de tão boa) é irresistível!

O mercado de discos está repleto de coletâneas. A qualidade delas muitas vezes depende de um conceito. “O melhor de…” não é o suficiente para tornar atraente uma compilação.

Vejamos o caso de Paul McCartney. Aniversariante de junho (fez 74 anos), o beatle lançou uma caixa com quatro discos (no Brasil, temos a versão simplificada, com dois CDs).

“Pure McCartney” (Universal Music) teve o próprio Paul como curador. O conceito é dele: uma seleção para ouvir no carro durante uma longa viagem, em casa num final de tarde ou numa festa com os amigos.

O conceito é banal. Poderia ser outro: um extenso painel do cancioneiro solo de Paul McCartney montado por ele.

Mas o fato é que “Pure McCartney” desmente um pouco essa tese de conceito. As canções são tão boas que a coletânea se torna irresistível.

Uma das virtudes é que Sir Paul misturou lado A com lado B. Fora da ordem cronológica, canções menos óbvias se fundem aos grandes sucessos numa sequência de 39 números (na edição brasileira). Eles confirmam McCartney como um dos melhores do seu tempo quando o assunto é o artesanato da canção.

E fazem de “Pure McCartney” um excelente songbook.

Alceu Valença, 70 anos. Músico juntou Nordeste com o rock

O compositor pernambucano Alceu Valença, um dos nomes mais importantes da sua geração na MPB, chega aos 70 anos nesta sexta-feira (01/07).

Alceu despontou na primeira metade dos anos 1970, incorporando aos ritmos nordestinos elementos do pop/rock internacional. Essa fusão já havia sido experimentada pelos tropicalistas e reapareceu, lá na frente, no trabalho de Chico Science.

No seu primeiro grande show, em 1975, Alceu Valença era acompanhado pela banda pernambucana Ave Sangria e tinha ao seu lado, no palco, Zé Ramalho e Lula Cortes.

Alceu em João Pessoa 1975

(Na foto, apareço aos 16 anos entrevistando Alceu na passagem do show “Vou Danado pra Catende” por João Pessoa, em abril de 1975)

Mas o sucesso veio um pouco depois: no início da década de 1980, com os discos “Coração Bobo” e, sobretudo, “Cavalo de Pau”.

Fortemente influenciado por Jackson do Pandeiro, Alceu não brilha somente nos estúdios. É também um excelente performer nas apresentações ao vivo. E faz cinema: como ator, dirigido por Sérgio Ricardo, em “A Noite do Espantalho”, e como diretor, no recente “A Luneta do Tempo”.